REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779585644
RESUMO
Esta revisão traça uma aproximação entre a teoria psicanalítica das orientações de caráter de Erich Fromm e as intervenções com forças de caráter da Psicologia Positiva de Martin Seligman. Ambas as vertentes convergem ao buscar “o melhor da experiência humana” através do caráter produtivo e do florescimento. Enquanto Fromm substitui a regulação instintiva por uma estrutura adaptativa sociobiológica, Seligman propõe modelos de medição fidedignos para identificar potencialidades. O estudo demonstra que os aspectos positivos das orientações não produtivas se assemelham às forças de caráter. Na prática clínica, a integração dessas abordagens permite que o terapeuta vá além do “rótulo” diagnóstico, promovendo o “encontro direto” e a conscientização de forças dissociadas ou inconscientes. Conclui-se que o caráter é a ferramenta de resposta rápida aos desafios ambientais, e sua orientação para a produtividade possibilita a transição do “ter” para o “ser”. A responsabilidade individual na tomada de decisão é o ponto central que une a ética aristotélica, a Psicanálise frommiana e a psicoterapia positiva na busca pela “arte de viver”.
Palavras-chave: Caráter Produtivo; Psicologia Positiva; Clínica Sociobiológica; Florescimento; Arte de Viver.
ABSTRACT
This review establishes an approximation between Erich Fromm's psychoanalytic theory of character orientations and Martin Seligman's character strengths interventions in Positive Psychology. Both perspectives converge in seeking “the best of human experience” through productive character and flourishing. While Fromm replaces instinctive regulation with a sociobiological adaptive structure, Seligman proposes reliable measurement models to identify potentialities. The study demonstrates that the positive aspects of non-productive orientations resemble character strengths. In clinical practice, integrating these approaches allows the therapist to go beyond diagnostic “labels,” promoting the “direct encounter” and the awareness of dissociated or unconscious strengths. It is concluded that character is the tool for rapid response to environmental challenges, and its orientation toward productivity enables the transition from “having” to “being”. Individual responsibility in decision-making is the central point that unites Aristotelian ethics, Frommian psychoanalysis, and positive psychotherapy in the pursuit of the “art of living”.
Keywords: Productive Character; Positive Psychology; Sociobiological Clinic; Flourishing; Art of Living.
1. INTRODUÇÃO
Tanto a clínica das orientações de caráter (Funk, 2020) quanto as intervenções com forças de caráter (Niemiec, 2019) buscam colocar em curso o melhor da experiência humana. Para Fromm, esse “melhor” corresponderia à biofilia ou ao amor à vida, caracterizado pela tendência ao crescimento, à razão, ao amor produtivo e às realizações (Funk, 2021). Para Seligman (2018), esse potencial manifesta-se por meio das emoções positivas, do engajamento, dos relacionamentos positivos, do sentido e da realização.
Erich Fromm (1947) debruçou-se sobre a tendência primária de crescimento, denominada caráter produtivo (pró-ducere ou levar adiante) (Funk, 2020). Por sua vez, Seligman (2018) incumbiu-se de estudar as forças e virtudes de caráter que possibilitam a transformação das pessoas naquilo que podem ser, trazendo à pauta o caráter positivo. Esta revisão tem por objetivo traçar uma aproximação entre a teoria psicanalítica dos aspectos positivos das orientações de caráter (caráter produtivo) e as intervenções com forças de caráter (caráter positivo).
Ao propor essa aproximação, discute-se a importância terapêutica da clínica das orientações e das intervenções com forças de caráter. A fundamentação pauta-se nas contribuições teóricas e práticas de Erich Fromm (1941, 1947, 1955) e nas perspectivas da Psicologia Positiva desenvolvidas por Peterson e Seligman (2004), Seligman (2018) e Niemiec (2019). Considerando que essa correlação ainda não foi explorada na literatura, o presente estudo propõe traçar um paralelo inédito entre as duas vertentes.
Portanto, este artigo visa contribuir para a discussão sobre a viabilidade de um atendimento clínico integrado que articule as orientações e as forças de caráter. Essa integração se justifica pelo fato de que ambas as abordagens compartilham uma premissa terapêutica voltada ao desenvolvimento do potencial humano: enquanto a clínica de Fromm foca na ativação do caráter produtivo e da biofilia, as intervenções baseadas nas forças de caráter propostas por Seligman fornecem ferramentas práticas para a expressão das virtudes e do funcionamento ótimo. Desse modo, observa-se que tanto a Psicanálise Humanista quanto a Psicologia Positiva convergem para um horizonte comum, estabelecendo uma práxis clínica cujo cerne é capacitar o indivíduo a experimentar o melhor da arte de viver
2. REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Diferenças e Aproximações Entre Orientações e Forças de Caráter
Erich Fromm ficou conhecido por sua teoria social na Psicanálise (Funk, 2009). Nesta perspectiva, o autor discutiu a patologia da normalidade e o humanismo crítico e radical (Maciel, 2020; Löwy; Sudatti, 2019). Fromm propunha uma sociedade baseada na compreensão de uma consciência humanista, esclarecendo que não se trata de uma “[...] voz interiorizada de uma autoridade a que estejamos ansiosos por agradar e receosos de desagradar; é nossa própria voz, presente em todo o ser humano e independente de sanção ou recompensas externas” (Fromm, 1947, p. 142). Para ele, existiam duas formas de apresentação do caráter: o social e o individual.
Por outro lado, Peterson e Seligman (2004) apresentam uma perspectiva teórica distinta, focada nas manifestações positivas do caráter. Para tanto, os autores estruturam uma classificação sistemática que inclui categorizações explícitas de pontos fortes passíveis de replicação por terapeutas treinados. Essa taxonomia estabelece uma contrapartida metodológica ao modelo descritivo tradicional, direcionando o olhar clínico para as potencialidades humanas.
Da mesma forma que é possível diagnosticar o Transtorno do Estresse Pós-Traumático com critérios qualitativos, seria possível verificar o Transtorno do Crescimento Pós-Traumático (Seligman, 2018). Os mesmos critérios usados nesses dois casos poderiam ser utilizados para verificar fatores protetivos nas forças de caráter. A partir disso, Martin Seligman e Christopher Peterson (2004) desenvolveram uma classificação com critérios fidedignos.
A intenção dos autores foi criar modelos de medição que articulassem parâmetros de inclusão e de exclusão capazes de distinguir o que são forças de caráter e o que não são. Essa distinção leva em consideração os pontos fortes valorizados em determinadas culturas, observando aquelas virtudes que se repetem. De acordo com os autores, essas regras deixaram em aberto caminho para que se pudessem adicionar outras instâncias de forças de caráter à classificação.
A diferença entre as abordagens – orientações e forças de caráter – está na forma com que cada uma estrutura sua teoria. Contudo, para ambos, é pelo caráter e suas forças os caminhos por onde as virtudes poderiam se manifestar. Em Fromm (1947), mapeia-se a personalidade pelas orientações de caráter, denominando-as como produtivas ou não produtivas. Em Seligman (2018), indica-se uma terapêutica apoiada no caráter, a partir das forças.
Figura 1: Síntese comparativa entre orientações de caráter e forças de caráter.
Outro ponto de convergência é a natureza relacional do desenvolvimento humano: o indivíduo não é apenas determinado pelo contexto social, mas constitui-se na interação com ele. Ao responder às demandas ambientais, mobiliza suas próprias forças. Assim, a pertença às categorias produtivas ou não produtivas reflete a síntese entre suas possibilidades internas e as exigências da vida em sociedade (Funk, 2013).
O caráter, portanto, é o meio pelo qual se manifestar todo o nosso potencial humano. Fundamentado em Spinoza, Fromm aponta que potência é a preservação da própria existência, quando alguém se torna aquilo que deveria ser (Fromm, 1947). Seligman (2018) chama essa potência de florescimento, perguntando: “Podemos questionar com rigor quanto um indivíduo está florescendo ao longo de sua vida [...] Podemos questionar com rigor se nossos sistemas escolares estão ajudando nossos filhos a florescer” (p. 39).
A potência e o florescimento, ao mesmo tempo em que conferem ao indivíduo a agência sobre suas ações, sinalizam necessidades existenciais exclusivamente humanas (Fromm, 1955). Essa condição singular decorre da percepção de separação em relação à natureza, haja vista que “[...] a tomada de consciência de si – a consciência de consciência –, a imaginação, a previsão e a dúvida” (Fromm, 2013, p. 22) constituem prerrogativas que não se manifestam em nenhum outro animal. Desse modo, essa fratura existencial impõe a necessidade de uma estrutura de orientação que se constrói estritamente na relação com o outro (Funk, 2020), direcionando o sujeito rumo ao desenvolvimento de seu caráter produtivo ou não produtivo.
Diferentemente da abordagem de Fromm, a teoria do bem-estar proposta por Seligman (2018) fundamenta-se na escolha por uma vida orientada pela realização de escolhas livres e autônomas. A esse construto, alinham-se três elementos preliminares da Psicologia Positiva: “[...] emoção positiva, engajamento e sentido” (Seligman, 2018, p. 22). Esses pilares, posteriormente integrados aos relacionamentos positivos, consolidaram o modelo multidimensional PERMA (Bedin; Zamarchi, 2019), o qual operacionaliza as vias para o funcionamento ótimo.
2.2. As Estruturas Sociobiológicas do Caráter e a Clínica de Fromm
A concepção sociobiológica do humano apresenta o problema da sobrevivência: “[...] como o homem, dado seu subequipamento fisiológico e neurofisiológico, e também suas dicotomias existenciais, pode sobreviver física e moralmente?” (Fromm, 2013, p. 23). A resposta é o que ele chamou de mudança “evolucionista”, na qual o instinto deu lugar aos processos de socialização e assimilação por meio dos quais o caráter passou a ser a forma do humano pela qual o ser humano responde aos desafios.
Ao mesmo tempo em que foi um psicanalista social, sua base para a crítica social é oriunda da clínica, como nos lembra Roger Frie (2009, p. vii, tradução nossa): “Na verdade, o que muitas vezes é esquecido é o fato de Fromm ter sido, antes de mais nada, um clínico e ter mantido uma prática ativa por quarenta e cinco anos”. Sua forma de escrita e seu interesse pela política, economia, filosofia, religião e sociedade fezeram com que seus estudos sobre a clínica fossem colocados de lado (Funk, 2009, 2020).
Quando se propôs a escrever suas ideias sobre a clínica, Fromm acabou produzindo outras duas obras. Essas obras deram continuidade ao estudo das estruturas de orientação do caráter social – “Anatomia da destrutividade humana” (1986) e “Ter ou ser?” (1979). A primeira tratou do caráter social com tendências destrutivas, que culminaria, em última análise, naquilo que o autor denominou caráter necrófilo. A segunda, que propunha o novo homem e uma nova sociedade, destacou o papel da evolução do ser humano e o uso das funções superiores.
O autor afirma que a evolução da espécie humana é marcada pela redução da determinação instintiva em paralelo ao desenvolvimento neurológico acentuado. Segundo Fromm (1979), o Homo Sapiens ocupa o ápice de uma linha evolutiva caracterizada pela complexificação da estrutura cerebral, destacando-se o neocórtex – três vezes maior que o de seus antepassados primatas – e a presença de um número excepcional de conexões interneurais. Essa transição biológica desloca o comportamento humano da regulação biológica rígida para uma maior abertura ao potencial de agência e consciência.
Assim sendo, Fromm designou o caráter social como a integração entre o mundo psíquico e as estruturas socioeconômicas (Fromm, 1979). Sua proposta clínica ficou inacabada, mas foi parcialmente recuperada mais tarde, deixando bem-marcada sua abordagem sociobiológica (Fromm, 2013). Sua perspectiva partia daquilo que presenciava na clínica, observando os fenômenos sociais que se apresentavam no adoecimento de seus analisandos (Funk, 2009).
Mesmo que a clínica não se reflita claramente na obra de Fromm, sua prática sempre esteve presente nas teorias que formulou sobre o caráter – individual e social. O autor deixou uma base teórica para uma Psicanálise pós-freudiana, definida como uma abordagem sociobiológica que se diferenciaria das demais correntes neofreudianas e culturalistas.
A orientação freudiana é frequentemente rotulada como biológica, enquanto as vertentes neofreudianas – incluindo as de Sullivan, Horney e o próprio Fromm – são chamadas de culturalistas, sob a premissa de que se oporiam a uma perspectiva biológica. No entanto, Fromm (2013) contesta essa oposição entre biológico e cultural, classificando-a como superficial e errônea em relação à sua própria obra. O autor enfatiza que suas premissas divergem fundamentalmente tanto das correntes clássicas quanto das demais escolas culturalistas, as quais também possuem profundas diferenças entre si.
Diferente da teoria da libido de Freud, a abordagem sociobiológica de Fromm analisa como o ambiente social, cultural e econômico exerce pressões e influencia diretamente o indivíduo. Enquanto a perspectiva freudiana se concentrava no plano intersubjetivo e nas relações familiares – pressupondo que as exigências sociais se adaptam a uma dinâmica pulsional inata e pouco modificável –, Fromm fundamenta sua teoria no aspecto social coletivo e nas forças socioeconômicas da prática da vida. Sob essa ótica, a própria estrutura libidinosa é moldada pelas exigências da realidade prática, distanciando-se de um determinismo puramente instintivo.
A Figura 2 sintetiza a progressão teórica entre a Psicanálise freudiana clássica e a clínica sociobiológica proposta por Fromm, evidenciando a passagem de uma compreensão centrada nas pulsões e na dinâmica intrapsíquica para uma perspectiva fundamentada nas relações sociais, históricas e culturais (Rosa et al., 2024).
Figura 2: Da Psicanálise freudiana à clínica sociobiológica de Fromm
Na dimensão prática, a Psicanálise clínica de orientação frommiana busca, prioritariamente, integrar e trazer à consciência a parte dissociada do analisando. Para alcançar essa autopercepção, o manejo terapêutico ancora-se nos pressupostos metodológicos da Psicanálise clássica. Utilizam-se de ferramentas essenciais como a associação livre, a atenção flutuante, a análise dos mecanismos de defesa, as transferências e a interpretação dos sonhos.
Nesta abordagem, o fazer psicanalítico possui, não fazendo parte de sua prática determinados procedimentos característicos de abordagens condutivistas. Exemplo disso seria um tipo de recenseamento ou pesquisa histórica, voltada ao estudo de roteiros de aprendizagem, bem como a postura de colocar-se como detentor da arte de viver. O psicanalista, neste sentido, não é um consultor em sabedoria.
Por outro lado, Fromm não se limitava a apenas ler o inconsciente, mas buscava também analisar as estruturas de orientação do caráter. Sua escuta possibilita verificar o porquê da tendência a determinados comportamentos, que resultam em condutas disfuncionais. Mesmo realizando a análise das disfunções nos caracteres não produtivos, buscava desenvolver mecanismos de segurança interna. A partir do que chamou vínculo primário – a necessidade de segurança patológica – analisava a supressão, que impedia as vinculações secundárias.
Portanto, o que ensinou em poucos escritos sobre a clínica é que o psicanalista deve buscar ajudar o paciente a compreender sua experiência oculta total. O autor aponta para o potencial daquilo que poderia ter sido deflagrado e que está no discurso do analisando, mas permanece encoberto por camadas de supressão. Nesse sentido, a autenticidade não seria algo dado, mas uma arte que só poderia ser acessada com muito trabalho e a responsabilidade sobre as próprias escolhas – ou seja, os aspectos funcionais das orientações produtivas (Fromm, 2013).
2.3. Teoria Frommiana do Apego e as Orientações do Caráter
A teoria do apego de Bowlby se fundamenta na Psicanálise freudiana e estabelece como condição inicial a relevância dos cuidados básicos na primeiríssima infância. Nessa mesma linha de investigação, situam-se os estudos de Boris Cyrulnik (2009) sobre os impactos neurobiológicos da negligência precoce. Ambos os autores estruturam uma abordagem do apego calcada em bases biopsicossociais, demonstrando como esses vínculos se desenvolvem de forma segura ou ambivalente.
Cyrulnik (2009) observa que o processo de constituição psíquica vincula-se diretamente à capacidade superior de socialização humana. Nesse cenário, a linguagem surge como o eixo central da humanização, dado que a dimensão sensível encontra-se impregnada pela palavra. O autor ilustra essa indissociabilidade ao afirmar: “Os olhos de minh’alma e meu corpo não têm uma diferente linguagem [...] Por isso só pode viver coberto por um manto de palavras” (Cyrulnik, 2009, p. 184). Assim, o apego constitui-se mediante a imersão do bebê na linguagem, matriz em que o sujeito produz e é produzido.
Para Erich Fromm, o desenvolvimento também se articula ao apego inicial, diferenciando-se, contudo, pelo peso atribuído às estruturas sociais nessa dinâmica. O ambiente socioeconômico e cultural atua como o elemento catalisador que determina se as contingências irão liberar o potencial humano latente ou suprimir a capacidade de crescimento. A natureza humana, portanto, fundamenta-se na complexidade da linguagem como principal distinção em relação aos demais animais. Essa habilidade inata desenvolve-se – ou é inibida – estritamente na interação social (Harlow et al., 1978; Spitz, 1979; Teicher, 2002). Para Fromm (1947), tal capacidade compensa a debilidade biológica do recém-nascido, cujo desenvolvimento exige cuidados básicos essenciais desde a gestação até os dois primeiros anos de vida (DOHaD – SAP, 2020).
Diante da ausência de uma competência inata –a regulamentação instintiva –, o ser humano não é mais guiado pelo instinto, mas por uma estrutura psíquica que se constitui em seu lugar: o caráter (Fromm, 2013). Essa formação funciona como uma matriz adaptativa diante das variadas contingências da vida social. Trata-se de uma reação célere que, em um primeiro momento, opera de maneira não deliberativa, garantindo a consistência das ações individuais sem a necessidade de um constante esforço consciente.
A substituição do instinto pelo caráter ocorre em um momento evolutivo no qual a vida em grupo demandou maior complexidade, há cerca de 2,5 milhões de anos (Harari, 2017). Conforme Fromm (1947, p. 63), “O sistema de caráter pode ser considerado um sucedâneo humano para o equipamento instintivo do animal. Uma vez que a energia seja canalizada de certa maneira, a ação se efetua ‘conforme o caráter’”. Nesse período, o gênero Homo já compartilhava estruturas complexas bem definidas, como os cuidados parentais organizados em uma organização social incipiente.
Ao ilustrar o cotidiano na África Oriental há dois milhões de anos, Harari (2017) evidencia que dinâmicas comportamentais familiares – como o zelo materno, a rebeldia juvenil e a busca por status – já estruturam a experiência do gênero Homo. Esse panorama demonstra que, muito antes da sofisticação cultural contemporânea, as interações básicas de cuidado e convivência social já se faziam presentes de forma arcaica. Sob a ótica frommiana, esse cenário primordial reflete os primeiros ensaios de canalização da energia psíquica, sugerindo que o rudimento de um sistema de caráter social começava a se desenhar para responder às demandas da vida comunitária incipiente.
Os modos de estar em pequenas coletividades demandam tempo histórico para se transformar em cultura e, posteriormente, em modelos estruturantes como códigos, normas e linguagem (Santaella, 2011). Há 70 mil anos, com a Revolução Cognitiva (Harari, 2017), o que Fromm (1947, 2013) denominou "estrutura de orientação" consolidou-se como uma resposta adaptativa ao ambiente social. Assim, a hereditariedade e a história confluem para o surgimento do caráter, amparado evolutivamente pela teoria das relações e pela perspectiva frommiana do apego (Funk, 2021). Essa compreensão aproxima-se da perspectiva multidimensional da ansiedade discutida por Rosa (2025), ao evidenciar que os sintomas humanos não decorrem de uma única causa isolada, mas emergem da interação entre fatores ambientais, biológicos, emocionais e relacionais.
A Figura 2.3 sintetiza a relação entre apego, linguagem, socialização e formação do caráter, evidenciando como a perspectiva frommiana aproxima-se das forças de caráter da Psicologia Positiva ao compreender o desenvolvimento humano como um processo relacional e adaptativo.
Figura 3: Teoria frommiana do apego e as orientações do caráter
Essa estrutura de orientação do caráter foi dividida didaticamente entre formas produtivas (ser) e não produtivas (ter). Na clínica, as qualidades particulares de cada orientação nunca se apresentam de forma isolada, mas em composições dinâmicas que revelam uma orientação dominante (Fromm, 1947). Mesmo em um arranjo predominantemente não produtivo, mapeiam-se aspectos positivos que se equivalem às forças de caráter da Psicologia Positiva. Essa análise considera que “[...] o peso respectivo da orientação produtiva e da orientação não produtiva na estrutura de caráter de cada pessoa varia e determina a qualidade das orientações não produtivas” (Fromm, 1947, p. 128).
As primeiras orientações não produtivas elencadas por Fromm foram a autoritária (1941), a receptiva, a exploradora, a acumuladora e a de marketing (1947), às quais se somaram as orientações narcisista (1961) e necrófila (1986). Recentemente, a orientação de ego, conceituada por Rainer Funk (2020, 2021), foi integrada a esse escopo. Embora todas essas orientações sejam classificadas como não produtivas, essas estruturas não constituem, em si, quadros patológicos (Fromm, 1947).
Isso dependerá da dominância que se apresenta como distorções nas inclinações humanas normais e biologicamente necessárias à sobrevivência. Atividades cotidianas como receber suporte alheio, reter recursos, negociar ou responder à autoridade representam funções vitais que operam de maneira integrada na dinâmica da personalidade. Desse modo, o caráter positivo ou negativo dessas orientações não é absoluto, dependendo estritamente do grau de produtividade global que rege a estrutura total do caráter do indivíduo.
Sendo assim, uma orientação de caráter possui em sua composição aspectos negativos ou dissociados que se manifestam qualitativamente como um funcionamento não produtivo (Fromm, 2013). Contudo, a integração consciente dessa parcela oculta permite resgatar a dimensão positiva da estrutura psíquica. Sob essa ótica, constata-se a emersão das forças de caráter latentes no sujeito (Funk, 2020). Nessa direção, Rosa (2025) destaca que a autorregulação envolve processos de autoconhecimento, autorreflexão e domínio emocional, permitindo ao sujeito reorganizar seus comportamentos diante das adversidades.
Essas forças muitas vezes operam em nível inconsciente, configurando o que Niemiec (2019, p. 66) descreve como "desconhecimento geral das forças". Por estarem fora do campo da percepção consciente (Fromm, 2013), tais recursos deixam de ser funcionais no processo de tomada de decisão. Na prática clínica, observa-se que essa dimensão reprimida ou dissociada obstaculiza o crescimento (Funk, 2020) e culmina no não florescimento do indivíduo (Niemiec, 2019).
Quando esses sinais são ressignificados pelos seus aspectos positivos, transformam-se em recursos para a "arte de viver" (Funk, 2020). As forças de caráter despontam como a melhor resposta da natureza humana, consolidando o caráter positivo (Seligman, 2018) ou a orientação produtiva (Fromm, 1947). Entretanto, esse encontro teórico exige uma ressalva: para Fromm, o caráter social vincula-se à psicologia dos grupos e ao "narcisismo de grupo" (1963, p. 40). Embora o autor parta do ambiente social, a responsabilidade ética recai sempre sobre o indivíduo e sua experiência existencial.
No que tange à dimensão social do sujeito, Fromm (1955) diferencia o isolamento (não produtivo) da individualidade (produtivo). A orientação narcísica do caráter individual exemplifica esse isolamento, consistindo em uma tentativa arcaica de validar uma realidade puramente solipsista. Segundo Rainer Funk (2020), essas características marcam fenômenos políticos contemporâneos globais.
Sobre o isolamento e o narcisismo, Fromm (1963) pontua que isso corresponderia a uma forma de loucura, uma vida em que não se pode ser autêntico. Mesmo que essa alternativa seja uma tentativa de resolver os problemas existenciais, seria uma não existência. Esta automatização da vida toma conta da vida das pessoas com orientações não produtivas, levando-as à exploração de si mesmas e da anulação da própria existência.
No caso específico do narcisismo patológico, Fromm destaca que, quanto mais o indivíduo quer ser Deus, mais se isola na própria loucura. Isola-se das próprias forças e passa a existir por meio de uma ansiedade patológica, a qual transfere como poder e crueldade alinhados ao seu narcisismo. Essas fantasias e ficções manifestam-se na realidade, e o adoecimento progressivamente o isola por meio de traços persecutórios que acabam por se concretizar.
Por outro lado, o indivíduo saudável compreende as limitações das próprias forças; contudo, isso o torna autêntico, permitindo-lhe superar os limites impostos pela realidade. Essa descoberta das próprias forças enquadra-se na arte de viver de Fromm, que insiste que a vida é uma forma de artesanato, e não uma produção industrial. A arte de viver aproxima-se mais do trabalho do artesão que esculpe do que com uma linha de montagem que reproduz.
Embora as duas vertentes apresentem divergências epistemológicas, convergem ao atribuir ao indivíduo a responsabilidade sobre suas decisões. Adicionalmente, os aspectos positivos das orientações de caráter assemelham-se diretamente às forças de caráter propostas pelo inventário Values in Action (VIA). É válido ressaltar que Seligman não descarta o ambiente, afirmando que “[...] o mundo pode ser melhorado não apenas pela anulação das circunstâncias ruins [...], mas também identificando e depois moldando o caráter, tanto o bom quanto o mau” (Seligman, 2018, p. 120).
Talvez o distanciamento seja apenas pela via da análise proposta pelas duas teorias. Quando Fromm faz a leitura das características não produtivas em seus analisandos, sua intenção é observar o que está impedindo a “Síndrome do Crescimento”. Para o autor, o natural é crescer, e isso pode ser percebido em toda a natureza; contudo, a interrupção desse processo reside em algum elemento que o está bloqueando.
Quanto à análise feita por Seligman, trata-se de focar naquilo que é o melhor do humano e tentar replicar. Sua intenção não está em estudar as patologias e tentar curá-las, mas sim em proporcionar uma terapêutica que vise aos recursos protetivos de cada cultura e que possam ser utilizados pelo indivíduo. Nesse sentido, a crítica de que a Psicologia Positiva não trata realmente do problema do adoecimento psíquico é superficial, já que seu objetivo é realmente propor aquilo que é saudável em determinada sociedade.
Outra crítica comum a ambas as teorias refere-se ao suposto endosso à cultura do individualismo. Tal objeção revela desconhecimento tanto da Psicanálise Humanista – cuja leitura do inconsciente social e da patologia da normalidade demonstra a pressão da estrutura sobre o sujeito – quanto das pesquisas em Psicologia Positiva, como exemplifica Seligman (2018) ao abordar a Revolta de Haymarket.
Ao mencionar o levante da Praça Haymarket (Chicago, 1886), Seligman (2018) observa que as ciências sociais passaram a priorizar o determinismo ambiental em detrimento da agência individual, salientando que uma ação coletiva violenta não anula a singularidade ética. Nesse ponto, o isolamento em Fromm e a agência em Seligman convergem: o ato permanece como responsabilidade subjetiva, decorrente de um "mau caráter" (Seligman, 2018) ou de uma orientação necrófila e não produtiva (Fromm, 1987).
Sendo assim, o que os afasta não reside no peso dado ao aspecto cultural ou individual na formação do caráter. Tampouco se trata da adaptabilidade deste frente ao meio, mas sim do contexto histórico e de análise a partir do qual as duas teorias foram construídas. Fromm testemunhou duas grandes guerras mundiais, cujos impactos humanitários e pessoais marcaram indelevelmente sua obra (Funk, 2020).
Por outro lado, Seligman estruturou seu perfil na tradição acadêmica norte-americana, marcado por investigações experimentais e institucionais. Sua trajetória foi balizada por dois eixos centrais: as rigorosas pesquisas de laboratório que culminaram no conceito de desamparo aprendido e a impactante experiência de ter se internado como pseudopaciente em um hospital psiquiátrico. Enquanto a vivência em confinamento expôs a desumanização e os limites do modelo estritamente patológico da psiquiatria tradicional, os testes controlados evidenciaram como o ambiente pode induzir a passividade.
Enquanto Fromm foi direcionando seu olhar clínico e teórico para os mecanismos de alienação, o medo da liberdade e a sedução das massas pela barbárie global; Seligman rejeitou o foco exclusivo no adoecimento, voltando suas lentes para a urgência de mapear, validar e replicar as forças e os recursos saudáveis do indivíduo para o florescimento. Seligman (2018) e Fromm (2013) coincidem ao afirmar que é pelo caráter que o sujeito evoca a resposta mais adequada ante as demandas adaptativas cotidianas extremas.
Quando comparamos as orientações de caráter e as forças de caráter, como demonstra o quadro 1 abaixo, podemos ver que existem mais aproximações que distanciamentos. Para Seligman, o caráter é operacionalizado por forças que se traduzem em ações práticas. E, para Fromm, é uma arte que se constrói no contato com a realidade social, econômica e histórica. Para a Psicologia Positiva a perseverança, por exemplo, requer autodisciplina, descrita como o “traço de caráter que engendra a prática deliberada” (Seligman, 2018, p. 130). Para a Psicanálise Humanista uma orientação exploradora, por exemplo, quando se manifesta pela dominância dos aspectos positivos, se expressa de forma ativa, proativa e autoconfiante (Fromm, 1947).
Quadro 1: Quadro comparativo entre Orientações do Caráter Social e Forças de Caráter
ORIENTAÇÃO PRODUTIVA DO CARÁTER NA ORIENTAÇÃO RECEPTIVA (aceitar) | |
ASPECTOS POSITIVOS (FROMM, 1947) | FORÇAS DE CARÁTER (NIEMIEC, 2019) |
Compreensivo | Perdão |
Responsivo | Bondade |
Devotado | Trabalho em equipe |
Modesto | Humildade |
Encantador | Honestidade |
Adaptável | Inteligência Social |
Socialmente ajustado | Prudência |
Idealista | Esperança |
Sensível | Apreciação da Beleza |
Educado | Amor ao Aprendizado |
Otimista | Esperança |
Confiante | Entusiasmo |
Afetuoso | Amor |
Fonte: Adaptado de Fromm (1947) e Niemiec (2019).
Como vimos anteriormente, a formação do caráter constitui uma expressão das formas de apego. Cada manifestação caracterológica organiza-se em conformidade com estruturas internas que buscam posicionar o sujeito de maneira legítima diante da própria existência. Mesmo quando assume contornos disfuncionais, trata-se ainda de uma tentativa de continuidade do desenvolvimento psíquico, embora marcada pela limitação ou fragilidade de suas próprias forças constitutivas.
Em contrapartida, nas orientações de caráter, em seus aspectos positivos, encontram-se forças capazes de responder de maneira funcional às demandas sociais. Essas forças configuram traços protetivos que sustentam o curso das orientações produtivas e favorecem processos de realização humana. Assim, se as forças de caráter podem ser compreendidas como características protetivas, a orientação produtiva representa a expressão dessas potencialidades manifestadas no e pelo florescimento.
Desse modo, a aproximação entre a Psicanálise Humanista de Fromm e a Psicologia Positiva não reside apenas em uma convergência terminológica entre orientações produtivas e forças de caráter; mas na compreensão comum de que o desenvolvimento humano depende da capacidade de transformar as contingências da existência em possibilidades de crescimento. Se, para Fromm, o caráter constitui a principal mediação entre o sujeito e o mundo social, para a Psicologia Positiva as forças de caráter representam os recursos pelos quais essa mediação pode se expressar de forma saudável. Assim, o florescimento humano emerge não como negação do sofrimento, mas como a integração consciente das potencialidades que sustentam a arte de viver.
2.4. As Intervenções com Forças de Caráter e a Clínica das Orientações
Niemiec, na abertura de sua obra “Intervenções com Forças de Caráter: um guia de campo para praticantes”, alerta para o fato de que “[...] a ciência avança devagar, enquanto a prática move-se rapidamente” (2019, p. 25). Essa constatação sobre o progresso científico não deve ser confundida com negligência ou anticientificismo; contudo, ela evidencia o hiato existente entre o que se pesquisa e o que se pratica.
A clínica é uma arte e, como tal, envolve uma técnica que precisa ser estudada, treinada e praticada (Funk, 2020). Embora a prática em si não seja uma forma científica estrita, seu aperfeiçoamento busca, na pesquisa e nos aportes teóricos, o lastro para validar, produzir ou refutar abordagens. Nesse sentido, o fazer clínico constitui sempre um espaço de descoberta e de atualização permanente do saber teórico-prático.
No cenário ideal, os achados científicos seriam imediatamente publicados e aplicados, mas a realidade exige o respeito ao tempo de elaboração da pesquisa. Como solução, Niemiec (2019, p. 27) aponta que “[...] é necessária uma ponte no campo da ciência do caráter”. Para que essa ciência se desdobre em uma prática efetiva, torna-se indispensável a replicabilidade do método por meio de técnicas bem definidas.
Ao trabalharmos com as orientações e forças, mesmo diante de uma dominância de caráter evidente, as variações e influências dos demais traços tornam cada caso particular. A generalização é complexa; supor que um formato padrão possa ser replicado sem considerar as variações de sujeito, cultura, sociedade e nível socioeconômico pode colocar em risco a saúde daqueles que buscam atendimento. O autor aponta, ainda, que uma força atua sempre em paralelo a outras – assim como nas orientações – de modo que o uso de uma manifestação não anula a coexistência das demais.
Por exemplo, “O atleta olímpico utiliza sua inteligência/talento corporal-cinestésico em grande parte por causa de seu extensivo autocontrole, perseverança, prudência, esperança e muitas outras forças de caráter [...]” (Niemiec, 2019, p. 53). Essa variabilidade na composição das forças e das orientações possibilita uma infinita organização do caráter (Fromm, 1947; Niemiec, 2019). A diversidade demonstrada pela diversidade coloca o terapeuta ou o psicanalista diante de uma alteridade irrepetível, peculiar em sua própria unicidade.
Se acrescentarmos à estrutura da personalidade os diferentes temperamentos e dons pessoais, percebe-se que a configuração desses elementos fundamentais contribui para um número infinito de variações individuais (Fromm, 1947). Na prática clínica, a composição dessa dinâmica revela-se frequentemente mais crucial do que o próprio diagnóstico inicial do paciente. Essa primazia justifica-se pela natureza multidimensional do sujeito e pela maneira singular como cada força se manifesta (Niemiec, 2019).
Assim, é importante compreender a dinâmica das forças de caráter quando se está na presença do cliente. Isso porque as forças são plurais, multidimensionais e sempre aplicadas a um contexto e se articulam com “[...] psicopatologia, trauma e deficiência” (Niemiec, 2019, p. 179). São detalhes que vão ser importantes para a escolha da melhor técnica disponível, como também as escolhas pelas quais o terapeuta ou psicanalista vai optar.
As intervenções com forças de caráter não são diferentes da clínica com orientações, e perceber a totalidade é importante. Como constata Niemiec (2019, p.171), “Espanta-me ver quão rapidamente nosso mindset negativo e nossa tendência em direção a falar sobre problemas”. O que, em muitos casos, não resolveria, apenas apontar as forças (Niemiec, 2019), já que a própria identidade do paciente está comprometida. Pois, ao se identificar como: borderline, Asperger, bipolar, deprimido, ansioso, entre outras definições de síndromes e transtornos, o nome próprio fica em segundo plano.
Ao identificar um traço, esse traço poderá tomar lugar do nome próprio, e os efeitos poderão ser irreparáveis, por estar fragilizado pela situação (Fromm, 2013; Niemiec, 2019). Para Niemiec (2019), o “rótulo” é importante; contudo, esse rótulo jamais pode tornar-se uma forma de ser, e sim um traço entre outros traços que, em algumas vezes, é momentâneo. E, que em outras condições podem ser permanentes, mas que sempre diz respeito a um indivíduo e esse fator muda tudo, como neste exemplo citado por ele:
Vamos parar aqui por um momento, assim posso dar a você algum feedback. Vejo você como uma jovem incrivelmente audaciosa e corajosa. Todo dia você enfrenta a adversidade. Você se defende quando os outros alunos a provocam. Você vê medo, mas não deixa que ele a paralise. Você vai para a sala de aula todos os dias sabendo que será difícil e que surgirão desafios, mas enfrenta essa dificuldade. Sua coragem é notável. Claramente, você utilizou a bravura de forma muito forte de várias maneiras em sua vida (Niemiec, 2019, p. 112).
Nesse exemplo, não é possível saber o nome da estudante. O que se pode apreender é um conjunto de características que a fazem superar seus desafios diários. Quando o professor tem acesso ao diagnóstico de TDAH, como neste caso citado por Niemiec (2019), essa informação não pode tomar o lugar do indivíduo. Mas pode tornar-se parte da prática, sendo importante para a tomada de decisão e o direcionamento pedagógico.
Nesse sentido, o “rótulo” é positivo; porém, se ele ocupar o lugar do nome próprio, tais características são invisibilizadas. O esforço para manter a atenção passa a ser interpretado apenas pela agitação motora. Essa agitação para permanecer em um espaço e atenta a uma situação é visível; entretanto, o desejo de integrar-se, a vontade de estar com os demais e a frustração por não conseguir permanecem imperceptíveis. O que se vê é apenas o resultado fenomênico das atitudes impulsivas.
A bravura em persistir pode ter sua fonte de informação manifestada na própria agitação, mas a nomeação diagnóstica passa a ser o elemento mais significativo do comportamento. Sendo assim, se uma condição patológica servir para nomear um sujeito, ela o colocará em um lugar sem escapatória. Por outro lado, quando o caráter é tomado como força e como ponte (Niemiec, 2019), a própria escuta clínica consegue alcançar a totalidade do sujeito. O indivíduo revela-se como um prisma de múltiplas arestas e faces, impossível de ser determinado por apenas um de seus vários traços.
Trazer a forma como o “rótulo” foi usado nesse exemplo possibilita compreender a aproximação entre a clínica da potência e as intervenções pelas forças de caráter, configurando o que Rainer Funk (2020) conceituou como o “Encontro Direto”. Isto é, a capacidade clínica de ser solidário ao analisando em seu momento de total isolamento – quer seja sob o peso de um diagnóstico, quer seja em um sofrimento ainda não nomeado.
No encontro direto, o julgamento é suspenso e a escuta funciona como uma percepção do momento presente enquanto novidade. Trata-se de uma alteridade que não se confunde com nada já visto; é a pura apreensão do outro no instante de sua fala. Nessa experiência, a identidade do terapeuta e a do sujeito não entram em conflito, já que o ato de julgar é substituído pelo ato de compreender.
Funk (2020) aponta que esse encontro com a novidade decorre do sentimento de união estabelecido entre o eu e o não-eu. Em vez de julgar os resultados das ações que culminaram em determinada situação, busca-se compreender os caminhos conscientes e inconscientes que conduziram o sujeito até aquele momento. Quando o analista diz: “Então esse é você”, é porque já mapeou a extensão dessa união, permitindo-lhe afirmar: “E este sou eu também” (Funk, 2020, p. 20).
Ao encontrar o outro para além do diagnóstico, tanto o professor, do exemplo de Niemiec (2019), quanto o psicanalista, no exemplo de Funk, comprovam que existe “[...] um sentimento de solidariedade humana quando duas pessoas – ou mesmo uma pessoa – pode dizer à outra: “Então esse é você, e eu compartilho isso com você”. Essa é uma experiência tremendamente importante” (Funk, 2020, p. 21). Essa escuta, que embora faça parte da técnica, não se trata de uma postura técnica, mas de uma postura de acolhimento da totalidade do outro, que por vezes só consegue expor seu sofrimento.
Quando mudamos o foco para os aspectos positivos da pessoa e nomeamos esses comportamentos, alinhando-os com as suas experiências vividas, é algo poderoso (Niemiec, 2019). Isso pode influenciar positivamente no seu crescimento. Entretanto, o diagnóstico só é importante como prognóstico quando dessa constatação se retiram coisas objetivas para a vida daqueles que nos procuram. Fora desse contexto, se transforma em rótulo negativo: “aí vem a pessoa criativa” (Niemiec, 2019, p. 35).
O cuidado levantado por Niemiec não fica apenas nesse alerta, já que posteriormente o rótulo pode tomar lugar do próprio nome. Pois pode ser que um tipo de rótulo possa gerar uma expectativa, que não se confirme, como, por exemplo: “Vi bondade em você ontem” (Niemiec, 2019, p. 113). Qualquer rótulo, mesmo aqueles que possam ser valorizados socialmente, pode se transformar em um fardo, em que a pessoa seja obrigada a corresponder eternamente.
Na clínica das orientações, estamos colocando em curso o crescimento daquilo que deveria ser e que pode estar obstruído. Identificar um comportamento que se repete ao longo de anos – pelo contato com ambientes hostis, pela educação, pelas decisões, pelas escolhas ou por aquilo que está inconsciente – pode direcionar as forças para o que é positivo e funcional, tendo em vista que geralmente a obstrução está naquilo que é o melhor da pessoa, que, estando dissociado, não é reconhecido como “força” (Niemiec, 2019), mas como defeito (Rocha; Hara; Paprock, 2015).
A experiência extraída da prática do encontro face a face inspirou o desenvolvimento dos conceitos de “Orientação Produtiva do Caráter”, “biofilia” e o “modo de existência do ser” (Funk, 2020). Esses três conceitos-chave demonstram, respectivamente: a vida orientada para o processo de crescimento; amor à vida e ao florescimento e, por fim, o modo de existência do ser como experiência orientada para o uso dos próprios poderes de forma plena.
Se a clínica é orientada para as ações produtivas de um caráter positivo, as intervenções com as forças de caráter “[...] descrevem nossa natureza essencial – quem somos no mundo (isto é, being-ness, qualidade de ser)”, como também “[...] nossas forças de caráter refletem o que estamos nos ‘tornando’ – não apenas nossas ações e como nos conectamos, mas nossa natureza mutável (isto é, doing-ness, qualidade de fazer)” (Niemiec, 2020, p. 62). A possibilidade de mudança indefere o rótulo, fazendo com que o investimento nas forças seja uma realidade muito diferente daquela atribuída por um diagnóstico permanente.
A possibilidade de mudança pode ser encarada de duas formas:
A primeira, como aquilo que me tornei a partir de determinada terapia: busca-se o ajuste a um padrão externo, configurando uma adaptação moldada por comportamentos específicos. Esta perspectiva impõe uma conformação a normas externas rígidas, mesmo a indivíduos que a elas não se enquadram;
A segunda, pelo encontro com aquilo que deveria ser: busca-se o respeito à própria autenticidade, cuja constituição foi obstruída. Trata-se de uma adaptação interna, fundamentada no respeito do indivíduo às suas próprias determinações biológicas, psíquicas, subjetivas e objetivas.
Ambas constituem formas adaptativas ao ambiente social que se impõe como modelo; contudo, diferenciam-se pela origem e pelo sentido dessa acomodação. As formas de “Ser e Fazer” (Niemiec, 2020) estão presentes naquilo que Fromm chamou de produtividade, ou seja, “[...] o sujeito experimenta a si mesmo como a corporificação de suas forças e como o ‘ator’; sente-se unido a elas e, ao mesmo tempo, estas não estão escondidas e alienadas dele”, esclarecendo que o “Ser e Fazer” é parte importante na “arte de viver” (Fromm, 1947, p. 82).
Portanto, não se trata de descartar o diagnóstico – elemento importante para a tomada de decisão –, mas de impedir que ele, em hipótese alguma, substitua o próprio nome. Como no exemplo da estudante, o objetivo deve ser promover o encontro direto. Esse encontro ocorre entre duas alteridades nas quais, embora as figuras do professor, do terapeuta ou do psicanalista ocupem um lugar de suposto saber, nenhuma delas se posiciona como juiz.
O julgamento operado na relação deve ser motivado pelo esforço de compreensão, e não pela rotulação. Marcar uma identidade definitiva pelas forças ou orientações, mesmo em seus aspectos positivos, retira da pessoa a possibilidade de responsabilizar-se pelas conquistas ao longo da vida. As hipóteses levantadas, as análises feitas e os avanços alcançados constituem apenas uma resposta existencial daquele momento específico da jornada.
Afinal, o objetivo de uma análise pessoal continua a ser, segundo Fromm, “[...] ajudar o paciente a compreender sua experiência oculta total [...] trata-se da experiência oculta, mas também da experiência inteira” (Fromm, 2013, p. 125). Buscar o motivo do sofrimento exclusivamente no diagnóstico seria destituir a pessoa da responsabilidade sobre suas próprias dores, mas também de suas “conquistas” (Rosa et al., 2024).
Portanto, a totalidade do sujeito envolve sua individualidade e suas relações, pois o caráter se expressa em sua dimensão social. Como afirma Niemiec (2019, p. 110), “[...] embora as forças do caráter residam internamente e sejam expressas enquanto estamos sós, uma característica crítica das forças de caráter é sua natureza social. As forças de caráter são comunais”. Embora delimitar os distanciamentos entre as orientações e as forças seja importante para compreender cada abordagem, suas aproximações demonstram que ambas são complementares. Essa integração qualifica o trabalho prático na clínica e nas intervenções, desde que preservada a especificidade conceitual de cada vertente.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Às vezes as pessoas são realmente vítimas, “[...] mas com frequência elas são responsáveis por suas ações, e suas escolhas inconvenientes brotam de seu caráter” (Seligman, 2018, p. 74); do mesmo modo, as “[...] necessidades e paixões do homem nascem da condição peculiar de sua existência” (Fromm, 1983, p. 76). Esses dois recortes parecem opostos à primeira leitura, refletindo o distanciamento aparente entre a Psicanálise e a Psicologia Positiva.
Contudo, está revisão demonstra que tais excertos não se excluem, nem as correntes estão distantes. Como aponta Rosa (2025), aprender — mesmo quando doloroso — pode constituir um processo terapêutico, curativo e libertador. Sob essa ótica, o sofrimento não nega a possibilidade de crescimento, mas pode tornar-se parte do próprio processo de florescimento humano. O aprendizado se dá em relação à dialética do “encontro direto” com o outro. O humano só é em relação ao outro; o ser vincula-se à constituição de uma individualidade que depende de um modelo coerente, consistente e significativo. Assim, as contribuições de Fromm e Seligman sobre o caráter revelam-se complementares.
Quando Fromm aborda a tendência primária, refere-se àquilo que deveríamos ser e, por vezes, não nos tornamos – cujo objetivo clínico é promover a emergência do humano (pro-ducere) (Fromm, 1947). Seligman, por sua vez, estabelece que a psicoterapia positiva visa à cura por meio da prática de um novo estilo de vida baseado em emoções positivas, engajamento, propósito, realizações e melhores relações. Alcançar uma existência produtiva e feliz transcende a mera intenção terapêutica: trata-se de uma práxis para capacitar o sujeito a lidar com a própria existência.
Quando Fromm conceitua a Potência (potencial de crescimento) e Seligman propõe o florescimento, ambos visam a uma vida que valha a pena ser vivida. Essa perspectiva aproxima-se da noção de autoeficácia discutida por Rosa (2025), segundo a qual sujeitos com maior percepção de suas capacidades tendem a apresentar maior resiliência emocional diante das adversidades. Como na tradição aristotélica, a virtude moral é o justo meio entre os vícios do excesso e da deficiência. O exercício da virtude implica uma ação ativa, tornando o indivíduo responsável por suas escolhas e omissões.
Essa definição ética fundamenta tanto Fromm quanto Seligman na teorização de um caráter positivo, isto é, corresponsável pelas próprias decisões. “Ora, o exercício da virtude diz respeito aos meios. Por conseguinte, a virtude também está em nosso poder, do mesmo modo que o vício, pois, quando depende de nós o agir, também depende de nós o não agir” (Aristóteles, 1984, p. 87). O caráter positivo viabiliza essa aproximação, pois Fromm limitou-se a dicotomizar o caráter em produtivo e não produtivo. Aprofundar as peculiaridades de cada orientação em seu aspecto positivo aproxima-as das forças de caráter (Peterson; Seligman, 2004), entendidas como traços que não esgotam a totalidade do sujeito.
Se em Fromm carece uma definição pormenorizada dos traços de caráter em seus aspectos positivos, na teoria de Seligman e Peterson não há uma delimitação da totalidade de um caráter positivo, embora priorize o estudo das virtudes em detrimento das patologias. Portanto, esses distanciamentos não inviabilizam a articulação entre Psicanálise e Psicologia Positiva. Apesar de limitado a uma revisão teórica, este estudo é relevante por introduzir as formações inconscientes do caráter na Psicologia Positiva, bem como descortinar para a Psicanálise uma clínica baseada em emoções positivas, engajamento, sentido e relações saudáveis.
Ambas as abordagens enriquecem-se nesse diálogo, tensionando oposições para gerar consensos que aprimorem a terapêutica. O resultado é o oferecimento de ferramentas confiáveis para o fortalecimento do analisando diante das demandas contemporâneas. Ferramentas que o capacitam a converter problemas em desafios passíveis de superação por meio de suas forças manifestas.
Por fim, a integração da dimensão inconsciente (dissociada) impede que esta retorne apenas como sintoma. Mais do que restringir-se à conscientização e à elaboração, cumpre estruturar práticas que sustentem o sujeito em crises objetivas e subjetivas, contingências e imprevisibilidades. Diante de cada novo desafio, o indivíduo desenvolve novas formas de compreender a si mesmo e sua responsabilidade, fazendo emergir o melhor do potencial humano.
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1 Mestre em Educação em Ciências, Psicanalista e Bolsista do Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Pampa – Campus Uruguaiana (RS), Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Doutor em Ciências; Professor Adjunto da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) – Uruguaiana (RS), Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Doutora em Educação em Ciências (Unipampa) e Ciências Biológicas: Bioquímica (UFRGS). Analista de dados e Coordenadora do Núcleo de Gestão Educacional 16°CRE- Bento Gonçalves (RS), Brasil. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.