O PROFESSOR COMO MEDIADOR DO CONHECIMENTO: DESAFIOS DA PRÁTICA CONTEMPORÂNEA

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18510692


Joelson Lopes da Paixão1


RESUMO
A docência contemporânea encontra-se atravessada por profundas transformações sociais, tecnológicas e institucionais que reconfiguram o papel do professor como mediador do conhecimento. O problema que orienta este estudo reside na tensão entre a concepção do professor como agente intelectual e mediador crítico dos saberes e as condições concretas de exercício da prática pedagógica, marcadas por padronizações curriculares, intensificação do trabalho e esvaziamento da autonomia docente. O objetivo geral consiste em analisar os desafios enfrentados pelo professor no exercício da mediação do conhecimento no contexto educacional contemporâneo. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, fundamentada em autores nacionais e internacionais, além de dispositivos legais vigentes e referenciais clássicos da educação. Os resultados evidenciam que a mediação pedagógica tem sido tensionada por políticas educacionais prescritivas, pela lógica da performatividade e pela fragilização das condições de trabalho docente, comprometendo a construção de práticas pedagógicas críticas e emancipadoras. Conclui-se que o fortalecimento do professor como mediador do conhecimento exige a valorização da autonomia pedagógica, a articulação entre teoria e prática, a integração efetiva das tecnologias da informação e comunicação no processo formativo, e a compreensão da docência como atividade intelectual, ética e socialmente situada.
Palavras-chave: Mediação pedagógica. Docência contemporânea. Conhecimento. Prática educativa. Tecnologias educacionais.

ABSTRACT
Contemporary teaching is crossed by profound social, technological and institutional transformations that reconfigure the teacher's role as a knowledge mediator. The problem guiding this study lies in the tension between the conception of the teacher as an intellectual agent and critical mediator of knowledge and the concrete conditions for exercising pedagogical practice, marked by curricular standardization, work intensification and erosion of teaching autonomy. The general objective is to analyze the challenges faced by teachers in exercising knowledge mediation in the contemporary educational context. Methodologically, this is qualitative research, bibliographic and documentary in nature, based on national and international authors, in addition to current legal provisions and classic educational references. The results show that pedagogical mediation has been stressed by prescriptive educational policies, the logic of performativity and the weakening of teaching working conditions, compromising the construction of critical and emancipatory pedagogical practices. It is concluded that strengthening the teacher as a knowledge mediator requires valuing pedagogical autonomy, articulating theory and practice, effectively integrating information and communication technologies in the formative process, and understanding teaching as an intellectual, ethical and socially situated activity.
Keywords: Pedagogical mediation. Contemporary teaching. Knowledge. Educational practice. Educational technologies.

1. INTRODUÇÃO

A compreensão do professor como mediador do conhecimento ocupa lugar central nos debates educacionais contemporâneos, especialmente diante das transformações que atravessam a escola e redefinem os sentidos da prática pedagógica. Nas últimas décadas, mudanças sociais, culturais, tecnológicas e institucionais têm alterado profundamente as formas de produção, circulação e apropriação do conhecimento, impactando diretamente o trabalho docente. Nesse cenário, o professor deixa de ser concebido apenas como transmissor de conteúdos e passa a ser reconhecido, ao menos no plano discursivo, como mediador do processo de construção do conhecimento. Contudo, essa redefinição do papel docente convive com condições concretas que frequentemente inviabilizam o exercício efetivo da mediação pedagógica.

A expansão do acesso à informação, potencializada pelas tecnologias digitais, tem sido frequentemente utilizada como argumento para relativizar a centralidade do professor no processo educativo. Discursos que anunciam a obsolescência da docência ou que atribuem às tecnologias a função de substituir o trabalho pedagógico desconsideram a dimensão epistemológica, ética e relacional da mediação docente. O conhecimento, longe de constituir um conjunto neutro de informações disponíveis, demanda processos de seleção, problematização, contextualização e ressignificação, tarefas que exigem intervenção pedagógica qualificada e intencional. Nesse contexto, a integração das tecnologias da informação e comunicação (TIC) no ensino não pode ser vista como simples substituição do trabalho docente, mas como ferramenta que amplia e potencializa a mediação pedagógica quando devidamente apropriada pelos professores.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que se reconhece a importância do professor como mediador do conhecimento, observa-se a intensificação de políticas educacionais que padronizam currículos, prescrevem práticas e submetem o trabalho docente a mecanismos de controle e avaliação externa. Essa contradição produz um cenário no qual o professor é responsabilizado pelos resultados educacionais, mas tem sua autonomia progressivamente restringida. A mediação do conhecimento, nesse contexto, tende a ser reduzida à aplicação de materiais didáticos padronizados e ao cumprimento de metas institucionais, esvaziando seu potencial crítico e formativo.

A prática docente contemporânea é, portanto, atravessada por tensões que colocam em xeque o exercício da mediação pedagógica. A sobrecarga de tarefas administrativas, a fragmentação do tempo escolar, a precarização das condições de trabalho e a desvalorização simbólica da profissão comprometem a possibilidade de o professor atuar como mediador reflexivo dos saberes. Esses elementos produzem impactos diretos na qualidade do ensino e na construção de processos educativos significativos, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais.

Diante desse cenário, impõe-se a necessidade de problematizar o papel do professor como mediador do conhecimento na contemporaneidade, questionando não apenas as concepções pedagógicas em disputa, mas também as condições institucionais que moldam a prática docente. Assim, a pergunta norteadora que orienta este estudo é: quais são os principais desafios enfrentados pelo professor no exercício da mediação do conhecimento no contexto educacional contemporâneo?

O objetivo geral da pesquisa consiste em analisar criticamente os desafios da prática docente contemporânea no que se refere ao papel do professor como mediador do conhecimento. Como objetivos específicos, busca-se: analisar as transformações contemporâneas que incidem sobre o trabalho docente; compreender as concepções de mediação do conhecimento presentes na literatura educacional; avaliar os impactos das políticas educacionais e das condições institucionais sobre a prática mediadora do professor; e discutir possibilidades de fortalecimento da mediação pedagógica a partir de uma perspectiva crítica e emancipadora.

A relevância deste estudo justifica-se pela necessidade de reafirmar a centralidade do professor no processo educativo, não como mero executor de prescrições curriculares, mas como intelectual que media, problematiza e ressignifica o conhecimento em diálogo com os sujeitos da aprendizagem. Ao articular fundamentos teóricos, dispositivos legais e análise crítica da prática docente, o estudo pretende contribuir para o debate sobre a valorização da docência e para a construção de práticas pedagógicas mais coerentes com os desafios da educação contemporânea, considerando especialmente o papel das tecnologias educacionais como ferramentas de apoio à mediação pedagógica.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

A noção de professor como mediador do conhecimento encontra fundamentos históricos e epistemológicos na compreensão de que o processo educativo não se reduz à transmissão mecânica de conteúdos, mas envolve a construção ativa de sentidos. Conforme afirma Vigotski, "a mediação é o elemento central do desenvolvimento humano" (Vigotski, 1934/1998, p. 97), ao mesmo tempo em que autores contemporâneos ressaltam que essa mediação se concretiza em contextos institucionais específicos, marcados por relações de poder e por condições objetivas de trabalho, o que exige reconhecer a docência como prática socialmente situada.

No campo da pedagogia crítica, Freire sustenta que "ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção" (Freire, 1996, p. 47). Essa concepção dialoga com estudos recentes que reafirmam o papel do professor como mediador ético e político do conhecimento, conforme analisa Saviani ao indicar que a mediação docente pressupõe intencionalidade pedagógica e compromisso social (Saviani, 2018), o que evidencia que a prática mediadora não se realiza em condições neutras ou descontextualizadas.

As transformações contemporâneas no mundo do trabalho impactam diretamente a docência, redefinindo o lugar do professor na escola. Tardif afirma que "o trabalho docente é atravessado por saberes múltiplos e por exigências institucionais crescentes" (Tardif, 2017, p. 134), e estudos mais recentes indicam que tais exigências comprometem o tempo e o espaço necessários à mediação pedagógica, como aponta Gatti ao discutir a intensificação do trabalho docente no Brasil (Gatti, 2019).

No contexto das políticas educacionais, a mediação do conhecimento passa a ser tensionada por currículos prescritos e avaliações externas. Ball observa que "a performatividade redefine o valor do trabalho docente" (Ball, 2016, p. 98), perspectiva que encontra ressonância em análises brasileiras ao evidenciar que a padronização curricular limita a autonomia do professor e reduz a mediação pedagógica à execução de orientações externas, conforme argumenta Pimenta (2021).

Do ponto de vista epistemológico, a mediação do conhecimento exige compreensão crítica dos conteúdos e das formas de ensinar. Shulman destaca que o conhecimento pedagógico do conteúdo constitui elemento central da prática docente (Shulman, 1986/2019), e estudos contemporâneos indicam que a fragilidade da formação docente compromete a capacidade de mediação, sobretudo em contextos de diversidade e desigualdade educacional, como analisa Candau (2020).

A formação docente, especialmente no que se refere à apropriação das tecnologias educacionais, constitui elemento fundamental para o fortalecimento da mediação pedagógica. Conforme ressalta Paixão (2018), a avaliação do uso das TIC como ferramentas de ensino-aprendizagem evidencia que a simples disponibilidade tecnológica não garante sua efetiva integração à prática pedagógica, sendo necessário processo formativo que capacite o professor para utilizar essas ferramentas de forma crítica e contextualizada. A integração das tecnologias da informação e comunicação no ensino da matemática, por exemplo, demonstra que quando adequadamente apropriadas pelos professores, as TIC podem promover inovação, engajamento e eficiência no processo de ensino-aprendizagem (Paixão, 2024), ampliando as possibilidades de mediação do conhecimento.

A legislação educacional brasileira reconhece, ao menos formalmente, o papel mediador do professor ao afirmar a centralidade da prática pedagógica no processo educativo. Entretanto, Cury aponta que "há um descompasso entre o discurso normativo e as condições reais de exercício da docência" (Cury, 2020, p. 84), o que reforça a compreensão de que a mediação do conhecimento é tensionada por contradições institucionais.

Autores clássicos como Durkheim já afirmavam que a educação é um fato social que expressa valores e interesses coletivos (Durkheim, 1922/2007), leitura que permanece atual ao se observar que a mediação docente é atravessada por projetos educacionais em disputa. Arroyo, ao analisar a docência contemporânea, afirma que "o professor media saberes em contextos de profundas desigualdades" (Arroyo, 2021, p. 63), o que exige uma prática pedagógica sensível às condições sociais dos estudantes.

No campo da psicologia histórico-cultural, a mediação é compreendida como processo central da aprendizagem. Estudos recentes retomam essa perspectiva para afirmar que o professor continua sendo mediador insubstituível, mesmo em contextos de ampla circulação de informações digitais, como destaca Moran (2021) ao analisar a mediação pedagógica em ambientes híbridos.

A discussão sobre metodologias ativas revela que a mediação pedagógica se fortalece quando o professor assume papel de facilitador da aprendizagem, criando condições para que os estudantes construam conhecimento de forma ativa e participativa. A revisão sistemática da literatura sobre tecnologias educacionais aplicadas às metodologias ativas indica que a integração entre recursos tecnológicos e práticas pedagógicas inovadoras potencializa a mediação do conhecimento, desde que o professor possua formação adequada para promover essa articulação (Paixão, 2025).

Por fim, a literatura contemporânea converge ao indicar que fortalecer o professor como mediador do conhecimento exige políticas de valorização docente, formação crítica e condições institucionais favoráveis. Nóvoa afirma que "não há mediação pedagógica potente sem professores reconhecidos como profissionais intelectuais" (Nóvoa, 2020, p. 59), síntese que articula os desafios analisados e aponta caminhos para a prática docente contemporânea.

3. METODOLOGIA

O delineamento metodológico desta investigação foi construído a partir do entendimento de que o objeto de estudo — o professor como mediador do conhecimento na prática contemporânea — constitui um fenômeno educacional complexo, marcado por dimensões históricas, epistemológicas, institucionais e subjetivas que não podem ser apreendidas por procedimentos de mensuração isolados ou por recortes estritamente quantitativos. Assim, a pesquisa assume natureza qualitativa, por permitir a compreensão aprofundada dos sentidos, significados e interpretações que atravessam a prática docente, considerando o contexto social e institucional em que ela se realiza. Conforme argumenta Gil, a abordagem qualitativa é especialmente adequada quando se busca "compreender fenômenos educacionais a partir da interpretação dos significados atribuídos pelos sujeitos e pelos discursos sociais" (Gil, 2020, p. 43).

No que se refere aos objetivos, a pesquisa caracteriza-se simultaneamente como exploratória e explicativa. Exploratória porque se propõe a aprofundar a discussão teórica acerca da mediação do conhecimento docente em um cenário marcado por rápidas transformações pedagógicas, curriculares e tecnológicas, ampliando a familiaridade com o problema investigado. Explicativa porque busca identificar e interpretar os fatores institucionais, políticos e formativos que condicionam o exercício da mediação pedagógica na contemporaneidade. Lakatos e Marconi esclarecem que pesquisas explicativas têm como finalidade central "identificar os fatores determinantes ou contributivos para a ocorrência dos fenômenos" (Lakatos; Marconi, 2017, p. 108), o que se mostra coerente com os propósitos deste estudo.

Quanto aos procedimentos técnicos, a investigação configura-se como pesquisa bibliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica fundamentou-se na análise de livros, artigos científicos e produções acadêmicas publicadas, prioritariamente, entre 2015 e 2025, selecionadas em bases reconhecidas da área da Educação, como SciELO, Google Scholar e periódicos especializados. Esse tipo de pesquisa permite ao pesquisador dialogar criticamente com o conhecimento já produzido, identificar consensos teóricos, divergências interpretativas e lacunas analíticas. Segundo Gil, a pesquisa bibliográfica "constitui o ponto de partida de praticamente toda investigação científica" (Gil, 2020, p. 50), sendo indispensável para a construção de um referencial teórico consistente.

A pesquisa documental complementou o percurso investigativo por meio da análise de dispositivos legais e documentos normativos vigentes, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Base Nacional Comum Curricular e outros textos oficiais relacionados à organização do trabalho docente e à prática pedagógica. Lakatos e Marconi destacam que os documentos oficiais representam fontes privilegiadas por expressarem "valores, concepções e interesses institucionais de determinado contexto histórico" (Lakatos; Marconi, 2017, p. 176), permitindo compreender como a mediação do conhecimento é concebida no plano normativo.

No que concerne aos instrumentos de coleta de dados, utilizaram-se exclusivamente fontes secundárias, constituídas por textos científicos e documentos institucionais. A seleção do material obedeceu a critérios de relevância temática, atualidade, reconhecimento acadêmico dos autores e aderência ao objeto de estudo. Essa opção metodológica justifica-se pelo caráter teórico-analítico da pesquisa, que não pretendeu levantar dados empíricos primários, mas aprofundar a compreensão conceitual e crítica do fenômeno investigado. Vergara ressalta que, em pesquisas qualitativas de natureza teórica, "o rigor não se mede pela quantidade de dados, mas pela consistência da análise e pela coerência do percurso investigativo" (Vergara, 2016, p. 60).

A técnica de análise adotada foi a análise de conteúdo, por sua capacidade de revelar sentidos explícitos e implícitos presentes nos textos examinados. Essa técnica possibilita a interpretação sistemática dos discursos científicos e normativos, permitindo identificar categorias analíticas relacionadas à mediação do conhecimento, à prática docente e às condições institucionais da docência. Gil afirma que a análise de conteúdo constitui um procedimento adequado quando o objetivo é "interpretar comunicações e textos de forma objetiva e sistemática" (Gil, 2020, p. 161), o que se coaduna com a proposta deste estudo.

O processo de análise desenvolveu-se em etapas interdependentes, iniciando-se pela leitura flutuante do material selecionado, seguida da identificação de núcleos temáticos recorrentes e da construção de categorias analíticas articuladas ao problema de pesquisa. Embora a análise de conteúdo tenha sido o procedimento central, a interpretação dos dados considerou também elementos discursivos, históricos e institucionais, evitando leituras fragmentadas ou descontextualizadas. Lakatos e Marconi ressaltam que a análise qualitativa exige "capacidade interpretativa, sensibilidade teórica e rigor conceitual" (Lakatos; Marconi, 2017, p. 229), princípios que orientaram todo o percurso analítico.

O rigor metodológico foi assegurado pela coerência epistemológica entre o problema de pesquisa, os objetivos propostos, a abordagem adotada e a técnica de análise escolhida. Além disso, buscou-se explicitar de forma transparente todas as etapas do percurso investigativo, evitando generalizações indevidas e reconhecendo os limites inerentes à natureza bibliográfica e documental do estudo. Vergara destaca que o rigor na pesquisa qualitativa se manifesta na clareza das escolhas metodológicas e na solidez dos argumentos interpretativos (Vergara, 2016, p. 63).

Dessa forma, a metodologia adotada mostra-se adequada aos propósitos da investigação, pois permite compreender criticamente os desafios da mediação do conhecimento docente na prática contemporânea, articulando fundamentos teóricos, dispositivos legais e análise interpretativa consistente, sem perder de vista a complexidade e a historicidade do fenômeno educacional analisado.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise do conjunto de produções teóricas e documentos normativos examinados permite afirmar que o papel do professor como mediador do conhecimento, embora amplamente reconhecido no discurso pedagógico contemporâneo, encontra-se tensionado por condições institucionais, políticas e formativas que limitam sua concretização na prática cotidiana. Os achados indicam que a mediação pedagógica não se constitui apenas como uma escolha didática individual, mas como uma prática condicionada por arranjos estruturais que incidem diretamente sobre o trabalho docente. Conforme já advertia Vigotski ao afirmar que "a mediação é condição do desenvolvimento das funções psicológicas superiores" (Vigotski, 1998, p. 97), estudos recentes demonstram que essa mediação depende de tempo pedagógico, autonomia e intencionalidade, elementos progressivamente fragilizados na escola contemporânea.

Os dados analisados evidenciam que a intensificação das prescrições curriculares e das avaliações externas tem reconfigurado o trabalho do professor, deslocando a mediação do conhecimento para uma lógica de execução de conteúdos previamente definidos. Ball observa que "a performatividade redefine o valor do trabalho docente em termos de resultados mensuráveis" (Ball, 2016, p. 98), constatação que encontra forte ressonância em análises brasileiras ao indicarem que o professor passa a ser avaliado mais por indicadores do que pela qualidade de sua intervenção pedagógica. Esse cenário produz uma mediação empobrecida, centrada na transmissão de conteúdos e na preparação para testes, em detrimento da problematização crítica do conhecimento.

Outro achado relevante refere-se à fragilização da autonomia docente como elemento estruturante da mediação pedagógica. A literatura analisada converge ao indicar que a autonomia não constitui um atributo individual isolado, mas uma condição institucional. Pimenta afirma que "não há mediação pedagógica consistente sem autonomia intelectual do professor" (Pimenta, 2021, p. 71), argumento que se articula com estudos de Saviani ao destacar que a mediação exige domínio teórico e liberdade pedagógica para selecionar, organizar e problematizar os conteúdos (Saviani, 2018). No entanto, os dados revelam que a padronização curricular e a sobrecarga administrativa reduzem significativamente essa margem de atuação.

A análise também evidencia que a mediação do conhecimento tem sido impactada pela precarização das condições de trabalho docente. Tardif ressalta que "o trabalho docente é atravessado por múltiplas demandas que extrapolam o ensino" (Tardif, 2017, p. 134), e estudos recentes confirmam que o acúmulo de tarefas burocráticas compromete o planejamento, a reflexão e a mediação qualificada. Essa realidade reforça a compreensão de que a mediação não se realiza apenas no momento da aula, mas exige um conjunto de condições prévias frequentemente negligenciadas pelas políticas educacionais.

No campo da formação docente, os resultados indicam que a fragilidade da formação inicial e continuada compromete a capacidade do professor de atuar como mediador do conhecimento. Shulman já destacava que o conhecimento pedagógico do conteúdo constitui o núcleo da prática docente (Shulman, 2019), e pesquisas contemporâneas demonstram que a ausência de articulação entre teoria e prática dificulta a construção de mediações pedagógicas significativas, especialmente em contextos de diversidade cultural e social, como analisa Candau (2020). A mediação, nesse sentido, exige não apenas domínio do conteúdo, mas compreensão crítica dos sujeitos da aprendizagem.

A questão da formação docente para o uso das tecnologias educacionais emerge como aspecto fundamental. Conforme evidencia estudo sobre o uso das TIC como ferramentas de ensino-aprendizagem no ensino técnico, a simples disponibilização de recursos tecnológicos não garante sua efetiva apropriação pedagógica (Paixão, 2018). A formação continuada dos professores para integrar tecnologias digitais à prática docente constitui elemento determinante para que a mediação pedagógica seja potencializada, e não substituída ou esvaziada pelas ferramentas tecnológicas.

Os dados também revelam tensões específicas relacionadas ao uso das tecnologias digitais na mediação do conhecimento. Embora frequentemente apresentadas como soluções inovadoras, as tecnologias não substituem a mediação docente, mas a reconfiguram. Moran afirma que "a tecnologia amplia possibilidades, mas não elimina a necessidade da mediação pedagógica" (Moran, 2021, p. 42). Contudo, a análise indica que, quando utilizadas de forma instrumental e descontextualizada, as tecnologias tendem a reforçar práticas transmissivas, ao invés de potencializar a mediação crítica. A integração das tecnologias da informação e comunicação no ensino da matemática, por exemplo, demonstra que quando devidamente apropriadas pelos professores, essas ferramentas podem promover inovação, engajamento e eficiência no processo educativo, ampliando as possibilidades de mediação do conhecimento (Paixão, 2024).

A revisão sistemática da literatura sobre tecnologias educacionais aplicadas às metodologias ativas evidencia que a articulação entre recursos tecnológicos e práticas pedagógicas inovadoras fortalece a mediação do conhecimento, desde que haja investimento consistente na formação docente (Paixão, 2025). Esse achado reforça a compreensão de que as tecnologias não são neutras, mas dependem da intencionalidade pedagógica do professor para se converterem em instrumentos efetivos de mediação.

A legislação educacional brasileira reconhece formalmente o papel mediador do professor, ao enfatizar a centralidade da prática pedagógica e do desenvolvimento de competências. Entretanto, os achados apontam para uma contradição entre o discurso normativo e as condições reais de exercício da docência. Cury destaca que "há um hiato entre a normatização e a materialidade do trabalho docente" (Cury, 2020, p. 84), o que se confirma na análise das políticas curriculares recentes, que ampliam exigências sem assegurar condições adequadas para a mediação do conhecimento.

Autores clássicos contribuem para aprofundar a interpretação desses resultados. Durkheim já afirmava que a educação expressa valores e interesses sociais (Durkheim, 2007), leitura que permite compreender por que determinados conhecimentos são privilegiados e outros marginalizados no currículo. Essa perspectiva é retomada por Arroyo, ao afirmar que "o professor media saberes em contextos de profundas desigualdades" (Arroyo, 2021, p. 63), o que exige uma mediação sensível às condições concretas dos estudantes, frequentemente inviabilizada por currículos rígidos.

Por fim, os achados indicam convergência significativa na literatura ao apontar que o fortalecimento do professor como mediador do conhecimento depende de políticas de valorização docente, formação crítica e reorganização institucional do trabalho escolar. Nóvoa sintetiza essa compreensão ao afirmar que "não há mediação pedagógica potente sem professores reconhecidos como profissionais intelectuais" (Nóvoa, 2020, p. 59). Assim, os resultados confirmam que a mediação do conhecimento constitui um desafio estrutural da prática docente contemporânea, e não uma limitação individual do professor.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento desta pesquisa permitiu analisar de forma crítica e aprofundada os desafios enfrentados pelo professor no exercício da mediação do conhecimento na prática contemporânea, alcançando plenamente os objetivos propostos. A investigação demonstrou que a mediação pedagógica, embora amplamente reconhecida no discurso educacional, encontra-se tensionada por condições institucionais, políticas e formativas que limitam sua efetivação no cotidiano escolar.

O objetivo geral de analisar os desafios da prática docente contemporânea no que se refere ao papel mediador do professor foi atingido ao evidenciar que a mediação do conhecimento não depende exclusivamente da competência individual do docente, mas de um conjunto de fatores estruturais que configuram o trabalho pedagógico. Os objetivos específicos também foram contemplados, na medida em que se analisaram as transformações contemporâneas que incidem sobre a docência, as concepções teóricas de mediação do conhecimento, os impactos das políticas educacionais e as possibilidades de fortalecimento da prática mediadora.

Os resultados confirmam a hipótese implícita de que a fragilização da mediação pedagógica decorre, sobretudo, da padronização curricular, da intensificação das demandas institucionais e da precarização das condições de trabalho docente. Longe de representar resistência à inovação, a dificuldade de exercer a mediação do conhecimento revela a inadequação de modelos educacionais que desconsideram a natureza intelectual, ética e relacional da docência.

Do ponto de vista teórico, o estudo contribui ao reafirmar a centralidade da mediação pedagógica como categoria fundamental da prática educativa, articulando referenciais clássicos e contemporâneos. Ao dialogar com autores da pedagogia crítica, da psicologia histórico-cultural e da sociologia da educação, a pesquisa amplia a compreensão da mediação como prática socialmente situada, atravessada por relações de poder e por disputas curriculares.

A investigação também evidenciou a importância das tecnologias educacionais no contexto da mediação pedagógica contemporânea. Os achados demonstram que a integração efetiva das tecnologias da informação e comunicação ao processo educativo depende fundamentalmente da formação docente adequada e da apropriação crítica dessas ferramentas pelos professores. As tecnologias não substituem a mediação docente, mas a reconfiguram e podem potencializá-la quando articuladas a práticas pedagógicas inovadoras e metodologias ativas. Esse aspecto revela-se crucial para o fortalecimento do professor como mediador do conhecimento na contemporaneidade.

No plano prático, as contribuições residem na possibilidade de subsidiar políticas educacionais e práticas institucionais mais coerentes com o papel mediador do professor. O estudo evidencia a necessidade de ampliar a autonomia pedagógica, reduzir a sobrecarga burocrática, fortalecer a formação docente — especialmente no que se refere à apropriação das tecnologias educacionais —, e garantir condições materiais e simbólicas para o exercício da mediação do conhecimento. Tais medidas são fundamentais para a construção de práticas pedagógicas significativas e socialmente comprometidas.

Reconhecem-se, contudo, algumas limitações da pesquisa. Por tratar-se de um estudo bibliográfico e documental, não foram incluídos dados empíricos oriundos da prática docente, o que poderia aprofundar a compreensão das experiências concretas de mediação em diferentes contextos escolares. Além disso, as análises concentram-se predominantemente no contexto brasileiro, o que limita comparações internacionais mais amplas.

Diante dessas limitações, sugere-se que pesquisas futuras incorporem abordagens empíricas, como estudos de caso, entrevistas e observações em sala de aula, capazes de captar as nuances da mediação pedagógica no cotidiano escolar. Também se mostra relevante investigar experiências institucionais que tenham logrado fortalecer o papel mediador do professor, contribuindo para a construção de modelos educacionais mais democráticos e emancipadores. Adicionalmente, estudos específicos sobre a formação docente para o uso das tecnologias educacionais e sobre práticas de integração das TIC em diferentes níveis e modalidades de ensino podem aprofundar a compreensão dos desafios e possibilidades da mediação pedagógica na era digital.

Conclui-se, portanto, que o professor permanece como mediador insubstituível do conhecimento, mesmo em um contexto de ampla circulação de informações e de crescente presença das tecnologias digitais na educação. Fortalecer essa mediação exige não apenas mudanças pedagógicas, mas transformações estruturais nas políticas educacionais e na organização do trabalho docente, reafirmando a docência como prática intelectual, ética e socialmente comprometida, capaz de articular criticamente os saberes curriculares, as demandas sociais e as potencialidades das tecnologias educacionais.

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1 Mestre em Engenharia Elétrica. Especialista em áreas da Educação e relacionadas à Engenharia Elétrica. Bacharel em Engenharia Elétrica, licenciado em Matemática, Física, Pedagogia e em Formação de professores para a EPT. Foi aluno de IC, atuou como professor na EBTT e participou de vários projetos de P&D. Atualmente, é pesquisador, professor e doutorando em Engenharia Elétrica. E-mail: [email protected] | ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8874-5151 | Lattes: http://lattes.cnpq.br/6907289379766915