IDEAÇÃO SUICIDA NA ADOLESCÊNCIA: FATORES PSICOSSOCIAIS ASSOCIADOS E POSSIBILIDADES DE PREVENÇÃO ENTRE ESTUDANTES BRASILEIROS

SUICIDAL IDEATION IN ADOLESCENCE: ASSOCIATED PSYCHOSOCIAL FACTORS AND PREVENTION POSSIBILITIES AMONG BRAZILIAN STUDENTS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792554101

RESUMO
A ideação suicida na adolescência envolve desenvolvimento psicológico, relações sociais e condições de cuidado. Este artigo analisa fatores psicossociais associados à ideação suicida e possibilidades de prevenção entre estudantes brasileiros, por meio de uma revisão narrativa de livros, artigos científicos e documentos institucionais. A análise abrangeu desenvolvimento psicológico, delimitação da ideação, fatores psicossociais e prevenção escolar. Os estudos brasileiros examinaram associações com experiências escolares e condições de saúde; a PeNSE contextualizou bullying e sofrimento emocional. Uma coorte longitudinal acrescentou evidências sobre violência e comportamento suicida/autolesão na juventude. Os resultados não estabelecem causalidade, e os indicadores não são diretamente comparáveis. As fontes ressaltam o apoio social, a escuta e o acesso ao cuidado. A prevenção demanda articulação entre escola, família e saúde, enfrentamento da violência, educação socioemocional, identificação do sofrimento e encaminhamento acompanhado. A revisão reconhece os limites das fontes e não demonstra a eficácia de uma intervenção específica.
Palavras-chave: Adolescência; Ideação suicida; Fatores psicossociais; Prevenção.

ABSTRACT
Suicidal ideation in adolescence involves psychological development, social relationships, and access to care. This article analyzes associated psychosocial factors and prevention possibilities among Brazilian students through a narrative review of books, scientific articles, and institutional documents. The analysis addressed psychological development, the definition of suicidal ideation, psychosocial factors, and school-based prevention. Brazilian studies examined associations with school experiences and health conditions; PeNSE provided context on bullying and emotional distress. A longitudinal cohort added evidence on violence and suicidal behavior/non-suicidal self-injury in young adulthood. The results do not establish causality, and their indicators are not directly comparable. The sources emphasize social support, attentive listening, and access to care. Prevention requires coordination among schools, families, and health services, violence prevention, socioemotional education, recognition of distress, and supported referral. The review acknowledges the limitations of the sources and does not establish the effectiveness of a specific intervention.
Keywords: Adolescence; Suicidal ideation; Psychosocial factors; Prevention.

1. INTRODUÇÃO

A adolescência é uma etapa do desenvolvimento marcada por transformações físicas, cognitivas, emocionais e sociais. Nesse período, o indivíduo amplia sua capacidade de reflexão, constrói aspectos importantes de sua identidade e estabelece novas formas de relacionamento com a família, os colegas e a comunidade. Essas mudanças ocorrem de maneira singular e são influenciadas pelas condições sociais e pelos ambientes em que o adolescente está inserido (Piaget, 1964; Erikson, 1968; Vigotski, 2010).

Apesar das possibilidades próprias dessa fase, muitos adolescentes vivenciam situações que podem intensificar o sofrimento emocional. Violência, bullying, cyberbullying, conflitos familiares, discriminação, isolamento, dificuldades escolares e ausência de apoio podem comprometer o sentimento de pertencimento e dificultar a busca por ajuda. Essas experiências precisam ser consideradas na compreensão do sofrimento, sem serem tomadas como explicações automáticas para pensamentos suicidas (Botega, 2023).

O suicídio é um problema de saúde pública e um fenômeno multifatorial. O Ministério da Saúde destaca que sua ocorrência está relacionada à interação de fatores psicológicos, sociais, culturais, econômicos e biológicos (Brasil, 2021). Por essa razão, a ideação suicida na adolescência não deve ser explicada por uma causa única nem atribuída exclusivamente às características individuais do jovem.

A ideação suicida envolve pensamentos sobre pôr fim à própria vida. Sua avaliação exige distinguir pensamentos passivos de morte, ideias suicidas, intenção e planejamento, sem tratar essas experiências como equivalentes (Botega, 2023). A identificação exige cuidado, pois os adolescentes podem apresentar sofrimento sem comunicá-lo diretamente. Vergonha, medo de julgamentos, receio de represálias e dificuldade para descrever o que sentem podem contribuir para o silêncio.

