EMANCIPAÇÃO DA MULHER NA DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA ANGOLANA: DESAFIOS E POSSIBILIDADES EM ENSINO DA MATEMÁTICA NO INSTITUTO SUPERIOR DE CIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO ISCED- UÍGE

WOMEN'S EMANCIPATION IN ANGOLAN UNIVERSITY TEACHING: CHALLENGES AND POSSIBILITIES IN MATHEMATICS EDUCATION AT THE HIGHER INSTITUTE OF EDUCATIONAL SCIENCES (ISCED) – UÍGE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787188979

RESUMO
O estudo sobre emancipação da mulher na docência universitária angolana, desafios e possibilidades em ensino da matemática no ISCED-Uíge é fundamental para toda mulher que queira singrar na carreira docente em ensino desta disciplina. A participação das mulheres na docência universitária em Matemática constitui um desafio para o ensino superior angolano, especialmente em contextos onde sua representatividade permanece reduzida/apagada. Nesse cenário, o objetivo do estudo consiste em analisar o processo de formação inicial nesse curso, suas contribuições para a emancipação acadêmica, profissional e social das mulheres, bem como desafios e possibilidades que permeiam esse processo. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, utilizando o estudo de caso como estratégia metodológica. Os procedimentos de investigação compreendem a revisão da literatura, análise documental (Projeto Pedagógico do Curso, matriz curricular, planos de ensino e demais documentos institucionais), além da realização de entrevistas semiestruturadas com licenciandas concluintes, professores e responsáveis do curso. Os dados são analisados com base no conteúdo, possibilitando a identificação de categorias relacionadas à formação docente, equidade de gênero e emancipação feminina. Os resultados evidenciam que a formação inicial das futuras professoras de Matemática enfrenta um enorme desafio acadêmico, profissional e social por meio de fatores institucionais, pedagógicos, culturais e sociais que potencializam e algumas vezes limitam esse processo. Conclui-se que a investigação oferece subsídios para o fortalecimento das práticas formativas e para a promoção da equidade de gênero na formação inicial de professoras de Matemática, contribuindo para o debate sobre Educação Matemática e ensino superior em Angola.
Palavras-chave: Docência universitária em Matemática; Emacipação da mulher angolana; Desafios e possibilidades.

ABSTRACT
The study on the emancipation of women in Angolan university teaching—specifically regarding the challenges and possibilities within the mathematics program at ISCED-Uíge—is essential for any woman wishing to succeed in a teaching career in this discipline. Women's participation in university-level mathematics teaching poses a challenge for Angolan higher education, particularly in contexts where their representation remains low or invisible. Against this backdrop, the objective is to analyze the initial teacher training process in this program, its contributions to women's academic, professional, and social emancipation, and the challenges and possibilities inherent in this process. The research adopts a qualitative approach of an exploratory and descriptive nature, utilizing case study as methodological strategy. Research procedures include a literature review, document analysis (Course Pedagogical Project, curriculum matrix, course syllabi, and other institutional documents), and semi-structured interviews with final-year undergraduate students, professors, and program administrators. Data are analyzed using content analysis, enabling the identification of categories related to teacher training, gender equity, and female emancipation. The results reveal that the initial training of future mathematics teachers faces significant academic, professional, and social challenges arising from institutional, pedagogical, cultural, and social factors that both facilitate and, at times, constrain the process. The study concludes that this research provides insights for strengthening training practices and promoting gender equity in the initial training of mathematics teachers, thereby contributing to the discourse on Mathematics Education and higher education in Angola.
Keywords: University teaching in Mathematics; Emancipation of Angolan women; Challenges and possibilities.

1. INTRODUÇÃO

A promoção da igualdade de gênero no ensino superior tem ocupado lugar de destaque nas discussões nacionais e internacionais sobre educação, desenvolvimento humano e justiça social.

De acordo com fontes de pesquisas, não existe um (a) único (a) mentor (a) ou fundador (a) da emancipação da mulher na docência universitária em Matemática, e sim, trata-se de um processo histórico construído por movimentos feministas como “onda do feminismo”, transformações sociais, políticas educacionais e pela atuação de diversas mulheres matemáticas e pesquisadoras que desafiaram as barreiras de gênero ao longo dos séculos.

Para uma fundamentação teórica coerente, a pesquisa teve seu embasamento numa das principais referências internacionais como: Simone de Beauvoir (1908–1986), considerada uma das principais pensadoras da emancipação feminina contemporânea. Sua obra “O Segundo Sexo” (1949), demonstrou que as desigualdades entre homens e mulheres são construções sociais e culturais, influenciando profundamente os estudos sobre educação, ciência e carreira acadêmica feminina. Sua principal contribuição foi de criticar a exclusão histórica das mulheres do conhecimento científico como a matemática e fundamentou estudos sobre igualdade de oportunidades na universidade (Carvalho; Ferreira; Penereiro, 2016).

Embora tenham sido registrados avanços significativos no acesso das mulheres à educação superior nas últimas décadas após resistência dos referidos movimentos, ainda persistem desigualdades relacionadas à sua permanência, progressão acadêmica e inserção em áreas historicamente marcadas pela predominância masculina, como a Matemática (Brandt; Santamaría; Tullney, 2026). Essas desigualdades refletem fatores históricos, socioculturais e institucionais que limitam a plena participação das mulheres na produção do conhecimento e na docência universitária, tornando necessária a construção de políticas e práticas formativas comprometidas com a equidade de gênero e a valorização da diversidade.

No contexto angolano, a expansão do ensino superior e as reformas implementadas no sistema de formação de professores evidenciam o compromisso do país com a melhoria da qualidade da educação e com o desenvolvimento do capital humano. Entretanto, a reduzida presença de mulheres na docência universitária em Matemática, particularmente na província do Uíge, revela a existência de desafios que transcendem o acesso ao ensino superior e envolvem aspectos relacionados à formação inicial, às oportunidades de desenvolvimento profissional, às condições institucionais e às dinâmicas socioculturais que influenciam as trajetórias acadêmicas femininas. Nesse cenário, o Instituto Superior de Ciências da Educação do Uíge (ISCED-Uíge), responsável pela formação de professores, constitui um espaço privilegiado para investigar como os processos formativos podem contribuir para fortalecer a participação das mulheres na docência superior em Matemática.

A literatura sobre Educação Matemática tem enfatizado a importância da formação inicial de professores como um processo que ultrapassa a aquisição de conhecimentos específicos da disciplina, envolvendo também a construção da identidade profissional, o desenvolvimento da autonomia, da reflexão crítica e do compromisso com a transformação social (Nóvoa, 2019). Sob essa perspectiva, a formação docente pode desempenhar um papel relevante na promoção da emancipação acadêmica, profissional e social das mulheres, ao favorecer o fortalecimento de competências, o reconhecimento de suas potencialidades e a ampliação de suas oportunidades de inserção e permanência na carreira docente universitária. Entretanto, a efetivação desse potencial depende da organização curricular, das práticas pedagógicas, das políticas institucionais e das relações de gênero presentes nos espaços formativos (Almeida, 2021).

Apesar do crescimento das pesquisas sobre formação de professores, Educação Matemática e equidade de gênero, observa-se que ainda são escassos os estudos que investigam essas temáticas de forma articulada no contexto do ensino superior angolano. Em particular, identifica-se uma lacuna no que se refere à compreensão de como a formação inicial de professoras de Matemática pode contribuir para processos de emancipação feminina e para o fortalecimento da participação das mulheres na docência universitária. Essa lacuna evidencia a necessidade de produzir conhecimentos que considerem as especificidades sociais, culturais e institucionais de Angola, contribuindo para ampliar o debate científico sobre gênero, formação docente e Educação Matemática.

Para responder a pergunta de partida, estabelece-se como objetivo analisar o processo de formação inicial no referido curso, examinando suas contribuições, desafios e possibilidades que caracterizam esse cenário. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, desenvolvida por meio de um estudo de caso, utilizando análise documental e entrevistas semiestruturadas como principais procedimentos de produção de dados. Espera-se que os resultados contribuam para a reflexão sobre a formação inicial de professoras de Matemática, oferecendo subsídios para o aperfeiçoamento das práticas formativas e para o fortalecimento de políticas institucionais comprometidas com a equidade de gênero e a ampliação da participação feminina na docência universitária em Angola.

Problema de Pesquisa

De que modo a formação inicial no curso de Licenciatura em Ensino da Matemática do ISCED do Uíge contribui para emancipação acadêmica, profissional e social das mulheres, e quais desafios e possibilidades permeiam esse processo no contexto do ensino superior angolano?

Objetivos Geral e Específicos

Objetivo Geral

Analisar o processo de formação inicial no curso de Licenciatura em Ensino da Matemática do ISCED do Uíge, suas contribuições para emancipação acadêmica, profissional e social das mulheres, identificando os desafios e possibilidades que permeiam esse processo no contexto do ensino superior angolano.

Objetivos Específicos

  1. Descrever como o currículo, os documentos institucionais e as práticas formativas do curso de Licenciatura em Ensino da Matemática contemplam aspectos relacionados à emancipação das mulheres e à igualdade de gênero.

  2. Investigar as percepções das licenciandas, dos professores formadores e da coordenação do curso acerca das contribuições da formação inicial para emancipação acadêmica, profissional e social das mulheres na região.

  3. Identificar os fatores institucionais, pedagógicos, culturais e sociais que favorecem ou dificultam a emancipação das mulheres durante a formação inicial em Matemática no ISCED do Uíge.

  4. Discutir possibilidades de fortalecimento da formação inicial de professoras de Matemática que promovam maior equidade de gênero e contribuam para emancipação das mulheres no ensino superior angolano.

Justificativa da Escolha do Tema

A participação das mulheres na docência universitária em Matemática constitui um tema de crescente relevância no campo da Educação Matemática e das políticas de equidade de gênero. Pesquisas internacionais revelam que, embora tenham sido observados avanços no acesso das mulheres ao ensino superior, ainda persistem desafios relacionados à sua permanência, ao desenvolvimento profissional e à ocupação de espaços de docência e liderança acadêmica, especialmente nas áreas das Ciências Exatas (Brandt; Santamaría;Tullney, 2026). No contexto angolano, e de modo particular no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) do Uíge, o reduzido número de professoras de Matemática/apagamento evidencia a necessidade de compreender como a formação inicial pode favorecer a emancipação acadêmica, profissional e social das mulheres e contribuir para ampliar sua participação no ensino superior.

Do ponto de vista acadêmico, esta pesquisa busca contribuir para o fortalecimento das discussões que articulam Educação Matemática, formação inicial de professores e estudos de gênero. Embora esses campos tenham avançado de forma significativa nas últimas décadas, ainda são limitados os estudos que investigam a relação entre a formação de professoras de Matemática e os processos de emancipação feminina no contexto do ensino superior angolano. Ao focalizar o curso de Licenciatura em Ensino da Matemática do ISCED do Uíge, o estudo pretende produzir conhecimentos sobre as potencialidades e os limites do processo formativo, pistas e evidências que possam subsidiar a resolução do problema pelas entidades de direito e suscitar novas pesquisas em ampliar o debate científico nessa área.

A relevância social e institucional da investigação está relacionada à necessidade de compreender os fatores que influenciam a inserção e a permanência das mulheres na carreira docente universitária em Matemática. A identificação dos desafios enfrentados pelas licenciandas durante sua formação, bem como das possibilidades existentes para o fortalecimento de sua trajetória acadêmica e profissional, remete-nos alguns subsídios para a reflexão sobre práticas pedagógicas, políticas institucionais e estratégias de formação mais sensíveis às questões de gênero. Além do mais, faço isso por experiência pessoal do que vivenciei até hoje na minha área de atuação. Essa pesquisa em parte surge como um desabafo, um grito de socorro pelas inúmeras situações vivenciadas como mulher, mãe, professora, educadora social e pesquisadora académica-científica na área de formação de professores para o ensimo de matemática a 14 anos, em que algumas vezes me senti anulada no universo de tantos homens, sendo a única mulher na docência em matemática numa instituição estatal que representa uma Cidade inteira a mais de 29 anos de sua existência. Dessa forma, o estudo dialoga com os esforços voltados à promoção da igualdade de oportunidades e ao fortalecimento da participação feminina na educação superior angolana.

Espera-se que os resultados desta pesquisa contribuam para ampliar a compreensão sobre o papel da formação inicial na construção das trajetórias acadêmicas e profissionais das futuras professoras de Matemática no ISCED do Uíge. Além de identificar desafios e potencialidades desse processo, o estudo oferece elementos que se predispõe em apoiar o aperfeiçoamento das práticas formativas e das discussões sobre equidade de gênero na formação docente. Assim, pretende-se fornecer conhecimentos que possam servir de referência para pesquisadores, gestores e professores formadores interessados na promoção de uma formação inicial comprometida com a valorização da participação das mulheres na docência universitária em Matemática a nivel local e não só.

2. FUNDAMETAÇÃO E CONTEXTO

2.1. Educação Matemática e Formação Inicial de Professores Que Ensinam Matemática em Angola

A Educação Matemática consolidou-se como um campo científico que ultrapassa o ensino dos conteúdos matemáticos, dedicando-se à compreensão dos processos de ensino e aprendizagem, da formação docente e das dimensões sociais, culturais e políticas que influenciam a prática educativa em matemática. Nesse contexto, a formação inicial de professores constitui um dos seus principais objetos de investigação, por representar a etapa em que são construídos os conhecimentos específicos da Matemática, os saberes pedagógicos e didáticos, bem como a identidade profissional docente. A literatura destaca que,

A qualidade da formação inicial depende da articulação entre conhecimentos científicos, fundamentos pedagógicos, investigação educacional e experiências de prática docente, possibilitando ao futuro professor desenvolver competências para interpretar problemas educativos, refletir criticamente sobre sua atuação e responder às demandas contemporâneas do ensino da Matemática (Nóvoa, 2019)

Estudos recentes realizados em Angola evidenciam que o fortalecimento da prática pedagógica reflexiva, da capacidade de generalização e justificação matemática e da integração entre teoria e prática constitui um desafio permanente para as instituições responsáveis pela formação inicial de professores de Matemática (Jamba, 2026). De igual modo autores como Quitembo (2023), evidencia que, ainda predomina um modelo tradicional de orientação da prática pedagógica, reforçando a necessidade de integrar teoria e prática na formação docente. Assim como defendem (Calopa; Albano, 2026) que, a prática pedagógica reflexiva é essencial para melhorar a formação inicial e continuada dos professores de Matemática em Angola, destacando a necessidade de superar modelos tradicionais de ensino baseados na racionalidade técnica.

No contexto angolano, os Institutos Superiores de Ciências da Educação (ISCED) desempenham um papel estratégico na formação de professores destinados aos diferentes níveis do sistema educativo. O curso de Licenciatura em Ensino da Matemática tem como finalidade formar profissionais com sólida preparação científica, didático-pedagógica e investigativa, aptos a atuar no ensino, na investigação e no desenvolvimento de projetos educacionais voltados para a melhoria da qualidade do ensino da Matemática. No ISCED do Uíge, o projeto pedagógico do curso prevê a integração de disciplinas específicas de Matemática, Didática da Matemática, Desenvolvimento Curricular, Metodologia de Investigação e Prática Docente, evidenciando a preocupação institucional com uma formação que articule conhecimentos matemáticos e competências pedagógicas. Entretanto, a formação inicial não deve restringir-se ao domínio técnico da profissão docente; deve também favorecer a construção de uma postura crítica, ética e socialmente comprometida, capaz de reconhecer a diversidade presente nos contextos educativos e promover práticas inclusivas que contribuam para a valorização da participação das mulheres na docência universitária e na Educação Matemática em Angola.

2.2. Currículo, Práticas Pedagógicas e Equidade de Gênero (Análise dos Processos Formativos Que Podem Favorecer Ou Limitar Emancipação Feminina).

O currículo da formação inicial de professores constitui um dos principais elementos estruturantes do processo educativo, pois orienta os conhecimentos, competências, valores e práticas que são desenvolvidas ao longo do curso de licenciatura. Na formação de professores de Matemática, o currículo não deve limitar-se à transmissão de conteúdos disciplinares, e sim promover uma formação crítica-reflexiva, capaz de articular conhecimentos científicos, pedagógicos, éticos e socioculturais (Freire, 1996). Nessa perspectiva, a incorporação da equidade de gênero ao currículo representa um aspecto fundamental para a construção de uma formação docente comprometida com a inclusão, a justiça social e a valorização da diversidade. Além do currículo formal, as práticas pedagógicas e o chamado currículo fechado e oculto também influenciam a construção de identidades profissionais, podendo reforçar ou questionar estereótipos de gênero historicamente associados às Ciências Exatas e à Matemática (Apple, 1979). Este autor nessa obra, explica o papel do currículo na reprodução e transformação das desigualdades no gênero. Estudos recentes na área da Educação Matemática têm evidenciado que currículos sensíveis às questões de gênero favorecem ambientes formativos mais inclusivos, ampliando as oportunidades de participação, permanência e desenvolvimento profissional das mulheres nos cursos de licenciatura em Matemática (Batista; Santos, 2024)

As práticas pedagógicas desenvolvidas durante a formação inicial desempenham igualmente um papel decisivo na promoção da equidade de gênero e na emancipação das futuras professoras de Matemática. Metodologias participativas, processos de ensino pautados no diálogo, na colaboração e na valorização das diferentes experiências dos alunos podem contribuir para o fortalecimento da autonomia, autoridade, alteridade, da confiança acadêmica e da identidade profissional das licenciandas. Em contrapartida, práticas que reproduzem relações hierárquicas, invisibilizam a contribuição das mulheres para a Matemática ou naturalizam desigualdades de gênero tendem a limitar o desenvolvimento de processos emancipatórios (Apple, 2006). Para este autor, o currículo e as práticas escolares podem reproduzir relações de poder e desigualdades, inclusive de gênero, é preciso muita atenção em relação a essas situações. No contexto do ensino superior angolano, essa discussão torna-se particularmente relevante diante da necessidade de ampliar a participação feminina na docência universitária em Matemática. Assim, analisar o currículo, os documentos institucionais e as práticas formativas do curso de Licenciatura em Ensino da Matemática do ISCED do Uíge possibilita compreender em que medida esses elementos favorecem ou restringem a construção de uma formação comprometida com a equidade de gênero, oferecendo subsídios para o aperfeiçoamento das políticas curriculares e das práticas pedagógicas voltadas à formação de futuras professoras de Matemática. No contexto da realidade local, o currículo não dá respaldo a especificidades de gênero, é completamente voltado para habilidades técnicas e ao mesmo tempo fechado e oculto.

2.3. Mulheres na Matemática e na Docência Universitária (Aproximações Entre Gênero e Campo Específico da Matemática).

A participação das mulheres na Matemática tem sido marcada por um processo histórico de invisibilização e desigualdade, apesar das contribuições significativas de mulheres matemáticas para o desenvolvimento da ciência a nível internacioanal. Durante séculos, fatores sociais, culturais e institucionais restringiram o acesso das mulheres à educação formal, à produção científica e à carreira universitária, consolidando a percepção da Matemática como um campo predominantemente masculino (Almeida, 2021) Embora avanços importantes tenham sido alcançados nas últimas décadas, estudos sobre gênero e Educação Matemática demonstram que a sub-representação feminina ainda é uma realidade em diversas instituições de ensino superior, especialmente nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (CTEM). Essa situação decorre não apenas de desigualdades de acesso, mas também de estereótipos de gênero, ausência de modelos femininos de referência, dificuldades de progressão na carreira docente e acadêmica, complexo de inferioridade, vitimismo, violência simbólica institucional, baixa auto-estima na prograssão por motivos alheios a sua vontade, apagamento/exclusão disfarçada de favoretismo por parte dos formadores e desafios relacionados à conciliação entre a vida profissional e responsabilidades familiares. Nesse sentido, compreender a presença das mulheres na Matemática requer analisar as condições históricas e contemporâneas que influenciam sua formação, permanência e desenvolvimento profissional.

Algumas autoras recentes confirma que,

A trajetória das mulheres não é apenas bloqueada no topo, mas cheia de obstáculos, desvios e dificuldades em todos os níveis da carreira. Pensando na questão gênero, um ponto referente à dificuldade da ascensão feminina esta que em ambientes mais masculinos como a área de Matemática e ciências ditas exatas, as mulheres são vítimas de assédio sexual, machismo e sexismo ou comentários indelicados (Santos; Rosa, 2026, p. 4)

No contexto da docência universitária, a formação inicial desempenha um papel estratégico na construção da identidade profissional das futuras professoras de Matemática, ao favorecer o desenvolvimento de conhecimentos científicos, competências pedagógicas e capacidades investigativas necessárias ao exercício da profissão. Entretanto, esse processo formativo também é influenciado pelas relações de gênero presentes na cultura institucional, nas práticas pedagógicas e na organização curricular, podendo criar oportunidades ou obstáculos à participação feminina na carreira acadêmica. Autoras como Santos e Souza (2025) defendem que,

Historicamente, observa-se que a representatividade feminina é retratada como inferior em comparação aos homens, especialmente em áreas como a Matemática. Pesquisas atuais apontam que tal disparidade é oriunda de estereótipos, estigmas sociais e práticas discriminatórias que, muitas vezes, restringem a participação e permanência feminina nesses campos (Souza; Loguercio, 2021 apud Santos; Souza 2025, p.3).

