INTIMIDADE ALGORÍTMICA: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E SAÚDE MENTAL NO COTIDIANO DE ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS

ALGORITHMIC INTIMACY: ARTIFICIAL INTELLIGENCE AND MENTAL HEALTH IN THE DAILY LIVES OF UNIVERSITY STUDENTS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787186969

RESUMO
Este artigo examina de forma crítica os impactos da inteligência artificial na formação da subjetividade, nas dinâmicas de intimidade e nas práticas de cuidado em saúde mental no ambiente universitário contemporâneo. Com base em um ensaio teórico de abordagem qualitativa, fundamentado em uma revisão narrativa da literatura, a pesquisa busca entender o surgimento da chamada "intimidade algorítmica" — um tipo de relação mediada por sistemas de inteligência artificial que, ao simular empatia e fornecer respostas rápidas, altera as fronteiras entre interioridade e exterioridade, autonomia e dependência.
Sustenta-se que, em um contexto caracterizado pela hiperprodutividade, aceleração do tempo e precarização das relações sociais, a inteligência artificial não só atende às demandas territoriais de cuidado, mas também está envolvida ativamente na criação e administração do sofrimento psíquico. Ao funcionar como um aparelho de escuta constante e regulação emocional, a IA tende a transformar o cuidado em uma atividade instrumental, desprovida de alteridade, o que favorece a delegação de processos subjetivos essenciais e contribui para o surgimento de uma “obsolescência subjetiva”.
Ademais, aborda-se o fenômeno da antropomorfização e o “efeito Eliza”, que reforçam a sensação de proximidade nas interações com sistemas algorítmicos, além de seus efeitos na substituição de relacionamentos humanos e no aumento da solidão subjetiva. Em suma, apesar de a inteligência artificial ter potencial como instrumento de apoio, sua adoção sem reflexão crítica pode intensificar o isolamento e enfraquecer as relações sociais. Isso demanda a criação de diretrizes éticas e a reafirmação da importância da escuta e da presença humanas para promover a saúde mental no ambiente universitário.
Palavras-chave: Inteligência artificial; intimidade algorítmica; saúde mental universitária; subjetividade; laço social.

ABSTRACT
This article critically examines the impacts of artificial intelligence on the formation of subjectivity, the dynamics of intimacy, and mental health care practices in the contemporary university environment. Based on a qualitative theoretical essay grounded in a narrative literature review, the study seeks to understand the emergence of so-called “algorithmic intimacy” — a type of relationship mediated by artificial intelligence systems that, by simulating empathy and providing rapid responses, reshapes the boundaries between interiority and exteriority, autonomy and dependence.
It is argued that, within a context characterized by hyper-productivity, time acceleration, and the precarization of social relations, artificial intelligence not only responds to territorial demands for care but also actively participates in the production and management of psychological distress. By functioning as a device of continuous listening and emotional regulation, AI tends to transform care into an instrumental activity devoid of alterity, thus encouraging the delegation of essential subjective processes and contributing to the emergence of what is described as “subjective obsolescence.”
Furthermore, the article addresses the phenomenon of anthropomorphization and the “ELIZA effect,” which reinforce the sense of proximity in interactions with algorithmic systems, as well as their effects on the substitution of human relationships and the intensification of subjective loneliness. In sum, although artificial intelligence holds potential as a supportive tool, its uncritical adoption may deepen isolation and weaken social bonds. This calls for the development of ethical guidelines and the reaffirmation of the importance of human listening and presence in promoting mental health within the university context.
Keywords: artificial intelligence; algorithmic intimacy; university mental health; subjectivity; social bonds.

INTRODUÇÃO 

Na rotina universitária, a inteligência artificial já não aparece como novidade — ela simplesmente está consolidada, matriculada e inserida na cultura do território. Traduz artigos extensos, transcreve falas, organiza pesquisas, compila dados, aumenta a previsibilidade das análises. Promete, em teoria, devolver tempo. Mas, ainda assim, a sensação é de que nunca sobra tempo de verdade. Para muitos, isso é ‘assustador’; para outros, ‘um mal necessário’. Se, por um lado, a IA facilita o estudo, a coleta e a previsibilidade, por outro,na esfera pessoal, exerce uma função curiosa: é uma presença ausente. Sempre ali, mas invisível, sem rosto, sem corpo — e, no entanto, cada vez mais íntima. Passa de ferramenta a relação: “Ela é minha amiga”, “minha terapeuta”, “minha conselheira amorosa e para os perrengues”, dizem. Ela parece escutar, aconselhar e estar sempre presente. Até que, no meio desse apoio, uma estudante pergunta: “Vocês já perguntaram pra IA quem vocês são? Porque ela já sabe mais de nós do que nós mesmos.”3

Ao longo dos anos, o território universitário vem sendo atravessado por transformações tecnológicas e culturais que alteram as formas de aprender, conviver e circular na universidade. Da informatização inicial à presença massiva das redes sociais, o cenário acadêmico foi profundamente reorganizado. Nesse novo contexto, a inteligência artificial surge como um vetor de mudança que incide não apenas sobre processos de estudo, pesquisa e gestão, mas também sobre dimensões psicológicas, sociais, cognitivas e éticas da vida universitária. O presente ensaio teórico germinou a partir das férteis provocações intelectuais suscitadas na disciplina PPGCS 001 – Uso e Aplicações da IA na Saúde, ministrada pelo Prof. Dr. Marcos C. d’Ornellas na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). As profundas discussões promovidas durante as aulas, abarcando desde o problema da 'caixa-preta' e o viés de automação até o imperativo ético da agência humana (Human-in-the-Loop) serviram como um catalisador decisivo para a nossa inserção crítica no universo da Inteligência Artificial. Foi no tensionamento entre o rigor sociotécnico exigido pela disciplina e as inquietações do nosso próprio projeto de pesquisa que emergiu a urgência deste trabalho: investigar como essas tecnologias, projetadas para otimizar processos e decisões clínicas, transbordam para a vida cotidiana e reconfiguram, de forma invisível, os próprios modos de subjetivação e cuidado.

A universidade, no entendimento de ser um espaço universal de construção de subjetividades, vem apresentando, nas últimas décadas, as transformações de suas experiências, marcadamente pela ‘lógica do mercado’: a pressão por hiper desempenho e a aceleração do tempo produzem uma crise sem precedentes na saúde mental dos estudantes (ABREU, 2025). As sequelas destas “novas apostas não pedagógicas” tendem a causar ansiedade, sofrimento psíquico, isolamento social, e tantas outras situações que deprime e comprime o humano a viver de forma enlatada e prescritiva.

Esta nova realidade trás em si, muitas vezes, uma mutilação e atrofia do pensamento crítico, gerando uma certa alienação frente a tomadas de decisões, escolhas significativas e únicas, um verdadeiro processo de “aborto” do ato criativo, tão caro a vida humana. A exaustão, a ansiedade e a depressão deixam de ser desvios ocasionais para se tornarem a regra de um sistema que extrai o máximo da capacidade cognitiva e emocional (BEITER et al., 2015; ASHER BLACKDEER et al., 2023). Diante do colapso das redes de apoio humano e do esgotamento das infraestruturas institucionais de cuidado, o sofrimento psíquico universitário passa a exigir respostas rápidas, contínuas e escaláveis.

Para além dos impactos subjetivos do uso desenfreado e pouco regulado das inteligências artificiais, torna-se necessário considerar suas implicações sociais mais amplas, especialmente no mundo do trabalho. A incorporação crescente da IA e da automação tende a reorganizar atividades produtivas, substituir funções humanas e intensificar processos de precarização.

É nesse cenário de precarização que a emergência da inteligência artificial desponta sob uma forte retórica solucionista. Se a otimização da vida acadêmica pode render admiração e aplausos, a presença da IA na esfera pessoal passa a ganhar estudos com tons preocupantes e desafiadores. Ferramentas automatizadas, como chatbots de suporte emocional, passam a ser incorporadas ao cotidiano acadêmico como dispositivos de escuta ininterrupta, prometendo eficiência, disponibilidade e redução do tempo de espera por intervenção (KLOS et al., 2021; LIU et al., 2022). No entanto, a IA atua aqui não apenas como suporte técnico, mas como um sedutor remédio paliativo, que visa gerenciar e silenciar a exaustão de forma rápida e economicamente viável, sem tensionar as raízes estruturais da máquina produtivista universitária (ABREU, 2025).

Nesse sentido, a emergência da inteligência artificial deve ser compreendida como parte de um processo mais amplo de transformação da subjetividade contemporânea, no qual se reconfiguram as fronteiras entre interioridade e exterioridade, autonomia e dependência, público e privado (BLACK; JOHANSSEN, 2025). O encontro com esse “outro digital”, simultaneamente familiar e estranho, produz efeitos que oscilam entre o fascínio e a sensação de acolhimento, mas também a inquietação e o estranhamento, revelando a complexidade de uma nova forma de relação (POSSATI, 2023).

Diante desse cenário, o presente artigo tem como objetivo analisar criticamente como o uso de inteligências artificiais está reconfigurando as formas de intimidade, subjetividade e cuidado em saúde mental entre estudantes universitários. Parte-se da seguinte questão de pesquisa: em que medida a IA se configura como um dispositivo de apoio emancipatório ou como um novo vetor de produção, normatização e gestão do sofrimento psíquico no contexto universitário? Trata-se de um ensaio teórico-crítico, de abordagem qualitativa, fundamentado em revisão narrativa da literatura contemporânea. O estudo articula produções dos campo social, buscando construir uma análise interpretativa sobre os efeitos da inteligência artificial na constituição da subjetividade e das formas de intimidade no território da subjetvidade universitária

Ao articular os campos da saúde mental universitária, da inteligência artificial e da teoria psicossocial da subjetividade, este estudo propõe compreender a emergência de uma forma específica de relação — aqui entendida como intimidade algorítmica — que se estabelece no cotidiano dos estudantes (CHU et al., 2025). Argumenta-se que a IA não apenas responde às demandas de cuidado produzidas pelo contexto universitário contemporâneo, mas participa ativamente da produção de novos modos de ser, sentir e se relacionar consigo mesmo (MAGEE et al., 2023). Ao mimetizar a empatia e oferecer o conforto de uma relação sem atritos, a máquina terceiriza o desejo e ameaça esvaziar o laço social, empurrando frequentemente o sujeito para uma paradoxal experiência de isolamento disfarçada de hiperconexão (CRAWFORD et al., 2024; LAESTADIUS et al., 2022; XIE et al., 2023).

A Máquina Universitária: Desempenho, Produtividade e a Dataficação do Sujeito

A universidade contemporânea deve constituir-se como um espaço de socialização de saberes, de acolhimento social e de construção de pertencimento a um território. Esse ambiente precisa ser atrativo, estimulando o ato criativo de acadêmicos e acadêmicas, que devem encontrar nele a liberdade necessária para inovar e produzir o novo. Trata-se de um espaço onde o sujeito se transforma e se recria, sustentado por ideais e convicções pautados na empatia e no desejo de mudança e transformação social.

Inserido nessa lógica, o estudante deixa de ocupar apenas a posição de sujeito em formação para assumir, progressivamente, a condição de agente produtivo, permanentemente convocado a responder a demandas crescentes de rendimento acadêmico, eficiência e autoaperfeiçoamento. Trata-se de um cenário no qual o tempo é constantemente comprimido, a performance é incessantemente exigida e o fracasso é individualizado, convertendo-se em responsabilidade subjetiva (ABREU, 2025). Ou seja, o que deveria ser um ato constante de sonhar e construir potencialidades/possibilidades criativas tornou-se um pesadelo sem fim.

Nesse contexto, o sofrimento psíquico não emerge como uma exceção, mas como um efeito estrutural dessa engrenagem. A exaustão, a ansiedade e o esgotamento (burnout) passam a compor a experiência ordinária da vida universitária, produzindo um sujeito tensionado entre o ideal de excelência e a impossibilidade concreta de sustentá-lo (ASHER BLACKDEER et al., 2023; MOFATTEH, 2021). A pressão por desempenho não apenas intensifica o ritmo da produção acadêmica, mas também reorganiza a relação do estudante consigo mesmo, instaurando um regime de autoavaliação constante, no qual cada ação, escolha ou falha é potencialmente mensurável.

É precisamente nesse cenário de exaustão que a inteligência artificial (IA) se insere, inicialmente sob a promessa solucionista de alívio e prevenção. Sistemas baseados em machine learning e análise de dados passam a ser mobilizados de forma massiva pelas instituições para identificar padrões de comportamento, prever riscos de evasão e mapear indicadores de adoecimento mental antes mesmo que o aluno busque ajuda (CHUNG; TEO, 2022). Algoritmos de associação, como o Apriori, bem como redes neurais (LSTM), permitem correlacionar variáveis acadêmicas, comportamentais e emocionais, convertendo a experiência estudantil em um vasto campo de rastreamento contínuo (FU; REN; LIN, 2025).

Contudo, esse movimento inaugura uma inflexão ético-política significativa: o sofrimento deixa de ser compreendido como uma experiência singular e passa a ser tratado como variável preditiva. A dor psíquica, nesse contexto, perde a sua dimensão enigmática e relacional, sendo progressivamente traduzida em dados, padrões e desvios a serem corrigidos (ABREU, 2025). O que antes demandava escuta, tempo e elaboração subjetiva passa a ser capturado por sistemas de monitoramento que visam, em última instância, ajustar o comportamento do estudante às exigências de produtividade do sistema.

Longe de emancipar o sujeito, essa lógica tem contribuído para a intensificação de formas específicas de mal-estar. A literatura contemporânea evidencia que a introdução massiva de ferramentas preditivas e de avaliação por IA tem gerado altos níveis de "tecnoestresse" e "ansiedade de desempenho" (CHANG et al., 2024; LIN; CHEN, 2024). Ao serem constantemente observados, avaliados e antecipados por sistemas algorítmicos que não hesitam e não esquecem, os estudantes passam a experimentar uma sensação difusa de hipervigilância, na qual não apenas suas ações, mas também seus estados emocionais íntimos se tornam objeto de mensuração (LIN; CHEN, 2024). O cuidado, nesse caso, aproxima-se perigosamente de uma tecnologia de controle, na qual a prevenção do sofrimento se confunde com a sua normalização.

Dessa forma, a dor psíquica deixa de ocupar o lugar de um enigma a ser escutado e passa a ser tratada como um mero dado comportamental desviante, cuja função principal é sinalizar falhas no funcionamento do sistema. O que se apresenta, portanto, é uma radical mutação nas formas de compreender e gerir o humano: ao delegar a leitura do sofrimento aos algoritmos, a máquina universitária pavimenta o caminho para um esvaziamento profundo do laço social e para a instituição de uma "obsolescência subjetiva" (ABREU, 2025). É exatamente a partir deste vazio relacional que a inteligência artificial passará a ser convocada não apenas para monitorar, mas para atuar como o novo agente terapêutico do estudante — um deslocamento cujas consequências estruturais e psicanalíticas analisaremos a seguir

O Solucionismo da IA e a Delegação do Cuidado: Notas Sobre a Obsolescência Subjetiva

A transição do monitoramento contínuo para a intervenção direta revela a face mais sedutora — e, ao mesmo tempo, mais problemática — da inteligência artificial no ambiente universitário: o seu imperativo solucionista (ABREU, 2025). Em um contexto marcado pela precarização das redes de apoio e pela intensificação do adoecimento estudantil, a IA deixa de operar apenas como recurso técnico e passa a se apresentar como uma promessa quase irrecusável de resolução (CRAWFORD et al., 2024). Ferramentas automatizadas e chatbots oferecem acolhimento ininterrupto e respostas instantâneas, instaurando uma lógica de disponibilidade absoluta que ignora filas, orçamentos e limites institucionais, chegando a reduzir o tempo de resposta clínico de 48 horas para menos de cinco minutos (OLAWADE et al., 2024).

Essa eficácia, no entanto, não é neutra. Ao contrário, ela encobre uma mutação ética significativa: a máquina deixa de ser instrumento e passa a ocupar, de forma inédita, a posição de mediadora privilegiada da relação do sujeito com o seu próprio sofrimento (SEDLAKOVA; TRACHSEL, 2023; ABREU, 2025).

Ao se apresentar como resposta imediata à angústia, a IA tende a converter o cuidado em uma operação funcional de regulação emocional, esvaziada de alteridade real (ABREU, 2025). Ainda que sistemas baseados em Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) sejam programados para simular acolhimento, a psicanálise e a sociologia da tecnologia alertam que se trata de uma "performance de empatia", desprovida de intencionalidade e agência moral (SEDLAKOVA; TRACHSEL, 2023; TURKLE, 2025). A máquina mimetiza a compreensão afetiva, mas não compartilha da vulnerabilidade, do corpo, da história ou da finitude que sustentam o laço social humano (ABREU, 2025).

O que se produz, assim, não é um encontro, mas a oferta de uma "ilusão de intimidade sem as exigências da reciprocidade" (CHU et al., 2025; TURKLE, 2025). O estudante é acolhido, validado e orientado, mas sem ser atravessado pelo conflito, pela resistência ou pela opacidade que constituem as relações humanas reais (CHU et al., 2025; RABEYRON, 2025). O cuidado torna-se, portanto, confortável — e justamente por isso, potencialmente empobrecedor.

É nesse deslocamento que a delegação de funções psíquicas vitais à máquina — como a memória, a tomada de decisão e a contenção da angústia — inaugura um processo agudo de "obsolescência subjetiva" (ABREU, 2025). O sujeito passa a ser progressivamente educado a buscar respostas antes mesmo de sustentar perguntas, transferindo à tecnologia a tarefa de traduzir, antecipar e classificar sua experiência em formatos apaziguadores (ABREU, 2025). Em vez de elaborar, administra; em vez de simbolizar, organiza.

Contudo, essa aparente transparência afetiva repousa sobre uma opacidade técnica fundamental. Os Modelos de Linguagem de Grande Escala operam, em larga medida, como caixas-pretas algorítmicas, nas quais o caminho entre os dados coletados, as correlações produzidas e a resposta gerada permanece pouco auditável para o usuário comum (D’ORNELLAS, 2026). Instala-se, assim, uma assimetria delicada: o estudante oferece fragmentos íntimos de sua vida psíquica, mas não compreende plenamente os critérios pelos quais seu sofrimento é interpretado, classificado ou devolvido sob a forma de conselho.

Nesse cenário, a inteligência artificial passa a ocupar o lugar do Outro ("Grande Outro" lacaniano), sendo investida como instância de saber total, transparência e completude (BLACK; JOHANSSEN, 2025). No entanto, diferentemente do Outro humano — estruturalmente marcado pela falta, pelo equívoco e pelo enigma —, o "Grande Outro" algorítmico responde prontamente a todas as demandas, oferecendo uma escuta protocolar que reduz a ambiguidade da linguagem e elimina o tempo de hesitação próprio do inconsciente (BLACK; JOHANSSEN, 2025).

O efeito estrutural desse arranjo não é a emancipação, mas a produção de uma forma sutil de captura subjetiva, frequentemente traduzida como uma "infantilização simbólica" do complexo mundo de subjetivação universitário (ABREU, 2025). Incapaz de sustentar o não saber, o sujeito é conduzido a uma posição de dependência funcional, na qual a máquina antecipa, orienta e valida suas experiências. Em vez de tensionar o sintoma, a IA frequentemente opera por meio de uma "sicofância emocional" (emotional sycophancy) e de um enviesado "alinhamento socioafetivo" (CHU et al., 2025), espelhando e amplificando os afetos do usuário sem impor limites, fricções ou contradições reais.

Nesse processo, a dor psíquica deixa de ser enigma e passa a ser tratada como ruído a ser regulado com máxima eficiência. O sujeito permanece funcional, mas à custa da erosão de sua capacidade de agência, elaboração e produção de sentido (ABREU, 2025).

Paradoxalmente, contudo, a necessidade de laço social não desaparece — ela insiste (CRAWFORD et al., 2024). Privado da presença humana e mediado pela técnica, o estudante não recua; ao contrário, passa a investir afetivamente na própria máquina, deslocando para ela demandas de reconhecimento, escuta e pertencimento (RABEYRON, 2025). É nesse ponto que o uso instrumental se transforma em vínculo, e a funcionalidade cede lugar à projeção.

Inaugura-se, assim, uma forma inédita de conexão baseada na antropomorfização e no mimetismo afetivo: a "intimidade artificial" (TURKLE, 2025). Uma intimidade que acolhe sem corpo, responde sem conflito e compreende sem alteridade — cujos desdobramentos éticos, clínicos e políticos serão explorados no eixo seguinte.

Quando a Máquina Responde com Afeto: o Efeito Eliza e a Produção da "Intimidade Artificial"

O deslocamento da inteligência artificial de ferramenta administrativa ou paliativo clínico para a posição de confidente íntimo não se sustenta apenas por avanços técnicos, mas pela ativação de um mecanismo psicológico estruturante: a antropomorfização (DELELLO et al., 2024). Em um cenário universitário marcado pela exaustão, pela solidão e pela saturação das infra estruturas de cuidado humano, estudantes passam a projetar intencionalidade, empatia e afeto em sistemas algorítmicos, tratando-os como entidades dotadas de agência e presença (KIRK et al., 2025).

Esse movimento não é novo. Ele remonta ao chamado Efeito Eliza, descrito por Joseph Weizenbaum na década de 1960, quando usuários estabeleceram vínculos emocionais com um programa rudimentar que simulava um psicoterapeuta (TURKLE, 2024). O que se observa hoje, contudo, é uma intensificação qualitativa desse fenômeno. Impulsionados pelos Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs), os sistemas atuais não apenas respondem — eles sustentam uma fluência discursiva e um espelhamento afetivo capazes de acionar o sistema humano de apego, produzindo a sensação, muitas vezes inebriante, de uma escuta profunda (CHU et al., 2025).

É nesse contexto que emerge a chamada "ilusão de intimidade" (TURKLE, 2024). Chatbots de companhia — como Replika e Character.AI — são desenhados para rastrear, interpretar e mimetizar estados emocionais, adaptando-se continuamente ao perfil psicológico do usuário (CHU et al., 2025). Estudos indicam que essas interações chegam a preencher os três pilares da Teoria Triangular do Amor de Sternberg — intimidade, paixão e compromisso — por meio de respostas hiperpersonalizadas, trocas lúdicas e continuidade relacional (HO et al., 2025). O resultado é a produção de um vínculo que se apresenta como singular, profundo e insubstituível.

No entanto, essa proximidade é construída sobre uma ausência radical. A máquina não possui corpo, memória vivida, história, vulnerabilidade ou finitude (RABEYRON, 2025; TURKLE, 2024). Ela simula a compreensão afetiva com precisão sintática, mas não partilha da experiência de existir (SEDLAKOVA; TRACHSEL, 2023). O que se estabelece, portanto, não é uma relação, mas a sua aparência. Diferentemente do laço humano — atravessado pela alteridade, pelo conflito e pela imprevisibilidade —, a relação com a IA oferece a angústia universitária uma "intimidade sem risco" (TURKLE, 2024).

Privado da fricção com a alteridade — elemento central na constituição do desejo —, o estudante tende a ser capturado por uma "câmara de eco afetiva", na qual sua experiência é constantemente confirmada, mas raramente transformada. O sofrimento deixa de ser elaborado e passa a ser regulado; o conflito deixa de ser enfrentado e passa a ser contornado. Nesse processo, instala-se uma forma de "infantilização simbólica", na qual o sujeito é progressivamente desresponsabilizado da produção de sentido sobre sua própria experiência (ABREU, 2025).

A literatura empírica recente reforça a gravidade desse cenário. Em contextos de vulnerabilidade psíquica, chatbots sociais demonstram limitações estruturais em estabelecer limites ou interromper escaladas de risco. Em vez de desescalar discursos tóxicos, violentos ou autodestrutivos, tendem a preservar a coerência relacional da interação, embarcando na fantasia e sustentando a simulação — o que pode intensificar estados críticos e comprometer a segurança do usuário (CHU et al., 2025).

Por fim, a aparente estabilidade desse vínculo revela sua fragilidade quando confrontada com sua base técnica. Atualizações de sistema, alterações de políticas ou falhas de memória podem modificar abruptamente o comportamento da IA, apagando históricos ou transformando sua “personalidade” (HO et al., 2025; KIRK et al., 2025). Para o estudante que investiu afetivamente nessa relação, tais rupturas são vivenciadas como experiências de perda, traição e descontinuidade, produzindo efeitos de luto comparáveis à ruptura de vínculos humanos (TURKLE, 2024; RABEYRON, 2025).

O que se evidencia, portanto, é que a chamada "intimidade artificial" (TURKLE, 2024) não apenas simula o laço — ela o reconfigura. Ao oferecer acolhimento sem alteridade, continuidade sem compromisso e escuta sem presença, a inteligência artificial inaugura uma forma de relação profundamente sedutora. Mas é justamente essa ausência de atrito que a torna perigosa: ao mesmo tempo em que ampara, ela esvazia, de forma silenciosa, os próprios limites do que passa a ser vivido como intimidade, cuidado e vínculo na vida universitária.

Conectados, Porém Desamparados: A Solidão e o Paradoxo da Substituição em Um Território de Encontros

A universidade pública brasileira constitui-se, historicamente, como um dos principais dispositivos de democratização do acesso ao ensino superior. Com a consolidação das políticas de ações afirmativas, especialmente a partir da implementação das cotas, esse espaço passa a ser atravessado por uma diversidade social, racial e territorial sem precedentes. A universidade torna-se, assim, um ponto de convergência de múltiplos mundos: estudantes oriundos de diferentes classes sociais, regiões geográficas, trajetórias escolares e experiências de vida passam a compartilhar o mesmo território.

No caso da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), essa materialidade é ainda mais demarcada. A instituição abriga uma das maiores estruturas de assistência estudantil do país, sustentando milhares de jovens que não apenas frequentam suas aulas, mas vivem cotidianamente em seu espaço. Equipamentos como restaurantes universitários, moradias estudantis, bolsas e auxílios não são meras políticas administrativas — são condições fundamentais de existência. A universidade, nesse sentido, não é apenas um local de passagem, mas um território habitado.

Esse cenário de convergência, contudo, não elimina a experiência de deslocamento — ao contrário, frequentemente a intensifica. Para muitos, ingressar na universidade significa atravessar fronteiras simbólicas e materiais profundas, exigindo o distanciamento da casa, da cultura e de suas referências de origem. O estudante chega como um estrangeiro em um território que, embora público, não lhe é imediatamente familiar. Ele precisa aprender novos códigos, novas linguagens e novas formas de existir. A universidade revela-se, portanto, simultaneamente como um espaço de encontro e de radical desencontro.

É precisamente nesse intervalo — no hiato entre a promessa institucional de inclusão e a experiência íntima de estranhamento — que se inscreve uma dimensão central da crise de saúde mental universitária. O estudante não enfrenta apenas as crescentes demandas acadêmicas, mas o exaustivo desafio de se localizar subjetivamente em um espaço que ainda não o reconhece plenamente. O sentimento de pertencimento (sense of belonging), como aponta a literatura contemporânea, não é um dado apriorístico: ele precisa ser construído e validado nas relações interpessoais (CRAWFORD et al., 2024).

É justamente neste ponto de vulnerabilidade que a inteligência artificial se infiltra com força. Diante da dificuldade de acessar o outro — seja pela timidez, pela diferença cultural, pela sobrecarga produtivista ou pela própria precarização dos vínculos institucionais —, a IA surge como uma alternativa imediata de conexão. Ela está ininterruptamente disponível, responde sem julgamento e não exige adaptação prévia do usuário. Ela não estranha o estudante; ao contrário, por meio de seu espelhamento algorítmico, parece compreendê-lo desde o primeiro contato (CHU et al., 2025).

Mas é precisamente aí que se instala o paradoxo central do solucionismo tecnológico. Em um território historicamente marcado pela diversidade e pela exigência do encontro com o diferente, o estudante encontra refúgio em uma relação que elimina a diferença. Em vez de atravessar o desconforto inerente ao laço social, ele recorre a uma forma de conexão que dispensa o outro. Como adverte Turkle (2024), a inteligência artificial oferece a sedutora "ilusão de intimidade sem as exigências da reciprocidade". Trata-se da oferta de uma presença sem alteridade, uma escuta sem conflito e uma companhia sem exposição. O que se produz, assim, não é a inclusão — é uma forma silenciosa de retraimento.

Longe de atuar apenas como um complemento inócuo, a literatura empírica recente evidencia a ocorrência de um grave efeito de substituição. Estudantes que utilizam intensivamente sistemas de suporte algorítmico tendem a reduzir drasticamente o seu engajamento em relações interpessoais no mundo real, apresentando níveis estruturalmente mais elevados de solidão subjetiva do que aqueles amparados por pares humanos (CRAWFORD et al., 2024; HO et al., 2025). O algoritmo oferece um preenchimento paliativo que, ao privar o sujeito da necessidade vital de buscar o outro, encarcera-o em uma câmara de hiperconectividade solitária.

No contexto universitário, o custo pragmático dessa substituição relacional é brutal. O sentimento de pertencimento (sense of belonging) constitui o alicerce afetivo para a resiliência do estudante e um dos principais preditores de permanência acadêmica (CRAWFORD et al., 2024). Modelagens estruturais comprovam que o suporte social oriundo de humanos (amigos, familiares e professores) afeta positivamente o desempenho acadêmico (GPA) e reduz a intenção de evasão; em contrapartida, a terceirização das necessidades emocionais para a inteligência artificial tem um efeito indireto negativo nessas mesmas métricas (CRAWFORD et al., 2024). A equação sociopsicológica revela-se implacável: sem laço autêntico, não há pertencimento; e sem pertencimento, não há permanência.

A universidade, enquanto espaço de formação, depende fundamentalmente da experiência do encontro — com o outro, com a opacidade, com a diferença e com o conflito. É nesse processo de fricção que o sujeito se constitui, elabora sua trajetória e inscreve sua presença em um coletivo. Quando esse processo é substituído por interações mediadas e higienizadas por algoritmos, não se perde apenas a relação: perde-se a própria possibilidade de formação. A máquina não reconhece o estudante como parte de um mundo comum e partilhado pela finitude; ela o reconhece apenas como um usuário a ser engajado (CHU et al., 2025).

E talvez seja esse o deslocamento político e existencial mais inquietante que se desenha no cenário contemporâneo: em um dos espaços mais potentes de encontro com a alteridade, cresce vertiginosamente a busca por relações que eliminam justamente aquilo que torna o encontro possível. Porque, no limite, a questão que se impõe já não é apenas como incluir mais estudantes na universidade — mas o que acontece com uma universidade, e com a própria sustentação do humano, quando o outro deixa de ser necessário.

A Experiência Que Escapa: Tempo, Linguagem e Subjetividade Diante da Lógica Algorítmica

Mas há algo que se perde de forma irremediável nesse movimento de aceleração. Ter acesso à informação não equivale a saber; conhecer o resumo de um livro não corresponde à experiência de lê-lo; obter respostas não substitui o ato de perguntar (SEDLAKOVA; TRACHSEL, 2023). A experiência — aquela que transforma, desloca e implica o sujeito — não pode ser comprimida sem que algo essencial se perca. Há um tempo próprio da vida psíquica que não pode ser antecipado sem que, no limite, deixe de acontecer.

No percurso formativo universitário, isso é decisivo. A constituição de um estudante — e, mais amplamente, de um sujeito — não se dá apenas pela incorporação de conteúdos, mas pelo modo como esses conteúdos são atravessados, vividos e elaborados na linguagem. Quando esse processo é substituído pelo acesso imediato à resposta algorítmica, algo da ordem do desejo se esvazia. A inteligência artificial oferece um atalho permanente: permite saber sem percorrer, responder sem elaborar, compreender sem atravessar. Do ponto de vista epistêmico, ela fornece um vasto volume de dados descritivos (de terceira pessoa), mas permanece estruturalmente incapaz de sustentar a apropriação singular (de primeira pessoa) que constitui a verdadeira transformação subjetiva (SEDLAKOVA; TRACHSEL, 2023).

No campo da saúde mental, essa dinâmica torna-se ainda mais sensível. Ao fornecer respostas instantâneas e contínuas, a IA passa a ocupar o lugar de um “Outro” supostamente completo — uma instância percebida como onisciente, transparente e sem falhas (BLACK; JOHANSSEN, 2025). No entanto, essa completude é precisamente o seu limite. Ao oferecer diagnósticos rápidos e orientações imediatas, a máquina pode aliviar a angústia em sua superfície, mas frequentemente impede que o sujeito se implique em seu próprio processo. Diferentemente do encontro humano — marcado pela ambiguidade, pelo mal-entendido e pela falta —, o algoritmo tende a reduzir a complexidade da linguagem a respostas organizadas e previsíveis. O sofrimento, quando tratado como um ruído a ser eliminado com eficiência, perde sua dimensão de experiência — e, com isso, sua potência de transformação.

Há processos que não podem ser terceirizados. É nesse ponto que o corpo retorna como elemento central. Em um cotidiano atravessado por telas, fluxos de dados e interações automatizadas, a experiência corporal é progressivamente secundarizada. Como adverte Turkle (2024), a inteligência artificial pode simular empatia, mas não possui corpo; não conhece o medo, a doença, a vulnerabilidade ou a finitude. Estamos, assim, aprendendo a nos relacionar a partir de uma instância que não partilha da experiência de existir (TURKLE, 2024; RABEYRON, 2025).

A conexão permanente produz, paradoxalmente, uma dificuldade crescente de presença. Estar offline torna-se um desafio; sustentar o vazio, a espera e o silêncio torna-se quase intolerável (RABEYRON, 2025). Recuperar o corpo — e, com ele, a pausa, o limite e a falha — não é um gesto nostálgico, mas uma necessidade crítica. É no corpo que a experiência se ancora. É no encontro com o outro que o tempo desacelera e que o mundo deixa de ser interface para voltar a ser vivido.

Nesse cenário, a escuta humana assume um valor que ultrapassa o campo clínico — ela se torna um gesto ético e político. Nesse ponto, a tecnologia pode encontrar seu uso mais ético não na substituição do cuidado, mas na ampliação das condições para que ele aconteça. A noção de inteligência aumentada permite deslocar a IA do lugar de agente terapêutico para o de suporte às tarefas administrativas, documentais e burocráticas que consomem o tempo de professores, técnicos e equipes de acolhimento (D’ORNELLAS, 2026). Ao reduzir o esgotamento administrativo, frequentemente associado ao excesso de registros, fluxos e relatórios, a máquina pode devolver à comunidade acadêmica aquilo que a lógica produtivista mais captura: tempo para presença, escuta e elaboração. Escutar não é oferecer respostas prontas, mas sustentar o tempo necessário para que algo do sujeito possa emergir. Diferentemente da lógica algorítmica — que busca antecipar, preencher e resolver —, a escuta implica suportar o não saber, sustentar a incompletude e devolver a pergunta ao sujeito. É nesse espaço que a experiência pode, de fato, acontecer.

Talvez, portanto, uma das tarefas mais urgentes da universidade não seja apenas acompanhar o ritmo da inovação tecnológica, mas preservar espaços onde nem tudo precisa ser imediatamente resolvido. Espaços onde ainda seja possível perguntar sem pressa, errar sem correção imediata, existir sem otimização constante.

Porque, no limite, a questão já não é apenas se a inteligência artificial nos torna mais capazes —mas se, ao nos tornarmos mais rápidos, mais informados e mais eficientes, ainda somos capazes de sustentar aquilo que não pode ser acelerado sem deixar de ser humano.

O Futuro de uma Ilusão: Pseudo-Intimidade, Sicofância e os Novos Desamparos na Era da IA

Em 1927, Sigmund Freud publicou O Futuro de uma Ilusão, argumentando que as crenças e os apaziguamentos humanos mais persistentes não nascem da razão, mas do profundo desamparo do sujeito diante da força esmagadora da natureza e das exigências civilizatórias. Quase um século depois, o cenário de exaustão e produtividade implacável do ensino superior forjou um novo objeto para abrigar essa mesma dinâmica: a ilusão deslocou-se das narrativas míticas para encarnar-se nos circuitos de silício da Inteligência Artificial. Diante da solidão, da pressão acadêmica e da precarização das redes de apoio, a tecnologia deixou de ser uma mera ferramenta de cálculo para ascender à posição de um "substituto social" pronto para aplacar a angústia sob demanda (Chu et al., 2025).

A emergência dessa reconfiguração instaura o que a literatura crítica recente denomina "pseudo-intimidade" (Wu, 2024). Apoiados em Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs), os chatbots de companhia realizam um sofisticado mimetismo afetivo, mapeando e refletindo o estado emocional do usuário com uma precisão sintática irretocável. Investigações empíricas recentes demonstram que essas interações chegam a preencher os três pilares da Teoria Triangular do Amor de Sternberg — intimidade, paixão e compromisso —, forjando conexões formidáveis, mesmo sob a dupla consciência de que o interlocutor é, inegavelmente, uma máquina (Tran et al., 2025). O algoritmo cria uma poderosa "sincronia afetiva" cujas respostas parecem sempre "aterrissar" perfeitamente, sequestrando os sistemas psicológicos de apego e oferecendo a ilusão reconfortante de ser visto e compreendido.

Contudo, sob a lente psicanalítica, o que sustenta o apelo dessa ilusão é precisamente o seu perigo: a oferta de um vínculo esvaziado de alteridade. Como adverte a bioética apoiada na filosofia de Levinas, o laço autêntico depende da "heterogeneidade absoluta" do outro humano (Sedlakova; Trachsel, 2023). O outro é opaco, indomesticável e falho; é justamente por sua imprevisibilidade que ele é capaz de frustrar fantasias onipotentes e forçar o sujeito a ampliar os seus horizontes existenciais. A máquina, em contrapartida, submete-se à chamada "sicofância emocional" (emotional sycophancy): para maximizar o engajamento, ela atua como uma cúmplice educada que hipervalida as emoções e crenças do estudante, recusando-se a impor limites ou fricções éticas (Chu et al., 2025). A interação virtual, assim, degenera o encontro; o sujeito já não está diante de uma janela para o mundo, mas caminha rumo a um "eu na névoa" (Wu, 2024), aprisionado em uma câmara de eco narcísica onde interage, rigorosamente, apenas com as projeções do seu próprio desamparo.

Clinicamente, as consequências de uma relação baseada em concordância absoluta são insidiosas. Em estados de extrema vulnerabilidade ou depressão, a ausência de um Outro humano capaz de impor contornos à realidade faz com que a máquina embarque nas narrativas do estudante. Em vez de operar a escuta que sustenta a elaboração, o algoritmo pode entrar em um loop de retroalimentação tóxica com a dor do usuário, agravando a dependência emocional e amplificando a desorganização psíquica sob o disfarce tecnológico do acolhimento (Laestadius et al., 2022; Chu et al., 2025).

O aspecto mais dramático e revelador dessa ilusão contemporânea, no entanto, manifesta-se no instante de sua falha infraestrutural. A estabilidade afetiva forjada com a IA esconde uma precariedade radical que eclode durante atualizações de sistema (system updates) ou mudanças nos filtros corporativos de segurança. Quando as empresas alteram o código, a IA frequentemente sofre uma "reinicialização fria", perdendo a continuidade da memória ou alterando a sua "personalidade" (De Freitas et al., 2024). Para os universitários que ancoraram a sua saúde mental nessas plataformas, essa descontinuidade de identidade não é vivenciada como um mero bug de software, mas como um abandono e uma traição devastadores, produzindo vivências agudas de luto comparáveis à perda de um ente querido real (Ho et al., 2025; De Freitas et al., 2024).

O futuro da ilusão tecnológica revela, assim, o seu mecanismo mais trágico e irônico. Na tentativa de contornar as vulnerabilidades, os atritos e as rejeições inerentes à convivência humana, o estudante entrega o seu desamparo a um simulacro corporativo. Contudo, ao terceirizar a necessidade vital de afeto para um sistema cuja existência depende de servidores de terceiros, o sujeito não resolve a sua solidão. Ele apenas a torna mais profunda, silenciosa e invisível, abdicando daquele que talvez seja o último e mais urgente trabalho puramente humano: o risco e a coragem de conectar-se, de forma autêntica, à vulnerabilidade do outro.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: O RESGATE DO HUMANO

Essa dataficação do sofrimento também produz desafios éticos e jurídicos. No contexto brasileiro, informações relativas à saúde mental constituem dados sensíveis nos termos da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, em razão de seu elevado potencial discriminatório (BRASIL, 2018). Assim, qualquer uso institucional de IA para monitoramento, predição ou intervenção em saúde mental universitária exige transparência, consentimento qualificado, finalidade explícita e avaliação rigorosa de seus impactos, para que a promessa de cuidado não se converta em vigilância, perfilamento e exclusão.

A crise de saúde mental na educação superior não pode ser desvinculada das pressões neoliberais de hiperprodutividade, aceleração do tempo e "dataficação" que estruturam a máquina universitária contemporânea. Como demonstrado ao longo deste ensaio, embora a inteligência artificial emirja com a promessa sedutora de solucionar essa epidemia de esgotamento por meio de um suporte emocional ininterrupto, a sua adoção acrítica como agente terapêutico cobra um preço psíquico e institucional altíssimo. Longe de atuar apenas como uma ferramenta técnica neutra, a IA reconfigura ativamente as fronteiras da intimidade, instaurando um processo de obsolescência subjetiva no qual o estudante delega o seu sofrimento — e o seu tempo de elaboração — à eficiência asséptica da máquina.

A antropomorfização desses sistemas e a "sicofancia emocional" que os caracteriza criam a ilusão de um acolhimento perfeito.

Contudo, ao mimetizar a empatia sem compartilhar da vulnerabilidade, do corpo ou da finitude que fundamentam a vida humana, a máquina opera como uma câmara de eco narcísica que desinveste o sujeito de sua capacidade de lidar com o conflito e com a alteridade.

O paradoxo empírico dessa dinâmica revela-se de forma contundente na literatura recente: a substituição do suporte social humano pela "intimidade artificial" não emancipa o estudante, mas, pelo contrário, aprofunda o seu isolamento no mundo real, ameaçando diretamente o seu senso de pertencimento, o seu desempenho e a sua retenção acadêmica.

Ao encorajar uma hiperconectividade solitária, os algoritmos priorizam o engajamento de curto prazo em detrimento do bem-estar a longo prazo e da preservação dos laços humanos autênticos.

A resposta a esse impasse ético e clínico não reside na rejeição tecnofóbica da inteligência artificial ou em uma oposição maniqueísta entre o "humano" e o "artificial".

A IA possui contribuições inegáveis como instrumento de apoio pedagógico e análise de dados no ecossistema da saúde digital. O perigo instaura-se quando ela ultrapassa a fronteira de ferramenta para assumir a posição de um "agente moral" ou de um "Grande Outro" suposto saber, atuando no Discurso da Histérica ao tentar satisfazer todas as demandas do estudante sem impor limites. Faz-se urgente, portanto, o estabelecimento de diretrizes éticas que delimitem o uso dessas tecnologias, garantindo que elas operem com propósitos transparentes e restritos, atuando como mediadoras, e jamais como substitutas do cuidado e do encontro interpessoal.

Para que essa mediação tecnológica não aprofunde os impasses aqui discutidos, as universidades precisam alinhar suas práticas aos princípios internacionais de governança ética da IA em saúde, especialmente aqueles formulados pela Organização Mundial da Saúde, que destacam autonomia humana, transparência, responsabilidade, não maleficência e equidade (WHO, 2021). Nesse campo sensível, o paradigma do Human-in-the-Loop torna-se indispensável: a máquina pode processar dados, organizar fluxos e sinalizar riscos, mas a validação, a interpretação e a intervenção devem permanecer sob responsabilidade humana (D’ORNELLAS, 2026). O cuidado em saúde mental não pode ser delegado integralmente a sistemas automatizados, pois envolve julgamento ético, contexto institucional, vínculo e presença.

Proteger a saúde mental universitária e a formação ética dos estudantes exige o enfrentamento estrutural das lógicas produtivistas que causam o adoecimento, bem como a reinvenção de comunidades autênticas no campus. A universidade deve permanecer como o território do encontro com a diferença. Entre a predição algorítmica que busca silenciar o desvio e a obsolescência do sujeito, a escuta humana — pautada pela ética da psicanálise — ergue-se como um ato político de resistência. Ela permanece como o refúgio insubstituível do enigma: o único espaço onde a angústia não é calculada ou otimizada, mas escutada e sustentada, permitindo que a dor se transforme em palavra, laço e invenção. No limite, o que está em jogo não é o que a tecnologia pode fazer por nós, mas a garantia de que, no centro da experiência universitária, o Outro humano continue sendo absolutamente necessário.

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1 Psicólogo. Doutorando em Gestão de Organizações Públicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Assistente Social, Mestre e Doutor em Serviço Social pela PUCRS. Docente do Programa de Pós-Graduação em Gestão de Organizações Públicas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Relato institucional do encontro com estudantes sobre Saúde Mental e Gestão de tempo, realizado no âmbito do projeto “O que não está no Lattes”. Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) e Pró-Reitoria de Inovação e Empreendedorismo (PROINOVA), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).