USOS E COSTUMES – A MAÇONARIA NA ACADEMIA CIENTÍFICA

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18716699


Jocimario Alves Pereira1


RESUMO
O estudo tem como objetivo mapear e analisar a evolução das publicações científicas sobre a Maçonaria em periódicos da Capes, visando compreender os padrões de autoria, as redes de colaboração e os principais eixos temáticos explorados. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa básica, com abordagem mista (quanti-qualitativa) e análise bibliométrica, baseada em artigos publicados entre 2001 e 2023, em língua portuguesa e acesso aberto. A coleta e organização dos dados seguiram seis etapas, incluindo definição de base, estratégia de busca, tratamento e análise, assegurando a validade e replicabilidade dos resultados. Os resultados indicaram 16 publicações disponíveis, distribuídas majoritariamente em periódicos de estrato A1 e A2, o que demonstra alta qualidade, porém baixo volume de produção. Identificaram-se cinco eixos principais: secularização e política, educação, sociabilidade e identidade, simbolismo cultural e questões raciais. A análise revelou predomínio de autorias individuais e pouca densidade de redes colaborativas. Conclui-se que, apesar do interesse crescente, a Maçonaria ainda é um tema marginal no meio acadêmico brasileiro, carecendo de maior rigor metodológico, integração entre pesquisadores e ampliação da base empírica. O estudo propõe a criação de redes científicas e metodologias integradas que consolidem o tema como campo de pesquisa interdisciplinar nas ciências humanas.
Palavras-chave: Análise bibliométrica; Pedreiros Livres; Brasil.

ABSTRACT
The study aims to map and analyze the evolution of scientific publications on Freemasonry in journals indexed by CAPES, seeking to understand authorship patterns, collaboration networks, and the main thematic axes explored. Methodologically, it is a basic research study with a mixed (quantitative and qualitative) approach and bibliometric analysis, based on articles published between 2001 and 2023, in Portuguese and open access. Data collection and organization followed six stages, including database definition, search strategy, data processing, and analysis, ensuring the validity and replicability of results. The findings indicated 16 available publications, mostly distributed in A1 and A2-ranked journals, demonstrating high quality but a low volume of production. Five main thematic axes were identified: secularization and politics, education, sociability and identity, cultural symbolism, and racial issues. The analysis revealed a predominance of single authorship and low density in collaborative networks. It is concluded that, despite growing interest, Freemasonry remains a marginal topic in Brazilian academia, lacking methodological rigor, researcher integration, and a broader empirical base. The study proposes the creation of scientific networks and integrated methodologies to consolidate the topic as an interdisciplinary research field within the human sciences.
Keywords: Bibliometric analysis; Freemasons; Brazil.

1. INTRODUÇÃO

A Maçonaria, ao longo dos séculos, consolidou-se como uma instituição marcada por mistérios, simbolismos e influências filosóficas (Lomas, 2018; Guimarães, 2021; Ismail, 2020; 2024), despertando o interesse de estudiosos em diversas áreas do conhecimento. Contudo, seu tratamento no meio acadêmico ainda é incipiente, exigindo abordagens que transcendam o senso comum e busquem compreender suas dimensões históricas, sociais e culturais de forma científica. O presente estudo tem como objetivo mapear e analisar a evolução das publicações científicas sobre a Maçonaria no Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Capes, de modo a compreender os padrões de autoria, as redes de colaboração e os principais eixos temáticos explorados. Busca-se, ainda, identificar as tendências de publicações sobre o tema, classificar as áreas do conhecimento em que a Maçonaria é mais recorrente e analisar a diversidade metodológica empregada nos estudos publicados.

A escolha do tema justifica-se pela necessidade de superar visões estigmatizadas da Maçonaria, muitas vezes associada a secretismos e teorias conspiratórias, e situá-la como objeto legítimo de investigação científica. O trabalho propõe uma reflexão sistemática sobre como a produção acadêmica tem tratado o assunto, revelando lacunas, padrões e tendências que podem contribuir para a consolidação de um campo de pesquisa específico. Nesse contexto, o estudo também se insere em uma agenda científica contemporânea preocupada em compreender fenômenos culturais e sociais sob a ótica da interdisciplinaridade e da análise crítica das fontes.

O levantamento bibliométrico realizado no Portal de Periódicos da CAPES demonstra que, embora a Maçonaria tenha influenciado aspectos históricos, políticos e educacionais, sua representação acadêmica ainda é dispersa e fragmentada. A ausência de uma linha de pesquisa consolidada reforça a pertinência do estudo, que se propõe a estruturar um panorama da produção científica sobre o tema no Brasil, contribuindo para a formação de um corpus analítico sistematizado e validado por critérios técnicos.

Metodologicamente, o estudo segue uma abordagem mista, combinando análises quantitativas e qualitativas, com base em dados secundários extraídos de artigos revisados por pares, publicados entre 2001 e 2023. Essa estratégia permite uma leitura ampliada do fenômeno, conjugando indicadores bibliométricos com interpretações críticas das tendências temáticas e metodológicas observadas (Leite, 2008; Gil, 2023; Celestino et al., 2024). O rigor técnico empregado assegura tanto a validade interna quanto a replicabilidade dos resultados, configurando uma base sólida para futuras pesquisas.

Em síntese, este trabalho busca dar visibilidade a um campo de estudos pouco explorado, contribuindo para a compreensão do papel da Maçonaria na formação do pensamento moderno e no desenvolvimento das ciências humanas e sociais no Brasil. A proposta, portanto, extrapola o mero levantamento descritivo e propõe uma análise crítica e reflexiva sobre o lugar da Maçonaria na academia científica, considerando seus desafios, avanços e potencialidades epistemológicas.

2. MAÇONARIA

A princípio é descrito o conceito contemporâneo de Maçonaria, conforme a literatura (Lomas, 2018; Guimarães, 2021; Ismail, 2020; 2024), que é uma escola iniciática, de caráter reservado, que, por meio de alegorias e símbolos, busca promover o aprimoramento intelectual e espiritual de seus membros, por meio de reflexões filosóficas que visam elevar a ética e a moral daqueles que dela participam. Esse conceito constitui uma estrutura interpretativa que se distancia das ideias equivocadas que, por muito tempo, permearam a compreensão da Maçonaria, como a associação indevida à condição de facção religiosa ou a concepção de uma sociedade secreta com pretensões de dominação mundial.

Instintivamente, a construção do conceito de Maçonaria está relacionada à sua história envolta em aspectos nebulosos e às diversas narrativas que a acompanharam ao longo do tempo. Em cada fase de sua cronologia, “Primitiva”, “Operativa”, e “Especulativa” ou “Moderna”, diferentes interpretações e estórias foram sendo incorporadas, moldando percepções que nem sempre correspondiam à sua essência. De acordo com Ismail (2012; 2020; 2024) e Silva (2022), grande parte do conhecimento sobre a Maçonaria foi transmitido sem o devido respaldo em registros fidedignos da realidade, o que resultou em construções interpretativas muitas vezes desconectadas de uma fundamentação histórica consistente.

Seguindo este interim, desacatar-se-á que a Maçonaria Primitiva é período histórico de maior controversa. Primeiro pelo fato de falta de registro, segundo pela capacidade dinâmica de especular a história da Maçonaria. Valenciano e Miranda (2024, p. 4) explicam que esse período “está fadada às explicações orais, tradicionais, repassadas normalmente entre os próprios maçons, sem a necessidade de comprovação científica, por exemplo, que os fatos demonstrados realmente aconteceram”. Em termos práticos, esse período dito histórico, é um período que promove erupção de conhecimento que vai fundamentar a construção da Maçonaria, como as sociedades antigas da Babilônia, Egito, Mesopotâmia, Hebraica, Hindu, entre outras (Lucas, 2018; Valeciano; Miranda, 2024). Isto é, todo período humano, que cominou em uma civilização com grandes obras como monumentos (Souza, 2022), templos, castelos, pontes, aquíferos, estradas que modificaram a região da África, Oriente Médio e Asia, e que posteriormente se espalham pela Europa.

Essa perspectiva constitui os alicerces que fundamentaram a chamada Maçonaria Operativa, surgida a partir das associações de pedreiros, conhecidas como guildas (Souza, 2022; Souza, 2023a). Guardadas as devidas proporções e perspectivas históricas, tais organizações podem ser comparadas a uma junção entre cooperativas e sindicatos dos dias atuais. Tratava-se, portanto, de um agrupamento de profissionais de um mesmo ofício (os pedreiros), que se associavam com o objetivo de garantir proteção mútua, assegurar o controle de qualidade das obras e promover os interesses coletivos de seus membros. Além disso, essas corporações desempenhavam papel relevante na transmissão de técnicas construtivas, na regulamentação do trabalho e na preservação de conhecimentos práticos, o que consolidou sua importância social e econômica.

Esse período histórico da Maçonaria, correspondente à chamada Maçonaria Operativa, é pouco documentado, o que torna sua compreensão limitada e, em muitos casos, cercada de lacunas. No entanto, há pelo menos um registro formalmente reconhecido, a Carta de Bolonha, datada de 1248 e escrita em latim, documento de valor jurídico que foi registrado em cartório. Esse texto em seu anexo, menciona a existência de mais de 300 mestres maçons (Blanco, 2014; Souza, 2023a), o que evidência não apenas a organização e a relevância social dessas corporações, mas também permite inferir que a estrutura da Maçonaria já era mais antiga que o referido registro. Ademais, a Carta de Bolonha, além de constituir um documento histórico de grande importância, representa uma prova significativa de que a Maçonaria, desde suas origens, não pode ser considerada uma instituição secreta, pois seus registros eram oficiais e reconhecidos juridicamente.

A literatura (Blanco, 2014; Oliveira, 2021; Souza, 2023; Velaciano; Miranda, 2024) também registra pelo menos dois documentos de grande relevância relacionados à Maçonaria Operativa: o Poema Regius, datado por pesquisadores em torno de 1390, e o Manuscrito de Cooke, de aproximadamente 1400.

O Poema Regius é um documento de 64 páginas em papiro que relata a astúcia de Euclides em relação à geometria, descrevendo a Maçonaria como um ofício reservado aos filhos da nobreza no Egito e mencionando que, antes do ano 1000 do calendário cristão, esse conhecimento teria sido levado para a Inglaterra (Blanco, 2014; Souza, 2023b). Em linhas gerais, pode ser considerado uma espécie de “manual histórico” da Maçonaria, que mescla tradição, mito e relato histórico. Já o Manuscrito de Cooke apresenta forte relação com a religiosidade, especialmente com o cristianismo, citando a Bíblia em diversos trechos. Além disso, o documento discorre sobre aquilo que denomina artes ou ciências, entre elas Gramática, Retórica, Dialética, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia (Blanco, 2014; Valeciano; Miranda, 2024). A partir dessa enumeração, o texto explica que a Maçonaria seria a Arte ou Ciência que fornece a base para todas as demais práticas, conferindo-lhe caráter fundacional no desenvolvimento do conhecimento humano.

Notadamente, a única fase histórica da Maçonaria que possui registros contundentes é a chamada Maçonaria Especulativa ou Moderna. Alguns estudos (Lucas, 2018; Tavares, 2019; Souza, 2022; 2023a) defendem que seu início ocorreu a partir da promulgação da Constituição de Anderson, publicada em 1723. Esse documento é considerado o marco oficial da Maçonaria Moderna, pois estabeleceu normas, princípios e regulamentos que passaram a orientar a prática maçônica em diversos países. Conforme Ismail (2023), a Constituição de Anderson foi reeditada em 1738, o que evidencia o esforço da instituição em atualizar e consolidar suas diretrizes em um intervalo relativamente curto de 15 anos. Além disso, destaca-se também a publicação da Constituição dos Maçons Antigos, em 1756, a qual regulamentava especificamente as práticas dos chamados Maçons Antigos (Souza, 2022; Dermott, 2024). Esses documentos, em conjunto, constituem um corpo normativo que reforça a legitimidade histórica da Maçonaria Especulativa, conferindo-lhe maior visibilidade e institucionalidade no cenário social e cultural da época.

Para além das Constituições de Anderson (1723) e dos Maçons Antigos (1756), diversos outros documentos corroboram a existência e as atividades da Maçonaria Especulativa ou Moderna, tais como reportagens, atas de reuniões, manuscritos e registros de rituais (Blanco, 2014; Lomas, 2018; Ismail, 2023; Dermott, 2024). Esses materiais reforçam a consolidação institucional da Maçonaria Moderna, evidenciando sua prática social, organizacional e simbólica em diferentes contextos históricos. É relevante destacar, entretanto, que a Maçonaria Operativa coexistiu durante certo tempo com a Maçonaria Especulativa. Conforme observa Ismail (2025), a Maçonaria Operativa foi gradualmente perdendo espaço e deixando de existir, chegando inclusive a enfrentar proibições pontuais em determinados períodos e regiões. Esse processo de transição reflete a transformação de uma prática essencialmente profissional e artesanal em uma instituição filosófica e iniciática, voltada à reflexão ética, moral e intelectual.

Tacitamente, a Maçonaria se expandiu para diferentes recantos do mundo, estando presente em inúmeros países e contextos culturais. Essa difusão deu origem a uma multiplicidade de lojas maçônicas, cada uma com suas particularidades, mas unidas por princípios comuns de fraternidade, ética e aprimoramento intelectual (Blanco, 2014; Souza, 2023b; Valeciano; Miranda, 2024; Ismail, 2025). Da mesma forma, observa-se a existência de diversos rituais, que embora variem em forma, linguagem e simbologia, compartilham a mesma essência iniciática e filosófica, voltada à formação moral e espiritual de seus membros. Essa diversidade reflete a capacidade da Maçonaria de se adaptar a diferentes realidades históricas e sociais, preservando sua identidade ao mesmo tempo em que dialoga com as especificidades locais.

2.1. Maçonaria no Brasil

No Brasil, a história da Maçonaria não se apresenta de forma tão complexa quanto em outros países, mas revela uma turbidez significativa, marcada por diferentes episódios, especialmente aqueles relacionados à política (Gregório, 2024). Destaca-se que, em território brasileiro, a vertente que efetivamente se estabeleceu foi a Maçonaria Especulativa ou Moderna, conforme apontam Ismail (2012; 2021; 2024; 2025), Magalhães (2023) e Gregório (2024). Essa presença não apenas introduziu práticas e rituais alinhados às tradições modernas da instituição, mas também, traçou paralelos e diálogos com o contexto sociopolítico nacional, onde seus membros exerceram influência em momentos decisivos da história do país, como o movimento de independência, o abolicionismo e a consolidação de ideais republicanas.

Na prática, não há consenso quanto ao local exato de origem da Maçonaria brasileira. É possível encontrar discursos e registros históricos que defendem seu início em Pernambuco, na Bahia ou no Rio de Janeiro (Andrade, 2021; Ismail, 2021; Toscano, 2022; Gregório, 2024). Essa multiplicidade de narrativas evidencia a dificuldade de se estabelecer, de forma definitiva, o marco inaugural da instituição no país, dada a escassez documental e as disputas interpretativas em torno do tema. Contudo, é historicamente incontroverso afirmar que o Grande Oriente do Brasil (GOB) foi fundado em 1822 (Ismail, 2021), configurando-se como uma potência maçônica oficial reconhecida no território nacional. Essa instituição, que atravessou dois séculos de transformações políticas, sociais e culturais, permanece ativa no século XXI, consolidando-se como a mais antiga potência maçônica brasileira ainda em funcionamento.

A partir do Grande Oriente do Brasil (GOB), surgiram, ao longo do tempo, outras potências maçônicas que passaram a compor o cenário nacional existente ainda no século XXI. Nesse processo, foram instituídas as 27 Grandes Lojas, distribuídas em cada unidade da federação, que se organizaram em nível nacional por meio da Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB), fundada em 1927 (Ismail, 2021; Gregório, 2024). Posteriormente, estruturaram-se também os Grandes Orientes Independentes, presentes atualmente em 23 estados brasileiros, os quais se articularam na Confederação Maçônica do Brasil (COMAB), instituída em 1973 (Ismail, 2021; 2025). Dessa forma, a Maçonaria no Brasil consolidou-se em diferentes vertentes organizacionais, refletindo tanto a diversidade interna do movimento quanto os distintos arranjos institucionais que marcaram sua história.

Em verdade, essa breve síntese sobre a Maçonaria no Brasil não revela as suas nuances mais profundas, limitando-se a apresentar a estrutura institucional que se consolidou ao longo do tempo. O que a história evidencia, entretanto, é a recorrência de disputas políticas que, em diferentes momentos, resultaram em cisões internas e na formação de novas potências maçônicas (Ismail, 2021; 2024). Esses rompimentos, por sua vez, demandaram intenso trabalho diplomático para a celebração de múltiplos tratados de reconhecimento e de convivência mútua entre as diversas obediências.

Tal panorama revela que, historicamente, a Maçonaria brasileira esteve longe de ser uma instituição plenamente harmoniosa, equilibrada e unida sob os ideais de fraternidade universal (Ismail, 2021; 2024; Gregório, 2024). Ao contrário, sua trajetória demonstra tensões internas, rivalidades institucionais e contradições entre o ideal proclamado, de superação das paixões e dos vícios humanos, e a prática efetiva, marcada pela presença de disputas de poder e interesses divergentes.

Convém lembrar que, no Brasil, a Maçonaria é juridicamente reconhecida como uma associação de direito civil (Ismail, 2024), sujeita, portanto, ao ordenamento jurídico vigente que regula as entidades de caráter privado. Diferentemente do passado, a instituição encontra-se atualmente bastante exposta no espaço público, seja por meio das redes sociais, seja por intermédio de suas iniciativas voltadas para a caridade e para a promoção de diversas ações sociais. Essa abertura contemporânea contribui para uma maior visibilidade social da Maçonaria, permitindo não apenas a divulgação de suas atividades, mas também a consolidação de uma imagem institucional vinculada à filantropia, à educação e ao serviço comunitário. Ao mesmo tempo, esse processo de exposição coloca a instituição sob novos desafios, como a necessidade de conciliar sua tradição histórica e simbólica com as demandas de transparência e de engajamento social exigidas na atualidade.

3. METODOLOGIA

Este estudo trata-se de uma pesquisa básica, isto é, “que diz respeito à produção de novos conhecimentos” (Pereira, 2023, p. 8), que alcançar-se-á o objetivo de mapear e analisar a evolução das publicações científicas sobre a Maçonaria em periódicos da Capes, de modo a compreender os padrões de autoria, as redes de colaboração e os principais eixos temáticos explorados. Busca-se, ainda, identificar as tendências de publicações sobre o tema, classificar as áreas do conhecimento em que a Maçonaria é mais recorrente e analisar a diversidade metodológica empregada nos estudos publicados.

Para tanto, o trabalho foi embasado por uma abordagem mista (quanti-qualitativo), que conforme, Mattar e Ramos (2021), é uma ação pragmática de obter uma interpretação mais ampla de um objeto de estudo, por meio de múltiplas perspectivas. Tacitamente, o estudo seguiu um procedimento de pesquisa bibliográfica por análise bibliométrica, que em conformidade com a literatura (Leite, 2008; Gil, 2023; Celestino et al., 2024), é um modo de produzir informação a parti de dados secundários, de outras pesquisas, por dois princípios básicos – a estatística e a intepretação.

Neste ínterim, para uma organização sistematizada, a pesquisa seguiu um roteiro pragmático, fundamentado nos estudos de Mattar e Ramos (2021), Gil (2023) e Celestino e colaboradores (2024), que é estruturado em seis etapas, como ilustrado na Figura 1.

Figura 1 – Roteiro para pesquisa bibliográfica

Interface gráfica do usuário, Aplicativo

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.
Fonte: adaptado de Mattar e Ramos (2021), Gil (2023) e Celestino e colaboradores (2024)

Assim, na primeira etapa - definição de base de dados, foi estabelecido o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Capes (periodicos.capes.gov.br/) é uma Biblioteca Digital, que possui mais de 100 bases de indexação, e mais de 35 mil periódicos científicos (Ramalho; Silva; Rocha, 2020). Isto é, um baco de dados amplo e institucionalizado, que da firmeza e estabilidade para busca de estudos para estratos de dados de pesquisa acadêmica.

Na segunda etapa - estratégia de buscas (Quadro 1) - utilizou-se a palavra-chave “Maçonaria”, aplicando os seguintes filtros: acesso aberto (para garantir a disponibilidade dos documentos), tipo de documento restrito a artigos, recorte temporal de 2001 a 2023 (limite disponibilizado pela plataforma), produção nacional, revisão por pares e idioma português.

Quadro 1 – Estratégia de buscas

Estratégia de busca

Palavra-chave

Maçonaria

Filtros

Acesso aberto

Artigos

Recorte temporal – 2001 a 2023

Produção nacional

Revisado por pares

Idioma português

Fonte: autor (2025).

Por meio dessa estratégia, tornou-se viável selecionar uma amostra criteriosa de corpus para a pesquisa, assegurando não apenas a relevância do material coletado, mas também sua acessibilidade, confiabilidade e possibilidade de reprodução. Essa abordagem contribui para a solidez metodológica do estudo, uma vez que garante que os dados utilizados sejam representativos e passíveis de verificação por outros pesquisadores (Mattar; Ramos, 2021). Além disso, a combinação desses critérios fortalece a transparência do processo investigativo, favorecendo tanto a validade quanto a replicabilidade dos resultados obtidos.

Na sequência, a terceira etapa – tratamento, coleta e organização de dados, consistiu em sistematizar as informações obtidas a partir do corpus da pesquisa. Esse processo envolveu a instrumentalização de um recurso para organizar os dados garantindo maior precisão, rastreabilidade e facilidade de interpretação dos resultados (Quadro 2). Este, permitiu extrair conteúdos pertinentes, com a padronização, cruzamento e a categorização das informações de acordo com os objetivos da pesquisa. Dessa forma, foi possível estruturar uma base sólida crítica e reflexiva, para a discussão dos achados, preservando a coerência metodológica do estudo.

Quadro 2 – Instrumento de sistematização de organização de dados

Título

Periódico

Autores

Qualis/ Capes

Ano de publicação

Objetivo da pesquisa

Metodologia

Fonte: autor (2025)

O instrumento de análise (Quadro 2) possibilitou uma visualização mais evidente e organização dos artigos selecionados, contemplando informações essenciais como título, periódico de publicação, autores, classificação Qualis/Capes, ano de publicação, objetivo da pesquisa e a metodologia adotada. Essa sistematização contribuiu para facilitar a comparação entre os trabalhos, identificar padrões e lacunas na produção científica e garantir maior precisão na etapa de análise crítica do corpus.

Sequencialmente, a quarta etapa - visualização e análise dos dados, foi conduzida a partir da categorização das principais informações extraídas do corpus. Essa fase contemplou a identificação de padrões de autoria, redes de colaboração científica, eixos temáticos recorrentes, bem como a detecção de tendências de publicação ao longo do período analisado (Mattar; Ramos, 2021). Além disso, realizou-se a classificação por área do conhecimento e a sistematização das metodologias empregadas, o que permitiu compreender a diversidade de abordagens adotadas e mapear a evolução do campo de estudo. Esse conjunto de procedimentos ofereceu uma visão abrangente e crítica da produção científica, fortalecendo a consistência da análise e possibilitando interpretações mais robustas acerca do fenômeno investigado.

Na quinta etapa - interpretação e discussão dos resultados, a análise foi alicerçada na construção sociocultural e histórica do pesquisador, considerando-se sua posição como sujeito interpretativo no processo científico (Pereira, 2023; Gil, 2023). Essa etapa esteve ancorada nas referências teóricas e empíricas dos estudos selecionados, permitindo estabelecer diálogos críticos entre os achados do corpus e o contexto acadêmico mais amplo. Assim, buscou-se não apenas descrever os resultados, mas interpretá-los de forma reflexiva, relacionando-os às dimensões sociais, históricas e culturais que atravessam o fenômeno investigado.

Por fim, a sexta etapa – recomendações, constituiu-se como um momento singular do processo metodológico, uma vez que se estruturou diretamente a partir dos resultados obtidos ao longo da pesquisa (Gil, 2023; Celestino et al., 2024). Nessa fase, foram indicadas propostas, reflexões e possíveis caminhos para investigações futuras, bem como sugestões de aplicação prática dos achados. Essa etapa teve como finalidade ampliar o impacto do estudo, oferecendo subsídios tanto para o avanço do conhecimento científico quanto para a orientação de novas pesquisas na área, além de contribuir para o fortalecimento do debate acadêmico sobre a Maçonaria.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A princípio, após realizar a busca com a palavra-chave “Maçonaria”, no Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes, dentro da estratégia de busca, com os filtros - acesso aberto, tipo de documento restrito a artigos, recorte temporal de 2001 a 2023, produção nacional, revisão por pares e idioma português – e foram exibidos 23 estudos. No entanto, apenas 16 estavam realmente disponíveis na integra (Quadro 3), resultando em um fragmento diminuto diante do espaço amostral.

Quadro 3 – Estudos selecionados no quadro sistematizado

Título

Periódico

Autores

Qualis/ Capes

Ano de publicação

Objetivo da pesquisa

Metodologia

Espaços de secularização no século XIX: a atuação da maçonaria no Brasil e no Uruguai

Estudos Ibero-Americanos

Eliane Lucia Colussi

A2

2003

Analisar a influência da maçonaria no processo de secularização no Brasil e no Uruguai, durante século XXI.

Não descrito

Alquimia, Ocultismo, Maçonaria: o ouro e o simbolismo hermético dos cadinhos (século XVIII e XIX)

Anais do Museu Paulista

Tania Andrade Lima; Marília Nogueira Silva

A1

2003

Não descrito

Não descrito

A romantização como catequese: a doutrina pastoral dos Bispos

Revista HISTEDBR On-line

Fernando Arthur de Freitas Neves

A3

2012

Não descrito

Não descrito

A religião no Império compreendida a partir de manuscritos pessoais

Revista Maracanan

Beatriz Piva Momesso

A2

2015

Não descrito

Não descrito

O acervo documental do museu do Colégio Municipal Pelotense e sua Importância para História da Educação

História da Educação [on-line]

Giana Lange do Amaral

A1

2015

Não identificado

Análise documental

Louis-Auguste Blanqui e o século XIX: uma história política do céu

Revista Limiar

Olgária C. F. Matos

A4

2016

Não descrito

Não Descrito

A literatura nas sombras as edições em português e os tradutores da Atalá de Chateaubriand na crise do antigo regime luso- brasílico (1810-1820)

Literatura e Sociedade

Pablo Iglesias Magalhães

A3

2016

Revelar os aspectos históricos e bibliográficos das diferentes edições e traduções, identificando seus anônimos tradutores, com destaque para edição da Atalá ou os dois amores no deserto impressa em 1819 na Tipografia de Manoel Antonio da Silva Serva, a primeira novela que se publicou na Capitania da Bahia.

Ensaio

A educação na Bahia: percurso histórico da educação na região Cacaueira

Revista HISTEDBR On-line

Raimunda Alves Moreira de Assis

A3

2016

Aborda o debate ocorrido em uma Mesa Redonda sobre História da Educação da Bahia, promovido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil.

Análise documental

De lá pra cá: apontamentos da formação Franco-Maçonaria como espaço de sociabilidade e sua influência na construção da Maçonaria no Brasil

Revista de Pesquisa Histórica CLIO

Thiago de Souza Junior

B1

2016

busca apontar, em consonância com a amplitude dada à noção de sociabilidade nesse movimento, a formação da Maçonaria na França do Antigo Regime e, seguidamente, considerar a importação e incorporação dessas ideias na secularização da política no Brasil

Historiografia

Os maçons e a modernização educativa no Brasil no período de implantação e consolidação da república

História da Educação [on-line]

Giana Lange do Amaral

A1

2017

Estabelecer interfaces no âmbito político-educacional e cultural da presença de maçons no processo de implantação da República no Brasil

Não identificado

A Influência da dinâmica relacional na gestão de uma loja maçônica

Redes

Daniel Pires Vieira; Edgar Reyes Junior; João Paulo Barbosa Fernandes

A4

2017

Caracterizar as relações intraorgazicionais desenvolvidas dentro da estrutura de uma Loja Maçônica

Exploratório e descritivo

Maçonaria e Educação – Poucos mas bons

Cadernos de História da Educação

Eduardo Arriada; Elomar Tambara

A2

2018

Analisar a relação entre instituição maçônica brasileira e educação

Não descrito

Horace Lane: consultor da instrução pública paulista e participação na exposição internacional de st. Louis (1885-1912)

História da Educação [on-line]

Ivanilson Bezerra da Silva

A1

2018

Analisa a atuação de Horace Manley Lane na instrução pública paulista entre os anos de 1885-1912. 

Não descrito

Maçonaria: um lugar para a sociabilidade de homens de cor, nascidos livres e libertos

História debates e tendências

Renata Ribeiro Francisco

A3

2020

Analisar a experiência maçônica de homens de “cor”, nascidos livres e libertos nos templos maçônicos da segunda metade do século XIX

Não descrito

Os heróis maçônicos na historiografia da abolição em São Paulo

História da historiografia

Renata Ribeiro Francisco

A1

2020

Investiga-se o papel do herói na construção da historiografia maçônica da abolição em São Paulo

Historiografia

Entre Irmãos: sociabilidade, mobilidade e identidade maçônica em São Paulo (1850-1888)

História

Renata Ribeiro Francisco

A1

2022

Analisa a mudança do perfil dos frequentadores de dois dos templos maçônicos mais antigos da cidade de São Paulo, o Piratininga e o América, fundados respectivamente em 1850 e 1868

Não descrito

Fonte: dados da pesquisa (2025)

Como apresentado no Quadro 3, observa-se que o número de artigos encontrados é diminuto, considerando o campo amostral analisado. Esse resultado pode indicar que a Maçonaria ainda não tem sido amplamente abordada como objeto de pesquisa científica, dentro dos parâmetros e critérios de busca adotados neste estudo. Além disso, tal resultado pode refletir limitações inerentes ao próprio banco de dados do Portal de Periódicos da Capes, uma vez que, no processo de levantamento, não foi identificado nenhum estudo publicado em periódicos especializados sobre Maçonaria, como, por exemplo, a revista “Ciência e Maçonaria” (https://www.cienciaemaconaria.com.br/index.php/cem) e “Revista Científica Maçônica – Ad Lucem” (https://adlucem.com.br). Esse cenário suscita uma reflexão sobre o funcionamento dos algoritmos de indexação e busca dos bancos de dados acadêmicos, os quais podem influenciar significativamente a visibilidade de determinadas áreas do conhecimento. Contudo, apesar dessa limitação e da aparente contradição observada, é imprescindível manter o rigor técnico e metodológico, assegurando o cumprimento do protocolo de pesquisa e a fidedignidade dos resultados obtidos.

Dito isso, as redes de colaboração (ou redes de coautoria) são estruturas que representam as relações entre pesquisadores a partir de suas produções conjuntas. Cada autor é um nó (ou vértice), e cada coautoria representa uma aresta (ligação) entre esses nós (Costa et al., 2024). Quanto maior o número de coautorias e autores compartilhados entre diferentes trabalhos, mais densa e interconectada será a rede.

Seguindo com as reflexões, foram analisados os padrões de autoria das 16 pesquisas selecionadas, foram identificados 17 autores. Entre eles, destacam-se “Renata Ribeiro Francisco”, com três publicações de autoria individual, e “Giana Lange do Amaral”, com duas publicações solo. Além disso, observou-se a presença de trabalhos em coautoria, como os de “Daniel Pires Vieira”, “Edgar Reyes Junior” e “João Paulo Barbosa Fernandes”, que assinam uma publicação em colaboração. Da mesma forma, identificou-se a parceria entre “Eduardo Arriada” e “Elomar Tambara”, também responsáveis por um estudo conjunto. Os demais autores, fizeram apenas uma publicação de modo individualizado.

A predominância de autorias solos (14 de 16 trabalhos), revela uma tendência à produção autônoma. Esse padrão é comum em áreas nas quais a pesquisa assume caráter mais reflexivo, teórico ou ensaístico (como ciências humanas e sociais), em oposição a áreas experimentais, nas quais o trabalho coletivo é mais frequente (Santos et al., 2025). Por outro lado, a presença de 2 coautorias envolvendo 5 autores distintos sugere que, embora a colaboração não seja o padrão dominante, há espaços de interação e produção conjunta. Essa prática pode estar associada a projetos interinstitucionais, orientações acadêmicas (como coautoria entre orientador e orientando), ou a iniciativas de pesquisa interdisciplinar.

Essa estrutura sugere uma rede de colaboração pequena e pouco densa, com predomínio de produção individual. Ou seja, a maior parte dos autores atua isoladamente, sem conexões de coautoria. A rede colaborativa, portanto, se restringe aos cinco autores que participaram dos dois trabalhos em coautoria. Dentro desse subconjunto, é possível que as autoras recorrentes (“Renata” e “Giana”) ocupem posições centrais, funcionando como nós de maior grau, isto é, como pontos de referência. É possível estabelecer redes de colaboração parciais, limitadas aos trabalhos em coautoria. Essas redes são pequenas, segmentadas e centralizadas em poucos autores recorrentes.

Seguindo pela análise, foi realizado uma síntese dos principais eixos temáticos relacionados a pesquisas sobre maçonaria: (I) secularização e modernização política; (II) educação; (III) Sociabilidade, identidade e mobilidade social; (IV) simbolismo, cultura e historiografia; (V) raça/cor, abolição e inclusão social. O que oferecem um quadro bastante coerente para analisar a Maçonaria como fenômeno multifacetado. Cada eixo interage com os outros: por exemplo, a sociabilidade (eixo 3) habilita mobilidade social, que por sua vez se liga à educação (eixo 2) e modernização política (eixo 1). O simbolismo (eixo 4) sustenta a cultura interna que permite à Maçonaria manter continuidade e distinção, enquanto o eixo de raça/cor (eixo 5) revela as tensões e limites desse sistema.

A partir dessa perspectiva, foi analisado o impacto das produções ao longo dos anos, observando-se publicações no período de 2003 a 2022, distribuídas entre os estratos A e B do Qualis-Capes. Verificou-se que a quase totalidade dos trabalhos foi publicada em periódicos classificados no estrato A, conforme ilustrado na Figura 2.

Figura 2 – Publicações por ano e estrato Qualis-Capes

Fonte: dados da pesquisa (2025)

A partir da ilustração (Figura 2), é possível afirmar que as publicações ocorreram de forma esparsa, sem uma periodicidade contínua. No entanto, houve dois momentos de destaque: o ano de 2003 com duas publicações iniciais; e o ano de 2016, que apresenta o maior pico, com quatro publicações. Após esse ponto de pico, o número de trabalhos mantém-se baixo e estável entre 2017 e 2020 (com duas publicações anuais), apresentando nova queda em 2022, com apenas uma publicação. Essa distribuição sugere que não há uma linha de pesquisa consolidada sobre Maçonaria no meio acadêmico brasileiro, e que o interesse pelo tema parece pontual ou associado a pesquisadores específicos.

Além disto, os artigos concentram-se, majoritariamente, nos estratos A (A1, A2, A3 e A4), com predominância do estrato A1, o que indica que, embora poucas, as publicações possuem elevado padrão de qualidade e são divulgadas em periódicos de alto impacto, conforme avaliação da Capes (Ramalho; Silva; Rocha, 2020). A presença pontual de trabalhos no estrato B1 reforça que a produção, ainda que limitada em número, é qualitativamente relevante dentro do banco de dados pesquisado. O que aponta mais uma vez para limitação quantitativa de estudos sobre o tema.

Contudo, a ausência de consolidação acadêmica sobre o tema pode ser devido a turbidez histórica que envolve a Maçonaria, frequentemente marcada por interpretações fragmentadas e pela influência de fatores políticos e esotéricos. Conforme destaca Gregório (2024), a história da Maçonaria brasileira sempre esteve encoberta por aspectos de ordem política ou esotérica, o que dificultou uma abordagem científica consistente ao longo do tempo. Além disso, com base em Ismail (2012, 2021, 2024, 2025) e Magalhães (2023), é possível afirmar que a produção existente sobre Maçonaria no Brasil ainda carece de maior reflexão crítica e rigor investigativo, revelando a necessidade de uma abordagem acadêmica mais aprofundada e sistematizada. Tais autores (Ismail, 2012; 2021; 2024; 2025; Magalhães; 2023) apontam que a compreensão do tema exige um olhar analítico e desmistificador, capaz de trazer à luz o conhecimento histórico e social que permanece encoberto por narrativas superficiais ou ideologicamente orientadas.

A análise das publicações evidencia que o interesse acadêmico pela maçonaria no Brasil no século XXI é tímido, no entanto, com um destaque notável entre 2015 e 2022 de trabalhos publicados. Esse destaque indica que a maçonaria pode ser um objeto legítimo de investigação histórica, social e educacional, especialmente no contexto da historiografia e da história da educação. Nos primeiros anos (2003-2012), observa-se uma ênfase em estudos de caráter histórico e simbólico, como por exemplo, com trabalhos que analisaram a influência maçônica na secularização do Brasil e do Uruguai, e que abordou aspectos herméticos e alquímicos associados à maçonaria. Essas pesquisas inserem a maçonaria no debate sobre modernidade, religiosidade e secularização, aproximando-a de temas culturais e filosóficos. Se mantendo assim, dentro dos seus aspectos de sustentação conceitual de uma escola de moral e ética (Lomas, 2018; Guimarães, 2021).

A partir de 2015, há uma clara mudança de foco, os estudos passam a privilegiar abordagens documentais e sociológicas, centradas na educação, política e sociabilidade maçônica. Destacam-se os que investigam a atuação maçônica no campo educacional e na formação política do Brasil republicano. Esse período marca o deslocamento do olhar simbólico e filosófico para uma perspectiva sócio-histórica, enfatizando o papel da maçonaria como agente de modernização e de redes sociais de poder. O que mante a lógica sobre o que os maçons brasileiros acham da Ordem (Ismail, 2020; 2024).

Entre 2017 e 2022, consolida-se uma tendência de enfoque interseccional e de representatividade social, que analisam a participação de homens negros e libertos nas lojas maçônicas e a construção da identidade maçônica em São Paulo. Essa mudança reflete a incorporação de novas agendas teóricas, como estudos de raça, gênero e identidade, à análise da maçonaria, ampliando sua compreensão como espaço de sociabilidade e mobilidade social. O que é uma mudança de paradigma relevante, entrelaçando com raízes profundas da história nacional e a relação com a maçonaria.

Tacitamente, com uma observação mais holística e técnicas, pode ser traçado uma crítica as suas metodologias, pois há uma predominância de abordagens historiográficas e documentais, com raras descrições explícitas dos procedimentos metodológicos ou mesmo dos objetivos das pesquisas. Isso pode sugerir uma necessidade de maior rigor metodológico e de padronização na explicitação das estratégias de pesquisa. A presença de artigos em periódicos de alto Qualis (A1 e A2) reforça, contudo, o reconhecimento científico do tema e sua inserção em debates historiográficos maduros. Porém, é preciso ampliar, e torna um tema de pesquisa mais cristalizado.

Partindo desses achados, traçam-se as seguintes reflexões e recomendações: é fundamental que novos estudos sobre Maçonaria incorporem métodos múltiplos e mais bem descritos, de modo a fortalecer a credibilidade científica e favorecer a comparabilidade e a replicabilidade das pesquisas. Além disso, recomenda-se a integração entre redes e grupos de pesquisa, possibilitando a formação de um cinturão científico colaborativo que amplie o impacto e a visibilidade dos estudos na área.

De forma sintética, torna-se necessário ampliar a base de produção acadêmica, diversificar os métodos de investigação, fortalecer as redes de colaboração, expandir os temas e eixos de análise, aumentar o rigor metodológico e teórico, e promover maior transparência e visibilidade científica. Com esse conjunto de diretrizes, a temática tende a alcançar maior densidade teórica, sistematização metodológica e relevância acadêmica, consolidando-se progressivamente como um campo legítimo de investigação científica no Brasil.

4. CONCLUSÃO

A análise das publicações científicas evidenciou que a Maçonaria permanece um tema marginalizado no meio acadêmico, apesar do que é descrito por Ismail (2020; 2024), que é um tema de alta relevância histórica e social. O baixo número de artigos encontrados e a predominância de produções individuais revelam um campo ainda em formação, com pouca articulação entre pesquisadores e instituições. No entanto, a qualidade dos periódicos onde essas pesquisas foram publicadas, majoritariamente classificados nos estratos A1 e A2, indica que, embora escassa, a produção existente é academicamente qualificada.

Constatou-se também que os eixos temáticos mais recorrentes se concentram nas relações entre Maçonaria, educação, sociabilidade e modernização política, o que demonstra o potencial interdisciplinar do tema. Entretanto, a limitação metodológica de muitos estudos, frequentemente desprovidos de detalhamento técnico, aponta para a necessidade de aprimoramento das abordagens empregadas, incorporando métodos múltiplos e mais sistemáticos. Essa lacuna representa uma oportunidade de avanço para pesquisadores interessados em estruturar investigações mais robustas e replicáveis.

Outro aspecto relevante é a constatação de uma mudança paradigmática nas produções mais recentes, que passam a abordar questões de representatividade, raça e mobilidade social. Essa transição reflete o alinhamento da Maçonaria como objeto de estudo às pautas contemporâneas das ciências sociais, que buscam compreender dinâmicas de poder e identidade em espaços historicamente elitizados. Essa tendência sugere um amadurecimento teórico que pode consolidar o tema como área legítima de reflexão científica.

Além disso, a pesquisa destacou a importância da cooperação acadêmica e da construção de redes de colaboração entre pesquisadores e instituições. A baixa densidade de coautorias observada limita a expansão e o fortalecimento do campo. Assim, recomenda-se a formação de grupos interinstitucionais que possam gerar massa crítica, ampliar o debate e diversificar os enfoques analíticos sobre a Maçonaria. A consolidação de um repositório nacional de estudos maçônicos também se apresenta como medida estratégica.

Por fim, o estudo conclui que, para que a Maçonaria seja consolidada como campo científico, é essencial ampliar a produção acadêmica, fortalecer o rigor metodológico e promover a interdisciplinaridade. Tais ações podem romper com as barreiras históricas que relegaram o tema à marginalidade e situá-lo de forma legítima no cenário das ciências humanas e sociais. Assim, a Maçonaria deixa de ser apenas um fenômeno simbólico ou histórico e passa a ser compreendida como um sistema cultural, filosófico e organizacional passível de investigação científica.

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1 Professor da Secretária Municipal de Conceição, Paraíba. Doutor em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Federal Rural de Pernambuco. E-mail: [email protected]