No ensino superior angolano, e particularmente no ISCED do Uíge, a reduzida presença de mulheres na docência em Matemática evidencia a necessidade de compreender como a formação inicial pode fortalecer trajetórias acadêmicas femininas e ampliar sua inserção profissional. Assim, investigar as experiências das licenciandas, suas percepções sobre a formação recebida e os fatores institucionais, pedagógicos, culturais e sociais que influenciam sua permanência/desistência em projeção na carreira docente constitui um caminho relevante para compreender os processos de emancipação acadêmica, profissional e social das mulheres na região. Essa perspectiva desloca o debate da simples ampliação do acesso feminino à universidade para a análise das condições que favorecem uma participação qualificada, equitativa e sustentável na docência universitária em Matemática, contribuindo para o fortalecimento de uma Educação Matemática comprometida com a equidade de gênero e a valorização da diversidade. Em algumas realidades de desabafo com as licenciandas do 3º e 4º ano, revelam situações relacionadas com assédio sexual, falta de empatia, espirito de exploração de trabalho, cobrança de dívidas morais ou psicológicas em situações de orientação de TCC, marginalização, descriminação de gênero, banalização de esforço, falta de reconhecimento e incentivo a presença e participação feminina, nulidade no meio social expressa em modo de violência simbólica, entre outras práticas que neutralizam a mulher e sua participação no mundo académico. E como consequência disso, surge a baixa auto-estima, o conformismo, desistência ao curso ou prograssão na carreira, desvio de sonho para outras áreas mais acessiveis tidas como ciência para mulheres como: Línguas, Psico/pedagogia, História, Ensino de Infância, entre outras.

Mais adiante temos o quadro ilustrativo que narra as diferentes percepções sobre literatura consultada, entrevista em campo e sugestões de melhoria se possível.

Quadro nº1. Ilustração de percepções sobre literatura, entrevista em campo e sugestões de melhoria

Dimensão

Percepções evidenciadas na literatura

Possíveis consequências

Sugestões de melhoria

Institucional

Baixa representatividade feminina entre docentes e em cargos de liderança; escassez de políticas institucionais de equidade; ausência de programas de mentoria; pouca visibilidade das contribuições de mulheres matemáticas nos currículos.
Percepção de incapacidade total ou parcial de participação na carreira docente universitária.

Sentimento de não pertencimento, menor identificação com a carreira acadêmica, redução das perspectivas de progressão profissional e pesquisas científicas

Implementação de políticas institucionais de equidade de gênero; ampliação e participação de mulheres em cargos de liderança; criação de programas de mentoria para estudantes e jovens docentes; promoção de eventos científicos com protagonismo feminino; incorporação de histórias e contribuições das mulheres na Matemática aos documentos curriculares e institucionais.
Inclusão de políticas que promovam inserção de mulheres na carreira docente em matemática e em outras ocupações que envolve conhecimento matemático.

Pedagógica

Predomínio de metodologias tradicionais e competitivas; currículo pouco sensível às questões de gênero; reduzida valorização da participação das estudantes; práticas avaliativas que reforçam desigualdades; invisibilização da história das mulheres na Matemática.

Diminuição da autoestima acadêmica, menor participação em atividades científicas e maior probabilidade de evasão e desitência à carreira.

Adotação de metodologias ativas e colaborativas; revisão currícular sob a perspectiva da equidade de gênero; incluisãio de biografias e contribuições de mulheres matemáticas nos conteúdos; promoção de práticas avaliativas inclusivas; capacitação docente para o desenvolvimento de estratégias pedagógicas sensíveis às questões de gênero e valorização da presença feminina em contextos de ensino e aprendizagem.

Cultural

Persistência de estereótipos que associam a Matemática ao universo masculino; crenças sobre maior aptidão masculina para as Ciências Exatas; naturalização de papéis tradicionais de gênero como: (mulher é máquina de fazer filhos), percepção da figura da mulher como objecto de manipulação.

Internalização de sentimentos de incapacidade, conformismo, baixa autoeficácia e limitação das aspirações profissionais.

Desenvolvimento de ações educativas para desconstrução de estereótipos de gênero; realização de campanhas de valorização das mulheres na ciência; promoção de debates, seminários e oficinas sobre igualdade de gênero; divulgação de trajetórias de mulheres matemáticas como referências inspiradoras para estudantes concluintes.

Social

Sobrecarga de responsabilidades familiares; menor acesso a redes de apoio; discriminação explícita ou implícita; dificuldades de conciliar formação, trabalho e vida familiar.

Atraso na conclusão da formação, desistência do curso ou redução das oportunidades de inserção e progressão na carreira docente universitária.

Fortalecimento de políticas de assistência estudantil; criação de redes de apoio entre estudantes e docentes; ampliação de programas de bolsas e auxílios com percentagem equitativa para camada feminina; flexibilização nas atividades acadêmicas quando necessário; implementação de mecanismos institucionais de prevenção e enfrentamento à discriminação e ao assédio.

Fonte: elaboração da autora com base em referências sobre emacipação feminina na matemática

Esta quadro resumo serve de uma visão contribuitiva sobre o problema que identificamos como ponto de partida da nossa pesquisa, assim como problemas que muita mulher enfrenta nesta área.

No entanto, a licencianda em quanto aluna efrenta n barreiras para terminar a formação, consequentemente, nunca aceita afirmar estar frente a uma sala de aulas com 50 alunos do curso de graduação lecionando matemática e demostrando perfeitamente o que ela sabe sobre a ciência, quando sua consciência é repleta de descriçinação na sua área de atuação. Essa incapacidade rotulada, mata psicológicamente o sentimento de prograssão na carreira docente e muitas delas preferem lecionar nas classe iniciais onde a descriminação não é visível. Lá se torna a zona de conforto para maioria representatividade da classe feminina que terminam a licenciatura em matemática. Porém a docência universitária se torna uma ameaça, tida de zona de risco de vida para certas mulheres.

Outras são convencidas de suas incapacidades por conta da dinâmica social e as exigências contemporâneas, porém têm noção sobre responsabilidade da carreira docente que requer ensino de qualidade, investigação científica de ponta e extenção universitária. Pessoas como estas convense-se de que ser professora de matemática numa instituição superior é um suissídio absoluto e acabam desistindo sem tentar.

2.4. Possibilidades de Fortalecimento na Formação Inicial de Professoras de Matemática Que Promovam Maior Equidade de Gênero

A promoção da equidade de gênero na formação inicial de professoras de Matemática exige que as instituições de ensino superior desenvolvam processos formativos comprometidos com a valorização da diversidade, da inclusão e da justiça social (Carvalho, Ferreira; Penereiro, 2016)

No âmbito da Educação Matemática, essa perspectiva implica compreender que a formação docente não se restringe ao desenvolvimento de conhecimentos específicos e pedagógicos, mas envolve também a construção de competências críticas que permitam aos futuros professores reconhecer e enfrentar as desigualdades historicamente presentes no sistema educativo. Assim, o fortalecimento da formação inicial pressupõe a revisão dos currículos, das práticas pedagógicas e das políticas institucionais, de modo a incorporar discussões sobre relações de gênero, representatividade feminina na Matemática, direitos humanos e equidade educacional. A adoção de metodologias participativas, práticas investigativas, programas de mentoria acadêmica e ações voltadas ao protagonismo das licenciandas pode contribuir para ampliar sua autonomia, fortalecer sua identidade profissional e favorecer sua inserção na docência universitária. Dessa forma, a formação inicial passa a constituir um espaço de desenvolvimento profissional e de construção de oportunidades para que as futuras professoras atuem de forma crítica e transformadora nos diferentes níveis de ensino. Uma pesquisadora de área afirma que, o acesso das mulheres à educação superior abre portas para uma maior igualdade de oportunidades no mercado de trabalho, permitindo-lhes competir por postos de trabalho que tradicionalmente eram dominados por homens, incluindo cargos de comando, liderança e poder (Rodrigues; Luiz; Marçal, 2024, p. 2)

Este estudo, justifica-se de alguma forma pela necessidade de legitimar a participação feminina na construção do saber matemático, de modo a fortalecer a inserção e permanência das mulheres nos cursos de Licenciatura em Matemática, não só no âmbito quantitativo, mas também qualitativo, a fim de que elas demonstrem suas competências e sejam aceitas como mentes pensantes e atuantes. “Refletir sobre tal questão é uma forma de dar visibilidade às mulheres que fizeram, fazem e farão história na Ciência e na Matemática (Gonçalves, et al., 2022, p. 364)

No contexto do ISCED do Uíge, o fortalecimento da formação inicial de professoras de Matemática deve considerar as especificidades socioculturais, institucionais e educacionais da província, reconhecendo que a promoção da equidade de gênero depende tanto das condições oferecidas pela instituição quanto das políticas públicas que orientam a formação docente em Angola. Nesse sentido, torna-se relevante incentivar práticas pedagógicas que valorizem a participação ativa das licenciandas, ampliar oportunidades de iniciação à investigação científica, estimular sua inserção em projetos de extensão e promover espaços permanentes de diálogo sobre gênero e Educação Matemática. Além disso, a valorização de trajetórias de mulheres matemáticas, o fortalecimento da liderança feminina em atividades acadêmicas e a criação de estratégias institucionais de acompanhamento e apoio às estudantes podem favorecer sua permanência e projeção profissional. Essas iniciativas não têm como finalidade estabelecer privilégios, mas reduzir barreiras historicamente construídas e ampliar as oportunidades de desenvolvimento acadêmico e profissional das mulheres. Deixar de encarar a mulher como uma ameaça, sobretudo em áreas tidas como centro de atuação para homens (concepção do passado). Nessa perspectiva, a formação inicial de professoras de Matemática no ISCED do Uíge pode constituir-se como um espaço estratégico para o fortalecimento da equidade de gênero, contribuindo para uma Educação Matemática socialmente comprometida e para a ampliação da participação feminina na docência universitária em Angola.

3. METODOLOGIA E SEUS PROCEDIMENTOS

A pesquisa foi desenvolvida sob abordagem qualitativa, de natureza interpretativa e análise documental, porém, permite compreender fenômenos educacionais em seus contextos sociais, culturais e institucionais, valorizando os significados atribuídos pelos participantes e suas experiências. No presente estudo, esta abordagem permite compreender como licenciandas, professores formadores e gestores percebem a contribuição da formação inicial para a emancipação acadêmica, profissional e social das mulheres na matemática, bem como identificar os fatores que favorecem ou limitam esse processo no contexto do ISCED do Uíge.

Classificação da Pesquisa

O tipo de pesquisa quanto aos objetivos, caracteriza-se como exploratória e descritiva, abordagem qualitativa, de natureza interpretativa

  • Exploratória, porque busca ampliar a compreensão sobre um fenômeno ainda pouco investigado no contexto angolano, especialmente na interface entre Educação Matemática, formação docente e equidade de gênero no ISCED-Uíge.

  • Descritiva, porque pretende caracterizar as práticas formativas, os documentos institucionais, as percepções dos participantes e os fatores que influenciam a emancipação das mulheres durante a formação inicial e inserção na careira docente em matemática.

Estratégia Metodológica

A estratégia metodológica adotada revela estudo de caso, tendo como unidade de análise o Curso de Licenciatura em Ensino da Matemática do Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) do Uíge. Essa estratégia possibilita compreender o fenômeno em profundidade, considerando as características do contexto institucional, curricular, pedagógico e sociocultural no qual ocorre a formação das futuras professoras de Matemática, permitindo assim integrar diferentes fontes de evidência, aumentando a consistência analítica da investigação.

Contexto da Pesquisa

Quanto ao contexto da pesquisa, o estudo é desenvolvido no ISCED-Uíge, instituição responsável pela formação inicial de professores na região a mais de 29 anos de existência, com foco no curso de licenciatura em Ensino da Matemática com 26 anos de existência, considerando fatores como: organização curricular; práticas pedagógicas; ambiente institucional e experiências formativas das licenciandas.

Participantes da Pesquisa

Os participantes foram selecionados por amostragem intencional, considerando sua relação direta com o objeto investigado. Nomeadamente, licenciandas do 3.º e 4.º anos do Curso de Licenciatura em Ensino da Matemática; professores formadores do curso; responsáveis do curso de Licenciatura em Ensino da Matemática. A definição do número de participantes seguiu o critério de saturação teórica, amplamente utilizado em pesquisas qualitativas.

Fontes Documentais

A análise documental foi contemplada tendo em conta documentos como: Projeto Pedagógico do Curso (PPC); Matriz curricular; Ementas das disciplinas; Plano de Desenvolvimentpo Institucional; Planos de ensino; Regulamentos acadêmicos; Documentos institucionais sobre formação docente; LBSE 17/16; LBSE 32/20; Legislação angolana referente ao ensino superior e documentos sobre políticas públicas de igualdade de gênero na educação.

Instrumentos de Produção dos Dados

Os dados poderão ser produzidos mediante diferentes instrumentos como:

  1. Análise documental, objetiva identificar: Referências à igualdade de gênero; Concepção de formação docente; Competências profissionais; Princípios curricularese práticas voltadas à inclusão.

  2. Entrevistas semiestruturadas foram realizadas entrevistas com: Licenciandas; Professores formadores e responsáveis do curso. As questões respondidas permitiram compreender: Experiências de formação; Percepção sobre emancipação feminina; Desafios vivenciados e possibilidades de melhoria.

  3. Observação foi realizada com base algumas atividades acadêmicas, porém, permitiu compreender: Relações pedagógicas; Participação das estudantes; Práticas docentes e interação e participação feminina em sala de aula.

Procedimentos para Produção dos Dados

A pesquisa seguiu as seguintes etapas:

  1. 1ª etapa: Revisão da literatura; 2ª etapa: Levantamento dos documentos institucionais; 3ª etapa Análise documental; 4ª etapa: Realização das entrevistas; 5ª etapa: Organização e transcrição dos dados; 6ª etapa: Análise e interpretação dos resultados.

Técnica de análise dos dados

Quanto aos dados, utilisou-se análise de conteúdo coforme a perspectiva de Bardin (2014),

A análise compreendeu três etapas como:

1ª Pré-análise:Organização do corpus; Leitura flutuante; Definição das unidades de análise.

2ª Exploração do material: Codificação; Categorização e agrupamento temático de acordo a relevância, atualiade e contexto.

3ªTratamento e interpretação: Articulação entre dados empíricos; Fundamentação teórica e objetivos da pesquisa.

As categorias de análise foram construídas de forma dedutiva, derivadas do referencial teórico sobre emancipação acadêmica, desafio profissional e social; equidade de gênero; práticas formativas e indutiva sobre fator pedagógico, curricular e institucional.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1. Caraterização do Curso de Ensino de Matemática

O curso teve início no ano de 2000 com a presença de professores externos, posteriormente ganhou dois docentes locais e quatro docentes de nacionalidade congoleza nos anos 2003 à 2004. Em 2007 lançou os primeiros três licenciados que depois tiveram que dar seu contributo para a elavação da causa. Hoje é composto por oito (8) professores locais e três (3) colaboradores cubanos. Todos professpres locais são mestres e ostentam a categoria de professores assistente.

O curso é estruturado por três áreas formativas, a área científica principal, a área pedagógica e a área científica complementar, num total de 18 disciplinas anuais e 28 semestrais; compreende ainda um período de concepção de um projecto, elaboração e a defesa de uma Monografia, com a designação de Trabalho de Fim do Curso (TFC), uma carga horária total de 160 tempos lectivos, incluindo-a ainda as horas dedicadas; perfazendo uma carga horária total do curso de 3616 tempos lectivos correspondentes a 226 unidades de créditos (UC), conforme o projeto pedagógico do curso. A área científica principal possui 52,17% totais de tempos nas vertentes histórica, epistemológica específica, teórica, prática e tecnológica. No entanto, o programa não espelha nada sobre vertente social.1

4.2. Análise do Currículo, Documentos Institucionais e Práticas Formativas do Curso

Das 46 disciplina que compõe o currículo, as disciplinas do saber na sua maioria não especificam a incorporação das categorias da valorização e equidade de gênero. Das variadissimas categorias analizadas como; Referências à igualdade de gênero; Concepção de formação docente; Competências profissionais; Princípios curriculares e práticas formativas voltadas à inclusão, nem todas elas se contemplam dentro dos indicadores estabelecidos pela pesquisa.

Algumas dessas categorias são expressas nos normativos, porém, as referências à igualdade de gênero, as práticas voltadas a inclusão não se verificam, concepções sobre equidade feminina de forma específica, tanto em normativos quanto no campo da prática formativa, não se revela.

Outro aspecto que foi identificado, o ISCED-Uíge no princípio era uma unidade orgãnica da Universidade Agostinho Neto, a área do conhecimento era designada como Licenciatura em Matemática, treze anos depois passa a ser denominado uma instituição autonoma com designação de um Instituto Superir Pedagógico e o curso toma a área de conhecimento como Ensino de Matemática. Só que a mudança do nome que constitui o objeto social da instituição não teve implicação nos currículos, tudo permanece no sentido tecnicista até hoje. Acreditamos que tal situação seja resolvida desta vez com o surgimento da armonização curricular que está decorrendo recentemente.

Sobre entrevista: as categorias analizadas como: Experiências de formação; Percepção sobre emancipação feminina; Desafios vivenciados e possibilidades de melhoria, as respostas revelam uma baixa visibilidade com um pendor que expressa temor e complexo de inferioridade ou possível medo de não aceitação em alguns casos; Em outros desponibilizaram-se em continuar e pedir a implementação de tais práticas de forma recorrente.

No que se refere a observação foi realizada com base algumas atividades acadêmicas, porém, permitiu compreender: Relações pedagógicas; Participação das estudantes; Práticas docentes e interação em sala de aula. Nesta, observou-se uma relação meio fraca, participação não muito ativa, interação com grau de complexo de inferioridade e timidez.

A constituição das duas turmas também revela um outro aspecto de desequilíbrio no gênero, tanto na turma do 3º ano, quanto do 4º ano, ambas possui maior número de gênero masculino como:

Turma do 3º ano 43 alunos dos quais 2 mulheres e 41 homens perfazendo 4,6% F<95,4% M.

Turma do 4º ano 54 alunos dos quais 1 mulhere e 53 homens perfazendo 1,9% F<98,1% M.

Com base nestas evidências e constatações, buscou-se rever o quadro evolutivo da docência universitária para mulheres que ensinam matemática no Uíge, desde o começo do primeiro campus universitário estatal em 1997, apenas uma mulher que engressou em 2012 e labuta na secção de ensino de matemática até ao dado momento, vê-se que quase não existe representatividade feminina na instituição refrente a esta área do comnhecimento como acontece com os outros cursos.

De seguida, a título de exemplo prático para a cidade inteira existem quatro instituições de ensino superiores, das quais duas estatais e duas de carácter privado como se vê abaixo:

1ª ISCED (1997 ), secção de ensino de matmética 8 homens comtra 1 mulher: 12,5% <87,5%;

2ª UNIKIV (2009), Faculdade de Economia e Politécnica 5 homens, nenhuma mulher 0<100;

3ª ISPPU (2018) privada, dos 154 professores de todos os cursos nenhuma melher na matemática;

4ª ISP Nzenzo Estrela do Uíge (2021), dos 130 professres apenas uma mulher em matemática.

No entanto os dados acima revelam a existência de uma mulher a primeira instituição publica e uma na última instituição privada recentemente inaugurada, traduz uma fraquíssima representatividade feminina nesta área do saber.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa teve como propósito analisar de que modo a formação inicial no curso de Licenciatura em Ensino da Matemática do Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) do Uíge contribui para a emancipação acadêmica, profissional e social das mulheres, bem como identificar os desafios e as possibilidades que permeiam esse processo no contexto do ensino superior angolano. Os resultados permitiram responder ao problema de pesquisa ao evidenciar que a formação inicial constitui um elemento fundamental para o desenvolvimento das competências científicas, didático-pedagógicas e investigativas das licenciandas, favorecendo a construção da identidade profissional e ampliando as possibilidades de inserção na docência universitária. Contudo, verificou-se que esse potencial emancipatório permanece condicionado por fatores institucionais, curriculares, pedagógicos e socioculturais que influenciam as trajetórias acadêmicas e profissionais das futuras professoras de Matemática. Embora o curso ofereça uma formação sólida nos conhecimentos específicos e pedagógicos da área, as discussões sobre equidade de gênero, representatividade feminina e enfrentamento das desigualdades ainda se apresentam de forma incipiente no currículo e nas práticas formativas, evidenciando a necessidade de maior integração dessas temáticas ao processo de formação docente.

Os resultados também demonstraram de acordo referências internacioanis e nacionais que a emancipação das licenciandas é favorecida pelo apoio institucional, pelo compromisso dos professores formadores, pela participação em atividades de investigação científica e pela valorização da presença feminina nos espaços acadêmicos. Entretanto, persistem desafios relacionados à permanência de estereótipos de gênero, à reduzida representatividade das mulheres na docência universitária em Matemática e à limitada participação em espaços de liderança acadêmica. Conclui-se, portanto, que a formação inicial no ISCED do Uíge possui potencial para promover a emancipação acadêmica, profissional e social das mulheres, desde que seja acompanhada por políticas institucionais baseadas em normativas que orientam o ensino no país e práticas pedagógicas que incorporem a perspectiva de gênero, fortaleçam a igualdade de oportunidades e ampliem as possibilidades de desenvolvimento científico e profissional. Como perspectivas para investigações futuras, recomenda-se a realização de estudos comparativos em outros ISCEDs e universidades angolanas, bem como pesquisas longitudinais que acompanhem a trajetória das professoras de Matemática e avaliem os impactos das políticas de equidade de gênero na formação docente e na consolidação de ambientes acadêmicos mais inclusivos e equitativos.

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1 Professora Universitátia em Matemática no Instituto Superior de Ciências de Educação do Uíge ISCED-Uíge. É pesquisadora na área de Formação de Professores para o Ensino de Matemática, possui uma vasta experiência a 23 anos de Serviço. Doutoranda em Educação Científica, Matemática Tecnológica pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo FE-USP. Autora de sete (7) artigos periódicos, três capítulos de Livros e Um Livro Plurilíngue muito concorrido a nível internacional.