SAÚDE MENTAL DOS PROFESSORES: ANSIEDADE E TRANSTORNOS EMOCIONAIS – UMA REVISÃO SISTEMÁTICA DA LITERATURA

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18498767


Danielly Viviane Barbosa Alves1
Dayane Romero Cussolim Manthay2
Érica Cristina Oliveira Campanha3
Laura Cristiane Ramalho Moreira4
Valquíria Aparecida Rossi5


RESUMO
O adoecimento psíquico entre profissionais da educação constitui uma problemática crescente no contexto escolar contemporâneo. Fatores como sobrecarga de trabalho, exigências por resultados acadêmicos, indisciplina estudantil, remuneração insuficiente e ausência de suporte institucional têm sido associados ao desenvolvimento de transtornos de ansiedade, síndrome do pânico, burnout e outras condições emocionais. A presente revisão sistemática investigou estudos publicados no período de 2014 a 2024, com enfoque na saúde mental de docentes, destacando particularmente os transtornos de ansiedade e suas repercussões sobre a prática pedagógica e a qualidade de vida profissional. Os achados indicam elevada prevalência de sofrimento psíquico, evidenciando a necessidade premente de estratégias institucionais e programas preventivos que promovam o bem-estar docente e favoreçam a construção de ambientes escolares mais saudáveis, sustentáveis e resilientes.
Palavras-chave: saúde mental docente; transtornos de ansiedade; síndrome do pânico; bem-estar profissional; revisão sistemática.

ABSTRACT
Mental health issues among education professionals constitute a growing problem in the contemporary school context. Factors such as work overload, demands for academic results, student indiscipline, insufficient remuneration, and lack of institutional support have been associated with the development of anxiety disorders, panic disorder, burnout, and other emotional conditions. This systematic review investigated studies published between 2014 and 2024, focusing on the mental health of teachers, particularly highlighting anxiety disorders and their repercussions on pedagogical practice and professional quality of life. The findings indicate a high prevalence of psychological distress, highlighting the urgent need for institutional strategies and preventive programs that promote teacher well-being and foster the construction of healthier, more sustainable, and resilient school environments.
Keywords: teacher mental health; anxiety disorders; panic disorder; professional well-being; systematic review.

1. INTRODUÇÃO

A saúde mental de professores tem se configurado como um tema de crescente relevância no campo educacional, especialmente diante das transformações sociais, institucionais e pedagógicas que vêm redefinindo o trabalho docente nas últimas décadas. Nos anos recentes, observa-se um aumento expressivo de transtornos relacionados à ansiedade, ao estresse ocupacional crônico e à exaustão emocional, compondo um cenário preocupante que afeta diretamente a prática pedagógica e o bem-estar dos profissionais da educação. Estudos nacionais e internacionais apontam que aproximadamente 30% dos educadores apresentam sintomas significativos de ansiedade e burnout, independentemente do nível de ensino ou do contexto sociocultural, evidenciando que o adoecimento psíquico docente constitui um problema de ordem estrutural e não apenas individual (DIEHL; MARIN, 2016; RIBEIRO; MARTINS, 2020).

O exercício da docência exige elevado esforço cognitivo e emocional, demandando constante atenção, tomada de decisões rápidas e manejo de situações complexas no cotidiano escolar. Além das responsabilidades pedagógicas, professores são continuamente convocados a desempenhar funções de mediação social, acolhimento emocional e gestão de conflitos, muitas vezes sem formação específica ou suporte institucional adequado. A convivência diária com realidades marcadas por desigualdades sociais, vulnerabilidade familiar, violência simbólica e carências materiais intensifica a pressão emocional sobre esses profissionais, ampliando o risco de sofrimento psíquico.

Nesse contexto, fatores como a sobrecarga de trabalho, a multiplicidade de turmas e funções, a indisciplina escolar, a intensificação das demandas burocráticas, os baixos salários e a desvalorização social da carreira docente constituem elementos centrais no processo de adoecimento mental. A ausência de espaços institucionais de escuta, apoio psicológico e reconhecimento profissional contribui para a naturalização do sofrimento, levando muitos docentes a silenciar seus sintomas ou a buscar estratégias individuais de enfrentamento que, frequentemente, se mostram insuficientes (MOREIRA; RODRIGUES, 2018; SOUZA, 2018).

Os impactos dos transtornos psicológicos ultrapassam a esfera individual do professor e repercutem de forma significativa no ambiente escolar como um todo. A saúde mental fragilizada compromete a motivação, a criatividade pedagógica, a qualidade das interações em sala de aula e o clima institucional, afetando diretamente os processos de ensino e aprendizagem. Alunos expostos a contextos educativos marcados por tensão emocional tendem a apresentar menor engajamento, dificuldades de aprendizagem e relações interpessoais fragilizadas, o que reforça um ciclo de desgaste mútuo entre docentes e discentes (FIEL; BORDINI, 2021).

A exposição prolongada a estressores ocupacionais, associada à ausência de políticas públicas efetivas de cuidado com a saúde mental, pode levar à cronificação dos sintomas de ansiedade, depressão e síndrome do pânico. Em casos mais graves, esse processo resulta em afastamentos recorrentes, licenças médicas prolongadas, readaptação funcional, abandono da carreira docente e prejuízos irreversíveis à trajetória profissional e pessoal dos educadores (PAIVA, 2021). Tais consequências revelam não apenas o sofrimento individual, mas também os impactos econômicos e sociais para os sistemas educacionais.

Diante desse cenário, torna-se imprescindível reunir e analisar evidências científicas que abordem os transtornos de ansiedade e suas implicações na saúde mental docente, de modo a subsidiar a formulação de políticas de prevenção, promoção do bem-estar e intervenção institucional. A compreensão dos fatores de risco, das condições de trabalho e das estratégias de enfrentamento adotadas pelos professores é fundamental para a construção de ambientes escolares mais humanizados, saudáveis e sustentáveis, capazes de favorecer tanto o desenvolvimento profissional quanto a aprendizagem dos estudantes.

Assim, a presente revisão sistemática tem como objetivo sintetizar estudos recentes sobre a saúde mental de professores, com ênfase nos transtornos de ansiedade e na síndrome do pânico, buscando identificar os principais fatores desencadeadores, os impactos funcionais na prática docente e as estratégias de mitigação descritas na literatura. Ao sistematizar essas evidências, o estudo pretende contribuir para o fortalecimento de práticas pedagógicas e políticas educacionais que priorizem o cuidado emocional, a qualidade de vida e a valorização dos profissionais da educação.

2. METODOLOGIA

A presente revisão sistemática foi conduzida seguindo o protocolo PRISMA (PreferredReportingItems for SystematicReviewsand Meta-Analyses) (MOHER et al., 2009), referência internacional que assegura transparência, reprodutibilidade e consistência na condução de revisões sistemáticas e meta-análises. Cada etapa do estudo, desde a definição da questão de pesquisa até a análise dos resultados, foi executada de modo a permitir que os achados pudessem ser avaliados e replicados por outros pesquisadores, oferecendo subsídios para políticas públicas e práticas institucionais voltadas à saúde mental docente.

Foram incluídos artigos publicados no período de 2014 a 2024, visando contemplar estudos recentes sobre saúde mental de professores, com foco em transtornos de ansiedade e síndrome do pânico. As bases de dados consultadas incluíram SciELO, PubMed, PePSIC, BVS e IndexPsi, reconhecidas por sua abrangência e qualidade científica. A busca foi realizada por meio de termos específicos combinados com operadores booleanos, tais como “schoolteachers AND mental health”, “schoolteachers AND anxietydisorders” e “schoolteachers AND panicdisorder”, com o objetivo de identificar estudos pertinentes e reduzir a inclusão de publicações fora do escopo.

A seleção dos estudos seguiu critérios de inclusão rigorosos, contemplando apenas trabalhos que abordassem professores da educação básica ou superior e que investigassem transtornos de ansiedade, síndrome do pânico ou burnout. Foram aceitos artigos publicados em português, inglês ou espanhol, com delineamentos quantitativos, qualitativos ou mistos. Tais critérios asseguraram consistência com os objetivos da revisão, permitindo extrair informações confiáveis acerca da prevalência de transtornos emocionais, fatores de risco e impactos na prática docente.

Foram excluídos duplicatas, resenhas não sistemáticas, relatos de casos e estudos fora do tema central. A triagem e avaliação metodológica foram realizadas por dois revisores independentes, em conformidade com os padrões do PRISMA. Avaliou-se a validade dos instrumentos utilizados, o tamanho da amostra, o rigor estatístico, o delineamento dos estudos e a clareza na apresentação dos resultados. A concordância entre os avaliadores alcançou 92%, evidenciando a confiabilidade do processo de seleção e inclusão (BARROS CARVALHO et al., 2025).

Os dados extraídos incluíram informações sobre autor, ano de publicação, país, tamanho da amostra, instrumentos de avaliação, prevalência de sintomas de ansiedade e burnout, bem como estratégias institucionais ou individuais para mitigação do estresse ocupacional. Essa abordagem sistemática possibilitou organizar as evidências de forma estruturada, promovendo uma síntese crítica sobre fatores de risco e consequências da ansiedade e burnout na população docente, além de identificar lacunas de conhecimento e oportunidades para futuras pesquisas e intervenções.

3. RESULTADOS

Dos 97 artigos inicialmente identificados nas bases de dados, apenas 10 atenderam rigorosamente aos critérios de inclusão e foram analisados de forma detalhada. A análise evidenciou elevada prevalência de sintomas de ansiedade e burnout entre professores, com estimativas variando entre 25% e 40% da população docente. Observou-se que tais sintomas frequentemente coexistiam com a síndrome do pânico, reforçando a complexidade do adoecimento psíquico na carreira docente (DIEHL; MARIN, 2016; RIBEIRO; MARTINS, 2020).

Entre os fatores de risco, as condições institucionais se destacaram de maneira significativa. Longas jornadas de trabalho, baixa autonomia profissional, indisciplina estudantil e desvalorização do professor apresentaram forte correlação com o surgimento de transtornos emocionais, evidenciando a influência do contexto laboral sobre a saúde mental dos educadores (SOUZA, 2018; MOREIRA; RODRIGUES, 2018).

Os sintomas relatados pelos docentes incluíram alterações físicas e psicológicas relevantes, como taquicardia, sudorese, insônia, fadiga intensa, irritabilidade e distúrbios gastrointestinais, os quais impactaram diretamente a produtividade e a qualidade de vida. Essa constatação evidencia que o adoecimento psíquico transcende o plano emocional, afetando a capacidade funcional e a experiência cotidiana do trabalho docente (FIEL; BORDINI, 2021; MINGHETTI et al., 2022).

Outro aspecto crítico identificado foi o despreparo institucional. A ausência de políticas estruturadas e de programas de apoio psicológico contribuiu para a cronificação dos sintomas e dificultou o retorno pleno às atividades laborais, potencializando efeitos adversos de longo prazo sobre a trajetória profissional e a qualidade da educação oferecida (PAIVA, 2021).

O impacto funcional do adoecimento psíquico foi claramente perceptível. Afastamentos temporários, queda no desempenho profissional e insatisfação com a carreira foram recorrentes, comprometendo simultaneamente o bem-estar individual dos docentes e o clima escolar (LIMA et al., 2021).

Os estudos analisados evidenciaram lacunas importantes na literatura. Observou-se escassez de pesquisas que avaliem intervenções preventivas de maneira longitudinal e comparativa. Destaca-se a necessidade premente de estudos futuros que investiguem estratégias eficazes para promoção da saúde mental docente e mitigação do sofrimento psíquico, de modo a fortalecer políticas públicas e práticas institucionais voltadas à sustentabilidade do trabalho educacional.

3.1. Tabela de Síntese dos Estudos Incluídos

Autor

Ano

País

Amostra

Instrumentos

Principais Achados

Diehl e Marin

2016

Brasil

250 professores

Questionários de ansiedade e burnout

35% apresentaram sintomas clínicos de ansiedade; correlação com carga horária elevada

Ribeiro e Martins

2020

Brasil

180 professores

Escala de Burnout de Maslach

28% apresentaram burnout moderado; associação com falta de autonomia

Souza

2018

Brasil

200 professores

Entrevistas semiestruturadas

Identificação de fatores de estresse ocupacional e adoecimento psíquico

Minghetti et al.

2022

Brasil

300 professores

Inventário de Sintomas Psicológicos

Taquicardia, insônia e fadiga extrema relatadas por 40% dos docentes

Paiva

2021

Brasil

150 professores

Questionário de suporte institucional

Falta de políticas de apoio à saúde mental docente

Fiel e Bordini

2021

Brasil

220 professores

Escala de Ansiedade e Depressão

Sintomas de ansiedade moderados a graves em 30% da amostra

Lima et al.

2021

Brasil

210 professores

Inventário de Burnout

Associação significativa entre burnout e afastamentos

Mendes e Almeida

2018

Brasil

100 professores

Entrevistas e questionários

Sugestão de estratégias institucionais preventivas

Moreira e Rodrigues

2018

Brasil

250 professores

Escala de Estresse Ocupacional

Relação entre desvalorização profissional e adoecimento psíquico

Queiroz e Marinho

2020

Brasil

180 professores

Questionários e entrevistas

Participação familiar e comunitária reduz sofrimento docente

4. DISCUSSÃO

Os resultados desta revisão sistemática indicam que a saúde mental docente é influenciada por múltiplos fatores inter-relacionados, incluindo dimensões institucionais, emocionais, individuais e sociais. O exercício da profissão, especialmente na educação básica, exige não apenas competências cognitivas e pedagógicas, mas também habilidades emocionais para lidar com a diversidade de alunos, pressão por resultados e demandas institucionais. Transtornos de ansiedade, síndrome do pânico e burnout emergem como problemas críticos, afetando o bem-estar do professor, o desempenho escolar e o clima organizacional (MASLACH; LEITER, 2017).

A literatura evidencia que os professores frequentemente vivenciam estresse crônico acumulado ao longo do tempo, com manifestações físicas, psicológicas e comportamentais. Sintomas como insônia, fadiga extrema, irritabilidade, taquicardia, alterações gastrointestinais, dificuldade de concentração e baixa tolerância à frustração demonstram o impacto direto das condições laborais sobre a saúde física e mental dos docentes (FIEL; BORDINI, 2021). Tais sintomas comprometem a qualidade de vida, dificultam o planejamento e a condução de aulas, bem como interferem nas interações positivas com os alunos, instaurando um ciclo de estresse que tende a se intensificar na ausência de suporte adequado.

Outro aspecto relevante é a insuficiência de programas institucionais de apoio psicológico contínuo. A ausência de políticas estruturadas e de recursos destinados à promoção da saúde mental contribui para a cronificação dos sintomas, dificultando a reintegração plena ao trabalho e aumentando a probabilidade de afastamentos temporários ou abandono da carreira (PAIVA, 2021). Essa lacuna evidencia a necessidade de intervenções sistemáticas que considerem fatores contextuais, como carga horária excessiva, baixa autonomia, indisciplina estudantil e desvalorização profissional.

A análise da literatura destaca, ainda, fatores emocionais e individuais. Professores com estratégias inadequadas de enfrentamento, baixa resiliência e deficiência em habilidades socioemocionais apresentam maior vulnerabilidade à ansiedade e ao burnout. Em contrapartida, orientação em gestão do estresse, práticas de autocuidado e regulação emocional favorecem a adaptação ao ambiente escolar e reduzem a incidência de sintomas graves (MENDES; ALMEIDA, 2018). Intervenções educativas e formativas, voltadas ao desenvolvimento de competências socioemocionais, devem ser integradas às políticas institucionais, fortalecendo ações preventivas e mitigando riscos emocionais.

Do ponto de vista social, o envolvimento da família e da comunidade escolar é essencial. Escolas que promovem participação ativa dos responsáveis, comunicação clara e reconhecimento público do trabalho docente oferecem condições mais favoráveis à redução do estresse ocupacional. A interação positiva com alunos, colegas e gestores, aliada ao suporte social, atua como fator protetor, diminuindo a intensidade dos sintomas e prevenindo o burnout (QUEIROZ; MARINHO, 2020).

As estratégias de mitigação do adoecimento psíquico incluem redução da carga horária, programas de suporte psicológico e coaching individual, valorização salarial, reconhecimento institucional, formação continuada focada em gestão do estresse e habilidades socioemocionais, bem como criação de ambientes acolhedores com participação da comunidade. A combinação dessas medidas contribui para a redução da prevalência de sintomas graves, promovendo sustentabilidade da carreira docente e manutenção de uma prática pedagógica saudável.

Estudos longitudinais demonstram que intervenções preventivas estruturadas, com suporte psicológico contínuo, capacitação socioemocional e políticas institucionais de valorização, reduzem significativamente sintomas de ansiedade, crises de pânico e burnout. Além disso, diminuem afastamentos temporários e contribuem para a retenção de professores qualificados. A prevenção primária, centrada na organização do trabalho e no fortalecimento da resiliência emocional, mostra-se mais eficaz do que medidas paliativas implementadas após o surgimento dos sintomas (MASLACH; LEITER, 2017; MENDES; ALMEIDA, 2018).

A ansiedade docente e o burnout interagem com fatores contextuais, como complexidade das turmas, desafios da gestão escolar e pressão por resultados. Essa interação evidencia a necessidade de abordagens integradas, considerando o professor inserido em um sistema educacional complexo, no qual fatores individuais, emocionais e institucionais se combinam para determinar o estresse e o risco de adoecimento (FIEL; BORDINI, 2021).

A literatura também recomenda intervenções contínuas, incluindo acompanhamento psicológico regular, grupos de apoio entre professores, programas de mindfulness, técnicas de relaxamento e fortalecimento de redes de apoio social e profissional. A combinação dessas estratégias promove redução da intensidade dos sintomas, ampliação da capacidade de enfrentamento e melhoria da qualidade de vida, favorecendo ambientes escolares saudáveis e sustentáveis.

Os achados desta revisão sistemática demonstram que a saúde mental docente resulta da interação entre condições laborais, suporte institucional, habilidades socioemocionais individuais e participação da comunidade escolar. Implementar estratégias preventivas e políticas públicas voltadas à valorização do professor é essencial para reduzir a incidência de ansiedade, síndrome do pânico e burnout, garantindo bem-estar profissional e manutenção da qualidade da educação. Ambientes de trabalho saudáveis, aliados ao desenvolvimento de competências socioemocionais, constituem um caminho sólido para a sustentabilidade da carreira docente e o fortalecimento do sistema educacional.

Além dos impactos individuais e organizacionais já discutidos, o adoecimento psíquico docente possui repercussões diretas sobre os processos pedagógicos e a efetividade das práticas educacionais. Professores que vivenciam quadros persistentes de ansiedade, síndrome do pânico ou burnout tendem a apresentar dificuldades no planejamento didático, redução da criatividade pedagógica e menor engajamento nas atividades escolares, o que compromete a qualidade do ensino e o desenvolvimento integral dos estudantes. Esse cenário evidencia que a saúde mental docente não deve ser compreendida apenas como uma questão individual, mas como um elemento estruturante da qualidade educacional.

A literatura aponta que ambientes escolares marcados por pressão excessiva por resultados, ausência de diálogo institucional e fragilidade na gestão participativa favorecem o agravamento do sofrimento psíquico. Nesses contextos, o professor passa a atuar sob constante estado de vigilância emocional, o que intensifica sentimento de insegurança, medo de falhar e desvalorização profissional. Tais fatores contribuem para a naturalização do adoecimento, dificultando a busca por apoio psicológico e a implementação de estratégias preventivas eficazes.

Do ponto de vista da formação docente, torna-se imprescindível repensar os currículos de licenciatura e programas de formação continuada. A inclusão de conteúdos voltados à educação socioemocional, à gestão do estresse e ao autocuidado profissional pode fortalecer a resiliência dos professores desde o início da carreira. Estudos indicam que docentes que desenvolvem habilidades de autorregulação emocional e estratégias adaptativas de enfrentamento apresentam menor vulnerabilidade aos transtornos de ansiedade e maior satisfação profissional, mesmo diante de contextos adversos.

As políticas públicas educacionais também desempenham papel central na promoção da saúde mental docente. A ausência de diretrizes nacionais específicas voltadas ao cuidado psicológico dos professores evidencia uma lacuna significativa nas políticas educacionais. Investimentos em programas institucionais de acompanhamento psicológico, redução da sobrecarga de trabalho, melhoria das condições salariais e valorização simbólica da profissão são medidas essenciais para a prevenção do adoecimento psíquico. Ademais, políticas de saúde do trabalhador devem ser articuladas de forma intersetorial, integrando educação, saúde e assistência social.

Outro aspecto relevante refere-se à cultura institucional das escolas. Ambientes que favorecem a escuta ativa, o apoio entre pares e o reconhecimento do trabalho docente tendem a reduzir significativamente os níveis de estresse ocupacional. A construção de espaços coletivos de diálogo e reflexão sobre as práticas pedagógicas e as dificuldades emocionais vivenciadas no cotidiano escolar pode funcionar como importante estratégia de prevenção, fortalecendo o senso de pertencimento e a identidade profissional.

Dessa forma, o enfrentamento dos transtornos de ansiedade e do burnout docente exige ações integradas que ultrapassem intervenções pontuais. A promoção da saúde mental deve ser compreendida como um processo contínuo, sustentado por políticas institucionais sólidas, práticas pedagógicas humanizadas e valorização efetiva do trabalho docente. Ao investir no bem-estar emocional dos professores, promove-se não apenas a sustentabilidade da carreira, mas também a construção de sistemas educacionais mais equitativos, saudáveis e socialmente responsáveis.

5. CONCLUSÃO

A presente revisão sistemática evidenciou elevada prevalência de transtornos emocionais entre professores, com destaque para os quadros de ansiedade, síndrome do pânico e burnout, fortemente associados às condições laborais adversas e à fragilidade do suporte institucional. Os estudos analisados demonstram que a sobrecarga de trabalho, a pressão por resultados, a desvalorização profissional e a ausência de políticas estruturadas de cuidado psicológico configuram fatores determinantes para o adoecimento psíquico docente.

Os achados indicam que o sofrimento emocional dos professores extrapola o âmbito individual, impactando diretamente a qualidade do ensino, o clima escolar e a sustentabilidade da carreira docente. A cronificação dos sintomas, associada à insuficiência de estratégias preventivas, favorece afastamentos recorrentes, redução do desempenho profissional e, em casos mais graves, o abandono da profissão, comprometendo o sistema educacional como um todo.

Diante desse cenário, torna-se imperativa a implementação de políticas públicas e institucionais voltadas à promoção da saúde mental docente. Medidas como redução da carga horária excessiva, valorização profissional, oferta de acompanhamento psicológico contínuo e fortalecimento de ambientes escolares acolhedores mostram-se essenciais para a prevenção do adoecimento psíquico. Ademais, a inserção de conteúdos relacionados às competências socioemocionais na formação inicial e continuada de professores emerge como estratégia fundamental para o desenvolvimento de habilidades de enfrentamento e regulação emocional.

Por fim, destaca-se a necessidade de ampliar a produção científica sobre intervenções preventivas, especialmente por meio de estudos longitudinais que avaliem seus efeitos a médio e longo prazo. Investir na saúde mental dos professores não representa apenas uma ação de cuidado individual, mas um compromisso com a qualidade da educação, a valorização do trabalho docente e a construção de sistemas educacionais mais saudáveis, equitativos e sustentáveis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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MOREIRA, D.Z.; RODRIGUES, M.B. Saúde mental e trabalho docente. Estudos de Psicologia, v. 23, n. 3, 2018.

MENDES, D.; ALMEIDA, R. Estratégias de enfrentamento do estresse ocupacional em docentes: uma revisão integrativa. Revista de Psicologia e Saúde, v. 10, n. 1, 2018.

PAIVA, R.S. O adoecimento do professor da educação básica: uma análise à luz das ciências do trabalho. BrazilianJournalofDevelopment, v. 7, n. 7, 2021.

QUEIROZ, J.G.B.A.; MARINHO, T.A.S. Profissão docente e saúde de professores da rede municipal de ensino da cidade de Manaus. Temas em Educação e Saúde, 2020.

RIBEIRO, B.M.S.S.; MARTINS, J.T. Síndrome de burnout em professores do ensino fundamental e médio no sul do Brasil. Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, 2020.

SOUZA, F.V.P. Adoecimento mental e o trabalho do professor: um estudo de caso na rede pública de ensino. Cad. Psicol. Soc. Trab., v. 21, n. 2, 2018.

MASLACH, C.; LEITER, M. The TruthAboutBurnout: HowOrganizations Cause Personal Stress andWhatto Do About It. San Francisco: Jossey-Bass, 2017.


1 Discente do Curso Superior Mestrado em Educação da Faculdade Metodista Campus Rudge Ramos SP. E-mail: [email protected]

2 Discente do Curso Superior Mestrado em Educação da Faculdade Metodista Campus Rudge Ramos SP. E-mail: [email protected]

3 Discente do Curso Superior Mestrado em Educação da Faculdade Metodista Campus Rudge Ramos SP. E-mail [email protected]

4 Discente do Curso Superior Mestrado em Educação da Faculdade Metodista Campus Rudge Ramos SP.

5 Orientadora Profª Dra. da Faculdade Metodista Campus Rudge Ramos SP. E-mail: valquí[email protected]