PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA: O PARECERISTA NO CONTEXTO DA PRODUÇÃO INOVADORA E DE TECNOLOGIAS EMERGENTES

SCIENTIFIC PUBLISHING: THE REVIEWER IN THE CONTEXT OF INNOVATIVE RESEARCH OUTPUTS AND EMERGING TECHNOLOGIES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790541750

RESUMO
A diversificação dos gêneros científicos, a expansão da pesquisa interdisciplinar, o desenvolvimento de tecnologias emergentes, o uso de inteligência artificial e as mudanças nos sistemas de avaliação impõem novas exigências aos pareceristas. Este artigo oferece referência teórico-prática para avaliadores iniciantes e experientes. Adota abordagem teórico-reflexiva e documental, baseada em ética editorial, literatura brasileira, interdisciplinaridade, tecnologias emergentes, políticas de inteligência artificial e normas da CAPES e do CNPq. Sustenta que o rigor deve permanecer estável como princípio, mas variar conforme o gênero, o objetivo, o campo, a maturidade do objeto e o risco das conclusões. Argumenta que a originalidade pode ser parcial, metodológica, tecnológica, interpretativa ou aplicada; que a citação responsável não deve apagar a voz autoral; e que artigos, ensaios, relatos, protocolos, métodos, artefatos e perspectivas não devem ser avaliados como teses incompletas. Discute o ambiente pós-Qualis e propõe uma matriz contextual e um protocolo para pareceres transparentes, construtivos e acionáveis.
Palavras-chave: avaliação por pares; publicação científica; inovação; tecnologias emergentes; inteligência artificial; avaliação da pesquisa.

ABSTRACT
The diversification of scholarly genres, the expansion of interdisciplinary research, the development of emerging technologies, the use of artificial intelligence, and changes in research assessment impose new demands on peer reviewers. This article offers a theoretical and practical reference for novice and experienced reviewers. It adopts a theoretical-reflective and documentary approach grounded in publication ethics, Brazilian scholarship, interdisciplinarity, emerging technologies, artificial intelligence policies, and CAPES and CNPq regulations. It argues that rigor should remain stable as a principle but vary according to genre, purpose, field, object maturity, and the risk of the conclusions. Originality may be partial, methodological, technological, interpretive, or applied; responsible citation should not erase authorial voice; and articles, essays, reports, protocols, methods, artifacts, and perspectives should not be assessed as incomplete theses. The article discusses the post-Qualis environment, the reciprocal choices between authors and journals, and the risks of disproportionate reviews. It proposes a contextual matrix and a protocol for transparent, constructive, and actionable reviews.
Keywords: peer review; scientific publishing; innovation; emerging technologies; artificial intelligence; research assessment.

1. INTRODUÇÃO

A avaliação por pares ocupa posição central na comunicação científica: subsidia decisões editoriais, aperfeiçoa manuscritos e protege padrões de confiabilidade e integridade. Ela, contudo, não é infalível nem homogênea. Estudos brasileiros mostram que a redação de pareceres é pouco ensinada e permanece sujeita a vieses, assimetrias de poder, critérios heterogêneos e sobrecarga (Campos, 2026; Patrus; Dantas; Shigaki, 2016; Cruz et al., 2022). Sua legitimidade depende, portanto, de competência técnica, proporcionalidade e qualidade ética.

As diretrizes do Committee on Publication Ethics recomendam pareceres objetivos, imparciais, claros, úteis e construtivos, com preservação da confidencialidade e declaração de conflitos (COPE, 2017). A leitura integral, a separação entre falhas centrais e ajustes secundários e a formulação de comentários verificáveis e acionáveis são igualmente necessárias (COPE, 2017). Esses princípios precisam ser aplicados de modo contextual, especialmente diante da diversidade de gêneros e da interdisciplinaridade.

Em inovação, tecnologias emergentes e inteligência artificial, a literatura pode ser recente, fragmentada e distribuída entre periódicos, preprints, normas, documentação técnica, códigos e relatórios. Paralelamente, o ciclo 2025–2028 da avaliação brasileira desloca parte do foco para os artigos individuais, combinando indicadores do veículo, métricas do artigo e análise qualitativa (CAPES, 2026). Este artigo oferece uma referência teórico-prática para pareceristas e sustenta que o rigor deve permanecer estável como princípio, mas variar conforme o gênero, o objetivo, o campo, a maturidade do objeto e o risco das conclusões.

2. PERCURSO TEÓRICO-REFLEXIVO

Este estudo é teórico-reflexivo e propositivo. A argumentação resulta de análise documental e narrativa de fontes selecionadas por autoridade institucional, pertinência conceitual e atualidade, incluindo diretrizes de ética editorial, literatura brasileira sobre avaliação por pares, tipologias de publicação, políticas de inteligência artificial, normas de CAPES e CNPq e estudos sobre ciência aberta.

Não se trata de revisão sistemática nem de levantamento exaustivo. A seleção foi guiada pelo problema de como avaliar trabalhos inovadores e interdisciplinares sem impor um modelo epistêmico único. O termo parecerista é compreendido em sentido situado: o avaliador de periódico exerce função distinta da de editor, membro de banca, consultor de fomento ou comissão de avaliação.

3. O PARECER COMO JUÍZO CONTEXTUAL E RESPONSÁVEL

Um bom parecer começa pela reconstrução justa da promessa do manuscrito: pergunta, percurso, resultados e contribuição. Em seguida, verifica a adequação ao escopo do periódico, ao gênero e às convenções do campo; examina a suficiência da evidência ou da argumentação; e formula uma recomendação proporcional. Essa sequência evita a crítica por substituição, que rejeita o artigo existente porque o avaliador preferiria outro, e a crítica maximalista, que exige um novo estudo.

A literatura brasileira associa o parecer tanto ao controle de qualidade quanto à produção de autoridade e assimetrias de poder. Patrus, Dantas e Shigaki (2016) destacam os riscos de anonimato, prestígio e seleção sem critérios claros; Campos (2026) recomenda avaliações fiéis, qualificadas e corteses, que reconheçam méritos, expliquem insuficiências e não introduzam exigências novas a cada rodada. O rigor não é sinônimo de hostilidade.

A proporcionalidade distingue falhas fatais, problemas maiores, problemas menores e preferências pessoais. As duas primeiras podem justificar rejeição ou revisão substancial; a terceira requer ajustes de clareza e precisão; a quarta não deve virar obrigação. Assim, o rigor contextual não é relativismo: cada gênero precisa demonstrar aquilo que promete, sem ser convertido em tese incompleta.

4. DIVERSIDADE DAS PUBLICAÇÕES E INADEQUAÇÃO DO “MODELO-TESE”

Templates organizam a comunicação, mas não determinam uma única lógica de conhecimento. A ABNT NBR 6022:2018 estabelece princípios gerais sem eliminar as instruções específicas de cada periódico (Abnt, 2018). Tipologias editoriais reconhecem pesquisa original, revisão, relato de caso, análise conceitual, métodos, protocolo, perspectiva, dados, tecnologia e código (FRONTIERS, [s. d.]).

A diversidade exige critérios nucleares diferentes. Bispo (2023) distingue contribuições teóricas, práticas, metodológicas e didáticas; Meneghetti (2011) mostra que o ensaio teórico pode ser original pela argumentação, pelo recorte ou pela abordagem; Motta (2022) caracteriza o artigo tecnológico pela solução, utilidade, novidade e público acadêmico. O artigo empírico tradicional é apenas uma espécie dentro desse conjunto.

O “modelo-tese” surge quando exigências máximas da formação doutoral são usadas como régua universal. A suficiência deve substituir a exaustividade: a bibliografia precisa delimitar o problema, situar a contribuição e sustentar conceitos e métodos; o percurso precisa permitir compreender como as conclusões foram alcançadas. Exigir cobertura enciclopédica, amostras ou resultados empíricos de gêneros que não os prometem distorce a avaliação.

Quadro 1. Exemplos de gêneros e critérios nucleares de avaliação

Gênero ou produto

Promessa predominante

Critérios nucleares

Exigência inadequada frequente

Artigo empírico

Produzir evidência sobre questão delimitada

Adequação do desenho, qualidade dos dados, análise e correspondência entre evidência e conclusão

Exigir cobertura enciclopédica do campo

Ensaio teórico

Propor interpretação, conceito, articulação ou crítica

Coerência, interlocução suficiente, potência explicativa e posição autoral

Cobrar amostra ou seção de resultados como se fosse estudo empírico

Revisão sistemática

Sintetizar evidência por protocolo explícito

Pergunta, estratégia de busca, critérios, avaliação e síntese reprodutíveis

Aceitar narrativa impressionista apenas por possuir muitas referências

Revisão narrativa ou estado da arte

Organizar criticamente um campo

Recorte justificado, representatividade, síntese e interpretação

Exigir protocolo idêntico ao de revisão sistemática quando não prometido

Relato de caso ou experiência

Documentar situação singular instrutiva

Contextualização, descrição, relevância, limites e transferibilidade analítica

Rejeitar por ausência de generalização estatística

Artigo metodológico

Criar, adaptar ou ensinar método

Necessidade, fundamento, descrição, demonstração e limites

Exigir descoberta empírica independente do avanço metodológico

Artigo tecnológico

Apresentar artefato ou solução cientificamente sustentada

Problema, fundamento, arquitetura, teste, utilidade, limitações e possibilidade de extensão

Avaliar apenas a novidade teórica abstrata

Protocolo ou registered report

Tornar auditável uma pesquisa prospectiva

Justificativa, completude, antecipação analítica e viabilidade

Cobrar resultados ainda não produzidos

Perspectiva, comentário ou opinião acadêmica

Intervir qualificadamente em debate

Tese clara, base suficiente, relevância e reconhecimento de objeções

Exigir exaustividade bibliográfica de tese

Relatório de dados, software ou código

Disponibilizar recurso reutilizável

Documentação, proveniência, qualidade, acesso, licença, validação e manutenção

Tratar o recurso como apêndice de um artigo convencional

Fonte: elaboração própria, com base em Bispo (2023), Meneghetti (2011), Motta (2022) e nas tipologias editoriais consultadas (FRONTIERS, [s. d.]).

5. ORIGINALIDADE PARCIAL, CONTRIBUIÇÃO E VOZ AUTORAL

Originalidade não equivale a ruptura absoluta nem a declaração retórica. Ela pode residir no objeto, nos dados, no método, na combinação conceitual, na interpretação, na aplicação, no contexto, na validação, na síntese, na taxonomia, no artefato ou no resultado negativo. Pode ser incremental, recombinante, contextual, metodológica, tecnológica ou interpretativa, desde que a contribuição seja identificável e sustentada.

A pergunta adequada não é se tudo no artigo jamais foi dito, mas onde está a contribuição, qual é seu grau e o que ela permite compreender, verificar ou realizar. O parecerista deve ajudar a tornar essa resposta explícita, sem exigir que todas as partes do manuscrito sejam igualmente novas.

5.1. Citar Fontes Sem Apagar o Pensamento Próprio

A ética da citação exige atribuir ideias, dados, métodos, resultados, interpretações e formulações de terceiros. Paráfrase não transforma ideia alheia em propriedade do redator; conhecimento comum só dispensa referência quando é realmente compartilhado no campo (Harvard College Writing Program, [s. d.]). Citações devem representar a posição da fonte com fidelidade e não funcionar como decoração.

A autoria também se manifesta em delimitar, comparar, relacionar, classificar, inferir, problematizar e propor. Estudos sobre voz autoral mostram que escritores iniciantes podem deixar a elaboração própria abafada por construções centradas nas fontes (Liu; Xin; Chen, 2025). O equilíbrio consiste em tornar rastreáveis as premissas e visível a inferência do autor.

Quadro 2. Citação, voz própria e rastreabilidade

Situação textual

Tratamento recomendado

Risco a evitar

Conceito, dado, método, resultado ou interpretação de terceiro

Citar a fonte pertinente e representar sua posição com fidelidade

Apropriação intelectual ou citação decorativa

Formulação textual distintiva

Usar citação direta e referência, conforme a norma

Paráfrase superficial que preserva estrutura alheia

Conhecimento comum no campo

Pode dispensar citação, se realmente compartilhado pelo público especializado

Presumir como comum uma afirmação controversa

Síntese de várias fontes

Citar as fontes que formam a base e explicitar o princípio de síntese

Encadear resumos sem produzir integração

Inferência própria apoiada nas fontes

Apresentar em voz autoral e manter próximas as referências que sustentam as premissas

Atribuir a conclusão a quem não a formulou ou omitir a base

Observação empírica do estudo

Relacionar ao método, aos dados e aos limites

Tratar impressão pessoal como resultado

Reflexão ou proposição do autor

Marcar sua condição argumentativa e confrontá-la com objeções e evidências

Apresentá-la como verdade consensual

Fonte: elaboração própria.

6. REDAÇÃO CIENTÍFICA EM INOVAÇÃO E TECNOLOGIAS EMERGENTES

Em tecnologias emergentes, atualidade e consolidação nem sempre coincidem. A redação deve definir a tecnologia, indicar versão ou estágio de maturidade, situar o contexto de uso, explicitar incertezas e distinguir fato, previsão, promessa comercial e interpretação. A literatura cinzenta pode ser pertinente quando acompanha práticas e regulações mais rapidamente que os periódicos, mas deve ser validada por autoria, data, versão, método, conflitos e triangulação (Marabelli et al., 2026).

A interdisciplinaridade amplia o risco de inadequação, pois avaliadores podem transferir critérios de uma área para outra. O avaliador deve reconhecer os limites da própria competência, solicitar traduções conceituais quando necessário e evitar transformar critérios de uma área em regra universal.

A ciência aberta associa qualidade e integridade a transparência, escrutínio, equidade, inclusão, flexibilidade e sustentabilidade (Unesco, 2021). Flexibilidade não significa ausência de rigor: dados pessoais, segredos industriais, riscos de segurança e propriedade intelectual podem limitar a abertura, desde que as limitações sejam justificadas.

7. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA PRODUÇÃO E NA AVALIAÇÃO CIENTÍFICA

Inteligência artificial pode ser objeto, método, auxílio de programação, ferramenta de busca, tradução, redação, produção de imagem ou recurso de avaliação. Ferramentas de IA não são autoras porque não assumem responsabilidade, não declaram conflitos, não aprovam a versão final nem administram direitos (COPE, 2023). A responsabilidade humana permanece integral, e usos substantivos devem ser declarados e descritos quando integram a pesquisa.

Políticas editoriais exigem supervisão humana, verificação de precisão, autenticidade das referências, proteção de dados e transparência sobre ferramenta, finalidade e extensão do uso (Elsevier, [s. d.]). A Política de Integridade do CNPq exige rigor, objetividade, imparcialidade, sigilo e urbanidade; para IA generativa, requer declaração, mantém a responsabilidade dos autores e veda inserir projetos de terceiros em ferramentas para elaborar pareceres (CNPq, 2026).

Detectores automáticos não constituem prova autossuficiente. Liang et al. (2023) identificaram classificações indevidas de textos de não nativos em inglês, e estudos posteriores descrevem falsos positivos e resultados sensíveis a gênero, extensão, perfil linguístico e alterações textuais (Hadra; Cambridge; Mesbah, 2026). A avaliação deve concentrar-se em inconsistências verificáveis, não em impressões estilísticas.

Para o parecerista, manuscritos são documentos confidenciais e podem conter ideias inéditas, dados pessoais e segredos comerciais. O uso de ferramenta externa só é aceitável quando autorizado e protegido. A IA pode auxiliar tarefas limitadas, mas não pode decidir mérito, originalidade, relevância, proporcionalidade ou responsabilidade ética.

Quadro 3. Avaliação do uso de inteligência artificial

Plano de uso

Questões para o parecerista

Evidências desejáveis

IA como objeto

O sistema, a versão, os dados e o contexto estão definidos?

Data, versão, parâmetros, tarefas, limites e condições de acesso

IA como método

O emprego é reproduzível e adequado à pergunta?

Descrição do fluxo, validação, supervisão, métricas e tratamento de erros

IA na redação

A política exige declaração? O texto e as fontes foram verificados?

Declaração proporcional, responsabilidade humana e referências autênticas

IA em imagem ou dado sintético

Há identificação, proveniência e avaliação de risco?

Ferramenta, finalidade, parâmetros relevantes, distinção do material real

IA pelo parecerista

O uso é permitido pela norma aplicável e preserva confidencialidade?

Autorização institucional, ambiente protegido, declaração e revisão humana integral

Detector de IA

O resultado é tratado apenas como indício?

Verificação independente, possibilidade de explicação e decisão editorial humana

Fonte: elaboração própria, com base nas diretrizes, na norma brasileira e nos estudos consultados (COPE, 2023; Elsevier, [s. d.]; CNPq, 2026; Liang et al., 2023; Hadra; Cambridge; Mesbah, 2026).

8. O MERCADO DE PUBLICAÇÃO PÓS-QUALIS

O mercado de publicação reúne periódicos, editoras, indexadores, universidades, agências, autores, pareceristas e prestadores de serviços. No Brasil, o Qualis historicamente classificou veículos; para 2025–2028, a CAPES prevê maior atenção aos artigos publicados, combinando indicadores, citações e análise qualitativa (CAPES, 2026). A realidade pós-Qualis não é o desaparecimento da avaliação, mas a disputa por critérios mais diretamente relacionados ao artigo e à sua contribuição.

“Para o Quadriênio 2025-2028, o processo avaliativo passará a focar na classificação dos artigos publicados e não mais no periódico onde o texto foi divulgado. Com isso, artigos diferentes publicados em um mesmo periódico poderão ter classificações diferentes” (CAPES, 2026, p. 41). A mudança não extingue periódicos ou métricas, mas reduz o uso do estrato do veículo como atalho dominante e converge parcialmente com a recomendação da DORA (2012).

Esse cenário também desloca a imagem de que somente as revistas selecionam os autores. O mercado é bilateral: autores escolhem onde submeter, e revistas competem para atrair manuscritos relevantes, autores qualificados e contribuições capazes de fortalecer seu escopo, sua circulação e sua reputação. Na escolha, os autores consideram público, indexação, aderência temática, qualidade e prazo da revisão, transparência editorial, custos, políticas de acesso aberto, idioma, dados e possibilidade de reconhecimento do artigo individual.

O “embarreiramento” aparece quando regras legítimas de seleção se convertem em obstáculos opacos, excessivos ou desproporcionais: filas indefinidas, critérios instáveis, exigência de citações sem pertinência, rejeição de gêneros não convencionais, taxas inacessíveis ou pareceres que deslocam o manuscrito para outro problema. Nem toda seletividade é barreira; a distinção depende da clareza, da pertinência, da proporcionalidade e da possibilidade de o autor compreender a decisão e escolher alternativas.

O deslocamento para o artigo individual pode favorecer reconhecimento substantivo, mas também remodelar incentivos perversos. Trueblood et al. (2025) descrevem o desalinhamento entre disseminar conhecimento e estabelecer credenciais, incluindo pressão por volume, citações, novidade sensacionalista e taxas de acesso aberto. Autores passam a ter mais razões para comparar veículos, e revistas passam a ter mais razões para oferecer processos confiáveis, céleres e intelectualmente hospitaleiros.

Periódicos nacionais e infraestruturas abertas continuam estratégicos para a visibilidade e a comunicação da pesquisa (Packer, 2011). O ecossistema SciELO amplia a circulação para artigos, preprints, dados, livros e pareceres (SciELO, 2023). Nesse ambiente competitivo, qualidade editorial depende de escopo claro, prazos razoáveis, decisões consistentes, revisão competente, circulação efetiva e capacidade de explicar por que um manuscrito não se ajusta ao veículo.

O parecerista interfere diretamente nessa relação. Um avaliador descolado da realidade do campo pode transformar preferência pessoal em regra, exigir o desenho de outro estudo, tratar inovação como deficiência, confundir ausência de generalização com ausência de valor ou impor o modelo de uma tese a um artigo de outro gênero. O resultado não é apenas prejuízo ao autor: são atrasos, retrabalho, desistência, perda de confiança e migração de bons manuscritos para revistas concorrentes.

Exigir novidade sensacional, citações autorreferentes ou rodadas indefinidas alimenta métricas artificiais e produz um passivo editorial. Pareceres rigorosos, específicos e construtivos agregam valor mesmo quando recomendam rejeição; pareceres hostis, arbitrários ou obstrutivos tornam-se risco para a própria revista (Campos, 2026; Cruz et al., 2022). No pós-Qualis, selecionar bem significa também ser escolhido: a autoridade sustentável depende da experiência que o periódico oferece aos autores.

9. MATRIZ CONTEXTUAL DE AVALIAÇÃO

A matriz proposta organiza o julgamento em duas passagens: primeiro, gênero, objetivo, contribuição e público; depois, método ou percurso, fontes, integridade, comunicação e relevância. Ela não é formulário universal nem sistema de pontuação. Seu objetivo é impedir que extensão, número de referências, novidade retórica, fator de impacto ou familiaridade disciplinar substituam a leitura contextual.

Quadro 4. Matriz contextual para avaliação de manuscritos

Dimensão

Pergunta orientadora

Evidência esperada

Erro a evitar

Gênero

Que tipo de manuscrito está sendo avaliado?

Correspondência entre promessa, estrutura e convenções do gênero

Tratar todos os textos como pesquisa empírica extensa

Objetivo

O texto cumpre o que declara?

Coerência entre problema, percurso, resultados e conclusão

Exigir objetivos que o autor não propôs

Contribuição

Onde está o acréscimo científico, tecnológico, didático ou social?

Novidade identificável e sustentada, ainda que parcial

Exigir ruptura absoluta ou aceitar novidade apenas declarada

Referencial

A bibliografia é suficiente, pertinente e atual?

Fontes seminais e recentes em proporção à promessa

Confundir quantidade de citações com densidade intelectual

Voz autoral

Heranças e elaborações próprias estão distinguíveis?

Atribuição rastreável e inferências assumidas pelo autor

Exigir “segundo fulano” em toda frase ou tolerar apropriação

Método ou percurso

A forma de prova é adequada ao gênero e ao risco?

Procedimentos auditáveis ou argumentação conceitual consistente

Transferir critérios experimentais a qualquer gênero

Fontes emergentes

Fontes técnicas e cinzentas foram criticamente avaliadas?

Autoridade, data, versão, método, conflito e triangulação

Rejeitá-las por categoria ou aceitá-las sem validação

Interdisciplinaridade

Há tradução suficiente entre campos?

Definições, integração e combinação de competências

Impor uma disciplina como árbitro universal

Inteligência artificial

O uso é transparente, seguro e verificável?

Declaração proporcional, supervisão e fontes autênticas

Presumir fraude por estilo ou delegar o parecer à IA

Ética e integridade

Os requisitos aplicáveis foram cumpridos?

Consentimento, direitos, conflitos, licenças e responsabilidade

Criar exigências irrelevantes ou ignorar riscos reais

Relevância

Qual problema científico, tecnológico ou social é enfrentado?

Relação clara entre contribuição, público e contexto

Confundir baixa citação prevista com baixa importância

Comunicação

O leitor consegue examinar e utilizar a contribuição?

Clareza, organização, tabelas e terminologia funcional

Transformar preferência estilística em critério de validade

Recomendação

As correções são necessárias e realizáveis?

Comentários priorizados, justificados e específicos

Pedir outro artigo, outra tese ou a agenda do parecerista

Fonte: elaboração própria.

10. PROTOCOLO PARA ELABORAR UM PARECER ÚTIL

Um parecer construtivo pode conter cinco movimentos: síntese fiel do manuscrito; reconhecimento de méritos; questões maiores ordenadas por impacto; questões menores de clareza e apresentação; e recomendação coerente ao editor. A síntese demonstra compreensão e permite verificar se a mensagem foi comunicada.

Cada questão maior deve localizar o problema, explicar seu efeito sobre o argumento, apresentar a base da crítica e indicar o resultado esperado da revisão. O parecerista deve evitar prescrever uma única solução quando houver alternativas e não deve transformar correções gramaticais em copidesque integral (COPE, 2017).

Antes do envio, convém testar a proporcionalidade: as exigências são necessárias para o objetivo do texto, compatíveis com o gênero e realizáveis sem produzir outro estudo? Comentários confidenciais não devem contradizer o parecer dirigido aos autores nem abrigar acusações sem base.

11. DISCUSSÃO

A principal implicação é distinguir universalidade ética de uniformidade metodológica. A ciência precisa de princípios comuns para reconhecer fraude, apropriação, contradição, opacidade e dano, mas não precisa organizar toda contribuição pelo mesmo desenho. Originalidade parcial não autoriza fragilidade: contribuição incremental precisa ser relevante, artigo tecnológico deve demonstrar funcionamento ou utilidade e uso de IA deve ser transparente, verificável e supervisionado. A avaliação deve julgar evidências e argumentos apresentados, não suspeitas estilísticas.

A matriz e o protocolo são referências analíticas, não instrumentos validados empiricamente. A seleção documental não é exaustiva e os exemplos atravessam campos distintos; estudos futuros podem testar a matriz, comparar a concordância entre avaliadores e examinar efeitos sobre decisões editoriais.

12. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O parecerista contemporâneo não precisa escolher entre rigor e inovação. Deve aplicar critérios adequados ao objeto, explicitar a lógica do julgamento e reconhecer os limites da própria expertise. Templates são instrumentos de organização, não teorias universais do conhecimento; artigos, ensaios, revisões, métodos, relatos, protocolos, tecnologias, códigos e perspectivas demonstram qualidade de maneiras diferentes. A originalidade pode estar em método, artefato, aplicação, interpretação, dados, combinação conceitual ou resultado negativo, e a citação responsável deve tornar visível tanto a fonte quanto a voz autoral.

Em tecnologias emergentes, atualidade deve ser conciliada com confiabilidade; na inteligência artificial, o princípio central é a responsabilidade humana verificável, combinada à transparência proporcional, à autenticidade das referências e à confidencialidade.

No pós-Qualis, a atenção ao artigo individual pode favorecer justiça substantiva, mas não extingue métricas, prestígio ou estratégias de otimização. A resposta adequada combina indicadores com leitura qualitativa, diversidade de produtos e consciência dos incentivos. Formar e avaliar pareceristas é condição para que a avaliação acompanhe a ciência que pretende qualificar.


Nota de transparência sobre o uso de inteligência artificial. Na pesquisa preliminar e na preparação deste manuscrito, os autores utilizaram o Manus, ferramenta de inteligência artificial generativa, como apoio à pesquisa preliminar, à estruturação, à síntese e à redação e revisão de trechos. O Manus não substituiu o julgamento humano: os autores selecionaram os argumentos, avaliaram sua pertinência, conferiram as fontes e afirmações e decidiram o conteúdo da versão final. A ferramenta não produziu dados, análises, conclusões, citações ou pareceres. Não foram inseridos dados pessoais, manuscritos sob sigilo ou informações confidenciais. Os autores assumem responsabilidade integral pelo texto, autoria, integridade, citações, conflitos e submissão.


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1 Mestre em História Social. UFAM - Universidade Federal do Amazonas. Cidade Manaus - AM. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail