O PAPEL DO PROFESSOR NA CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA DOS ESTUDANTES DA EJA: UM ESTUDO DE CASO NO CEEJA DE LINHARES

THE ROLE OF THE TEACHER IN BUILDING AUTONOMY IN ADULT EDUCATION STUDENTS: A CASE STUDY AT CEEJA IN LINHARES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779565161

RESUMO
O presente artigo apresenta uma pesquisa aplicada acerca da atuação do professor na construção da autonomia dos estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), no Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (CEEJA) de Linhares/ES. A pesquisa buscou compreender de que maneira as práticas pedagógicas desenvolvidas pelos docentes contribuem para o fortalecimento do protagonismo e da autonomia discente. A metodologia adotada foi qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, utilizando entrevistas semiestruturadas e observação participante como instrumentos de coleta de dados. A análise de conteúdo, fundamentada em Bardin (2009), possibilitou a identificação de categorias relacionadas às práticas pedagógicas, participação estudantil e construção da autonomia. Os resultados evidenciaram que metodologias dialógicas, contextualizadas e participativas favorecem o engajamento dos estudantes, fortalecendo a autoconfiança, a responsabilidade e a participação ativa no processo educativo. Observou-se ainda que a valorização das experiências de vida dos educandos constitui elemento essencial para uma aprendizagem significativa e emancipadora. Conclui-se que o professor da EJA exerce papel fundamental na mediação do conhecimento e no desenvolvimento da autonomia dos estudantes, contribuindo para a formação de sujeitos críticos e conscientes.
Palavras-chave: Palavras-chave.

ABSTRACT
This article presents applied research on the role of teachers in building autonomy among Youth and Adult Education students at the State Center for Youth and Adult Education (CEEJA) in Linhares, Espírito Santo, Brazil. The study aimed to understand how pedagogical practices contribute to strengthening student protagonism and autonomy. A qualitative, exploratory, and descriptive methodology was adopted, using semi-structured interviews and participant observation as data collection instruments. Content analysis, based on Bardin (2009), enabled the identification of categories related to pedagogical practices, student participation, and autonomy development. The results showed that dialogical, contextualized, and participatory methodologies favor student engagement, strengthening self-confidence, responsibility, and active participation in the educational process. The appreciation of students’ life experiences was also identified as essential for meaningful and emancipatory learning. The study concludes that EJA teachers play a fundamental role in mediating knowledge and developing students’ autonomy, contributing to the formation of critical and conscious citizens.
Keywords: Keywords.

1. INTRODUÇÃO

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem como um de seus principais objetivos promover a inclusão educacional e social de pessoas que, por diferentes motivos, não tiveram acesso ou continuidade aos estudos na idade regular. Essa modalidade de ensino é assegurada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB nº 9.394/1996, que em seu artigo 37 reconhece a EJA como direito daqueles que não concluíram a educação básica, garantindo oportunidades educacionais apropriadas às suas condições de vida e de trabalho (BRASIL, 1996). Nesse contexto, o papel do professor torna-se fundamental para estimular a autonomia dos estudantes, respeitando suas trajetórias de vida e seus saberes prévios.

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos, estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação, reforçam que a EJA deve considerar as especificidades de seu público, valorizando suas experiências, conhecimentos construídos ao longo da vida e necessidades sociais e culturais. Essas diretrizes orientam que o processo educativo na EJA deve ser flexível, contextualizado e significativo, de modo a favorecer a permanência, o aprendizado e o desenvolvimento da autonomia dos educandos. Assim, o trabalho docente precisa estar alinhado a práticas pedagógicas que promovam a participação ativa, o pensamento crítico e o protagonismo dos estudantes, respeitando seus tempos e modos de aprender. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos orientam que o processo educativo deve considerar as especificidades do público atendido, valorizando suas experiências e promovendo uma aprendizagem significativa (Brasil, 2000).

No entanto, mais do que um espaço de compensação da escolarização, a EJA deve ser entendida como um espaço de valorização das experiências de vida, dos saberes prévios e das potencialidades dos seus educandos.

Nesse contexto, o papel do professor é de extrema relevância, pois ultrapassa a função de mero transmissor de conteúdo, ele se torna mediador do conhecimento, incentivador e orientador de aprendizagens significativas.

No ambiente da EJA, o docente precisa desenvolver uma postura sensível e crítica, capaz de reconhecer o percurso de vida dos alunos e transformar suas vivências em ponto de partida para o aprendizado. Assim, compreender o papel do professor na construção da autonomia dos estudantes é essencial para promover uma prática pedagógica mais emancipadora.

O desenvolvimento da autonomia é um dos principais objetivos da educação, conforme destaca Freire (1996), ao afirmar que ensinar é um ato de liberdade, que implica diálogo, escuta e respeito ao saber do outro.

Na EJA, esse princípio se torna ainda mais importante, pois os alunos trazem consigo experiências, responsabilidades e visões de mundo que influenciam diretamente seu modo de aprender, cabe ao professor criar condições para que o estudante se reconheça como sujeito ativo do processo educativo, capaz de refletir sobre sua realidade e transformá-la.

A escolha pelo CEEJA de Linhares como campo de estudo se justifica por se tratar de uma instituição de referência na oferta da EJA no município, acolhendo alunos com diferentes perfis e trajetórias. Nesse espaço, a diversidade de histórias e a flexibilidade de horários e metodologias constituem um ambiente rico para observar como as práticas docentes contribuem para o fortalecimento da autonomia dos educandos.

Do ponto de vista pessoal e acadêmico, a escolha do tema nasce do interesse em compreender os desafios e as potencialidades da atuação docente na EJA. A pesquisa pretende contribuir não apenas para o desenvolvimento profissional das pessoas envolvidas na pesquisa, mas também para a valorização dessa modalidade de ensino, frequentemente marginalizada nas políticas públicas e na formação de professores.

O estudo justifica-se pela sua relevância social e educacional, pois evidencia a importância de repensar práticas pedagógicas que respeitem a singularidade dos sujeitos da EJA e estimulem sua participação ativa no processo de ensino-aprendizagem. Entender o papel do professor como agente de transformação é reconhecer que a educação é um ato político e libertador, capaz de promover a emancipação e o protagonismo dos estudantes jovens e adultos.

Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar o papel do professor na construção da autonomia dos estudantes da Educação de Jovens e Adultos no CEEJA de Linhares/ES, buscando compreender de que maneira as práticas pedagógicas desenvolvidas pelos docentes contribuem para o fortalecimento do protagonismo discente.

Pretende-se, ainda, identificar estratégias utilizadas pelos professores para estimular a participação ativa dos alunos, compreender os desafios enfrentados na promoção da autonomia e refletir sobre as contribuições dessas práticas para uma educação mais significativa e emancipadora.

Este artigo está organizado da seguinte forma: inicialmente, apresenta-se a introdução, contextualizando a Educação de Jovens e Adultos, sua base legal e a relevância do papel do professor na construção da autonomia dos estudantes. Em seguida, desenvolve-se o referencial teórico, fundamentado principalmente nas contribuições (Freire, 1996; Libâneo, 2013; Perrenoud, 2000). Posteriormente, descreve-se a metodologia da pesquisa, abordando os procedimentos adotados para a coleta e análise dos dados. Por fim, são apresentadas as considerações finais, destacando as principais reflexões e contribuições do estudo para a prática docente na EJA.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. A Educação de Jovens e Adultos na Legislação Educacional Brasileira

A Educação de Jovens e Adultos no Brasil possui uma trajetória histórica marcada por avanços e desafios relacionados ao acesso à escolarização das camadas populares. Desde as primeiras iniciativas de alfabetização de adultos no século XX, a EJA foi compreendida como estratégia de redução do analfabetismo e promoção da inclusão social.

No entanto, foi somente com a Constituição Federal de 1988 que a educação passou a ser reconhecida como direito de todos, garantindo também aos jovens e adultos o acesso à educação básica.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional — LDB nº 9.394/1996 consolidou esse direito ao estabelecer, em seu artigo 37, que a Educação de Jovens e Adultos deve ser destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos na idade própria, assegurando oportunidades educacionais adequadas às características do educando, considerando suas condições de vida e trabalho (BRASIL, 1996).

Posteriormente, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos reforçaram a necessidade de uma proposta pedagógica específica, baseada na valorização das experiências dos estudantes, na flexibilidade curricular e na contextualização do ensino. Essas diretrizes ampliaram a compreensão da EJA, deixando de ser apenas compensatória para assumir caráter formativo, social e emancipador.

A Educação de Jovens e Adultos é uma modalidade importante para garantir o direito à educação e promover a inclusão social. Nessa perspectiva, Gadotti (2003) afirma que:

A educação de jovens e adultos deve ser compreendida como um direito que ultrapassa a simples escolarização tardia, constituindo-se como um processo de formação integral do sujeito. Trata-se de uma educação que reconhece a trajetória de vida dos educandos, valoriza seus saberes e promove sua inserção crítica na sociedade, contribuindo para a construção da cidadania e da autonomia. (GADOTTI, 2003, p. 45).

Antes da atual LDB nº 9.394/1996, a Educação de Jovens e Adultos já era mencionada em legislações anteriores, como a LDB nº 4.024/1961, que tratava a educação de adultos de forma ainda limitada, com foco na alfabetização.

Posteriormente, a LDB nº 5.692/1971 reforçou a ideia de ensino supletivo, voltado à compensação da escolarização não realizada na idade adequada. No entanto, essas abordagens possuíam caráter mais instrumental e pouco voltado à formação crítica dos sujeitos, perspectiva que foi ampliada apenas com a legislação atual.

2.2. Aspectos Pedagógicos da Educação de Jovens e Adultos

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) representa um campo essencial dentro da educação brasileira, pois busca reparar desigualdades históricas e promover o direito à aprendizagem ao longo da vida. Para Freire (1996), a educação deve ser um ato libertador e emancipatório, capaz de despertar a consciência crítica e possibilitar que o indivíduo se reconheça como sujeito da própria história.

Nesse sentido, a EJA não se restringe à mera alfabetização ou transmissão de conteúdos, mas à valorização da experiência de vida dos educandos, tornando a prática pedagógica um espaço de diálogo e transformação social.

O professor, nesse processo, assume papel central. É ele quem media a relação entre o conhecimento e o aluno, reconhecendo que o saber não está apenas nos livros ou nas instituições formais, mas também na vivência e na trajetória de cada estudante.

Libâneo (2013) afirma que a função do professor é organizar e dirigir o processo de ensino-aprendizagem, criando condições para que o aluno aprenda a aprender e desenvolva sua autonomia intelectual e moral. Assim, o educador da EJA precisa ir além das práticas tradicionais, adotando metodologias que respeitem os tempos, ritmos e experiências dos jovens e adultos.

A autonomia, segundo Perrenoud (2000), não é um ponto de chegada, mas um processo de construção contínuo, que envolve a capacidade de tomar decisões, refletir criticamente e agir de maneira responsável no mundo. O desenvolvimento da autonomia dos alunos da EJA está diretamente relacionado ao modo como o professor conduz sua prática pedagógica, promovendo um ambiente que incentive a participação, o diálogo e o protagonismo do educando.

Além disso, Gadotti (2005) destaca que a EJA deve ser entendida como um espaço de formação integral, que considera o educando em suas dimensões cognitiva, afetiva, social e cultural. O papel do professor, portanto, é também o de articulador de saberes, estimulando a reflexão crítica e a construção coletiva do conhecimento. Essa perspectiva aproxima-se da pedagogia freireana, que defende uma prática educativa pautada na escuta e no respeito mútuo entre educador e educando.

Arroyo (2011) complementa essa visão ao afirmar que a EJA é um campo marcado por identidades diversas, e que o professor precisa compreender essas singularidades para que sua prática seja realmente inclusiva. Para ele, o educador da EJA deve reconhecer que seus alunos trazem “saberes da vida”, acumulados em experiências de trabalho, família e convivência social, os quais devem ser valorizados como ponto de partida para o processo de ensino-aprendizagem. A construção da autonomia também está diretamente relacionada à formação continuada dos professores.

De acordo com Imbernón (2011), a formação docente deve incentivar o professor a ser um profissional reflexivo, capaz de analisar criticamente sua própria prática e adaptá-la às necessidades dos educandos. Na EJA, essa formação precisa incluir discussões sobre inclusão, diversidade, metodologias participativas e avaliação formativa, uma vez que o público atendido é heterogêneo e requer abordagens diferenciadas.

No contexto específico do CEEJA de Linhares, essa discussão ganha relevância por se tratar de uma instituição que adota uma proposta de ensino flexível e centrada no estudante. Os professores enfrentam desafios como a evasão escolar, a desmotivação e a necessidade de adaptar o ensino às realidades sociais e econômicas dos alunos. Nessa perspectiva, a atuação docente como promotora da autonomia torna-se fundamental para fortalecer o vínculo entre escola e aluno, despertando o interesse e o senso de responsabilidade pelo próprio aprendizado.

Por fim, é importante destacar que a construção da autonomia dos estudantes da EJA está alinhada aos princípios da educação libertadora, defendida por Freire, que considera o diálogo como ferramenta pedagógica central. Através de uma prática educativa que estimula a reflexão, o questionamento e o envolvimento ativo, o professor se torna um facilitador do desenvolvimento pessoal e social do aluno, contribuindo para a formação de cidadãos críticos e conscientes de seu papel na sociedade.

A autonomia do estudante é fundamental no processo educativo, pois contribui para a formação de sujeitos críticos, reflexivos e participativos. Nesse contexto, destaca-se que:

A autonomia não é um dado inicial, mas uma construção que se desenvolve progressivamente por meio de situações que exigem do sujeito tomada de decisões, responsabilidade e reflexão sobre suas ações. Nesse sentido, o papel do professor é fundamental ao propor situações didáticas que desafiem o aluno a mobilizar conhecimentos, desenvolver competências e assumir uma postura ativa diante do processo de aprendizagem. (PERRENOUD, 2000, p. 69).

Assim, o marco teórico deste trabalho fundamenta-se na compreensão de que o professor é um agente de transformação, cuja prática pedagógica deve ser comprometida com o desenvolvimento da autonomia, da criticidade e da emancipação dos estudantes jovens e adultos. É a partir dessa relação dialógica e humanizadora que a EJA cumpre seu verdadeiro papel: formar sujeitos capazes de aprender, agir e transformar sua realidade.

3. METODOLOGIA

A pesquisa é de natureza qualitativa, com abordagem exploratória e descritiva, buscando compreender as percepções e práticas dos professores da EJA no CEEJA de Linhares/ES.

O local da pesquisa será o CEEJA – Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos de Linhares. A escolha se justifica por ser uma instituição de referência no município e no estado do Espírito Santo, na oferta da EJA.

Os sujeitos da pesquisa são professores atuantes na EJA, selecionados de forma intencional, considerando sua experiência com o público jovem e adulto.

Os instrumentos de coleta de dados incluem entrevistas semiestruturadas e observações das práticas pedagógicas, realizadas com o devido consentimento dos participantes.

A entrevista semiestruturada foi escolhida por possibilitar maior flexibilidade na coleta das informações, permitindo ao pesquisador explorar percepções e experiências dos participantes de forma mais aprofundada. Segundo Gil (2008), a entrevista constitui uma técnica de coleta de dados amplamente utilizada em pesquisas qualitativas, pois favorece a compreensão de significados, opiniões e interpretações construídas pelos sujeitos investigados.

As informações coletadas serão analisadas a partir da análise de conteúdo, buscando identificar padrões e categorias relacionadas ao papel docente e ao desenvolvimento da autonomia discente.

Foram respeitados todos os princípios éticos da pesquisa, garantindo anonimato e o uso do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

A análise dos dados foi realizada por meio da análise de conteúdo na perspectiva de Bardin (2009), compreendida como um conjunto de técnicas sistemáticas de análise das comunicações que possibilitam a organização, categorização e interpretação dos dados. Foram construídas categorias temáticas relacionadas ao papel docente, às práticas pedagógicas e ao desenvolvimento da autonomia dos estudantes, permitindo a interpretação dos resultados à luz do referencial teórico adotado.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A etapa de coleta de dados contou com a colaboração de três docentes atuantes na Educação de Jovens e Adultos (EJA), vinculados ao Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (CEEJA) de Linhares. A partir dos relatos obtidos, procedeu-se à sistematização das unidades de registro, o que permitiu a emersão de categorias temáticas fundamentais para a compreensão do fenômeno estudado, as quais são detalhadas a seguir.

4.1. Caracterização dos Participantes da Pesquisa e Trajetória na EJA

Esta primeira categoria dedica-se a caracterizar o itinerário acadêmico e a experiência profissional dos sujeitos da pesquisa. Compreender o perfil desses docentes é fundamental para contextualizar suas percepções, uma vez que a prática pedagógica na Educação de Jovens e Adultos (EJA) é profundamente atravessada pelos saberes construídos ao longo da carreira e pelas bases formativas de cada profissional.

O grupo de colaboradores é composto por professores com significativa experiência na modalidade, apresentando tempos de atuação que variam entre cinco e dez anos.

O Docente 1 atua na EJA há aproximadamente oito anos, trajetória que classifica como essencial para a compreensão das especificidades desse ensino. O Docente 2, com cerca de cinco anos de regência, destaca a dimensão humanística dessa jornada ao afirmar que a experiência "permite compreender a educação a partir de diferentes trajetórias de vida". Já o Docente 3 apresenta a trajetória mais extensa entre os entrevistados, totalizando uma década de dedicação exclusiva a este público.

No que tange à formação acadêmica, observa-se uma pluralidade de áreas de conhecimento que convergem para o Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (CEEJA) de Linhares. O corpo de entrevistados abrange desde a formação em Pedagogia, com especialização latu sensu em EJA e foco em práticas inclusivas (Docente 1), até áreas específicas como Letras (Docente 2) e matemática (Docente 3).

A análise desses perfis revela que, embora as bases de graduação sejam distintas, há um movimento comum de busca por formação continuada para lidar com as complexidades da modalidade.

Enquanto o Docente 2 complementa sua graduação com estudos em educação inclusiva e diversidade, o Docente 1 reforça sua prática com cursos voltados à inclusão. Essa diversidade formativa enriquece o ambiente escolar, pois permite que os desafios pedagógicos sejam analisados sob diferentes perspectivas disciplinares, mantendo, contudo, um compromisso compartilhado com o acolhimento das histórias de vida dos estudantes que retornam à escola.

4.2. Participação, Autonomia, Avaliação e Protagonismo Estudantil

A presente categoria analisa como os docentes percebem e desenvolvem a participação, a autonomia e o protagonismo dos estudantes no contexto da Educação de Jovens e Adultos, bem como os critérios utilizados para avaliar esse processo. Tais elementos mostram-se fundamentais para compreender a efetivação de uma prática pedagógica emancipadora, conforme defendido por Freire (1996), ao destacar a importância do educando como sujeito ativo na construção do conhecimento.

A partir dos relatos dos docentes, observa-se que a participação dos estudantes está diretamente relacionada ao ambiente de acolhimento e valorização construído em sala de aula. O Docente 1 destaca que os alunos se tornam mais participativos quando se sentem respeitados e ouvidos: “A participação acontece por meio de debates, trocas de experiências e envolvimento em atividades práticas”, evidenciando a importância do diálogo como ferramenta pedagógica. Esse aspecto reforça a perspectiva freireana, na qual o processo educativo deve ser baseado na escuta e na troca de saberes.

De forma complementar, o Docente 2 aponta que a participação ativa está associada ao reconhecimento das experiências de vida dos alunos, o que contribui para o aumento do engajamento nas atividades propostas. Essa valorização dos saberes prévios também é enfatizada por Arroyo (2011), ao afirmar que os estudantes da EJA trazem consigo conhecimentos construídos fora do ambiente escolar, que devem ser incorporados ao processo educativo.

No que se refere ao protagonismo estudantil, os dados indicam que este é estimulado principalmente por meio de atividades que envolvem tomada de decisão, como trabalhos em grupo, projetos e resolução de situações-problema. O Docente 3 ressalta que, ao serem desafiados a resolver problemas de forma autônoma, os alunos desenvolvem maior independência e confiança em suas capacidades.

Em relação à avaliação da autonomia, verifica-se que os professores utilizam predominantemente estratégias qualitativas e processuais, baseadas na observação do comportamento, da participação e da evolução dos estudantes ao longo do processo educativo. O Docente 1 afirma que a autonomia pode ser percebida na iniciativa dos alunos em buscar conhecimento, enquanto o Docente 2 destaca mudanças na postura, como maior segurança e envolvimento nas atividades.

Esses achados dialogam com a concepção de avaliação formativa defendida por Libâneo (2013), que compreende a avaliação como um processo contínuo, voltado ao acompanhamento do desenvolvimento do aluno, e não apenas à mensuração de resultados.

Além disso, foi possível identificar mudanças significativas no comportamento dos estudantes ao longo do tempo, como o aumento da autoconfiança, da participação e do senso de responsabilidade pelo próprio aprendizado. Tais transformações evidenciam que a promoção da autonomia está diretamente relacionada a práticas pedagógicas que incentivam o protagonismo e a participação ativa dos educandos.

Dessa forma, conclui-se que a participação e o protagonismo dos estudantes na EJA não ocorrem de maneira espontânea, mas são construídos a partir de uma prática docente intencional, pautada no diálogo, na valorização dos saberes e na criação de espaços que favoreçam a expressão e a tomada de decisões pelos alunos.

4.3. Práticas Pedagógicas na Educação de Jovens e Adultos

Esta categoria tem como objetivo analisar as práticas pedagógicas desenvolvidas pelos docentes da EJA e sua contribuição para a construção da autonomia dos estudantes. Considerando as especificidades dessa modalidade de ensino, torna-se essencial que o professor adote metodologias que dialoguem com a realidade dos educandos e promovam uma aprendizagem significativa.

Os dados revelam que os professores entrevistados utilizam, predominantemente, metodologias ativas, que buscam envolver os alunos de forma participativa no processo de ensino-aprendizagem. Entre as estratégias mencionadas, destacam-se as rodas de conversa, os debates, os projetos interdisciplinares e a resolução de situações-problema. Essas práticas favorecem o desenvolvimento do pensamento crítico e da autonomia, ao permitir que os alunos se posicionem, questionem e construam conhecimentos coletivamente.

O Docente 1 enfatiza a importância de trabalhar com atividades contextualizadas, aproximando os conteúdos da realidade dos estudantes. Essa abordagem contribui para tornar o aprendizado mais significativo, uma vez que estabelece relações entre o conhecimento escolar e as experiências vividas pelos educandos.

De modo semelhante, o Docente 2 destaca a utilização de projetos e atividades colaborativas, que incentivam a troca de experiências e a construção coletiva do conhecimento. Essa prática reforça a ideia de que o aprendizado na EJA deve ser construído de forma dialógica, valorizando a interação entre os sujeitos envolvidos no processo educativo.

Já o Docente 3 evidencia o uso de situações-problema como estratégia para estimular o raciocínio lógico e a autonomia dos estudantes, especialmente no ensino de Matemática. Segundo Perrenoud (2000), a resolução de problemas é uma das competências essenciais para o desenvolvimento da autonomia, pois exige do aluno a capacidade de analisar, decidir e agir de forma independente.

Outro aspecto relevante identificado nas falas dos docentes refere-se à valorização dos saberes prévios dos alunos. Todos os participantes destacaram que as experiências de vida dos educandos são utilizadas como ponto de partida para o planejamento das aulas. Essa prática contribui para o fortalecimento da identidade dos estudantes e para o reconhecimento de seus conhecimentos, conforme aponta Arroyo (2011).

Entretanto, os professores também relatam desafios na implementação dessas práticas, como a defasagem de aprendizagem, a baixa autoestima dos alunos e as dificuldades relacionadas à frequência e permanência na escola. Tais fatores exigem do docente uma postura flexível e sensível, capaz de adaptar as estratégias pedagógicas às necessidades dos estudantes.

Nesse contexto, a atuação do professor como mediador do conhecimento torna-se fundamental. Conforme destaca Libâneo (2013), cabe ao docente organizar situações de aprendizagem que possibilitem ao aluno desenvolver competências e habilidades de forma autônoma.

Diante do exposto, evidencia-se que as práticas pedagógicas na EJA, quando fundamentadas em metodologias participativas, contextualizadas e dialógicas, contribuem significativamente para a construção da autonomia dos estudantes. Assim, o papel do professor ultrapassa a transmissão de conteúdos, assumindo uma função formativa e emancipadora, essencial para o desenvolvimento integral dos educandos.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objetivo analisar o papel do professor na construção da autonomia dos estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), no contexto do Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (CEEJA) de Linhares/ES. A partir da investigação realizada, foi possível compreender que a atuação docente exerce influência significativa no desenvolvimento do protagonismo, da participação e da autonomia dos educandos.

Os resultados evidenciam que a prática pedagógica na EJA vai além da simples transmissão de conteúdos, configurando-se como um processo mediador, dialógico e contextualizado. Os professores participantes demonstraram reconhecer a importância de valorizar os saberes prévios dos estudantes, incorporando suas experiências de vida ao processo de ensino-aprendizagem. Essa postura contribui para tornar o ensino mais significativo e próximo da realidade dos educandos, favorecendo o engajamento e a permanência na escola.

Observou-se que a promoção da autonomia está diretamente relacionada ao uso de metodologias ativas, como rodas de conversa, projetos, atividades colaborativas e resolução de situações-problema. Tais estratégias possibilitam que os estudantes assumam um papel mais ativo em sua aprendizagem, desenvolvendo habilidades como reflexão crítica, tomada de decisão e responsabilidade pelo próprio percurso educativo.

No que se refere à participação e ao protagonismo, verificou-se que estes são fortalecidos em ambientes que priorizam o diálogo, o respeito e a escuta. Os alunos tendem a se envolver mais quando se sentem valorizados e reconhecidos como sujeitos do processo educativo. Além disso, a avaliação formativa, baseada na observação contínua e no acompanhamento da evolução dos estudantes, mostrou-se um importante instrumento para identificar o desenvolvimento da autonomia ao longo do processo.

Entretanto, a pesquisa também revelou desafios significativos, como a evasão escolar, a defasagem de aprendizagem e a baixa autoestima dos estudantes, fatores que impactam diretamente o processo educativo na EJA. Tais dificuldades exigem do professor uma atuação sensível, flexível e comprometida com as especificidades desse público.

À luz do referencial teórico adotado, especialmente das contribuições de Freire (1996), Libâneo (2013) e Perrenoud (2000), compreende-se que a construção da autonomia é um processo contínuo, que se desenvolve por meio de práticas pedagógicas que incentivem o diálogo, a participação e o pensamento crítico. Nesse sentido, o professor assume o papel de agente transformador, responsável por criar condições que favoreçam a emancipação dos estudantes.

Dessa forma, conclui-se que o fortalecimento da autonomia na EJA depende de uma prática docente comprometida com a valorização dos sujeitos, com a utilização de metodologias participativas e com a construção de um ambiente educativo inclusivo e acolhedor. Ressalta-se, ainda, a importância da formação continuada dos professores e de políticas públicas que apoiem essa modalidade de ensino, garantindo melhores condições de trabalho e aprendizagem.

Por fim, espera-se que este estudo contribua para a reflexão sobre a prática docente na Educação de Jovens e Adultos, incentivando a construção de propostas pedagógicas mais humanizadas, críticas e emancipadoras, capazes de promover o desenvolvimento integral dos estudantes e o exercício pleno da cidadania.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Licencianda em Pedagogia, Faculdade Municipal de Linhares, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail 

2 Doutor em Ensino de Matemática, Faculdade Municipal de Linhares, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail