A FUNÇÃO SOCIAL DA LITERATURA NA PERSPECTIVA DA RELAÇÃO ENTRE LITERATURA E SOCIEDADE: UMA REVISÃO NARRATIVA

THE SOCIAL FUNCTION OF LITERATURE FROM THE PERSPECTIVE OF THE RELATIONSHIP BETWEEN LITERATURE AND SOCIETY: A NARRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789327449

RESUMO
Este artigo investiga as concepções acerca da função social da literatura presentes na produção teórica que aborda as relações entre literatura e sociedade. Parte-se do entendimento de que a literatura ultrapassa a dimensão exclusivamente estética, constituindo-se como prática cultural, social e simbólica relacionada à formação humana, à produção de sentidos e à interpretação da realidade. O estudo tem como objetivo geral investigar as concepções acerca da função social da literatura presentes na produção teórica sobre a relação entre literatura e sociedade, buscando identificar autores e perspectivas, analisar aproximações e divergências e compreender como a literatura é concebida como prática cultural, estética e social. Metodologicamente, caracteriza-se como pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica, desenvolvida por meio de revisão narrativa da literatura. A busca foi realizada no Portal de Periódicos da CAPES, utilizando os descritores “função social AND literatura AND sociedade”, considerando publicações em Língua Portuguesa entre 2017 e 2026. Foram recuperados 11 artigos, dos quais 03 foram excluídos conforme os critérios estabelecidos, resultando em um corpus de 08 estudos. A análise evidencia convergências na compreensão da literatura como prática capaz de representar e ressignificar experiências humanas, promover reflexão crítica, preservar memórias, problematizar desigualdades e contribuir para a formação cidadã. As divergências concentram-se principalmente na ênfase atribuída à humanização, à denúncia social, à construção discursiva da realidade e à participação do leitor. Conclui-se que a função social da literatura envolve processos de humanização, formação crítica, resistência, produção simbólica e transformação social, reafirmando sua relevância para a compreensão da sociedade contemporânea.
Palavras-chave: Função social da literatura; Literatura e sociedade; Revisão narrativa; Formação crítica; Transformação social.

ABSTRACT
This article investigates conceptions of the social function of literature found in theoretical production addressing the relationship between literature and society. It is based on the understanding that literature goes beyond its exclusively aesthetic dimension and constitutes a cultural, social, and symbolic practice related to human development, the production of meanings, and the interpretation of reality. The general objective is to investigate conceptions of the social function of literature present in theoretical studies on the relationship between literature and society, as well as to identify authors and perspectives, analyze convergences and divergences, and understand how literature is conceived as a cultural, aesthetic, and social practice. Methodologically, the study is characterized as qualitative and bibliographic research developed through a narrative literature review. The bibliographic search was conducted in the CAPES Periodicals Portal using the descriptors “social function AND literature AND society”, considering publications in Portuguese between 2017 and 2026. Eleven articles were retrieved, of which three were excluded according to the established criteria, resulting in a final corpus of eight studies. The analysis reveals convergences in understanding literature as a practice capable of representing and re-signifying human experiences, promoting critical reflection, preserving collective memory, problematizing inequalities, and contributing to citizenship education. The divergences mainly concern the emphasis placed on humanization, social denunciation, the discursive construction of reality, and the reader’s participation in the production of meanings. The study concludes that the social function of literature encompasses processes of humanization, critical formation, resistance, symbolic production, and social transformation, reaffirming its relevance to the understanding of contemporary society.
Keywords: Social function of literature; Literature and society; Narrative review; Critical formation; Social transformation.

1. INTRODUÇÃO

As manifestações culturais podem ocorrer de diversas formas, dentre elas, por meio da Literatura. A manifestação literária pode ser compreendida como uma das mais significativas dentro do campo cultural, desenvolvendo pelo e no contexto histórico pontos centrais nas demonstrações das experiências humanas, na conservação de memórias individuais e grupais e potencialmente na realidade social (Candido, 2023). Entende-se que obras literárias podem estabelecer relações dialógicas com realidade políticas, históricas, econômicas e culturais, isso vai além da percepção estética, pois reflete nas interpretações, reinterpretações por meio de questionamentos de dogmas, ideologias, valores dentro das estruturas e relações de poder social (Bakhtin, 2002). Desse modo, discutir literatura e sociedade é conjugá-las indissociáveis, no tocante, às produções literárias que surgem dos contextos e experiências sociais.

A relação entre literatura e sociedade faz parte de dois pontos importantes na crítica literária contemporânea, onde a obra de arte não é autônoma e isolada, e sim, congruente nas dinâmicas sociais. Segundo Candido (2006), a literatura é compreendida como conjunto que abarca autor, obra e público, no qual os elementos exteriores, por exemplo, a sociedade, se tornam interiores quando colocados à forma literária. Assim, entende-se que a literatura reflete a realidade, e age ativamente no desenvolvimento das sensibilidades coletivas e pelas tradições de forma geral.

O entendimento da literatura como um campo social de investigação é discutido a partir de várias correntes, especialmente as correntes críticas. Candido (2006) argumenta que a literatura exerce várias posições e funções, dentre elas a função humanizadora quando contribui para o desenvolvimento da imaginação e do pensamento crítico e ainda destaca que isso é um direito importante aos processos de formação humana. Para esse autor, as necessidades humanas são interconectadas à literatura e isso torna-se importante para a constituinte cidadã e experiências sociais.

Ainda neste contexto, Eagleton (2006) destaca a literatura no contexto cultural indispensável para os confrontos ideológicos e políticos em seus respectivos locais sociais. Ele também destaca que a literatura não é neutra, é compreendida como uma manifestação permeada por símbolos e conectada com valores, relações de poder e interesse próprios.

Vários autores discutem as relações entre literatura e sociedade, por exemplo, De Souza (2017) mostra que obras literárias podem ser analisadas, lidas, discutidas e compreendidas tanto pelo viés estético quanto pelos contextos históricos, culturais, sociais, políticos e econômicos. Para Bourdieu (1996) a literatura faz parte de um campo cultural que disputa legitimidade e poder simbólico. Isso pode ampliar a compreensão da literatura como prática social inserida em processos históricos e culturais complexos.

Sob essa perspectiva dos processos históricos, culturais e da estética, Jauss (1994) e Iser (1996) transportam isso nas obras entre texto e leitor, onde os sentidos literários são desenvolvidos na interação entre ambos. Nessa maneira, a literatura potencializa a esfera de expectativas do leitor, nos processos de reflexão, revisão de valores e formação crítica. Esses autores aproximam-se das discussões de Bakhtin (2002), que destaca sobre a produção discursiva, e deve ser dialógica, pois a literatura é um campo de circulação de vozes sociais, conflitos ideológicos e múltiplas visões de mundo.

Nesse cenário de discussões, produções e autores, a crítica literária contemporânea revela a literatura como um local de manifestações das desigualdades sociais, das relações de gênero, das identidades culturais e das diferentes formas de violência e exclusão. As discussões desenvolvidas por autores como Candido (2023), Eagleton (2006), Bourdieu (1996), Jauss (1994), Bakhtin (2002) demonstram que a função social da literatura vai além da representação da realidade, envolve denúncia, resistência, construção da memória, preservação cultural, formação cidadã e transformação social. Dessa maneira, tudo isso estabelece relações infindáveis, sendo as obras literárias espaços de disputa simbólica e de produção de novos significados acerca da experiência humana.

Apesar da vasta produção teórica, observa-se que as interpretações sobre o papel que a literatura deve ou pode desempenhar na sociedade por vezes são divergentes. Há vertentes de caráter pedagógico e humanizador da arte, outras manifestam resistências à instrumentalização política, por exemplo. Diante dessa pluralidade de perspectivas, entende-se a necessidade de mapear como conceitos vêm sendo discutidos e articulados na produção acadêmica recente. Diante desse contexto, este estudo busca responder ao seguinte problema de pesquisa: Quais concepções acerca da função social da literatura emergem nas publicações que discutem a relação entre literatura e sociedade?

Para responder a essa questão, estabelece-se como objetivo geral: Investigar as concepções acerca da função social da literatura presentes na produção teórica que discute as relações entre literatura e sociedade.

Como objetivos específicos, pretende-se: identificar os autores que discutem a função social da literatura; analisar as aproximações e divergências entre as diferentes concepções sobre essa função; analisar como a literatura é concebida como prática cultural, estética e social nas produções selecionadas.

A realização desta pesquisa, a partir de uma revisão narrativa, justifica-se por sua relevância acadêmica e educacional, pela importância de compreender e sistematizar o debate contemporâneo acerca da função social da literatura. Por isso, este artigo intitula-se “A Função Social da Literatura na Perspectiva da Relação entre Literatura e Sociedade: Uma Revisão Narrativa”. Assim, entende-se que essa revisão pode permear vários caminhos, dentre eles, no campo dos estudos literários, contribui para organizar perspectivas teóricas que discutem as relações entre literatura e sociedade. Tal organização, torna-se viável em um contexto marcado por transformações culturais, pela crise das humanidades, pela expansão da cultura digital, pela emergência de novos modos de leitura e pela crescente presença da inteligência artificial nos processos de produção, circulação e mediação do conhecimento.

No âmbito educacional, esta pesquisa também se torna notória para favorecer reflexões sobre o papel da literatura na formação de leitores críticos e capazes de interpretar a complexidade das experiências humanas e sociais. Isso será realizado a partir da revisão narrativa proposta para identificar, autores, diferentes concepções acerca da função social da literatura e como a literatura é concebida como prática cultural, estética e social nas produções selecionadas. Espera-se que este estudo ofereça subsídios para pesquisadores, professores e demais interessados compreenderem a literatura como prática socialmente situada, como campo de discussões privilegiando reflexões, diálogos e transformação social, reafirmando sua relevância na compreensão da sociedade contemporânea.

2. APORTES TEÓRICOS SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DA LITERATURA

A literatura como prática social pode ser compreendida a partir dos eixos normatizantes dos estudos literários contemporâneos. Correntes distintas da literária crítica surgiram no decorrer do século XX, muitas objetivando a superação formalista de que as obras literárias não poderiam ser interpretadas sem o conhecimento dos contextos históricos, culturais, políticos e econômicos. Desse modo, sociedade e literatura dialogam dialeticamente e os resultados são produções e resultados dos movimentos sociais de respectivas épocas e contextos na busca de compreensão da realidade (Sartre, 2004). Para Candido (2006) o social se torna forma literária e a literatura, por sua vez, atua sobre a realidade social ao ser consumida e interpretada.

Além dessa posição da literatura e a forma literária social, Candido (2006) destaca a necessidade global que os seres humanos precisam da literatura como função humanizadora, ou seja, o contato com as obras literárias contribuem para o desenvolvimento de sensibilidades, da imaginação, da reflexão crítica e ética, e da capacidade de questionar distintas experiências humanas. Tudo isso contribui para a formação integral de uma sociedade capaz de ir além do óbvio social e o combate aos poderes (não)simbólicos. Ou seja, a literatura rompe o ornamento aristocrático para ser compreendida como um direito básico para a integridade do ser humano e para a coesão do tecido social (Williams, 2011).

As discussões de Candido (2006) e Williams (2011) dialogam com Todorov (2009) que ajuíza críticas sobre os estudos da literatura exclusivamente voltados para as estruturas formais e estéticas. Para Todorov (2009) às experiências literárias devem ser capazes de alargar compreensões de questionamentos e reflexões da coexistência dos seres humanos. Além disso, contribuições para a formação ética e intelectual do sujeito em seus respectivos contextos culturais. Assim, a cultura não está apenas no montante de produções clássicas, e sim, em processos sociais, nos modos de vidas singelas e ou sofisticadas socialmente. Portanto, conceber a literatura como uma prática cultural ativa ajuda a construí-la, reforçando ou desafiando as estruturas de sentimento que definem uma geração (Williams, 2011).

As relações entre sociedade e literatura, segundo De Souza (2017), apresentam múltiplas formas pelas quais os textos literários dialogam com os contextos históricos e sociais de sua produção, assim tem-se a representação simbólica da realidade social para expor conflitos, valores, ideologias reveladas em tempos específicos e históricos. Assim, a análise literária não deve restringir-se à estrutura interna da obra, mas considerar igualmente as condições de produção, circulação e recepção dos textos. Nesse contexto de análise crítica literária contemporânea, Eagleton (2006) reitera sobre a compreensão que a sociedade tem decorrente da literatura que está interligada nos contextos sociais, históricos, culturais, institucionais e econômicos, sendo moldados ininterruptamente pelas disputas de valores. Assim, a literatura também é vista como uma produção simbólica em seus respectivos contextos históricos. Essa concepção de compreensão permite evidenciar que os textos literários participam da preservação da memória coletiva e da produção de sentidos compartilhados por diferentes grupos sociais.

Os diferentes grupos sociais constituídos nas sociedades, segundo Bourdieu (1996), suas produções literárias podem efetuar-se em espaços autônomos, onde escritores, críticos, editoras instituem cooperação e disputa pela legitimidade cultural. Tal legitimidade integra processos sociais complexos, envolvendo mecanismos de circulação e reconhecimento que ultrapassam o texto rigorosamente dito. Essa perspectiva evidencia que a produção literária é atravessada por relações de poder e por diferentes formas de capital simbólico. Onde, outro aspecto recorrente nesses contextos sociais é a relação entre literatura, política e ideologia. Nesse caminho, Bakhtin (2011), destaca que a literatura se configura como um campo de embate entre diferentes visões de mundo, o que possibilita ao leitor identificar as divergências, as lutas e os antagonismos que integram a teia social.

Dialogando com Bakhtin (2011), tem-se Eagleton (2006) e ambos argumentam que as produções literárias são legitimamente relações ideológicas de poderes, pois a construção quanto a leitura das obras são influenciadas pelas condições históricas e pelos sistemas de valores vigentes, ou seja, a literatura não é neutra e está recoberta de experiências humanas e relações sociais. Isso pode explicar porque há diferenças atribuídas entre as funções da literatura, determinadas visões de mundo e a crítica das estruturas sociais estabelecidas. Portanto, é possível compreender que a literatura ao representar experiências diversas e promover o diálogo entre diferentes perspectivas, pode contribuir para a construção de uma consciência crítica acerca da realidade.

Portanto, constata-se que os aportes teóricos apresentados nesta seção convergem para compreender a literatura como uma prática simultaneamente estética, cultural, social e política. A função social ultrapassa a representação da realidade, envolvendo processos de humanização, formação crítica, construção da memória, circulação de ideologias e produção de sentidos sobre a experiência humana. Assim, a literatura constitui um espaço privilegiado de reflexão sobre a sociedade, reafirmando sua relevância para a formação dos sujeitos e para a compreensão das transformações históricas e culturais que caracterizam o mundo contemporâneo.

Diante da densidade e da pluralidade dessas perspectivas que transitam entre a estética e a crítica ideológica, torna-se evidente compreender e discutir sobre a função social da literatura. Nesse sentido, a adoção da revisão narrativa como percurso metodológico justifica-se pela necessidade de realizar agrupamento de estudos para esse corpus teórico. Tal abordagem permite não apenas descrever os conceitos, mas estabelecer um diálogo qualitativo entre as diferentes vozes acadêmicas, identificando as subtilezas e contradições que permeiam o debate sobre a relação entre literatura e sociedade nas publicações contemporâneas.

3. PROCESSOS METODOLÓGICOS DA REVISÃO NARRATIVA

Este artigo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, desenvolvida por meio de pesquisa bibliográfica, utilizando como técnica de investigação a revisão narrativa da literatura. A abordagem qualitativa fundamenta-se na interpretação e compreensão dos fenômenos sociais, privilegiando a análise dos significados, concepções e perspectivas presentes nos textos investigados, em vez da mensuração estatística dos dados (Minayo, 2014).

Quanto aos procedimentos, trata-se de uma pesquisa bibliográfica, uma vez que se desenvolve a partir de material já publicado em artigos científicos, permitindo identificar, analisar e discutir o conhecimento produzido sobre determinado tema (Gil, 2019). Segundo Marconi e Lakatos (2021), a pesquisa bibliográfica possibilita ao pesquisador conhecer o estado da arte de um campo de investigação, identificar lacunas e produzir novas interpretações a partir da literatura existente.

Como técnica de investigação, adotou-se a revisão narrativa da literatura, modalidade que tem como finalidade reunir, descrever, interpretar e discutir a produção científica sobre um determinado tema, sem seguir, necessariamente, protocolos rígidos de seleção e análise, como ocorre nas revisões sistemáticas (Rother, 2007). Esse tipo de revisão permite uma análise crítica e interpretativa do conhecimento produzido, favorecendo a compreensão das diferentes perspectivas teóricas acerca da função social da literatura e de sua relação com a sociedade.

O procedimento de análise dos dados consistiu em uma análise descritiva documental, realizada a partir da leitura integral dos artigos selecionados, buscando identificar as concepções de função social da literatura, os referenciais teóricos mobilizados, as aproximações e divergências entre os autores e a forma como a literatura é concebida enquanto prática cultural, estética e social. Conforme Cellard (2008), a análise documental permite interpretar documentos como fontes de informação, possibilitando compreender seus conteúdos, contextos de produção e contribuições para determinado objeto de investigação.

A busca bibliográfica foi realizada no Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), considerando sua relevância como principal base de dados científica utilizada na pesquisa acadêmica brasileira. Foram empregados os descritores: “função social AND literatura AND sociedade”, utilizando o operador booleano AND, com o objetivo de recuperar publicações que abordassem simultaneamente os três termos.

Como critérios de inclusão, foram considerados artigos científicos publicados em Língua Portuguesa, publicados no período de 2017 a 2026, contendo os descritores em pelo menos um dos seguintes elementos: título, resumo ou palavras-chave. Como critérios de exclusão, eliminaram-se os trabalhos que não atendiam aos critérios de inclusão e os artigos duplicados.

Foram recuperados 11 artigos, dos quais 03 foram excluídos por não atenderem aos critérios previamente estabelecidos, resultando em um corpus final composto por 08 artigos, os quais constituíram a base da análise desta revisão narrativa. O processo de seleção dos estudos está sintetizado no Quadro 1.

Quadro 1. Processo de seleção dos artigos

Etapas da Busca

Resultados

Bse de dados consultados

Portal de Periódicos CAPES

Descritores utilizados

Fundação social AND literatura AND sociedade

Período da busca

2017-2026

Artigos recuperados

11

Artigos excluídos

03

Artigos selecionados

08

Fonte: Dos autores (2026).

O conjunto das publicações contempla investigações sobre literatura e humanização, representação social, relações de gênero, crítica cultural, formação do leitor, ensino de literatura, memória, identidade e cultura, permitindo identificar convergências e especificidades nas concepções atribuídas ao papel social da literatura. O Quadro 2 apresenta a identificação dos estudos selecionados e suas respectivas referências bibliográficas.

Quadro 2. Artigos selecionados para análise

Título dos artigos

Referência dos artigos

1

O jogo mimético na Odisseia, de Homero, e em A odisseia de Penélope, de Margaret Atwood

MODESTO, Edcleberton; SILVA, Ívens Matozo. O jogo mimético na Odisseia, de Homero, e em A odisseia de Penélope, de Margaret Atwood. Revista Odisseia, v. 8, n. 1, p. 75-93, 2023.

2

O sentimento de solidão presente no jovem contemporâneo e seus reflexos: uma análise do conto A primeira só, de Marina Colasanti

GALLATI, Isadora Ruiz; FERREIRA, Eliane Ap Galvão Ribeiro. O sentimento de solidão presente no jovem contemporâneo e seus reflexos: uma análise do conto A primeira só, de Marina Colasanti. Revista de Letras, v. 23, n. 40, 2021.

3

Entre cães e cadelas: a constância da figura canina na narrativa de Sheyla Smanioto

GUIZZO, Antonio Rediver; KLUMB, Stefani Andersson. Entre cães e cadelas: a constância da figura canina na narrativa de Sheyla Smanioto. Revista Memorare, v. 7, n. 1, p. 167-182, 2020.

4

O perigo da Literatura

SILVA, Luiz Felipe Verçosa da. O perigo da Literatura. Diversitas Journal, v. 8, n. 3, p. 3039-3045, 2023.

5

A mulher do médico em Ensaio Sobre A Cegueira (1995), de José Saramago

TIBOLA, Gabriela Piovesan Leitão; DE SOUZA FERRETTI, Vanessa Arlésia. A mulher do médico em Ensaio Sobre A Cegueira (1995), de José Saramago: notas sobre o (não) protagonismo feminino. REVELL: Revista de Estudos Literários da UEMS, v. 1, n. 34, p. 525-541, 2023.

6

Chicas Muertas, De Selva Almada: Três Assassinatos E O Silenciamento Da Violência Contra As Mulheres.

KOHLRAUSCH, Regina; DE PAULA KOBOLT, Maria Edilene. Chicas muertas, de Selma Almada: três assassinatos eo silenciamento da violência contra as mulheres. IPOTESI - Revista de Estudos Literários, v. 23 n. 2, 2019.

7

COSSON, Rildo. Paradigmas do ensino da literatura.

FERREIRA, Isabella Bacha; SILVA, Maurício. COSSON, Rildo. Paradigmas do ensino da literatura. Resenha. Eccos-Revista Cientifica. São Paulo, n. 59, p. 1-4, e21062, jul./set., 2020.

8

A cultura como elemento agregador para as unidades de informação: pluralizando manifestações culturais

SANTA ANNA, Jorge. A cultura como elemento agregador para as unidades de informação: pluralizando manifestações culturais. RDBCI: Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas, SP, v. 15, n. 1, p. 82–98, 2017.

Fonte: Dos autores (2026).

A diversidade temática e teórica dos estudos selecionados evidencia que a função social da literatura constitui um campo plural de investigação, onde a partir desse corpus, torna-se possível analisar as aproximações e divergências entre as concepções presentes na produção científica recente, fornecendo o referencial necessário para a discussão dos resultados desta revisão narrativa.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A seguir, são apresentados os resultados das análises realizadas nas leituras dos oito artigos selecionados para esta revisão narrativa. A apresentação dos resultados segue a roteirização acoplando a questão de pesquisa e aos objetivos propostos no decorrer do estudo, com seguintes subtítulos: a função social da literatura; aproximações e divergências na função social da literatura; prática cultural, estética e social na função social da literatura.

4.1. A Fundação Social da Literatura

Com base na síntese dos oito artigos analisados, observa-se que a função social da literatura é concebida de forma plural e os autores convergem em aspectos centrais relacionados, por exemplo, à formação humana, à crítica social e à compreensão da realidade.

O Artigo 1 apresenta que a literatura é discutida como representação e ressignificação da experiência humana e a função social equivale em elucidar a memória cultural, interpelar valores sociais e atualizar narrativas clássicas à luz das demandas contemporâneas (Modesto; Matozo Silva, 2023). Sob esse olhar, a literatura desempenha um papel de possibilitar novas leituras da sociedade por meio da intertextualidade e da reconfiguração de personagens e acontecimentos. Enquanto que o Artigo 2, salienta a literatura como experiência estética e humanizadora, capaz de amplificar o campo de expectativas do leitor, favorecer a reflexão crítica e promover a revisão de valores diante de problemas sociais contemporâneos, como a solidão, o sofrimento psíquico e os conflitos familiares (Gallati; Ferreira, 2021). De modo semelhante, o Artigo 3 destacam a literatura como representação simbólica da realidade, frisando sua capacidade de denunciar desigualdades, problematizar a violência de gênero e desnaturalizar relações historicamente legitimadas, ampliando a consciência crítica do leitor (Guizzo; Klumb, 2020).

O Artigo 4 destaca a concepção humanista e defende que a literatura rompe dimensão estética para constituir-se como prática de formação humana, desenvolvimento da sensibilidade, construção da alteridade e exercício da cidadania (Verçosa da Silva, 2023). O autor acentua essa construção textual com base em autores como Antonio Candido e Tzvetan Todorov. Em seguida, o Artigo 5 aborda que a literatura é descrita como prática discursiva e ideológica, capaz de refletir, refratar e transformar a realidade social ao problematizar relações de gênero, poder e identidade, evidenciando seu papel na disputa de sentidos e na crítica às estruturas sociais (Tibola; De Souza Ferretti, 2023).

Em paralelo, os autores do Artigo 6 frisam que a literatura tem uma função de intervenção social, ao denunciar a violência contra as mulheres, romper processos de invisibilização e contribuir para a construção de uma consciência crítica acerca das desigualdades de gênero (Kohlrausch; De Paula Kobolt, 2019).

Em seguida, no Artigo 7, Ferreira, Silva e Cosson (2020), ao resenhar a obra de Rildo Cosson, demonstram que as concepções de função social da literatura modificaram-se historicamente, deslocando-se de uma perspectiva moralizante e nacionalista para uma compreensão centrada na formação do leitor, no letramento literário e no desenvolvimento da criticidade. Por fim, embora o Artigo 8, advindo dos estudos de Santa Anna (2017) não trate diretamente da literatura, sua discussão acerca da cultura como patrimônio social permite compreender a literatura como manifestação cultural voltada à preservação da memória coletiva, da diversidade e da identidade social.

Em conjunto, os estudos analisados evidenciam que, apesar das distintas abordagens teóricas — sociológica, estética, discursiva, cultural e educacional, prevalece a compreensão de que a literatura constitui uma prática cultural e social capaz de representar, interpretar e problematizar a realidade, contribuindo para a formação crítica dos sujeitos, para a valorização da diversidade, para a democratização do acesso à cultura e para o fortalecimento da cidadania.

4.2. Aproximações e Divergências na Função Social da Literatura

A análise dos oito artigos sobre a função social da literatura revela pontos de convergência quanto à divergência nas concepções apresentadas pelos autores. Em geral, há um reconhecimento da literatura como uma prática social dinâmica e transformadora, embora as ênfases variem mediante as análises dos autores com base nas interpretações das fundamentações teóricas utilizadas por eles para referenciar os artigos e opiniões.

Os pontos de convergências praticamente ocorrem em todos os artigos analisados. Os autores concordam que a literatura transcende sua dimensão meramente estética, estabelecendo uma relação direta e profunda com a sociedade. Ela é vista como uma prática cultural, histórica e social, capaz de produzir sentidos sobre a realidade, isso é apresentado, por exemplo, nos artigos de Modesto e Matozo Silva (2023) a concebe como representação e reinterpretação da realidade histórica e cultural e Guizzo e Klumb (2020) a entende como representação simbólica das estruturas sociais.

O artigo 5 de Tibola e De Souza Ferretti (2023) ressalta em convergência quando descrevem a literatura como uma prática discursiva que participa da construção da realidade. Paralelamente, Kohlrausch e De Paula Kobolt (2019), artigo 6, destacam a literatura como campo de resistência e intervenção social. Por fim, o artigo 4, de Verçosa da Silva (2023) transcende as discussões da literatura como um "aparato social capaz de representar os anseios de uma população"(texto digital).

Ambos os artigos analisados buscam a promoção da reflexão crítica. Um ponto compartilhado entre os artigos analisados é o potencial da literatura para desenvolver uma leitura crítica da realidade. Essa função se manifesta por meio de questionamentos de valores sociais, a desnaturalização da violência, a conscientização do sujeito, a análise das relações de poder, a crítica ao patriarcado e a formação de leitores críticos. Isso procede para a representação de experiências humanas, pontos fortes de convergências, pois todos os artigos atribuem à literatura a capacidade de representar conflitos e experiências humanas, como sentimentos, relações sociais, desigualdades, conflitos históricos, identidades e memória coletiva. Mesmo quando a representação se dá por símbolos ou linguagem, ela permanece vinculada à experiência humana.

Há um consenso de caráter transformador nos artigos analisados de que a literatura pode gerar mudanças em diferentes níveis, como a transformação da percepção do leitor, a revisão de preconceitos, a ampliação da visão de mundo, a reinterpretação de textos clássicos e a construção de novas identidades sociais. Tais mudanças podem ser perceptíveis quando há vínculos com o contexto de que a literatura dialoga com seu tempo histórico, representando valores sociais, refletindo conflitos, interagindo com mudanças culturais e preservando e reinterpretando a memória coletiva.

Além das convergências apresentadas, os oito artigos apresentaram divergências em vários aspectos, dentre eles, na literatura como humanização e denúncia social. Os artigos de Gallati e Ferreira (2021) e Verçosa da Silva (2023) enfatizam a literatura como um instrumento de humanização, capaz de formar sujeitos, ampliar a sensibilidade, desenvolver empatia e favorecer o autoconhecimento.

Em contraste, os artigos 3 e 6, respectivamente, de Guizzo e Klumb (2020), Tibola e De Souza Ferretti (2023); e de Kohlrausch e De Paula Kobolt (2019) ambos focalizam na denúncia de desigualdades sociais, evidenciando violência, problematizando relações de poder, combatendo silenciamentos e criticando o patriarcado. Ou seja, a função social da literatura é discutida de forma plural nos artigos analisados, sendo essas discussões, pontos de divergências entre os autores.

Na análise, destaca-se a representação da realidade em confronto com a construção discursiva. Há diferenças na compreensão da relação entre literatura e realidade. Em Modesto e Matozo Silva (2023), baseado na mimese aristotélica, vê-se a literatura como representação e reinterpretação do real. Já o texto de Tibola e De Souza Ferretti (2023), inspirado em Fairclough, Volochínov e Bourdieu, argumenta que a literatura não apenas representa, mas também participa da construção discursiva da realidade, onde a linguagem atua como produtora de significados sociais.

Outro ponto que se constatou relevante durante as análises foi a ênfase no leitor e no texto literário. O artigo 2 de Gallati e Ferreira (2021) e o 7 de Ferreira; Silva e Cosson (2020) valorizam fortemente o papel do leitor, que constrói sentidos, amplia seu horizonte de expectativas e participa ativamente da leitura. Por outro lado, os artigos 3, 5 e 6 concentram-se mais nas relações entre literatura e sociedade do que na recepção do texto pelo leitor. Para finalizar os pontos divergentes, destaca-se aqui nos artigos analisados sobre a literatura como experiência existencial e a análise social. O artigo 4 de Verçosa da Silva (2023) apresenta uma perspectiva singular, concebendo a literatura como uma experiência existencial que ajuda a viver, constitui filosofia de vida, promove alteridade e transforma o sujeito. Os demais artigos tendem a enfatizar a literatura como representação social, crítica política, denúncia, memória e relações de poder

Em suma, os textos revelam uma ampliação progressiva da concepção da função social da literatura. Inicialmente vista como representação e preservação de tradições, a literatura é cada vez mais compreendida como uma prática social, discursiva e política, essencial para humanizar, formar leitores críticos, denunciar desigualdades, dar visibilidade a grupos marginalizados, preservar memórias, questionar relações de poder e promover transformações individuais e coletivas. Essa evolução reflete uma mudança de paradigma, onde a literatura transcende o objeto estético para se tornar uma intervenção ativa na realidade social e na construção crítica dos sentidos do mundo.

4.3. Práticas Cultural, Estética e Social na Função Social da Literatura

A análise dos oito artigos evidencia a compreensão da literatura como uma prática social que ultrapassa sua dimensão estética, constituindo-se como espaço de produção de sentidos, de representação da experiência humana e de problematização das relações sociais. Embora partam de diferentes referenciais teóricos, como Antonio Candido, Hans Robert Jauss, Wolfgang Iser, Tzvetan Todorov, Pierre Bourdieu, Norman Fairclough e Mikhail Volochínov, os estudos que compuseram o corpus de análise, ambos os autores reconhecem e dialogam que a literatura participa ativamente da formação da consciência crítica, da construção da memória coletiva e da interpretação das transformações históricas e culturais (Modesto; Matoso Silva, 2023; Gallati; Ferreira, 2021; Verçosa da Silva, 2023).

Entre as discussões analisadas nos artigos e as contribuições identificadas sobre a prática cultural, estética e social na função social da literatura consiste na compreensão de instrumentos de formação humana. Inspirados sobretudo nos autores do corpus teórico dos artigos analisados, defendem que a experiência literária promove sensibilidade, empatia, alteridade e reflexão ética, possibilitando ao leitor compreender a si mesmo, o outro e a sociedade. Nesse sentido, a literatura deixa de ser concebida apenas como objeto artístico e passa a ser entendida como elemento constitutivo da formação integral dos sujeitos (Gallati; Ferreira, 2021; Verçosa da Silva, 2023).

Outra contribuição que se destacou na análise, refere-se ao fortalecimento da literatura como espaço de democratização da leitura e de ampliação da cidadania. Os estudos mostraram que a literatura favorece o acesso a diferentes perspectivas culturais, históricas e sociais, dando visibilidade a sujeitos e experiências historicamente marginalizadas, como mulheres, jovens e grupos socialmente vulneráveis. Ao problematizar desigualdades de gênero, violência, exclusão social e relações de poder, as obras analisadas estimulam o exercício da leitura crítica e da participação cidadã (Kohlrausch; De Paula Kobolt, 2019; Guizzo; Klumb, 2020; Tibola; De Souza Ferretti, 2023).

Os artigos também reafirmam o papel social da escola como espaço privilegiado de formação de leitores. A resenha da obra de Cosson evidencia que o ensino de literatura evoluiu de uma perspectiva centrada na transmissão de conteúdos para outra voltada ao letramento literário e à formação do leitor crítico, aproximando a literatura das experiências sociais dos estudantes. Essa compreensão dialoga com os demais estudos ao defender que a mediação escolar pode promover interpretações plurais, favorecer a construção de sentidos e contribuir para o desenvolvimento da autonomia intelectual (Ferreira; Silva; Cosson, 2020).

No contexto contemporâneo, marcado pela expansão da cultura digital, essas concepções revelam-se importantes. Embora os artigos não discutam diretamente as tecnologias digitais, suas análises permitem inferir que a multiplicação dos suportes de leitura, a circulação de narrativas em ambientes digitais e o surgimento de novos leitores, com práticas de leitura híbridas e multimodais, ampliam os desafios e as possibilidades da função social da literatura. Nesse cenário, a literatura preserva sua capacidade de humanizar, dialogar com diferentes culturas e promover interpretações críticas da realidade, independentemente do suporte em que circula.

Da mesma forma, o avanço da inteligência artificial e das tecnologias de produção e mediação do conhecimento reforça a atualidade dessas concepções. Em um contexto de crescente automatização da informação, a literatura mantém sua singularidade ao mobilizar imaginação, sensibilidade, pensamento crítico e reflexão ética, competências que permanecem centrais para a formação humana e para a participação democrática. Assim, mais do que competir com as novas tecnologias, a literatura reafirma sua relevância como prática cultural capaz de promover diálogo, interpretação e compreensão da complexidade das experiências humanas.

Em síntese, os oito artigos demonstram que compreender a literatura como prática social implica reconhecê-la como um espaço permanente de produção cultural, humanização, crítica e transformação social. A literatura permanece, na contemporaneidade, como uma forma privilegiada de interpretar o mundo, formar leitores críticos e fortalecer valores democráticos, reafirmando sua importância para a educação, para a cidadania e para a construção de uma sociedade mais plural e inclusiva

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Cabe destacar que as interpretações apresentadas neste estudo não possuem caráter definitivo, normativo ou de julgamento acerca dos artigos analisados. Os resultados decorrem das escolhas teórico-metodológicas que orientaram esta revisão narrativa, especialmente da questão de pesquisa, do objetivo geral, dos objetivos específicos e do referencial teórico adotado para a análise. Assim, as concepções identificadas correspondem a uma possibilidade interpretativa entre outras igualmente possíveis.

Nesse sentido, diferentes pesquisadores, ao realizarem a mesma busca bibliográfica e analisarem o mesmo conjunto de artigos, poderão construir interpretações distintas, enfatizando outros aspectos, categorias analíticas ou concepções sobre a função social da literatura, conforme os pressupostos epistemológicos e metodológicos que orientaram suas investigações. Assim, este estudo além da estrutura sistemática realizada, busca oferecer uma leitura fundamentada e sistematizada da produção científica selecionada, contribuindo para ampliar as discussões sobre as relações entre literatura e sociedade e estimulando novas pesquisas que possam aprofundar, complementar ou mesmo apresentar perspectivas diferentes das aqui desenvolvidas.

As análises realizadas permitiram responder ao problema de pesquisa, evidenciando que as concepções sobre a função social da literatura presentes nos oito artigos convergem ao compreender a literatura como uma prática social que ultrapassa sua dimensão estética. Embora fundamentadas em diferentes referenciais teóricos, as publicações reconhecem que a literatura representa e ressignifica a experiência humana, interpreta a realidade histórica, cultural e política, questiona relações de poder e contribui para a formação crítica dos leitores. Os objetivos propostos foram alcançados ao identificar os principais autores e perspectivas que discutem a função social da literatura, bem como as aproximações e divergências entre essas concepções, evidenciando seu caráter simultaneamente estético, cultural e social.

Os resultados demonstram que a literatura desempenha papel fundamental na formação humana, ao favorecer a construção da sensibilidade, da empatia, da alteridade e da consciência crítica. Os estudos analisados apontam que a leitura literária possibilita discutir temas contemporâneos, como desigualdade, violência, identidade, relações de gênero e exclusão social, contribuindo para desnaturalizar preconceitos, ampliar a compreensão da realidade e fortalecer a cidadania.

Além disso, a revisão evidencia que a literatura constitui um espaço de produção simbólica e discursiva, capaz de preservar memórias, reinterpretar tradições culturais e promover novas formas de compreender a sociedade, mantendo sua relevância mesmo diante das transformações da cultura digital e da crescente presença da inteligência artificial nos processos de leitura e produção do conhecimento.

Diante dessas evidências, conclui-se que a função social da literatura consiste em produzir experiências estéticas que possibilitam interpretar, problematizar e transformar a realidade social. Como prática cultural, a literatura humaniza, amplia horizontes de compreensão, promove o diálogo entre diferentes experiências humanas e participa da construção de sujeitos críticos e conscientes de seu papel na sociedade. Assim, mais do que refletir o mundo, a literatura atua como instrumento de reflexão, resistência, formação cidadã e transformação social, reafirmando sua permanência como um dos principais espaços de produção de sentido, de exercício da imaginação e de fortalecimento da democracia e da vida em sociedade.

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