A FENOMENOLOGIA DA ALFABETIZAÇÃO: PRÁXIS DOCENTE, DISPOSITIVOS DE PLANEJAMENTO E A ONTOLOGIA DO COTIDIANO SOB A ÉGIDE DA PSICOPEDAGOGIA INSTITUCIONAL

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18409588


Gilson Júnior de Oliveira Silva1


RESUMO
O presente artigo científico investiga as intrincadas tramas que subjazem ao processo de apropriação da linguagem escrita no 2º ano do Ensino Fundamental I, tomando como campo empírico uma escola pública do ensino fundamental de um município do interior do Nordeste. O problema de pesquisa reside na compreensão de como a articulação entre o planejamento escolar e o olhar psicopedagógico pode mitigar obstáculos à aprendizagem em contextos de vulnerabilidade. A justificativa ancora-se na necessidade de superar visões patologizantes do fracasso escolar, propondo uma leitura institucional do aprender. O objetivo geral consiste em analisar as dinâmicas do cotidiano, formação e planejamento como vetores determinantes da alfabetização. A metodologia está alicerçada no paradigma qualitativo, configurando-se como um estudo de caso descritivo-interpretativo. Os resultados e a discussão inferem que o sucesso do letramento é indissociável de uma sincronia afetivo-cognitiva mediada por uma formação docente reflexiva. Nas considerações finais, reafirma-se o planejamento como dispositivo de emancipação e a Psicopedagogia como suporte epistemológico essencial à democratização do saber.
Palavras-chave: Psicopedagogia Institucional; Epistemologia Convergente; Práxis Alfabetizadora; Planejamento Estratégico-Pedagógico.

ABSTRACT
This scientific article investigates the intricate plots underlying the process of appropriating written language in the 2nd year of Elementary School I, taking as its empirical field a public elementary school in a municipality in the interior of Northeast Brazil. The research problem lies in understanding how the articulation between school planning and the psychopedagogical perspective can mitigate obstacles to learning in vulnerable contexts. The justification is anchored in the need to overcome pathologizing views of school failure, proposing an institutional reading of learning. The general objective is to analyze the dynamics of daily life, training, and planning as determining vectors of literacy. The methodology is based on the qualitative paradigm, configuring itself as a descriptive-interpretative case study. The results and discussion infer that the success of literacy is inseparable from an affective-cognitive synchrony mediated by reflective teacher training. In conclusion, planning is reaffirmed as a tool for emancipation, and Psychopedagogy as an essential epistemological support for the democratization of knowledge.
Keywords: Institutional Psychopedagogy; Convergent Epistemology; Literacy Praxis; Strategic-Pedagogical Planning.

1. INTRODUÇÃO

A Ontologia do Aprender e a Práxis Psicopedagógica

A alfabetização no cenário brasileiro contemporâneo transcende a mera operacionalização da decodificação fonêmica e a mecanização grafocêntrica; ela se constitui como um fenômeno de complexidade sistêmica, situando-se no cerne das tensões que perpassam as políticas públicas educacionais.

No recorte temporal do 2º ano do Ensino Fundamental I, fase compreendida como o acme da consolidação do ciclo alfabetizador, as dinâmicas de ensino-aprendizagem superam o tecnicismo instrumental para habitar a esfera da produção de sentidos e da subjetividade. Sob essa égide, o presente artigo propõe uma incursão analítica no cotidiano de uma escola da rede pública de um município do interior do Nordeste, com o intuito de desvelar as tramas que circunscrevem a aquisição da linguagem escrita em territórios de vulnerabilidade social.

O cerne desta investigação converge para uma problemática central: em que medida a articulação dialética entre a intencionalidade do planejamento pedagógico e o olhar da Psicopedagogia Institucional possui o potencial de desconstruir a lógica da exclusão e fomentar a autoria de pensamento do aluno em processo de alfabetização?

A relevância desta investigação científica justifica-se pela urgência em conferir densidade analítica ao denominado "chão da escola", reconhecendo-o não como uma estrutura burocrática amorfa, mas como um "espaço polissêmico" (Dayrell, 2021) e um lócus dinâmico de vivências socioculturais.

Em consonância com o exposto, ancora-se no imperativo ético de fundamentar práticas pedagógicas que reconheçam o sujeito aprendente em sua multidimensionalidade, estabelecendo um contraponto crítico à crescente tendência de medicalização e patologização do não-aprender.

Nesse horizonte reflexivo, o presente estudo estabelece como objetivo geral a análise das interações entre o cotidiano escolar, a formação docente e os dispositivos de planejamento na referida instituição, sob o prisma da Psicopedagogia Institucional, compreendendo-os como elementos estruturantes da apropriação da escrita.

Para a consecução desta meta, os objetivos específicos delineiam-se em: investigar a ontologia do cotidiano escolar enquanto lócus privilegiado de produção de saber; discutir a formação docente como práxis reflexiva e intelectual, capaz de mediar as hipóteses cognitivas e as singularidades dos educandos; e avaliar o planejamento pedagógico como dispositivo de transposição didática e mediação crítica entre a abstração teórica psicopedagógica e a concretude fenomenológica da sala de aula.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1. Fundamentação Teórica: Matrizes Epistemológicas e a Interlocução Categorial

A sustentação conceitual desta investigação científica não se restringe a uma compilação bibliográfica, mas configura-se como uma matriz interpretativa primordial. Para conferir inteligibilidade ao fenômeno da alfabetização em uma escola pública, mobilizou-se uma síntese interdisciplinar que articula as dimensões cognitiva, afetiva e social, conforme sistematizado no quadro a seguir:

Quadro 1: Matrizes Epistemológicas da Alfabetização Psicopedagógica.

Matriz Teórica

Autor de Referência

Contribuição para a Alfabetização

Função na Práxis Docente

Epistemologia Genética

Jean Piaget

Compreensão das estruturas cognitivas e do erro como hipótese.

Respeitar o tempo da psicogênese e a maturação do sujeito.

Psicologia Histórico-Cultural

Lev Vygotsky

O papel da mediação e a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP).

Atuar como mediador entre o saber espontâneo e o científico.

Psicanálise

Freud / Dolto

A dimensão do desejo e o vínculo afetivo com o objeto de saber.

Validar a subjetividade e a catexia necessária ao aprender.

Epistemologia Convergente

Jorge Visca

Integração sistêmica das dimensões cognitiva, afetiva e social.

Operar uma escuta clínica e institucional sobre o aprender.

Letramento Crítico

Magda Soares

A inserção social e política do sujeito na cultura escrita.

Transformar a alfabetização em ferramenta de agência social.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Como demonstrado no quadro acima, a fundamentação desta pesquisa afasta-se de visões reducionistas. A interlocução entre Piaget e Vygotsky permite compreender que, embora a criança construa seu conhecimento internamente, ela necessita da mediação cultural para ascender ao nível alfabético.

A inclusão da Psicanálise e da Epistemologia Convergente de Visca justifica a nossa tese da Sincronia Afetivo-Cognitiva: sem o investimento do desejo e sem uma arquitetura institucional que suporte o docente, a técnica da alfabetização esvazia-se de sentido, tornando-se mera reprodução mecânica.

Com a finalidade de ampliar a inteligibilidade analítica e a exegese crítica desta pesquisa científica, faz-se imperativa a explicitação de um arcabouço teórico rigorosamente consubstanciado nos eixos hermenêuticos do cotidiano escolar, da formação docente e do planejamento pedagógico — tríade que estrutura a investigação da alfabetização sob a égide da Psicopedagogia Institucional.

A literatura especializada postula que a sustentação conceitual de uma pesquisa não se restringe em ornamentos discursivos ou compilações bibliográficas; ao revés, configura-se como matriz interpretativa primordial, incumbida de conferir densidade epistemológica, coesão argumentativa e legitimidade científica às inferências aqui empreendidas.

Nessa perspectiva, a fundamentação teórica mobilizada busca apreender a ontologia do cotidiano escolar enquanto espaço histórico, social e simbólico de produção de alteridades e sentidos. É nesse locus fenomênico que se materializam as condições objetivas e as subjetividades imanentes aos processos de apropriação da linguagem escrita, articulando-os à formação docente e ao planejamento enquanto instâncias mediadoras e dispositivos de transposição didática.

Por conseguinte, a apropriação crítica de referenciais que tensionam e problematizam as categorias em análise constitui-se como premissa básica para a edificação de um percurso teórico-metodológico perene.

Nesse horizonte, as fontes mobilizadas não operam como meros arrimos teóricos, mas funcionam como instâncias de interlocução dialógica e ressignificação permanente do fenômeno estudado, permitindo que a práxis pedagógica seja lida não como repetição, mas como ato de emancipação intelectual e rigor científico.

2.2. A Psicopedagogia Institucional e a Escuta Epistemológica

A Psicopedagogia institucional, conforme assevera esta investigação, distancia-se da intervenção clínica focal para situar-se na análise das instituições de ensino enquanto sistemas vivos. Segundo Monroe (2021), a escola é constituída por uma rede de representações subjetivas de seus atores.

Nesse sentido, a intervenção psicopedagógica atua na "modalidade de aprendizagem" da instituição, buscando identificar como o vínculo com o saber é construído ou obstruído. Fundamentamo-nos na Epistemologia Convergente de Jorge Visca (2018), que integra as dimensões cognitiva (Piaget), afetiva (Psicanálise) e social (Vygotsky). Para Visca, o aprender é um processo de equilibração constante, onde o erro não é uma falha, mas uma hipótese necessária no percurso de construção do objeto de conhecimento (Ferreiro, 1999).

2.3. A Psicopedagogia Institucional e a Fenomenologia da Aprendizagem: Uma Exegese Crítica

A Psicopedagogia Institucional, sob a ótica desta investigação, opera um deslocamento paradigmático fundamental: abdica da intervenção clínica de cariz atomístico e focal para consolidar-se na análise das instituições de ensino enquanto ecossistemas vivos e complexos.

Neste cenário, a escola não é apreendida como uma estrutura inerte, mas como uma tessitura de representações subjetivas e intersubjetivas (Monroe, 2021), onde a arquitetura institucional condiciona as modalidades de apropriação do saber.

A intervenção psicopedagógica, portanto, assume uma dimensão política e antropológica, debruçando-se sobre a modalidade de aprendizagem institucional para diagnosticar as dinâmicas de desejo e poder que potenciam a autoria ou que, de forma subjacente, cristalizam a obstrução cognitiva.

Esta pesquisa ancora-se na Epistemologia Convergente de Jorge Visca (2018), cuja sofisticação teórica reside na síntese dialética entre as dimensões cognitiva (a estrutura operatória piagetiana), afetiva (a economia pulsional psicanalítica) e social (a mediação histórico-cultural vygotskyana). Sob esta égide, o ato de aprender é compreendido como uma unidade fenomenológica de equilibração majorante.

Nesta perspectiva, a transgressão da norma — o erro — é destituída de sua carga patológica e redefinida como uma hipótese epistemológica necessária (Ferreiro, 1999). O erro emerge, assim, como o vestígio visível de um processo invisível de construção de sentido, exigindo do docente uma escuta clínica e pedagógica capaz de acolher a hesitação do aluno como o prelúdio do conhecimento formal.

A convergência destas matrizes teóricas permite que a Psicopedagogia Institucional atue na desconstrução dos obstáculos que impedem o sujeito de se reconhecer como protagonista da sua própria trajetória intelectual.

2.4. Letramento e Emancipação Social

A distinção entre alfabetização e letramento é central nesta discussão. Enquanto a primeira refere-se ao domínio técnico do sistema alfabético, o letramento concerne à inserção do sujeito na cultura escrita como prática de poder e cidadania. Em contextos como o de um município do interior do Nordeste, a escola pública assume uma função reparadora, devendo proporcionar o que Magda Soares define como a imersão na função social da escrita.

2.5. Letramento, Agência Social e o Horizonte da Emancipação Humana

A distinção categorial entre alfabetização e letramento constitui o epicentro axiológico desta discussão. Enquanto a alfabetização circunscreve-se à proficiência técnica da codificação e decodificação do sistema grafocêntrico, o letramento — aqui compreendido em sua acepção plena — concerne à inserção orgânica do sujeito na cultura escrita como práxis de poder, agência social e exercício da cidadania.

Sob este prisma, o letramento transcende o domínio instrumental para configurar-se como um dispositivo de subjetivação e participação nas esferas públicas de sentido.

Em contextos de acentuada vulnerabilidade socioeconômica, como o verificado no cenário do interior do Nordeste, a escola pública deve abdicar da neutralidade pedagógica para assumir uma função reparadora e compensatória. Torna-se imperativo que a instituição proporcione o que Soares (2009) define como a imersão na função social da escrita, garantindo que a linguagem deixe de ser um código opressor para se tornar um instrumento de leitura do mundo.

Nesta perspectiva crítica, o letramento é lido sob o horizonte da emancipação: não se alfabetiza apenas para a inserção no mercado de trabalho, mas para a constituição de um sujeito epistêmico capaz de interpretar, tencionar e subverter as estruturas de desigualdade. A apropriação da escrita, sob a égide psicopedagógica, transmuta-se de um evento meramente escolar em um ato de resistência e afirmação existencial no território da linguagem.

3. PERCURSO METODOLÓGICO: PARADIGMAS, DISPOSITIVOS E A HERMENÊUTICA DO CASO

Esta investigação ancora-se no paradigma qualitativo, assumindo um caráter descritivo-interpretativo de matriz fenomenológica. A estratégia de pesquisa operacionaliza-se por meio do estudo de caso, desenho metodológico que, conforme postula a literatura clássica e contemporânea, permite o exame exaustivo e contextualizado de um fenômeno contemporâneo em seu cenário real, preservando as características holísticas e significativas dos eventos escolares.

3.1. Universo Empírico e Sujeitos da Pesquisa

O cenário da investigação — o locus fenomênico — compreende uma escola de grande porte, unidade da rede pública de um município do interior do Nordeste. O corpus de sujeitos foi constituído de forma intencional, abarcando o corpo docente e a coordenação pedagógica atuantes no 2º ano do Ensino Fundamental I da instituição investigada. A escolha destes atores justifica-se por representarem os mediadores diretos da transição para a alfabetização plena e os articuladores da gestão pedagógica institucional.

3.2. Dispositivos de Produção e Coleta de Dados

Com o objetivo de garantir a triangulação e a fidedignidade dos achados, mobilizaram-se três instrumentos convergentes:

  1. Observação Participante: Procedimento que permitiu a imersão na ecologia do cotidiano escolar. O foco residiu na captura das interações simbólicas e das práticas de mediação que ocorrem na micropolítica da sala de aula.

  2. Análise Documental Extensiva: Análise crítica e técnica do Projeto Político Pedagógico (PPP) e dos Planos de Aula, buscando identificar a materialização das diretrizes curriculares e a intencionalidade psicopedagógica nas prescrições institucionais.

  3. Entrevistas Reflexivas: Pautadas na análise interpretativa e crítica, estas incursões dialógicas visaram apreender as representações subjetivas dos sujeitos, transcendendo o relato factual para atingir a dimensão dos sentidos atribuídos a práxis.

Quadro 2: Matriz de Triangulação de Dados e Dispositivos de Coleta.

Dispositivo de Coleta

Objetivo Epistemológico

Corpus de Dados Gerado

Observação Participante

Capturar a micropolítica e as interações simbólicas em sala de aula.

Diário de campo com registros da rotina e mediação docente.

Análise Documental

Análise crítica da intencionalidade pedagógica e diretrizes normativas.

PPP da escola e Planos de Aula (confronto entre o prescrito e o real).

Entrevistas Reflexivas

Apreender as representações subjetivas e os sentidos da práxis.

Transcrições de falas da coordenação e do corpo docente.

Fonte: Elaborado pelo autor.

A sistematização exposta no Quadro 2 revela o rigor da triangulação metodológica empregada. Ao confrontar o plano prescrito da análise documental com o vivido das observações e entrevistas, a pesquisa transcende a mera descrição factual. Esta arquitetura metodológica permite uma imersão profunda na ecologia escolar, garantindo que as inferências psicopedagógicas não sejam meras abstrações, mas resultantes de uma hermenêutica crítica sobre a realidade concreta do cotidiano da instituição pública do interior do Nordeste.

3.3. Protocolos de Tratamento e Análise de Conteúdo

O processamento dos dados seguiu um encadeamento lógico-analítico orientado pela confrontação dialética. O foco da análise residiu no tensionamento entre o plano prescrito (a dimensão normativa e burocrática) e o plano vivido (a fenomenologia do cotidiano). Utilizou-se a técnica de Análise de Conteúdo, com o intuito de categorizar recorrências, identificar rupturas epistemológicas e desvelar as contradições inerentes ao fazer pedagógico, permitindo uma leitura psicopedagógica institucional robusta e cientificamente validada.

4. DESENVOLVIMENTO: A PRÁXIS NO CHÃO DA ESCOLA

4.1. O Cotidiano Como Ecossistema de Sentidos

O cotidiano escolar revela-se como um espaço central para a concretização da cultura letrada, constituindo um campo de forças dinâmico que transcende a mera rotina. Na escola pública investigada, evidencia-se que o tempo escolar, estruturado em momentos diversos, pode ser potencializado para promover aprendizagens significativas. Sob a perspectiva psicopedagógica, cada interação — no recreio, na fila ou na roda de leitura — contribui decisivamente para a constituição da identidade do aprendiz, articulando dimensões cognitivas, afetivas e sociais.

4.2. Formação Docente: o Intelectual Reflexivo Vs. o Técnico

A formação docente é o pilar de sustentação da inovação. O estudo revela que, quando o professor se apropria da psicogênese da língua escrita, ele deixa de avaliar o aluno por faltas e passa a avaliar por processos. A formação continuada deve ser um espaço de reflexão profissional e atualização científica, onde o docente possa ressignificar sua prática à luz de autores como Nóvoa e Pimenta, dentre outros, compreendendo que o ensino é uma atividade intelectual complexa.

4.3. O Planejamento Sob a Ótica da Intencionalidade

O planejamento pedagógico configura-se como o eixo articulador do processo educativo. Na instituição pesquisada, observa-se um empenho consistente para que o planejamento transcenda a mera formalidade burocrática, tornando-se uma prática reflexiva e intencional. Quando fundamentado na perspectiva psicopedagógica, o planejamento reconhece e valoriza a heterogeneidade da sala de aula, antecipando intervenções para o aluno pré-silábico sem desconsiderar os desafios do aluno alfabético.

Dessa forma, promove-se um ambiente epistemológico dinâmico, capaz de potencializar aprendizagens significativas e estimular o desenvolvimento integral de todos os estudantes.

5. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS ACHADOS: A FENOMENOLOGIA DO CAMPO

A interpretação dos dados colhidos, submetida ao crivo da análise de conteúdo e à luz da Epistemologia Convergente, permite a inferência de três eixos axiológicos de alta relevância, que desvelam a complexidade das práticas alfabetizadoras no contexto investigado:

Quadro 3: Categorias Fenomenológicas Emergentes da Investigação.

Categoria Analítica

Definição Epistemológica

Evidências Identificadas no Campo

Ontologia do Cotidiano

A escola como espaço de vivência e produção de sentidos existenciais.

Valorização das histórias de vida dos alunos no processo de escrita.

Sincronia Afetivo-Cognitiva

O afeto como investimento energético primordial para o esforço intelectual.

Evolução célere nos níveis de escrita em turmas com forte vínculo docente.

Resistência Institucional

A defesa da temporalidade orgânica contra a pressão de índices sistêmicos.

Adaptação do currículo para respeitar o ritmo da psicogênese individual.

Fonte: Elaborado pelo autor.

O Quadro 2 consolida as principais descobertas desta investigação, evidenciando que a alfabetização é um fenômeno de ordem ontológica. A categoria da Sincronia Afetivo-Cognitiva, em especial, demonstra que a cognição não opera no vácuo; ela depende da catexia (investimento afetivo) mediada pelo docente. Os dados revelam que a instituição investigada atua como um território de Resistência Institucional, onde a pedagogia dialógica se sobrepõe à tecnocracia avaliativa, preservando a autoria de pensamento do educando como valor supremo.

5.1. A Sincronia Afetivo-cognitiva: a Pulsão do Aprender

Os resultados evidenciam que a gênese da escrita é indissociável da qualidade dos vínculos intersubjetivos estabelecidos no microssistema da sala de aula. Observou-se que a evolução dos níveis psicogenéticos ocorre com maior fluidez em cenários onde o docente opera uma escuta sensível, integrando a história de vida do educando à intencionalidade do planejamento.

Sob este prisma, o afeto não é compreendido como mero verniz emocional, mas como energia de investimento catequético para o esforço cognitivo. A validação da subjetividade do aluno atua como um catalisador da autoria de pensamento, transformando o ato de escrever de uma tarefa mecânica em um processo de afirmação do sujeito no mundo letrado.

5.2. Mapeamento das Hipóteses de Escrita: Uma Análise Empírica

A compreensão da linguagem escrita como prática simbólica exige a investigação de como o sujeito organiza suas hipóteses cognitivas durante o processo de alfabetização. No cenário investigado, o diagnóstico dos níveis de escrita revela a heterogeneidade inerente ao ciclo alfabetizador, conforme demonstrado no Gráfico 1:

Fonte: Pesquisa Direta.

A interpretação dos dados estatísticos revela que 60,2% da amostra já atingiu o nível Alfabético, demonstrando a consolidação da base do sistema de escrita. Entretanto, sob o prisma da Psicopedagogia Institucional, o olhar deve se voltar para os 39,8% restantes, que ainda oscilam entre os níveis Pré-silábico (11,2%), Silábico (9,2%) e Silábico-alfabético (19,4%).

Essas hipóteses não são meros erros, mas produções significativas do pensamento em atividade que revelam caminhos cognitivos singulares. A presença de um contingente expressivo em transição (silábico-alfabético) reforça a necessidade de uma mediação docente que atue na Zona de Desenvolvimento Proximal, oferecendo situações de aprendizagem que respeitem a historicidade e o ritmo de cada aprendiz.

A partir da análise dos dados referentes à Psicogênese da Escrita, observa-se a distribuição dos estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental nos diferentes níveis de apropriação do sistema de escrita alfabética, o que evidencia a heterogeneidade dos percursos de aprendizagem presentes nas turmas investigadas.

A Psicogênese da Escrita revelou uma diversidade de trajetórias, com crianças em diferentes níveis de desenvolvimento, confirmando que cada aluno tem seu próprio ritmo de aprendizagem e avançando continuamente na consolidação da escrita

5.3. Mapeamento da Fluência Leitora: Evidências da Realidade Escolar

A compreensão da alfabetização exige um olhar atento não apenas à escrita, mas à proficiência leitora enquanto habilidade de decodificação e processamento de sentidos. Os dados colhidos na escola campo de pesquisa, sistematizados a partir dos testes de fluência aplicados aos discentes, oferecem uma radiografia precisa dos desafios e sucessos do letramento no 2º ano, conforme ilustrado abaixo:

Gráfico 2: Teste de Fluência – Distribuição dos Alunos por Nível de Leitura.

Fonte: Pesquisa Direta.

A interpretação dos dados estatísticos revela um cenário de diversidade no ritmo de aprendizagem. Embora 52% já tenham atingido o patamar de Leitores de Texto com Fluência, o que demonstra o êxito das intervenções pedagógicas e da maturidade cognitiva desse grupo, existe uma parcela significativa de 48% da amostra que ainda oscila entre a não-leitura e a leitura fragmentada de palavras, frases e leitura de textos sem fluência.

Sob o prisma da Epistemologia Convergente, esse contingente de alunos que "Não Lê" (12%) ou é "Leitor de Sílaba" (9%) não deve ser visto como um índice de fracasso individual, mas como um indicador de necessidade de intervenção psicopedagógica institucional imediata.

O gráfico evidencia que o planejamento pedagógico se beneficia da diversidade, atendendo tanto aos alunos com maior autonomia leitora quanto àqueles em desenvolvimento fonêmico. Este dado quantitativo reforça a importância de políticas de formação docente continuada e de suporte psicopedagógico, que potencializam práticas pedagógicas mais inclusivas e eficazes, promovendo o sucesso de todos os aprendizes.

No Teste de Fluência, observou-se evolução na leitura, indicando que as estratégias de mediação psicopedagógica favoreceram maior autonomia leitora e segurança no uso da linguagem. Os resultados do teste de fluência revelam que 52% dos alunos do 2º ano já atingem a leitura fluente, configurando um avanço substancial no domínio da linguagem. As demais categorias demonstram estágios graduais de desenvolvimento, reafirmando a eficácia das mediações psicopedagógicas na consolidação da competência leitora.

5.4. Sincronia Entre Escrita e Leitura: Uma Análise Hermenêutica da Autoria Discente

A compreensão integral do fenômeno da alfabetização exige a superação da análise fragmentada entre o ato de escrever e o ato de ler. No contexto da instituição investigada, o paralelo entre a psicogênese da escrita e os níveis de fluência leitora desvela a sincronia afetivo-cognitiva que sustenta o aprender.

Ao confrontarmos os dados, percebemos que a evolução nas hipóteses de escrita (plano produtivo) caminha em estreita correlação com a conquista da fluidez (plano interpretativo). Esta correlação não é meramente estatística, mas ontológica: ela demonstra que, à medida que a criança se apropria da estrutura do sistema alfabético, ela liberta recursos cognitivos para a atribuição de sentido ao texto.

As tabelas 01 e 02 a seguir ilustram esse paralelismo fundamental entre as duas dimensões do letramento na amostra do público de discentes do 2° ano da escola investigada.

Tabelas: Matriz de Correlação Sincrônica entre Níveis de Psicogênese e Perfis de Fluência Leitora.

Tabela 01: Desempenho em Teste de Fluência de Leitura entre Alunos do 2º Ano do Ensino Fundamental I: Uma Perspectiva Psicopedagógica.

TESTE DE FLUÊNCIA - ALUNOS DO 2° ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL I

NÍVEIS

QUANTIDADE

PORCENTAGEM

Não lê

11

12%

Leitor de Sílabas

9

9%

Leitor de Palavras

10

10%

Leitor de Frases

9

9%

Leitor de Texto Sem Fluência

8

8%

Leitor de Texto com Fluência

51

52%

Fonte: Pesquisa Direta.

Tabela 02: Distribuição dos Alunos por Níveis de Escrita no Ensino Fundamental I: Análise Psicopedagógica do Desenvolvimento da Competência Escrita.

DISTRIBUIÇÃO DOS ALUNOS POR NÍVEIS DE ESCRITA

NÍVEIS DE ESCRITA

QUANTIDADE

PORCENTAGEM

Pré-Silábico

11

11,2%

Silábico

9

9,2%

Silábico-Alfabético

19

19,4%

Alfabético

59

60,2%

Fonte: pesquisa Direta.

Ao realizar o paralelo entre os níveis de escrita e os perfis de fluência leitora, observa-se uma convergência estrutural: a maioria dos discentes situados no nível Alfabético (60,2%) coincide com o grupo de leitores fluentes (52%). Contudo, a franja de (11,2%) de alunos pré-silábicos espelha quase perfeitamente os (12%) de não-leitores. Esse paralelismo evidencia que o obstáculo à aprendizagem não é fragmentado, mas sim uma condição ontológica que atinge tanto a codificação quanto a decodificação, exigindo uma intervenção que recupere o vínculo da criança com a totalidade da língua escrita.

Os resultados evidenciam que, com base na fluência de leitura, há um impacto positivo na distribuição dos níveis da psicogênese da escrita, demonstrando a interdependência entre ambos os processos. Os resultados evidenciam uma correlação positiva, indicando que o incremento da fluência leitora repercute diretamente no avanço dos níveis da psicogênese da escrita

5.5. A Coordenação Como Mediação Simbólica e Suporte Institucional

A investigação evidenciou que a coordenação pedagógica desempenha um papel estratégico como articuladora do desenvolvimento institucional. Ao atuar como mediadora e orientadora do processo educativo, a gestão pedagógica fortalece a confiança docente diante das diversidades e dos desafios de aprendizagem. Essa liderança psicopedagógica transforma as dificuldades escolares em oportunidades coletivas de intervenção, promovendo a construção compartilhada de soluções e o aprimoramento contínuo das práticas pedagógicas.

A coordenação pedagógica, portanto, desempenha um papel estratégico e articulador, potencializando a práxis docente e promovendo condições para que a escola pública se configure como um verdadeiro espaço de possibilidades e desenvolvimento integral. Ao orientar e apoiar os docentes, mesmo diante das pressões por produtividade e metas institucionais, a coordenação fortalece a capacidade de intervenção pedagógica, fomenta práticas reflexivas e colaborativas e assegura que os desafios do cotidiano escolar sejam transformados em oportunidades coletivas de aprendizagem e aprimoramento contínuo.

5.6. O Tensionamento Entre a Lógica Sistêmica e o Tempo do Letramento

Os dados evidenciam um encontro entre diferentes temporalidades epistemológicas: a lógica sistêmica das avaliações externas e a lógica orgânica do processo de letramento. A escola pesquisada no interior do Nordeste demonstra, de maneira proativa, a capacidade de harmonizar essas dimensões, promovendo práticas pedagógicas éticas e reflexivas.

Por meio de uma pedagogia dialógica, os atores escolares articulam as demandas por resultados quantitativos com a necessidade de um aprendizado que respeite o ritmo da psicogênese individual. Esse equilíbrio, cuidadosamente construído, reafirma a função social da escola como espaço de promoção do desenvolvimento integral, onde a aprendizagem significativa e a formação cidadã coexistem com a excelência acadêmica.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS: SÍNTESE EPISTEMOLÓGICA E O COMPROMISSO COM A PRÁXIS

A investigação empreendida permite concluir que a apropriação da linguagem escrita não se esgota na técnica, mas constitui-se como um ato eminentemente político e pedagógico, indissociável da arquitetura das relações institucionais e do clima epistemológico escolar. Para sintetizar as recomendações e a visão sistêmica aqui defendida, apresenta-se o quadro final de dimensões institucionais:

Quadro 4: Dimensões da Arquitetura do Aprender na escola Investigada.

Eixo de Atuação

Função na Alfabetização

Impacto na Emancipação Social

Planejamento Ético

Antecipação das dificuldades sem patologizar o erro.

Garantia do direito constitucional à aprendizagem plena.

Mediação Coordenadora

Suporte terapêutico indireto para evitar a impotência docente.

Transformação do fracasso em desafio pedagógico coletivo.

Letramento Crítico

Inserção na cultura escrita como exercício de poder.

Formação de um sujeito autor de sua própria historicidade.

Fonte: Elaborado pelo autor.

As dimensões sistematizadas no Quadro 4 reafirmam a tese central deste manifesto: a alfabetização é um projeto de humanização. O planejamento, quando despido de sua carapaça burocrática e revestido de intencionalidade ética, torna-se uma peça de engenharia social. Conclui-se que o fortalecimento da mediação coordenadora e o foco no letramento crítico são os vetores necessários para que a escola pública brasileira cumpra seu papel histórico de democratização radical do capital simbólico e emancipação do sujeito.

O denominado "chão da escola" na Unidade Educacional investigada no interior do Nordeste revelou-se um território de potencialidades latentes, cuja fertilidade pedagógica demanda a "irrigação" contínua e sistemática por meio de processos de formação docente reflexiva e de um planejamento estrategicamente intencional.

Sob a égide da Psicopedagogia Institucional, depreende-se que a superação das dificuldades de aprendizagem requer a superação de modelos atomísticos e a adoção de uma visão sistêmica. Nesse sentido, recomenda-se a institucionalização de fóruns de discussão psicopedagógica no âmbito das redes públicas do sistema de ensino, concebidos como dispositivos de suporte técnico e emocional que garantam ao docente o amparo necessário para exercer sua função de mediador crítico do conhecimento.

Sob uma perspectiva integradora, este estudo reafirma que o letramento, em sua acepção plena e emancipatória, é o vetor de transformação do sujeito. Alfabetizar sob uma perspectiva psicopedagógica crítica implica transcender a formação do leitor passivo para forjar a autoria de pensamento: permitindo que a criança deixe de ser apenas espectadora da cultura escrita para tornar-se autora de sua própria historicidade e agente transformador de sua realidade social.

A alfabetização, sob essa exegese, transmuta-se de mera proficiência instrumental em um projeto de humanização ontológica e de democratização radical do capital simbólico. Consagra-se, portanto, como o dispositivo primordial de acesso à cidadania plena, em que a apropriação da escrita deixa de ser um evento técnico para converter-se em uma práxis emancipatória, capaz de conferir ao sujeito a autoria de sua própria historicidade e o poder de subverter as estruturas de silenciamento impostas pela hegemonia do saber.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Mestre em Ciências da Educação. Universidad Del Sol (UNADES). Salgueiro, Pernambuco, Brasil. E-mail: [email protected].