REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789706014
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo propor uma intervenção pedagógica fundamentada nas Cinco Pedagogias da Paz de Nei Alberto Salles Filho (valores humanos, direitos humanos, vivências e convivências, ecoformação e conflitologia), voltada a crianças de 4 a 5 anos e alinhada à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Parte-se da compreensão de que a educação infantil é um espaço estratégico para a promoção da convivência, da empatia e da mediação de conflitos, por meio de práticas pedagógicas intencionais. À luz do pensamento de Paulo Freire e das abordagens socioculturais do desenvolvimento, destaca-se o papel da escola na formação de sujeitos críticos e na construção de relações éticas desde a primeira infância. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter propositivo, baseada em levantamento de literatura infantil e mapeamento de práticas lúdicas, como músicas, brincadeiras, contação de histórias e atividades coletivas. A proposta organiza-se pela articulação entre as pedagogias da paz e os campos de experiência da BNCC, estabelecendo, para cada pedagogia, a seleção de uma obra literária, uma prática lúdica e um momento de reflexão. Como resultado, se propõe uma intervenção estruturada em cinco módulos, com vistas à promoção da cultura de paz e ao fortalecimento das práticas de convivência na educação infantil.
Palavras-chave: Cultura de Paz; Educação para a Paz; Cinco Pedagogias para a Paz; Plano de Aula.
ABSTRACT
This study aims to propose a pedagogical intervention based on the Five Pedagogies of Peace by Nei Alberto Salles Filho (human values, human rights, experiences and coexistence, ecoformation, and conflictology), designed for children aged 4 to 5 years and aligned with the Brazilian National Common Curricular Base (BNCC). It starts from the understanding that early childhood education is a strategic space for promoting coexistence, empathy, and conflict mediation through intentional pedagogical practices. Drawing on Paulo Freire's thought and sociocultural approaches to development, the study highlights the school's role in forming critical subjects and building ethical relationships from early childhood. Methodologically, this is a qualitative, propositional research study based on a survey of children's literature and mapping of playful practices, such as songs, games, storytelling, and collective activities. The proposal is organized through the articulation between the pedagogies of peace and the BNCC's fields of experience, establishing, for each pedagogy, the selection of a literary work, a playful practice, and a moment of reflection. As a result, an intervention structured in five modules is proposed, aimed at promoting a culture of peace and strengthening coexistence practices in early childhood education.
Keywords: Culture of Peace; Peace Education; Five Pedagogies of Peace; Lesson Plan.
1. INTRODUÇÃO
A educação infantil brasileira enfrenta um cenário preocupante de violências relacionais que comprometem o desenvolvimento integral das crianças.
Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP, 2025) indicam que 68% das creches e pré-escolas registraram episódios de bullying precoce, conflitos físicos e violências simbólicas entre 2020 e 2025, com aumento significativo durante a pandemia.
Tais ocorrências, muitas vezes naturalizadas como “brincadeiras de criança”, podem ser compreendidas como expressões de violências estruturais que, desde a primeira infância, contribuem para a reprodução de desigualdades de gênero, raça e classe, conforme aponta Salles Filho (2016, p. 14).
Nesse sentido, a escola não apenas reflete tensões sociais mais amplas, mas, também atua como espaço privilegiado de sua reprodução ou transformação.
Assim, este trabalho tem por objetivo geral, propor uma intervenção pedagógica, fundamentada nas Cinco Pedagogias da Paz, criadas por Salles Filho, alinhada à BNCC, por meio da elaboração de um plano de aula.
Já os objetivos específicos, buscarão: Analisar as Cinco Pedagogias da Paz, à luz da BNCC, como fundamento para práticas educativas na educação infantil; selecionar e analisar obras de literatura infantil que abordem valores humanos, convivência, resolução de conflitos e meio ambiente; elaborar práticas pedagógicas lúdicas (como músicas, brincadeiras, contação de histórias e atividades corporais) articuladas às Cinco Pedagogias da Paz.
Para tanto, a metodologia escolhida consiste em uma pesquisa qualitativa de natureza teórico-aplicada com caráter propositivo e enfoque na elaboração de uma intervenção pedagógica voltada à educação infantil, sem aplicação empírica direta.
Conforme mencionado, o estudo se fundamenta nas Cinco Pedagogias da Paz, de Salles Filho (valores humanos, direitos humanos, vivências e convivências, ecoformação e conflitologia), articuladas às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Desse modo, ela será organiza-se a partir de uma triangulação teórico-prática, estruturada em três eixos: (i) análise das Cinco Pedagogias da Paz como base conceitual; (ii) articulação com os campos de experiência e os direitos de aprendizagem da BNCC; e (iii) proposição de estratégias pedagógicas que integrem momentos lúdicos e reflexivos, adequados à faixa etária de 4 a 5 anos.
Como arte do procedimento metodológico, será realizado um levantamento e seleção de obras de literatura infantil, preferencialmente indicadas por documentos oficiais, como as Diretrizes Curriculares da Educação Básica, e alinhadas à BNCC.
Para tanto, serão priorizadas obras que abordem temáticas que incluam valores como empatia, convivência, respeito às diferenças e resolução de conflitos, entendidas como dispositivos pedagógicos mediadores da Cultura de Paz.
Paralelamente, serão mapeadas e sistematizadas práticas lúdicas, incluindo brincadeiras, músicas brasileiras, contação de histórias, atividades corporais e dinâmicas coletivas, com potencial para promover vivências relacionadas às Cinco Pedagogias da Paz.
O mapeamento será orientado de modo a garantir a correspondência direta entre teoria e prática, de forma que, para cada uma das cinco pedagogias, sejam selecionados: uma obra de literatura infantil, uma prática lúdica (como brincadeira, música ou atividade corporal) e um momento de reflexão coletiva.
A partir desse levantamento, será elaborada uma proposta de intervenção pedagógica estruturada em cinco módulos temáticos, com duração estimada de 90 minutos cada, contemplando a integração entre literatura infantil, práticas lúdicas e momentos de convivência e reflexão. Cada módulo corresponderá a uma das pedagogias da paz, articulando intencionalmente uma narrativa literária, uma experiência prática e um momento reflexivo, de modo a traduzir conceitos abstratos, como alteridade, cooperação e não-violência, em experiências concretas e significativas para crianças de 4 a 5 anos.
Por fim, a proposta será analisada de forma teórico-reflexiva, considerando sua coerência com os referenciais adotados, sua aplicabilidade no contexto da educação infantil e seu potencial contributivo para a promoção da Cultura de Paz e para a formação docente.
2. O AMBIENTE ESCOLAR NA INFÂNCIA
O ambiente escolar está mais violento? Estudos e pesquisas demonstram quem sim, e para além da violência direta, existe o que se chama de violência cultural e estrutural.
Johan Galtung (1996), difundiu os conceitos que se adequam perfeitamente a afirmativa anterior. O autor trouxe ao centro a paz e não a guerra, dividindo o conceito em positivo e negativo. Assim, a denomina como Paz Negativa e Paz Positiva.
A Paz Negativa é definida pela simples ausência de violência direta, como guerras, agressões físicas ou conflitos bélicos. No ambiente escolar, essa visão costuma restringir-se à manutenção da ordem e à repressão de brigas, tratando a paz de forma passiva.
Por outro lado, a Paz Positiva refere-se à antítese de todas as formas de violência, direta, estrutural e cultural, pressupondo uma estruturação social baseada na justiça social, na equidade e na satisfação das necessidades básicas humanas. (Galtung, 1996)
A Educação para a Paz deve se fundamentar na Paz Positiva, compreendendo-a não como um estado de passividade, mas como um processo dinâmico de construção de relações harmônicas e democráticas. Nessa perspectiva, o conflito deixa de ser algo a ser evitado (visão da paz negativa) e passa a ser reconhecido como um motor de mudança social e um elemento essencial na mediação pedagógica para a construção de uma cultura de convivência. (Salles Filho (2016).
2.1. Olhares Sobre a Violência Escolar
Por isso, para a compreensão acerca a violência escolar, é prudente ampliar o olhar entendendo-a como um fenômeno complexo, multifacetado e relacional, que atravessa todas as etapas da educação básica, inclusive a educação infantil (MONGE LÓPEZ; GÓMEZ HERNÁNDEZ, 2021).
A violência não se restringe a manifestações explícitas, como agressões físicas, nela se incluem dimensões simbólicas, culturais, psicológicas e morais que se expressam nas interações cotidianas entre crianças. Sob essa perspectiva, o ambiente escolar constitui um espaço de produção de sentidos, no qual normas, valores e práticas podem tanto legitimar quanto problematizar dinâmicas excludentes e violentas (SALLES FILHO, 2016; MONGE LÓPEZ; GÓMEZ HERNÁNDEZ, 2021).
À luz das diretrizes educacionais brasileiras, especialmente da Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018), a educação infantil deve assegurar direitos de aprendizagem e desenvolvimento, como conviver, participar, expressar-se e conhecer-se, intrinsecamente vinculados à construção de relações éticas e respeitosas.
No entanto, apesar desse marco normativo, observa-se que práticas voltadas à mediação de conflitos e à educação para a convivência ainda são frequentemente pontuais e pouco sistematizadas, evidenciando fragilidades na formação docente e na implementação de propostas pedagógicas que busquem enfrentar a violência de forma estruturada.
É nesse ponto que, o pensamento de Paulo Freire se torna fundamental, pois, para o educador, a educação é um ato político e dialógico, no qual o sujeito se constitui nas relações com o outro e com o mundo. A escola, portanto, não pode ser neutra diante das violências, devendo assumir um compromisso ético com a formação de sujeitos críticos, capazes de reconhecer e transformar realidades opressoras. A ausência de práticas pedagógicas intencionais voltadas ao diálogo, à escuta e à problematização das relações tende a reforçar uma educação bancária, que silencia conflitos em vez de compreendê-los como oportunidades formativas (FREIRE, 1987).
Em consonância com essa perspectiva, as abordagens socioculturais do desenvolvimento infantil destacam que a criança aprende e se constitui por meio das interações sociais, sendo profundamente influenciada pelo contexto em que está inserida (MONGE LÓPEZ; GÓMEZ HERNÁNDEZ, 2021; SOUZA, 2025).
Assim, quando o ambiente escolar carece de estratégias pedagógicas consistentes, de profissionais preparados e de recursos adequados, torna-se mais propenso à reprodução de comportamentos excludentes, conflitos não mediados e práticas de violência (FREIRE, 1996; SOUZA, 2025; MONGE LÓPEZ; GÓMEZ HERNÁNDEZ, 2021).
Por outro lado, quando estruturado de forma intencional, pode se configurar como um espaço de promoção da cultura de paz e de construção de relações solidárias.
Diante desse cenário e considerações, ganha relevância a proposta das Cinco Pedagogias da Paz: valores humanos, direitos humanos, vivências e convivências, ecoformação e conflitologia, sistematizadas por Salles Filho (2016).
Essas pedagogias oferecem um arcabouço teórico-prático que articula dimensões éticas, sociais e ambientais, reconhecendo o sujeito em sua integralidade e nas suas múltiplas relações.
Ao enfatizarem o diálogo, a empatia, a resolução não violenta de conflitos e a consciência do pertencimento ao coletivo e ao meio ambiente, configuram-se como propostas potentes para a ressignificação das práticas educativas na educação infantil.
2.2. A Proposta Pedagógica
A operacionalização dessas propostas no cotidiano escolar revela um desafio central: transpor conceitos densos de Direitos Humanos, Conflitologia e Cultura de Paz para a linguagem lúdica e concreta de crianças de 4 a 5 anos, bem como tornar compreensíveis noções abstratas como “alteridade”, “não-violência” e “cidadania planetária” por meio de brincadeiras, contação de histórias e vivências corporais. (Salles Filho, 2016, p. 199)
Essa tensão entre teoria complexa e prática infantil desafia os referenciais tradicionais, exigindo uma abordagem interdisciplinar que articule pedagogia, psicologia, direito e sustentabilidade em experiências significativas e acessíveis para essa faixa etária.
Nesse contexto, o principal desafio não reside na ausência de referenciais teóricos, mas na dificuldade de traduzir conceitos complexos da Educação para a Paz, como alteridade, não-violência e cidadania, em experiências pedagógicas significativas e acessíveis à primeira infância.
Tal tensão entre densidade teórica e aplicabilidade prática evidencia uma lacuna no campo educacional, sobretudo, no que se refere à educação infantil, que exige abordagens lúdicas, concretas e mediadas.
A escolha da faixa etária de 4 a 5 anos para o presente estudo, não é aleatória, pois, conforme a habilidade denominada EI03EO012, “crianças pequenas” apresentam desenvolvimento cognitivo compatível com a construção de empatia, cooperação e compreensão de regras sociais.
Embora ainda demandem mediação adulta constante a faixa etária escolhida traz uma janela de oportunidade para a prevenção de violências, uma vez que intervenções intencionais podem evitar a naturalização de padrões agressivos e excludentes (Salles Filho, 2016, p. 336).
Além disso, a presente proposta se justifica tanto em termos acadêmicos quanto sociais. No âmbito acadêmico, busca preencher uma lacuna nos estudos brasileiros ao propor a aplicação prática das Cinco Pedagogias da Paz na educação infantil, contribuindo para a formação docente continuada.
No plano social, responde às diretrizes do Plano Nacional de Educação (2014-2024), especial à Meta 7, que enfatiza a promoção da educação em direitos humanos e a prevenção da violência, bem como aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 4 (educação de qualidade) e 16 (paz, justiça e instituições eficazes), estabelecidos pela ONU (2015).
Dessa forma, considerando os desafios evidenciados, as diretrizes normativas vigentes e os aportes teóricos de Galtung, Freire e Salles Filho, emerge a seguinte questão orientadora: Como as Cinco Pedagogias da Paz podem ser operacionalizadas na educação infantil de modo a enfrentar as violências relacionais e promover a Cultura de Paz, considerando as mediações pedagógicas exigidas para a faixa etária de 4 a 5 anos?
Para responder a essa questão, se torna necessário o avançar da problematização teórica para a proposição prática de estratégias pedagógicas concretas no contexto da educação infantil. Assim, define-se como objetivo: propor uma intervenção pedagógica, fundamentada nas referidas Cinco Pedagogias da Paz de Salles Filho, para crianças de 4 a 5 anos, alinhada à BNCC, por meio da elaboração de um plano de aula que promova a Cultura de Paz na educação infantil.
2.3. Cultura de Paz e Educação para a Paz
A Cultura de Paz e a Educação para a Paz, têm sua origem formal em organismos internacionais como a Organização da Nações Unidas - ONU e Organização da Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - UNESCO.
A Cultura de Paz foi introduzida na Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB, através da Lei nº 13.663, de 14 de maio de 2018, sendo conceituado como:
(...) um conjunto de práticas humanas e sociais, composta pelas questões relacionadas às vivências e convivências, pautada na construção conjunta de valores humanos positivos, que alimentam constantemente os direitos humanos e que tenham como prática de vida os processos de mediação e restauração dos conflitos e o princípio da sustentabilidade do meio ambiente e da cidadania planetária. Isso significa que uma cultura de paz se pauta por solidariedade, generosidade, respeito às diferenças, baseadas na escuta e no diálogo, evitando formas violentas de viver e conviver. (SALLES FILHO, 2019, p. 20)
Quanto à Educação para a Paz, seu conceito revela-se como um processo educativo, onde serão abordados fundamentos baseados nas definições de paz e conflitos observados pela ótica positiva, de forma dinâmica, contínua e permanente, com vistas no desenvolvimento de uma nova cultura, ou seja, a Cultura de Paz, a fim de propiciar uma análise crítica e realística dos problemas sociais, com a finalidade de resolvê-los com afetividade e autonomia (JARES, 2002, p. 148 apud GIARDINI, 2021).
Assim, a Educação para a Paz integra a prevenção de violências pelas vias da empatia e do diálogo (SALLES FILHO, 2019, p. 214). Acredita-se que a base comum curricular5 pode dar suporte pedagógico suficiente para a implantação de uma educação voltada para os preceitos de Cultura de Paz e Educação para a Paz, a partir das chamadas Competências Gerais (BNCC, 2018, p.8/9).
2.4. Desenvolvimento Infantil e Mediação Pedagógica na Perspectiva Histórico-Cultural
A compreensão dos processos de aprendizagem na educação infantil demanda o diálogo com a teoria histórico-cultural de Lev Vygotsky, que entende o desenvolvimento humano como resultado das interações sociais mediadas simbolicamente.
Nesse contexto, se destaca a distinção entre o nível de desenvolvimento real, correspondente às capacidades já consolidadas pela criança, e a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), entendida como o espaço entre aquilo que a criança realiza de forma autônoma e o que pode realizar com o auxílio de um mediador mais experiente.
É nesse intervalo que o processo educativo se torna mais potente, uma vez que a aprendizagem incide sobre funções ainda em processo de formação, projetando o desenvolvimento potencial da criança (REGO, 1995). Assim, o papel do professor, especialmente na educação infantil, consiste em criar situações mediadas que possibilitem a ampliação dessas capacidades em construção.
Nesse sentido, a literatura infantil e as práticas coletivas assumem papel central como instrumentos de mediação. Ao articular linguagem, imaginação e experiência social, essas práticas operam diretamente na ZDP, favorecendo a internalização de valores, normas de convivência e formas de resolução de conflitos. Tal perspectiva é fundamental para a presente proposta, na medida em que sustenta a utilização de narrativas e atividades lúdicas como estratégias para a promoção da cultura de paz desde a primeira infância.
2.5. Desenvolvimento do Plano de Aula: As Cinco Pedagogias da Paz
Sabe-se que o plano de aula é um instrumento pedagógico com a finalidade premente de orientar a prática do professor.
Tal instrumento busca organizar de forma estruturada o tema da aula, os objetivos a serem alcançados, os conteúdos que serão trabalhados, bem como as metodologias que irão embasar o processo de ensino-aprendizagem e as formas de avaliação que permitirão verificar os resultados obtidos.
Nei Salles Filho estabeleceu as Cinco Pedagogias da Paz em sua tese de doutorado em educação durante o ano de 2016, como marco teórico principal adotou a Teoria da Complexidade do sociólogo francês Edgar Morin.
A seguir, cada uma dessas pedagogias, será explicitada de forma concisa a fim de caracterizar cada módulo temático, conforme consta dos objetivos do presente trabalho.
Em cada pedagogia, haverá um pequeno resumo e análise da obra, sua conexão pedagógica, Proposição Didática e Objetivo Pedagógico, bem como a Análise Teórico-Pedagógica da Intervenção.
2.5.1. Pedagogia dos Valores Humanos sob a ótica da Obra: Vó para toda hora, de Paulla Thompson
Diante do que se pode denominar como uma “crise de valores” existente no âmbito educacional atual, a Pedagogia dos Valores Humanos busca resgatar os valores existentes na sociedade, a fim de melhorar a percepção da criança e do adolescente sobre o seu comportamento, melhorando sua percepção através da afetividade e subjetividade. (SALLES FILHO, 2019, p.244)
Segundo Salles Filho (2019, p.255), a pedagogia dos valores humanos “é essencial para a educação para a paz na medida em que os valores estão na base das relações de convivência dos indivíduos com seus pares e de suas relações com a natureza e a vida.”
Resumo e Análise: A obra explora a pluralidade das relações de amizade, mostrando que amigos podem ser diferentes em forma, cor, temperamento e origem. A narrativa simples, mas profunda, destaca que o que une os indivíduos não é a semelhança, mas o valor intrínseco da conexão e o cuidado mútuo. Ao celebrar a amizade, o livro estabelece o respeito como a base para qualquer interação humana. A obra desconstrói estereótipos sobre o envelhecimento ao apresentar avós com perfis contemporâneos e diversos.
Ao afastar-se da visão tradicional, o livro celebra a individualidade e o vínculo afetivo intergeracional através de rimas e ilustrações vibrantes.
Conexão Pedagógica: Este título pode ser ancorado à Pedagogia dos Valores Humanos ao promover o amor, o respeito, a gratidão e a solidariedade. A prática da paz aqui é fundamentada na ética do cuidado, onde o valor do ser humano não é ditado por padrões sociais fixos, mas pela qualidade da presença e do afeto.
Proposição Didática: Realizar uma dinâmica de compartilhamento de vivências familiares, incentivando os alunos a identificar características únicas em seus cuidadores. A questão norteadora foca em como a diversidade de perfis enriquece o ecossistema afetivo da criança.
1º momento: Após a leitura compartilhada, as crianças serão convidadas a participar de uma roda de conversa com foco nos valores de amizade, respeito e gratidão. O professor provocará a reflexão sobre quem são as figuras de referência na vida dos alunos e quais sentimentos essas pessoas despertam, incentivando o uso de palavras-chave como "cuidado", "ajuda" e "carinho".
2º momento: Utilizando do recurso “revistas e materiais impressos”, os alunos realizarão o recorte de figuras que simbolizem, de forma direta ou metafórica, a pessoa com quem possuem um forte vínculo afetivo ou as características que admiram em um amigo. Esta etapa exercita a percepção estética e a capacidade de associação entre imagem e sentimento.
3º momento: Individualmente, cada criança apresentará sua escolha ao grupo, justificando por que aquela figura representa seu vínculo escolhido. Em seguida, a imagem será colada em um painel coletivo de exposição, acompanhada de uma palavra ou legenda escrita pela própria criança ou via escrita espontânea.
Objetivo Pedagógico: Promover o reconhecimento e a valorização dos vínculos afetivos e das virtudes, como a gratidão, o respeito e a solidariedade, a partir da desconstrução de estereótipos sociais. A atividade tem como objetivo capacitar a criança a reconhecer e manifestar sentimentos de cuidado e estima pelo outro, consolidando a ética do afeto como base das relações humanas. Por meio da articulação entre imagem, palavra e narrativa pessoal, busca fortalecer a autoestima do aluno e sua percepção sobre a diversidade dos modelos familiares e de amizade, estabelecendo o respeito mútuo como pilar fundamental para uma convivência pacífica e harmoniosa.
Análise Teórico-Pedagógica da Intervenção: a proposta pedagógica pode se mostrar eficaz na medida em que estabelece uma articulação direta entre a narrativa da obra e as experiências vividas pelas crianças no contexto da atividade. Ao apresentar, por meio da literatura, diferentes formas de ser, conviver e expressar afeto, a história cria um repertório simbólico que é retomado e ressignificado na roda de conversa e na construção do painel afetivo. Nesse processo, as crianças não apenas escutam a história, mas são convidadas a relacioná-la com suas próprias vivências, nomeando sentimentos, reconhecendo vínculos e atribuindo sentido às suas experiências. A atividade de recorte, colagem e apresentação oral funciona como mediação concreta desse processo, permitindo que valores humanos como respeito, amor, gratidão e solidariedade sejam traduzidos em imagens, palavras e narrativas pessoais. Nesse contexto, a proposta operacionaliza o conceito de ética do cuidado, ao promover o reconhecimento do outro como sujeito digno de atenção, afeto e consideração, deslocando a centralidade de padrões normativos para a valorização das relações. Ao evidenciar a diversidade de vínculos familiares e formas de amizade presentes no grupo, a prática contribui para o enfrentamento da violência simbólica e cultural, especialmente aquela expressa por meio de exclusões, estigmatizações e deslegitimação de experiências que não correspondem a modelos hegemônicos. Assim, ao integrar literatura, expressão estética e fala, a intervenção não apenas desenvolve competências socioemocionais, mas também consolida os valores humanos como fundamento das relações, atuando na prevenção de dinâmicas excludentes e fortalecendo uma cultura de convivência pautada no respeito mútuo.
2.5.2. Pedagogia dos Direitos Humanos sob a ótica da Obra: Malala, a menina que queria ir para a escola, de Adriana Carranca
Os Direitos Humanos foram desenvolvendo seu conceito no decorrer dos séculos, desde a Revolução Francesa, em 1789, ganhando contornos organizacionais a partir de 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, buscando embasar uma sociedade livre, igual e fraterna. (SALLES FILHO, 2019, p.266)
Em nível de conexão com a educação para a paz, ela é tida como essencial, já que “a pedagogia a que nos referimos são os processos pedagógicos que contribuem para o entendimento básico das questões relacionadas aos temas das cinco pedagogias da paz.” (SALLES FILHO, 2019, p.275 e 276)
Resumo e Análise: A obra adapta a história real de Malala Yousafzai, uma jovem paquistanesa que enfrentou proibições severas para exercer seu desejo de estudar. A narrativa destaca não apenas a resistência individual, mas a luta coletiva pelo acesso à educação, evidenciando como o conhecimento é uma ferramenta de emancipação e cidadania.
Conexão Pedagógica: Esta obra pode se tornar um pilar para a Pedagogia dos Direitos Humanos ao ilustrar que o acesso à escola não é um privilégio, mas um direito. Na Educação Infantil, a história de Malala permite trabalhar a noção de dignidade e justiça social, ensinando que toda criança independentemente de gênero, raça, origem ou crença possui direitos fundamentais que devem ser protegidos e respeitados por toda a sociedade.
Proposição Didática: Análise coletiva do painel de direitos básicos das crianças, a intervenção será estruturada de forma dialógica e visual, seguindo os momentos abaixo:
1º momento: Após a leitura da obra, o professor apresentará um Painel dos direitos básicos das crianças, previamente confeccionado com ilustrações claras e lúdicas representando direitos como educação, saúde, lazer, proteção e alimentação.
2º momento: Organizados em roda, alunos e professor farão uma análise minuciosa de cada item do painel. O docente provocará a turma com perguntas mediadoras: "Por que a Malala precisou lutar para ter o que está nesse painel?" e "Como nos sentimos quando nossos direitos são respeitados?".
3º momento: As crianças serão incentivadas a identificar no painel quais direitos elas exercem no cotidiano da escola, estabelecendo uma ponte direta entre a história lida e a realidade vivida por elas.
Objetivo Pedagógico: Promover o letramento em direitos humanos desde a infância, capacitando os alunos a reconhecerem a si mesmos e aos colegas como sujeitos de direitos, fortalecendo a consciência crítica e o respeito à dignidade humana.
Análise Teórico-Pedagógica da Intervenção: a proposta pedagógica mostra-se eficaz ao articular a narrativa da obra, com a construção concreta do painel de direitos, possibilitando que as crianças transitem do plano da história para a compreensão de sua própria realidade. Ao apresentar a trajetória de Malala Yousafzai, a narrativa introduz, de forma acessível, a noção de que o acesso à educação está inserido em um campo de disputas e desigualdades, criando um repertório inicial que é retomado e problematizado na atividade coletiva. A mediação realizada por meio do painel visual e das perguntas orientadoras permite que conceitos abstratos, como direito, justiça e dignidade, sejam traduzidos em elementos concretos e reconhecíveis no cotidiano infantil. Nesse contexto, a proposta operacionaliza o conceito de sujeito de direitos, ao possibilitar que a criança se reconheça como portadora de direitos fundamentais e, simultaneamente, reconheça o outro nessa mesma condição, deslocando a compreensão de direitos como concessão para a ideia de garantia. Ao estabelecer relações entre a experiência de Malala e a vivência escolar das crianças, a prática contribui para o enfrentamento da violência estrutural e cultural, evidenciada nas desigualdades de acesso a direitos básicos e na naturalização dessas assimetrias. Assim, ao integrar literatura, mediação dialógica e representação visual, a intervenção promove o letramento em direitos humanos desde a infância, fortalecendo a consciência crítica e a construção de relações mais justas e equitativas no ambiente escolar.
2.5.3. Pedagogia da Conflitologia sob a ótica da Obra: As Bonecas Negras de Lara, de Aparecida de Jesus Ferreira
Comumente, os conflitos são tidos como situações negativas, que podem causar ações violentas, entretanto, para a presente pedagogia, o ponto central é a perspectiva dialógica que acolhe a contradição pelo ponto de vista da possibilidade de entendimento e pacificação, apesar da complexidade (SALLES FILHO, 2019, p.290 a 294)
Nesse sentido, é possível compreender o conflito em sua forma positiva já que, o ponto central aqui tratado é a busca do diálogo como elemento primordial de mediação. (SALLES FILHO, 2019, p.309)
Resumo e Análise: A narrativa apresenta Lara, uma menina negra que ao procurar bonecas que se pareçam com ela, depara-se com a ausência de representatividade nos espaços vividos. A obra aborda o conflito interno e social gerado pelo preconceito e pela exclusão, culminando na afirmação da identidade e na valorização estética da negritude através do apoio familiar e da resistência afirmativa.
Conexão Pedagógica: Esta obra pode ser considerada fundamental para a Pedagogia da Conflitologia pois evidencia que o conflito nem sempre é físico, mas pode ser simbólico e estrutural também. A história de Lara ensina que o conflito nasce da desigualdade e da invisibilidade. A paz, sob esta ótica, não é a ausência de problemas, mas a capacidade de enfrentar e transformar situações de injustiça. A mediação ocorre pelo fortalecimento da autoestima e pelo reconhecimento das raízes, oferecendo ferramentas para que a criança transforme a tensão da exclusão em potência de afirmação.
Proposição Didática: Oficina de Bonecas Abayomi, tecendo a Paz e a Identidade A intervenção será estruturada de maneira prática e simbólica, utilizando a técnica de nós e amarrações, sem o uso de costura:
1º momento: Após a leitura, o professor introduzirá a história das Bonecas Abayomi (termo iorubá que significa "encontro precioso") e discutirá como essas bonecas surgiram, citando um contexto de profundo conflito (a escravidão) como uma forma de resistência e carinho, conectando com o desejo de Lara de se ver representada.
2º momento: As crianças receberão retalhos de malha preta e tecidos coloridos. Sob orientação do professor, cada criança criará sua própria boneca apenas com dobras e nós. Durante o processo, o professor mediará conversas sobre como pequenos gestos e o reconhecimento das nossas origens ajudam a "desatar os nós" dos conflitos do dia a dia, como o preconceito e a exclusão. 3º momento: Após a confecção, cada criança escolherá uma palavra de afeto como, (carinho, amizade, respeito ou amor) para acompanhar sua boneca. As produções serão organizadas em um varal ou painel de exposição na sala. Ao pendurar sua boneca, a criança apenas compartilhará com o grupo a palavra escolhida, selando o compromisso de manter um ambiente escolar acolhedor e livre de preconceitos.
Objetivo Pedagógico: Instrumentalizar as crianças para o reconhecimento do racismo como um gerador de conflitos sociais, promovendo a valorização da identidade negra e a prática da equidade. A atividade visa consolidar a escola como um espaço de garantia de representatividade, onde o respeito às raízes étnico-raciais é a base para a prevenção de violências simbólicas.
Análise Teórico-Pedagógica da Intervenção: A proposta pedagógica mostra-se eficaz ao articular a narrativa da obra, com a experiência concreta da confecção das bonecas Abayomi, possibilitando que o conflito vivido pela personagem seja compreendido, simbolizado e ressignificado pelas crianças. Ao evidenciar a ausência de representatividade e o impacto do preconceito na construção da identidade, a história introduz o conflito em sua dimensão simbólica e estrutural, o qual é retomado na atividade prática por meio da criação manual e da mediação docente. A confecção das bonecas, realizada por meio de nós e amarrações, funciona como uma metáfora pedagógica da própria conflitologia, na medida em que permite à criança elaborar tensões, reconhecer diferenças e transformar experiências de exclusão em produção de sentido e pertencimento. Nesse contexto, a proposta operacionaliza o conceito de conflito como dimensão constitutiva das relações sociais, conforme a perspectiva de Johan Galtung, compreendendo-o não como algo a ser eliminado, mas como um processo passível de mediação e transformação. Ao articular identidade, representatividade e expressão simbólica, a prática contribui para o enfrentamento da violência simbólica, estrutural e cultural associada ao racismo, frequentemente naturalizada no cotidiano escolar por meio da invisibilização e da desvalorização de referências negras. Assim, ao integrar literatura, prática manual e mediação dialógica, a intervenção possibilita que as crianças desenvolvam formas iniciais de lidar com conflitos de maneira não violenta, fortalecendo a autoestima, a consciência identitária e a construção de relações mais equitativas.
2.5.4. Pedagogia da Ecoformação sob a ótica da Obra: Um Sonho Cor de Verde, de Claudio Fragata
Um dos temas prementes na atualidade diz respeito ao meio ambiente e no âmbito da Cultura de Paz não é diferente, por exemplo, como viver em paz em um mundo com risco de ficar sem água potável e com temperaturas cada vez mais altas?
Alertas estão presentes desde as primeiras conferências em 1970, sendo que nas décadas seguintes e até hoje, os avisos crescem e ao mesmo tempo, são ignorados por boa parte do globo terrestre, resultando no “esgotamento dramático dos recursos naturais/energéticos do planeta, diretamente relacionado ao aumento da tecnologia.” (SALLES FILHO, 2019, p.312)
Outra perspectiva incluída na pedagogia em estudo, é a inclusão das conexões entre indivíduo-sociedade-planeta, sendo tratadas no campo da transdisciplinaridade. Quando se fala em indivíduo, surge a questão da paz interior aliada à espiritualidade, não relacionadas a uma ou outra religião, mas ao Sagrado, à natureza, ao modo de viver. (SALLES FILHO, 2019, p.315-318)
Resumo e Análise: Através de uma narrativa poética, o livro contrasta o cinza do concreto urbano com o desejo de uma criança de ver a natureza florescer novamente. É um convite à sensibilidade ecológica e ao despertar da consciência planetária.
Conexão Pedagógica: Representa a Pedagogia da Ecoformação, que entende a paz como um estado de equilíbrio entre o ser humano e o meio ambiente (Oikos). A obra propõe que a formação do indivíduo deve contemplar a responsabilidade ética com a sustentabilidade, entendendo que a violência ambiental é também uma barreira para a paz social.
Proposição Didática: Realizar uma oficina de coleta seletiva, a atividade será dividida em etapas de engajamento familiar e execução prática na escola:
1º momento: Antes da aplicação da dinâmica, será solicitado que os alunos tragam de casa resíduos recicláveis higienizados (papel, plástico, metal). Essa etapa inicial visa estender a discussão ambiental para o núcleo familiar, conectando a escola e a comunidade também.
2º momento: Após a leitura e debate sobre o contraste entre o "cinza" e o "verde" apresentado no livro, as crianças participarão da confecção e personalização de latas ou caixas para a coleta seletiva. Utilizando as cores universais da reciclagem, os alunos identificarão cada recipiente.
3º momento: Em posse dos resíduos trazidos de casa, os alunos realizarão a classificação e o descarte correto nos coletores confeccionados. O professor mediará o momento explicando o destino de cada material e como essa pequena ação contribui para a redução da poluição e a promoção da paz ambiental.
Objetivo Pedagógico: Despertar a consciência ecológica e a responsabilidade socioambiental por meio de práticas concretas de sustentabilidade. A atividade busca sensibilizar o aluno para a interdependência entre os seres vivos e o meio ambiente, incentivando o hábito do descarte correto e da reciclagem como atos de cidadania. Ao transformar a teoria em prática coletiva, temos como objetivo formar sujeitos comprometidos com a preservação do ecossistema, compreendendo que o cuidado com o planeta é condição fundamental para a manutenção da paz e do bem-estar global.
Análise Teórico-Pedagógica da Intervenção: a proposta pedagógica mostra-se eficaz ao articular a dimensão simbólica da obra, com práticas concretas de intervenção no cotidiano das crianças, possibilitando a transição do imaginário ecológico para a ação responsável. Ao apresentar, por meio da narrativa, o contraste entre o ambiente urbano degradado e o desejo de regeneração da natureza, a obra constrói um repertório sensível que é retomado e ressignificado na atividade de coleta seletiva. A participação das famílias no envio de resíduos, seguida da confecção dos coletores e da classificação dos materiais, constitui uma mediação prática que permite à criança compreender, de forma concreta, os impactos de suas ações no meio ambiente. Nesse contexto, a proposta operacionaliza o conceito de interdependência entre ser humano e natureza, central na pedagogia da ecoformação, ao evidenciar que o equilíbrio ambiental depende de práticas cotidianas e coletivas. Ao transformar o cuidado com o ambiente em experiência vivida, a atividade desloca a aprendizagem de um plano abstrato para uma dimensão ética e relacional. Dessa forma, a intervenção contribui para o enfrentamento da violência ambiental e cultural, compreendida como a degradação dos ecossistemas e a naturalização de práticas insustentáveis no cotidiano social. Assim, ao integrar literatura, ação prática e participação comunitária, a proposta promove a construção de uma consciência ecológica desde a infância, fortalecendo atitudes de responsabilidade socioambiental e a compreensão de que a paz também se estabelece na relação equilibrada entre sociedade e natureza.
2.5.5. Pedagogia das Vivências e Convivências sob a ótica da Obra: O Gigante que não usava gravata-borboleta, de Milton Célio de Oliveira Filho e Theo de Oliveira
Em sua obra, Cultura de Paz e Educação para a Paz: Olhares a partir da Complexidade, Salles Filho (2019, p.338) aponta que, apesar da facilidade tratar dessa pedagogia requerer profundidade. “Basicamente, entendemos que vivências são as inúmeras experiências humanas dos indivíduos e convivências, a ênfase dessas experiências com os outros.
O autor ainda explicita que, a referida pedagogia tem um duplo aspecto na educação para a paz que são o corpo e a ludicidade. (SALLES FILHO, 2019, p.351)
Resumo e Análise: A história foca em um gigante que recusa seguir o padrão de vestimenta de sua sociedade. A trama explora a tensão entre o desejo de autenticidade individual e as expectativas do coletivo.
Conexão Pedagógica: Inserido na Pedagogia das Vivências/Convivências, o livro trabalha o "aprender a viver juntos". A paz na convivência é apresentada não como uniformidade, mas como a capacidade do grupo de acolher a singularidade. O gigante testa a qualidade democrática de seu meio social: a paz só existe onde há liberdade para ser autêntico.
Proposição Didática: O mural dos gigantes e o desenho coletivo e colagem. A intervenção busca registrar a presença de cada criança e a força da união do grupo através de etapas visuais e colaborativas:
1º momento: Após o debate sobre a importância de respeitarmos as escolhas e o "jeito de ser" de cada colega, o professor realizará registros fotográficos individuais de cada criança em um momento de expressão livre. Essas fotos serão a base para a montagem de um painel central da sala de aula com a frase norteadora: "Nesta sala, cabem todos os tamanhos de sonhos e todos os jeitos de ser gigante". O objetivo é que cada aluno se veja reconhecido e pertencente ao espaço educativo.
2º momento: Em uma grande folha de papel estendida no chão ou na parede, as crianças serão convidadas a realizar um desenho coletivo do gigante pensando nas imagens visualizadas do livro e colagem de materiais diversos para personalizarem esse gigante, assim o professor disponibilizará materiais como por exemplo (botões, lã, raspa de lápis de cor, retalhos de tecido) para que possam compor a imagem. Diferente de uma produção individual, esta atividade exige negociação, compartilhamento de espaço e materiais, e a integração de diferentes traços em uma única obra. O professor atuará como mediador das interações, observando como a turma se organiza para criar algo comum a partir de suas subjetividades.
Objetivo Pedagógico: Fortalecer o sentimento de pertencimento e a construção da alteridade no cotidiano escolar. Ao unir o registro fotográfico (individualidade) ao desenho coletivo (coletividade), a atividade materializa a premissa de que uma cultura de paz se sustenta no respeito às singularidades e na cooperação, permitindo que cada criança exerça seu direito de ser "gigante" à sua maneira.
Análise Teórico-Pedagógica da Intervenção: a proposta pedagógica mostra-se eficaz ao articular a narrativa da obra, com experiências concretas de expressão individual e construção coletiva no contexto da sala de aula. Ao problematizar, por meio da história, a tensão entre autenticidade e normas sociais, a obra cria um repertório simbólico que é retomado nas atividades de registro fotográfico e produção artística coletiva. O momento inicial, ao valorizar a expressão livre e a imagem de cada criança, fortalece o reconhecimento da individualidade, enquanto a construção do desenho coletivo do gigante exige negociação, cooperação e integração de diferentes perspectivas. Essa articulação entre o “eu” e o “nós” funciona como mediação concreta da convivência, permitindo que as crianças experienciem, na prática, os desafios e as possibilidades de viver em grupo. Nesse contexto, a proposta operacionaliza os conceitos de alteridade e convivência democrática, ao promover o reconhecimento do outro em sua singularidade e a construção de acordos no espaço coletivo. Ao exigir interação, partilha e resolução de pequenas tensões no processo criativo, a atividade contribui para o enfrentamento da violência relacional e simbólica, frequentemente manifestada por meio de exclusões, dificuldades de cooperação e negação das diferenças no cotidiano escolar. Assim, ao integrar literatura, expressão artística e mediação das interações, a intervenção fortalece o sentimento de pertencimento e a capacidade de convivência, evidenciando que a cultura de paz se constrói na articulação entre respeito às singularidades e compromisso com o coletivo.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As análises desenvolvidas evidenciam que as violências relacionais na educação infantil não podem ser naturalizadas como parte do desenvolvimento, mas devem ser compreendidas como expressões de dinâmicas sociais que atravessam o cotidiano escolar. Nesse contexto, a escola se configura como espaço privilegiado de mediação e transformação, desde que orientada por práticas pedagógicas intencionais e fundamentadas.
A articulação entre literatura infantil, práticas lúdicas e mediação docente demonstrou-se eficaz na tradução de conceitos complexos da Educação para a Paz em experiências acessíveis à primeira infância. Ao integrar valores humanos, direitos, mediação de conflitos, consciência ecológica e convivência democrática, a proposta evidencia que a cultura de paz pode ser construída de forma concreta desde os primeiros anos de vida.
Destaca-se, nesse processo, a relevância da elaboração de um plano de aula estruturado como instrumento pedagógico que viabiliza a transposição didática desses referenciais teóricos. Ao organizar intencionalmente objetivos, práticas e momentos de mediação, o plano de aula contribui para a sistematização de intervenções que, de outro modo, tenderiam a ocorrer de forma pontual ou assistemática no cotidiano escolar.
Em consonância com as reflexões de Salles Filho, as Cinco Pedagogias da Paz revelam-se dimensões interdependentes de um processo formativo que compreende a paz como construção ativa, relacional e contínua. Nessa perspectiva, dialoga-se também com Freire, ao compreender a educação como prática dialógica e transformadora, na qual o enfrentamento das violências passa pela problematização das relações e pela formação de sujeitos críticos.
A proposta apresentada alinha-se às diretrizes da BNCC, das Diretrizes Curriculares Nacionais e do Plano Nacional de Educação, ao promover direitos de aprendizagem, a convivência democrática e a formação integral. Assim, reforça-se o potencial da educação infantil como espaço estratégico para a construção de relações mais justas, empáticas e sustentáveis, contribuindo para a consolidação de uma cultura de paz desde a primeira infância.
Desse modo, mais do que uma proposta metodológica, este trabalho reafirma a educação infantil como território político de construção da paz, onde intervir nas relações desde cedo significa transformar, em sua raiz, as formas de convivência social.
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1 Mestranda no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual de Ponta Grossa-PR. Pedagoga. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Graduada em Farmácia, discente do Programa de Pós graduação em Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual de Ponta Grossa formação: UEPG. Endereço: Ponta Grossa, Paraná, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual de Ponta Grossa-PR. Advogada. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Licenciado e Graduado em Educação Física. Doutor em Educação. Professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Instituição de formação: UEPG. Endereço: Ponta Grossa, Paraná, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
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