APOSTAS ESPORTIVAS: COMO AS APOSTAS AFETAM A SAÚDE, A ECONOMIA E O COMPORTAMENTO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA

SPORTS BETTING: HOW BETTING AFFECTS THE HEALTH, ECONOMY AND BEHAVIOR OF THE BRAZILIAN POPULATION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792463301

RESUMO
As apostas esportivas se tornaram um problema social no Brasil devido à sua crescente popularização e aos impactos que podem causar na saúde mental, na vida financeira e no comportamento das pessoas. O objetivo deste estudo foi analisar os impactos associados às apostas esportivas sobre a saúde, a economia e o comportamento da população brasileira, buscando compreender as possíveis repercussões sobre a saúde mental, as relações econômicas e os padrões comportamentais dos apostadores. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica de abordagem social, de natureza narrativa. A busca e a seleção das publicações foram realizadas considerando-se, prioritariamente, estudos publicados entre os anos de 2023 e 2026. Os resultados encontrados nas pesquisas analisadas evidenciam que o envolvimento excessivo com as apostas pode estar associado a prejuízos à saúde mental, dificuldades financeiras, endividamento, alterações comportamentais e impactos nas relações sociais e no cotidiano. Considera-se que as apostas esportivas ultrapassam o caráter de entretenimento e podem produzir impactos relacionados entre si nas dimensões da saúde, economia e comportamento, destacando a importância de ações de prevenção e conscientização sobre os riscos do envolvimento excessivo com as apostas.
Palavras-chave: jogo de azar; comportamento compulsivo; saúde mental; marketing social.

ABSTRACT
Sports betting has become a social problem in Brazil due to its growing popularity and the impacts it may have on mental health, financial well-being, and people’s behavior. The aim of this study was to analyze the impacts associated with sports betting on the health, economy, and behavior of the Brazilian population, seeking to understand its possible repercussions on mental health, economic relationships, and the behavioral patterns of bettors. The methodology consisted of bibliographic research with a social approach and a narrative nature. The search and selection of publications were carried out primarily considering studies published between 2023 and 2026. The results found in the studies analyzed indicate that excessive involvement in betting may be associated with mental health problems, financial difficulties, indebtedness, behavioral changes, and impacts on social relationships and daily life. It is considered that sports betting goes beyond the scope of entertainment and may produce interconnected impacts on the dimensions of health, economy, and behavior, highlighting the importance of prevention and awareness actions regarding the risks associated with excessive involvement in betting.
Keywords: gambling; compulsive behavior; mental health; social marketing.

1. INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, as apostas esportivas consolidaram-se como uma prática cada vez mais presente na sociedade brasileira, impulsionadas pelo avanço das plataformas digitais e pela intensa exposição em campanhas publicitárias e eventos esportivos. Esse cenário contribuiu para ampliar o interesse da população por essa modalidade de entretenimento, ao mesmo tempo em que despertou discussões sobre seus possíveis impactos. Com isso, o crescimento desse mercado passou a ser alvo de interesse acadêmico e social, especialmente pelos reflexos que pode provocar na saúde, na economia e no comportamento da população.

O mercado das apostas esportivas passou por uma rápida expansão no Brasil. A facilidade de acesso por meio das tecnologias digitais, aliada à ampla variedade de modalidades esportivas disponíveis, contribuiu para o aumento do número de apostadores. Além das competições tradicionais, essas plataformas passaram a incluir novos mercados, como os esportes eletrônicos, ampliando ainda mais seu alcance, especialmente entre o público jovem (Khatib, 2024).

Khatib (2024), também relata que, paralelamente ao crescimento desse setor, aumentaram as preocupações relacionadas aos impactos das apostas na saúde mental. O envolvimento frequente com essa prática pode favorecer o desenvolvimento de comportamentos compulsivos, como o transtorno do jogo, caracterizado pela dificuldade em controlar o impulso de apostar. Esse quadro pode ocasionar prejuízos financeiros, emocionais e sociais, evidenciando a necessidade de maior atenção às estratégias de prevenção, proteção dos consumidores e fortalecimento das medidas regulatórias.

No âmbito econômico, a expansão das apostas esportivas também tem provocado impactos significativos sobre o orçamento das famílias brasileiras. De acordo com o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), as apostas online representaram uma saída líquida estimada de R$ 62,5 bilhões ao longo de 2025, valor correspondente a aproximadamente 0,68% da renda disponível das famílias. Trata-se de um volume significativo de recursos transferidos ao setor de apostas, o que pode reduzir a disponibilidade financeira destinada ao consumo de bens e serviços e aumentar a pressão sobre o orçamento doméstico. Dessa forma, o crescimento das chamadas bets ultrapassa a dimensão do entretenimento e passa a representar um fator relevante para a dinâmica econômica e financeira das famílias brasileiras (Santos, 2026).

A motivação para a realização deste estudo foi a enorme expansão das apostas esportivas no Brasil, que torna cada vez mais relevante compreender os impactos que essa prática pode ocasionar na sociedade. Além das consequências econômicas, estudos apontam que o envolvimento com apostas pode influenciar a saúde mental e comportamental dos indivíduos, tornando o tema um importante campo de investigação científica. Nesse contexto, ampliar as discussões sobre essas repercussões contribui para o desenvolvimento de estratégias de prevenção, educação e formulação de políticas públicas voltadas à proteção da população (Souza; Freitas; Souza, 2025).

Diante desse cenário, os pesquisadores buscaram compreender, por meio de uma análise abrangente, os impactos decorrentes da crescente popularização das apostas esportivas no Brasil. Para isso, partiu-se de uma questão central que tem despertado preocupação em diferentes segmentos da sociedade: de que maneira as apostas esportivas têm influenciado a saúde, a economia e o comportamento da população brasileira na atualidade?

Com base nos fatos expostos anteriormente e considerando a crescente expansão das apostas esportivas no cenário brasileiro, bem como sua progressiva inserção no cotidiano da população, torna-se relevante aprofundar a compreensão acerca dos efeitos decorrentes dessa prática em diferentes dimensões. Nesse sentido, o presente estudo teve como objetivo analisar os impactos associados às apostas esportivas sobre a saúde, a economia e o comportamento da população brasileira, buscando compreender as possíveis repercussões dessa atividade sobre a saúde mental, as relações econômicas e os padrões comportamentais dos indivíduos, especialmente diante de sua crescente popularização e de sua estreita relação com o contexto esportivo contemporâneo.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. 2.1. Impactos na Saúde Mental dos Apostadores

A Organização Mundial da Saúde – OMS (2024 apud Sousa; Pereira; Pinto, 2026), aponta que os jogos de apostas podem afetar significativamente a saúde mental, estando relacionados ao surgimento de problemas como ansiedade, depressão e sofrimento psíquico. Em situações mais graves, o envolvimento com essas práticas também pode estar associado ao aumento do risco de autolesão e de pensamentos suicidas (Sousa; Pereira; Pinto, 2026).

Sousa, Pereira e Pinto (2026), ainda destacam que, além dos impactos sobre a saúde mental, as apostas também podem provocar consequências na vida psicossocial dos indivíduos, afetando sua estabilidade financeira, seus vínculos familiares e suas relações interpessoais. Entre os principais efeitos estão o endividamento, o isolamento social e o comprometimento das atividades cotidianas, evidenciando a necessidade de atenção e cuidado diante dos prejuízos associados a essa prática.

Cabe abordar também que o envolvimento excessivo com as apostas pode evoluir para um quadro de dependência, caracterizado como transtorno do jogo. De acordo com Biernath (2024), essa condição é marcada pela dificuldade de controlar as apostas, pela necessidade de continuar jogando mesmo diante dos prejuízos e pela presença de pensamentos frequentes relacionados ao jogo. O transtorno também pode comprometer a capacidade de tomar decisões racionais, fazendo com que o indivíduo persista nas apostas na tentativa de recuperar perdas. Fatores como a idade de início, o tipo de jogo, a predisposição genética e a presença de outros transtornos psiquiátricos podem aumentar a vulnerabilidade ao desenvolvimento desse comportamento.

Esse quadro também é conhecido como ludopatia, transtorno que apresenta mecanismos semelhantes aos observados em outras formas de dependência, como a dependência de álcool e de cocaína. Nesses casos, observa-se uma fissura pelo jogo, definida como um desejo intenso e difícil de controlar de jogar ou apostar. Embora não esteja relacionada ao consumo de uma substância, essa necessidade está associada à busca pelas sensações e emoções proporcionadas pelo ato de apostar. Esse comportamento está relacionado ao sistema de recompensa cerebral, responsável pelo processamento de sensações de prazer e satisfação. Durante as apostas, ocorre a liberação de dopamina, neurotransmissor associado a esse sistema, que pode reforçar a compulsão, aumentando a excitação e reduzindo a inibição diante de decisões de risco (Casemiro, 2024).

Portanto, percebe-se que as apostas esportivas representam um fenômeno social que ultrapassa o entretenimento, podendo afetar diretamente a saúde mental. Nesse contexto, o desenvolvimento do transtorno do jogo evidencia a necessidade de maior atenção aos riscos associados ao envolvimento excessivo com as apostas. Com isso, torna-se fundamental ampliar os debates sobre o tema e fortalecer ações de prevenção e conscientização, buscando reduzir os possíveis prejuízos decorrentes dessa prática.

2.2. Consequências Econômicas das Apostas Esportivas na Vida da População

Segundo dados do Banco Central do Brasil (2024), aproximadamente 24 milhões de pessoas físicas realizaram ao menos uma transferência via Pix para plataformas de jogos de azar entre janeiro e agosto de 2024. Embora indivíduos de diferentes faixas etárias participem das apostas, o perfil majoritário é composto por jovens entre 20 e 30 anos. Observou-se também que o valor médio das transferências financeiras tende a aumentar conforme a idade dos apostadores, ou seja, quanto maior a idade, maior tende a ser o valor transferido. Esse aumento pode estar relacionado à maior disponibilidade de recursos ao longo da vida, à estabilidade financeira ou ainda à busca por uma solução rápida para questões econômicas (Silva, 2025).

Para além do vício, dos prejuízos à saúde e do endividamento que comprometem as finanças de muitas famílias, as apostas também afetam a economia do país como um todo. Segundo um estudo inédito do economista Guilherme Klein, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o que representa cerca de 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano. Esse valor corresponde a aproximadamente 40% a 50% de todo o crescimento da economia brasileira em 2025, que foi de 2,3%. O impacto das apostas na economia também teria sido cerca de cinco vezes maior do que as estimativas relacionadas aos efeitos do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro (Carrança, 2026).

Dados da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo – SBVC (2024), apontam que 64% dos apostadores utilizam a renda principal para realizar apostas, enquanto 63% afirmam ter tido parte da renda comprometida com as apostas. Esse comprometimento financeiro também afeta o consumo de itens básicos, levando 23% dos apostadores a deixarem de comprar roupas, 19% alimentos, 15% a deixarem de fazer refeições fora de casa e 11% a deixarem de pagar contas essenciais, como água, luz e gás (Silva, 2025).

O avanço das apostas online mostra que esse fenômeno vai muito além do entretenimento, principalmente por atingir pessoas em situações de vulnerabilidade emocional e financeira e contribuir para o aumento do endividamento. A falta de uma regulamentação eficaz, junto à publicidade intensa e à ausência de políticas públicas de prevenção, pode aprofundar ainda mais as desigualdades e dificultar a recuperação das pessoas mais vulneráveis. Além disso, a operação “Jogada Marcada”, deflagrada pela Polícia Civil de Goiás em abril de 2025, revelou esquemas de manipulação de resultados em partidas de futebol. O caso mostra que as falhas na regulamentação também podem facilitar práticas como fraudes e lavagem de dinheiro, prejudicando a credibilidade e a legitimidade das instituições esportivas (Silva, 2025).

Nesse sentido, os pesquisadores acreditam que os números apresentados ao longo deste trabalho deixam claro que as apostas esportivas não se limitam a uma questão de escolha individual. Famílias inteiras sentem o peso no orçamento, e a economia do país como um todo também é afetada. Renda comprometida, cortes em despesas básicas, dívidas que se acumulam, tudo isso mostra que o problema vai além do que se perde numa aposta específica.

Soma-se a tudo o que foi exposto uma regulamentação considerada frágil, o que pode agravar esse cenário caso não ocorram mudanças. Acredita-se que não se trata apenas do dinheiro que sai do bolso do apostador, mas de como isso influencia a vida financeira de pessoas, famílias e, em última instância, da sociedade brasileira.

2.3. Como as Apostas Esportivas Afetam o Comportamento das Pessoas

Embora o jogo esteja historicamente relacionado ao entretenimento e à sociabilidade, a expansão das apostas online e a digitalização dessas práticas têm contribuído para o surgimento de comportamentos potencialmente prejudiciais à saúde mental. Quando o ato de jogar deixa de ser uma atividade recreativa e passa a ocorrer de maneira persistente e descontrolada, pode assumir características de uma dependência comportamental, marcada pela dificuldade do indivíduo em controlar o impulso de apostar e pela continuidade dessa prática mesmo diante de prejuízos em diferentes áreas de sua vida (Sousa; Pereira; Pinto, 2026).

O envolvimento excessivo com as apostas esportivas pode favorecer o desenvolvimento de comportamentos compulsivos, ocasionando a perda de controle sobre o ato de apostar e a dificuldade em interromper essa prática. Esse comportamento pode gerar prejuízos financeiros, dificuldades nas relações interpessoais, comprometimento profissional e sofrimento psíquico, sendo caracterizado pela continuidade das apostas mesmo diante das consequências negativas (Sousa; Pereira; Pinto, 2026).

As apostas online podem assumir características semelhantes às observadas em comportamentos de consumo compulsivo, sendo influenciadas por diferentes fatores, como aspectos fisiológicos, genéticos, psicológicos, sociais e culturais (Hing et al., 2015 apud Cavalcante et al., 2024). Nesse contexto, o comportamento compulsivo está relacionado à dificuldade de resistir ao desejo de apostar, mesmo diante da possibilidade de consequências prejudiciais, podendo ser motivado pela busca de gratificação imediata ou pela tentativa de aliviar emoções negativas (Granero et al., 2016 apud Cavalcante et al., 2024).

Cabe destacar que, quando a relação com as apostas se torna problemática, o apostador pode continuar com o pensamento voltado às plataformas mesmo fora do momento do jogo, acompanhando resultados, contabilizando perdas, buscando formas de recuperar o dinheiro e planejando novas apostas. Essa preocupação constante pode interferir na rotina e no sono, especialmente quando existe acompanhamento frequente de jogos e resultados ou ansiedade relacionada às apostas e às perdas. Como consequência, podem ocorrer dificuldades de atenção, memória, tomada de decisão e alterações no humor (Magalhães, 2026).

Diante desse contexto, observa-se que o envolvimento com as apostas esportivas pode ultrapassar o caráter recreativo e assumir padrões comportamentais marcados pela perda de controle, pela dificuldade de interromper as apostas e pela preocupação constante com os resultados e possíveis perdas. A combinação desses fatores pode fazer com que as apostas ocupem um espaço cada vez maior na rotina do indivíduo, interferindo em suas atividades cotidianas, relações e capacidade de tomada de decisão. Dessa forma, compreender essas mudanças comportamentais é fundamental para reconhecer quando a prática de apostar deixa de ser uma atividade ocasional e passa a apresentar características problemáticas.

2.4. O Marketing Pode Ser Considerado o Grande Vilão das Apostas Esportivas?

O marketing exerce papel fundamental na atração e persuasão dos consumidores, especialmente em segmentos relacionados a produtos com potencial de dependência. Historicamente, estratégias de comunicação amplas e agressivas têm sido utilizadas para estimular o consumo e, em alguns casos, minimizar os riscos associados a esses produtos, como álcool, cigarros e fast foods. Nesse contexto, nos últimos anos, os jogos online, especialmente os de azar, passaram a ganhar destaque como um novo mercado inserido nesse cenário (Cavalcante et al., 2025).

O marketing digital tem desempenhado papel importante na expansão das casas de apostas no Brasil, utilizando tecnologias e plataformas digitais para ampliar sua divulgação e alcançar diferentes públicos. Nesse contexto, as redes sociais e demais ferramentas online contribuem para a popularização desse mercado. Segundo Santos (2024), no ambiente digital, as informações sobre os usuários são utilizadas para direcionar e personalizar as campanhas, o que permite que plataformas como YouTube, Instagram e TikTok levem a publicidade das apostas a públicos específicos e a diferentes perfis de apostadores. Dessa forma, as estratégias direcionadas aumentam as possibilidades de alcançar o público e favorecer a conversão de usuários.

A popularização das apostas esportivas está diretamente relacionada ao forte investimento em marketing digital, que utiliza figuras conhecidas, como jogadores, cantores e influenciadores. Entre as estratégias desse marketing, destaca-se o uso de influenciadores, que ajudam a transmitir credibilidade às casas de apostas e aproximá-las do público. Além disso, muitos influenciadores atuam como afiliados, recebendo comissões pelos clientes que direcionam às plataformas por meio de seus links (Cavalcante et al., 2025).

O marketing das casas de apostas está presente em diversos espaços, como redes sociais, outdoors, partidas de futebol, uniformes esportivos e anúncios na internet. Essa ampla divulgação está relacionada ao forte investimento em estratégias de marketing e ao crescimento do número de plataformas autorizadas no Brasil, que chegou a 205 em outubro de 2024, segundo a CNN Brasil (Queiroz, 2024). Esses dados indicam que, mesmo diante dos impactos negativos associados às apostas, as estratégias de marketing e a influência sobre o público têm contribuído para a expansão desse mercado (Cavalcante et al., 2025).

Um exemplo dessa forte presença do marketing das apostas ocorreu durante a Copa do Mundo de 2026, quando o canal CazéTV, ao longo das transmissões e pré-jogos, apresentou recomendações de odds, indicadores relacionados às probabilidades e ao possível retorno das apostas, além de sugestões sobre como e em quais resultados apostar. De acordo com um estudo da agência Macfor, publicado em junho (Macias, 2026), que analisou as buscas pelo termo “bet” no período anterior ao início da Copa do Mundo, foram registradas mais de 18 milhões de pesquisas no país. O levantamento também apontou que seis em cada dez brasileiros pretendiam realizar apostas. Além disso, nos últimos cinco anos, o interesse de busca pelo termo “bet” cresceu 496% no Brasil (Rodrigues, 2026).

Foi observado que as estratégias de marketing possuem papel significativo na expansão e popularização das apostas esportivas no Brasil. Por meio da utilização de plataformas digitais, redes sociais, influenciadores, publicidade em eventos esportivos e outros meios de comunicação, as casas de apostas conseguem ampliar seu alcance e aproximar esse mercado de diferentes públicos. Com isso, a intensa exposição das apostas contribui para sua naturalização como forma de entretenimento, ao mesmo tempo em que pode influenciar as escolhas e os comportamentos dos indivíduos diante desse mercado.

3. METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa caracterizada por uma abordagem social, de natureza narrativa, tendo como objetivo analisar os impactos associados às apostas esportivas sobre a saúde, a economia e o comportamento da população brasileira. Para a realização do estudo, foram utilizadas como fontes de dados pesquisas de natureza qualitativa e quantitativa, revistas especializadas e informativas, bem como artigos científicos e sites relacionados à temática.

A busca e a seleção das publicações foram realizadas considerando-se, prioritariamente, estudos publicados entre os anos de 2023 e 2026. O recorte temporal adotado foi estabelecido em razão do crescimento e da popularização das apostas esportivas, especialmente diante da expansão das plataformas digitais e do maior acesso da população a esse tipo de atividade.

Nesse contexto, foram priorizados estudos que analisassem os impactos das apostas esportivas sobre a saúde mental, a situação econômica e o comportamento dos indivíduos, considerando as características e transformações observadas na sociedade contemporânea.

Para a busca dos conteúdos, foram utilizadas as seguintes palavras-chave: “Jogo de Azar”; “Comportamento Compulsivo”; “Saúde Mental” e “Marketing Social”; A utilização desses termos teve o intuito de ampliar os resultados e possibilitar a identificação de diferentes estudos relacionados à temática investigada.

Como critérios de inclusão, foram consideradas publicações disponíveis nos idiomas português e inglês, selecionadas a partir de sua pertinência temática e contribuição científica para o objetivo de estudo. Os pesquisadores buscaram incluir estudos que apresentassem relação direta com a temática investigada ou que, de maneira relevante, subsidiassem a fundamentação teórica e metodológica da pesquisa, possibilitando a construção de uma base de evidências consistente para a análise proposta.

Foram excluídos estudos duplicados, publicações anteriores ao recorte temporal que não fossem relevantes para a fundamentação teórica, publicações que não apresentassem relação com os objetivos do trabalho e estudos ou materiais sem fundamentação adequada.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os resultados encontrados neste estudo indicam que as apostas esportivas podem produzir impactos significativos na saúde mental dos apostadores. Em relação a essa afirmação, nota-se cada vez mais que o envolvimento com os jogos de apostas tem sido associado a quadros de ansiedade, depressão e sofrimento psíquico, além de poder elevar, nas situações mais graves, o risco de autolesão e de pensamentos suicidas. Esses achados mostram que os impactos relacionados às apostas ultrapassam as perdas financeiras, alcançando diretamente o bem-estar psicológico dos indivíduos (Sousa; Pereira; Pinto, 2026).

Com base nessas afirmações, considera-se que os impactos das apostas sobre a saúde mental não estão relacionados apenas ao ato de perder dinheiro, mas também à forma como o envolvimento com essa prática pode interferir no bem-estar e na vida cotidiana dos indivíduos. Quando as apostas passam a ocupar um espaço excessivo na rotina, podem surgir preocupações constantes, dificuldades para controlar o comportamento e sofrimento emocional, tornando o indivíduo mais vulnerável ao desenvolvimento de problemas psicológicos. Nesse sentido, os resultados analisados reforçam que o envolvimento excessivo com as apostas deve ser compreendido como uma questão que pode ultrapassar o entretenimento e afetar diretamente a qualidade de vida.

Pensando na questão da saúde mental dos apostadores, torna-se necessário ampliar as ações de prevenção e conscientização sobre os riscos relacionados às apostas esportivas, principalmente em relação à ludopatia, que, na percepção dos pesquisadores, ainda possui pouca visibilidade entre a população. Propõem-se ainda campanhas educativas que possam contribuir de forma efetiva para o reconhecimento dos sinais de um comportamento problemático e para a compreensão dos possíveis impactos das apostas na saúde mental, permitindo que esses riscos sejam reconhecidos de forma mais precoce. Além disso, o fortalecimento das políticas públicas de saúde e das estratégias de cuidado pode contribuir para oferecer maior suporte às pessoas afetadas, considerando que o enfrentamento desse problema exige ações que vão além da conscientização individual e de meras mensagens na mídia.

No que se refere às consequências econômicas para as pessoas envolvidas com as apostas esportivas, os estudos analisados evidenciam que as apostas passaram a ocupar um espaço relevante na dinâmica financeira da população brasileira, movimentando recursos que poderiam ser destinados a outras necessidades. A expressiva quantidade de pessoas envolvidas e o volume financeiro movimentado demonstram que essa prática ultrapassa o caráter recreativo, podendo interferir na forma como os indivíduos administram sua renda e seus recursos. Dessa maneira, os dados do Banco Central do Brasil (2024), reforçam a dimensão econômica das apostas e indicam a necessidade de compreender seus efeitos sobre o orçamento e o consumo das famílias.

Com isso, percebe-se que o impacto econômico das apostas esportivas não se limita ao dinheiro destinado diretamente às plataformas, mas pode alcançar diferentes aspectos da vida financeira dos indivíduos. Como apresentado na fundamentação teórica desta pesquisa, parte dos apostadores utiliza sua renda principal para realizar apostas, o que pode reduzir os recursos disponíveis para o consumo de bens e serviços essenciais e favorecer situações de endividamento. Nesse sentido, os resultados indicam que, quando as apostas passam a comprometer uma parcela significativa da renda, deixam de representar apenas uma atividade de entretenimento e podem interferir no equilíbrio financeiro dos apostadores e de suas famílias. Em uma dimensão mais ampla, os estudos também apontam que essa movimentação de recursos pode produzir efeitos sobre a própria atividade econômica brasileira.

Diante dos resultados apresentados, torna-se necessária a adoção de estratégias capazes de reduzir os impactos financeiros negativos relacionados às apostas esportivas. A educação financeira pode desempenhar um papel fundamental, contribuindo para que a população compreenda os riscos de destinar uma parcela significativa da renda às apostas e reconheça os possíveis prejuízos ao orçamento familiar. Considera-se necessário que ações de prevenção e conscientização ampliem o conhecimento sobre os riscos associados ao uso excessivo das plataformas, sobretudo entre indivíduos em situação de maior vulnerabilidade econômica. Nesse contexto, sugere-se que medidas de proteção e o acompanhamento dos padrões de apostas podem auxiliar na prevenção de situações que comprometam a renda, o consumo e a estabilidade financeira dos indivíduos e de suas famílias.

Em relação à influência das apostas esportivas no comportamento das pessoas, nota-se cada vez mais que elas têm influenciado os padrões de consumo da sociedade, apresentando riscos que ultrapassam a dimensão financeira e podem afetar o comportamento e a qualidade de vida dos indivíduos. Embora alguns apostadores adotem uma postura mais racional, estabelecendo limites e planejando suas apostas, outros podem desenvolver comportamentos impulsivos ou compulsivos, especialmente quando passam a buscar resultados imediatos. A tentativa constante de reverter as perdas pode alimentar um ciclo de apostas cada vez mais frequentes, favorecendo o descontrole sobre o consumo e contribuindo para o endividamento. Além disso, o envolvimento excessivo com essa prática pode estar associado a problemas psicológicos, como ansiedade e depressão, evidenciando que os impactos das apostas não se restringem apenas ao dinheiro, mas também envolvem aspectos comportamentais e emocionais que comprometem o bem-estar dos indivíduos (Cavalcante et al., 2024).

A partir dos aspectos apresentados, compreende-se que o envolvimento excessivo com as apostas esportivas pode modificar a rotina e a maneira como o indivíduo toma decisões no seu dia a dia. Quando essa prática passa a ocupar um espaço frequente na vida do apostador, atividades como trabalho, estudos, momentos de lazer e convivência familiar podem ser deixadas em segundo plano. Além disso, a preocupação constante com os resultados e com a recuperação de valores perdidos pode influenciar escolhas financeiras e pessoais, levando o indivíduo a priorizar as apostas em detrimento de outras necessidades. Dessa forma, observa-se que o comportamento problemático relacionado às apostas pode ultrapassar o momento do jogo, afetando as relações sociais, a organização da rotina e o bem-estar do indivíduo.

Diante dos impactos identificados, torna-se importante reconhecer que a prevenção dos comportamentos problemáticos relacionados às apostas esportivas deve envolver a identificação de sinais de descontrole e a conscientização dos indivíduos sobre os riscos dessa prática. Nesse sentido, observar mudanças na rotina, dificuldades em estabelecer limites e prejuízos nas relações pessoais pode contribuir para reconhecer situações de risco. Além disso, ações educativas e orientações sobre o uso responsável das plataformas podem auxiliar na redução dos danos, especialmente quando associadas ao acompanhamento de pessoas que apresentam dificuldades em controlar o comportamento de apostar. Assim, a prevenção deve buscar não apenas limitar a frequência das apostas, mas também promover maior compreensão sobre seus efeitos financeiros, sociais e emocionais, contribuindo para escolhas mais conscientes e para a preservação da qualidade de vida.

Em relação às questões que envolvem o uso da tecnologia, torna-se cada vez mais é importante discutir a influência das redes sociais e do marketing na popularização das apostas esportivas. Os materiais analisados evidenciam que o marketing digital exerce um papel importante na expansão desse mercado, utilizando estratégias como bônus, promoções e campanhas direcionadas a públicos específicos. Nesse contexto, as redes sociais ampliam o alcance das casas de apostas e aproximam suas marcas de diferentes perfis de consumidores. Além disso, as parcerias com clubes esportivos e campeonatos de grande visibilidade fortalecem o reconhecimento das marcas, especialmente por meio da presença em uniformes de grandes equipes e patrocínios esportivos. Outra estratégia de destaque é o marketing de influência, realizado por meio de influenciadores, streamers e ex-jogadores, que contribuem para aproximar as apostas de seus seguidores. Dessa forma, observa-se que a combinação entre publicidade digital, patrocínios esportivos e influência de figuras conhecidas favorece a visibilidade das casas de apostas e amplia sua aproximação com o público consumidor (Santos, 2024).

A partir dos aspectos apresentados, compreende-se que a presença constante das apostas esportivas em diferentes meios de comunicação pode contribuir para a normalização dessa prática no cotidiano das pessoas. A exposição frequente a propagandas, patrocínios de clubes e divulgações realizadas por influenciadores pode fazer com que as apostas sejam percebidas como uma atividade comum, associada ao entretenimento e ao universo esportivo. Diante disso, o tempo de exposição às telas também merece atenção, considerando que um levantamento realizado pela plataforma Electronics Hub, com base na pesquisa Digital 2023: Global Overview Report, da DataReportal, apontou que os brasileiros passam cerca de 56,6% das horas acordadas em frente às telas, o equivalente a aproximadamente nove horas por dia (Nazar, 2023). Dessa forma, a ampla presença dos meios digitais na rotina pode favorecer o contato frequente com conteúdos relacionados às apostas, contribuindo para a aproximação dos indivíduos com essa prática e influenciando a forma como ela é percebida pela sociedade.

Destaca-se também a presença de práticas de marketing que podem ser consideradas predatórias e que tendem a intensificar a exposição dos indivíduos às apostas esportivas e estimular o envolvimento frequente com essas plataformas. Estratégias como a oferta de bônus, promoções, mensagens de ganhos fáceis e a associação das apostas ao sucesso esportivo podem criar uma percepção de que apostar é uma prática simples e acessível, minimizando os riscos envolvidos. Essa abordagem torna-se ainda mais relevante quando direcionada a públicos vulneráveis ou utilizada de forma recorrente nas redes sociais, onde a publicidade pode estar integrada ao conteúdo produzido por influenciadores e outras figuras de grande alcance. Dessa forma, o marketing predatório pode contribuir para a normalização das apostas e para a construção de expectativas irreais sobre os possíveis ganhos, reforçando a necessidade de maior responsabilidade na comunicação e na proteção dos consumidores.

Diante dos impactos relacionados à popularização das apostas esportivas, torna-se importante discutir a necessidade de uma publicidade mais responsável que apresente os riscos dessa prática e não incentive expectativas irreais de ganhos financeiros. Além disso, a proteção de públicos vulneráveis, especialmente jovens e indivíduos com dificuldades de controle sobre o comportamento de apostar, deve ser considerada como obrigatória nas estratégias de comunicação e divulgação das plataformas.

Cabe salientar que ações de conscientização e medidas de regulamentação podem contribuir significativamente para estabelecer limites à divulgação das casas de apostas, promovendo maior transparência nas informações oferecidas ao público. Assim, a discussão sobre o marketing esportivo deve considerar não apenas sua capacidade de ampliar o alcance das marcas, mas também a responsabilidade de reduzir possíveis danos aos consumidores e favorecer escolhas mais conscientes.

Como fato recente relacionado a este estudo, em 25 de setembro de 2026, o Governo Federal editou a Medida Provisória nº 1.394/2026 (Brasil, 2026), que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo as apostas esportivas e os jogos online no território nacional. A medida determina a interrupção de novos aportes nas plataformas e estabelece um cronograma para a retirada dos valores pelos apostadores e posterior bloqueio dos sites e aplicativos. A iniciativa demonstra que a discussão sobre os impactos das apostas esportivas ultrapassou o campo acadêmico e passou a ocupar espaço nas medidas de proteção social e de saúde pública adotadas pelo poder público.

Nesse contexto, a medida adotada reforça a relevância dos aspectos identificados nesta pesquisa, especialmente diante dos prejuízos financeiros, comportamentais e relacionados à saúde mental associados ao envolvimento problemático com as apostas. Embora a proibição ainda dependa da apreciação do Congresso Nacional, sua adoção representa uma mudança significativa na forma como o Estado brasileiro passou a tratar o setor, evidenciando a necessidade de acompanhar seus efeitos sobre os indivíduos e sobre a sociedade. Assim, o estudo mantém sua atualidade ao contribuir para a compreensão de um fenômeno que permanece em transformação e que exige atenção contínua quanto à prevenção, à conscientização e à proteção da população.

Como limitação, destaca-se o caráter bibliográfico da pesquisa, que não permite acompanhar diretamente as experiências dos apostadores ou estabelecer relações causais entre o envolvimento com as apostas e os impactos identificados. Nesse sentido, estudos futuros poderão ampliar a investigação por meio de pesquisas de campo e da análise de diferentes grupos da população, contribuindo para uma compreensão mais aprofundada das consequências das apostas esportivas no contexto brasileiro.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa alcançou o objetivo proposto ao evidenciar que as apostas esportivas influenciam diferentes dimensões da vida da população brasileira, ultrapassando o caráter de entretenimento. A análise permite compreender que seus impactos não se restringem ao momento da aposta, mas estão relacionados à forma como os indivíduos lidam com sua saúde, seus recursos financeiros e seus comportamentos no cotidiano.

A principal compreensão alcançada pelo estudo é que saúde, economia e comportamento não constituem dimensões isoladas. Quando o envolvimento com as apostas se torna excessivo, esses aspectos podem se relacionar e se reforçar, favorecendo um ciclo de prejuízos que ultrapassa a questão financeira e alcança a rotina, as relações sociais, a tomada de decisões e o bem-estar dos indivíduos. Dessa forma, a pesquisa responde ao problema inicialmente proposto ao evidenciar que a crescente presença das apostas esportivas produz repercussões que envolvem diferentes aspectos da vida da população brasileira.

Em síntese, como contribuição prática, o estudo evidencia a necessidade de ampliar ações de prevenção e conscientização, especialmente voltadas ao reconhecimento de comportamentos problemáticos e à compreensão dos riscos associados ao uso excessivo das plataformas de apostas. Os pesquisadores também reforçam a importância de estratégias que considerem conjuntamente os aspectos financeiros, emocionais e comportamentais, favorecendo maior proteção aos indivíduos e uma relação mais consciente com essa prática.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Discentes do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG) – Cascavel – Paraná – Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Discentes do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG) – Cascavel – Paraná – Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.