AUSÊNCIA MATERNA NA INFÂNCIA: REPERCUSSÕES NO DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO E NA CONSTRUÇÃO DOS VÍNCULOS AFETIVOS

MATERNAL ABSENCE IN CHILDHOOD: REPERCUSSIONS ON PSYCHOLOGICAL DEVELOPMENT AND THE CONSTRUCTION OF AFFECTIVE BONDS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793401694

RESUMO
A infância constitui um período importante para o desenvolvimento psicológico e para a construção dos vínculos afetivos, sendo as primeiras relações de cuidado relevantes para as experiências emocionais e relacionais da criança. Nesse contexto, a ausência materna pode envolver tanto o afastamento físico da mãe quanto situações de indisponibilidade emocional, caracterizadas por distanciamento afetivo, baixa responsividade ou dificuldades persistentes de envolvimento emocional. Este estudo teve como objetivo analisar as possíveis repercussões da ausência materna na infância no desenvolvimento psicológico e na construção dos vínculos afetivos. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, realizada a partir da análise de produções científicas relacionadas à ausência materna, ao desenvolvimento psicológico infantil, às relações de cuidado e aos vínculos afetivos. Os resultados indicaram que experiências de separação materna e baixa disponibilidade emocional podem estar relacionadas a aspectos do desenvolvimento psicológico e socioafetivo, enquanto estudos complementares sobre rejeição e negligência parental evidenciam associações com problemas internalizantes e externalizantes. Também foram identificadas relações entre experiências afetivas vivenciadas na infância e aspectos dos vínculos posteriores, como ansiedade e evitação nos relacionamentos, medo de intimidade, solidão e qualidade das relações afetivas. Entretanto, essas repercussões não constituem uma trajetória única ou inevitável, pois outras relações, contextos e experiências também participam do desenvolvimento. Conclui-se que a ausência materna constitui uma experiência complexa, cuja compreensão requer considerar as circunstâncias do afastamento, a qualidade das relações de cuidado e a disponibilidade emocional, bem como as diferentes experiências afetivas construídas ao longo da vida.
Palavras-chave: ausência materna; desenvolvimento psicológico; infância; relações de cuidado; vínculos afetivos.

ABSTRACT
Childhood is an important period for psychological development and the formation of affective bonds, with early caregiving relationships playing a relevant role in children's emotional and relational experiences. In this context, maternal absence may involve both the mother's physical absence and situations of emotional unavailability characterized by emotional distance, low responsiveness, or persistent difficulties in emotional involvement. This study aimed to analyze the possible repercussions of maternal absence during childhood on psychological development and the formation of affective bonds. A qualitative bibliographic study was conducted based on the analysis of scientific publications addressing maternal absence, child psychological development, caregiving relationships, and affective bonds. The findings indicated that experiences of maternal separation and low emotional availability may be related to aspects of psychological and socio-affective development, while complementary studies on parental rejection and neglect show associations with internalizing and externalizing problems. Relationships were also identified between affective experiences during childhood and aspects of later bonds, including anxiety and avoidance in relationships, fear of intimacy, loneliness, and relationship quality. However, these repercussions do not constitute a single or inevitable developmental trajectory, since other relationships, contexts, and experiences also contribute to individual development. It is concluded that maternal absence is a complex experience whose understanding requires consideration of the circumstances surrounding separation, the quality of caregiving relationships and emotional availability, as well as the different affective experiences constructed throughout life.
Keywords: affective bonds; childhood; maternal absence; psychological development; caregiving relationships.

1. INTRODUÇÃO

A infância constitui um período importante para o desenvolvimento psicológico, emocional e social, uma vez que é nessa etapa que se estabelecem algumas das primeiras relações significativas da vida. Por meio das interações com as pessoas responsáveis pelos cuidados, a criança vivencia experiências de proteção, acolhimento, segurança e afeto, que participam da construção de seus primeiros vínculos e de sua forma de se relacionar com o outro.

Entre essas relações, o vínculo com a figura materna ocupa um lugar relevante nas discussões sobre o desenvolvimento infantil. Mondardo e Della Valentina (1998) destacam a importância da figura materna nas etapas iniciais e estruturantes da vida mental da criança, ressaltando o significado dessa relação durante os primeiros anos. Essa importância não significa considerar a mãe como única responsável pelo desenvolvimento da criança, mas reconhecer que a relação estabelecida com ela pode constituir uma das primeiras e mais significativas experiências afetivas da infância.

As primeiras relações também são discutidas a partir dos estudos sobre apego. Fernandes e Peixoto Junior (2021) abordam o vínculo primário entre a criança e a mãe e relacionam as experiências de apego às formas iniciais de comunicação. Nessa perspectiva, o cuidado não envolve somente o atendimento das necessidades físicas, mas também as interações por meio das quais a criança experimenta proximidade, proteção e disponibilidade emocional.

Ao considerar a importância dessas experiências, torna-se necessário compreender também o que pode ocorrer quando a relação materna é marcada pela ausência. Embora o termo seja frequentemente associado ao afastamento físico da mãe, a ausência materna pode ser analisada de maneira mais ampla. Neste estudo, são consideradas tanto situações de ausência física, decorrentes de circunstâncias como abandono, morte ou separação prolongada, quanto experiências de indisponibilidade emocional, nas quais existe presença física, mas a relação é marcada por distanciamento afetivo, baixa responsividade ou dificuldade persistente de envolvimento emocional.

Essa diferenciação é importante porque estar fisicamente presente não significa, necessariamente, estar emocionalmente disponível. Kim et al. (2017), ao investigarem a disponibilidade emocional materna durante o primeiro ano de vida, encontraram relações entre a qualidade dessas interações e a segurança do apego infantil aos 12 meses. Por outro lado, situações de afastamento também precisam ser compreendidas considerando as condições em que acontecem. Böing e Crepaldi (2004), ao discutirem abandono e separação entre mãe e bebê, apontam possíveis riscos relacionados à ruptura de vínculos significativos e destacam a maternagem como um importante fator de proteção.

A compreensão dessas relações também pode ser ampliada a partir da Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby. Neder, Ferreira e Amorim (2020), ao discutirem essa perspectiva, abordam o apego como um sistema relacionado à busca de proximidade com uma figura capaz de proporcionar segurança. Ramires e Schneider (2010), ao revisarem conceitos da Teoria do Apego, discutem ainda os modelos representacionais internos e sua relação com a organização das experiências afetivas. Essas contribuições oferecem elementos para compreender a importância das primeiras relações e sua participação na construção das experiências emocionais do indivíduo.

As experiências afetivas construídas durante a infância também podem apresentar relações com etapas posteriores do desenvolvimento. Becker e Crepaldi (2019), em uma revisão integrativa composta por estudos nacionais e internacionais, analisaram a relação entre o apego desenvolvido na infância e os relacionamentos conjugais e parentais, identificando relações entre características de apego inseguro, maior tendência a conflitos conjugais e menor qualidade dos relacionamentos amorosos. Dessa forma, investigar a ausência materna durante a infância também possibilita discutir de que maneira experiências de afastamento ou indisponibilidade emocional podem se relacionar com aspectos psicológicos e socioafetivos e com a construção dos vínculos ao longo da vida.

A relevância desta temática para a Psicologia está na possibilidade de ampliar a compreensão sobre as experiências relacionadas à ausência materna e suas possíveis repercussões no desenvolvimento. Compreender essa ausência para além da dimensão física permite considerar também situações em que existe convivência entre mãe e filho, mas pouca disponibilidade afetiva. Ao mesmo tempo, essa análise precisa reconhecer que o desenvolvimento humano envolve diferentes relações, experiências e contextos, não sendo explicado exclusivamente pela presença ou ausência da mãe.

Diante disso, este estudo parte da seguinte questão de pesquisa: quais são as possíveis repercussões da ausência materna na infância no desenvolvimento psicológico e na construção dos vínculos afetivos? A partir dessa questão, o objetivo geral consiste em analisar as possíveis repercussões da ausência materna na infância no desenvolvimento psicológico e na construção dos vínculos afetivos. Como objetivos específicos, busca-se compreender a importância dos primeiros vínculos com a figura materna para o desenvolvimento infantil; caracterizar a ausência materna considerando o afastamento físico e a indisponibilidade emocional; identificar possíveis repercussões psicológicas e socioafetivas relacionadas a essas experiências; e discutir de que maneira as experiências afetivas vivenciadas na infância podem se relacionar com a construção dos vínculos ao longo da vida.

