A PERSPECTIVA PSICOPEDAGÓGICA NO PROCESSO DE AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM ESCRITA: UMA REFLEXÃO TEÓRICA

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18409648


Gilson Júnior de Oliveira Silva1


RESUMO
Este artigo analisa, em perspectiva teórica e interdisciplinar, as contribuições da Psicopedagogia para a compreensão do processo de aquisição da linguagem escrita, considerando suas dimensões cognitivas, afetivas, sociais, culturais e institucionais. Parte-se do pressuposto de que a aprendizagem da leitura e da escrita constitui um fenômeno complexo, historicamente situado e simbolicamente mediado. O objetivo geral consiste em analisar, sob abordagem teórica e interdisciplinar, as contribuições da Psicopedagogia para a compreensão da aquisição da linguagem escrita. Como objetivos específicos, busca-se discutir os fundamentos epistemológicos da Psicopedagogia a partir do diálogo com a Epistemologia Genética, a Psicologia Histórico-Cultural, a Psicanálise e a Pedagogia; compreender a aprendizagem como processo multidimensional; analisar a trajetória histórica da Psicopedagogia e sua consolidação no campo educacional brasileiro; e investigar a aquisição da linguagem escrita como prática social, simbólica e histórico-cultural, abordando as dificuldades de aprendizagem de forma não patologizante e orientando intervenções psicopedagógicas críticas, inclusivas e socialmente comprometidas. Argumenta-se que a perspectiva psicopedagógica amplia o entendimento das dificuldades de aprendizagem ao deslocar o foco do déficit individual para a análise das relações do sujeito com o saber, com o outro e com a cultura. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza teórica e bibliográfica, fundamentada na análise crítica de produções clássicas e contemporâneas das áreas da Psicopedagogia, Psicologia e Educação. Os resultados evidenciam que a aquisição da linguagem escrita deve ser compreendida como prática social e histórico-cultural, demandando intervenções educativas éticas, não reducionistas e socialmente comprometidas. Conclui-se que tal abordagem contribui para práticas educativas mais inclusivas, críticas e socialmente comprometidas.
Palavras-chave: Psicopedagogia; Linguagem escrita; Aprendizagem; Leitura; Educação.

ABSTRACT
This article analyzes, from a theoretical and interdisciplinary perspective, the contributions of Psychopedagogy to the understanding of the process of acquiring written language, considering its cognitive, affective, social, cultural, and institutional dimensions. It is based on the assumption that learning to read and write constitutes a complex phenomenon, historically situated and symbolically mediated. The general objective is to analyze, under a theoretical and interdisciplinary approach, the contributions of Psychopedagogy to the understanding of the acquisition of written language. As specific objectives, it seeks to discuss the epistemological foundations of Psychopedagogy from the dialogue with Genetic Epistemology, Historical-Cultural Psychology, Psychoanalysis, and Pedagogy; to understand learning as a multidimensional process; to analyze the historical trajectory of Psychopedagogy and its consolidation in the Brazilian educational field; and to investigate the acquisition of written language as a social, symbolic, and historical-cultural practice, addressing learning difficulties in a non-pathologizing way and guiding critical, inclusive, and socially committed psychopedagogical interventions. It is argued that the psychopedagogical perspective broadens the understanding of learning difficulties by shifting the focus from individual deficits to the analysis of the subject's relationships with knowledge, with others, and with culture. Methodologically, this is a qualitative research, of a theoretical and bibliographical nature, based on the critical analysis of classic and contemporary productions in the areas of Psychopedagogy, Psychology, and Education. The results show that the acquisition of written language should be understood as a social and historical-cultural practice, demanding ethical, non-reductionist, and socially committed educational interventions. It is concluded that this approach contributes to more inclusive, critical, and socially committed educational practices.
Keywords: Psychopedagogy; Written language; Learning; Reading; Education.

1. INTRODUÇÃO

A aquisição da linguagem escrita configura-se como um dos marcos centrais do processo de escolarização e da inserção do sujeito nas práticas sociais letradas. Longe de se restringir à aprendizagem mecânica de códigos gráficos, tal processo implica a construção de sentidos, a apropriação de discursos socialmente produzidos e a constituição de uma relação simbólica com o conhecimento. Ler e escrever significam, portanto, participar de uma cultura historicamente organizada por meio de textos, narrativas e registros escritos.

Entretanto, a permanência de índices elevados de fracasso escolar, sobretudo nos anos iniciais, evidencia que a aprendizagem da leitura e da escrita continua sendo um dos grandes desafios da educação contemporânea. Torna-se, assim, insuficiente explicar as dificuldades de aprendizagem a partir de perspectivas reducionistas que responsabilizam exclusivamente o aluno por supostos déficits cognitivos ou limitações individuais.

Nesse contexto, a Psicopedagogia consolida-se como campo interdisciplinar dedicado à compreensão dos processos de aprender e de não aprender, analisando o sujeito em sua totalidade e em sua inserção histórica e social. Ao articular diferentes saberes, propõe uma leitura ampliada da aprendizagem, entendendo-a como processo relacional, simbólico e culturalmente mediado.

Diante disso, este artigo tem como objetivo geral analisar, em perspectiva teórica e interdisciplinar, as contribuições da Psicopedagogia para a compreensão do processo de aquisição da linguagem escrita, considerando suas dimensões cognitivas, afetivas, sociais, culturais e institucionais.

Como objetivos específicos, busca-se: discutir os fundamentos epistemológicos da Psicopedagogia a partir do diálogo com a Epistemologia Genética, a Psicologia Histórico-Cultural, a Psicanálise e a Pedagogia; compreender a aprendizagem como processo multidimensional, articulando aspectos cognitivos, afetivos, simbólicos e socioculturais.

Além disso, pretende-se analisar a trajetória histórica da Psicopedagogia e sua consolidação no campo educacional brasileiro; e investigar a aquisição da linguagem escrita como prática social, simbólica e histórico-cultural, abordando as dificuldades de aprendizagem de forma não patologizante e orientando intervenções psicopedagógicas críticas, inclusivas e socialmente comprometidas.

Parte-se da compreensão de que a Psicopedagogia oferece instrumentos teóricos relevantes para repensar a leitura e a escrita como práticas sociais e como experiências subjetivas atravessadas por desejos, conflitos e significações.

2. FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS DA PSICOPEDAGOGIA

A Psicopedagogia constitui-se como campo de saber que emerge da necessidade de superar explicações unilaterais da aprendizagem. Historicamente, a dificuldade de aprender foi interpretada ora como problema estritamente pedagógico, ora como patologia de ordem psicológica ou neurológica. A Psicopedagogia surge justamente da insuficiência dessas leituras fragmentadas.

Como afirma Bossa (2015), trata-se de um campo que se constrói a partir do diálogo entre diferentes saberes, visando compreender o sujeito que aprende em sua totalidade e complexidade. Bossa (2015) afirma que a Psicopedagogia integra diferentes saberes para compreender o sujeito que aprende de forma integral e complexa.

Do ponto de vista epistemológico, fundamenta-se na articulação de diferentes matrizes teóricas. Da Epistemologia Genética, herda a compreensão do conhecimento como construção ativa do sujeito; da Psicologia Histórico-Cultural, incorpora a noção de mediação social e cultural; da Psicanálise, apropria-se da ideia de que o aprender é atravessado pelo desejo e pela história subjetiva; da Pedagogia, retém a reflexão sobre os processos de ensino e as práticas educativas.

Nessa direção, Vygotsky (2007) sustenta que todo processo de aprendizagem é mediado socialmente, sendo a linguagem e a interação elementos centrais do desenvolvimento. Vygotsky afirma que ninguém aprende sozinho: a aprendizagem acontece nas relações com outras pessoas, por meio do diálogo, da convivência e da linguagem, que são fundamentais para o desenvolvimento.

Nessa perspectiva, a aprendizagem não é concebida como simples resultado da transmissão de conteúdos, mas como processo de significação no qual o sujeito se implica simbolicamente. Aprender é, ao mesmo tempo, apropriar-se de um saber socialmente produzido e produzir um sentido singular para esse saber, o que confirma a ideia de Fernández (2001) de que aprender é sempre um ato que envolve desejo, história e relação com o outro.

A Psicopedagogia, portanto, não se reduz à aplicação de técnicas diagnósticas ou interventivas, mas constitui uma práxis teórico-reflexiva que interroga permanentemente o lugar do sujeito, do conhecimento e das instituições nos processos de aprendizagem.

2.1. A Aprendizagem Como Processo Multidimensional

A concepção psicopedagógica de aprendizagem rompe com modelos lineares e mecanicistas. Aprender implica a mobilização de estruturas cognitivas, mas também envolve afetos, expectativas, experiências anteriores, relações familiares, práticas escolares e condições socioculturais, o que confirma a ideia de Bossa (2015) de que a aprendizagem deve ser compreendida a partir da totalidade do sujeito.

Do ponto de vista cognitivo, a aprendizagem supõe processos de assimilação e acomodação, pelos quais o sujeito reorganiza suas estruturas de pensamento, conforme explica Piaget (2009). Tais processos, contudo, são mediados pela linguagem, pelas interações sociais e pelos instrumentos culturais, como sustenta Vygotsky (2007) ao afirmar que toda aprendizagem é socialmente mediada.

A aprendizagem configura-se como processo complexo e não mecânico, envolvendo o sujeito em sua totalidade — pensamento, emoções, experiências de vida, relações e contextos sociais —, no qual construir sentido se sobrepõe à mera repetição de conteúdos.

Nesse movimento, o sujeito reorganiza suas estruturas cognitivas por meio da assimilação e acomodação, mediadas pela linguagem, pelas interações sociais e pelos instrumentos culturais, tornando-se simultaneamente agente interno e participante social na construção do conhecimento.

A dimensão afetiva exerce papel decisivo: o desejo de saber, o medo do erro e a relação com a autoridade atravessam toda experiência de aprendizagem. Muitas dificuldades não decorrem da incapacidade cognitiva, mas de bloqueios simbólicos, experiências reiteradas de fracasso ou relações pedagógicas marcadas pela desvalorização do sujeito.

A Psicopedagogia sustenta, assim, uma visão complexa da aprendizagem, entendendo-a como fenômeno simultaneamente psíquico, social e cultural. Essa compreensão exige práticas educativas que considerem a singularidade dos sujeitos sem perder de vista as determinações históricas e institucionais.

3. BREVE TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA PSICOPEDAGOGIA

A constituição da Psicopedagogia está vinculada às transformações ocorridas nos campos da Medicina, Psicologia e Educação a partir do século XIX. Inicialmente, as dificuldades de aprendizagem eram interpretadas como decorrentes de déficits orgânicos ou intelectuais, sendo tratadas no âmbito médico.

Para Visca (2019), a Psicopedagogia nasceu como uma ocupação empírica pela necessidade de atender crianças com dificuldades de aprendizagem, cujas causas eram estudadas pela medicina e Psicologia. Sua trajetória precisa ser explorada para compreender como se desenvolveu ao longo do tempo, identificando os contextos que influenciaram sua emergência e evolução.

Com o desenvolvimento da Psicologia científica, sobretudo a partir dos testes de inteligência, consolidou-se uma perspectiva classificatória, que buscava separar os considerados aptos dos inaptos para a escolarização regular. Essa lógica contribuiu para a produção de práticas excludentes.

A partir da segunda metade do século XX, críticas a essa visão reducionista impulsionaram a construção de abordagens mais integradoras. A criação de centros psicopedagógicos na Europa e, posteriormente, na América Latina, marca a emergência de um campo preocupado em articular dimensões pedagógicas, psicológicas e sociais.

No Brasil, a Psicopedagogia consolida-se principalmente a partir da década de 1980, com a criação de cursos de formação e a ampliação de sua atuação nas escolas. Seu desenvolvimento acompanha a emergência do debate sobre inclusão, diversidade e direito à aprendizagem.

4. AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM ESCRITA: PARA ALÉM DO CÓDIGO

A linguagem escrita é uma tecnologia cultural que reorganiza profundamente as formas de pensar, comunicar e produzir conhecimento. Aprender a escrever não significa apenas dominar grafemas e fonemas, mas inserir-se em práticas sociais de leitura e produção de textos.

Sob a perspectiva psicopedagógica, a escrita é compreendida como prática simbólica. Ao escrever, o sujeito inscreve-se no campo da linguagem, posiciona-se discursivamente e constrói uma relação com o saber e com o outro.

Dificuldades na aquisição da escrita frequentemente expressam conflitos nessa relação. A recusa em escrever, o medo do erro ou a repetição de falhas não são apenas problemas técnicos, mas podem indicar entraves simbólicos na relação com o conhecimento e com a instituição escolar.

4.1. A Linguagem Escrita Como Produção Histórico-cultural

A escrita configura-se como um constructo histórico e cultural de longa duração, cujo domínio exige a inserção ativa do sujeito em práticas sociais letradas, nas quais a linguagem escrita exerce função comunicativa efetiva e significativa. Tal perspectiva evidencia que a apropriação da escrita transcende a mera aquisição técnica, articulando-se a contextos socioculturais nos quais o uso da linguagem escrita está profundamente imbricado às dinâmicas de interação e construção de sentido (Vygotsky, 2007; Oliveira, 2011).

Destaca-se que aprender a escrever transcende a mera técnica, envolvendo dimensões cognitivas, sociais e culturais, articuladas às interações e dinâmicas de construção de sentido. Assim, o trecho se torna análise crítica e fundamentada, adequada a produções acadêmicas de alto nível.

A Psicologia Histórico-Cultural demonstra que o desenvolvimento das funções psíquicas superiores ocorre por meio da mediação social. Assim, a aprendizagem da escrita depende das interações estabelecidas com adultos, professores e colegas, bem como das oportunidades de uso significativo da linguagem.

Quando a escola oferece práticas descontextualizadas, centradas apenas em exercícios mecânicos, dificulta a construção de sentidos e contribui para o afastamento do aluno da escrita como prática social.

4.2. Dificuldades de Aprendizagem em Leitura e Escrita

As dificuldades na aquisição da linguagem escrita manifestam-se de múltiplas formas e não podem ser explicadas por uma única causa. Nesse sentido, a Psicopedagogia propõe uma investigação que considere a história do sujeito, suas experiências escolares, suas relações familiares e o contexto sociocultural, buscando compreender os processos de aprendizagem de forma ampla e contextualizada (Kiguel, 2010).

A aquisição da linguagem escrita é um processo multifatorial, no qual dificuldades refletem a interação entre história, experiências, relações sociais e contexto cultural do sujeito (Kiguel, 2010). A Psicopedagogia busca compreender essas dimensões de forma integrada, superando explicações reducionistas.

O diagnóstico psicopedagógico não busca rotular, mas compreender. Trata-se de analisar como o sujeito aprende, como se relaciona com o erro, com o professor e com o saber. Muitas vezes, a dificuldade é produzida pela própria organização escolar, que não reconhece a diversidade dos modos de aprender.

4.3. Psicopedagogia Escolar e Práticas de Letramento

No âmbito institucional, a Psicopedagogia atua de forma preventiva e crítica. Analisa as práticas de ensino, o currículo e a organização do tempo e do espaço escolar, buscando identificar fatores que favorecem ou dificultam a aprendizagem.

Conforme Bossa (2015), no campo da linguagem escrita, isso implica discutir métodos de alfabetização, práticas de leitura e produção textual e a forma como a escola valoriza a autoria do aluno. Práticas homogêneas tendem a produzir exclusão simbólica.

No campo da linguagem escrita, isso implica discutir métodos de alfabetização, práticas de leitura e produção textual e a forma como a escola valoriza a autoria do aluno. Práticas homogêneas tendem a produzir exclusão simbólica.

4.4. Intervenção Psicopedagógica na Aquisição da Escrita

A intervenção psicopedagógica, compreendida como práxis teórico-clínica e institucional, tem como eixo central a reconstrução da relação do sujeito com o saber, entendida não como mera apropriação instrumental de conteúdos, mas como vínculo simbólico, afetivo e culturalmente mediado (Kiguel, 2010; Vygotsky, 2007; Ferreiro; Teberosky, 1999).

Por meio de situações de aprendizagem significativas, ancoradas na história e nas experiências culturais do aprendiz, busca-se ressignificar suas trajetórias de sucesso e fracasso, deslocando-o de posições de recusa para posições de autoria e implicação subjetiva no ato de conhecer.

Reconstruir a relação com o saber é, em última instância, possibilitar que o sujeito se reinscreva simbolicamente no campo da cultura letrada e do conhecimento científico, não como objeto de intervenção, mas como sujeito desejante, capaz de produzir sentidos, interpretar o mundo e transformá-lo por meio do saber.

O erro é entendido como parte constitutiva da aprendizagem, refletindo a maneira singular como o sujeito organiza suas hipóteses sobre a escrita e revelando os caminhos cognitivos, simbólicos e culturais que estruturam a construção do saber (Piaget, 1990; Freire, 2011).

O erro é compreendido como dimensão constitutiva e estruturante do processo de aprendizagem, expressando os modos singulares pelos quais o sujeito elabora e organiza suas hipóteses sobre a linguagem escrita. Longe de ser objeto de punição ou mera correção mecânica, deve ser interpretado como produção significativa do pensamento em atividade, reveladora dos caminhos cognitivos, simbólicos e culturais que orientam a construção do saber.

4.5. Psicopedagogia, Inclusão e Justiça Educacional

A perspectiva psicopedagógica articula-se de modo intrínseco ao projeto ético-político da educação inclusiva, ao afirmar a educabilidade universal como princípio fundante e ao reconhecer que todo sujeito é potencialmente capaz de aprender, desde que lhe sejam garantidas condições simbólicas, materiais e institucionais que sustentem sua relação com o saber (Vygotsky, 2007; Freire, 2011).

A Psicopedagogia se articula à educação inclusiva ao reconhecer que todos os sujeitos são capazes de aprender, desde que lhes sejam garantidas condições simbólicas, materiais e institucionais adequadas. A aprendizagem ocorre de forma mediada socialmente e culturalmente, respeitando a diversidade de ritmos, trajetórias e modos de apropriação do conhecimento, promovendo participação, autoria e justiça educacional.

A inclusão, nessa chave teórica, não se reduz à mera inserção física nos espaços escolares, mas implica participação efetiva, autoria e reconhecimento nas práticas de leitura e escrita, respeitando-se a diversidade dos ritmos, das trajetórias e dos modos singulares de apropriação do conhecimento.

4.6. Contribuições Teóricas da Psicopedagogia para a Linguagem Escrita

Ao articular diferentes matrizes teóricas em um campo epistemologicamente plural, a Psicopedagogia institui um olhar complexo e não reducionista sobre o processo de aquisição da linguagem escrita, possibilitando compreender por que sujeitos expostos a condições pedagógicas aparentemente homogêneas constroem percursos formativos profundamente heterogêneos (Piaget, 1990; Vygotsky, 2007; Ferreiro; Teberosky, 1999).

Tal compreensão funda-se no reconhecimento de que cada sujeito estabelece uma relação singular com o saber, atravessada por sua história, por seus afetos e por suas experiências socioculturais, de modo que reconhecer e legitimar essa singularidade constitui condição ética e política para a edificação de práticas educativas efetivamente democráticas (Freire, 2011; Kiguel, 2010).

A compreensão da aprendizagem da linguagem escrita exige uma abordagem que reconheça sua complexidade e singularidade. Sujeitos expostos às mesmas condições pedagógicas podem construir trajetórias formativas distintas, influenciadas por sua história, afetos e experiências socioculturais.

Dessa forma, a Psicopedagogia oferece fundamentos teóricos essenciais para práticas educativas inclusivas, democráticas e sensíveis às necessidades individuais, promovendo intervenções pedagógicas contextualizadas e eficazes.

5. METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de abordagem qualitativa, de natureza teórica e bibliográfica, com finalidade analítica, interpretativa e reflexiva. Não se trata de uma investigação empírica, pois não envolve coleta de dados em campo, mas fundamenta-se na análise crítica de produções teóricas consolidadas nas áreas da Psicopedagogia, Psicologia, Educação e Ciências Humanas.

O percurso metodológico baseia-se no levantamento, seleção e estudo de obras clássicas e contemporâneas, especialmente de autores como Piaget, Vygotsky, Freire, Ferreiro, Bossa, Fernández, Scoz, entre outros, cujas contribuições permitem compreender a aprendizagem e a aquisição da linguagem escrita em suas dimensões cognitivas, afetivas, sociais, culturais e institucionais.

A análise dos dados teóricos ocorre por meio de leitura interpretativa e problematizadora, articulando diferentes matrizes epistemológicas — como a Epistemologia Genética, a Psicologia Histórico-Cultural, a Psicanálise e a Pedagogia —, com vistas à construção de uma compreensão interdisciplinar do fenômeno estudado.

Desse modo, a metodologia ancora-se em uma perspectiva crítico-reflexiva e interdisciplinar, orientada pela articulação rigorosa de matrizes teóricas, a fim de compreender a linguagem escrita como prática simbólica, histórica e socialmente mediada, atravessada por processos de significação, relações de poder e formas singulares de constituição do sujeito.

6. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise teórica conduzida evidencia que a aquisição da linguagem escrita constitui um fenômeno complexo, multidimensional e historicamente situado, no qual se articulam dimensões cognitivas, afetivas, sociais, culturais e institucionais. Ao compreender a aprendizagem como processo relacional e simbolicamente mediado, a perspectiva psicopedagógica desloca o foco da análise do déficit individual para a investigação das relações do sujeito com o saber, com o outro e com a cultura, reafirmando que dificuldades na escrita não podem ser explicadas de forma isolada ou reducionista.

Com vistas a sistematizar as dimensões analíticas mobilizadas nesta investigação teórica, apresenta-se, a seguir, a Tabela 1, que organiza os principais eixos constitutivos da aquisição da linguagem escrita sob a perspectiva psicopedagógica, articulando fundamentos teóricos, elementos centrais e implicações educacionais.

Tabela 1 – Dimensões Analíticas da Aquisição da Linguagem Escrita sob a Perspectiva Psicopedagógica.

Dimensão

Fundamento Teórico

Elementos Centrais

Implicações Psicopedagógicas

Cognitiva

Piaget (1990; 2009)

Construção ativa do conhecimento; assimilação e acomodação

Compreensão dos níveis de elaboração da escrita sem rotulação

Afetiva

Fernández (2001); Freire (2011)

Desejo, medo do erro, relação com o saber

Intervenções que ressignificam a experiência de aprender

Social

Vygotsky (2007)

Mediação, interação, linguagem como prática social

Valorização do outro como mediador do aprendizado

Cultural

Soares (2009); Oliveira (2011)

Escrita como prática histórica e cultural

Inserção em práticas sociais significativas de letramento

Institucional

Bossa (2015); Scoz (2011)

Organização escolar, currículo, avaliação

Revisão de práticas excludentes e padronizadoras

Fonte: Elaborado pelo autor.

A sistematização apresentada na Tabela 1 evidencia que a aquisição da linguagem escrita, sob a perspectiva psicopedagógica, não pode ser compreendida a partir de uma única dimensão explicativa. Ao articular aspectos cognitivos, afetivos, sociais, culturais e institucionais, a tabela explicita a natureza multidimensional do aprender, reafirmando que as dificuldades de leitura e escrita emergem da interação entre diferentes determinações e não de déficits isolados do sujeito.

Tal compreensão reforça a necessidade de deslocar o olhar pedagógico de práticas normativas e padronizadoras para abordagens que reconheçam a complexidade do processo de aprendizagem e a singularidade das trajetórias formativas. Essa leitura integrada da aprendizagem permite avançar para a compreensão da escrita como prática social e histórica, aspecto que será aprofundado na discussão subsequente.

Sob a ótica da Psicopedagogia, a aprendizagem da linguagem escrita transcende o domínio técnico do código grafemático e fonêmico, configurando-se como prática social e histórico-cultural. Nesse contexto, o sujeito não apenas internaliza conhecimentos, mas constrói significados singulares ao se inserir em práticas letradas que mobilizam experiências, desejos, afetos e relações interpessoais.

Apresenta-se, a seguir, um quadro que sistematiza, sob a perspectiva psicopedagógica, as dimensões constitutivas da aquisição da linguagem escrita, evidenciando a interdependência entre leitura e escrita como processos relacionais, histórico-culturais e simbolicamente mediados.

Quadro 1: Relação dialética entre leitura e escrita no processo de aquisição da linguagem na perspectiva psicopedagógica.

Fonte: elaborado pelo autor.

O Quadro 1 evidencia a relação dialética e indissociável entre leitura e escrita, compreendidas como práticas sociais mediadas por dimensões cognitivas, afetivas e socioculturais, deslocando a alfabetização de uma abordagem técnico-instrumental para uma perspectiva de constituição subjetiva e produção de sentidos. Essa compreensão fundamenta a análise subsequente da escrita como ato de autoria, mediado pedagogicamente e atravessado pela relação do sujeito com o saber e com o erro.

O engajamento com a escrita torna-se, assim, ato de autoria e participação ativa, no qual o erro é compreendido não como falha a ser sancionada, mas como elemento constitutivo do processo de aprendizagem, revelando trajetórias cognitivas, simbólicas e culturais singulares. As dificuldades de aprendizagem, segundo a análise teórica, emergem da interação entre a história de vida do sujeito, suas experiências escolares, relações familiares e contexto sociocultural, indicando que fatores institucionais e metodológicos também influenciam o desempenho em leitura e escrita.

A fim de explicitar as matrizes epistemológicas que sustentam a análise desenvolvida, apresenta-se o Quadro 2, no qual se sintetizam as principais contribuições teóricas que fundamentam a compreensão psicopedagógica da linguagem escrita e das dificuldades de aprendizagem.

Quadro 2: Contribuições das Matrizes Teóricas para a Psicopedagogia da Linguagem Escrita.

Matriz Teórica

Contribuição Central

Impacto na Compreensão das Dificuldades de Aprendizagem

Epistemologia Genética

Conhecimento como construção ativa

Superação da visão de déficit cognitivo

Psicologia Histórico-Cultural

Mediação social e linguagem

Aprendizagem como processo relacional

Psicanálise

Desejo e implicação subjetiva

Leitura das dificuldades como entraves simbólicos

Pedagogia Crítica

Educação como prática emancipatória

Escrita como direito cultural e político

Fonte: Elaborado pelo autor.

A síntese apresentada no Quadro 2 evidencia que a Psicopedagogia se constitui a partir de um diálogo epistemológico plural, no qual diferentes matrizes teóricas convergem para a compreensão da aprendizagem como processo relacional, simbólico e socialmente mediado. Ao integrar contribuições da Epistemologia Genética, da Psicologia Histórico-Cultural, da Psicanálise e da Pedagogia, o quadro demonstra que as dificuldades na aquisição da linguagem escrita não podem ser reduzidas a explicações de ordem exclusivamente cognitiva ou biológica.

Tal articulação teórica sustenta a compreensão do erro como elemento constitutivo da aprendizagem e do engajamento com a escrita como ato de autoria e participação, fundamentos que orientam práticas educativas mais sensíveis à singularidade dos sujeitos e às mediações institucionais presentes no contexto escolar.

A abordagem psicopedagógica propõe intervenções que considerem essa complexidade, priorizando práticas educativas significativas, contextualizadas e inclusivas, capazes de ressignificar trajetórias de sucesso e fracasso e favorecer a reconstrução da relação do sujeito com o saber.

Com vistas à sistematização crítica dos achados teóricos alcançados, apresenta-se o Quadro 3, que sistematiza os principais eixos analíticos, os resultados interpretativos e suas implicações educacionais, articulando-os ao referencial psicopedagógico adotado.

Quadro 3: Configuração Interpretativa das Evidências Teóricas Emergentes.

Eixo Analítico

Resultado Teórico

Implicação Educacional

Aprendizagem

Processo complexo e multidimensional

Necessidade de práticas não reducionistas

Escrita

Prática social e histórico-cultural

Superação do ensino mecanicista

Erro

Elemento constitutivo da aprendizagem

Avaliação formativa e interpretativa

Dificuldades

Produções contextuais e relacionais

Intervenções críticas e inclusivas

Psicopedagogia

Campo interdisciplinar

Fortalecimento da justiça educacional

Fonte: Elaborado pelo autor.

A sistematização crítico-analítica apresentada no Quadro 3 permite visualizar de forma articulada os principais resultados teóricos desta investigação, evidenciando que a aprendizagem da linguagem escrita se constitui como prática social, histórica e culturalmente mediada. Os eixos analíticos sistematizados reafirmam que as dificuldades de aprendizagem emergem de múltiplas determinações, envolvendo tanto a história singular do sujeito quanto as condições institucionais e pedagógicas que organizam o ensino da escrita.

Tal compreensão sustenta a proposição de intervenções educativas éticas, não reducionistas e socialmente comprometidas, orientadas pela valorização da autoria, da participação e da justiça educacional. Esses resultados confirmam a relevância da Psicopedagogia como campo teórico capaz de fundamentar práticas educativas inclusivas, aspecto que se desdobra nas considerações finais deste estudo.

A discussão evidencia que a Psicopedagogia, ao integrar diferentes matrizes teóricas — como a Epistemologia Genética, a Psicologia Histórico-Cultural, a Psicanálise e a Pedagogia —, oferece fundamentos para práticas educativas que respeitam a singularidade dos sujeitos, promovem participação, autoria e justiça educacional. A escrita é, portanto, reafirmada como direito cultural e possibilidade de emancipação simbólica e social, permitindo ao aprendiz inscrever-se no universo dos discursos, desenvolver pensamento crítico e atuar de forma efetiva na vida coletiva.

Os resultados teóricos desta pesquisa confirmam que compreender a aprendizagem da escrita requer uma abordagem interdisciplinar, capaz de abarcar a complexidade do sujeito, suas mediações sociais e culturais e as condições institucionais de produção do saber.

A perspectiva psicopedagógica contribui significativamente para práticas educativas críticas e inclusivas, oferecendo instrumentos teóricos consistentes para enfrentar o fracasso escolar sem recorrer a explicações simplistas, naturalizantes ou culpabilizadoras, reafirmando a centralidade do reconhecimento da singularidade e da historicidade do sujeito no processo de aprendizagem.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A aquisição da linguagem escrita configura-se como processo multifacetado e historicamente situado, no qual se articulam, de modo indissociável, a constituição subjetiva, a inserção cultural e a relação simbólica do sujeito com o saber.

A aquisição da linguagem escrita é um processo complexo e historicamente situado, que articula a constituição subjetiva do aprendiz, sua inserção sociocultural e a relação simbólica com o saber. A escrita deve ser compreendida não apenas como domínio técnico de grafemas e fonemas, mas como sistema de representação simbólica mediado socialmente, apropriado por meio de práticas culturais de leitura e produção textual (Ferreiro, 2019; Bernardo, 2022; Soares, 2020).

Ao assumir uma perspectiva interdisciplinar, a Psicopedagogia amplia a inteligibilidade desse processo, ao deslocar as leituras centradas no déficit individual para análises que consideram as mediações cognitivas, afetivas, sociais e institucionais implicadas na aprendizagem, oferecendo, assim, instrumentos teóricos consistentes para enfrentar o fracasso escolar sem recorrer a explicações simplistas, naturalizantes ou culpabilizadoras.

A escrita, mediada pedagogicamente, é direito cultural e instrumento de pensamento crítico, enquanto a Psicopedagogia orienta práticas que reconhecem a singularidade do sujeito e as condições sociais do aprendizado.

Nessa chave teórica, a aprendizagem da escrita é reafirmada não apenas como competência escolar, mas como direito cultural e como possibilidade de emancipação simbólica e social, na medida em que inscreve o sujeito no universo dos discursos, do pensamento crítico e da participação ativa na vida coletiva.

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WEISS, Maria Lúcia. Psicopedagogia clínica: uma visão diagnóstica. 14. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2012.


1 Mestre em Ciências da Educação. Universidad Del Sol (UNADES). Salgueiro, Pernambuco, Brasil. E-mail: [email protected].