O ambiente escolar ocupa posição importante nesse contexto. A escola é um dos principais espaços de convivência dos adolescentes e pode funcionar como local de proteção ou de agravamento do sofrimento. A qualidade das relações entre estudantes, professores e demais profissionais, a existência de estratégias de enfrentamento ao bullying e a disponibilidade de apoio podem influenciar a possibilidade de o adolescente buscar ajuda (Fante, 2005; Barros; Scavacini; Bredemeier, 2023).

No Brasil, Moraes et al. (2025) identificaram associação entre ideação suicida, bullying verbal e cyberbullying em estudantes de escolas públicas. A pesquisa examinou essas experiências escolares junto ao autocontrole e ao clima escolar.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2024, publicada em 2026, amplia a contextualização nacional: 18,5% dos escolares de 13 a 17 anos relataram sentir que a vida não valia a pena ser vivida na maioria das vezes ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa (IBGE, 2026, p. 164). Esse indicador de sofrimento emocional não equivale automaticamente à ideação suicida.

A questão que orienta este trabalho é: como a literatura selecionada contribui para compreender os fatores psicossociais associados à ideação suicida na adolescência e as possibilidades de prevenção entre estudantes brasileiros? O objetivo geral é analisar esses fatores e discutir possibilidades de prevenção no contexto escolar brasileiro, com base nas fontes selecionadas.

Os objetivos específicos são: contextualizar o desenvolvimento adolescente e distinguir ideação suicida, planejamento, tentativa e autolesão sem intenção suicida; examinar os fatores psicossociais associados à ideação nos estudos brasileiros selecionados, com atenção ao bullying, ao cyberbullying, às habilidades sociais, ao autocontrole, ao clima escolar e ao apoio institucional; discutir possibilidades de prevenção no ambiente escolar; e analisar os limites das pesquisas selecionadas, indicando questões para futuras investigações.

2. ADOLESCÊNCIA E O DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO

2.1. Transformações Cognitivas e Emocionais e Construção da Identidade

Piaget (1964) explica que o desenvolvimento intelectual na adolescência não representa somente uma adaptação às transformações corporais. O adolescente passa a elaborar pensamentos mais complexos, capazes de considerar hipóteses, possibilidades e situações que ainda não estão presentes de forma concreta. Essa capacidade permite formular projetos, questionar regras e refletir sobre os próprios valores. O autor também relaciona a construção da personalidade à organização de valores, à autonomia e à elaboração de um projeto de vida, articulando essas mudanças à participação nas relações sociais (Piaget, 1964, p. 80–81).

A ampliação da capacidade de reflexão também modifica a maneira como o adolescente percebe a si próprio e aos outros. Berger (2013) descreve que, nessa fase, podem surgir maior autoconsciência, preocupação com a aparência, sensibilidade às críticas e atenção à forma como o indivíduo é visto pelos colegas. Essas características não significam, por si só, a existência de sofrimento psíquico, mas mostram que as avaliações sociais e as experiências de pertencimento podem adquirir importância significativa durante a adolescência.

Para Erikson (1968), uma das principais tarefas psicossociais desse período é a construção da identidade. O adolescente procura estabelecer uma continuidade entre aquilo que foi na infância, aquilo que é no presente e aquilo que deseja ser no futuro. Esse processo envolve escolhas, experimentações e identificações com grupos de amigos, referências sociais e projetos de vida. O autor destaca a relação entre a percepção de si e o reconhecimento pelos outros. Para este trabalho, essa contribuição permite situar a importância do pertencimento, sem atribuir ao autor uma demonstração de associação entre identidade e ideação suicida.

A adolescência, portanto, envolve simultaneamente novas possibilidades e desafios. A busca por autonomia ocorre em meio a mudanças familiares, escolares e sociais, e o reconhecimento dos pares adquire relevância. Por essa razão, a ideação suicida não deve ser explicada por uma característica isolada da adolescência. Ela precisa ser analisada em relação às experiências concretas do jovem, às condições de vida e aos recursos de apoio disponíveis.

2.2. O Desenvolvimento Adolescente e a Influência do Contexto Social

O desenvolvimento psicológico ocorre na relação entre o adolescente e os ambientes dos quais participa. A família, a escola, os grupos de amigos e a comunidade contribuem para a construção de significados, habilidades e formas de enfrentar situações difíceis. Nesse sentido, compreender a adolescência exige considerar tanto as características individuais quanto as relações sociais em que o jovem está inserido.

Vigotski (2010, p. 682) afirma que “o papel de quaisquer elementos do meio se distingue de acordo com as diferentes faixas etárias”. Sua discussão mostra que a influência do meio depende da etapa do desenvolvimento e da maneira como a experiência é vivenciada. Ao aproximar esse referencial do tema desta revisão, entende-se que conflitos familiares, dificuldades escolares, mudanças nas amizades ou situações de violência não possuem um significado único para todos os adolescentes. Essa aproximação constitui uma interpretação teórica, não uma evidência específica sobre ideação suicida.

A família pode funcionar como espaço de proteção quando oferece comunicação, acolhimento, acompanhamento e possibilidade de diálogo. A escola também possui papel importante, pois é um dos principais ambientes de convivência, aprendizagem e formação de vínculos. Relações respeitosas e adultos disponíveis para escutar podem favorecer a busca de ajuda diante do sofrimento. Por outro lado, experiências de bullying, humilhação, isolamento e ausência de resposta institucional precisam ser consideradas na avaliação das necessidades de proteção (Fante, 2005; Botega, 2023).

As relações com os colegas também adquirem grande importância durante a adolescência. Os amigos podem oferecer apoio emocional, reconhecimento e ajuda para enfrentar dificuldades. Entretanto, os grupos também podem reproduzir práticas de exclusão, pressão e violência. Por isso, a análise da ideação suicida entre estudantes precisa considerar a qualidade das relações sociais e não apenas as características individuais do adolescente (Berger, 2013; Fante, 2005).

Essa fundamentação situa o adolescente em seu processo de desenvolvimento e em suas relações sociais. Para delimitar o objeto da revisão, é necessário diferenciar ideação suicida, planejamento, tentativa e suicídio.

3. IDEAÇÃO SUICIDA E COMPORTAMENTO NA ADOLESCÊNCIA

O comportamento suicida é abordado na literatura como um fenômeno amplo, que compreende ideação, planejamento, tentativa e suicídio. Esses elementos não são equivalentes e precisam ser diferenciados. A ideação suicida refere-se a pensamentos sobre pôr fim à própria vida, com intensidade, frequência e elaboração variáveis. Pensamentos passivos de morte, como desejar não existir ou não acordar, também exigem atenção, mas não devem ser automaticamente equiparados à intenção de agir (Botega, 2023).

A avaliação precisa investigar se há desejo de morrer, ideias sobre uma ação, planejamento e intenção. Essa diferenciação demonstra que os pensamentos relacionados ao suicídio não constituem uma experiência única e fixa: podem se modificar conforme o sofrimento, as circunstâncias e o apoio disponível. A presença ou ausência de planejamento não dispensa a avaliação cuidadosa da situação (Botega, 2023).

A tentativa de suicídio envolve um comportamento autodirigido não fatal com alguma intenção de morrer, ainda que ambivalente ou difícil de esclarecer. O suicídio refere-se à morte decorrente de um ato autoprovocado com intenção de morrer. A autolesão sem intenção suicida é uma condição distinta; sua presença requer cuidado, mas não comprova, sozinha, uma tentativa. Embora estejam relacionados, ideação, tentativa e suicídio não devem ser tratados como etapas obrigatórias de uma sequência (Botega, 2023).

Botega (2023) destaca que a interpretação da ideação exige cuidado, pois os resultados das pesquisas podem variar conforme a forma de perguntar, o período considerado e o significado atribuído às expressões utilizadas. Perguntas sobre pensamentos de morte, desejo de desaparecer, vontade de morrer ou consideração de uma tentativa podem produzir respostas diferentes. Por isso, a análise precisa observar como cada pesquisa definiu e avaliou o fenômeno.

A ideação suicida deve ser compreendida como um sinal de sofrimento que merece escuta e avaliação. Ela não deve ser reduzida a uma tentativa de chamar atenção, a uma característica natural da adolescência ou a uma consequência automática de um único acontecimento. O sofrimento do adolescente precisa ser analisado em seu contexto, considerando suas relações familiares, experiências escolares, vínculos com os colegas, condições de saúde mental e possibilidades de acesso a ajuda (Botega, 2023).

4. FATORES PSICOSSOCIAIS ASSOCIADOS À IDEAÇÃO SUICIDA ENTRE ESTUDANTES

Além dos fatores relacionais e escolares, sintomas de sofrimento psíquico também podem estar associados à ideação suicida na adolescência. Sintomas depressivos, ansiedade intensa, impulsividade, uso problemático de substâncias e autolesão aparecem como condições relevantes na avaliação da vulnerabilidade, especialmente quando se combinam à ausência de apoio, ao isolamento e a experiências de violência (Botega, 2023). Essa relação não deve ser interpretada de forma determinista, pois nem todo adolescente que apresenta essas condições desenvolverá ideação suicida, assim como nem toda ideação está associada a um diagnóstico psicopatológico. Por isso, a avaliação deve considerar conjuntamente as condições individuais, familiares, escolares e sociais do adolescente.

Santos et al. (2022) realizaram um estudo quantitativo, descritivo e transversal com 117 adolescentes de 13 a 17 anos, de quatro escolas públicas e privadas de uma cidade do norte do Rio Grande do Sul. A amostragem foi não probabilística intencional. Pela Escala Beck de Ideação Suicida (BSI), 57 participantes (48,71%) apresentaram ideação. Foram observados escores maiores entre meninas, participantes com problemas de saúde, em acompanhamento psicológico ou psiquiátrico e em uso de medicação psiquiátrica. Os resultados se referem à amostra, sem representar a prevalência brasileira ou demonstrar que tratamento e medicação provoquem ideação.

5. BULLYING, CYBERBULLYING E SOFRIMENTO ENTRE ADOLESCENTES

O bullying constitui uma forma de violência repetitiva que ocorre em relações marcadas por desequilíbrio de poder. Pode manifestar-se por meio de agressões físicas, insultos, apelidos, ameaças, humilhações e exclusão social (Fante, 2005). No ambiente digital, práticas de intimidação podem envolver a disseminação de conteúdos ofensivos, caracterizando o cyberbullying. Entre adolescentes, essas experiências exigem atenção ao sofrimento e às condições de apoio disponíveis (Barros; Scavacini; Bredemeier, 2023).

Fante (2005) destaca que o bullying não envolve apenas a relação entre agressor e vítima. O fenômeno também inclui os colegas que presenciam as agressões, a omissão dos adultos e as respostas oferecidas pela escola e pela família. Quando a violência é minimizada ou interpretada como uma brincadeira, a vítima pode permanecer sem proteção e passar a compreender o ambiente escolar como um espaço inseguro.

A exposição continuada a situações de humilhação e rejeição pode produzir sofrimento emocional e favorecer o isolamento. Entretanto, é necessário evitar uma interpretação automática entre bullying e ideação suicida. A violência escolar não determina, por si só, o surgimento de pensamentos suicidas. Sua avaliação deve considerar a intensidade e a duração das agressões, as condições individuais do adolescente, as relações familiares, o apoio dos colegas e a resposta oferecida pela instituição escolar (Fante, 2005; Botega, 2023).

Na PeNSE 2024, 27,2% dos escolares relataram sofrer bullying duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa (IBGE, 2026, p. 49). Esse resultado dimensiona a violência vivenciada por estudantes brasileiros. Sua apresentação junto ao indicador de sofrimento emocional não demonstra, por si só, associação estatística entre bullying e ideação suicida.

Moraes et al. (2025) investigaram 659 estudantes de oito escolas públicas de um município do Rio de Janeiro. Identificaram associação da ideação suicida com bullying verbal e cyberbullying e examinaram o autocontrole e o clima escolar.

A pesquisa avaliou a ideação por meio de uma pergunta sobre ter considerado seriamente uma tentativa nos 12 meses anteriores à coleta. Os dados foram obtidos em um único momento, com uma amostra selecionada por conveniência (Moraes et al., 2025).

O cyberbullying amplia a possibilidade de exposição, pois as agressões podem ultrapassar os limites físicos da escola e circular em redes sociais e aplicativos de comunicação. Por isso, a prevenção precisa considerar tanto os espaços presenciais quanto os ambientes digitais frequentados pelos adolescentes (Barros; Scavacini; Bredemeier, 2023).

O enfrentamento do bullying exige interromper as agressões e acompanhar a segurança do estudante. A resposta institucional precisa alcançar também os colegas e os adultos envolvidos, evitando que a responsabilidade pela proteção recaia apenas sobre a vítima (Fante, 2005; Barros; Scavacini; Bredemeier, 2023).

6. HABILIDADES SOCIAIS, AUTOCONTROLE E APOIO SOCIAL

As habilidades sociais correspondem a comportamentos utilizados nas relações interpessoais, como comunicar sentimentos, pedir ajuda, negociar conflitos, expressar opiniões e estabelecer vínculos. Durante a adolescência, esses recursos podem ampliar as formas de enfrentar dificuldades. Sua relevância para a ideação precisa ser examinada com base nos resultados efetivamente avaliados, sem pressupor que todo repertório social tenha o mesmo papel protetivo (Moraes et al., 2025).

A capacidade de lidar com frustrações e adversidades também se relaciona à flexibilidade e à resolução de problemas. Botega (2023) discute a resiliência, a comunicação e a capacidade de solucionar problemas entre os recursos de proteção. Esses recursos não eliminam o sofrimento, mas podem ampliar possibilidades de enfrentamento e favorecer a busca de apoio.

O autocontrole constitui outro aspecto relevante. Sua discussão envolve regular respostas diante de conflitos ou estresse, mas não deve ser entendida como responsabilidade exclusivamente individual. Nesta revisão, a autorregulação é considerada em articulação com o desenvolvimento, as experiências familiares, as relações escolares e as oportunidades para aprender maneiras mais seguras de lidar com problemas.

No estudo de Moraes et al. (2025), maior autocontrole esteve associado a menores chances de ideação suicida.

O apoio social é igualmente importante. Família, amigos, professores e profissionais da escola podem funcionar como fontes de proteção quando oferecem escuta, acolhimento e encaminhamento. A existência de pessoas disponíveis facilita a comunicação do sofrimento. Em contrapartida, a ausência de apoio, o isolamento e a percepção de que ninguém compreenderá sua experiência podem dificultar a procura por ajuda (Botega, 2023; Barros; Scavacini; Bredemeier, 2023).

No contexto escolar, o desenvolvimento dessas habilidades não deve ocorrer por meio de ações isoladas ou de cobranças para que o adolescente simplesmente “seja forte”. É necessário criar oportunidades de diálogo, cooperação e resolução de conflitos, além de capacitar os adultos para reconhecer sinais de sofrimento. Habilidades sociais, autocontrole e apoio social devem ser compreendidos em relação às condições de segurança, respeito e acesso à ajuda, destacando a responsabilidade compartilhada entre família, escola, saúde e comunidade (Brasil, 2021; Barros; Scavacini; Bredemeier, 2023).

7. CLIMA ESCOLAR E APOIO INSTITUCIONAL

O clima escolar corresponde às percepções construídas pelos estudantes e pelos profissionais sobre as relações, as regras, a segurança, a participação e a forma como os conflitos são tratados na escola. Moraes et al. (2025) encontraram associação entre uma percepção mais positiva do clima escolar e menores chances de ideação suicida.

A escola ocupa uma posição estratégica na prevenção porque os adolescentes passam parte significativa de seu tempo nesse ambiente. Barros, Scavacini e Bredemeier (2023) destacam a escola como espaço de ações preventivas. O contato contínuo com os estudantes também permite perceber alterações no comportamento, nas relações e no desempenho escolar.

Entre os sinais que podem exigir atenção estão isolamento, alterações de humor, irritabilidade, queda no rendimento, faltas frequentes, mudanças de comportamento e autolesões. Esses sinais não permitem concluir, sozinhos, que o adolescente apresenta ideação suicida, mas indicam a necessidade de aproximação, escuta e avaliação cuidadosa (Barros; Scavacini; Bredemeier, 2023).

A prevenção escolar deve ser realizada por uma equipe articulada. Barros, Scavacini e Bredemeier (2023) discutem a participação de professores, profissionais da saúde, familiares e comunidade. Nesse sentido, a escola não substitui os serviços especializados, mas pode realizar o acolhimento inicial, reconhecer situações que exigem cuidado e apoiar os encaminhamentos necessários.

A comunicação entre escola e família é outro componente importante. Quando os educadores percebem mudanças significativas no comportamento do adolescente, o contato com os responsáveis pode ampliar a rede de proteção. Essa comunicação deve ser cuidadosa, respeitosa e sem culpabilização. Quando o ambiente familiar integra a situação de violência, a articulação com a rede de proteção precisa considerar a segurança do adolescente (Botega, 2023; Barros; Scavacini; Bredemeier, 2023).

A convivência respeitosa, os adultos de confiança e a integração com grupos sociais constituem recursos de proteção discutidos por Barros, Scavacini e Bredemeier (2023). Esses vínculos dão continuidade ao apoio para além do encaminhamento inicial.

8. POSSIBILIDADES DE PREVENÇÃO DA IDEAÇÃO SUICIDA ENTRE ESTUDANTES

A prevenção da ideação suicida na adolescência precisa ser compreendida como um conjunto de ações articuladas. Como o comportamento suicida é multifatorial, não existe uma única medida capaz de eliminar o risco. A prevenção envolve promoção da saúde mental, fortalecimento dos vínculos, identificação do sofrimento, acesso ao cuidado e redução das situações que aumentam a vulnerabilidade (Botega, 2023; Brasil, 2021).

No contexto escolar, Barros, Scavacini e Bredemeier (2023) defendem uma abordagem integrada, envolvendo educação, saúde, família e comunidade. A escola pode contribuir por meio da capacitação dos profissionais, da promoção da expressão emocional, da prevenção do bullying e da divulgação dos serviços de ajuda disponíveis.

A educação socioemocional também constitui uma possibilidade relevante. O Ministério da Saúde destaca ações que favoreçam o desenvolvimento da resiliência e das habilidades para lidar com frustrações e adversidades (Brasil, 2021). Essas orientações permitem discutir atividades que ajudem a reconhecer emoções, comunicar necessidades, resolver conflitos e buscar apoio. Não constituem, porém, prova de que uma atividade isolada reduza a ideação suicida.

O desenvolvimento dessas habilidades não deve ser tratado como obrigação individual do adolescente. Para que ele consiga lidar melhor com as adversidades, é necessário que esteja inserido em ambientes que ofereçam segurança, escuta e relações de confiança. A resiliência não significa suportar qualquer situação sozinho, mas dispor de recursos pessoais e sociais para enfrentar dificuldades com apoio adequado.

A comunicação deve ocorrer sem julgamentos, ameaças ou culpabilização. Uma escuta respeitosa pode permitir que o adolescente expresse experiências mantidas em silêncio e reconheça a possibilidade de receber ajuda. O capítulo de Barros, Scavacini e Bredemeier (2023) destaca a criação de espaços de escuta e acolhimento. Essa orientação deve ser acompanhada de acesso efetivo aos serviços, e não se limitar à abertura de uma conversa.

A família exerce função importante quando oferece presença, comunicação e disposição para buscar atendimento. Em situações de risco, a escola deve seguir os procedimentos institucionais, articular os responsáveis e a rede de saúde conforme as necessidades de proteção e acompanhar o encaminhamento. Professores e funcionários não devem assumir sozinhos o atendimento clínico; sua contribuição está no acolhimento inicial e na ligação com profissionais capacitados (Barros; Scavacini; Bredemeier, 2023).

9. METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de revisão narrativa da literatura. Gil (2002) caracteriza a pesquisa bibliográfica pelo uso de materiais já publicados, especialmente livros e artigos científicos. Neste trabalho, esse procedimento permite examinar contribuições sobre ideação suicida na adolescência, fatores psicossociais associados e possibilidades de prevenção entre estudantes brasileiros.

A revisão narrativa permite discutir um tema em sua dimensão teórica e contextual, articulando a leitura e a interpretação crítica da literatura (Rother, 2007). Sua escolha está relacionada ao objetivo de apresentar os conceitos de adolescência e ideação suicida e relacioná-los às experiências escolares e às possibilidades de cuidado. Não foi realizado um levantamento sistemático de toda a produção sobre o assunto.

Foram utilizados livros, três artigos empíricos brasileiros, o relatório da PeNSE 2024 e documentos institucionais relacionados ao desenvolvimento adolescente, ao comportamento suicida, à saúde mental, ao bullying, às habilidades sociais, ao clima escolar e à prevenção do suicídio. Entre as fontes teóricas, foram consideradas as contribuições de Piaget, Erikson, Vigotski e Berger. Também foram utilizados Botega (2023), Fante (2005), o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde (Brasil, 2021) e o capítulo de Barros, Scavacini e Bredemeier (2023), publicado em Atualizações em suicidologia.

A seleção considerou a relação dos materiais com a população adolescente, o contexto escolar, os fatores psicossociais e a prevenção. Moraes et al. (2025) e Santos et al. (2022) compuseram o núcleo empírico sobre ideação suicida. Silva Filho et al. (2025) foram incluídos como evidência longitudinal complementar sobre violência no desenvolvimento e comportamento suicida/autolesão na juventude, sem equivalência direta com o recorte de ideação entre escolares. A PeNSE 2024 (IBGE, 2026) contextualizou indicadores nacionais de bullying e saúde mental. As demais fontes ofereceram fundamentação conceitual e orientações de cuidado; obras internacionais sobre desenvolvimento não foram tratadas como evidências empíricas brasileiras.

A análise foi organizada em quatro eixos, em correspondência com os objetivos específicos: desenvolvimento adolescente e delimitação dos conceitos; fatores psicossociais associados à ideação; possibilidades de prevenção escolar; e discussão crítica dos resultados, dos limites metodológicos e das questões para futuras pesquisas.

A análise integrou contribuições teóricas, empíricas e institucionais, sem realizar síntese estatística ou estabelecer relações causais. As obras sobre desenvolvimento foram utilizadas para contextualizar a adolescência, enquanto os artigos empíricos e os materiais sobre suicidologia subsidiaram a discussão dos fatores associados e das possibilidades de prevenção.

A interpretação considerou os delineamentos transversais e as amostras não probabilísticas de Moraes et al. (2025) e Santos et al. (2022), o uso de autorrelato e as perdas de acompanhamento da coorte de Silva Filho et al. (2025). A PeNSE possui plano amostral de abrangência nacional, mas seus indicadores foram analisados conforme as perguntas efetivamente utilizadas. Não foram equiparados sentimentos de perda de sentido para a vida, ideação, tentativa e recomendações de prevenção, nem inferidas relações causais.

10. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise realizada indica que a ideação suicida na adolescência não pode ser compreendida por uma causa única. As contribuições de Piaget, Erikson e Vigotski mostram que a adolescência envolve transformações no pensamento, na identidade e na relação com o meio. Essas mudanças ocorrem em interação com as experiências familiares, escolares e sociais vivenciadas pelo estudante.

A perspectiva do desenvolvimento ajuda a compreender por que determinadas experiências podem adquirir grande importância nessa fase. A busca por pertencimento, o reconhecimento dos colegas, a construção da identidade e a necessidade de autonomia fazem com que situações de rejeição, humilhação, violência ou isolamento mereçam atenção particular. Isso não significa que a adolescência seja, por si só, uma condição patológica, mas que as relações e as respostas institucionais importam na forma como as adversidades são enfrentadas.

A presença de sintomas ou diagnósticos não substitui a análise das relações e das circunstâncias de vida. Na perspectiva de Botega (2023), a compreensão da crise exige considerar a combinação de condições individuais e contextuais. Isso evita tanto reduzir o sofrimento a uma psicopatologia quanto desconsiderar a necessidade de avaliação clínica.

Moraes et al. (2025) examinaram conjuntamente experiências de violência, autocontrole e clima escolar. Enquanto bullying verbal e cyberbullying estiveram associados à ideação, maior autocontrole e percepção mais positiva do clima escolar se associaram a menores chances de sua ocorrência. A análise reúne, assim, aspectos do comportamento dos estudantes e das relações que vivenciam na escola. Essas associações não constituem garantias individuais de proteção.

Santos et al. (2022) investigaram condições de saúde e acompanhamento clínico e observaram maiores escores de ideação entre adolescentes em tratamento. Esse resultado situa o sofrimento também entre jovens que já têm contato com os serviços de cuidado, além dos fatores escolares examinados por Moraes et al. (2025).

Silva Filho et al. (2025) acompanharam uma coorte brasileira iniciada com 500 crianças recrutadas em escolas públicas em 2005. A análise incluiu 129 participantes acompanhados até 2021. No modelo, violência psicológica familiar na infância e na juventude e violência comunitária na adolescência apresentaram associações com o desfecho combinado de comportamento suicida e autolesão sem intenção suicida. O desfecho reúne fenômenos distintos e foi avaliado na juventude, o que diferencia essa análise das pesquisas sobre ideação entre adolescentes escolares.

A seleção narrativa das fontes e os delineamentos delimitam a interpretação dessas associações. Em Moraes et al. (2025) e Santos et al. (2022), os dados transversais não esclarecem a ordem temporal entre os fatores examinados e a ideação. As amostras não probabilísticas restringem a generalização, e, no estudo de Santos et al. (2022), somam-se o autorrelato e a participação majoritária de meninas. Os escores observados entre adolescentes em tratamento não permitem atribuir o sofrimento ao atendimento nem avaliar sua eficácia. Moraes et al. (2025) também não avaliaram intervenções sobre autocontrole ou clima escolar. Na coorte de Silva Filho et al. (2025), as exposições à violência foram avaliadas longitudinalmente, mas o desfecho foi examinado na última etapa, já na juventude. As perdas de acompanhamento e a combinação de comportamento suicida com autolesão limitam a comparação com os estudos de ideação entre escolares. Essas características exigem cautela quanto à causalidade e ao alcance dos resultados. Esta revisão também não avaliou a eficácia de um programa preventivo específico.

Na leitura conjunta dos estudos, bullying, dificuldades familiares, isolamento e ausência de apoio compõem diferentes aspectos da experiência do adolescente. Esses fatores podem coexistir e precisam ser considerados no planejamento do cuidado.

As habilidades sociais, o autocontrole e a capacidade de resolver problemas aparecem como recursos pertinentes à discussão do enfrentamento das adversidades. Botega (2023) relaciona flexibilidade, comunicação, busca de ajuda e resolução de problemas à proteção. Esses recursos, porém, não dependem apenas do esforço individual. Podem ser fortalecidos em relações familiares, escolares e comunitárias que ofereçam segurança e oportunidades de aprendizagem.

O clima escolar também se mostra relevante. Uma escola que enfrenta o bullying, oferece espaços de escuta, capacita seus profissionais e mantém articulação com a família e a saúde pode ampliar as condições de proteção. Por outro lado, ignorar a violência, minimizar o sofrimento ou responsabilizar o estudante pela própria situação impede uma resposta adequada às necessidades de cuidado (Fante, 2005; Barros; Scavacini; Bredemeier, 2023).

Os resultados exigem distinguir os instrumentos utilizados: Moraes et al. (2025) investigaram a consideração séria de uma tentativa nos 12 meses anteriores; Santos et al. (2022) utilizaram a BSI; a PeNSE examinou, entre outros indicadores, o sentimento de que a vida não valia a pena nos últimos 30 dias. Assim, os percentuais não devem ser comparados como medidas equivalentes. A PeNSE oferece contexto nacional sobre escolares de 13 a 17 anos, mas não autoriza converter seu indicador em prevalência nacional de ideação suicida.

A articulação dessas fontes amplia a análise: Moraes et al. (2025) examinam fatores escolares, Santos et al. (2022) acrescentam condições de saúde e acompanhamento, Silva Filho et al. (2025) oferecem uma perspectiva longitudinal complementar sobre violência e comportamento suicida/autolesão, e a PeNSE situa violência e sofrimento emocional no cenário nacional. Livros e documentos institucionais contribuem com conceitos e orientações, sem constituir demonstrações adicionais de eficácia preventiva. A revisão relaciona essas contribuições à necessidade de redes de cuidado que integrem as demandas clínicas e escolares.

A leitura dos estudos selecionados deixa em aberto como os fatores investigados interagem e como a ideação se modifica ao longo da adolescência. As associações identificadas respondem a questões delimitadas pelos instrumentos, pelas populações e pelos períodos de observação. Considerar a ideação em sua dimensão temporal envolve examinar mudanças na frequência, na intensidade e na elaboração dos pensamentos, além de sua presença ou ausência. No conjunto analisado, permanece a necessidade de acompanhar essas mudanças entre estudantes brasileiros por meio de avaliações repetidas. Uma pesquisa futura poderia integrar aspectos biológicos, psicológicos e sociais, com medidas definidas para cada dimensão e atenção às experiências familiares e escolares. Essa proposta decorre dos limites das fontes selecionadas; não representa uma afirmação de ausência de estudos semelhantes em toda a literatura brasileira. O acompanhamento longitudinal permitiria examinar a sequência temporal das associações, cuja interpretação causal dependeria também do desenho e dos controles adotados.

11. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta revisão analisou fatores psicossociais associados à ideação suicida na adolescência e discutiu possibilidades de prevenção entre estudantes brasileiros. A literatura examinada oferece contribuições para compreender essas associações, mas não esgota as relações entre as diferentes dimensões do fenômeno.

No contexto escolar, o enfrentamento da violência e a promoção de habilidades socioemocionais precisam estar articulados a procedimentos de acolhimento, encaminhamento e acompanhamento. A implementação dessas ações requer responsabilidades definidas entre escola, família e serviços de saúde, respeitando os limites da atuação dos profissionais da educação.

As lacunas identificadas nas fontes selecionadas sustentam a proposta de pesquisas longitudinais com adolescentes escolarizados no Brasil, orientadas por uma perspectiva biopsicossocial. Avaliações repetidas da ideação e dos fatores associados podem contribuir para compreender suas variações ao longo do tempo. Também são necessárias avaliações de intervenções para examinar os resultados das ações preventivas em diferentes contextos escolares.

A prevenção envolve reconhecer o sofrimento, fortalecer vínculos, ampliar o acesso à ajuda e qualificar a resposta das instituições. A escola pode contribuir para esse cuidado quando dispõe de condições para acolher o adolescente e articular o acompanhamento com sua rede de apoio.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Acadêmica de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha (FEST). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Administradora, Advogada, Psicóloga e Teóloga. Especialista em Docência do Ensino Superior e em Gestão e Legislação Tributária. Docente da Faculdade de Educação Santa Terezinha (FEST). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.