Para alcançar os objetivos propostos, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, mediante levantamento, seleção e análise de produções científicas relacionadas à ausência materna na infância, ao desenvolvimento psicológico, às relações de cuidado e aos vínculos afetivos. A análise da literatura buscou reunir e discutir contribuições teóricas e resultados de estudos pertinentes à questão investigada, possibilitando a compreensão das diferentes dimensões envolvidas na temática.

2. AUSÊNCIA MATERNA NA INFÂNCIA E SUAS REPERCUSSÕES PSICOLÓGICAS E AFETIVAS

2.1. Os Primeiros Vínculos com a Figura Materna e o Desenvolvimento Infantil

As primeiras relações estabelecidas pela criança possuem importância significativa para o desenvolvimento psicológico e afetivo. Desde os primeiros meses de vida, o bebê depende de outras pessoas não apenas para o atendimento de suas necessidades físicas, mas também para experiências de proteção, proximidade, comunicação e afeto. Nesse processo, a relação com a figura materna frequentemente constitui um dos primeiros vínculos significativos vivenciados pela criança.

Fernandes e Peixoto Junior (2021) discutem a relação entre apego e comunicação no desenvolvimento infantil, destacando o vínculo primário estabelecido entre a criança e a mãe. Os autores relacionam as primeiras experiências de apego às formas iniciais de comunicação e interação, demonstrando que o desenvolvimento ocorre em um contexto relacional no qual a criança gradualmente constrói formas de se comunicar e de estabelecer contato com o outro.

Nesse contexto, a dimensão afetiva dos cuidados assume relevância. Mendes e Pessôa (2013, p. 15) afirmam que “A afetividade e a emoção são consideradas dimensões essenciais dos cuidados parentais”. As autoras discutem a comunicação afetiva presente nas relações entre pais e filhos e destacam que as práticas de cuidado envolvem manifestações emocionais que participam das interações estabelecidas com a criança. Dessa maneira, cuidar não corresponde apenas ao atendimento das necessidades básicas, mas também envolve formas de interação, comunicação e expressão afetiva.

A qualidade dessas interações pode apresentar relações com a construção do apego infantil. Kim et al. (2017), em um estudo com 128 díades de mães e bebês, avaliaram a disponibilidade emocional materna em diferentes momentos durante o primeiro ano de vida. Os resultados demonstraram que tanto os níveis quanto as trajetórias de disponibilidade emocional materna estavam relacionados à segurança do apego aos 12 meses. Esses achados contribuem para compreender que a presença física da mãe, isoladamente, não representa toda a experiência relacional da criança, uma vez que a qualidade da interação e a disponibilidade emocional também possuem importância.

Nesse sentido, a relação entre mãe e criança envolve aspectos que ultrapassam a proximidade física. Uma mãe pode estar presente no cotidiano e, ainda assim, apresentar dificuldades persistentes para responder emocionalmente às necessidades da criança. Da mesma forma, a experiência infantil pode ser influenciada pela maneira como o cuidado é oferecido, pela responsividade e pela continuidade das interações estabelecidas.

Mondardo e Della Valentina (1998) também destacam a importância da figura materna nas etapas iniciais e estruturantes da vida mental. A partir da discussão de um caso clínico infantil, as autoras ressaltam a relevância do vínculo materno para o desenvolvimento da criança. Por se tratar de um estudo fundamentado em um caso específico, suas considerações não devem ser generalizadas para todas as experiências infantis, mas contribuem para a discussão acerca da importância das primeiras relações afetivas.

Reconhecer a importância da figura materna não significa considerar que somente a mãe seja capaz de oferecer segurança, afeto e cuidado ou que o desenvolvimento da criança dependa exclusivamente dessa relação. Outras pessoas podem assumir funções significativas de cuidado e estabelecer vínculos importantes ao longo do desenvolvimento. Entretanto, quando a mãe constitui uma das principais figuras de referência da criança, a qualidade e a continuidade dessa relação podem adquirir especial relevância em sua experiência afetiva.

Dessa forma, compreender os primeiros vínculos permite analisar com maior precisão as experiências relacionadas à ausência materna. Se as relações iniciais envolvem proximidade, disponibilidade, comunicação e responsividade emocional, a ausência não precisa ser entendida apenas como separação física. Ela também pode envolver situações em que existe convivência, mas a relação apresenta pouca disponibilidade emocional. Essa distinção conduz à necessidade de compreender as diferentes formas pelas quais a ausência materna pode ser vivenciada.

2.2. Ausência Materna: Afastamento Físico e Indisponibilidade Emocional

A ausência materna pode ocorrer em diferentes circunstâncias e não corresponde a uma experiência única. Em alguns casos, existe afastamento físico entre mãe e filho, enquanto em outros a mãe permanece presente no cotidiano, mas apresenta baixa disponibilidade emocional. Diferenciar essas experiências é importante para evitar que situações distintas sejam analisadas como se fossem equivalentes ou produzissem necessariamente as mesmas repercussões.

O afastamento físico pode ocorrer em decorrência de abandono, morte, separações familiares, institucionalização, adoção ou outras circunstâncias que provoquem interrupção ou redução significativa da convivência entre mãe e criança. Böing e Crepaldi (2004), ao discutirem os efeitos do abandono para o desenvolvimento psicológico de bebês deixados para adoção, abordam situações de separação, abandono e institucionalização e destacam possíveis riscos relacionados à ruptura dos vínculos e à privação de cuidados. As autoras também ressaltam a maternagem como fator de proteção, demonstrando a importância da existência de uma relação de cuidado capaz de oferecer continuidade e atenção às necessidades da criança.

As diferentes formas de afastamento físico, contudo, não representam experiências equivalentes. Morte materna, abandono e separação prolongada apresentam circunstâncias próprias, e seus possíveis efeitos precisam ser analisados considerando fatores como idade da criança, duração do afastamento, condições familiares e presença de outras figuras de cuidado. Essa diferenciação evita compreender a ausência como uma condição isolada do contexto em que é vivenciada.

A relevância de investigar diretamente o afastamento materno aparece no estudo longitudinal de Crawford et al. (2009), que analisou separações prolongadas da mãe ocorridas antes dos cinco anos. Os resultados indicaram que essas experiências predisseram níveis mais elevados de sintomas associados ao transtorno de personalidade borderline, avaliados repetidamente desde o início da adolescência até a vida adulta. Os autores observaram que essa relação permaneceu em grande parte independente de outros fatores de risco considerados no estudo. Por investigar um desfecho psicológico específico, esses resultados não podem ser generalizados para todas as experiências de ausência materna, mas demonstram que determinadas separações maternas precoces podem apresentar relações com trajetórias psicológicas posteriores.

A dimensão emocional apresenta características diferentes. Nesse caso, não existe necessariamente afastamento físico, mas podem ocorrer dificuldades persistentes de responsividade, sensibilidade e envolvimento emocional. Kim et al. (2017) demonstraram que os níveis e as trajetórias de disponibilidade emocional materna durante o primeiro ano estavam relacionados à segurança do apego infantil aos 12 meses, indicando que a convivência física, por si só, não permite avaliar a qualidade da relação estabelecida entre mãe e criança.

Essa compreensão também é sustentada por Easterbrooks, Bureau e Lyons-Ruth (2012), que acompanharam famílias em situação de risco psicossocial desde a infância até a idade escolar. O estudo identificou relações entre aspectos da disponibilidade emocional materna e o funcionamento das crianças, incluindo comportamento de apego desorganizado ou controlador, problemas comportamentais no ambiente escolar e sintomas depressivos. Os resultados reforçam a relevância da qualidade emocional das interações maternas para a compreensão do desenvolvimento.

Estudos sobre rejeição e negligência parental também oferecem contribuições, desde que esses conceitos não sejam considerados equivalentes à ausência materna. Frieza afetiva, rejeição, negligência e indisponibilidade emocional podem compartilhar características relacionadas à fragilidade da interação e do cuidado, mas representam fenômenos distintos. Dessa forma, pesquisas sobre essas dimensões podem complementar a análise da ausência emocional sem substituir evidências diretamente relacionadas à separação ou à disponibilidade materna.

Neste trabalho, portanto, a ausência materna é compreendida a partir de duas dimensões principais: o afastamento físico e a indisponibilidade emocional. Essa delimitação permite considerar tanto situações de ruptura ou redução significativa da convivência quanto experiências em que existe presença física, mas a relação apresenta distanciamento afetivo ou baixa responsividade. Estabelecida essa diferenciação conceitual, torna-se possível analisar de forma mais precisa as repercussões psicológicas e socioafetivas encontradas na literatura.

2.3. Repercussões Psicológicas e Socioafetivas da Ausência Materna

A análise da literatura indica que experiências de separação materna e baixa disponibilidade emocional podem estar relacionadas a diferentes aspectos do desenvolvimento psicológico e socioafetivo. Os resultados encontrados não apontam para uma única consequência da ausência, mas para possíveis repercussões que variam conforme as características da experiência, o período do desenvolvimento, a continuidade dos cuidados e as demais relações estabelecidas pela criança.

No contexto do afastamento físico, os estudos analisados evidenciam que a ruptura da convivência pode adquirir relevância especialmente quando interfere na continuidade das relações de cuidado. Enquanto Böing e Crepaldi (2004) destacam possíveis riscos relacionados ao abandono, à separação e à privação de cuidados nos períodos iniciais da vida, Crawford et al. (2009) apresentam evidências longitudinais de que separações maternas prolongadas antes dos cinco anos estiveram relacionadas a níveis mais elevados de sintomas de personalidade borderline ao longo da trajetória entre adolescência e vida adulta. Embora investiguem contextos e desfechos distintos, os estudos convergem ao indicar que a separação precisa ser compreendida juntamente com as condições relacionais que acompanham a experiência.

Em relação à dimensão emocional, os estudos também apontam para a relevância da qualidade da interação. Kim et al. (2017) relacionaram a disponibilidade emocional materna à segurança do apego no primeiro ano, enquanto Easterbrooks, Bureau e Lyons-Ruth (2012) encontraram relações entre aspectos dessa disponibilidade e manifestações observadas posteriormente, incluindo comportamento de apego desorganizado ou controlador, problemas comportamentais escolares e sintomas depressivos. Considerados em conjunto, esses achados demonstram que tanto características mais imediatas do vínculo quanto aspectos posteriores do funcionamento infantil podem estar relacionados à qualidade das interações maternas.

Esses resultados podem ser complementados por pesquisas sobre aceitação e rejeição parental. Putnick et al. (2015) acompanharam 1.247 famílias durante três anos em nove países e identificaram que maior percepção de rejeição parental predisse aumentos em problemas internalizantes e externalizantes, além de reduções no desempenho escolar e no comportamento pró-social. Os padrões encontrados foram semelhantes para mães e pais e, em grande parte, entre os países investigados.

Os problemas internalizantes correspondem, de maneira geral, a manifestações direcionadas para o próprio indivíduo, podendo envolver ansiedade, tristeza, retraimento e sofrimento emocional. Os problemas externalizantes, por sua vez, apresentam-se de forma mais direcionada ao ambiente e às relações, podendo envolver agressividade, oposição e dificuldades comportamentais. A identificação dessas manifestações em estudos sobre rejeição parental não significa que sejam consequências específicas da ausência materna, mas amplia a compreensão acerca de possíveis repercussões relacionadas a experiências afetivas negativas no contexto familiar.

Rothenberg et al. (2022), ao acompanharem 1.315 crianças de nove países entre os 7 e os 14 anos, também identificaram associações entre diferentes formas de rejeição parental e problemas internalizantes e externalizantes. Em perspectiva mais ampla, a meta-análise realizada por Khaleque e Rohner (2002), composta por 43 estudos, encontrou associação entre aceitação-rejeição parental percebida e ajustamento psicológico de crianças e adultos. Esses estudos não investigam diretamente ausência materna, mas oferecem evidências complementares acerca da relação entre características das experiências parentais e o funcionamento psicológico.

A comparação entre os estudos permite identificar dois conjuntos de evidências que se complementam sem serem equivalentes. De um lado, pesquisas sobre separação materna e disponibilidade emocional analisam dimensões diretamente relacionadas ao recorte deste trabalho. De outro, estudos sobre rejeição e negligência parental contribuem para compreender características de relações marcadas por frieza afetiva, baixa aceitação ou fragilidade dos cuidados. Essa distinção fortalece a análise ao impedir que conceitos diferentes sejam utilizados como se representassem o mesmo fenômeno.

De maneira geral, os resultados analisados apontam que experiências relacionadas à ausência física ou à baixa disponibilidade emocional materna podem estar associadas a aspectos emocionais, comportamentais e relacionais em diferentes etapas do desenvolvimento. Entretanto, a literatura também evidencia a importância da continuidade dos cuidados e das demais relações disponíveis. Assim, compreender as repercussões da ausência materna exige considerar não apenas a ocorrência da ausência, mas a forma como ela é vivenciada e as condições relacionais presentes antes, durante e depois dessa experiência.

A possibilidade de determinadas associações ultrapassarem a infância e a adolescência conduz à discussão sobre os vínculos estabelecidos posteriormente. Nesse sentido, torna-se relevante analisar se experiências precoces relacionadas à separação, disponibilidade emocional e qualidade dos primeiros vínculos também apresentam relações com intimidade, confiança e formas de vinculação na vida adulta.

2.4. A Construção dos Vínculos Afetivos Ao Longo da Vida

A compreensão da construção dos vínculos afetivos ao longo da vida pode ser ampliada a partir da Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby. Neder, Ferreira e Amorim (2020), ao discutirem essa perspectiva, destacam que o sistema de apego está relacionado à busca de proximidade com uma figura capaz de proporcionar proteção e segurança. As autoras também ressaltam a importância das interações estabelecidas desde os primeiros meses de vida para a constituição do vínculo entre a criança e suas figuras de cuidado.

Ramires e Schneider (2010), ao revisarem conceitos da Teoria do Apego, discutem a diferenciação entre comportamento de apego e apego propriamente dito, bem como a formação de modelos representacionais internos construídos a partir das experiências relacionais. Esses modelos participam da maneira como o indivíduo organiza suas experiências afetivas, interpreta suas relações e regula suas emoções. Dessa forma, experiências estabelecidas com figuras significativas durante a infância podem contribuir para a construção de expectativas acerca de si mesmo e dos outros nas relações posteriores.

A relação entre experiências afetivas da infância e vínculos posteriores também é discutida por Becker e Crepaldi (2019), que realizaram uma revisão integrativa sobre o apego desenvolvido na infância e os relacionamentos conjugais e parentais. Segundo as autoras, “As relações afetivas na infância repercutem no estilo de apego do indivíduo no decorrer do seu ciclo vital” (Becker; Crepaldi, 2019, p. 238). Os estudos analisados identificaram relações entre características de apego inseguro, maior tendência a conflitos conjugais e menor qualidade dos relacionamentos amorosos, contribuindo para compreender possíveis continuidades entre experiências relacionais iniciais e vínculos posteriores.

Evidências diretamente relacionadas à perda materna aproximam ainda mais essa discussão do objeto deste estudo. Mireault, Bearor e Thomas (2002) investigaram o apego romântico adulto em 30 mulheres que haviam perdido suas mães durante a infância, comparando-as com mulheres sem essa experiência. As participantes que vivenciaram perda materna relataram níveis significativamente maiores de ansiedade e evitação nos relacionamentos românticos adultos. A pequena dimensão da amostra e o fato de o estudo envolver especificamente mulheres que vivenciaram a morte materna exigem cautela na generalização dos resultados, mas o trabalho oferece evidência diretamente relacionada à possível associação entre perda materna na infância e características dos vínculos amorosos posteriores.

Estudos sobre rejeição parental também oferecem evidências complementares sobre vínculos posteriores. Rohner et al. (2019), em pesquisa realizada com 3.483 adultos jovens de 13 países, identificaram que lembranças de rejeição materna e paterna durante a infância estavam relacionadas ao medo de intimidade na vida adulta. Nesse estudo, a rejeição materna apresentou associação mais forte com o medo de intimidade do que a rejeição paterna. Embora rejeição não corresponda à ausência materna, o resultado contribui para compreender possíveis relações entre experiências afetivas negativas com figuras parentais e dificuldades relacionadas à proximidade e intimidade posteriormente.

Em outro estudo transcultural, Rohner et al. (2020) investigaram 899 adultos de cinco países e identificaram que lembranças de rejeição materna e paterna durante a infância predisseram, de forma independente, sentimentos de solidão na vida adulta. Os resultados também indicaram a participação do desajustamento psicológico na relação entre rejeição parental lembrada e solidão. Novamente, esses achados são utilizados como evidência complementar sobre experiências parentais, sem considerar rejeição e ausência materna como fenômenos equivalentes.

Ao comparar essas pesquisas, observa-se que estudos com objetos distintos convergem para a relevância das experiências afetivas iniciais na compreensão de aspectos das relações posteriores. A investigação sobre perda materna apresenta uma aproximação direta com a ausência física, enquanto pesquisas sobre apego, disponibilidade emocional e rejeição parental ampliam a compreensão sobre as dimensões relacionais envolvidas. Essa convergência não significa que diferentes experiências produzam os mesmos resultados, mas demonstra que a qualidade e a continuidade dos vínculos iniciais constituem elementos relevantes na análise das trajetórias afetivas.

As experiências da infância, entretanto, não estabelecem um destino relacional imutável. Novos vínculos, outras figuras cuidadoras, relações familiares e sociais e experiências construídas posteriormente também participam da trajetória afetiva. A compreensão das repercussões da ausência materna deve, portanto, reconhecer simultaneamente a relevância das experiências iniciais e a possibilidade de transformação das formas de se relacionar ao longo do desenvolvimento.

Dessa forma, a literatura analisada indica que experiências de separação materna, perda, disponibilidade emocional e qualidade dos primeiros vínculos podem apresentar relações com aspectos do desenvolvimento psicológico e das relações posteriores. A construção dos vínculos afetivos pode ser compreendida, assim, como um processo iniciado nas primeiras experiências relacionais, mas continuamente influenciado pelas relações e pelos contextos vivenciados ao longo da vida.

3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS

O presente estudo teve como objetivo analisar as possíveis repercussões da ausência materna na infância no desenvolvimento psicológico e na construção dos vínculos afetivos. A análise realizada permitiu compreender que a ausência materna constitui uma experiência complexa e não pode ser reduzida exclusivamente à falta física da mãe. A diferenciação entre afastamento físico e indisponibilidade emocional mostrou-se fundamental para compreender as diversas formas pelas quais fragilidades na relação materna podem ser vivenciadas durante a infância.

Os resultados evidenciaram, inicialmente, a importância das primeiras relações de cuidado para o desenvolvimento infantil. Experiências de proximidade, segurança, comunicação, responsividade e disponibilidade emocional participam da construção dos primeiros vínculos. Nesse contexto, quando a mãe constitui uma das principais figuras de cuidado, as características dessa relação podem assumir relevância na experiência psicológica e afetiva da criança.

Em relação à ausência física, os estudos analisados demonstraram que situações de separação, abandono ou perda materna precisam ser compreendidas considerando as circunstâncias em que acontecem. A duração do afastamento, o período do desenvolvimento em que ocorre, a continuidade dos cuidados e a presença de outras figuras significativas são aspectos relevantes. Foram identificadas associações entre determinadas experiências de separação materna precoce e manifestações psicológicas posteriores, bem como entre perda materna na infância e características de ansiedade e evitação em relacionamentos amorosos na vida adulta.

A dimensão emocional apresentou resultados igualmente relevantes. A análise indicou que a presença física da mãe não garante, isoladamente, disponibilidade afetiva. Baixa responsividade, dificuldades persistentes de envolvimento emocional e características problemáticas da interação materna mostraram-se relacionadas, nos estudos analisados, a aspectos da segurança do apego e do funcionamento emocional e comportamental infantil. Esses achados ampliam a compreensão da ausência materna ao demonstrar a necessidade de considerar não apenas a convivência, mas também a qualidade emocional das relações.

As pesquisas complementares sobre rejeição e negligência parental também contribuíram para identificar associações com problemas internalizantes e externalizantes, ajustamento psicológico, medo de intimidade e solidão. Entretanto, a análise demonstrou a importância de diferenciar esses fenômenos da ausência materna propriamente dita. Rejeição, negligência, frieza afetiva e indisponibilidade emocional podem apresentar pontos de aproximação, mas não constituem conceitos equivalentes.

Quanto à construção dos vínculos afetivos ao longo da vida, os resultados indicaram que experiências relacionais da infância podem apresentar relações com aspectos das relações estabelecidas posteriormente. Características relacionadas à intimidade, confiança, ansiedade, evitação, solidão e qualidade dos relacionamentos apareceram nos estudos analisados, evidenciando possíveis continuidades entre experiências afetivas iniciais e formas posteriores de vinculação. Essas associações, entretanto, não configuram uma trajetória inevitável.

Diante desses resultados, a questão que orientou esta pesquisa — quais são as possíveis repercussões da ausência materna na infância no desenvolvimento psicológico e na construção dos vínculos afetivos? — pode ser respondida considerando que experiências de afastamento materno e indisponibilidade emocional podem estar relacionadas a repercussões psicológicas, emocionais e relacionais que se manifestam em diferentes etapas do desenvolvimento. Essas repercussões podem envolver aspectos do funcionamento emocional e comportamental durante a infância e a adolescência e características relacionadas à maneira como proximidade, intimidade e vínculos afetivos são vivenciados posteriormente.

Ao mesmo tempo, a análise demonstrou que essas possíveis repercussões não devem ser compreendidas de maneira determinista. O desenvolvimento psicológico não é definido exclusivamente pela relação materna. Outras figuras cuidadoras, relações familiares e sociais, condições de vida e experiências posteriores também participam da trajetória individual. Relações estáveis e responsivas podem assumir função protetiva, enquanto novas experiências afetivas podem contribuir para transformações na maneira como o indivíduo estabelece seus vínculos.

Como limitação, destaca-se que a ausência materna constitui um fenômeno amplo, que pode ocorrer em circunstâncias distintas e produzir experiências igualmente diversas. Os estudos analisados abordam diferentes formas de afastamento e aspectos das relações maternas, incluindo separação, perda materna e disponibilidade emocional, além de pesquisas complementares sobre rejeição e negligência parental. Essa diversidade exige cautela na comparação dos resultados, especialmente porque ausência física, indisponibilidade emocional, rejeição e negligência constituem fenômenos relacionados, porém distintos. Além disso, diferenças entre as populações, os contextos e os métodos utilizados nas pesquisas analisadas limitam a possibilidade de estabelecer uma única trajetória de repercussões aplicável a todas as experiências de ausência materna.

Apesar dessas limitações, o estudo contribui para ampliar a compreensão da ausência materna ao demonstrar que sua análise não deve permanecer restrita à presença ou falta física da mãe.

Considerar conjuntamente as circunstâncias do afastamento, a continuidade dos cuidados e a dimensão emocional das relações possibilita compreender de maneira mais ampla as experiências vivenciadas durante a infância e suas possíveis relações com o desenvolvimento psicológico e com os vínculos estabelecidos posteriormente.

Para pesquisas futuras, mostra-se pertinente ampliar investigações que diferenciem de maneira clara ausência física, perda materna, indisponibilidade emocional, rejeição e negligência, bem como desenvolver estudos longitudinais que acompanhem essas experiências ao longo das diferentes etapas do desenvolvimento. Também se mostra relevante investigar de forma mais aprofundada o papel de outras figuras cuidadoras e de relações afetivas posteriores como possíveis fatores de proteção diante de experiências de ausência materna.

Conclui-se, portanto, que a ausência materna deve ser compreendida como uma experiência relacional complexa. As evidências analisadas indicam que experiências de separação, perda e baixa disponibilidade emocional materna podem apresentar relações com aspectos do desenvolvimento psicológico e da construção dos vínculos afetivos. Entretanto, essas experiências integram uma trajetória que continua sendo construída por meio de novas relações e contextos ao longo da vida. Dessa forma, reconhecer a importância das primeiras experiências afetivas não significa considerá-las determinantes, mas compreender sua relevância dentro do conjunto de relações que participam do desenvolvimento humano.

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1 Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, ImperatrizMA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail