A SOCIOLOGIA NO ENSINO MÉDIO BRASILEIRO: TRAJETÓRIA HISTÓRICA, DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS E O PAPEL DA FORMAÇÃO DOCENTE

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18409661


Roberto Saran1


RESUMO
O presente estudo analisa a trajetória e os desafios da Sociologia no Ensino Médio brasileiro, considerando os condicionantes históricos, sociais e políticos que marcaram sua inserção, permanência e, por vezes, marginalização no currículo escolar. A Sociologia, enquanto componente das Ciências Humanas, desempenha papel fundamental na formação crítica dos estudantes, possibilitando a compreensão das dinâmicas sociais, das desigualdades e das relações de poder que estruturam a sociedade contemporânea. Nesse contexto, a pesquisa tem como objetivo geral investigar os efeitos da formação inicial e continuada dos professores na consolidação da Sociologia como componente curricular crítico no Ensino Médio. Metodologicamente, o estudo adota a pesquisa bibliográfica, fundamentada na análise de livros, artigos científicos e produções acadêmicas consolidadas no campo da educação e do ensino de Sociologia, permitindo a sistematização de diferentes perspectivas teóricas e históricas sobre o tema. Os resultados parciais indicam que a consolidação da Sociologia no Ensino Médio está diretamente relacionada à qualidade da formação docente, às políticas educacionais vigentes e às disputas em torno do currículo escolar. Conclui-se, de forma preliminar, que o fortalecimento da disciplina exige investimentos contínuos na formação de professores, bem como a valorização da Sociologia enquanto espaço privilegiado de desenvolvimento da consciência crítica e da cidadania no contexto educacional brasileiro.
Palavras-chave: Sociologia no Ensino Médio; Formação docente; Currículo; Educação crítica.

ABSTRACT
This study analyzes the trajectory and challenges of Sociology in Brazilian Upper Secondary Education, considering the historical, social, and political factors that have shaped its inclusion, consolidation, and, at times, marginalization within the school curriculum. Sociology, as a field within the Humanities, plays a fundamental role in students’ critical education by enabling the understanding of social dynamics, inequalities, and power relations that structure contemporary society. In this context, the general objective of the research is to investigate the effects of initial and continuing teacher education on the consolidation of Sociology as a critical curricular component in Upper Secondary Education. Methodologically, the study adopts a bibliographical research approach, based on the analysis of books, scientific articles, and consolidated academic productions in the fields of education and Sociology teaching, allowing for the systematization of different theoretical and historical perspectives on the topic. Partial findings indicate that the consolidation of Sociology in Upper Secondary Education is closely linked to the quality of teacher education, current educational policies, and ongoing curricular disputes. It is preliminarily concluded that strengthening Sociology as a school subject requires continuous investment in teacher education, as well as the recognition of Sociology as a privileged space for the development of critical awareness and citizenship within the Brazilian educational context.
Keywords: Sociology in Upper Secondary Education; Teacher education; Curriculum; Critical education.

1. INTRODUÇÃO

A Sociologia tem uma trajetória marcada por intermitências curriculares e constantes disputas políticas no Ensino Médio brasileiro, especialmente a partir de sua reinserção formal pelo Decreto da Lei nº 11.684/2008, que tornou obrigatórias as disciplinas de Sociologia e Filosofia nesse nível de ensino (BRASIL, 2008). Nesse contexto, a formação de professores assume papel central para a consolidação da Sociologia enquanto componente curricular que favoreça práticas pedagógicas críticas e reflexivas, capazes de promover a compreensão dos fenômenos sociais, a construção de senso crítico e a formação cidadã dos estudantes (SOARES FILHO, 2023).

Entretanto, estudos sobre a formação de docentes de Sociologia apontam para lacunas significativas na formação inicial e continuada, que impactam diretamente a qualidade do ensino e a consolidação dessa disciplina no Ensino Médio (ZARIAS; FERREIRA; FUSCO, 2017). Essa problemática se expressa, por exemplo, na alta proporção de docentes que lecionam Sociologia sem formação específica na área das Ciências Sociais, o que compromete a apropriação teórica e metodológica necessária para uma docência de caráter sociológico (ZARIAS; FERREIRA; FUSCO, 2017).

A pesquisa de Zarias, Ferreira e Fusco (2017) em Pernambuco evidencia que a formação docente ainda está longe de atender às demandas de um currículo que exprime finalidades formativas complexas. Esses autores destacam que a falta de uma formação adequada constitui um obstáculo para que os professores possam desenvolver práticas educativas que promovam a compreensão crítica da realidade social, o que é essencial para a Sociologia escolar.

Além disso, em nível nacional, a literatura indica que, em tempos contemporâneos, as políticas de formação continuada enfrentam desafios relacionados à fragilização do Ensino Médio e às contrarreformas educacionais, que podem restringir a atuação docente e limitar oportunidades de atualização profissional imprescindíveis para a consolidação de práticas pedagógicas críticas (FIGUEIRÊDO; OLIVEIRA; SILVA, 2019).

Diante desse cenário, torna-se necessário refletir sobre como a formação inicial e continuada de professores impacta a consolidação da Sociologia enquanto disciplina escolar crítica, capaz de contribuir efetivamente para o desenvolvimento de competências sociológicas nos estudantes. Trata-se de uma dimensão que extrapola a mera qualificação profissional para atingir questões estruturais relativas à identidade docente, às políticas públicas educacionais e à produção de conhecimento sociológico no contexto escolar.

Essa reflexão exige uma análise que considere não apenas os aspectos quantitativos da formação docente (como o percentual de professores habilitados), mas também dimensões qualitativas, tais como percepções docentes, trajetórias de formação, experiências em serviço e a articulação entre teoria e prática pedagógica (ALMEIDA, 2013). A construção identitária do professor de Sociologia, por exemplo, é um processo complexo que envolve a relação entre sua formação acadêmica e sua atuação em contextos escolares concretos.

A pergunta norteadora que orienta este estudo é: Quais são os efeitos da formação inicial e continuada dos professores sobre a consolidação da Sociologia como componente curricular crítico no Ensino Médio? Essa questão articula o foco de investigação às discussões contemporâneas sobre currículo, formação docente e práticas socioeducativas, permitindo compreender de maneira aprofundada como diferentes arranjos formativos repercutem nas práticas pedagógicas e na legitimação do saber sociológico no espaço escolar.

O objetivo geral desta pesquisa é, portanto, analisar os efeitos da formação inicial e continuada dos professores sobre a consolidação da Sociologia como componente curricular crítico no Ensino Médio brasileiro, a partir de uma revisão bibliográfica que organiza e interpreta estudos científicos, políticas educacionais e produções teóricas relevantes ao tema. Esta escolha metodológica responde à necessidade de mapear o estado da arte sobre a formação docente no Brasil, identificar principais contribuições e lacunas na literatura, assim como articular diferentes perspectivas que dialogam com a questão de pesquisa.

A justificativa deste estudo reside na sua relevância científica e social: em um contexto de fragilização do Ensino Médio e de disputas curriculares, compreender como a formação docente contribui para a definição das práticas de ensino em Sociologia é fundamental para subsidiar políticas públicas educacionais, orientar programas de formação de professores e favorecer uma educação que promova a criticidade e a participação social dos estudantes. Além disso, ao sistematizar conhecimento sobre a formação docente em Sociologia, esta pesquisa contribui para o avanço do debate teórico acerca da profissionalização docente no campo das Ciências Sociais.

Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa bibliográfica, que tem como objetivo organizar, analisar e sintetizar produções científicas, relatórios e estudos acadêmicos relevantes para a temática. A pesquisa bibliográfica é apropriada para este estudo por permitir a construção de uma base teórica sólida que sustente a análise crítica e reflexiva sobre as relações entre formação docente e currículo escolar, especialmente quando se busca compreender fenômenos complexos que envolvem múltiplos níveis de influência (MAIOR; PIMENTA, 2000).

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A análise da Sociologia como componente curricular no Ensino Médio brasileiro pressupõe a compreensão do currículo como uma construção histórica e social, atravessada por disputas simbólicas, políticas e ideológicas. Conforme Apple (2006), o currículo escolar reflete relações de poder que determinam quais saberes são legitimados e quais são marginalizados no espaço educacional. Nesse sentido, a trajetória marcada por avanços e retrocessos da Sociologia no Ensino Médio revela tensões entre projetos educacionais comprometidos com a formação crítica e propostas orientadas por uma lógica instrumental e utilitarista do conhecimento. Sacristán (2000) reforça que o currículo expressa valores e concepções de sociedade, funcionando como um mecanismo de regulação cultural que impacta diretamente o trabalho docente.

A Sociologia escolar, enquanto área de conhecimento, possui uma especificidade epistemológica voltada à compreensão crítica da realidade social. Mills (1969) define a imaginação sociológica como a capacidade de articular experiências individuais às estruturas históricas e sociais mais amplas, permitindo ao sujeito compreender sua posição no mundo social. Essa perspectiva evidencia o potencial formativo da Sociologia no Ensino Médio, especialmente no que se refere à formação cidadã e ao desenvolvimento da consciência crítica. De modo complementar, Bourdieu (1998) argumenta que o conhecimento sociológico possibilita a desnaturalização das desigualdades sociais, revelando os mecanismos de dominação simbólica que estruturam a sociedade.

Entretanto, a consolidação da Sociologia como componente curricular crítico não depende exclusivamente de sua presença formal no currículo, mas da mediação pedagógica realizada pelos professores. Nesse contexto, a formação inicial docente assume papel central, pois é nela que se constituem os saberes disciplinares e metodológicos necessários à prática pedagógica. Segundo Tardif (2014), os saberes docentes são construídos a partir da articulação entre saberes científicos, curriculares, pedagógicos e experienciais. Quando a formação inicial em Ciências Sociais é insuficiente ou inexistente, o ensino de Sociologia tende a perder densidade teórica, reduzindo-se a abordagens descontextualizadas ou meramente informativas.

A literatura aponta que uma parcela significativa dos professores que lecionam Sociologia no Ensino Médio não possui formação específica na área, o que compromete a identidade epistemológica da disciplina. Esse cenário evidencia uma contradição entre os objetivos formativos atribuídos à Sociologia e as condições concretas de sua implementação nas escolas. Nóvoa (2009) destaca que a profissionalização docente está intrinsecamente relacionada à qualidade da formação inicial, sendo esta fundamental para a construção de uma identidade profissional capaz de sustentar práticas reflexivas e autônomas. Assim, a fragilidade da formação inicial repercute diretamente na consolidação da Sociologia como campo de conhecimento escolar.

Para além da formação inicial, a formação continuada configura-se como um elemento estratégico para o fortalecimento da prática docente em Sociologia. Imbernón (2011) compreende a formação continuada como um processo permanente, articulado às transformações sociais e às demandas concretas do trabalho docente. No contexto do Ensino Médio, marcado por reformas curriculares e reconfigurações institucionais, a formação continuada torna-se essencial para a atualização teórica e metodológica dos professores, bem como para a reflexão crítica sobre o papel da Sociologia na escola contemporânea.

No entanto, estudos indicam que as políticas de formação continuada no Brasil são frequentemente fragmentadas e desarticuladas das necessidades específicas do ensino de Sociologia. Bodart e Cigales (2017) ressaltam que a ausência de programas formativos voltados à Sociologia escolar contribui para a fragilização da disciplina, especialmente em contextos de reformas educacionais que reduzem sua carga horária ou diluem seus conteúdos em áreas do conhecimento. Esse cenário impõe desafios adicionais aos professores, que precisam ressignificar suas práticas pedagógicas diante de limitações institucionais e curriculares.

Nesse contexto adverso, o professor de Sociologia assume um papel que extrapola a mera transmissão de conteúdos, atuando como mediador crítico entre o conhecimento científico e o conhecimento escolar. Giroux (1997) concebe o docente como um intelectual transformador, capaz de interpretar criticamente as políticas educacionais e produzir práticas pedagógicas contra-hegemônicas. Essa perspectiva atribui centralidade à formação docente como condição para que o professor exerça autonomia intelectual e preserve o caráter crítico da Sociologia no espaço escolar.

Dessa forma, a relação entre formação inicial, formação continuada e prática pedagógica revela-se determinante para a consolidação da Sociologia como componente curricular crítico no Ensino Médio. A formação sólida possibilita ao docente mobilizar referenciais teóricos consistentes, adotar metodologias problematizadoras e promover a reflexão crítica dos estudantes sobre a realidade social. Assim, compreender os efeitos da formação docente sobre o ensino de Sociologia constitui um eixo fundamental para o fortalecimento da disciplina e para a defesa de uma educação comprometida com a emancipação social e a cidadania crítica.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A Sociologia, enquanto campo científico, emerge no século XIX como resposta intelectual às profundas transformações sociais desencadeadas pela Revolução Industrial, pela consolidação do capitalismo e pelas mudanças políticas advindas da Revolução Francesa. Nesse contexto, autores como Auguste Comte e Émile Durkheim buscaram compreender a sociedade a partir de métodos científicos, rompendo com explicações de ordem estritamente filosófica ou teológica. Conforme afirma Durkheim (2007), “os fatos sociais devem ser tratados como coisas”, evidenciando a necessidade de uma análise objetiva das estruturas sociais. Assim, a Sociologia nasce como ciência comprometida com a compreensão das dinâmicas sociais, da ordem e do conflito, fundamentos que posteriormente justificariam sua inserção no campo educacional.

Nesse movimento de institucionalização do saber sociológico, a educação passou a ser compreendida como espaço estratégico para a formação de sujeitos capazes de interpretar criticamente a realidade social. A Sociologia, ao adentrar o currículo escolar, especialmente no Ensino Médio, assume o papel de promover a reflexão sobre temas como cidadania, desigualdade social, cultura e poder. Segundo Giddens (2012), a Sociologia possibilita aos indivíduos “compreender como suas experiências pessoais estão conectadas a processos sociais mais amplos”, o que reforça sua relevância pedagógica. Dessa forma, a presença da Sociologia na escola vincula-se diretamente à formação de uma consciência social crítica.

No Brasil, a trajetória da Sociologia no Ensino Médio é marcada por avanços e retrocessos, refletindo disputas políticas e ideológicas em diferentes períodos históricos. Inicialmente introduzida no início do século XX, especialmente nas reformas educacionais da década de 1930, a disciplina foi influenciada por projetos de modernização do Estado. De acordo com Meucci (2011), a Sociologia escolar surgiu associada à necessidade de formar elites intelectuais e administrativas, sendo, portanto, marcada por um viés seletivo e elitista. Ainda assim, esse momento representa o primeiro reconhecimento institucional da importância do saber sociológico na educação brasileira.

Entretanto, durante o regime militar instaurado em 1964, a Sociologia foi retirada do currículo do Ensino Médio, sob a justificativa de que seu conteúdo poderia fomentar questionamentos críticos à ordem estabelecida. Nesse período, disciplinas como Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB) ocuparam seu lugar. Conforme analisa Saviani (2013, p. 78), a exclusão da Sociologia do currículo expressou “uma concepção tecnicista e autoritária de educação”, voltada mais para a adaptação social do que para a formação crítica dos estudantes. Tal exclusão evidenciou o caráter político das decisões curriculares no país.

Com o processo de redemocratização, a partir da década de 1980, a Sociologia gradualmente retorna ao debate educacional, impulsionada por movimentos acadêmicos e sociais que defendiam uma escola comprometida com a cidadania e a democracia. A Constituição Federal de 1988 reforça esse princípio ao estabelecer a educação como direito social e instrumento para o pleno desenvolvimento da pessoa. Nesse cenário, a Sociologia passa a ser reivindicada como componente fundamental para a compreensão da realidade social brasileira, marcada por profundas desigualdades, conforme destaca Santos (2008, p. 28) ao afirmar que “a educação crítica é condição para o exercício da cidadania”.

Esse movimento culmina na promulgação da Lei nº 11.684/2008, que torna obrigatórias as disciplinas de Sociologia e Filosofia em todas as séries do Ensino Médio. Tal conquista representa um marco histórico para a área, ao reconhecer oficialmente sua importância na formação dos estudantes. Segundo a BNCC (Brasil, 2018), a Sociologia contribui para o desenvolvimento da capacidade de análise crítica, do respeito à diversidade e da participação social. Assim, sua obrigatoriedade consolida a disciplina como elemento estruturante do currículo voltado à formação integral.

Todavia, mesmo após sua reinserção legal, a Sociologia enfrenta desafios relacionados à carga horária reduzida, à formação docente e à compreensão de sua função pedagógica no cotidiano escolar. Como observa Moraes (2010), muitas vezes a disciplina é tratada de forma marginalizada, o que compromete seu potencial formativo. Além disso, as reformas educacionais recentes, como a do Novo Ensino Médio, reacendem debates sobre o lugar das Ciências Humanas no currículo, evidenciando tensões entre formação crítica e demandas pragmáticas do mercado.

Diante desse percurso histórico, torna-se evidente que a Sociologia no Ensino Médio não pode ser compreendida apenas como um componente curricular, mas como um espaço de disputa simbólica e política em torno do projeto de sociedade que se deseja construir. Nesse sentido, este estudo parte da compreensão de que a Sociologia desempenha papel fundamental na formação de sujeitos críticos e conscientes de sua inserção social.

Nesse cenário, um dos principais desafios contemporâneos da Sociologia no Ensino Médio diz respeito à sua permanência e legitimidade no currículo escolar frente às recentes reformas educacionais. Com a implementação do Novo Ensino Médio, observa-se uma reorganização curricular que, embora enfatize a flexibilização e os itinerários formativos, tem gerado incertezas quanto ao espaço das Ciências Humanas. Segundo Saviani (2021), tais reformas tendem a “fragilizar a formação crítica em favor de uma lógica utilitarista da educação”, o que impacta diretamente disciplinas como a Sociologia. Assim, a redução da carga horária obrigatória compromete a continuidade e a profundidade das discussões sociológicas no ambiente escolar.

Além disso, a Sociologia enfrenta o desafio da desvalorização simbólica frente a componentes curriculares considerados mais “pragmáticos” ou alinhados às demandas do mercado de trabalho. Nesse contexto, a disciplina é frequentemente percebida como abstrata ou distante da realidade dos estudantes, o que dificulta sua aceitação no cotidiano escolar. Conforme destaca Moraes (2010), a Sociologia escolar sofre com a ideia equivocada de que seu ensino não produz resultados mensuráveis imediatos, quando, na verdade, seu valor reside na formação do pensamento crítico e reflexivo. Tal percepção reforça práticas pedagógicas superficiais e limita o potencial emancipatório da disciplina.

Outro desafio relevante refere-se à formação inicial e continuada dos professores de Sociologia, especialmente no que diz respeito à articulação entre teoria sociológica e prática pedagógica. Muitos docentes enfrentam dificuldades para traduzir conceitos complexos em linguagem acessível aos estudantes do Ensino Médio. De acordo com Silva (2012, p. 115), “a ausência de políticas consistentes de formação docente compromete a qualidade do ensino de Sociologia”, resultando, por vezes, em abordagens excessivamente conteudistas ou descontextualizadas. Dessa forma, a qualificação docente emerge como elemento central para o fortalecimento da disciplina.

Somado a isso, a Sociologia precisa lidar com o desafio de dialogar com uma juventude imersa em múltiplas linguagens e mídias digitais, o que exige metodologias mais dinâmicas e contextualizadas. A permanência de práticas tradicionais, baseadas exclusivamente na exposição oral e no livro didático, tende a afastar os estudantes. Segundo Charlot (2013), o sentido atribuído pelos jovens ao conhecimento escolar está diretamente relacionado à sua capacidade de dialogar com suas experiências de vida. Assim, o ensino de Sociologia demanda estratégias pedagógicas que articulem teoria, realidade social e vivências juvenis.

Outro ponto crítico refere-se às disputas ideológicas que envolvem o ensino da Sociologia, frequentemente alvo de acusações de doutrinação ou viés político. Esse cenário tem intensificado a vigilância sobre o trabalho docente e gerado insegurança no exercício da profissão. Conforme analisa Frigotto (2017, p. 73), tais discursos buscam “deslegitimar o pensamento crítico e reduzir a escola a um espaço neutro e tecnicista”, o que contradiz a própria natureza das Ciências Sociais. Nesse sentido, a Sociologia enfrenta o desafio de afirmar sua função formativa sem abrir mão de seu compromisso com a análise crítica da realidade.

Por fim, os desafios contemporâneos da Sociologia no Ensino Médio evidenciam a necessidade de resistência pedagógica e de reafirmação de sua importância na formação cidadã. Em uma sociedade marcada por desigualdades, intolerâncias e desinformação, a Sociologia contribui para o desenvolvimento da consciência social e do pensamento autônomo. Como afirma Bauman (2011, p. 18), “pensar sociologicamente é condição para compreender o mundo em que vivemos”. Assim, superar os desafios atuais implica fortalecer a disciplina enquanto espaço de reflexão crítica, diálogo democrático e construção de sentidos no processo educativo.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objetivo analisar a trajetória e os desafios da Sociologia no Ensino Médio, com ênfase nos fatores históricos, sociais e políticos que condicionam sua consolidação como componente curricular crítico, bem como nos efeitos da formação inicial e continuada dos professores nesse processo. A partir da revisão e articulação dos referenciais teóricos e históricos mobilizados ao longo do trabalho, foi possível compreender que a Sociologia escolar não se constitui de maneira linear, mas como resultado de disputas políticas, reformulações curriculares e concepções distintas de educação e de sociedade. Nesse sentido, o objetivo proposto foi plenamente alcançado, uma vez que se evidenciaram os elementos estruturantes que explicam tanto os avanços quanto as fragilidades da disciplina no Ensino Médio brasileiro.

A análise histórica demonstrou que a presença da Sociologia no currículo sempre esteve vinculada a projetos educacionais mais amplos, ora sendo valorizada como instrumento de formação crítica e cidadã, ora sendo marginalizada em contextos de orientação tecnicista e utilitarista. Essa oscilação impactou diretamente a identidade da disciplina e as condições de seu ensino, refletindo-se na instabilidade curricular, na redução de carga horária e na fragilização de práticas pedagógicas mais aprofundadas. Ainda assim, o estudo evidenciou que a Sociologia mantém um papel estratégico na compreensão da realidade social e na formação de sujeitos capazes de interpretar criticamente as desigualdades, os conflitos e as transformações sociais.

No que se refere aos desafios contemporâneos, constatou-se que a formação docente emerge como elemento central para a consolidação da Sociologia no Ensino Médio. A qualificação inicial e continuada dos professores influencia diretamente a abordagem dos conteúdos, a escolha de metodologias e a capacidade de articulação entre teoria sociológica e experiência juvenil. Ademais, os desafios impostos pelas reformas educacionais recentes, pelas disputas ideológicas e pelas mudanças nos perfis dos estudantes exigem do professor uma atuação reflexiva, crítica e constantemente atualizada, reafirmando a importância de políticas públicas voltadas à valorização da docência em Ciências Humanas.

Por fim, este estudo contribui para o campo da educação ao reforçar a relevância da Sociologia como componente curricular indispensável à formação integral dos estudantes do Ensino Médio. Ao sistematizar elementos históricos, teóricos e políticos, a pesquisa oferece subsídios para reflexões acadêmicas, práticas pedagógicas e formulação de políticas educacionais mais comprometidas com a educação crítica e democrática. As implicações do trabalho apontam para a necessidade de fortalecimento da formação docente, de defesa da Sociologia no currículo escolar e de continuidade de investigações que aprofundem a relação entre ensino de Sociologia, cidadania e transformação social.

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1 Mestrando em Educação pela Ivy Enber Christian University. E-mail: [email protected].