REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/783394195
RESUMO
O envelhecimento populacional contemporâneo exige respostas curriculares integradas que articulem os direitos humanos e o combate ao idadismo estrutural na Educação Básica. Este artigo apresenta os resultados parciais de uma pesquisa-ação desenvolvida a partir do projeto "Educação para a Intergeracionalidade", implementado na Escola Estadual de Ensino Médio Coelho Machado, em Triunfo/RS, no ano letivo de 2026. O estudo ampara-se em uma abordagem qualitativa de natureza bibliográfica e documental, estruturando-se operacionalmente por meio da observação participante no âmbito da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. A fundamentação teórica cruza os debates sobre geropedagogia e múltiplas velhices com as tensões curriculares da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a constituição da identidade disciplinar docente. O relato de experiência descreve de forma analítica o planejamento coletivo por área do conhecimento e as atividades projetadas, executadas e planejadas nos componentes de Filosofia, Sociologia, Geografia e História. Conclui-se que o amadurecimento analítico de cada disciplina de origem potencializa as práticas interdisciplinares, consolidando a escola como território de coeducação e de promoção da dignidade humana ao longo de todo o curso da vida.
Palavras-chave: Ensino por Áreas; Ciências Humanas; Intergeracionalidade; Pesquisa-ação; Triunfo/RS.
ABSTRACT
Contemporary population aging demands integrated curricular responses that articulate human rights and the fight against ageism in Basic Education. This article presents the partial results of an action research developed from the project "Education for Intergenerationality", implemented at the Coelho Machado State High School, in Triunfo/RS, during the 2026 school year. The study is grounded on a qualitative approach of bibliographic and documentary nature, operationally structured through participant observation within the scope of Applied Human and Social Sciences. The theoretical framework intersects the debates on geropedagogia (educational gerontology) and multiple old ages with the curricular tensions of the National Common Curricular Base (BNCC) and the constitution of teachers' disciplinary identity. The experience report analytically describes the collective planning by field of knowledge and the activities projected, executed, and planned within the components of Philosophy, Sociology, Geography, and History. It concludes that the analytical maturity of each core discipline potentializes interdisciplinary practices, consolidating the school as a territory for co-education and the promotion of human dignity throughout the entire life course.
Keywords: Area-Based Teaching; Human Sciences; Intergenerationality; Action Research; Triunfo/RS.
1. INTRODUÇÃO
O cenário demográfico brasileiro contemporâneo passa por uma transição acelerada e profunda, consolidando o que a literatura especializada e os dados oficiais apontam como um país envelhecido. Conforme o Censo Demográfico de 2022 e as diretrizes do Documento Base que orientou a 6ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (2024), a população com 60 anos ou mais já representa 15,8% do contingente nacional, com projeções de crescimento acelerado que desafiam os sistemas de proteção social e as matrizes das políticas públicas. Diante dessa reconfiguração etária, torna-se imperativo que o debate sobre a velhice extrapole as dimensões biomédicas e assistencialistas, fixando-se como uma agenda curricular urgente no âmbito da Educação Básica.
Nesse contexto, a educação sobre o envelhecimento e a promoção da intergeracionalidade emergem como eixos pedagógicos estratégicos para o enfrentamento do idadismo estrutural e para a consolidação de uma cultura de direitos humanos. No plano normativo, tal inserção encontra amparo robusto no artigo 22 do Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003), que determina a inclusão de conteúdos voltados ao processo de envelhecimento nos currículos escolares, bem como nas competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que preconizam a valorização da diversidade, a empatia e a cidadania.
Contudo, a execução prática dessa agenda esbarra em desafios estruturais da organização escolar brasileira. De um lado, as recentes reformas curriculares demandam uma atuação docente integrada e estruturada por áreas do conhecimento, instigando o diálogo interdisciplinar. De outro, a formação inicial de professores permanece marcadamente fragmentada, consolidando o que a literatura conceitua como identidade disciplinar docente, um forte sentimento de pertencimento intelectual e corporativo em relação à disciplina de origem (História, Geografia, Sociologia ou Filosofia), que muitas vezes tensiona ou dificulta a realização de práticas integradoras na realidade escolar.
Partindo dessas premissas teóricas e curriculares, o presente artigo relata as ações pedagógicas do projeto "Educação para a Intergeracionalidade", implementado junto às turmas de Ensino Médio Integral da Escola Estadual de Ensino Médio Coelho Machado, situada em Triunfo/RS. Busca-se analisar como a articulação da área de Ciências Humanas permitiu abordar a geropedagogia e o combate ao preconceito etário sem esvaziar a densidade conceitual e o amadurecimento metodológico de cada componente curricular envolvido.
Para além desta seção introdutória, o presente artigo encontra-se estruturado em mais quatro seções integradas. Inicialmente, apresenta-se o percurso metodológico, caracterizando os contornos da pesquisa-ação e da observação participante que balizam a proposta em andamento. Em seguida, a fundamentação teórica promove o cruzamento epistemológico entre as premissas da geropedagogia e o debate curricular contemporâneo acerca do ensino por áreas e da identidade disciplinar docente nas Ciências Humanas. Posteriormente, expõe-se o relato de experiência propriamente dito, detalhando o planejamento coletivo e os desdobramentos práticos e conceituais vivenciados nos componentes de Filosofia, Sociologia, Geografia e História. Por fim, tecem-se as considerações finais parciais, sintetizando as contribuições do projeto para o fortalecimento da convivência intergeracional e para a práxis pedagógica integrada.
2. PERCURSO METODOLÓGICO: A PESQUISA-AÇÃO EM DESENVOLVIMENTO
A proposta metodológica que sustenta este relato de experiência assume uma abordagem qualitativa, de caráter eminentemente bibliográfico e documental, estruturando-se operacionalmente sob a lógica da pesquisa-ação e da observação participante. Por se tratar de uma intervenção pedagógica que visa transformar a realidade escolar e combater o idadismo estrutural diretamente no cotidiano, os docentes atuam simultaneamente como pesquisadores e agentes da ação, coletando dados por meio do acompanhamento diário, diários de bordo e registros fotográficos das produções discentes.
É fundamental salientar que o projeto relatado se encontra em pleno processo de desenvolvimento. Planejada para abranger a totalidade do ano letivo de 2026, a proposta não apresenta, até o presente momento, dados conclusivos ou definitivos. Os resultados parciais e as análises aqui socializados expressam as sínteses e percepções obtidas durante o primeiro trimestre de execução.
No que tange ao amparo bibliográfico e documental, a pesquisa buscou subsídios nos marcos normativos nacionais e nas produções contemporâneas sobre gerontologia educativa. Ao analisar o papel da escola no cumprimento das diretrizes do Estatuto da Pessoa Idosa, Dill et al. (2026) sintetizam a urgência de uma mudança estrutural na formação dos educadores:
A inserção da temática do envelhecimento na Educação Básica defronta-se com complexos desafios curriculares e formativos. Apesar do robusto arcabouço normativo que preconiza a transversalidade da geropedagogia, a invisibilidade do tema nos cursos de formação inicial de professores atua como um obstáculo para a consolidação de práticas pedagógicas perenes, resultando frequentemente em abordagens fragmentadas ou meramente sazonais. (DILL et al., 2026, p. 8).
Diante dessa lacuna apontada pela literatura, a pesquisa-ação na instituição de Triunfo/RS buscou subverter o isolamento das disciplinas. O planejamento coletivo da área de Ciências Humanas buscou mitigar as tensões históricas entre a especialização e a articulação de saberes, as quais são discutidas por Mourad et al. (2026), ao analisarem a constituição da identidade docente:
A identidade disciplinar docente, edificada sobre a sólida tradição das disciplinas acadêmicas na estrutura universitária, gera uma assimetria simbólica que tende a valorizar o aprofundamento específico em detrimento do diálogo interdisciplinar. O desafio contemporâneo das redes de ensino não reside na negação da especialização, mas na capacidade de mobilizar as matrizes conceituais de origem para construir sínteses plurais frente às demandas complexas da escola básica. (MOURAD et al., 2026, p. 15).
No âmbito da pesquisa-ação, o primeiro autor, na condição de professor de História e proponente da intervenção, atuou de forma central e participativa em todas as etapas do processo. A partir do levantamento bibliográfico e documental, ele elaborou a proposta inicial e a submeteu ao debate com os demais colegas da área de Ciências Humanas (Geografia, Sociologia e Filosofia) durante os períodos de planejamento coletivo. Após a construção conjunta das diretrizes pedagógicas do projeto e a validação junto à equipe de gestão escolar, o corpo docente mobilizou ativamente as turmas de Ensino Médio Integral da instituição, mediando os processos de recepção, pesquisa e sistematização dos conceitos gerontológicos propostos.
Em vez de unificar as disciplinas de forma genérica, o projeto utilizou a densidade de cada ciência como ponto de partida para que os alunos pudessem compreender as múltiplas dimensões do envelhecimento populacional.
A exigência de equidade que baliza a pesquisa-ação também foi extraída diretamente dos documentos oficiais que norteiam as políticas públicas em 2025. O Documento Base da 6ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa reforça a necessidade de pautar o debate curricular a partir das assimetrias sociais:
A equidade no envelhecimento pressupõe a formulação e a execução de políticas públicas que considerem as especificidades de cada sujeito, garantindo que o envelhecer não seja um fator de aprofundamento de privilégios para uns e de exclusões para outros. O envelhecimento multicultural e democrático exige o reconhecimento urgente de que as desigualdades acumuladas ao longo do curso da vida, tais como o racismo, o sexismo e a pobreza, tendem a se acentuar de forma severa na velhice. (BRASIL, 2025, p. 6).
3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A base teórica deste estudo está assentada sobre a necessária convergência entre duas pautas complexas da educação contemporânea: a gerontologia educativa e a organização curricular do ensino médio integral. Para compreender a complexidade de se transpor a temática geropedagógica para o cotidiano escolar, faz-se indispensável analisar as premissas que orientam o trabalho docente coletivo e as barreiras que historicamente fragmentam os saberes na tradição acadêmica.
3.1. Formação por Áreas nas Ciências Humanas e a Identidade Disciplinar Docente
O debate contemporâneo acerca da reorganização curricular da Educação Básica brasileira, impulsionado pelas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), estabelece a estruturação do conhecimento por grandes áreas, demandando práticas pedagógicas de caráter eminentemente interdisciplinar. No âmbito das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, essa configuração exige que os docentes transitem entre as fronteiras tradicionais da História, Geografia, Sociologia e Filosofia. Contudo, essa exigência legal tensiona diretamente as estruturas universitárias de formação inicial, historicamente pautadas na fragmentação e na especialização crescente do saber, o que consolida barreiras na cultura escolar.
Essa assimetria entre as demandas da escola e a formação acadêmica dá origem ao que se conceitua como identidade disciplinar docente. Os percursos formativos tradicionais estimulam um pertencimento simbólico e corporativo estrito ao campo de origem, gerando resistências simbólicas quando os profissionais são chamados a atuar de forma articulada. Ao analisarem as raízes históricas e institucionais dessas tensões no cenário nacional, Mourad et al. (2026). advertem:
Mesmo com as orientações mais integradoras quanto à relação 'formação disciplinar/formação para a docência', na prática ainda se verifica a prevalência do modelo consagrado no início do século XX para essas licenciaturas. [...] A formação de professores para a educação básica é feita, em todos os tipos de licenciatura, de modo fragmentado entre as áreas disciplinares e níveis de ensino, não contando o Brasil, nas instituições de ensino superior, com uma faculdade ou instituto próprio, formador desses profissionais, com uma base comum formativa. (GATTI, 2010, p. 1357-1358 apud MOURAD et al., 2026, p. 5).
Essa fragmentação histórica demonstra que as dificuldades para a consecução de projetos integrados não decorrem de limitações metodológicas isoladas dos professores, mas de estruturas acadêmicas persistentes que associam legitimidade e prestígio à verticalização disciplinar. No entanto, a literatura destaca que a superação desse isolamento não implica a dissolução ou o esvaziamento das ciências de origem. A potência da interdisciplinaridade reside justamente na capacidade de cada campo manter sua densidade conceitual, construindo conexões que permitam apreender a realidade social em suas múltiplas determinações.
O desafio de transversalizar a geropedagogia na Educação Básica esbarra justamente nessas tensões que circundam a organização curricular por áreas do conhecimento promovida pela BNCC. Como analisam Mourad et al. (2026), a estrutura universitária das licenciaturas consolidou historicamente o confinamento e a dependência dos percursos formativos aos bacharelados disciplinares, forjando uma sólida identidade disciplinar docente. Professores de História, Geografia, Sociologia e Filosofia tendem a construir suas trajetórias e pertencimentos simbólicos estritamente em torno de suas ciências de origem, o que gera barreiras institucionais frente às demandas de articulação das redes de ensino contemporâneas.
A literatura especializada demonstra que o diálogo interdisciplinar e a atuação por áreas não exigem o abandono ou o esvaziamento da especialização disciplinar. Pelo contrário, a interdisciplinaridade pressupõe o amadurecimento e o reconhecimento dos limites de cada campo científico, substituindo a dissociação moderna por uma epistemologia de complementaridade. A investigação aprofundada de problemas sociais transversais demanda formas de articulação capazes de combinar profundidade teórica e diálogo entre saberes. Quando as fronteiras se fecham rigidamente, impede-se a leitura da totalidade social, conforme discutido por Mourad et al. (2026) a partir do aporte de Japiassu:
O especialista não visualiza o conjunto porque está cativo dos detalhes. A disciplina, uma vez emancipada, consolida-se por via administrativa, tende a centrar-se sobre si mesma e não se comunica com outros espaços mentais e intelectuais. Os espaços intelectuais compartimentados conduzem à formação de sistemas feudais que controlam as iniciativas de ensino e de investigação (GATTÁS; FUREGATO apud MOURAD et al., 2026, p. 4).
Desse modo, a área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas encontra sua potência pedagógica justamente quando mobiliza os conceitos e métodos específicos de cada um de seus componentes para construir uma interpretação global e humanista da realidade. Em vez de diluir os saberes em um ecletismo superficial, o saber por área exige um tensionamento produtivo onde a especialização e a articulação atuam como dimensões complementares. Como substituem e sintetizam Mourad et al. (2026):
Os resultados desta reflexão não sugerem o abandono das disciplinas nem a substituição da especialização pela interdisciplinaridade. Ao contrário, reconhecem que a especialização constitui condição fundamental para a produção e aprofundamento do conhecimento científico. Da mesma forma, a articulação entre saberes não implica a diluição das especificidades disciplinares, mas a construção de diálogos capazes de enfrentar questões que ultrapassam os limites de qualquer campo isolado de conhecimento. (MOURAD et al., 2026, p. 19).
3.2. Geropedagogia, Idadismo e a Perspectiva das Múltiplas Velhices
Paralelamente aos desafios de articulação curricular, a escola é desafiada a incorporar temáticas transversais urgentes, com especial destaque para a educação sobre o envelhecimento e a promoção da intergeracionalidade, conforme preconizado pelo Estatuto da Pessoa Idosa. A introdução dessa pauta pedagógica evoca o arcabouço da geropedagogia, campo que afasta visões estritamente assistencialistas ou biomédicas da velhice para compreendê-la como dimensão ética, social e política do curso da vida. Como analisam Dill et al. (2026), a efetivação dessa agenda de direitos humanos esbarra na invisibilidade do tema nos cotidianos escolares, decorrente de lacunas severas na qualificação dos profissionais da educação:
A efetivação da educação sobre o envelhecimento como agenda curricular depende diretamente da formação inicial e continuada dos profissionais da educação. Embora o ordenamento jurídico brasileiro reconheça a importância da temática, sua implementação concreta nas escolas ainda encontra obstáculos relacionados à ausência de formação específica, à limitada transversalização curricular e à escassez de materiais pedagógicos voltados ao tema do envelhecimento (DILL et al., 2026, p. 5).
Essa lacuna formativa favorece a reprodução involuntária do idadismo ou etarismo, o preconceito baseado na idade, naturalizado nas estruturas sociais contemporâneas e reproduzido no ambiente escolar sob a forma de estereótipos que reduzem a pessoa idosa à condição de polo passivo ou mero "peso" socioeconômico. O enfrentamento dessa violência estrutural e institucional exige que o currículo de Ciências Humanas incorpore de forma transversal a noção de "múltiplas velhices", reconhecendo que o processo de envelhecer não se dá de maneira uniforme, linear ou retilínea, mas é moldado pelas desigualdades estruturais da sociedade.
As trajetórias do curso da vida não são retilíneas ou uniformes, sendo profundamente atravessadas por marcadores interseccionais de raça, classe, gênero, sexualidade e território. Sob este prisma, o documento orientador que baliza as políticas públicas nacionais adverte textualmente sobre a complexidade das múltiplas velhices:
A relação entre raça, etnia, gênero, identidade de gênero, orientação sexual, classe, deficiência, religião, território, incidem diretamente nos indicadores de saúde e bem-estar, interferindo negativamente ou positivamente na expectativa de vida das populações. [...] O envelhecimento multicultural e democrático exige o reconhecimento de que as desigualdades acumuladas ao longo da vida (racismo, sexismo, pobreza) se acentuam na velhice (BRASIL, 2024, p. 21, 6).
Portanto, a educação para a intergeracionalidade opera como uma ferramenta ética e política de justiça social no interior da escola, estimulando o convívio e transformando o jovem em um garantidor de direitos e a pessoa idosa em protagonista de sua própria história.
Sob essa ótica teórica, a educação intergeracional assume um caráter político e emancipatório no Ensino Médio. Ela convoca a escola a se organizar por áreas do conhecimento para compreender de que forma o racismo estrutural, o sexismo e as assimetrias territoriais operam na longevidade das populações, instrumentalizando a juventude para atuar como garantidora de direitos e transformando o ambiente escolar em um território de coeducação permanente.
4. RELATO DE EXPERIÊNCIA E DISCUSSÃO
A análise da práxis pedagógica aqui descrita materializa os pressupostos teóricos discutidos anteriormente, convertendo as diretrizes abstratas das políticas curriculares e gerontológicas em ações e intervenções concretas no ambiente escolar. Por meio da metodologia da pesquisa-ação, o cotidiano da instituição de ensino foi tensionado para se transformar em um espaço de intercâmbio de saberes entre diferentes gerações. As subseções a seguir detalham esse percurso, recuperando o processo coletivo de articulação entre os docentes e a posterior ramificação prática das atividades vivenciadas na realidade escolar.
4.1. Gênese do Projeto e Articulação Intersetorial por Áreas
O presente relato expõe o andamento e o desenvolvimento do projeto "Educação para a Intergeracionalidade", gestado e executado na Escola Estadual de Ensino Médio Coelho Machado, localizada no município de Triunfo, estado do Rio Grande do Sul, cujo intuito central assenta-se no combate contínuo ao etarismo. A proposta teve início com o marco do ano letivo de 2026, correlacionando-se diretamente com a grande área do conhecimento vinculada às Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Na primeira reunião de Professores Coordenadores de Área (PCAs), elegeram-se temas geradores a serem trabalhados e debatidos ao longo de todo o ano escolar. Naquela ocasião, cada área do saber elencou suas prioridades e possibilidades de articulação recíproca, almejando que o conhecimento fosse construído e consolidado em um formato significativamente integrador. Ficou estabelecido, de forma tácita e prioritária, que as humanidades desenvolveriam o eixo condutor do projeto, ao passo que as demais áreas do saber cooperariam em parceria ao longo do desenvolvimento pedagógico da proposta.
O passo subsequente materializou-se quando o grupo de docentes e o coordenador de área de Ciências Humanas do Ensino Médio Integral da referida instituição, professor Diovane da Rosa Dill, reuniram-se para estabelecer os balizadores, as metas operacionais e as estratégias de desenvolvimento do projeto. No encontro, que contou com a participação ativa dos professores de História, Sociologia, Filosofia e Geografia, as discussões convergiram para a premissa de que a intervenção deveria ocorrer de forma transversal, não se constituindo em um impeditivo ou obstáculo para o desenvolvimento dos conteúdos referenciais programáticos de cada uma das disciplinas.
Como prerrogativa fundamental, buscou-se não alterar totalmente a ordem cronológica dos conteúdos previstos no plano de estudos para viabilizar a implementação da proposta. A partir desse diagnóstico, os docentes realizaram ajustes no planejamento no sentido de ampliar o tempo de aplicação do projeto, o qual estava programado originalmente para a duração de um mês e, após as deliberações coletivas, teve seu tempo ampliado para três meses de imersão.
Ainda nesse primeiro encontro da área de humanidades, acordou-se que cada um dos docentes presentes assumiria o compromisso de pensar e sistematizar os assuntos e conceitos passíveis de desenvolvimento em sua respectiva disciplina, devendo elencá-los e apresentá-los no encontro subsequente da referida área do conhecimento.
No segundo encontro de área das Ciências Humanas da E.E.E.M. Coelho Machado, o grupo de professores enumerou e detalhou as possibilidades de abordagem do tema gerontológico, firmando o acordo tácito de que as propostas teóricas e práticas seriam compartilhadas com os demais colegas do corpo docente da escola e com a comunidade estudantil. Acertou-se, portanto, que a área elencaria uma série de tópicos amplos, dos quais se elegeria, ao longo do desenvolvimento do projeto, uma parte deles para ser trabalhada em momentos distintos e integrados.
No quarto encontro dos professores da área, definiram-se as diretrizes metodológicas do processo de aplicação, desenvolvimento e caráter avaliativo do projeto. Visando dinamizar e diversificar as atividades pedagógicas, estabeleceu-se a incorporação articulada de aulas expositivas, textos xerocados, discussões coletivas, exibições de vídeos e intervenções comunitárias complementares. Entre as intervenções projetadas pela área, estruturaram-se:
Roda de Conversa "Vozes do Tempo": Projeta-se a realização de um encontro na escola com idosos convidados que apresentem uma diversidade de perfis sociais e territoriais (negros, indígenas, LGBTQI+, trabalhadores da mineração e egressos do campo);
Visita Solidária (Comensalidade e Escuta): Projetou-se uma ida programada a uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI/Asilo) da cidade para levar lanches autorizados e, prioritariamente, propiciar que os estudantes exerçam a escuta ativa das histórias de vida, aplicando na prática os conceitos de Kairós e de memória oral;
Mostra Cultural Intergeracional: Planejou-se a realização de apresentações públicas onde jovens alunos e pessoas idosas compartilhem habilidades mútuas (como música, dança e artesanato), quebrando as barreiras do preconceito etário no município.
Num primeiro momento, quando do início prático do projeto, desenvolvido exclusivamente com as turmas de Ensino Médio Integral, o foco central fixou-se em demonstrar aos estudantes as bases conceituais e os objetivos da proposta. A maioria dos esclarecimentos iniciais deu-se de forma expositiva, com os docentes explicitando minuciosamente, no âmbito de cada disciplina, os porquês e os caminhos metodológicos da abordagem da intergeracionalidade. Cada professor realizou esclarecimentos e descreveu sumariamente os tópicos a serem tratados, garantindo que os discentes obtivessem clareza sobre o que iriam pesquisar, aprender e, posteriormente, apresentar.
4.2. O Planejamento, Execução e Projeção por Componente Curricular
A transversalização do projeto na área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas exigiu um esforço coordenado para que as categorias conceituais de cada ciência fossem rigorosamente respeitadas e aprofundadas no interior de suas respectivas cargas horárias. Longe de representar uma dissolução de saberes, cada componente curricular desenhou um itinerário investigativo próprio, articulando o planejamento prévio, os resultados práticos já consolidados com os estudantes e as etapas de intervenção projetadas para o restante do ano letivo de 2026. A seguir, descrevem-se as especificidades metodológicas e conceituais construídas por cada disciplina envolvida.
4.2.1. Filosofia: O Tempo, a Estética e a Ética do Existir
O que a disciplina projetou: O plano de Filosofia previu a discussão ética e existencial do tempo e do envelhecimento, estruturando-se a partir de quatro tópicos centrais: a contraposição entre Cronos (tempo quantitativo, linear do relógio e da produtividade capitalista) e Kairós (tempo qualitativo, da oportunidade, da maturidade e sabedoria); o diagnóstico do "Mito da Juventude Eterna" manufaturado pela Indústria Cultural (Escola de Frankfurt) como padrão de valor mercadológico; a análise do envelhecimento sob a lógica da repetição e do descarte laboral a partir do "Mito de Sísifo"; e a utilização de tecnologias digitais (filtros de Inteligência Artificial de envelhecimento) para tensionar o pânico social em contraste com a ética do Bem Viver (Sumak Kawsay).
O que já foi feito: O professor de Filosofia executou a introdução teórica e conceitual dos termos, registrando de forma sintética no quadro-negro as distinções entre Cronos e Kairós
Figura 1. Apresentação da atividade
Durante a mediação dessa atividade expositiva, o docente registrou, com surpresa, a emersão de questionamentos ativos por parte dos estudantes, os quais trouxeram à tona e afirmaram outras formas tradicionais de compreender a temporalidade, tais como o ciclo das águas, as fases da lua, a rebrota das árvores e as floradas. No que tange à analogia com o Mito de Sísifo, os discentes apropriaram-se do personagem mitológico e de seu castigo repetitivo para produzir textos autorais comparando a rotina do mito ao envelhecimento no ambiente laboral contemporâneo, discutindo como os sujeitos idosos permanecem reproduzindo funções cotidianas idênticas que cerceiam a criatividade diuturna.
O que se fará: No decorrer do ano letivo de 2026, a disciplina de Filosofia executará a atividade prática com os filtros de IA voltados à estética do tempo pleno e atuará em parceria direta com a professora de Projeto de Vida para orientar e acompanhar os estudantes durante a Visita Solidária à ILPI da cidade.
4.2.2. Sociologia: Interseccionalidade e Poder
O que a disciplina projetou: O planejamento de Sociologia delimitou três recortes analíticos essenciais: a aplicação do conceito de interseccionalidade para demonstrar que as faces do envelhecer são fraturadas por marcadores de raça, classe, gênero e orientação sexual, renegando uma velhice homogênea; a investigação do conceito de "racismo ambiental" aplicado à velhice periférica e rural; e o contraste ético entre a valorização do idoso enquanto "biblioteca viva" em comunidades tradicionais e o descarte previdenciário urbano. Estabeleceu-se que os recortes seriam tratados sequencialmente e que eventuais ajustes de cronograma seriam equalizados nas reuniões semanais de planejamento.
O que já foi feito: O professor mediou pesquisas orientadas em múltiplos sítios eletrônicos em sala de aula, permitindo aos estudantes compreenderem como a ancestralidade atua de forma fundante na constituição da identidade e de maneira diametralmente oposta aos processos de invisibilização social das populações envelhecidas
Figura 2. Pesquisa dos Estudantes
Na Mostra Científica, um grupo de estudantes do segundo ano aprofundou as investigações iniciadas em sala e cruzou os dados censitários do IBGE com a variável racial. Os discentes apresentaram conclusões apontando que a população negra que atinge a terceira idade vivencia condições de maior empobrecimento em comparação à população branca, evidenciando que o acesso à saúde, aos bens culturais e ao lazer na velhice é racialmente desigual, o que configura um somatório opressivo de racismos e etarismos.
O que se fará: A disciplina dará continuidade aos debates sociológicos pautando as especificidades das identidades de gênero e orientações sexuais nas velhices (público LGBTQIAPN+), além de estruturar as categorias sociológicas que subsidiarão a confecção do roteiro de entrevistas do documentário escolar.
4.2.3. Geografia: Demografia, Território e Desigualdade
O que a disciplina projetou: O plano de estudos geográficos projetou a mobilização das categorias de espaço, território e demografia para compreender a dinâmica espacial do envelhecer, atentando para variáveis de renda, inclusão sociocultural, consumo de bens e serviços. Os tópicos fixados compreenderam: o estudo comparativo de pirâmides etárias correlacionando território e longevidade (comparação entre bairros nobres e periféricos); as assimetrias espaciais entre velhices rurais e urbanas no acesso a serviços; e o crescimento do fenômeno demográfico de idosos em situação de rua nos centros urbanos. A distribuição dos temas e os dias e horários mais adequados ficaram sob a responsabilidade do professor titular.
O que já foi feito: O docente operou o trato dos conceitos através de pesquisas digitais online mediadas pelo uso de chromebooks em sala de aula, incentivando os estudantes a "garimparem" dados e a realizarem a sistematização nos cadernos para a posterior confecção de cartazes, painéis, esquemas explicativos e mapas mentais. Esse processo culminou na Mostra Científica promovida pela SEDUC, onde um grupo de alunos expôs dados do IBGE para demonstrar o envelhecimento populacional e problematizar a qualidade de vida dos idosos a partir da infraestrutura da moradia. Utilizando uma maquete de residência, os alunos discutiram temas como a falta de calçamento, iluminação pública, rede de esgoto e acesso a água tratada e energia elétrica nos espaços habitados pela população idosa. Outro grupo expôs dados sobre as deficiências estruturais do poder público no agendamento de consultas por agentes de saúde e na oferta de praças adaptadas, academias ao ar livre e programações culturais voltadas ao público 60+.
O que se fará: A Geografia projetará para as etapas subsequentes o mapeamento cartográfico das áreas de maior concentração de idosos no município de Triunfo/RS, analisando os fluxos migratórios campo-cidade e as condições espaciais das comunidades tradicionais locais.
4.2.4. História: Memória, Resistência e Políticas Públicas
O que a disciplina projetou: O corpo docente de História projetou a contextualização histórica da velhice no Brasil através de quatro eixos: a investigação da velhice escravizada durante o período colonial e imperial sob o conceito de corpo-mercadoria versus corpo-resistência; a análise crítica da Lei dos Sexagenários (1885); o estudo da evolução da saúde pública e da Revolução Sanitária; e a historicização do Sistema Único de Saúde (SUS) e das campanhas de imunização na transformação da velhice em uma fase de novos projetos vitais.
O que já foi feito: Os estudantes debateram de forma crítica as condições laborais do Brasil Império e a Lei dos Sexagenários, apreendendo que a normativa se configurou majoritariamente como uma estratégia das elites agrárias para desonerar os escravocratas do cuidado de corpos exauridos, visto que quase nenhum escravizado sobrevivia até os sessenta anos de idade.
Figura 3. Apresentação de Atividades
A partir da pesquisa e da confecção de painéis, os discentes alcançaram a conclusão historiográfica de que, se levados em conta os parâmetros e as médias de longevidade da época, os conceitos contemporâneos de idoso, velhice e envelhecimento não encontram aplicabilidade direta e mecânica naquele período histórico.
O que se fará: A disciplina de História executará nas próximas etapas a coleta de depoimentos para o resgate da memória oral do município de Triunfo e pautará a historicidade dos direitos sociais no Brasil pós-1988, demonstrando a evolução legislativa que culminou na promulgação da PNI e do Estatuto da Pessoa Idosa.
4.3. Articulações Interdisciplinares da Área de Linguagens e Projeto de Vida
O caráter integrador do projeto propiciou que, durante os encontros de Planejamento Coletivo de Área, outras frentes curriculares propusessem parcerias em andamento. A coordenadora da área de Linguagens anunciou o planejamento de uma atividade em parceria com uma ex-aluna da instituição, graduada em cinema, para construir junto aos jovens estudantes um documentário fílmico com mulheres idosas residentes na cidade. A produção encontra-se em fase de elaboração, estruturando-se a partir de um roteiro previamente elaborado pelos estudantes para registrar as trajetórias de vida, as experiências, as contribuições sociais locais e os sonhos de futuro dessas mulheres. De modo concomitante, a professora de Projeto de Vida formalizou a intenção de executar, em parceria direta com o componente de Filosofia, a Visita Solidária ao lar de idosos municipal, consolidando o intercâmbio prático planejado.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As reflexões e desdobramentos parciais sistematizados ao longo deste estudo evidenciam que os debates contemporâneos sobre a organização do ensino por áreas do conhecimento nas Ciências Humanas ultrapassam questões puramente técnicas ou metodológicas de organização curricular. Ao tomarmos como objeto a pesquisa-ação em desenvolvimento na E.E.E.M. Coelho Machado, em Triunfo/RS, ficou demonstrado que a transversalidade de uma temática complexa e urgente, como a educação para a intergeracionalidade e o combate ao idadismo, encontra sua viabilidade pedagógica real na articulação dialógica entre os saberes escolares.
Por se tratar de uma intervenção planejada para abranger a totalidade do ano letivo de 2026, os dados obtidos até este momento não possuem caráter conclusivo ou definitivo. Contudo, os resultados colhidos no primeiro ciclo, especialmente as produções discentes externadas na mostra científica cultural promovida pela SEDUC, já descortinam transformações sensíveis na percepção dos estudantes do Ensino Médio Integral. O contato com os conceitos gerontológicos permitiu que os discentes superassem visões reducionistas e homogeneizantes da velhice, apreendendo-a sob o prisma das "múltiplas velhices" e tencionando as desigualdades estruturais e interseccionais de raça, classe, gênero e território que incidem de forma severa sobre o envelhecimento da população brasileira.
No plano da prática docente e da epistemologia escolar, a experiência empírica deste projeto ratifica a hipótese defendida na literatura de que a atuação integrada por áreas do conhecimento não exige e não deve pactuar com o esvaziamento conceitual ou com o abandono da especialização disciplinar. Pelo contrário, a força e a riqueza analítica manifestadas nas pesquisas e produções dos alunos derivaram diretamente do amadurecimento e da profundidade teórica que cada ciência de origem aportou: a Filosofia problematizou a ética do existir e as temporalidades; a Sociologia descortinou a interseccionalidade e o racismo ambiental; a Geografia mapeou as assimetrias demográficas e infraestruturais do território; e a História resgatou a memória e a historicidade das opressões e das conquistas sociais no Brasil.
Dessa forma, as etapas que ainda se farão no decorrer deste ano letivo de 2026, a qual compreendem a consolidação das visitas solidárias de escuta às ILPIs e a conclusão do documentário fílmico municipal com mulheres idosas, darão perenidade à ação, consolidando a geropedagogia como um eixo perene e transformador no currículo da Educação Básica. Conclui-se que, ao habitar criticamente as fronteiras entre a identidade disciplinar e a integração de saberes, a escola pública cumpre sua função social mais nobre, convertendo conteúdos escolares em ferramentas de cidadania, fraternidade e promoção dos direitos humanos ao longo de todo o curso da vida.
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1 Pós doutorando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) – UTFPR - Pato Branco. Docente da SEDUC/RS. LATTES: http://lattes.cnpq.br/6359021740632462
2 Docente da SEDUC/RS - Licenciado em Geografia pela ULBRA.
3 Docente da SEDUC/RS – Licenciada em Educação Física pela ULBRA.
4 Docente da SEDUC/RS – Licenciada em Letras/Português pela ULBRA.
5 Docente da SEDUC/RS – Licenciado em História pela UNISINOS. Diretor da Escola.
6 Docente da SEDUC/RS – Licenciado em História pela ULBRA.
7 Docente da SEDUC/RS – Licenciado em História pela ULBRA.
8 Docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) – UTFPR - Pato Branco. LATTES: http://lattes.cnpq.br/1982876455910216
9 Docente do Programa de Pós-graduação em Ensino de Geografia (PROFGEO) – UFSM. Santa Maria. LATTES: http://lattes.cnpq.br/7689442989367017