BICHO DE SETE CABEÇAS OU CANTO DOS MALDITOS?: REFLEXÕES SOBRE A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SOFRIMENTO
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18778239
Ana Paula Vilas Boas Mendonça1
Daiane Michele dos Santos Mendes2
Daniela Emilena Santiago3
Maria Tereza Aparecida de Lima4
Miriam Ferreira de Azevedo5
Murilo de Souza Sobrinho6
Pedro Henrique Ribeiro de Oliveira7
Sthefany Eliandra da Silva Pais8
RESUMO
Este estudo propõe analisar o filme Bicho de Sete Cabeças, dirigido por Laís Bodansky, inspirado no livro autobiográfico Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno, analisando a vida de um adolescente da década de 1970 ambientada no interior do Brasil, que retrata a internalização da psiquiatria compulsória devido ao uso substancial de cannabis, seguindo os critérios morais familiares, evidenciando a ausência de avaliação clínica fundamentada e a legitimação institucional da violência. O filme retrata práticas institucionais violentas, como internação compulsória sem escuta qualificada, medicalização excessiva, contenções físicas e químicas, isolamento e uso punitivo do eletrochoque. A análise evidencia o processo autoritário e higienista das instituições psiquiátricas, sustentado no discurso médico e reforçado pela moral social e pelas normativas familiares. Destaca-se o silenciamento dos internos, cujas tentativas de denúncia eram desacreditadas e interpretadas como sintomas psiquiátricos. Mesmo após sua saída, o filme mostra as sequelas da institucionalização e o julgamento social prejudicando a reinserção social e a reconstrução de vínculos. O estudo insere a obra diante da ótica da Reforma Psiquiátrica e a Luta Antimanicomial, destacando a importância de práticas de cuidado, respeitando a singularidade do sujeito e da defesa dos direitos humanos na área da saúde mental.
Palavras-chave: Institucionalização psiquiátrica; Luta antimanicomial; Saúde mental; Exclusão social; Cinema brasileiro.
ABSTRACT
This study aims to analyze the film Bicho de Sete Cabeças, directed by Laís Bodanzky, inspired by the autobiographical book Canto dos Malditos, by Austregésilo Carrano Bueno. The work portrays the trajectory of a young man in Brazil during the 1970s who is subjected to compulsory psychiatric institutionalization due to cannabis use, based on family moral criteria. This process reveals the absence of well-founded clinical assessment and the institutional legitimation of violence as a form of social control. The film exposes practices characteristic of the manicomial model, such as involuntary hospitalization without qualified listening, excessive medicalization, physical and chemical restraints, isolation, and the punitive use of electroconvulsive therapy. The analysis highlights the authoritarian and hygienist nature of psychiatric institutions, sustained by medical discourse and reinforced by moral values and family norms. The silencing of patients is emphasized, as their attempts to report violence were frequently discredited and interpreted as psychiatric symptoms. Even after discharge, lasting psychological sequelae and social stigma remain, hindering social reintegration and the reconstruction of social bonds. The study situates the film within the context of the Brazilian Psychiatric Reform and the anti-asylum movement, emphasizing the importance of mental health care practices grounded in respect for the subject’s singularity and in the defense of human rights.
Keywords: Psychiatric institutionalization; Anti-asylum movement; Mental health; Social exclusion; Brazilian cinema.
1. Introdução
Austregésilo Carrano Bueno9 foi um autor brasileiro que nasceu e viveu em Curitiba, no Paraná e que no contexto dos anos 70, com 17 anos, foi institucionalizado pela família devido ao fato de usar maconha. Essa institucionalização inicial resultou em outras inserções em organizações de natureza psiquiátrica e que eram comuns no período sendo reconhecidas como os únicos dispositivos para a atenção da “dependência química”. A experiência do autor resultou no livro O Canto dos Malditos em que Austregésilo narra suas vivências associadas à institucionalização.
Austregésilo se tornou um marco na luta antimanicomial do país. Seu livro, por outro lado, sinônimo da busca por práticas mais humanas e protetivas foi adaptado para filme resultando na obra: “Bicho de Sete Cabeças” e que contou com a interpretação de vários ícones do cinema brasileiro, dentre eles Rodrigo Santoro que dá vida ao protagonista. Neto, interpretado por Santoro é na verdade Austregésilo. Um adolescente comum, com gostos pelo rock, pelas festas típicas da idade e pela maconha. Neto não possuía nada que indicasse necessidade de internação mas o fato de ser diferente do padrão e do que era idealizado como ser humano resultou em sua segregação.
A realização, pelos autores desse manuscrito de várias leitura associadas a tal temática despertou o interesse dos mesmos em aprofundar os estudos em pauta. Para fazê-lo retomamos o filme em questão e o utilizaremos como fonte para o documento que segue uma vez que consideramos que o mesmo possui grande relevância para a luta antimanicomial e porque representa, como podemos inferir, produção do cinema nacional brasileiro dos anos 2000, momento esse em que os investimentos públicos para a área eram escassos. Demonstra ainda a importância de obras dessa natureza para que possam colaborar ainda mais com a reflexão e a conscientização de demais públicos sobre a temática apresentada.
Metodologicamente o aporte ao filme foi necessário para que o mesmo fosse apresentado como fonte e sustentasse a análise. Para que seja possível compreender melhor a história narrada na sequência do artigo apresentaremos um resumo do mesmo, seguido da análise e interpretação de elementos que nos são destacados e que nos situam com a luta antimanicomial. Nesse sentido, hoje, como temos conhecimento, há uma redução das institucionalizações. No entanto, práticas e condutas assentadas na segregação daqueles que padecem com sofrimento psíquico ainda são comuns. Isso nos indica a necessidade de maior reflexão sobre o tema e mais, destaca a emergência de filmes e demais expressões artísticas que possam mobilizar a sociedade em torno da reflexão propostas. Dessa maneira, trata-se de um tema de grande importância e relevância social.
Iniciamos assim com a apresentação do filme, que, na sequência será orientada pela análise. Esperamos assim colaborar com a produção do tema sobre institucionalização e sobre os cuidados em saúde mental.
Bicho de Sete Cabeças ou O Canto dos Malditos
Como indicamos acima nesse item do artigo apresentaremos a descrição e narrativa do filme. Para a elaboração esse item optamos por assistir o filme e recompor a história nessa descrição com a inserção de trechos e falas apresentados na película. A narrativa começa com o Sr. Wilson que está sentado sozinho em uma calçada. Em silêncio, ele abre um papel amassado e começa a ler. À medida que seus olhos percorrem as palavras, a voz de Neto surge em off, lendo a carta com um tom duro, carregado de rancor, como se ali estivesse tudo o que nunca conseguiu dizer diretamente ao pai. A câmera permanece fixa no rosto de Wilson, revelando uma expressão abatida, atravessada pela dor. Após alguns instantes, um corte seco rompe a cena e leva a narrativa para o passado.
Nesse outro momento, Neto aparece andando de skate pelas ruas de São Paulo. Ele se move de forma intensa e acelerada, passando por muros pichados, calçadas irregulares e carros em movimento, entre amigos capturando a sua energia juvenil e conexão com o ambiente urbano. Ao final do dia ele retorna para casa, e entra em casa acompanhado por uma amiga (Lúcia). Ele e a garota tentam passar despercebidos, por já ser tarde da noite mas o pai Wilson (Othon Bastos) está na sala e os observando passar com uma reprovação silenciosa.
Na dia seguinte a família (Wilson, Meire, Neto e a irmã) está reunida à mesa para o café da manhã. O clima é tenso, silencioso e o único som que se destaca é o dos talheres tocando os pratos. Wilson observa o filho com um olhar rígido e desconfiado e inicia o interrogatório enquanto a mãe Meire (Cássia Kiss) serve o café de forma apática. Wilson (para Meire, indicando Neto): "Por que que essa menina dormiu aqui? Hein? Por que essa garota dormiu em casa?".
Meire com a voz baixa e passiva, diz que é uma amiga do filho. Apenas observa ou dá respostas evasivas enquanto serve o café. Wilson expressa desaprovação pelo estilo de vida do filho, seus amigos e sua falta de rumo, evidenciando que ele é quem toma as decisões pela família. Neto levanta-se bruscamente para sair com a amiga. E a mãe, apaga seu cigarro dentro de um copo de café, em um gesto que simboliza o silenciamento e a insatisfação materna.
Neto prepara-se para sair de casa novamente, carregando uma mochila. E o pai o intercepta:
• Wilson: "Neto! Olha para mim quando eu estou falando com você! Olha para mim!"
• Neto: (Mantém o olhar baixo, demonstrando desorientação).
• Wilson (Aumentando o tom): "O que é isso? O que é que você é agora? Traficante? Hein? Me explica!
• Wilson: "Você vai viajar, não é? Você precisa de dinheiro, não é isso? Fala! Responda! Como é que você quer viajar sem ter um tostão?
• Neto (Voz arrastada): "Isso é problema meu..."
• Wilson (Gritando): "Problema seu o cacete! O problema é meu! Eu quero saber com quem você anda, com quem você está saindo! Olha para mim!"
Wilson irrita-se com o brinco na orelha de filho, referindo-se ao acessório de forma pejorativa. Neto esquiva-se e entra no quarto, batendo a porta dele e depois sai apressado da casa pelo portão de ferro. Meire vai atrás do filho na esperança de impedi-lo, mas para na calçada e observando o afastar-se, tornando-se inalcançável
O Embate e a Fuga para o Litoral
Na estrada com destino a litoral. Chegando a cidade Santos, Neto fica hospedado com seu amigo Lobo (Gustavo Machado) em um apartamento simples. No início, o clima entre os dois é leve, marcado por conversas soltas e por uma sensação provisória de liberdade. Aos poucos, porém, a atmosfera muda.
Lobo revela que a hospedagem e as drogas estão sendo custeadas por homens que esperam favores sexuais em troca e sugere que Neto “batalhe”, permitindo que esses homens os acariciem. Com essa proposta desconcertante, o amigo insinua a possibilidade de manter favores sexuais com homens para que possam continuar hospedados no local. A sugestão quebra o clima de descontração e cria um silêncio pesado no ambiente.
Neto reage de forma imediata, afastando-se fisicamente. Seu corpo demonstra incômodo e recusa antes mesmo de qualquer palavra. Sem conseguir permanecer no apartamento, ele sai do local caminha sozinho pelo centro de Santos. Anda sem pressa, mas visivelmente perturbado, misturado ao movimento da cidade, como alguém que tenta digerir o que acabou de ouvir. Sem dinheiro, passa a pedir esmolas a pedestres para conseguir recursos para voltar para casa.
Essa sequência da trama evidencia o sentimento constante de deslocamento vivido por Neto, bem como sua dificuldade de pertencimento e a solidão que o acompanha mesmo quando está cercado por outras pessoas.
