JOGOS DE APOSTAS ONLINE E SAÚDE MENTAL: DESAFIOS PARA A SAÚDE PÚBLICA

ONLINE GAMBLING AND MENTAL HEALTH: CHALLENGES FOR PUBLIC HEALTH

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779567694

RESUMO
O presente estudo analisa os impactos dos jogos de apostas online na saúde mental, considerando os desafios impostos à saúde pública diante da expansão dessas plataformas digitais. O problema da pesquisa consiste em analisar de que forma os jogos de apostas online têm contribuído para o desenvolvimento de prejuízos emocionais, sociais e comportamentais relacionados ao comportamento compulsivo. Como objetivo geral, busca-se analisar os impactos dos jogos de apostas online na saúde mental, evidenciando os fatores de risco e as consequências psicológicas e sociais associadas a essa prática. A pesquisa caracteriza-se como uma investigação de natureza qualitativa, do tipo revisão sistemática da literatura, desenvolvida a partir de buscas realizadas nas bases eletrônicas Google Acadêmico e SciELO, utilizando descritores relacionados à temática. Foram selecionados artigos científicos publicados entre os anos de 2015 e 2026, analisados por meio de abordagem interpretativa. Os resultados esperados apontam para a compreensão dos principais fatores associados ao desenvolvimento do comportamento compulsivo, bem como dos impactos psicológicos, familiares, sociais e financeiros decorrentes do uso excessivo dessas plataformas. Espera-se, ainda, contribuir para a ampliação das discussões acadêmicas acerca das dependências comportamentais e subsidiar reflexões sobre estratégias de prevenção, cuidado e intervenção no âmbito da saúde pública.
Palavras-chave: Jogos de apostas online; Saúde Mental; Dependência comportamental; Transtorno do jogo; Saúde pública.

ABSTRACT
This study analyzes the impacts of online gambling on mental health, considering the challenges posed to public health by the expansion of these digital platforms. The research problem consists of analyzing how online gambling has contributed to the development of emotional, social, and behavioral impairments related to compulsive behavior. The general objective is to analyze the impacts of online gambling on mental health, highlighting the risk factors and the psychological and social consequences associated with this practice. The research is characterized as a qualitative investigation, of the systematic literature review type, developed from searches carried out in the electronic databases Google Scholar and SciELO, using descriptors related to the theme. Scientific articles published between 2015 and 2026 were selected and analyzed using an interpretive approach. The expected results point to an understanding of the main factors associated with the development of compulsive behavior, as well as the psychological, family, social, and financial impacts resulting from the excessive use of these platforms. It is also expected to contribute to the expansion of academic discussions about behavioral addictions and to support reflections on prevention, care, and intervention strategies in the field of public health.
Keywords: Online gambling; Mental health; Behavioral addiction; Gambling disorder; Public health.

1. INTRODUÇÃO

A expansão das tecnologias digitais e a ampliação do acesso à internet têm promovido transformações significativas nas formas de comunicação, entretenimento e interação social. Nesse contexto, os jogos de apostas on-line passaram a ocupar espaço cada vez mais expressivo no cotidiano de diferentes grupos sociais, sendo amplamente divulgados em plataformas digitais, aplicativos e redes sociais. Tal crescimento contribui para a naturalização dessas práticas, frequentemente associadas ao lazer, à diversão e à possibilidade de obtenção de ganhos financeiros rápidos.

Historicamente, os jogos de azar fazem parte da cultura brasileira desde o período colonial e, mesmo após a proibição estabelecida pelo Decreto-Lei n.º 43.688, de 3 de outubro de 1941, continuaram presentes de diferentes formas na sociedade. Contudo, com o avanço das tecnologias digitais, observa-se uma reconfiguração desse cenário, marcada pela emergência das plataformas de apostas esportivas e jogos on-line, que ampliaram o acesso e intensificaram a participação dos indivíduos nessas práticas.

Conforme aponta Brasil (2023, p. 9), o surgimento dos “jogos on-line e das plataformas de apostas esportivas introduziu novas formas de envolvimento com os jogos de azar e novos riscos”, evidenciando mudanças significativas no padrão de consumo e nos impactos associados ao comportamento de apostar. Nesse sentido, tais práticas vêm sendo cada vez mais apresentadas como alternativas legítimas de entretenimento e oportunidades de obtenção de renda, atraindo um número crescente de usuários.

Entretanto, o envolvimento excessivo com jogos de apostas pode desencadear comportamentos compulsivos, caracterizados pela perda de controle sobre o ato de jogar, ocasionando prejuízos financeiros, dificuldades nas relações interpessoais, comprometimento profissional e sofrimento psíquico. O transtorno do jogo, classificado na CID-10 como jogo patológico (F63.0), é reconhecido pela literatura científica como uma forma de dependência comportamental, apresentando características semelhantes às dependências químicas, como compulsão, tolerância e dificuldade de interrupção do comportamento, mesmo diante de consequências negativas.

De acordo com Dalgalarrondo (2019, p. 406), o “transtorno do jogo é caracterizado por um padrão persistente de comportamento no qual o indivíduo apresenta perda de controle sobre o ato de jogar”, priorizando essa atividade em detrimento de outras dimensões da vida e mantendo-a apesar dos prejuízos ocasionados. Dessa forma, os impactos associados às apostas on-line ultrapassam o âmbito individual, alcançando dimensões sociais, familiares, emocionais e econômicas.

Diante dessa realidade, torna-se fundamental ampliar o debate acadêmico acerca dos impactos dos jogos de apostas on-line na saúde mental, considerando as novas configurações do sofrimento psíquico na contemporaneidade. Além disso, evidencia-se a necessidade de discutir os desafios enfrentados pelos serviços de saúde mental no que se refere à identificação precoce, à prevenção e ao manejo dos comportamentos aditivos relacionados ao jogo. Nesse contexto, emerge o seguinte problema de pesquisa: quais são os impactos dos jogos de apostas on-line na saúde mental e quais prejuízos emocionais, sociais e comportamentais podem estar associados ao comportamento compulsivo relacionado às apostas digitais?

A pertinência da temática também decorre das experiências observadas no campo de estágio, especialmente no contexto dos serviços especializados em saúde mental, como o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD). Nesse cenário, percebe-se a necessidade de ampliação das estratégias de cuidado e acolhimento voltadas às demandas relacionadas às dependências comportamentais, incluindo práticas específicas de acompanhamento e intervenção direcionadas aos indivíduos afetados por comportamentos compulsivos associados às apostas on-line.

A delimitação deste estudo justifica-se pela relevância clínica e social que essa problemática vem assumindo, considerando que muitos indivíduos afetados não reconhecem a necessidade de ajuda ou desconhecem os serviços disponíveis para atendimento. Soma-se a isso a existência de lacunas na formação profissional e na organização dos serviços de saúde mental quanto ao acolhimento específico dessas demandas emergentes.

A relevância científica deste estudo está relacionada à necessidade de ampliação do conhecimento acerca das dependências comportamentais, especialmente do transtorno do jogo, ainda considerado um campo em expansão na literatura científica. Embora reconhecido em classificações diagnósticas como o DSM-5-TR e a CID-10, o tema ainda demanda maior aprofundamento teórico e investigações que contribuam para sua compreensão diante das transformações sociais contemporâneas e do crescente avanço das tecnologias digitais.

A fundamentação metodológica adotada do presente estudo baseia-se em uma investigação científica de natureza qualitativa, caracteriza-se como uma revisão sistemática. Diante do exposto, o presente estudo tem como objetivo geral analisar os impactos dos jogos de apostas on-line na saúde mental, evidenciando os fatores de risco e as consequências psicológicas e sociais associadas ao comportamento compulsivo.

Para isso, busca-se descrever a dependência comportamental relacionada ao jogo, identificar fatores associados ao comportamento compulsivo, evidenciar os impactos psicológicos e sociais decorrentes das apostas on-line e contextualizar os desafios enfrentados pelos serviços de saúde mental diante dessa demanda.

2. TRANSTORNO DO JOGO E APOSTAS ONLINE: FUNDAMENTOS CONCEITUAIS, IMPACTOS PSICOSSOCIAIS E DESAFIOS PARA A ATENÇÃO NO SUS

O jogo é compreendido como uma manifestação humana de caráter universal, estando presente desde a infância até as diversas formas contemporâneas de lazer. Segundo Sakamoto (2018), essa prática constitui uma dimensão fundamental da imaginação e da interação social, compondo um repertório simbólico que acompanha o desenvolvimento individual e coletivo ao longo das gerações.

Contudo, embora o ato de jogar esteja historicamente associado ao entretenimento e à sociabilidade, observa-se que, na contemporaneidade, determinadas modalidades passaram a assumir características potencialmente nocivas à saúde mental, especialmente diante da expansão das apostas on-line e da crescente digitalização dessas práticas.

Quando o jogo ultrapassa o campo lúdico e passa a ocorrer de forma persistente e descontrolada, ele é discutido pela literatura científica como uma dependência comportamental grave. Essa condição caracteriza-se pela incapacidade do indivíduo de controlar o impulso de jogar, mantendo o comportamento mesmo diante de prejuízos significativos em diferentes áreas da vida.

Clinicamente, o transtorno do jogo é marcado pela perda de controle sobre o ato de apostar, comprometendo relações familiares, desempenho profissional, estabilidade financeira e saúde emocional. Conforme Dalgalarrondo (2019, p. 406), o indivíduo “passa a priorizar o jogo em detrimento de áreas vitais”, sustentando o comportamento mesmo diante das consequências negativas geradas.

A gravidade dessa condição é reconhecida pelo Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR), que classifica o transtorno do jogo entre os transtornos relacionados a substâncias e comportamentos aditivos (American Psychiatric Association, 2022). Essa classificação evidencia que o padrão recorrente de apostas pode ocasionar sofrimento clinicamente significativo e severos prejuízos funcionais.

Além disso, observa-se que os sintomas apresentados por indivíduos acometidos pelo transtorno possuem similaridades com aqueles identificados nas dependências químicas, incluindo compulsão, tolerância e irritabilidade diante da tentativa de interrupção do comportamento (American Psychiatric Association, 2014).

A Organização Mundial da Saúde (2024) reconhece que os jogos de apostas podem produzir impactos significativos sobre a saúde mental, estando associados ao desenvolvimento de transtornos de ansiedade, depressão, sofrimento psíquico intenso e risco aumentado de autolesão e ideação suicida em casos graves.

As repercussões também alcançam a dimensão psicossocial, afetando diretamente a estabilidade financeira, os vínculos familiares e as relações interpessoais (Brasil, 2025). Nesse contexto, o endividamento severo, o isolamento social e o comprometimento funcional tornam-se frequentes, demandando respostas articuladas de proteção social e cuidado psicossocial (Silva; Sousa, 2025).

Com o avanço das tecnologias digitais, o acesso aos jogos de apostas foi amplamente facilitado por meio de plataformas on-line, aplicativos móveis e redes sociais. Esse processo de digitalização ampliou significativamente o número de usuários e introduziu mecanismos de gamificação, recompensas instantâneas e estímulos permanentes que tornam cada vez mais tênue a fronteira entre entretenimento e comportamento de risco (Brasil, 2026).

Dessa forma, o fenômeno das apostas digitais deve ser compreendido em articulação com os determinantes sociais e comerciais da saúde, considerando fatores como desigualdade econômica, vulnerabilidade social, faixa etária e exposição contínua à publicidade.

Estudos indicam maior prevalência de comportamentos problemáticos relacionados ao jogo entre homens jovens e indivíduos inseridos em contextos de vulnerabilidade social (Silva; Sousa, 2025). Ademais, a publicidade agressiva e a construção de expectativas irreais de enriquecimento rápido estimulam a participação descontrolada, sobretudo entre pessoas que enfrentam dificuldades econômicas e buscam soluções financeiras imediatas (Damasceno, 2024).

Soma-se a isso a ausência de regulamentações mais efetivas voltadas à redução de danos e à proteção psicossocial, o que contribui para o agravamento do cenário de risco associado às apostas on-line (Silva; Sousa, 2025).

No campo neurobiológico, estudos recentes apontam alterações importantes no sistema de recompensa cerebral e no controle de impulsos em indivíduos acometidos pelo transtorno do jogo, demonstrando que fatores biológicos, psicológicos e contextuais interagem de maneira complexa no desenvolvimento e na manutenção da dependência (Laranjeira et al., 2024). Essas evidências reforçam a necessidade de estratégias de cuidado integradas e fundamentadas em evidências científicas, alinhadas aos princípios de universalidade e integralidade do Sistema Único de Saúde (SUS).

No cenário brasileiro, dados do SUS revelam crescimento expressivo dos atendimentos relacionados ao jogo entre os anos de 2018 e 2025, demonstrando aumento de 104% nos registros associados a essa demanda (Brasil, 2026). Tais informações evidenciam que o problema já impacta diretamente tanto a Atenção Primária quanto os serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), indicando a expansão territorial dessa problemática no país.

Em âmbito global, a Organização Mundial da Saúde (2024) aponta que uma parcela significativa de adultos e adolescentes já participou recentemente de algum tipo de jogo de apostas, enquanto, no Brasil, modalidades como loterias e apostas on-line lideram os índices de participação e risco (Silva; Sousa, 2025).

Além dos prejuízos individuais, o impacto social das apostas é amplo, uma vez que os danos decorrentes do comportamento compulsivo afetam familiares, amigos e pessoas próximas. Estima-se que, para cada indivíduo classificado em alto risco para dependência do jogo, cerca de seis pessoas sejam impactadas negativamente pelas consequências sociais, emocionais e financeiras relacionadas ao transtorno (Brasil, 2025; Silva; Sousa, 2025).

Outrossim, destaca-se o papel fundamental dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) no manejo dessa problemática, considerada relativamente recente nas práticas institucionais da rede pública de saúde. Torna-se imprescindível qualificar as equipes multiprofissionais para ofertar um cuidado integral que contemple as dimensões individuais, sociais e coletivas do sofrimento psíquico relacionado às apostas digitais.

Nesse contexto, evidencia-se a necessidade de fortalecimento das políticas públicas, das estratégias preventivas e das ações interdisciplinares voltadas ao acolhimento e à redução dos impactos produzidos pelo comportamento compulsivo associado aos jogos de apostas on-line.

3. JOGO E VÍCIO NA CONTEMPORANEIDADE: ENTRE DISPOSITIVOS DE ENGAJAMENTO E PRODUÇÃO DO SOFRIMENTO

A contemporaneidade assiste a profundas transformações nas dinâmicas de entretenimento e sociabilidade, nas quais a fronteira entre lazer e compulsão torna-se progressivamente mais difusa sob a influência do capitalismo digital. Nesse contexto, os jogos de apostas on-line emergem como práticas amplamente incorporadas ao cotidiano social, impulsionadas pela expansão das tecnologias digitais, pela conectividade permanente e pela intensificação das estratégias de consumo mediadas por plataformas virtuais.

Conforme argumentam Clímaco (2004) e Diniz (2025), o jogo patológico configura-se como uma forma de dependência invisível, desprovida dos sinais físicos tradicionalmente associados às dependências químicas, mas marcada por severos impactos psicossociais, emocionais e econômicos.

Essa invisibilidade é potencializada pela onipresença dos dispositivos móveis, que transformam o espaço privado em um ambiente contínuo de interação com plataformas de apostas. Dessa forma, o engajamento do indivíduo não ocorre de maneira meramente espontânea, mas é estimulado por mecanismos digitais desenvolvidos para capturar a atenção, prolongar o tempo de permanência nas plataformas e sustentar o desejo constante de apostar.

Nesse cenário, a passagem do comportamento recreativo para o comportamento patológico é mediada por dispositivos técnicos de reforço positivo que operam por meio de recompensas rápidas, estímulos sensoriais intensos e promessas de ganhos financeiros imediatos, dificultando a percepção crítica sobre as perdas reais experimentadas pelos usuários.

Os jogos de azar on-line operam, portanto, mediante fatores mantenedores específicos, nos quais a velocidade das rodadas, os sistemas de recompensa e a expectativa de lucro elevado contribuem para obscurecer os prejuízos emocionais e financeiros decorrentes da prática compulsiva.

Segundo Gobbo et al. (2026, p. 1), após a recente legalização das apostas esportivas on-line no Brasil, o país passou a ocupar posição de destaque entre os maiores mercados mundiais do setor, registrando gasto médio mensal de R$ 263,00 por apostador e movimentação aproximada de R$ 54 bilhões somente no ano de 2023. Tais dados evidenciam que o fenômeno ultrapassa o campo do entretenimento, alcançando dimensões econômicas e sociais expressivas.

Nesse contexto, a dependência comportamental relacionada ao jogo não pode ser compreendida unicamente como uma falha moral ou ausência de autocontrole individual, mas como resultado de mecanismos algorítmicos que exploram vulnerabilidades neurobiológicas e emocionais. O sofrimento psíquico manifesta-se no intervalo entre a expectativa permanente de ganho e a recorrência das perdas financeiras, produzindo desorganização emocional, endividamento e comprometimento das relações sociais. Além disso, a influência dessas plataformas alcança de maneira particularmente preocupante a juventude, reconfigurando formas de socialização e interação interpessoal na sociedade contemporânea.

Cavalli e Vendrame (2013) e Gobbo et al. (2024) observam que o universo virtual e os jogos de slot exercem forte fascínio sobre os usuários, podendo desencadear processos de isolamento social, sofrimento emocional e alterações significativas no comportamento interpessoal.

Embora essas plataformas aparentem oferecer experiências de conectividade e entretenimento, sua lógica de funcionamento baseia-se em sistemas contínuos de recompensa que geram estados permanentes de tensão, expectativa e excitação emocional. Nesse sentido, adolescentes e jovens tornam-se especialmente vulneráveis às estratégias de retenção digital, uma vez que se encontram em processo de desenvolvimento emocional, cognitivo e social.

A manipulação sensorial constitui outro elemento central nesse processo, considerando que os estímulos auditivos, visuais e interativos presentes nas plataformas de apostas induzem estados de hiperfoco e automatização do comportamento. Essa arquitetura digital reduz significativamente a capacidade reflexiva do sujeito, favorecendo decisões impulsivas e dificultando a avaliação racional das consequências futuras.

Consequentemente, o comportamento de apostar passa a assumir características automatizadas e compulsivas, comprometendo a autonomia individual e ampliando os riscos de sofrimento psíquico. Os impactos produzidos por esse processo ultrapassam o âmbito individual e alcançam o núcleo familiar e a estabilidade socioeconômica dos sujeitos envolvidos. O endividamento progressivo, os conflitos familiares, o isolamento social e o comprometimento funcional tornam-se manifestações recorrentes do transtorno do jogo, evidenciando a amplitude dos danos associados às apostas on-line.

Dessa maneira, o indivíduo passa a ocupar posição de vulnerabilidade diante de interfaces digitais projetadas para manter elevados níveis de engajamento, independentemente dos prejuízos humanos decorrentes desse sistema.

Contudo, a compreensão desses fenômenos não ocorre de forma consensual no campo acadêmico. Meneses (2014) e Prestes et al. (2024) apontam a existência de disputas teóricas relacionadas à própria conceituação da dependência comportamental, especialmente diante das transformações nas formas contemporâneas de subjetivação e interação digital. Paralelamente, os autores destacam a importância das redes de apoio psicossocial e da atuação do profissional de Psicologia no processo de desconstrução das distorções cognitivas associadas ao jogo compulsivo.

Nesse contexto, torna-se necessário problematizar se a patologização dessas condutas representa apenas um mecanismo classificatório ou se constitui uma resposta necessária frente à agressividade das indústrias digitais e às estratégias de captura da atenção operadas pelas plataformas de apostas. Tal tensão exige uma análise crítica capaz de reconhecer simultaneamente a agência do sujeito e o poder coercitivo dos dispositivos tecnológicos contemporâneos, especialmente diante dos impactos crescentes produzidos sobre a saúde mental e as relações sociais.

4. O CUIDADO COM OS INDIVÍDUOS QUE TEM PROBLEMAS RELACIONADOS A JOGOS DE APOSTAS: PROJETO TERAPÊUTICO SINGULAR E RAPS COMO FERRAMENTAS DE APOIO

O texto apresenta excelente densidade analítica, boa articulação conceitual e coerência temática. A construção está madura academicamente e adequada ao campo da saúde mental coletiva. Contudo, existem alguns pontos que podem ser refinados para melhorar fluidez, evitar repetições, fortalecer a coesão entre parágrafos e aprimorar a formalidade científica. Há também pequenos ajustes gramaticais e estruturais necessários. Segue abaixo a versão revisada e aprimorada:

A problemática dos jogos de apostas, no cenário brasileiro recente, impõe ao campo da saúde mental um deslocamento analítico que ultrapassa leituras moralizantes ou centradas exclusivamente no indivíduo.

Considerando a urgência de respostas estruturadas diante da expansão do mercado de apostas no Brasil, o presente tópico dedica-se à análise do Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas: orientações práticas para o acolhimento, acompanhamento e cuidado de pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas, no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e das ações intersetoriais, publicado pelo Ministério da Saúde em 2026.

A referida obra constitui um importante marco orientador para a reorganização das práticas assistenciais no Sistema Único de Saúde, estabelecendo diretrizes técnicas voltadas ao manejo clínico e psicossocial dessa problemática contemporânea. Ao centralizar a discussão nesse documento oficial, busca-se compreender como dispositivos de cuidado, especialmente o Projeto Terapêutico Singular (PTS) e a articulação em rede, são mobilizados na construção de estratégias de cuidado em liberdade e corresponsabilização institucional (Brasil, 2026).

O fenômeno das apostas articula-se diretamente às condições materiais de existência, à ampliação das plataformas digitais e à intensificação de estratégias mercadológicas que exploram vulnerabilidades sociais e emocionais. Nesse contexto, o cuidado não pode ser concebido como resposta pontual ao comportamento de apostar, mas como intervenção situada em processos mais amplos de sofrimento psicossocial, exigindo reorganização permanente das práticas assistenciais no âmbito do Sistema Único de Saúde (Brasil, 2026).

Uma vez estabelecido o vínculo terapêutico, o cuidado demanda instrumentos capazes de traduzir a complexidade das trajetórias individuais em estratégias concretas de intervenção. Nesse sentido, o Projeto Terapêutico Singular emerge como importante dispositivo organizador do cuidado, ao articular dimensões clínicas, psicossociais e territoriais em um plano construído coletivamente.

Conforme destaca o Ministério da Saúde:

o PTS é um dispositivo que articula dimensões clínicas, psicossociais e territoriais, promovendo o cuidado compartilhado, a corresponsabilidade e a construção de planos que respeitam os modos de vida das pessoas [...] Essa perspectiva também dialoga com a clínica ampliada e com o cuidado em liberdade, que compreendem o sujeito em sua singularidade e complexidade [...] Mais do que um plano clínico, o PTS é uma estratégia de corresponsabilização, no qual diferentes profissionais e serviços compartilham o cuidado de uma mesma pessoa, respeitando seus tempos, desejos e possibilidades. No contexto dos jogos de apostas, o PTS é a ferramenta que transforma um problema individual em um projeto de vida acompanhado pela rede (Brasil, 2026, p. 29).

A elaboração desse projeto implica um movimento analítico que ultrapassa a simples identificação de sintomas, abrangendo a investigação das condições de vida, dos vínculos sociais e dos impactos produzidos pelo jogo no cotidiano do sujeito. Essa leitura situacional possibilita compreender como fatores econômicos, familiares, culturais e subjetivos se entrelaçam na produção do sofrimento psíquico. Além disso, esse aprofundamento analítico contribui para evitar intervenções superficiais, favorecendo a definição de prioridades coerentes com a realidade concreta do usuário (Brasil, 2026).

O acompanhamento contínuo revela que a relação com o jogo não se manifesta de forma homogênea, exigindo ajustes permanentes nas estratégias terapêuticas adotadas. A avaliação psicossocial, ao sistematizar informações ao longo do tempo, possibilita identificar alterações no padrão de comportamento e na intensidade do sofrimento apresentado. Esse monitoramento contínuo favorece intervenções mais precisas e contribui para a prevenção de agravamentos, sobretudo em contextos marcados por elevada vulnerabilidade social (Brasil, 2026).

Nesse processo, situações iniciais podem ser acompanhadas em serviços de base territorial, enquanto quadros mais complexos demandam articulação com dispositivos especializados e serviços de urgência. Essa gradação do cuidado não deve ser compreendida como hierarquização rígida, mas como estratégia dinâmica e flexível, construída de acordo com a evolução das necessidades apresentadas pelo usuário (Brasil, 2026).

Sob essa perspectiva, o objetivo do cuidado não se restringe à eliminação do comportamento de jogar, mas à produção de condições que possibilitem ao sujeito reconstruir sua relação com o cotidiano, com os vínculos sociais e com seus projetos de vida. A centralidade da pessoa, aliada à integração entre serviços e setores, define os contornos de uma política pública comprometida com os princípios da integralidade, da dignidade humana e do cuidado em liberdade (Brasil, 2026).

A Rede de Atenção Psicossocial vem incorporando progressivamente as demandas relacionadas aos jogos de apostas em seus serviços. Dados do Sistema Único de Saúde indicam a realização de 10.553 atendimentos entre janeiro de 2018 e maio de 2025, distribuídos entre a Atenção Primária à Saúde e os Centros de Atenção Psicossocial (Brasil, 2026). Esses registros evidenciam não apenas a ampliação da demanda assistencial relacionada às apostas on-line, mas também a necessidade de fortalecimento das políticas públicas e das estratégias intersetoriais voltadas à prevenção, ao acolhimento e ao cuidado integral em saúde mental.

Segue um quadro sistematizado dos dispositivos e funções do RAPS.

Quadro 1. Quadro de Dispositivos e Funções da RAPS (Jogos de Apostas)

Dispositivo

Função Principal

Ações Específicas no Contexto de Apostas

Articulação em Rede

Atenção Primária (APS)

Porta de entrada e acompanhamento longitudinal.

Identificação precoce (ACS), busca ativa, grupos de prevenção e Acompanhamento de sinais (endividamento, isolamento).

Matriciamento com Caps e eMulti; encaminhamento pactuado de casos graves.

Equipes Multiprofissionais (eMulti).

Apoio técnico-pedagógico e clínico às equipes da APS.

Interconsulta, discussão de casos complexos, auxílio na construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS).

Apoio matricial entre UBS e Caps; diálogo com assistência social e educação.

Caps (Geral, AD e i)

Eixo estruturante e coordenação do cuidado especializado.

Atendimento intensivo a casos graves, manejo de impulsos, oficinas terapêuticas e acompanhamento familiar.

Referência técnica da rede; gestão de leitos de saúde mental e Unidades de Acolhimento.

Caps III (24 horas)

Atenção a crises e acolhimento noturno.

Proteção imediata em risco de suicídio, desorganização por perda financeira grave ou ameaças de credores.

Estabilização voluntária e breve (até 15 dias) para reintegração ao território.

Unidades de Acolhimento (UA)

Residencialidade transitória e proteção social.

Moradia temporária para quem sofreu ruptura de vínculos ou ameaças de violência por dívidas.

Permanência de até 6 meses articulada ao Caps e APS para reinserção social.

Leitos em Hospital Geral

Atenção hospitalar de curta permanência (substitutivo).

Estabilização de tentativas de autoextermínio, agitação psicomotora e comorbidades clínicas graves.

Articulação com RUE (Samu/UPA); alta com retorno garantido ao Caps/APS.

Centros de Convivência (Ceco)

Reabilitação psicossocial e reinserção comunitária.

Oficinas de arte, cultura e economia solidária para reduzir o excesso de telas e ressignificar a relação com o dinheiro.

Fortalecimento de laços sociais e fomento ao trabalho autogestionado (protagonismo).

Rede de Urgência (RUE: Samu, UPA)

Resposta imediata à crise e risco iminente.

Acolhimento em crises agudas de ansiedade, pânico ou risco de vida; estabilização e regulação.

Contrarreferência imediata ao Caps/APS após o atendimento de urgência.

Fonte: Quadro elaborado pelas autoras (2026)

Esses dados evidenciam que o fenômeno das apostas já se encontra inserido no cotidiano da Rede de Atenção Psicossocial, embora sua presença ocorra de maneira desigual entre os diferentes pontos de atenção. Observa-se maior concentração dos atendimentos na Atenção Primária à Saúde, aspecto que reforça sua relevância como principal porta de entrada do sistema e espaço estratégico para o acompanhamento inicial dos usuários (Brasil, 2026).

Nesse contexto, a adoção de estratégias de busca ativa e de educação em saúde emerge como elemento fundamental para enfrentar a baixa procura espontânea pelos serviços especializados.

Além disso, tais ações contribuem para a redução de barreiras simbólicas e institucionais, ampliando o acesso aos serviços de saúde mental, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidades sociais, econômicas e emocionais (Brasil, 2026). A aproximação com os territórios, associada à circulação de informações qualificadas sobre os riscos relacionados às apostas on-line, pode favorecer o reconhecimento precoce do problema e estimular a busca por cuidado.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As transformações promovidas pelas tecnologias digitais e pela expansão das plataformas de apostas on-line vêm produzindo impactos significativos sobre a saúde mental e as relações sociais contemporâneas. Ao longo deste estudo, evidenciou-se que o fenômeno das apostas ultrapassa a dimensão do entretenimento, configurando-se como uma problemática complexa que envolve fatores econômicos, subjetivos, sociais e tecnológicos.

Nesse contexto, o transtorno do jogo apresenta-se como uma dependência comportamental capaz de comprometer o funcionamento emocional, financeiro, familiar e ocupacional dos indivíduos, produzindo diferentes formas de sofrimento psíquico.

A análise desenvolvida permitiu compreender que os jogos de apostas on-line operam mediante mecanismos de reforço contínuo que estimulam o comportamento compulsivo e dificultam a percepção crítica acerca dos prejuízos produzidos. A lógica algorítmica das plataformas digitais, associada à publicidade intensa e à promessa de ganhos financeiros rápidos, favorece a permanência dos usuários nesses ambientes, especialmente entre sujeitos em situação de vulnerabilidade social e emocional. Dessa forma, verificou-se que o fenômeno não pode ser compreendido exclusivamente sob a ótica individual, mas deve ser analisado em articulação com os determinantes sociais e comerciais da saúde.

Os resultados também evidenciaram que os impactos das apostas on-line se manifestam de maneira ampla, alcançando não apenas o indivíduo, mas também os vínculos familiares, as relações interpessoais e a estabilidade socioeconômica. Entre os principais prejuízos observados destacam-se o endividamento progressivo, o isolamento social, os conflitos familiares, os sintomas ansiosos e depressivos, além do comprometimento funcional e emocional decorrente da perda de controle sobre o ato de jogar. Tais aspectos reforçam a necessidade de fortalecimento das ações preventivas e das estratégias de cuidado integral no âmbito da saúde mental.

No campo das políticas públicas, destacou-se a relevância da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) no acolhimento e acompanhamento das demandas relacionadas ao transtorno do jogo. A análise do Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas, publicado pelo Ministério da Saúde, demonstrou a importância do Projeto Terapêutico Singular (PTS) como dispositivo capaz de articular cuidado clínico, psicossocial e territorial, promovendo estratégias de corresponsabilização e cuidado em liberdade. Evidenciou-se, ainda, a necessidade de qualificação permanente das equipes multiprofissionais para o manejo dessas demandas emergentes.

Além disso, verificou-se que a Atenção Primária à Saúde desempenha papel estratégico na identificação precoce dos casos, especialmente por meio de ações de busca ativa, educação em saúde e fortalecimento dos vínculos comunitários. Essas iniciativas tornam-se fundamentais para ampliar o acesso aos serviços, reduzir barreiras institucionais e favorecer o reconhecimento do sofrimento relacionado às apostas on-line.

Diante disso, conclui-se que o enfrentamento dos impactos produzidos pelos jogos de apostas on-line exige ações intersetoriais, fortalecimento das políticas públicas de saúde mental e ampliação das estratégias preventivas voltadas à população.

Torna-se imprescindível desenvolver intervenções que considerem a complexidade do fenômeno, articulando cuidado clínico, proteção social, educação em saúde e regulamentação das práticas digitais relacionadas às apostas. Por fim, espera-se que este estudo contribua para o aprofundamento das discussões científicas acerca das dependências comportamentais e para a construção de estratégias de cuidado mais humanizadas, integrais e alinhadas às demandas contemporâneas da saúde mental.

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1 Discente do Curso de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do Curso de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Docente e orientadora no Curso de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail