REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790542877
RESUMO
Propomos no presente artigo analisar como a memória é construída e representada, a partir do lugar, investigando de qual forma a memória dialoga com este lugar, enquanto elemento estruturante da narrativa. Nessa perspectiva, este estudo tem como objeto de análise, o romance de estreia de Francisco J. C. Dantas Coivara da Memória. O método de pesquisa adotado é de abordagem qualitativa e segue os procedimentos de pesquisa bibliográfica, os resultados são discutidos a partir da leitura-análise, de caráter exploratória. Nessa proposta, os estudos indicam que os lugares de memória no romance são fatores determinantes para o desenvolvimento do enredo, cuja ancoragem é a representação da memória como elemento significativo da história. Buscamos contribuir com os estudos em andamento que privilegiem um diálogo da memória a partir da representação dos lugares de memória, enquanto elementos estruturantes das narrativas. O estudo tem como principais concepções teóricas os estudos de Halbwachs (2006), Nora (1993), Bosi (1994-2003) Thomson (1997) Pelinser e Alves (2019) Pereira e Pelinser (2025) e outros.
Palavras-chave: Memória; Regionalismo; Coivara da Memória.
ABSTRACT
In this article, we propose to analyze how memory is constructed and represented through place, investigating how memory interacts with this place as a structuring element of the narrative. From this perspective, this study analyzes Francisco J. C. Dantas’s debut novel, “Coivara da Memória”. The research method adopted is a qualitative approach that follows bibliographic research procedures; the results are discussed based on an exploratory reading and analysis. In this context, the findings indicate that places of memory in the novel are determining factors in the development of the plot, which is anchored in the representation of memory as a significant element of the story. We seek to contribute to ongoing studies that prioritize a dialogue of memory based on the representation of places of memory as structuring elements of narratives. The study’s main theoretical frameworks are the works of Halbwachs (2006), Nora (1993), Bosi (1994–2003), Thomson (1997), Pelinser and Alves (2019), Pereira and Pelinser (2025), and others.
Keywords: Memory; Regionalism; Coivara da Memória.
Aquele chão, repito, ainda guarda o meu umbigo enterrado sob o pé da barriguda, bem ao lado da cova onde depositaram o meu primeiro dente de leite (Dantas, 2001, p. 319).
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O presente estudo tem como proposta analisar como a memória é construída e representada a partir de um lugar, tendo como referência o romance Coivara da memória (1991), de Francisco J. C. Dantas, com o qual o autor sergipano marca sua estreia na literatura. Desse modo, a análise volta o olhar a fim de explorar de que forma(s) a memória dialoga com o espaço, percebido como elemento estruturante da narrativa. Com linguagem densa, o enredo gira em torno da prisão domiciliar do protagonista-narrador, nunca nomeado, enquanto aguarda o julgamento por um assassinato, o qual vai sendo desvelado à medida que a história se desenvolve. Em sua restrição espacial, o protagonista, engolfado no exercício memorialístico de sua escrita, traz à baila toda sua vida, desde a infância no Engenho Murituba, propriedade de seu avô, até a dissolução de sua vida.
O romance é dividido em trinta e oito capítulos, tendo como pontos principais a linguagem poética, vocabulário erudito beirando o arcaico, metáforas inusitadas, bem como a desobediência ao tempo cronológico, dado que este segue o fluxo de pensamento do narrador, que transita por vários lugares de memória ao mesmo tempo. Observando o título do romance, vê-se que o termo coivara, de origem tupi, remete àquilo que sobrou da queimada que os indígenas faziam para limpar os terrenos antes do plantio, ou seja, são sobras de queimadas que se juntam para adubar o solo com as cinzas. Assim, o título do romance sugere que o próprio narrador-personagem está submetido ao processo de coivara, tendo seu solo de lembranças queimado e a partir dos vestígios, dessas brasas que restaram, faz um (re)aproveitamento do que restou para criar algo novo: a reconstrução de suas memórias.
Nessa ótica, surge a imagem mítica da Fênix, que renascendo da própria combustão, revive num novo corpo, mas sem deixar de ser a que feneceu. Nessa adubagem literária, o leitor é lançado nesse processo reconstrutivo, levando à certeza de que os vestígios, as cinzas do passado, são elementos construtores que servem como trilhas dos terrenos memorialísticos da narrativa.
A dinâmica que permeia a relação do narrador-personagem com o passado reside, dentre tantos fatores, na necessidade de respostas a seus questionamentos, uma forma de encontro com sua própria identidade. Desse modo, o esforço memorialístico não é apenas uma tentativa de reconstrução do que foi, mas daquilo que permanece. O narrador faz dialogar seu eu passado com o eu presente como maneira de conseguir uma síntese de si em seu hoje, de homem desiludido com a vida, preso às paredes de sua residência enquanto aguarda que outros decidam sua liberdade ou condenação. Nessa laboriosa teia narrativa, Coivara da memória, sustentada na força da narrativa regionalista, indicada na localização da ação como também na organização vocabular e linguística, faz pensar acerca dos meandros nada confiáveis da memória. Não esquecer que não se pode lembrar de tudo assim como se pode preencher todos os silêncios. A fragmentação, e não a inteireza, é o que constitui o percurso memorialístico.
2. A REGIÃO E O ESPAÇO DA MEMÓRIA
A região, ou seja, a localidade em Coivara da memória, representa menos um palco no qual os personagens atuam e mais um indispensável elemento que determina as trilhas percorridas na narrativa. Assim, o espaço evocado pelo narrador-protagonista estrutura a construção da memória no romance. No caso, a cidade Rio-das-Paridas, localizada no interior do Nordeste, bem como os lugares de memória: Engenho Murituba, o cartório e a velha paineira, surgem como agentes ativos, ao fornecerem sentidos múltiplos à narrativa, funcionando como verdadeiros gatilhos de lembranças, sobretudo para o protagonista à medida que orquestra o discurso narrativo.
Vale frisar que o processo de reconstituição da memória, de forma geral, não acontece de forma espontânea, pois a memória “[...] tem necessidade de suportes exteriores e de referências tangíveis de uma existência que só vive através delas” (Nora, 1993, p. 14). Assim, a visibilidade dada pelo narrador aos lugares se justifica por exercerem justamente essa função de suporte de memórias ou mesmo chaves memorialísticas.
Dessa maneira, ressaltamos a importância de compreender de que maneira os locais acima referidos, enquanto chaves memorialísticas, agem como referências e suportes para o processo de rememoração do narrador-personagem no percurso de construção da narrativa. Nessa direção, Nora mostra que “A memória se enraíza no concreto, no espaço [...]”, quer dizer, “Os lugares de memória são, antes de tudo, restos” (1993, p. 9-12).
Estes restos de ontem são utilizados pelo narrador-personagem na recuperação desse solo novo, chamado hoje, o agora da escrita. Em Coivara da memória, o hoje é permeado pelo ontem, o que se é finca os pés no ido, o adubo do passado fertiliza o presente, a coivara de Francisco J. C. Dantas fumega e incita o protagonista em seu itinerário discursivo. Viver com o olhar voltado para os restos — o que foi e não passa — justifica o comportamento errante do narrador ao “[...] catar num lote de coisas velhas as motivações que valem como socorro [...]” (Dantas, 2001, p. 17).
De certa forma, é possível associar o esforço desse protagonista com Bentinho, de Dom Casmurro, que usa a escrita como forma de apropriação do presente pela revisitação do passado: “O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui” (Assis, 2015, p. 50). Tal como o protagonista machadiano, o de Coivara também apresenta uma visão particular, unilateral, na evocação dos fatos, portanto, tendenciosa, suspeita e não muito confiável. Nesses casos, é preciso ter em mente que a verdade é um valor relativo, haja vista a ausência do contraditório.
De qualquer modo, os lugares de memória no romance estão diretamente ligados à região sergipana. Nesse contexto, a região representa uma fonte de criação literária, assim como o espaço do sertão mineiro é o solo criativo de Guimarães Rosa ou o sertão nordestino assinala a marcha das Vidas secas, de Graciliano Ramos. Fora desses espaços, sem a conexão telúrica, essas narrativas esvaziam em muito suas significações. A respeito de escritores e escritoras que evidenciam uma determinada região como território criativo de suas obras, as pesquisas de Pelinser e Alves (2019, p. 8) demonstram a relevância do sertão de Rosa para sua literatura, visto que
Na obra rosiana, o sertão não comparece como pano de fundo para discussão de outros temas, tampouco é figurado como interesse exótico; antes, constrói a própria estrutura das narrativas e fornece a base sobre a qual emergem múltiplos significados.
De igual modo, o chão nordestino serve como elemento estruturador da escrita de Euclides da Cunha em Os sertões (1902), tal como Mad Maria (1980), de Márcio Souza, é inconcebível sem a Amazônia. Desse modo, o mesmo pode ser dito de outras autorias e suas localidades enquanto peso balizador de suas criações. Assim, observamos que o espaço regionalizado de Rio-das-Paridas, em Coivara da memória, é preponderante para o desenvolvimento do enredo, cuja ancoragem é a representação dos percursos da memória do protagonista como elemento significativo da história.
Assim, as memórias (re)construídas pelo narrador são relevantes por causa desse espaço regional em que o protagonista está inserido e não apesar dele. Assim, as memórias não poderiam passar por um processo de restauração efetiva sem estes lugares de reminiscência, os quais exercem, sobretudo, função de bússolas da memória.
A respeito da relação espaço e memória, lembra Halbwachs que “[...] a imagem do espaço que, em função de sua estabilidade, nos dá a ilusão de não mudar pelo tempo afora e encontrar o passado no presente” (2006, p. 189). Isso se dá porque “[...] somente o espaço é estável o bastante para durar sem envelhecer e sem perder nenhuma de suas partes” (2006, p. 189). Vê-se, então, que a estabilidade mencionada pelo teórico sugere que, por conta dela, exista uma pseudossensação na qual o ontem poderia ser facilmente encontrado no hoje.
Em Coivara da memória, o narrador-protagonista ocupa um espaço claustrofóbico, aprisionado, sobretudo, por seus pensamentos, vivendo sob a tortura de conflitos emocionais. Segundo Bosi (1994, p. 46-47), tais conflitos acontecem pelo fato de a memória exercer influência sobre os processos psicológicos do rememorador. Nesta direção, a teórica acentua que “[...] a memória permite a relação do corpo presente com o passado e, ao mesmo tempo, interfere no processo ‘atual’ das representações”. Preso pela acusação do assassinato do Coronel Tucão, crime do qual se julga ser inocente, o escrivão cria, em seu processo rememorativo, a imagem de sua inculpabilidade: “[...] Aqui me entedio e me desespero, cumprindo uma pena que não devo, sem saber conciliar onde começou o diabo de tanta confusão” (Dantas, 2001, p. 288).
Chama atenção o fato de o protagonista encontrar-se preso justamente no seu local de trabalho, o mesmo cartório onde o pai foi tabelião: “Tomar aqui o lugar de meu pai na sua profissão foi o caminho mais viável que então encontrei para num só passo prover o meu sustento e prolongar a sua presença junto a mim” (Dantas, 2001, p. 91). Neste cartório-cela, onde vive em prisão domiciliar, que não representa apenas uma dimensão física, mas sobretudo subjetiva, o ambiente é, a um só tempo, prisão, trabalho, rememoração paterna, imagem espectral da busca de si: “Este quadrado de pedras é um retalho íntimo e rumoso [...]” (Dantas, 2001, p. 14), sobretudo, os rumores de sua alma órfão e inquieta.
Diante deste retalho íntimo, que tenta sozinho costurar, o escrivão encontra consolo nas lembranças e toma a decisão de registrar por escrito a história de seu lugar, pois “O dever de memória faz de cada um o historiador de si mesmo” (Nora, 1993, p. 17). Como se, ao escrever, o narrador pudesse, por meio das palavras, ter um (re)encontro consigo mesmo. Escavar as origens familiares é uma forma de se apoderar de si, do que ele foi, para entender quem ele é. Este movimento se afirma nos trechos:
Sob o abraço demorado destas paredes de barro e pedra fechadas sobre o meu destino, o único consolo que me sobra é a espetada de lembranças onde me afundo, desentranhada das vísceras dos antepassados que ficaram grudadas nos olhos do menino (Dantas, 2001, p. 17).
Assim essas anotações vão sulcando o papel quase não ligando para minhas previsões e disponibilidades: se me convenço de que tenho pela frente um trecho leve e ameno, aí o diabo da mão empaca, embrutecida como uma mula manhosa; outras vezes, se me posto diante desta máquina ressacado de pindaíba e a contragosto, sopesando as dificuldades miúdas e graúdas — de repente as palavras me torcem e me governam, enganchando em meus punhos um ritmo vertiginoso que se materializa em frases e parágrafos. Também não são diferentes as recordações que lambuzam os meus olhos de ternura, como se gostassem de ouvir os gemidos de minhas inquietações, justamente quando estou mais desarmado, e não me preparo de antemão para suportá-las (Dantas, 2001, p. 169-170).
Abraçado por suas “paredes de barro”, o escrivão sente-se consolado por lembranças que o envolvem como uma “espetada” e que, apesar de espetarem, agem sobretudo como válvula de escape para os devaneios do menino que vive à sombra “das vísceras dos antepassados”. Sua prisão é para além das paredes do cartório. Assim, o romance constrói um protagonista que transita entre o limiar das memórias de infância do neto de senhor de Engenho e o amadurecer de um adulto desamparado.
O percurso da narrativa mostra que, desde a infância, o protagonista convive com perguntas sem respostas em relação à sua história. Já na idade adulta, rememorar é uma maneira de preencher esses vazios que tanto lhe causam aflição. Assim, a reelaboração da memória, enquanto exercício constante do narrador, é o meio pelo qual ele encontra para ressignificar sua existência.
Neste movimento ininterrupto que o narrador faz no romance vê-se que ele percorre lugares que sustentam sua rememoração. Neste transitar coletivo, o leitor é levado ao Engenho Murituba, lugar onde o protagonista viveu grande parte de sua infância, um espaço carregado de história e afeto, em especial, a presença dos avós, o que se coaduna com Nora (1993) ao falar da dimensão afetiva que os lugares carregam no processo de rememoração.
É nítida preponderância do Engenho Murituba como o principal espaço de memória do romance, dada sua presença em boa parte da história. As lembranças infantis, marcadas pela presença dos avós e de tia Justina trazem uma força para o itinerário do narrador:
[...] mesmo de olhos tapados podia distinguir e enumerar o chuveiro de sons que ali faziam a vida do Engenho: o assobio do carro-de-bois, os estalidos da cana se lascando, o relincho das éguas na gamboa de baixo, o chiado fanhoso da moenda, o jorro da garapa borbulhando na bica de madeira e despencando no chão do parol (Dantas, 2001, p. 217).
Ali no Murituba, pouca coisa se comprava para o consumo: quase tudo era de lavra, como dizia meu avô, esporeando o seu orgulho com a roseta do vozeirão arroucado. E minha avó, além de cumprir todas as obrigações de dona de casa, era, também, desde a hortelã que amanhava a terra para o cultivo de suas flores, ervas e verduras, até a artesã amestrada, cujas mãos de exímia bordadeira sabiam arrematar com perfeição tudo o que produzia de útil para o consumo de sua gente (Dantas, 2001, p. 119).
A afetividade dos avós maternos é marcada, sobretudo, pela figura do avô, que para os outros era embrutecido, mas com o neto era dócil, conforme se afirma no trecho: “[...] quando enfim lhe acudia uma rebarba de doçura — esta sim! — ele guardava bem escondida para o neto, e pouco a pouco se alojava no meu mundo de menino” (Dantas, 2001, p. 183).
Este afeto avô-neto é evidenciado em todo o romance. Órfão de mãe, tendo crescido distante do pai, esses avós juntamente com tia Justina, são a representação mais próxima de seus laços sanguíneos e “Assim ia levando minha vidinha de menino de roça, ajustada à medida de meu avô, atada às franjas de sua grandeza e sabedoria, senhora daquele pequeno império donde eu nunca me afastara” (Dantas, 2001, p. 197).
Contudo, os laços afetivos da infância se rompem com a ida para o orfanato, como também com a morte do engenho. No que toca ao orfanato, este translado se dá por responsabilidade dos tios, que motivados por implicância “[...] me pegaram desavisado para uma viagem desconhecida” (Dantas, 2001, p. 319). Assim, o menino que nunca havia saído do Murituba, foi “[...] largado no pátio cinzento do internato em Aracaju que nem um bichinho capturado, a quem se desata as pernas já dentro do cativeiro” (Dantas, 2001, p. 320). De certa forma, é como se o orfanato representasse o prelúdio de sua prisão, no cartório convertido em cela.
No que se refere à morte do engenho, o escrivão mostra que “Há muito que o Engenho já vinha combalindo, ano a ano mais derrubado” (Dantas, 2001, p. 294). Quando enfim a morte chega, sua despedida, organizada pelo seu senhor, o narrador relembra: “[...] nunca reuniu tanta gente! De todas as estradas reais afluíam cordões de homens e mulheres” (Dantas, 2001, p. 296). Assim, o silêncio e a tristeza, provocados pela morte do engenho, se estende, sobretudo, na relação avô-neto, rompendo não somente laços de infância, mas também de cumplicidade.
3. O TESTEMUNHO DOS OUTROS: SUSTENTO PARA REMEMORAÇÃO
Ainda que o modo de lembrar se realize no interior do sujeito, entendemos que somente o esforço individual é insuficiente nesse processo, pois o amparo coletivo é fundamental na construção memorialística. A narrativa oral dos outros pode exercer influência em nossas próprias lembranças, principalmente as que fazem referência à nossa infância. Segundo Bosi (1994, p. 432), as “[...] correntes de pensamento coletivo [...] sustentando o acontecimento”, estabilizam, de alguma forma, a lembrança. Tais correntes são apresentadas no romance em forma de testemunhas de histórias de vida, que se ancoram umas às outras para reelaborar memórias que alimentam o imaginário do narrador, sobretudo, fatos de sua primeira infância. É nesse sentido que o escrivão-protagonista faz apelo aos outros no intuito de compreender o que ele não sabe, dado que a memória é um fenômeno que se realiza, também, na coletividade, no apoio mútuo, o que se pode chamar de memória social, no caso do romance, a memória familiar. Conforme assinala Halbwachs (2006, p. 28):
Recorremos a testemunhos para reforçar ou enfraquecer e também para completar o que sabemos de um evento, sobre o qual já temos alguma informação, embora muitas circunstâncias a ele relativas permaneçam obscuras para nós.
A decisão de recorrer ao outro faz-se indispensável no processo da recordação, tendo em vista que não podemos abarcar todos os fatos, sobremaneira, os que nos antecederam ou os que não presenciamos. À primeira vista, “[...] a memória parece ser um fenômeno individual, algo relativamente íntimo [...], [contudo] deve ser entendida [...] sobretudo, como um fenômeno coletivo e social [...]” (Pollak, 1992, p. 201). Neste direcionamento, é que se realiza a interação com o outro e com o contexto das instituições sociais das quais o sujeito rememorador faz parte. Em vista disso, o narrador de Coivara da memória convida a velha Tia Justina a junto com ele participar desse jogo de quebra-cabeças, no qual cada peça contribui para o processo de reconstituição da memória. Isso se confirma nos fragmentos que seguem:
[...] quando reconta, amiúde, a minha intimidade com meu avô, a sua voz se amacia maravilhada, adoçando as palavras bonitas que ela escolhe com uma impostação toda amorosa, fazendo força para dourar os novos acrescentamentos que refulgem do fundo da memória. Só aí ela se embriaga…delira…e se desperdiça! Só aí ela se abre num lampejo de sorriso que desabrocha a face ordinariamente dura de quem se ralou os anos todos de costas para a vida (Dantas, 2001, p. 65-66).
[...] enquanto escolhe e separa as longas agulhas, vai divagando em incursões luminosas sobre os velhos acontecidos do Engenho Murituba, recompondo à minha frente um pedaço da moldura carcomida pelas vicissitudes dos últimos anos, e em cujo retângulo vou voltando a me encaixar, interessado em reconstituir os idos que ela vai relembrando, enriquecidos com novas nuanças e gradações que só agora me absorvem, como se tia Justina estivesse a desvendá-los pela primeira vez! (Dantas, 2001, p. 177-178).
De muito mais para adiante, me acodem as primeiras tirinhas de vagas imagens, esboçadas ainda pela metade, que acendem e apagam o seu nadinha feito vaga-lumes, adejando com aquela minúscula faisquinha que persigo e agarro pela cauda, e que Tia Justina, muito prestativa, me ajuda a colher e rendilhar. De sorte que, ao me inteirar dessas reminiscências que agora passo a traduzir em frases escovadas, reparo que entre elas, a primeira que abrolhou só veio a se esgalhar no meio das outras, ainda pela prestança alheia (Dantas, 2001, p. 180).
O escrivão vive o tempo presente com o olhar voltado para os vestígios do passado e, desse modo, começa “[...] a perceber que esta tarefa de passar a limpo a experiência que deflagra os conflitos em que tenho maturado um tempão, e que tanto bolem comigo e me aguçam os nervos, uma vez que se esgancham no passado [...]” (Dantas, 2001, p. 177-178) são os elementos constitutivos de sua trajetória.
Os conflitos que bolem com ele agem como um impacto psicológico pela exposição a lembranças por tanto tempo silenciadas, o que pode ocorrer também pelo exercício de se abrir “[...] às mais leves impressões que lá na minha fundura mais íntima se acendem e faíscam algumas brasinhas mortiças que sempre carreguei comigo, e que vão sendo avivadas pelo assopro de Tia Justina” (Dantas, 2001, p. 180). Tia Justina, além da função de testemunha, de agente da memória, exerce também a função de um canal que pode gerar dor e mais desconforto no sobrinho, porque o processo de rememorar, nesse caso, mexe com perdas e frustrações.
O processo pelo qual o solo passa, através da técnica agrícola da coivara, encontra convergência na experiência que, simbolicamente, o escrivão vivencia, onde as lembranças de seu terreno de vida são queimadas e os vestígios aproveitados para criar algo novo, conforme ele confessa: “algumas brasinhas mortiças que sempre carreguei comigo” (Dantas, 2001, p. 180). Podemos, assim, compreender que estes vestígios são oriundos do processo de desgaste psicológico a que o narrador está exposto ao evocar as memórias avivadas pela tia: “Dos parentes adultos que me cercaram a infância no Murituba, hoje só tenho tia Justina, a única que me resta de uma família tão unida e numerosa [...]” (Dantas, 2001, p. 64). Cada assopro de recordação dado por ela representa chamas que voltam a arder com mais intensidade no interior do protagonista.
Segundo aponta Bosi, “O encontro com velhos parentes faz o passado reviver com um frescor que não encontraríamos na evocação solitária” (1994, p. 407). Assim, “[...] tia Justina vai se comprazendo em reviver a antiga cena retalhada, e urdindo com as suas cores a teia de um tempo já despojado de suas amarras [...]” (Dantas, 2001, p. 179).
Ao fazer o convite à Tia Justina para junto com ele participar do processo de reconstituição de tantas lembranças, o escrivão também despertou nela profundos sentimentos, próprios de quem acessa lugares que por tanto tempo permaneceram inalcançáveis e até esquecidos. Nessa perspectiva, falando do exercício da recordação em solo comum, Halbwachs (2006, p. 66-67) confirma que
Assim, os fatos e ideias que mais facilmente recordamos são do terreno comum, pelo menos para um ou alguns ambientes. Essas lembranças existem para “todo o mundo” nesta medida e é porque podemos nos apoiar na memória dos outros que somos capazes de recordá-las a qualquer momento e quando o desejamos [...] Por mais estranho e paradoxal que isto possa parecer, as lembranças que nos são mais difíceis de evocar são as que dizem respeito somente a nós, constituem nosso bem mais exclusivo, como se só pudessem escapar aos outros na condição de escaparem também a nós.
O escrivão vive em constante estado de desespero. Desse modo, ter o passado para recorrer soa como uma tentativa de sobrevivência, conforme garante o narrador: “Por isso tanto recorro ao passado, onde me confino a tatear alguma resposta a tantas reticências, a buscar qualquer alento [...] a fim de continuar resistindo, vivo e lúcido, sem me entregar ao desalento [...]” (Dantas, 2001, p. 48). Ao buscar “tatear alguma resposta a tantas reticências”, ele também está buscando respostas que possam justificar sua própria identidade fragmentada.
Desse modo, por meio dos testemunhos dos outros em relação a nossa história, assim como faz tia Justina, nossa identidade também passa por construções e reconstruções. A esse respeito, julgamos ser necessário recorrer aos estudos de Thomson (1997, p. 80) ao tratar da questão da memória imbricada com identidade, quer dizer:
Construímos nossa identidade em relação a histórias de outras pessoas a nosso respeito e nossas próprias histórias a nosso respeito, histórias a respeito do nosso passado e nosso presente e acerca daquilo que queremos nos tornar. Assim, se nossa identidade é nossa percepção de quem somos agora, quem fomos e quem queremos nos tornar, não é apenas uma história, pode ter várias correntes, pode ser fragmentada. A memória é obviamente uma parte crucial disso, pois uma parte muito importante é, “de onde vim”, “como me tornei quem sou agora”.
As histórias do passado moldam nossa identidade, nos ajudam a entender quem somos no presente. Ao pisar em um terreno comum com tia Justina, fica nítido que “[...] certamente não há outra afinidade mais calorosa do que a referência a um passado comum, onde ambos nos embebedamos” (Dantas, 2001, p. 64). Beber na fonte do passado, tendo testemunhos dos outros enquanto suporte, é um recurso do qual o narrador-personagem teve a oportunidade de usufruir. Todavia, isso só foi possível devido à sua percepção e inteligência, pois “Não há evocação sem uma inteligência do presente, um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais” (Bosi, 1994, p. 81).
4. VELHA PAINEIRA, GUARDIÃ DE MEMÓRIAS
As memórias do narrador-personagem parecem ter sido gestadas no ventre da paineira centenária do engenho de seu avô:
Desse modo, muitas vezes em que me deixei apanhar pelas rebordosas da vida, por conta de não ter sabido me desembaraçar convenientemente dos ardis enfiados no bocado que me coube — tive os passos de viandante conduzidos até a velha paineira do Engenho Murituba, onde buscava conforto contra as estrias de angústia que me rebentavam (Dantas, 2001, p. 20).
Chamada de barriguda pelo escrivão, a velha paineira funciona, na história, como um memorial. Suas raízes que se multiplicam em galhos e folhas são tentáculos de lembranças que permeiam todo o romance. Assim, este elemento da natureza, grande portal que leva ao passado, é como a mãe das lembranças que acalentam o narrador.
Lugares de memória, para Nora (1993, p. 21), “São lugares [...] nos três sentidos da palavra, material, simbólico e funcional [...] [pois] só é lugar de memória se a imaginação o investe de uma aura simbólica”. Inúmeras vezes citada no romance, a paineira reafirma sua natureza simbólica, visto que é à sua sombra que a história de Rio-das-Paridas, segundo a ótica do narrador, vive seu desabrochar.
Esta paineira é uma personagem que ocupa um espaço que lhe é próprio, com ares de natureza-persona, pois ela observa, sente, pulsa, guarda memória e também dá vida, abraça e acalenta, como uma substituta simbólica da mãe, precocemente, morta do narrador. É de se notar que isso se dá, sobretudo, nas horas de maior adversidade quando o escrivão retorna à sua sombra. Nesse sentido, ela é o ausente colo materno que ele busca “[...] para me apaziguar, para derreter os cristais do desespero: puro desejo de largar o peso do tempo no silêncio almofadado, de me aquietar de olhos cerrados no agasalho guarnecido da lã macia. Por favor, respira comigo, paineira, respira…” (Dantas, 2001, p. 22).
Neste lugar em que a velha barriguda segue a gestar e a parir lembranças, seus galhos e ramificações são pontos de amparos para a memória do protagonista, porque “[...] há espaços privilegiados: a casa da infância [...] recantos da cidade, lugares inseparáveis dos eventos que neles ocorreram. A cidade possui alguns focos sugestivos que amparam nossa identidade, percepção e memória” (Bosi, 2003, p. 114).
Seguindo a linha de raciocínio de Bosi (2003), podemos observar que, além das significações internas ao escrivão, a barriguda tem uma representação coletiva à medida que pode ser lida como um portal onde presente e passado se encontram:
Plantada neste ângulo estratégico do pasto da porta, favorável à captação de todos os movimentos de suas adjacências, esta barriguda, sedentária e longeva por origem, é a mais fiel testemunha de toda uma enfieira de mudanças físicas ou inaparentes que por aqui de desenrolaram. Assistiu ao nascimento e ao percurso de certas sensações, acompanhou como elas se embrenharam pelo meu corpo, tateando fendas e roturas, se embutindo nas zonas ainda intocadas, espalhando as suas nódoas indeléveis com a magia do vigor inaugural. Na finitude deste percurso, cresceu comigo esta mãe vegetal, encorpou-se e estirou-se, engordou no meio, fazendo do ventre arredondado um depósito de lembranças (Dantas, 2001, p. 53-54, grifos nossos).
“Favorável à captação de todos os movimentos”, conforme se lê na passagem acima, esta mãe de memórias, tanto individuais quanto coletivas, registra não com canetas, mas com seus galhos, as histórias de todas as gerações dos moradores de Rio-das-Paridas, cujo ventre é um arquivo, exercendo a função de “depósito de lembranças”, sobretudo, para o narrador que se gera e se constitui a partir desse acervo memorialístico que atribui à paineira-mãe-memorável. Enquanto o escrivão observa o tempo escorregar por entre os dedos no cartório convertido em cela, ele se mantém abismado perante o passado que o tortura: “[...] na crua obstinação de me manter abismado diante de um passado que me tortura o presente e anuvia o futuro [...]” (Dantas, 2001, p. 28).
São nessas horas aflitivas, que sob tortura psicológica, o escrivão recorre à velha barriguda como um filho em busca da mãe. Ao se transportar para junto dela, volta a ser o menino do Engenho Murituba, conforme se constata nos trechos:
[...] Não posso adiar nem mais uma só hora o momento de levar-lhe o meu desamparo, de me render a seu coração amarelo de gravatá, trançado de todos os quebrantos. Pendurado da teia de seu fascínio, que se cruza e recruza na minha memória, aperto os olhos para esquecer estas paredes onde me trancafiaram e, sovertido não importa em quê, me transporto menino enfeitiçado para sua sombra, a esta hora, toda furada pelas réstias oblíquas do sol já derreado. Sob o jugo encantatório de sua aragem o aquele vira este, o antes é agora, o pretérito caminha para o presente, tudo se achegando para o meu lado em cantigas de sacrilégio (Dantas, 2001, p. 21).
Achatadas entre esta cumeeira e os lajedos irregulares, minhas retinas caídas vão derrapando de ângulos e paredes, se esfregando nas frinchas dos janelões e no vão dos batentes, de onde escapolem e caminham pelos ares…até esbarrar no Murituba [...]. É corrido pelo desejo adoidado de passar a limpo o borrão de toda infância que volto agora ao pé desta paineira onde tenho enterrados o umbigo e o primeiro dente de leite. Chego para escutar esta velha barriguda em cujos galhos me dependurava de cabeça para baixo, a camisa caindo pela cara para me cegar os olhos, e as pernas entrelaçadas lá em cima (Dantas, 2001, p. 21-22).
A relação entre o narrador-personagem e a velha paineira reflete como a interconexão com a natureza exerce influência por sobre sua imaginação e experiências. Os ambientes nos quais estamos inseridos são carregados de significados. Nesse sentido é que Hall (2024, p. 42) assegura que “Os lugares permanecem fixos; é neles que temos ‘raízes’”. Assim, o escrivão continua a construir as trilhas narrativas a partir do chão onde essas raízes crescem e se multiplicam: “Aquele chão [...] ainda guarda o meu umbigo enterrado sob o pé da barriguda, bem ao lado da cova onde depositaram o meu primeiro dente de leite” (Dantas, 2001, p. 319).
A aura simbólica atribuída pelo narrador à velha paineira segue se fortalecendo no enredo, pois o pedaço de chão em que ela foi plantada não representa apenas um elemento paisagístico, mas algo essencial para suas reminiscências. No livro Futuro Ancestral, Ailton Krenak trata da relação espiritual entre homem e natureza e a define como “[...] trânsito entre um corpo humano e uma planta ou com uma árvore [...] não importa, o importante é o cordão umbilical ser enterrado no ato de plantar, então criança e planta compartilham o mesmo espírito” (Krenak, 2022, p. 21).
Neste compartilhamento de espírito e de memórias, notamos que a visão do escrivão e Krenak convergem no sentido de ter na prática de enterrar o umbigo sob o pé de uma árvore, costume este mais fortemente observado em ambientes rurais. Essa prática funciona como um meio pelo qual o sujeito pode ter acesso a sua história, acessando profundamente seus arquivos ancestrais e tendo a certeza de que pertence a algum lugar.
Sobre o vínculo entre sujeito e árvore, os pesquisadores Pelinser e Pereira (2025, p. 12) salientam que “Esse vínculo do protagonista com a velha paineira marca [...] a importância do ambiente regional para as suas reminiscências e deixa com isso, mais evidente a ligação entre espaço e memória”.
Portanto, em Coivara da Memória, a paineira é esta ponte visível que leva ao rio invisível do passado, o ido, mas constantemente presente a amargurar o protagonista. Em sua prisão, a memória possibilita o tráfego para o momento de felicidade — a infância, apesar de seus dissabores — em contraposição ao momento presente cuja perspectiva de futuro é a condenação no tribunal do júri.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do exposto e tomando o pressuposto dos variados fatores que envolvem a memória, vê-se em Coivara da Memória que a lembrança é construída e representada a partir de alguns marcadores geográficos. Desse modo, a presente análise mostrou como a memória é construída e representada no romance a partir de lugares essenciais ao desenrolar da trama, estabelecendo com estes espaços alicerces para o desenvolvimento da narrativa.
Apresentamos neste estudo o percurso memorialístico construído pelo protagonista-narrador, percurso este conduzido por seu fluxo de pensamento e não por um tempo cronológico. Isso porque a prisão domiciliar do narrador impede seu deslocamento físico, restando, então, ao exercício escritural o registro memorialístico de sua história. Com isso, os lugares de memória do escrivão invadem o romance como pilares narrativos, quais sejam, a cidade Rio-das-Paridas, o interior nordestino, bem como o Engenho Murituba, o cartório e a velha paineira.
Portanto, estes lugares evocados pelo narrador estruturam a construção da memória no romance. Diante disso, nota-se a relevância de se perceber o espaço como uma fronteira da construção memorialística. Nesse sentido, enfatiza-se a interessante chave de leitura a partir da representação dos lugares de memória enquanto elementos estruturantes desta e, também, de outras narrativas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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PEREIRA, Eduarda Crislaine; PELINSER, André Tessaro. As cinzas do passado: região, memória e identidade em Coivara da memória, de Francisco J. C. Dantas. Signótica, Goiânia, v. 37, p. 1-24, 2025. Disponível em: https://revistas.ufg.br/sig/article/view/80051. Acesso em: 30 de out. de 2025.
POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos históricos. Rio de Janeiro, v. 05, nº 10, 1992, p. 200-212.
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1 Doutor em Literatura (Universidade Federal do Norte do Tocantins – UFNT/Campus Araguaína). Mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP). Professor da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL/Campus Imperatriz) e Técnico em Assuntos Educacionais (Instituto Federal do Maranhão (IFMA/Campus Imperatriz). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8667-0379.
2 Mestranda em Letras pela Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão/Programa de pós-graduação em Letras/PPGLe–UEMASUL. Bolsista: FAPEMA-Fundação de Amparo à pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcido.org/0009-0000-7254-5593.