Em seguida, Neto entra em um bar ou quiosque, onde conhece Leninha (Valéria Alencar). Ela demonstra gentileza e, ao perceber a situação do rapaz, o convida para almoçar em sua casa com um grupo de amigos. Diferente da frieza de sua casa em São Paulo, durante a refeição o clima é leve e descontraído, com conversas fluidas. Neto observa Leninha com fascínio, sentindo-se acolhido em um ambiente de liberdade.
Após o final do almoço, quando o grupo se despede e vai embora, Neto e Leninha ficam sozinhos. Um clima de romance se estabelece entre os dois, culminando em uma relação sexual. Para Neto, esse momento representa uma transição para a maturidade e constitui o único registro de afeto genuíno e romântico na trama antes da internação.
A Humilhação e o Engano
Já de volta a São Paulo, Neto encontra-se com alguns amigos para pichar muros da cidade, o movimento frenético das latas de spray e a vigilância constante. Porem a polícia surpreende e flagra o grupo. Enquanto os amigos conseguem fugir, Neto é o único capturado e imobilizado pelos agentes.
A intimidação física é exercida pelos policiais como forma de punição extraoficial os policiais utilizam a tinta da própria pichação para pintar o rosto e o corpo de Neto e, agora deformado pela tinta preta, simbolizando a marca da marginalidade que a sociedade e sua família passarão a enxergar ele.
Wilson e Meire buscam o filho na delegacia e no interior do carro é marcada por um silêncio e desolação dos pais e a humilhação filho com rosto pichado. Já em casa a família durante o jantar, demonstra o colapso da comunicação. O barulho dos talheres batendo nos pratos é amplificado, pontuando a tensão e a mãe serve a mesa em silêncio
A Descoberta do Baseado .
Após o jantar Neto dorme em seu quarto. Enquanto isso o pai entra silenciosamente e vasculha, seus pertences. A pai tateando o tecido de uma jaqueta, culminando no encontro de um cigarro de maconha ("baseado"). Não há diálogo entre os dois; Sua expressão transita reforço da suspeita para o pavor absoluto observando o cigarro, com uma expressão de desolação e pavor, tratando o achado como a prova definitiva de que o filho é um viciado incurável. Wilson então conversa com Meire e sua filha mais velha, que o aconselha a internar o jovem sem sua autorização ou vontade, para "salvá-lo" do vício
A Emboscada
Neto está deitado no chão do quarto, relaxando, quando o pai entra e diz que precisam ir a um hospital visitar um amigo que está doente. Em um gesto de falsa confiança, Wilson chega a permitir que o filho dirija o carro, o que deixa Neto animado com a oportunidade.
• Wilson: “Neto, o que você está fazendo aí deitado no chão? Escuta, eu vou visitar um amigo meu que foi hospitalizado. Você vem comigo?”
• Neto (animado): “Posso ir guiando?”
• Wilson (falsa confiança): “Pode, pode sim.”
Neto assume a direção do carro, empolgado com a rara chance de dirigir o veículo do pai. Ao chegarem ao endereço, estacionam em frente a um grande portão de ferro. A arquitetura do hospital é mostrada em planos amplos, destacando a desolação e a tristeza do lugar. Neto estranha imediatamente o ambiente.
• Neto: “Ué, que lugar é esse? Isso aqui é o quê? É quartel do Exército?”
• Enfermeiro (interceptando): “Fica tranquilo que não é exército não.”
Assim que Neto cruza o portão, o clima muda bruscamente. Dois enfermeiros se aproximam, o cercam e o seguram pelos braços, indicando: “ Neto (assustado): “Peraí, o que é que está acontecendo? O que é isso? Cadê meu pai?”. Wilson observa a cena à distância, encostado no carro, sem dizer nada. Neto é arrastado para dentro da instituição contra a própria vontade e mantido sob contenção física enquanto um funcionário inicia um interrogatório burocrático.
• Funcionário: “Como é seu nome?”
• Neto: “Wilson de Souza Neto. Eu quero saber o que está acontecendo!”
• Funcionário: “O caso é o seguinte, Wilson: seu pai acha que você é viciado e trouxe você aqui para fazer um tratamento.”
• Neto (desesperado): “Amigo, isso é um mal-entendido! Vou chamar meu pai para esclarecer. Mas que tratamento? Eu não sou viciado! Pô, se eu tomasse pico tudo bem…”
• Funcionário: “Escuta, você fuma maconha? Seu pai disse que você fuma, disse que encontrou um cigarro no bolso da sua blusa. Todo mundo que foi internado aqui por causa de pico começou com maconha.”
• Neto: “Problema deles, eu não tenho nada a ver com pico! Maconha não vicia!”
• Funcionário: “Isso é o que você diz. Só que a medicina diz outra coisa.”
Diante da resistência de Neto, vários homens o imobilizam sobre uma maca ou cadeira. Um enfermeiro prepara uma seringa e aplica à força uma injeção de calmante pesado. À medida que o medicamento começa a agir, Neto sente vertigem, perde a força no corpo e, aos poucos, perde a consciência até desmaiar.
O Desperta para o Horror
Neto desperta em uma enfermaria deteriorada. O ambiente é precário: paredes descascadas, colchões velhos, sujeira espalhada e um forte cheiro de abandono. Ele conhece Ceará, interpretado por Gero Camilo, um interno inquieto, de comportamento infantilizado, que circula pelo espaço sem rumo. Mesmo confuso e afetado pelos remédios, Neto percebe a degradação do lugar e tenta entender onde está e o que aconteceu com ele. A rotina do hospital é marcada por regras rígidas, vigilância constante e pela perda total da autonomia dos internos. Os pacientes são tratados como corpos a serem controlados, não como pessoas.
Em paralelo, a narrativa mostra o consultório do Dr. Cintra. Ali, fica evidente a face corrupta do sistema. O médico discute friamente a necessidade de manter leitos ocupados apenas para garantir o repasse de verbas governamentais, revelando que a internação de Neto não é um cuidado, mas parte de um mecanismo de interesse e lucro.
Amizade com Rogério e a Rotina
No pátio durante o "banho de sol", aparece Rogério (Caco Ciocler), um interno experiente, que foi internado pela família por uso de drogas injetáveis, torna-se uma figura de referência para Neto. Rogério instrui Neto a não ingerir A cena transita entre o balcão de medicação e o pátio, onde Rogério explica que os remédios não visam a cura, e alerta Neto: "Eles vão impregná-lo de remédio... essas porcarias não curam ninguém".
Rogério demonstra como fingir a ingestão, cuspindo os comprimidos na palma da mão para guardá-los no bolso comprimidos dados pelos enfermeiros. Ele explica que a medicação serve apenas para "impregnar" o paciente e abrir o apetite de forma artificial, para que pareçam mais saudáveis ("corados") diante das visitas da família, mimetizando uma falsa melhora. Durante a visita familiar revela o efeito prático desse controle.
A visita ocorre no jardim bonito do hospital, onde Meire e Wilson observam o filho que fisicamente já apresenta direfença devido à medicação. Meire, se anima ao ver o filho, exclama: "Engordou, está corado, está muito bonito, meu filho". Neto reage com indignação, revelando a farsa do tratamento: "Mãe, tudo isso aqui é uma grande farsa. Eles nos entopem de remédios para abrir o apetite... Nos engordam como porcada num chiqueiro". A visita termina com a família saindo e Neto sendo contido enquanto implora para não ser deixado pelos pais. E ele caminha de volta para a ala coletiva com o olhar vago, processando o fato de que seus apelos não foram ouvidos.
Durante a noite rosto de jovem, que apresenta fortes espasmos musculares e tremores (efeito colateral do Haloperidol) sofre uma crise onde o maxilar trava e "repuxa" violentamente. Rogério percebe a agonia do amigo e intervém e traz um pedaço de madeira e o coloca na boca de Neto e aconselha: "Morde isso aqui... morde com força". A cena foca no esforço físico de Neto para controlar a dor e os espasmos enquanto morde a madeira para não quebrar os dentes ou morder a língua”. No dia seguinte Neto se depara, com a comida intragável sendo servida e da fila de pacientes apáticos. Durante a refeição, inicia-se um tumulto generalizado entre outros internos (uma briga por comida ou espaço). Ele observa a confusão e, em um plano de desespero, decide aproveitar a distração dos enfermeiros. Ele abandona a bandeja, levanta-se e corre em direção à porta lateral que dá acesso ao pátio externo, iniciando a sequência frenética da tentativa de fuga pelo muro.
A Sessão de Eletrochoque
Após a captura na fuga Neto é arrastado pelos enfermeiros para uma sala fria e isolada para receber a “punição”, os enfermeiros o imobilizam em uma maca e aplicam uma solução condutora nas têmporas e inserem um protetor bucal. O som ambiente desaparece, sendo substituído por um ruído agudo e insuportável, Neto recebe a primeira sessão de eletrochoque. E seu corpo apresenta espasmos violentos até a perda total de consciência. Ele tenta se levantar, mas sua está coordenação está visivelmente lentificada e descoordenada.
No outro dia Neto, vai até o pátio da instituição em um dia de rotina comum, sentado no chão de cimento, imóvel por horas. As cenas envolta enfatizam a apatia dos outros internos. Dessa vez ele não resiste mais à medicação, suas mãos trêmulas, incapazes de realizar tarefas simples, como abotoar a própria camisa, demonstrando a "impregnação" medicamentosa e com um olhar vago e salivação excessiva (baba), em um estado de um "zumbi" ou "morto-vivo". Wilson aparece para uma visita inesperada ao filho, e pela primeira vez, dá sinais de hesitação e angústia ao observar o estado do filho que já não tem mais forças para gritar. Ele percebe o rosto apático Neto enquanto sussurra de forma mecânica e repetitiva: "Me tira daqui... pai, me tira daqui". Wilson, impactado pela destruição física do filho (que está inchado e sem brilho nos olhos), decide levá-lo embora, assinando os papéis da alta contra as recomendações do Dr. Cintra.
O Retorno ao Lar e o Silêncio do Confinamento
Wilson caminha segurando o filho pelo portão de ferro para até o carro e, finalmente, para o apartamento da família. Durante o trajeto Neto, sentado no banco de trás do carro, olha através da janela para o mundo exterior, a luz do sol bate pelo seu rosto, mas ele permanece imóvel, sem reagir.
Já em casa a mãe Meire, tenta reestabelecer uma rotina de normalidade, oferece comida e pergunta se ele quer voltar a estudar ou trabalhar como vendedor. O Filho reage com uma apatia cortante e respostas ríspidas, evidenciando que, embora tenha saído fisicamente do hospital, a estrutura institucional e o trauma continuam habitando sua mente. Meire saindo do quarto, visivelmente triste e impotente evidenciando a distância emocional intransponível entre seu Neto e a família.
A Rejeição na Casa de Lobo
Neto tenta visitar Lobo, mas é barrado pela mãe do amigo proíbe a sua entrada, tratando-o com desprezo. Ela utiliza termos que reforçam o estigma da "loucura" e do "vício", impedindo tenha contato com o círculo de amizades anterior ao manicômio.
Ele sai desolado e caminha sozinho na calçada até uma livraria, onde busca refúgio no silêncio do ambiente, então avista sua Leninha (Valéria Alencar), a moça com quem teve um romance em Santos antes da internação. Ele se aproxima com esperança, mas fica desanimado quando ele percebe que ela está casada e possui uma vida da qual ele foi excluído. A interação é breve e desconfortável, selando a percepção de que o mundo exterior seguiu adiante enquanto ele estava "congelado" na instituição.
Neto tenta se adaptar ao trabalho de vendedor, uma atividade que aceita principalmente para agradar a mãe e demonstrar que é produtivo socialmente. Durante um atendimento, ele está agachado no chão, mostrando o funcionamento do aparelho para uma cliente, uma senhora. Enquanto tenta explicar os aspectos técnicos do produto, sua fala começa a falhar. Neto não consegue se concentrar e demonstra um desconforto físico evidente, provocado pelo barulho contínuo do motor do aspirador. Seu rosto inchado e o olhar fixo revelam as marcas deixadas pelo uso de medicações pesadas.
O som passa de um zumbido comum do ambiente para um ruído agudo e incômodo, que intensifica o mal-estar de Neto. As vozes ao redor começam a soar confusas e distantes, tornando-se difíceis de suportar. No meio de uma frase, Neto solta o bocal do aspirador, que continua ligado no chão. Ele se levanta de repente, deixa a cliente sem entender o que aconteceu e sai correndo do local. Ao chegar à rua, o barulho intenso do trânsito rompe de forma brusca aquele som distorcido que ele vinha ouvindo.
Neto sai correndo sem saber para onde ir. Seu rosto está suado, o olhar perdido, e ele atravessa o meio dos carros enquanto a cena se abre para mostrar o centro da cidade, tomado por um movimento intenso e agressivo de pessoas e veículos. Ele desvia dos pedestres quase trombando neles, andando rápido, assustado, como se tudo ao redor estivesse grande demais e fora de controle. A luz forte do sol e os reflexos nos prédios de vidro o incomodam profundamente, dando a sensação de que a cidade o pressiona e o ataca o tempo todo. O dia vai aos poucos dando lugar à noite. Já mais calmo, Neto aparece parado em frente a um clube noturno.
Dentro do local, ele se aproxima do bar. Abre uma garrafa de Coca-Cola e, sem pensar muito, despeja uma grande quantidade de cachaça dentro do refrigerante. Em seguida, bebe tudo de uma vez, como se precisasse se entorpecer para conseguir ficar ali. Alguns amigos antigos se aproximam e começam a cercá-lo. A câmera mostra closes distorcidos de bocas falando alto e rindo. Um deles, chamado Júlio, faz um comentário irônico e cruel, insinuando que Neto teria sido abusado durante a internação: "E aí, Neto? Os caras te enrabaram lá na cana?". Neto não responde com palavras. Ele encara o amigo com raiva contida, o maxilar travado, o corpo tenso, como se estivesse segurando algo prestes a explodir.
Ao encontra Bel (Talita Castro), Neto a puxa em direção ao banheiro. Eles tentam se beijar, mas a proximidade do corpo dela e o espaço fechado começam a deixá-lo desconfortável. De repente, sua expressão muda. E entre o rosto de Bel e imagens confusas que surgem na mente de Neto: paredes descascadas do manicômio, corredores frios, mãos de enfermeiros segurando seu corpo. Ele perde o controle, empurra Bel com força e sai do banheiro atordoado, indo direto para o salão principal. Em seguida, começa a destruir tudo ao redor. Ele joga garrafas contra as prateleiras do bar, vira mesas, quebra copos com as próprias mãos. O ambiente se transforma em caos, e os convidados entram em pânico, tentando se afastar.
A polícia invade o local. Neto reage com violência, resiste, grita e se debate. São necessários vários policiais para contê-lo e jogá-lo no chão sujo. A cena termina com um close em seu rosto pálido, algemado, enquanto as luzes vermelhas e azuis da sirene piscam ao fundo. Em Casa o pai recebe uma ligação na madrugada informando que seu filho Neto foi preso por resistência e vandalismo. Neto é internado novamente em uma segunda instituição psiquiátrica. Diferente da primeira, esta apresenta paredes brancas e uma aparência de ordem asséptica, porém mais repressiva. Ele é conduzido por enfermeiros com uma postura agora endurecida e silenciosa.
Durante a rotina de medicação no novo hospital Ivan (Jairo Mattos) observando os internos e percebe quando Neto decide sabotar o tratamento, tenta esconder o comprimido sob a língua. Ivan percebe a farsa e intercepta Neto. A transição de força é violenta: o enfermeiro pressiona o pescoço de Neto contra a parede em um plano fechado. Sem diálogos extensos, Ivan aplica uma injeção (Haloperidol) à força no músculo de Neto. A cena transita para ele sendo arrastado e jogado em uma cela solitária escura (cubículo). Após sair do isolamento, Neto está tem um plano e convence o interno Biu (Marcos Cesana) a ajudá-lo. Neto, tritura os comprimidos que finge engolir e misturando-os secretamente em uma garrafa de refrigerante (guaraná) destinada a um dos enfermeiros de plantão ingere a bebida e, em poucos minutos, entra em um estado de sedação profunda. A câmera foca no rosto do funcionário adormecido sobre a mesa, permitindo que Neto obtenha as chaves do pavilhão.
No interior do estoque de medicamentos (farmácia) do hospital. Neto está acompanhado pelo interno Biu, eles reúnem pilhas de caixas de psicotrópicos e fardos de seringas plásticas. Neto ateia fogo ao estoque e abandonam o local enquanto a fumaça começa a invadir o sistema de ventilação, na tentativa de fuga, as chamas consumem o estoque de seringas e remédios. Na manhã seguinte o enfermeiro Ivan (Jairo Mattos) descobre a autoria do incêndio após uma breve investigação e retaliação física. Resultando no retorno de Neto para a solitária sob condições degradantes, sem higiene, em um estado de abandono total: Ele permanece trancado por dias sem acesso a banheiro, sendo forçado a realizar suas necessidades fisiológicas na própria roupa, Não há fornecimento de comida regular ou água limpa. A fisionomia de Neto transita para um aspecto cadavérico e imundo, com o olhar perdido na penumbra.
Neto só é retirado do “castigo” da cela em estado de semi-consciência, momento em que ele decide escrever a carta definitiva para seu pai, diante das suas últimas forças, na aproximação lenta da câmera permite visualizar a primeira palavra escrita em um pedaço de papel amassado: "Pai". Ao lado dele, vê-se uma lixeira repleta de bitucas de cigarro, enfatizando o tempo transcorrido, o nervosismo e desespero. No dia de visita, em um jardim do hospital sob a luz do sol, Wilson está sentado em um banco aguardando o filho. Neto se aproxima lentamente, com o corpo curvado e o olhar baixo, evitando qualquer contato visual com o pai. Nenhum dos dois diz uma palavra. Em silêncio, Neto entrega uma carta a Wilson. O pai recebe o papel e o guarda sem ler naquele momento. Logo em seguida, Neto é conduzido de volta para o interior do pavilhão.
Já na barbearia do hospital, Enfermeiros e o barbeiro tentam forçar Neto a se sentar para cortar o cabelo, seguindo o padrão estético de "higiene" da instituição, neto se recusa-se terminantemente. transita para a violência: ele é imobilizado pelos enfermeiros sob o olhar vigilante de Ivan (Jairo Mattos). Diante da resistência e à insubordinação, Ivan ordena que ele seja novamente trancado na solitária (o cubículo/gaiola).
Neto ateia fogo deliberadamente em seu próprio colchão como último recurso de existência e denúncia. Biu percebe o incêndio e grita desesperadamente por socorro, acreditando que o amigo morreu. O enfermeiro Ivan surge no corredor, observa o fogo consumindo a cela e, em um ato de negligência deliberada, inicialmente não toma atitude alguma para apagar as chamas ou abrir a porta.
O Despertar do Pai
Wilson estaciona o carro e finalmente abre a carta. A voz em off de Neto narra o conteúdo: "Pai, as coisas ficam muito boas quando a gente esquece. Mas eu não esqueci o que você fez comigo. Eu não esqueci a sua covardia...". Impactado pelas palavras e pelo relato dos horrores (incluindo os eletrochoques), Wilson retorna ao hospital para retirar o filho imediatamente e de forma definitiva. O filme termina com Neto e Wilson sentados lado a lado na guia da calçada (meio-fio). Wilson chora copiosamente, enquanto Neto permanece com o olhar vago, evidenciando as sequelas. O trecho da carta apresentado no filme foi o seguinte:
Pai, agora você vai me ouvir: as coisas ficam muito boas quando a gente esquece, mas eu não esqueci a sua covardia. Essas palavras que eu estou lhe falando é a verdade nua e crua: eu não esqueci o que você fez comigo... Já chega o tempo que eu fiquei sozinho, sofrendo e chorando... Bem, agora que eu tô melhorando você me aparece? Tô te mostrando a porta da rua pra que você saia, sem eu te bater.
O modelo Manicomial e a Exclusão Presente na Obra Cantos dos Malditos – Bicho de Sete Cabeças
A década de 1970 foi marcada pelo período da Ditadura Militar (1964–1985) um censura e opressão. Nesse período, o cuidado com a saúde mental era feito em manicômios .Essas instituição acabavam isolando e desumanizando as pessoas. O paciente perdia sua liberdade, sua rotina e, muitas vezes, até sua identidade. As pessoas eram internadas por muito tempo, e naquela época isso era visto com normalidade pela sociedade. A história de Carrano (Neto) ilustra como o modelo manicomial operava não apenas como tratamento terapêutico, mas também como instrumento de normalização social.
No hospital psiquiátrico, Neto não passa por uma avaliação clínica criteriosa antes de ser internado. Sua entrada na instituição ocorre de forma automática, sem escuta qualificada ou diagnóstico fundamentado. Esse ponto é central para a análise, pois evidencia como o saber baseado no senso comum especialmente o do pai, encontra respaldo em um sistema psiquiátrico excludente, típico do período. A instituição não questiona a decisão familiar; ao contrário, legitima-a. Assim, percebe-se que a internação não decorre de uma necessidade clínica comprovada, mas de uma reação atravessada pelo medo e por valores sociais que associavam o uso de drogas, ainda que ocasional, à doença mental e ao perigo social.
O filme evidencia esse funcionamento institucional por meio do personagem Dr. Cintra Araújo, diretor do hospital. Ele é retratado como representante de uma psiquiatria higienista e autoritária, mais preocupada com a manutenção de verbas e da ordem institucional do que com o cuidado terapêutico. A narrativa denuncia práticas de internação prolongada e indiscriminada, incluindo pessoas socialmente vulneráveis que sequer apresentavam transtornos mentais. Dessa forma, o hospital aparece como espaço de segregação social, onde a exclusão é justificada sob o discurso médico.
O relato autobiográfico de Bueno reforça essa denúncia ao descrever a aparência de normalidade que encobria a violência cotidiana:
Uma paz celestial Às vezes quebrada por algum grito de um crônico dentro do pavilhão que quase Instantaneamente é sufocado pela mão do enfermeiro em sua garganta. [...] Não Teríamos a mínima credibilidade, mesmo que rasgássemos o corpo, para provar Que o que ocorria lá dentro era o inverso mostrado aqui fora. O hospício parecia Em festa. Era quinta-feira, dia de visitas. (Bueno, 2004, p. 81)
Neto passa a vivenciar um contexto marcado por práticas abusivas sistemáticas. É submetido a condições insalubres de permanência, agressões físicas, isolamento em celas individuais e administração excessiva de medicações e procedimento frequentemente descrito como uma forma de “contenção química”, utilizada mais como mecanismo disciplinar do que terapêutico.
Não sei precisar o tempo que fiquei desacordado. Quando acordei, a primeira coisa que veio à minha mente foi uma sensação estranha. Não sabia se já havia Tomado choque ou se ainda iria tomá-lo. Levantei rápido. Uma dor de cabeça como se alguém tivesse arrebentando uma garrafa nela. A dor de cabeça era Muito forte, meu peito também doía muito. Eu estava todo babado. E as dores Eram tantas. Meus pensamentos todos embaraçados. Eu estava sentado, nem Sabia como havia conseguido me sentar. [...] Com sacrifício tomei aquele café, a Reação veio em seguida. Vomitei tudo em cima da mesa. Levado ao pátio, Procurei um espaço. Sentei-me no chão de cimento. Os outros olhavam. Não via Ninguém. As dores de cabeça, peito... tudo doía. Fui escorregando pela parede Até chegar ao chão com a cabeça. Encolhi-me (Bueno, 2004, p. 90- 91)
Ainda que desejassem relatar aos familiares e amigos as violências e arbitrariedades vivenciadas no interior da instituição, essa denúncia tornava-se praticamente inviável, pois seus discursos eram frequentemente interpretados como delírios ou sintomas da própria condição psiquiátrica. Neto tentou, em algumas ocasiões, comunicar o que estava ocorrendo, porém não obteve credibilidade.
Práticas criminosas e torturantes se transformaram em culturas. A “cultura manicomial” é uma versão desastrada de interpretação do que é normal para mim e para a sociedade preconceituosa que me domina ...Essa cultura manicomial ofusca a nossa razão, nos restringe a uma única interpretação e gera rejeição e terríveis preconceitos.(Bueno, 2004, p.168).
Neto diante da descrença de sua família e da continuidade das punições, como a aplicação recorrente de eletrochoques, acabou assumindo uma postura de resignação, optando por permanecer sedado e emocionalmente dissociado da realidade que o cercava, como forma de minimizar o sofrimento imposto pela institucionalização:
Nunca havia tomado tantos medicamentos em minha vida. Fiquei tão impregnado que não conseguia desabotoar um botão de camisa. [...] Indiferença tomando conta de meu ser. Sedado, eu não tinha mais vontade própria. No pátio, sentava e olhava para um ponto qualquer por horas e horas. Sentia-me leve, flutuando. Os dias passavam... Os comprimidos... Eu os tomava. Os choques eu os supria automaticamente. Não me perturbavam mais. Nada ali dentro me perturbava mais. Engordava forte e bonito... [...] Depois oitenta, noventa dias, não sei, não me lembro... Comprimidos e mais comprimidos. Meus parentes vinham, não todos, mas meu pai, sempre. Eram horríveis as horas que passava com eles no jardim. Estranhos, eles me incomodavam. (Bueno, 2004, p. 116-117)
Um dos momentos mais brutais da obra é a representação das 21 sessões de eletrochoque às quais Neto é submetido sem qualquer finalidade terapêutica, funcionando apenas como instrumento de punição. Dentro da instituição, ele conhece Rogério (Gero Camilo), um interno subversivo que se torna sua referência de resistência. Desesperado e percebendo a aniquilação de sua identidade, Neto ateia fogo em sua própria cela, um ato extremo que finalmente desperta a consciência de seus pais sobre o horror que ocorria além dos muros do hospital.
Embora consiga sair da instituição, Neto carrega sequelas profundas e enfrenta a dificuldade de se reintegrar a uma sociedade que agora o rotula como "louco”. O filme não apresentou denúncias graves e diretas, mas o livro sim:
São uns desgraçados... Tinha que pegar aquele corno manso do Dr. Alaor e Aplicar choque naquele puto! [...] Este era seu nome verdadeiro, como também do enfermeiro Marcelo, do paciente Fontana e do psiquiatra famigerado, Dr. Alaor Guimont. Todos nomes reais. Dos outros nomes não me recordo, mas os peresonagens são também reais. (Bueno, 2004, p. 92- 93).
O filme Bicho de Sete Cabeças se destaca como uma das produções mais representativas do período conhecido como Cinema da Retomada, marcado pela reorganização do cinema brasileiro após a extinção da Embrafilme, em 1990, e pela redução significativa dos investimentos públicos na área cultural. Nesse contexto, muitos realizadores passaram a priorizar narrativas mais realistas e socialmente engajadas, buscando retratar problemas estruturais da sociedade brasileira, como a exclusão social, a violência institucional e a negação de direitos.
Inspirado no livro Canto dos Malditos, o filme teve forte impacto social ao trazer visibilidade às práticas violentas presentes em instituições psiquiátricas. A experiência vivida por Austregésilo Carrano Bueno transformou-se em uma importante denúncia pública das violações cometidas em nome do tratamento da loucura, contribuindo para ampliar o debate sobre a necessidade de mudanças no modelo de atenção em saúde mental. Tanto seu livro quanto a adaptação cinematográfica tornaram-se referências simbólicas para a luta antimanicomial no Brasil, ao expor os efeitos desumanizantes da institucionalização psiquiátrica.
A repercussão do filme também dialoga com o contexto histórico da aprovação da Lei nº 10.216, que redirecionou o modelo assistencial em saúde mental no país, priorizando o cuidado em serviços comunitários e a garantia de direitos às pessoas em sofrimento psíquico. Ainda que não seja possível afirmar que a produção cinematográfica tenha sido responsável direta por essa mudança legislativa, é possível reconhecê-la como um importante instrumento de sensibilização social, fortalecendo discussões já existentes sobre a superação do modelo manicomial. Dessa forma, o alcance dessas produções ultrapassa o campo somente artístico, evidenciando o papel da arte como ferramentas importantes de reflexão social. Ao narrar o sofrimento de Neto, o filme permite problematizar criticamente os mecanismos institucionais que historicamente classificaram e silenciaram sujeitos considerados “desviantes”, revelando como a loucura foi utilizada como justificativa para práticas de exclusão e controle social.
Na atualidade, o debate sobre a institucionalização em saúde mental continua sendo importante. Apesar dos avanços alcançados com a Reforma Psiquiátrica e com a luta antimanicomial, ainda existem práticas que mantêm formas de exclusão e controle das pessoas em sofrimento psíquico. Percebe-se um aumento das políticas públicas voltadas ao cuidado comunitário e territorial, que buscam valorizar a autonomia do sujeito, a escuta e a convivência social.
No entanto, também há muitos desafios. Entre eles, destacam-se a dificuldade de organizar redes de cuidado que funcionem de forma integrada, a realização de diagnósticos sem uma investigação mais cuidadosa da história e do contexto da pessoa, e o uso excessivo de medicamentos como principal forma de tratamento. Esses fatores mostram que, mesmo com mudanças importantes, ainda é necessário avançar para práticas de cuidado em saúde mental mais humanas, responsáveis e atentas à singularidade de cada sujeito.
Conclusão
Tanto o livro quanto o filme tornaram-se referências importantes para a Luta Antimanicomial no Brasil. As obras contribuíram para ampliar o debate público sobre os direitos das pessoas em sofrimento psíquico e sobre a necessidade de substituição do modelo manicomial por práticas de cuidado em liberdade. O filme Bicho de sete cabeça foi lançado em junho 2021, no mesmo ano em que foi criada a Lei nº 10.216/2001, marcou a Reforma Psiquiátrica no Brasil, o que tornou o filme ainda mais importante naquele contexto. Essa lei ajudou a diminuir as internações longas e incentivou um tratamento mais humano e próximo da família e da comunidade.
Por isso, a história de Carrano não é só um filme ou uma obra artística. Ela também tem um papel político e social, porque ajudou as pessoas a refletirem sobre como os pacientes eram tratados e a defenderem um cuidado mais respeitoso e humano na saúde mental. Além disso, a obra e o filme ajudaram a defender a ideia de tratamento em liberdade, mostrando que isolar nem sempre é a melhor solução. Também valorizaram a importância dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), que oferecem atendimento mais humano, próximo da família e da comunidade. Por fim, reforçaram a importância dos direitos humanos na saúde mental, lembrando que toda pessoa, independentemente de sua condição, merece respeito, dignidade e cuidado adequado.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BUENO, A.C. Canto dos Malditos. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
MINAYO, M. C. de S.(Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.
Fontes
BICHO DE SETE CABEÇAS. Direção: Laís Bodanzky. Produção: Sara Silveira. Brasil: Buriti Filmes, 2001. 1 filme (74 min.).
1 Discente do Curso Superior de Psicologia do Instituto de Ciências Humanas da UNIP, Campus Assis. E-mail: [email protected]
2 Discente do Curso Superior de Psicologia do Instituto de Ciências Humanas da UNIP, Campus Assis. E-mail: [email protected]
3 Docente do Curso Superior de Psicologia do Instituto de Ciências Humanas da UNIP, Campus Assis. Mestre em Psicologia pela Unesp de Assis, Mestre em História pela Unesp de Assis e Doutora em História pela Unesp de Assis. E-mail: [email protected]
4 Discente do Curso Superior de Psicologia do Instituto de Ciências Humanas da UNIP, Campus Assis. E-mail: [email protected]
5 Discente do Curso Superior de Psicologia do Instituto de Ciências Humanas da UNIP, Campus Assis. E-mail: [email protected]
6 Psicólogo atuante no Acolhimento Institucional da Prefeitura Municipal de Florínea- SP. E-mail: [email protected]
7 Psicólogo clínico, pós-graduado em Gênero e Sexualidade pela FAAL, com atuação voltada à clínica afirmativa e às questões relacionadas à população LGBT+.
8 Psicóloga atuante na clínica de reabilitação neurofuncional Neurotherapy em Assis - SP. E-mail: [email protected]
9 Disponível em https://www.infoescola.com/biografias/austregesilo-carrano/. Acesso: 14 fev 2026.