A BANALIDADE DO MAL E A CIRCULAÇÃO DE FAKE NEWS NAS REDES SOCIAIS

THE BANALITY OF EVIL AND THE DISSEMINATION OF FAKE NEWS ON SOCIAL MEDIA

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791127101

RESUMO
A disseminação de fake news nas redes sociais configura um dos principais desafios contemporâneos para a educação, a comunicação e a formação ética dos sujeitos, em razão de seus impactos sobre a circulação de informações, a construção de opiniões e a participação democrática. Diante desse cenário, este artigo tem como objetivo analisar a propagação da desinformação digital à luz do conceito de banalidade do mal, relacionando-o às discussões sobre linguagem, ética, letramento informacional, inteligência artificial e sociedade digital. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e natureza exploratória, desenvolvida a partir da análise de obras e estudos das áreas da filosofia, educação, linguagem e tecnologia. Os resultados indicam que a circulação de informações falsas não depende exclusivamente de agentes intencionalmente maliciosos, mas também de práticas cotidianas marcadas pela ausência de reflexão crítica e pela reprodução automática de conteúdos nos ambientes digitais. Além disso, verificou-se que os algoritmos, a aceleração informacional e as dinâmicas das redes sociais potencializam a disseminação da desinformação e seus efeitos sociais. Conclui-se que o enfrentamento das fake news demanda ações educativas voltadas ao desenvolvimento do letramento informacional, da análise crítica do discurso e da formação ética dos indivíduos, fortalecendo a participação consciente e responsável na sociedade digital.
Palavras-chave: Fake News; Banalidade do mal; Educação; Letramento informacional; Sociedade digital.

ABSTRACT
The spread of fake news on social media has become one of the most significant contemporary challenges for education, communication, and the ethical formation of individuals, given its impact on information circulation, opinion formation, and democratic participation. In this context, this article aims to analyze the dissemination of digital disinformation through the lens of the concept of the banality of evil, relating it to discussions on language, ethics, information literacy, artificial intelligence, and digital society. This study adopts a qualitative and exploratory bibliographic approach, based on the analysis of scholarly works in the fields of philosophy, education, language studies, and technology. The findings suggest that the circulation of false information is not solely the result of intentionally malicious actions but is also associated with everyday practices characterized by a lack of critical reflection and the uncritical sharing of content in digital environments. Furthermore, the study indicates that algorithms, informational acceleration, and the dynamics of social media platforms intensify the spread of disinformation and amplify its social consequences. It is concluded that addressing fake news requires educational practices aimed at fostering information literacy, critical discourse analysis, and ethical awareness, thereby promoting informed, responsible, and critical participation in digital society.
Keywords: Fake News; Banality of evil; Education; Information literacy; Digital society.

1. INTRODUÇÃO

As transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas alteraram as formas de produção, circulação e consumo de informações. Nesse sentido, as redes sociais digitais consolidaram-se como importantes espaços de interação, comunicação e acesso ao conhecimento, ampliando significativamente a velocidade com que conteúdos são produzidos, compartilhados e consumidos. Paralelamente a esse processo, observa-se o crescimento da circulação de fake news, fenômeno que tem despertado preocupações nos campos da educação, da comunicação, da política e das ciências sociais devido aos seus impactos sobre a formação da opinião pública, a convivência democrática e a construção do conhecimento.

Sendo assim, a disseminação de informações falsas ou enganosas tornou-se um dos principais desafios da sociedade contemporânea. A facilidade de produção e compartilhamento de conteúdos, associada ao funcionamento dos algoritmos das plataformas digitais e à aceleração dos fluxos informacionais, favorece a propagação da desinformação e dificulta a verificação da veracidade das informações. Nesse contexto, práticas aparentemente simples, como curtir, comentar ou compartilhar publicações, podem produzir consequências significativas para indivíduos e coletividades.

Vale ressaltar que embora o fenômeno das fake news seja frequentemente analisado sob perspectivas tecnológicas e comunicacionais, sua compreensão demanda também reflexões de natureza ética, política e educativa. Nesse sentido, o conceito de banalidade do mal, desenvolvido por Hannah Arendt (1999), apresenta-se como uma importante contribuição teórica para a análise da desinformação contemporânea. Ao examinar o julgamento de Adolf Eichmann, Arendt observou que ações nocivas podem ser praticadas por indivíduos comuns quando deixam de refletir criticamente sobre as consequências de seus atos. Essa perspectiva possibilita compreender como a reprodução automática de conteúdos digitais pode ocorrer na ausência de uma avaliação ética dos impactos produzidos pelo compartilhamento de informações.

Diante desse cenário, emerge a seguinte questão de pesquisa: em que medida o conceito de banalidade do mal pode contribuir para a compreensão da circulação de fake news nas redes sociais e de seus impactos sobre a linguagem, a ética e a educação na sociedade digital? A formulação dessa questão decorre da necessidade de ampliar o debate acerca dos mecanismos que favorecem a disseminação da desinformação, considerando não apenas os recursos tecnológicos envolvidos, mas também as práticas discursivas e os comportamentos sociais que sustentam esse fenômeno.

Assim, este artigo tem como objetivo analisar a circulação de fake news nas redes sociais à luz do conceito de banalidade do mal, relacionando essa discussão às contribuições dos estudos sobre linguagem, educação, letramento informacional, inteligência artificial e sociedade digital.

O estudo caracteriza-se metodologicamente como uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e natureza exploratória. Conforme Gil (2008), pesquisas exploratórias buscam proporcionar maior familiaridade com o problema investigado, contribuindo para o seu aprofundamento. A investigação foi desenvolvida a partir da análise de obras e produções acadêmicas relacionadas à filosofia política, à análise do discurso, à educação linguística, ao letramento informacional e aos estudos sobre tecnologia e comunicação digital. O referencial teórico fundamenta-se, principalmente, nas contribuições de Hannah Arendt, Jürgen Habermas, Eni Orlandi, Magda Soares, Irandé Antunes, Djamila Ribeiro, Luciano Floridi, Eli Pariser, Paulo Freire, Manuel Castells e Byung-Chul Han.

A relevância desta pesquisa reside na necessidade de ampliar a compreensão acerca dos mecanismos que favorecem a circulação da desinformação na sociedade digital e de refletir sobre o papel da educação na formação de sujeitos críticos diante do consumo e compartilhamento de informações. Do ponto de vista teórico, o estudo aproxima contribuições da filosofia política, dos estudos da linguagem, da educação e da comunicação digital para interpretar um fenômeno contemporâneo de grande impacto social. Do ponto de vista prático, busca contribuir para discussões relacionadas ao letramento informacional, à educação midiática e à formação cidadã em contextos cada vez mais mediados por tecnologias digitais.

Desse modo, o objeto de estudo deste trabalho consiste na análise da circulação de fake news nas redes sociais à luz do conceito de banalidade do mal, formulado por Hannah Arendt, considerando suas implicações para a linguagem, a ética e a educação na sociedade contemporânea.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

O objetivo deste trabalho é analisar de que maneira o conceito de banalidade do mal contribui para compreender a disseminação das fake news na sociedade digital, bem como discutir o papel da educação e do letramento informacional no enfrentamento desse fenômeno. Busca-se, ainda, refletir sobre os impactos da desinformação na produção de sentidos, na constituição das relações sociais e na participação dos sujeitos nos espaços públicos digitais.

Metodologicamente, o estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e natureza exploratória. A investigação foi desenvolvida a partir da análise de obras e produções acadêmicas relacionadas à filosofia política, à análise do discurso, à educação linguística, ao letramento informacional e aos estudos sobre tecnologia e comunicação digital. A teoria explorada fundamenta-se, principalmente, nas contribuições de Hannah Arendt, Jürgen Habermas, Eni Orlandi, Magda Soares, Irandé Antunes, Djamila Ribeiro, Luciano Floridi, Eli Pariser, Paulo Freire, Manuel Castells e Byung-Chul Han.

A relevância deste estudo reside na necessidade de compreender criticamente os mecanismos que favorecem a circulação da desinformação em ambientes digitais e de fortalecer práticas educativas voltadas para a formação de sujeitos éticos, críticos e responsáveis no uso da informação. Em uma sociedade marcada pela presença constante das tecnologias digitais e pela crescente influência da inteligência artificial nos processos comunicativos, discutir as relações entre fake news, linguagem e educação torna-se fundamental para a promoção da cidadania e para o fortalecimento da participação democrática.

2.1. A Banalidade do Mal e a Responsabilidade Ética em Hannah Arendt

Ao analisar o caso Eichmann, Arendt (1999) identificou que o mal pode manifestar-se não necessariamente por motivações perversas conscientes, mas pela incapacidade de refletir criticamente sobre os próprios atos. A autora observou que a ausência de pensamento e julgamento moral favorece a adesão automática a práticas socialmente legitimadas.

Na sociedade digital, essa reflexão revela-se particularmente pertinente. O compartilhamento de informações ocorre de forma rápida, contínua e frequentemente impulsiva. Muitos usuários reproduzem conteúdos sem verificar fontes, autoria ou evidências, contribuindo para a circulação de informações falsas.

A banalidade do mal manifesta-se, nesse contexto, não na intenção deliberada de enganar, mas na renúncia à responsabilidade ética diante da informação. A reprodução acrítica de conteúdos transforma-se em prática cotidiana, naturalizando processos de desinformação e ampliando seus efeitos sociais.

2.2. Fake News, Linguagem e Produção de Sentidos

As fake news não constituem apenas erros na transmissão de informações. Trata-se de construções discursivas produzidas em contextos específicos e orientadas por interesses diversos. Sua” eficácia” depende da capacidade de mobilizar emoções, crenças e identidades coletivas.

Segundo Orlandi (2015), os sentidos não estão contidos nas palavras de forma estática, mas são produzidos historicamente nas relações entre sujeitos, discursos e ideologias. Dessa forma, a circulação de fake news envolve disputas simbólicas que influenciam a construção das percepções sociais da realidade. Nesse contexto, Bauman (2017) argumenta que a liquidez das relações contemporâneas favorece a busca por narrativas simplificadas e respostas imediatas para problemas complexos. Nesse cenário, conteúdos que estimulam a desinformação encontram terreno fértil, sobretudo quando reforçam crenças previamente estabelecidas.

As fake news, portanto, não apenas distorcem fatos, mas também participam da produção de identidades, pertencimentos e exclusões sociais.

2.3. Invisibilidade Social, Fake News e Relações de Poder

A desinformação também pode ser compreendida como mecanismo de invisibilização social. Determinados grupos sociais, experiências e narrativas são frequentemente silenciados ou deslegitimados nos ambientes digitais.

Djamila Ribeiro (2017) destaca que a produção de invisibilidades constitui uma forma de violência simbólica, uma vez que determinados sujeitos são sistematicamente excluídos dos espaços de fala e reconhecimento. Sob essa ótica, as fake news podem reforçar estereótipos, preconceitos e desigualdades históricas.

Assim, faz-se importante perceber que ao selecionar quais vozes serão amplificadas e quais serão silenciadas, os discursos digitais participam da manutenção de relações de poder que atravessam as relações sociais.

2.4. Educação Crítica, Cidadania Digital e Emancipação

A compreensão das fake news como fenômeno social e educativo exige uma reflexão acerca do papel da educação na formação de sujeitos críticos. Nessa perspectiva, Paulo Freire (1996) argumenta que a educação deve contribuir para o desenvolvimento da consciência crítica, permitindo aos indivíduos compreenderem as relações de poder presentes na sociedade e atuarem de forma transformadora sobre a realidade.

A circulação da desinformação nas redes sociais evidencia a necessidade de uma educação que ultrapasse a simples transmissão de conteúdos e promova a problematização dos discursos que circulam no espaço público digital. Para Freire (1996), a leitura do mundo precede a leitura da palavra, o que implica compreender que toda prática de linguagem está inserida em contextos históricos, sociais e ideológicos. Assim, o enfrentamento das fake news requer processos educativos que possibilitem aos estudantes questionar fontes, identificar interesses presentes nos discursos e reconhecer mecanismos de manipulação informacional.

Essa discussão se torna ainda mais relevante diante das transformações promovidas pelas tecnologias digitais. Segundo Castells (2023), a sociedade contemporânea caracteriza-se pela constituição de uma sociedade em rede, na qual os fluxos de informação assumem papel central na organização econômica, política e cultural. Nesse contexto, a produção e a circulação de informações deixam de depender exclusivamente dos meios tradicionais de comunicação e passam a ocorrer em ambientes digitais marcados pela conectividade permanente.

Embora essa configuração amplie as possibilidades de participação social, ela também favorece a disseminação acelerada de conteúdos falsos. A arquitetura das plataformas digitais permite que informações sejam compartilhadas em escala global em poucos segundos, frequentemente sem mecanismos adequados de verificação. Como consequência, discursos desinformativos podem adquirir grande alcance social antes mesmo de serem contestados.

Além disso, a dinâmica informacional está diretamente relacionada ao que Byung-Chul Han (2022) denomina de infocracia. De acordo com ele, a sociedade digital é marcada por uma superabundância de informações que produz efeitos paradoxais: quanto maior a quantidade de dados disponíveis, mais difícil se torna distinguir informação confiável de conteúdos manipulados. A lógica da velocidade substitui, de modo progressivo, a lógica da reflexão, favorecendo decisões impulsivas e reduzindo o espaço para a construção argumentativa.

Nesse cenário, as fake news não se disseminam apenas porque são produzidas, mas porque encontram ambientes comunicacionais estruturados para favorecer sua circulação. A combinação entre excesso informacional, algoritmos de recomendação e consumo acelerado de conteúdos reduz as oportunidades de análise crítica e fortalece práticas comunicativas baseadas em emoções imediatas.

A UNESCO destaca que a Educação Midiática e Informacional (EMI) constitui uma das principais estratégias para enfrentar a desinformação, uma vez que desenvolve competências relacionadas à análise crítica, avaliação de fontes, verificação de informações e compreensão dos ambientes digitais. Essas competências são consideradas essenciais para a participação cidadã em sociedades cada vez mais mediadas por tecnologias digitais.

Desse modo, a educação linguística, a educação midiática e o letramento informacional tornam-se dimensões complementares de um mesmo projeto formativo voltado para a constituição de sujeitos capazes de agir de forma ética e responsável no espaço digital. Trata-se de promover uma formação que articule pensamento crítico, responsabilidade social e compromisso democrático diante da informação.

2.5. Inteligência Artificial, Algoritmos e Desinformação

O desenvolvimento da inteligência artificial trouxe novas dimensões ao fenômeno da desinformação. Algoritmos de recomendação influenciam a seleção dos conteúdos visualizados pelos usuários, moldando experiências informacionais personalizadas.

Pariser (2011) denomina esse processo de “bolha de filtros”, caracterizada pela exposição predominante a conteúdos alinhados às preferências previamente registradas pelos sistemas digitais. Tal dinâmica pode limitar o contato com perspectivas divergentes e favorecer processos de polarização.

Além disso, Floridi (2014; 2020) argumenta que a inteligência artificial reconfigura profundamente as relações entre informação, conhecimento e verdade. O surgimento de tecnologias capazes de produzir textos, imagens e vídeos sintéticos amplia os desafios relacionados à verificação da autenticidade dos conteúdos.

Logo, a formação crítica dos usuários se torna cada vez mais importante para compreender os mecanismos tecnológicos que estruturam a circulação da informação.

2.6. Educação, Linguagem e Letramento Informacional

O refletir criticamente sobre o fenômeno das fake news exige respostas educacionais capazes de articular linguagem, ética e tecnologia. Nesse sentido, o conceito de letramento informacional assume papel fundamental.

Soares (2002) compreende o letramento como prática social vinculada aos usos da leitura e da escrita em contextos concretos. No ambiente digital, essa perspectiva amplia-se para incluir competências relacionadas à busca, avaliação, interpretação e utilização crítica das informações.

De modo complementar, Antunes (2009) defende uma educação linguística voltada para a compreensão dos usos sociais da linguagem. Isso implica desenvolver nos estudantes capacidades argumentativas, analíticas e reflexivas que lhes permitam interpretar criticamente os discursos que circulam nas redes sociais.

A escola, portanto, desempenha papel estratégico na formação de sujeitos capazes de reconhecer mecanismos de manipulação discursiva, identificar fontes confiáveis e participar de forma ética dos ambientes digitais.

3. METODOLOGIA

A presente pesquisa se caracteriza como um estudo de natureza qualitativa, de caráter exploratório e fundamentado em procedimentos bibliográficos. A abordagem qualitativa foi adotada por possibilitar a compreensão e a interpretação de fenômenos sociais, culturais e educacionais relacionados à circulação de fake news na sociedade digital, considerando seus aspectos éticos, discursivos e formativos.

No que se refere aos objetivos, possui natureza exploratória, uma vez que busca ampliar a compreensão sobre as relações entre a banalidade do mal, a desinformação digital, a linguagem e a educação. Segundo Gil (2008), pesquisas exploratórias têm como finalidade proporcionar familiaridade com o problema investigado, contribuindo para seu aprofundamento e para a construção de interpretações mais consistentes acerca do objeto de estudo.

Do ponto de vista dos procedimentos técnicos, realizou-se uma pesquisa bibliográfica, desenvolvida a partir da análise de livros, artigos científicos, documentos institucionais e produções acadêmicas relacionadas à filosofia política, aos estudos da linguagem, à educação, à comunicação digital e às tecnologias da informação. Segundo Marconi e Lakatos (2021), a pesquisa bibliográfica permite ao pesquisador estabelecer contato direto com o conhecimento já produzido sobre determinado tema, possibilitando a identificação de conceitos, perspectivas teóricas e lacunas investigativas.

O corpus teórico foi constituído por obras de autores que apresentam reconhecida contribuição para a compreensão do fenômeno investigado. Foram selecionados estudos de Hannah Arendt acerca da banalidade do mal; Jürgen Habermas sobre comunicação e esfera pública; Eni Orlandi e Irandé Antunes no campo da linguagem e da análise do discurso; Magda Soares e Paulo Freire nas discussões sobre educação e letramento; Djamila Ribeiro sobre invisibilidade social e relações de poder; Manuel Castells, Eli Pariser, Luciano Floridi e Byung-Chul Han nas reflexões sobre sociedade digital, algoritmos, inteligência artificial e circulação da informação. Também foram considerados documentos da UNESCO relacionados à Educação Midiática e Informacional.

A seleção das obras considerou a relevância acadêmica dos autores, a aderência ao objeto investigado e o reconhecimento de suas contribuições em pesquisas sobre desinformação, linguagem, ética, tecnologia e educação. Foram priorizadas publicações clássicas e estudos capazes de oferecerem suporte teórico para a análise do problema proposto. A análise do material ocorreu por meio da leitura exploratória, analítica e interpretativa, buscando identificar convergências, divergências e contribuições teóricas para a compreensão da circulação de fake news nas redes sociais. A partir desse processo, foram organizadas categorias analíticas relacionadas à banalidade do mal, à produção de sentidos, à sociedade digital e ao letramento informacional, que fundamentaram as discussões desenvolvidas ao longo do estudo.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A análise da literatura permitiu identificar que a circulação das fake news constitui um fenômeno multifacetado, resultante da articulação entre fatores tecnológicos, discursivos, sociais e educacionais. A partir da revisão teórica, foram construídas três categorias analíticas que contribuem para a compreensão do problema investigado: a banalização do compartilhamento da desinformação, a influência dos algoritmos e da inteligência artificial na ampliação da circulação de conteúdos falsos e o papel do letramento informacional na formação de sujeitos críticos diante da informação digital.

4.1. A Banalização do Compartilhamento da Desinformação

Faz-se importante evidenciar que a disseminação das fake news não depende exclusivamente da ação deliberada de indivíduos ou grupos interessados em manipular informações. Os estudos analisados indicam que grande parte da circulação da desinformação ocorre por meio de usuários comuns que compartilham conteúdos sem verificar sua procedência, autoria ou veracidade.

Essa constatação se aproxima das reflexões de Arendt (1999) sobre a banalidade do mal. Ao discutir a atuação de Eichmann durante o regime nazista, ela observou que determinadas práticas nocivas podem ser realizadas por indivíduos aparentemente comuns quando estes deixam de refletir criticamente sobre as consequências de seus atos. Logo, guardadas as devidas proporções históricas, a reprodução automática de conteúdos digitais permite identificar mecanismos semelhantes de suspensão do pensamento crítico e de transferência da responsabilidade para terceiros.

Sendo assim, os resultados da revisão bibliográfica sugerem que a banalização do compartilhamento de informações falsas contribui para a naturalização da desinformação nos ambientes digitais. A repetição contínua de conteúdos não verificados fortalece narrativas enganosas e amplia seus efeitos sobre a construção das opiniões, das identidades e das relações sociais.

4.2. Algoritmos, Inteligência Artificial e Amplificação das Fake NEWS

Os estudos de Castells (2023) demonstram que a sociedade é marcada pela centralidade das redes digitais na organização dos fluxos comunicacionais. Nesse contexto, algoritmos e plataformas assumem funções decisivas na seleção, distribuição e visibilidade dos conteúdos.

Além disso, Pariser (2011) destaca que os sistemas de recomendação tendem a criar ambientes informacionais personalizados, favorecendo a formação de bolhas de filtros. Como consequência, as pessoas passam a consumir em grande maioria conteúdos compatíveis com suas crenças e valores, reduzindo o contato com perspectivas divergentes e fortalecendo processos de polarização.

A literatura analisada também evidencia que o desenvolvimento da inteligência artificial ampliou significativamente os desafios relacionados à verificação da autenticidade da informação. Conforme argumenta Floridi (2020), tecnologias capazes de gerar textos, imagens, vídeos e áudios sintéticos modificam os critérios tradicionais de confiança e credibilidade, dificultando a distinção entre conteúdos autênticos e manipulados.

Han (2022) complementa essa discussão ao apontar que o excesso de informações e a aceleração comunicacional produzem ambientes favoráveis à superficialidade das análises e ao consumo rápido de conteúdo. Nesse sentido, a velocidade da circulação informacional se sobrepõe aos processos de verificação e reflexão crítica.

4.3. Educação e Letramento Informacional Diante da Desinformação Digital

Os trabalhos consultados convergem ao indicar que a simples disponibilização de informações não garante a formação de cidadãos capazes de interpretar criticamente os conteúdos que circulam nos ambientes digitais. Desse modo, evidencia a relevância da educação para a compreensão crítica dos processos informacionais contemporâneos.

Soares (2002) contribui para a discussão ao compreender o letramento como prática social relacionada ao uso crítico da leitura e da escrita em diferentes contextos. No ambiente digital, essa perspectiva amplia-se para o letramento informacional, entendido como a capacidade de localizar, avaliar, interpretar e utilizar informações de forma ética e responsável.

Nessa mesma linha, a Unesco (2013; 2025) defende a Educação Midiática e Informacional como competência essencial para o exercício da cidadania na sociedade contemporânea. A instituição destaca que a formação crítica dos sujeitos constitui uma estratégia fundamental para reduzir os impactos da desinformação, dos discursos de ódio e demais desafios decorrentes da crescente utilização da inteligência artificial.

Freire (1996) reforça essa compreensão ao enfatizar que a educação deve favorecer processos de conscientização e leitura crítica da realidade. No contexto das redes sociais, essa perspectiva implica desenvolver práticas pedagógicas que estimulem a análise das fontes, a verificação das informações e a compreensão dos interesses que atravessam os discursos digitais.

Assim, os resultados da pesquisa indicam que a compreensão e a mitigação dos impactos das fake news exigem uma abordagem interdisciplinar capaz de integrar linguagem, ética, tecnologia e educação. Para além de combater conteúdos falsos isoladamente, torna-se necessário promover práticas educativas voltadas para a formação de cidadãos aptos a compreender criticamente os processos informacionais que estruturam a vida social na era digital.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa alcança o objetivo proposto ao analisar a circulação das fake news nas redes sociais à luz do conceito de banalidade do mal, evidenciando que a disseminação da desinformação não se relaciona exclusivamente à ação intencional de agentes maliciosos, mas também à reprodução acrítica de conteúdos por indivíduos inseridos em ambientes digitais marcados pela velocidade informacional e pela mediação algorítmica.

A análise desenvolvida permite compreender que a banalidade do mal constitui uma importante chave interpretativa para a compreensão dos comportamentos que favorecem a circulação da desinformação na sociedade contemporânea. A ausência de reflexão crítica sobre as consequências do compartilhamento de informações contribui para a naturalização de práticas que produzem impactos sociais, políticos e educacionais significativos.

O estudo demonstra que os processos de produção e circulação das fake news estão diretamente relacionados às dinâmicas comunicacionais da sociedade digital, especialmente ao funcionamento dos algoritmos, à personalização dos conteúdos e ao avanço da inteligência artificial. Esses elementos ampliam a complexidade do fenômeno e reforçam a necessidade de abordagens interdisciplinares capazes de articular linguagem, ética, tecnologia e educação.

Diante disso, a pesquisa indica que o desenvolvimento do letramento informacional e da educação midiática representa uma importante possibilidade para fortalecer a formação crítica dos sujeitos e ampliar sua capacidade de avaliar, interpretar e utilizar informações de maneira ética e responsável. Nesse sentido, a educação assume papel estratégico na promoção da cidadania digital e na construção de práticas comunicacionais comprometidas com a democracia e o respeito à diversidade de perspectivas.

Como contribuição teórica, este trabalho aproxima reflexões da filosofia política, dos estudos da linguagem e da educação para interpretar um fenômeno contemporâneo de ampla relevância social. Como contribuição prática, reforça a necessidade de incorporar discussões sobre desinformação, inteligência artificial e letramento informacional nos processos formativos desenvolvidos em diferentes níveis de ensino.

Por fim, reconhece-se que a natureza bibliográfica da pesquisa constitui uma de suas limitações, uma vez que não possibilita a análise direta das práticas de compartilhamento de informações por usuários das redes sociais. Dessa forma, estudos futuros poderão desenvolver investigações empíricas em contextos educacionais específicos, ampliando a compreensão sobre as relações entre desinformação, práticas discursivas e formação cidadã na sociedade digital.

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1 Mestranda em Educação Interventiva e Social pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Licenciada em Letras pela Universidade Federal da Bahia(UFBA). Professora do CETEP do Sisal, SEC/BA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-8703-7417.