ENTRE VOCAÇÃO E ACEITAÇÃO SOCIAL: A INFLUÊNCIA DO STATUS SOCIAL NA ESCOLHA PROFISSIONAL DE ESTUDANTES DO ENSINO MÉDIO

BETWEEN VOCATION AND SOCIAL ACCEPTANCE: THE INFLUENCE OF SOCIAL STATUS ON THE CAREER CHOICES OF HIGH SCHOOL STUDENTS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779216134

RESUMO
A escolha profissional no Ensino Médio constitui um processo complexo atravessado por fatores subjetivos, sociais, econômicos e culturais que influenciam diretamente a construção da identidade juvenil. Nesse contexto, a presente pesquisa analisa as tensões existentes entre a vocação pessoal e a busca por aceitação social na definição das trajetórias profissionais de estudantes do Ensino Médio. O estudo parte da compreensão de que determinadas carreiras são socialmente valorizadas e associadas ao prestígio, à estabilidade financeira e à mobilidade social, fatores que frequentemente condicionam as decisões dos jovens em detrimento de seus interesses e aptidões individuais. O objetivo geral consiste em investigar como o status social das profissões atua como vetor de pressão sobre as escolhas profissionais dos estudantes, considerando a influência das expectativas familiares, das representações sociais e das condições socioeconômicas. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica sistemática em produções científicas publicadas entre 2016 e 2026, localizadas no Google Acadêmico. Conclui-se que a pressão por status profissional pode provocar conflitos identitários, frustrações acadêmicas e distanciamento das vocações pessoais, reforçando a necessidade de políticas educacionais e práticas de orientação profissional que promovam escolhas mais conscientes e alinhadas à realidade subjetiva dos estudantes.
Palavras-chave: Escolha profissional; Status social; Vocação; Ensino Médio; Representações sociais.

ABSTRACT
Professional choice in high school constitutes a complex process permeated by subjective, social, economic, and cultural factors that directly influence the construction of youth identity. In this context, the present study analyzes the tensions between personal vocation and the search for social acceptance in the definition of the professional trajectories of high school students. The study is based on the understanding that certain careers are socially valued and associated with prestige, financial stability, and social mobility, factors that often condition young people's decisions to the detriment of their individual interests and aptitudes. The general objective is to investigate how the social status of professions acts as a pressure vector on students' professional choices, considering the influence of family expectations, social representations, and socioeconomic conditions. Methodologically, this is a qualitative and exploratory study developed through a systematic literature review of scientific publications produced between 2016 and 2026, retrieved from Google Scholar. It is concluded that the pressure for professional status may generate identity conflicts, academic frustration, and distancing from personal vocations, reinforcing the need for educational policies and professional guidance practices that promote more conscious choices aligned with the subjective realities of students.
Keywords: Professional choice; Social status; Vocation; High school; Social representations.

1. INTRODUÇÃO

A escolha profissional representa um dos processos mais complexos e decisivos vivenciados pelos estudantes do Ensino Médio, especialmente por ocorrer em um período marcado por transformações emocionais, cognitivas e sociais. Longe de constituir apenas uma decisão técnica relacionada ao exercício futuro de uma profissão, essa escolha envolve a construção da identidade pessoal, os projetos de vida e as expectativas de inserção social e econômica dos jovens. Nesse contexto, a definição da carreira passa a ser influenciada não apenas pelas aptidões e interesses individuais, mas também pelas representações sociais atribuídas às profissões e pelo valor simbólico que determinadas ocupações possuem na sociedade contemporânea.

Nas últimas décadas, o avanço das transformações econômicas, a competitividade do mercado de trabalho e a valorização social de carreiras associadas ao prestígio e à estabilidade financeira intensificaram as pressões sobre os estudantes durante o processo de escolha profissional. Profissões historicamente vinculadas ao reconhecimento social, ao alto retorno financeiro e ao status simbólico continuam sendo percebidas como sinônimos de sucesso pessoal e ascensão social, influenciando significativamente o imaginário juvenil.

Conforme destaca Maffei (2008), a escolha profissional está diretamente relacionada às condições socioeconômicas dos sujeitos, uma vez que as desigualdades sociais condicionam tanto as possibilidades de acesso quanto as expectativas de futuro construídas pelos estudantes.

Nesse cenário, a vocação, entendida como inclinação subjetiva, afinidade pessoal e identificação com determinada área de atuação, frequentemente entra em conflito com fatores externos relacionados à aceitação social, às expectativas familiares e às demandas econômicas. Muitos estudantes acabam direcionando suas escolhas para profissões consideradas mais valorizadas socialmente, ainda que tais carreiras não correspondam aos seus interesses genuínos.

Segundo Oliveira et al. (2009), para jovens pertencentes às classes populares, o trabalho e a profissão assumem frequentemente um significado relacionado à superação das dificuldades socioeconômicas e à conquista de reconhecimento social, tornando a ascensão econômica um elemento central no processo decisório.

Além das condições econômicas, a influência exercida pela família, pelos grupos de pares e pelas representações sociais também desempenha papel fundamental na construção das expectativas profissionais.

Gonçalves (1997) argumenta que o núcleo familiar atua como importante mediador das escolhas vocacionais, transmitindo valores, expectativas e percepções acerca das profissões socialmente valorizadas. Paralelamente, os grupos sociais e culturais reforçam padrões de prestígio que associam determinadas carreiras ao sucesso, ao poder e à estabilidade, produzindo pressões simbólicas que atravessam a subjetividade juvenil.

Outro aspecto relevante refere-se ao processo de formação identitária na adolescência. Conforme afirmam Grings e Jung (2017, p. 7), “a identidade vocacional desse jovem vai sendo consolidada no decorrer de sua vida, conforme vai adquirindo consciência de sua personalidade”.

Dessa forma, a construção da identidade profissional ocorre em permanente interação com os contextos sociais, culturais e econômicos nos quais o estudante está inserido, evidenciando que a escolha profissional não pode ser compreendida como um ato exclusivamente individual.

Diante dessa problemática, emerge a seguinte questão norteadora: em que medida a busca por status e aceitação social influencia a escolha profissional dos estudantes do Ensino Médio em comparação com suas vocações e interesses pessoais? A relevância da pesquisa reside na necessidade de compreender como as estruturas de prestígio social e as expectativas coletivas interferem nas trajetórias acadêmicas e profissionais dos jovens, sobretudo em um contexto marcado pela valorização do desempenho, da competitividade e da mobilidade social.

O estudo justifica-se academicamente pela necessidade de aprofundar as discussões acerca das relações entre vocação, identidade, status social e mercado de trabalho, considerando a carência de pesquisas que articulem, de forma integrada, os aportes da Psicologia, da Sociologia da Educação e da Orientação Profissional.

Além disso, a investigação contribui para a reflexão sobre os impactos emocionais e sociais decorrentes de escolhas profissionais realizadas sob pressão externa, muitas vezes associadas a frustrações acadêmicas, evasão universitária e insatisfação profissional.

O objetivo geral da pesquisa consiste em investigar as tensões psicossociais que permeiam a escolha profissional de estudantes do Ensino Médio, identificando como o prestígio social de determinadas carreiras atua como vetor de pressão frente aos interesses vocacionais e às expectativas de mobilidade social.

Como objetivos específicos, busca-se identificar os principais fatores que influenciam a escolha profissional dos estudantes; investigar a percepção dos alunos sobre o status social das diferentes profissões; e compreender a influência da vocação pessoal associada aos fatores externos, como reconhecimento social e expectativas familiares.

Metodologicamente, a pesquisa caracteriza-se como um estudo qualitativo, de natureza exploratória, desenvolvido por meio de revisão bibliográfica sistemática. O levantamento teórico foi realizado no Google Acadêmico, utilizando descritores relacionados à escolha profissional, status social, vocação, representações sociais e mobilidade social. Foram selecionadas produções científicas publicadas entre 2016 e 2026, buscando compreender criticamente as influências psicossociais presentes no processo de escolha profissional dos estudantes do Ensino Médio.

A análise das obras selecionadas permitiu compreender criticamente os fatores psicossociais que influenciam o imaginário juvenil e a construção das trajetórias profissionais no contexto contemporâneo.

2. A ESCOLHA PROFISSIONAL COMO FENÔMENO PSICOSSOCIAL

A escolha profissional constitui um fenômeno multidimensional que ultrapassa os limites da decisão individual, envolvendo aspectos psicológicos, sociais, econômicos e culturais que influenciam diretamente a formação da identidade dos estudantes.

Durante a adolescência, período marcado por intensas transformações emocionais e pela construção do projeto de vida, os jovens são confrontados com a necessidade de definir caminhos profissionais que, muitas vezes, repercutirão em toda a trajetória adulta. Nesse contexto, a escolha da profissão passa a representar não apenas uma definição ocupacional, mas também uma busca por pertencimento, reconhecimento social e realização pessoal.

Sob a perspectiva psicossocial, a construção da identidade profissional ocorre em permanente interação com os contextos sociais nos quais o sujeito está inserido. Conforme afirmam Grings e Jung (2017, p. 7), “a identidade vocacional desse jovem vai sendo consolidada no decorrer de sua vida, conforme vai adquirindo consciência de sua personalidade”.

Tal compreensão evidencia que a vocação não se manifesta de maneira espontânea ou isolada, mas é continuamente moldada pelas experiências vividas, pelas relações familiares, pelas influências culturais e pelas expectativas construídas ao longo da formação social do indivíduo.

A adolescência, especificamente, configura-se como uma etapa de intensas inseguranças relacionadas ao futuro profissional. O estudante do Ensino Médio frequentemente se vê pressionado a realizar escolhas consideradas definitivas em um momento em que ainda está consolidando sua identidade pessoal.

Segundo Mattos et al. (2012), o questionamento sobre “o que ser quando crescer” transcende a simples definição de uma ocupação e envolve a necessidade de reconhecimento, pertencimento e construção de sentido social. Dessa forma, a profissão passa a representar um símbolo identitário por meio do qual o jovem busca afirmar seu lugar na sociedade.

Nesse processo, a maturidade vocacional assume papel fundamental. Junqueira (2010) compreende a maturidade para a escolha profissional como a capacidade do indivíduo de integrar conhecimentos sobre si mesmo, suas habilidades, interesses e limitações, às informações relacionadas ao mercado de trabalho e às possibilidades profissionais existentes. Jovens que apresentam maior maturidade tendem a desenvolver escolhas mais conscientes e alinhadas às suas aptidões, enquanto estudantes submetidos a pressões externas intensas podem manifestar elevados níveis de ansiedade e insegurança diante da decisão profissional.

A relação entre escolha profissional e saúde emocional também merece destaque. Gonzaga e Lipp (2014) apontam que o processo de definição da carreira pode desencadear elevados níveis de estresse em estudantes do Ensino Médio, especialmente quando associado à cobrança familiar, à competitividade social e ao medo do fracasso.

A pressão para alcançar estabilidade financeira e reconhecimento social contribui para o desenvolvimento de sentimentos de angústia e insegurança, tornando a escolha profissional um processo emocionalmente desgastante para muitos jovens.

Além dos fatores internos, as representações sociais exercem significativa influência sobre as preferências profissionais dos estudantes. Serpa (2003) argumenta que as imagens socialmente construídas acerca das profissões orientam o imaginário juvenil, estabelecendo hierarquias simbólicas que associam determinadas carreiras ao sucesso, ao prestígio e à inteligência. Profissões tradicionalmente valorizadas socialmente passam a ocupar posição privilegiada no imaginário coletivo, influenciando os desejos e expectativas dos estudantes, mesmo quando tais escolhas não correspondem às suas inclinações pessoais.

As desigualdades sociais também atravessam profundamente o processo de escolha profissional. Estudantes pertencentes a diferentes contextos socioeconômicos vivenciam possibilidades distintas de acesso à informação, formação acadêmica e planejamento de carreira.

Conforme destaca Maffei (2008), jovens de classes economicamente favorecidas tendem a possuir maior liberdade para explorar interesses pessoais e experimentar diferentes trajetórias profissionais, enquanto estudantes das camadas populares frequentemente direcionam suas escolhas para profissões associadas à estabilidade financeira e à ascensão social.

Sob essa perspectiva, Oliveira et al. (2009) ressaltam que, para muitos jovens de baixa renda, a profissão assume um significado relacionado à superação das condições de vulnerabilidade social. A escolha profissional deixa de representar exclusivamente a realização vocacional e passa a constituir uma estratégia de mobilidade social e garantia de sobrevivência econômica.

Dessa forma, o status associado a determinadas carreiras torna-se um elemento central no imaginário juvenil, reforçando a valorização de profissões consideradas socialmente prestigiadas.

Outro elemento relevante refere-se às construções de gênero presentes no processo de escolha profissional. Santos, Canever e Frotta (2013) observam que determinados campos profissionais ainda permanecem fortemente associados a representações masculinas ou femininas, influenciando as escolhas dos estudantes desde a adolescência. Tais estereótipos acabam limitando as possibilidades profissionais dos jovens, contribuindo para a manutenção de desigualdades históricas no acesso a determinadas áreas do conhecimento e do mercado de trabalho.

Assim, compreende-se que a escolha profissional não pode ser analisada apenas como resultado de aptidões individuais ou preferências subjetivas. Trata-se de um processo socialmente construído, permeado por relações de poder, expectativas culturais, desigualdades econômicas e disputas simbólicas que influenciam diretamente a formação da identidade juvenil.

A compreensão dessas dimensões psicossociais torna-se fundamental para o desenvolvimento de práticas de orientação profissional mais críticas, humanizadas e comprometidas com a autonomia dos estudantes diante das pressões impostas pela sociedade contemporânea.

3. STATUS SOCIAL, MOBILIDADE E PRESTÍGIO DAS CARREIRAS

A relação entre status social e escolha profissional ocupa posição central nas discussões contemporâneas sobre juventude, trabalho e mobilidade social. Em sociedades marcadas pela competitividade e pela valorização do desempenho econômico, determinadas profissões passam a assumir não apenas uma função ocupacional, mas também um significado simbólico associado ao poder, ao reconhecimento social e à ascensão econômica.

Nesse contexto, a profissão transforma-se em um marcador de identidade e posição social, influenciando diretamente as expectativas e decisões dos estudantes durante o processo de definição da carreira.

Historicamente, o conceito de sucesso profissional foi construído a partir da valorização de ocupações vinculadas ao elevado retorno financeiro, à estabilidade econômica e ao prestígio social. Profissões como Medicina, Direito, Engenharia e áreas ligadas ao setor financeiro consolidaram-se como símbolos de reconhecimento e distinção social, ocupando posição privilegiada no imaginário coletivo.

Segundo Serpa (2003), as representações sociais acerca das profissões são construídas culturalmente e reproduzidas pelas instituições sociais, criando hierarquias simbólicas que atribuem maior valor social a determinadas carreiras em detrimento de outras.

Sob a perspectiva sociológica, Pierre Bourdieu contribui significativamente para a compreensão desse fenômeno ao afirmar que o capital simbólico atua como mecanismo de legitimação social, permitindo que determinadas profissões sejam reconhecidas como superiores dentro das estruturas sociais.

Para Bourdieu (2011), o prestígio profissional está diretamente relacionado à posse de capital cultural, econômico e social, fatores que influenciam tanto o acesso às profissões quanto o reconhecimento atribuído a elas pela sociedade. Assim, a escolha profissional não ocorre em condições iguais para todos os sujeitos, mas é atravessada pelas desigualdades estruturais existentes na sociedade.

Nesse cenário, a profissão passa a representar uma possibilidade concreta de mobilidade social, especialmente para estudantes oriundos de contextos economicamente vulneráveis.

Maffei (2008) argumenta que jovens pertencentes às classes populares frequentemente percebem as carreiras de alto prestígio como instrumentos de superação das dificuldades econômicas e conquista de cidadania social. A busca por profissões valorizadas deixa de ser apenas uma questão de realização pessoal e passa a constituir uma estratégia de enfrentamento da exclusão social e da precarização do trabalho.

Oliveira et al. (2009) reforçam essa discussão ao demonstrar que, para muitos jovens de baixa renda, o sentido atribuído à profissão está diretamente relacionado à possibilidade de “ser alguém na vida”.

Nesse contexto, o reconhecimento social associado à carreira assume importância central na construção dos projetos de vida dos estudantes. A profissão torna-se símbolo de dignidade, estabilidade e pertencimento social, sobretudo em realidades marcadas pela desigualdade econômica e pela limitação de oportunidades.

A valorização do status profissional também se relaciona diretamente às transformações econômicas e às inseguranças produzidas pelo mercado de trabalho contemporâneo. O avanço da competitividade, a flexibilização das relações trabalhistas e o aumento da instabilidade financeira intensificaram o medo da precarização profissional entre os jovens.

Segundo Minella et al. (2017), fatores como materialismo, educação financeira e valorização do dinheiro influenciam significativamente as expectativas profissionais da juventude, contribuindo para que os estudantes priorizem carreiras associadas à segurança econômica e ao reconhecimento social.

Essa lógica evidencia que a escolha profissional frequentemente ocorre sob tensão entre vocação e sobrevivência econômica. Muitos estudantes acabam direcionando suas decisões para áreas consideradas mais rentáveis ou socialmente prestigiadas, mesmo quando tais escolhas não correspondem às suas aptidões pessoais. Conforme destaca Biase (2008), o retorno financeiro e as perspectivas de empregabilidade figuram entre os principais fatores que influenciam a decisão dos jovens acerca do curso superior e da futura profissão.

Além da dimensão econômica, o status profissional também está associado à necessidade de reconhecimento social e pertencimento coletivo. Em uma sociedade fortemente marcada pela valorização da aparência de sucesso, a profissão passa a funcionar como elemento de validação social da identidade dos indivíduos. Bauman (2008) argumenta que a contemporaneidade produz sujeitos constantemente pressionados a demonstrar produtividade, desempenho e realização pessoal, transformando o sucesso profissional em critério de valorização humana.

Essa dinâmica produz impactos significativos sobre a subjetividade juvenil. A pressão para alcançar profissões consideradas socialmente superiores pode desencadear sentimentos de inadequação, ansiedade e frustração entre estudantes que não se identificam com os padrões profissionais valorizados socialmente. Gonzaga e Lipp (2014) ressaltam que o medo de fracassar socialmente e não corresponder às expectativas familiares e coletivas contribui para o aumento dos níveis de estresse entre estudantes do Ensino Médio.

Outro aspecto relevante refere-se à reprodução das desigualdades sociais por meio das escolhas profissionais. Embora o discurso meritocrático frequentemente apresente a profissão como resultado exclusivo do esforço individual, as oportunidades educacionais e profissionais permanecem profundamente condicionadas pelas condições socioeconômicas dos sujeitos.

Bourdieu (2011) enfatiza que o acesso ao capital cultural e às oportunidades de formação não ocorre de forma homogênea, favorecendo grupos socialmente privilegiados e dificultando a ascensão de estudantes pertencentes às camadas populares.

Desse modo, compreende-se que o status profissional exerce influência significativa sobre a construção dos projetos de vida dos estudantes, funcionando simultaneamente como símbolo de reconhecimento social, estratégia de mobilidade econômica e mecanismo de reprodução das desigualdades sociais.

A valorização excessiva do prestígio profissional pode levar muitos jovens a realizarem escolhas distantes de suas vocações e interesses pessoais, reforçando a necessidade de práticas educacionais e políticas de orientação profissional que promovam maior autonomia crítica e consciência social no processo de escolha da carreira.

4. A INFLUÊNCIA DA FAMÍLIA, DOS PARES E DAS CONDIÇÕES SOCIOECONÔMICAS NA ESCOLHA PROFISSIONAL

A escolha profissional dos estudantes do Ensino Médio não ocorre de maneira isolada, sendo profundamente influenciada pelas relações sociais estabelecidas no ambiente familiar, escolar e comunitário.

A família, os grupos de pares e as condições socioeconômicas constituem elementos fundamentais na construção das expectativas profissionais juvenis, atuando como mediadores entre os desejos individuais e as exigências impostas pela sociedade. Nesse processo, os jovens passam a elaborar suas perspectivas de futuro a partir das referências, valores e experiências compartilhadas pelos grupos sociais aos quais pertencem.

A família desempenha papel central na formação das representações acerca do trabalho e das profissões. Desde os primeiros anos de vida, os sujeitos internalizam valores relacionados ao sucesso, à estabilidade financeira e ao reconhecimento social por meio das experiências familiares. Conforme destaca Gonçalves (1997), o desenvolvimento vocacional está diretamente relacionado às relações estabelecidas no ambiente familiar, uma vez que os pais ou responsáveis funcionam como importantes referências na definição dos projetos de vida dos jovens.

As expectativas familiares frequentemente influenciam as escolhas profissionais dos estudantes, sobretudo quando determinadas profissões são associadas à ascensão social e à estabilidade econômica. Em muitos casos, a profissão desejada pela família passa a representar um projeto coletivo de superação das dificuldades enfrentadas pelo núcleo familiar.

Oliveira (2009, p. 128) afirma que “as famílias dos jovens acreditam que o estudo é uma forma de superação da condição social em que se encontram”. Tal compreensão evidencia que a escolarização e a profissão assumem um significado que ultrapassa a dimensão individual, tornando-se instrumentos de mobilidade social e conquista de reconhecimento coletivo.

Em contextos de vulnerabilidade socioeconômica, essa pressão tende a ser ainda mais intensa. Famílias que vivenciam situações de precariedade econômica frequentemente incentivam os jovens a escolher profissões consideradas financeiramente estáveis e socialmente valorizadas, independentemente das aptidões ou interesses pessoais dos estudantes.

Nesses casos, a escolha profissional deixa de representar exclusivamente uma realização vocacional e passa a constituir uma estratégia de sobrevivência econômica e proteção social.

Maffei (2008) argumenta que estudantes pertencentes às classes populares costumam desenvolver uma percepção pragmática em relação ao trabalho, direcionando suas escolhas para carreiras associadas à estabilidade financeira e à segurança empregatícia.

Diferentemente dos jovens pertencentes às classes economicamente favorecidas, que frequentemente possuem maior liberdade para explorar interesses pessoais e construir trajetórias profissionais mais flexíveis, os estudantes de baixa renda tendem a vivenciar a profissão como uma necessidade vinculada à melhoria das condições de vida.

Além da família, os grupos de pares exercem significativa influência sobre o processo de escolha profissional. Durante a adolescência, a necessidade de pertencimento social torna os jovens particularmente sensíveis às opiniões e expectativas dos amigos e colegas. Pereira e Garcia (2007) observam que as amizades desempenham importante função na construção das escolhas profissionais, uma vez que os grupos sociais compartilham valores, expectativas e referências acerca das profissões consideradas desejáveis socialmente.

A convivência com determinados grupos pode influenciar diretamente as preferências profissionais dos estudantes, reforçando padrões coletivos relacionados ao prestígio social das carreiras. Em muitos casos, os jovens acabam reproduzindo escolhas semelhantes às de seus pares como forma de integração e validação social. Essa dinâmica evidencia que a decisão profissional não ocorre apenas com base em características individuais, mas também em processos de identificação coletiva e construção simbólica do sucesso.

As representações sociais construídas pela mídia e pelas instituições educacionais também contribuem para a consolidação dessas influências. Determinadas profissões são frequentemente associadas ao sucesso financeiro, ao poder e ao reconhecimento público, enquanto outras permanecem invisibilizadas ou desvalorizadas socialmente. Segundo Serpa (2003), as representações sociais orientam o imaginário juvenil ao estabelecer padrões simbólicos que hierarquizam as profissões de acordo com o prestígio atribuído pela sociedade.

Outro aspecto relevante refere-se à influência das desigualdades econômicas sobre o acesso às oportunidades educacionais e profissionais. As condições socioeconômicas interferem diretamente na qualidade da formação escolar, no acesso à informação, nos recursos culturais e nas possibilidades de planejamento de carreira. Jovens pertencentes a contextos socialmente vulneráveis frequentemente enfrentam limitações estruturais que restringem suas possibilidades de escolha e dificultam o acesso a profissões socialmente valorizadas.

Nesse sentido, Bourdieu (2011) afirma que as desigualdades sociais se reproduzem por meio da distribuição desigual do capital cultural e das oportunidades educacionais. O acesso a determinadas profissões depende não apenas do esforço individual, mas também das condições materiais e simbólicas disponíveis aos sujeitos ao longo de sua trajetória escolar.

Assim, estudantes provenientes de famílias com maior capital econômico e cultural tendem a possuir vantagens significativas no processo de escolha e inserção profissional.

As questões de gênero também atravessam o processo de escolha profissional. Santos, Canever e Frotta (2013) observam que determinadas áreas do conhecimento permanecem socialmente associadas ao masculino ou ao feminino, influenciando as expectativas familiares e sociais acerca das profissões consideradas adequadas para homens e mulheres. Esses estereótipos limitam as possibilidades profissionais dos jovens e reforçam desigualdades históricas no mercado de trabalho.

Dessa forma, compreende-se que a escolha profissional resulta de um complexo conjunto de influências sociais, econômicas e culturais que atravessam a subjetividade juvenil. A família, os grupos de pares e as condições socioeconômicas atuam como importantes mediadores na construção das expectativas profissionais, moldando os projetos de vida dos estudantes e influenciando diretamente suas decisões acerca do futuro.

A compreensão dessas influências torna-se essencial para o desenvolvimento de práticas educacionais e políticas de orientação profissional que promovam escolhas mais autônomas, críticas e alinhadas às necessidades subjetivas e sociais dos jovens.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A escolha profissional dos estudantes do Ensino Médio revela-se como um processo complexo, influenciado não apenas pelas aptidões individuais, mas também por fatores sociais, econômicos e culturais que atravessam a construção da identidade juvenil. Ao longo desta pesquisa, foi possível compreender que a decisão acerca da futura profissão ocorre em meio a tensões entre vocação pessoal, expectativas familiares, reconhecimento social e busca por estabilidade financeira.

Os estudos analisados demonstraram que o status social associado a determinadas carreiras exerce significativa influência sobre o imaginário dos estudantes, especialmente em contextos marcados pela desigualdade socioeconômica. Profissões socialmente valorizadas passam a ser percebidas como instrumentos de ascensão social, segurança econômica e legitimação social, levando muitos jovens a priorizarem o prestígio profissional em detrimento de seus interesses e inclinações vocacionais.

Também foi evidenciado que a família e os grupos de convivência desempenham papel fundamental na construção das expectativas profissionais dos adolescentes. As pressões familiares relacionadas ao sucesso, à estabilidade financeira e à mobilidade social frequentemente interferem nas escolhas dos estudantes, transformando a profissão em um projeto coletivo de superação das dificuldades econômicas e conquista de reconhecimento social.

Além disso, verificou-se que as representações sociais sobre determinadas profissões contribuem para a manutenção de hierarquias simbólicas no mercado de trabalho, reforçando desigualdades e limitando a liberdade de escolha dos jovens. Nesse contexto, fatores como gênero, classe social e acesso às oportunidades educacionais influenciam diretamente as trajetórias profissionais construídas durante a adolescência.

Dessa forma, conclui-se que a escolha profissional não pode ser compreendida como uma decisão exclusivamente individual, pois está profundamente relacionada às estruturas sociais e às pressões culturais presentes na sociedade contemporânea. Torna-se necessário fortalecer práticas de orientação profissional que valorizem a autonomia, a reflexão crítica e o autoconhecimento dos estudantes, permitindo escolhas mais conscientes e alinhadas às suas realidades pessoais e sociais.

Por fim, destaca-se a importância de novas pesquisas que investiguem empiricamente as experiências de estudantes do Ensino Médio em diferentes contextos sociais, contribuindo para a ampliação das discussões acerca das relações entre juventude, identidade, trabalho e mobilidade social na contemporaneidade.

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1 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Docente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail