INFLUÊNCIA DO AMBIENTE FAMILIAR, DAS PRÁTICAS PARENTAIS E DOS FATORES SOCIOECONÔMICOS NA FORMAÇÃO DO COMPORTAMENTO ALIMENTAR INFANTIL: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

INFLUENCE OF THE FAMILY ENVIRONMENT, PARENTING PRACTICES, AND SOCIOECONOMIC FACTORS ON THE DEVELOPMENT OF CHILDREN’S EATING BEHAVIOR: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791162570

RESUMO
O comportamento alimentar infantil pode ser influenciado pelo ambiente familiar, pelas práticas parentais e pelos fatores socioeconômicos. Este estudo teve como objetivo analisar a influência desses fatores na formação do comportamento alimentar infantil. Os resultados mostraram que o exemplo dos pais, a disponibilidade dos alimentos e a forma de condução das refeições estão relacionados ao comportamento alimentar das crianças. Práticas como pressão para comer, restrição e uso de alimentos como recompensa podem estar associadas a diferentes comportamentos alimentares na infância, enquanto a alimentação responsiva é apresentada na literatura como uma abordagem que valoriza os sinais de fome e saciedade da criança e busca evitar práticas coercitivas durante as refeições. Os fatores socioeconômicos também interferem no acesso e nas escolhas alimentares. Conclui-se que o comportamento alimentar infantil resulta da interação entre a criança, a família e o contexto social, sendo importantes ações de educação alimentar e nutricional que envolvam os cuidadores e considerem a realidade de cada família.
Palavras-chave: comportamento alimentar infantil; práticas parentais; ambiente familiar; fatores socioeconômicos; alimentação responsiva.

ABSTRACT
Children’s eating behavior can be influenced by the family environment, parenting practices, and socioeconomic factors. This study aimed to analyze the influence of these factors on the development of children’s eating behavior. The results showed that parental example, food availability, and the way meals are conducted are related to children’s eating behavior. Practices such as pressure to eat, restriction, and the use of food as a reward may be associated with various eating behaviors in childhood, whereas responsive feeding is presented in the literature as an approach that values the child’s hunger and satiety cues and seeks to avoid coercive practices during meals. Socioeconomic factors also affect food access and choices. It is concluded that children’s eating behavior results from the interaction between the child, the family, and the social context, highlighting the importance of food and nutrition education initiatives that involve caregivers and take into account the reality of each family.
Keywords: children’s eating behavior; parenting practices; family environment; socioeconomic factors; responsive feeding.

1. INTRODUÇÃO

A alimentação na infância desempenha papel fundamental no crescimento, no desenvolvimento e na saúde da criança. Entretanto, compreender a alimentação infantil não envolve apenas os alimentos oferecidos, mas também as experiências vivenciadas durante as refeições e as características do ambiente em que a criança está inserida. É nesse período que se inicia a construção das preferências, dos hábitos e das formas de se relacionar com a comida, aspectos que podem repercutir ao longo da vida (Anzman-Frasca et al., 2018). Dessa forma, compreender a formação do comportamento alimentar infantil é fundamental para a promoção de uma alimentação adequada e saudável desde os primeiros anos. A Organização Mundial da Saúde destaca que o período da alimentação complementar é importante para a introdução e aceitação de diferentes alimentos, contribuindo para a formação de padrões alimentares que podem influenciar fases posteriores da vida (World Health Organization, 2023).

O comportamento alimentar pode ser compreendido como um conceito mais amplo, relacionado à forma como a criança se comporta diante da alimentação, envolvendo atitudes, escolhas, respostas e preferências relacionadas à comida (Russell et al., 2023). O hábito alimentar, por sua vez, está relacionado aos comportamentos que fazem parte da rotina alimentar e que se repetem ao longo do tempo. Já a preferência alimentar corresponde à maior aceitação ou escolha de determinados alimentos, enquanto o consumo alimentar está relacionado aos alimentos que são efetivamente ingeridos (Anzman-Frasca et al., 2018; Russell et al., 2023). Apesar de estarem relacionados, esses conceitos apresentam diferenças, sendo o comportamento alimentar mais abrangente por envolver diferentes aspectos da relação da criança com a alimentação.

Durante a infância, esses comportamentos estão em processo de desenvolvimento e podem ser influenciados pelas experiências alimentares vivenciadas ao longo dos primeiros anos de vida. As preferências alimentares, por exemplo, não são completamente definidas desde o nascimento, mas podem ser modificadas e construídas a partir da exposição aos alimentos e das experiências que a criança vivencia durante esse período (Anzman-Frasca et al., 2018).

Nesse processo, os pais e responsáveis também participam das experiências alimentares da criança, tanto pela forma como conduzem as refeições quanto pelo exemplo de seus próprios hábitos alimentares. A criança pode observar e aprender com essas práticas no cotidiano familiar, construindo gradualmente suas preferências e comportamentos alimentares (Santos; Coelho; Romano, 2020; Yee; Lwin; Ho, 2017). Além disso, a realização frequente de refeições em família tem sido associada a aspectos relacionados à qualidade da alimentação infantil (Dallacker; Hertwig; Mata, 2018).

O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos destaca que a alimentação da criança deve ser compreendida considerando a realidade da família, sua rotina, seus hábitos, suas condições de vida e sua rede de apoio. O documento também enfatiza a importância de proporcionar uma experiência alimentar positiva, baseada no afeto, no aprendizado e no respeito aos sinais de fome e saciedade da criança (Brasil, 2019).

Além da oferta de alimentos, as práticas utilizadas pelos pais e responsáveis durante as refeições podem influenciar a relação da criança com a alimentação. Práticas como pressão para comer, restrição de determinados alimentos e uso da comida como recompensa são discutidas na literatura como formas de controle da alimentação infantil. Santos, Coelho e Romano (2020), por exemplo, identificaram associação entre a pressão para comer exercida pelos pais e a alimentação seletiva das crianças. Estudos também apontam que práticas parentais não responsivas podem estar relacionadas ao comportamento alimentar infantil, embora essa relação seja complexa e possa ocorrer em ambas as direções, uma vez que o comportamento da criança também pode influenciar a maneira como os responsáveis conduzem sua alimentação (Wang et al., 2022).

Nesse contexto, destaca-se a alimentação responsiva, abordagem que considera os sinais de fome e saciedade apresentados pela criança e busca evitar pressão ou coerção durante as refeições. Essa prática compreende a alimentação como um momento de interação entre criança e cuidador, envolvendo comunicação, afeto e aprendizado (Redsell et al., 2021; Brasil, 2019). O comportamento dos responsáveis também exerce influência por meio do exemplo, uma vez que a criança aprende não apenas pelas orientações que recebe, mas também pela observação das práticas presentes em seu cotidiano. A comunicação dos pais sobre os alimentos também pode influenciar os comportamentos alimentares infantis (Norton et al., 2023).

Embora a família exerça papel importante na formação do comportamento alimentar, esse processo não pode ser analisado exclusivamente a partir das escolhas dos pais ou responsáveis. As condições socioeconômicas também influenciam a alimentação infantil, envolvendo aspectos como renda, escolaridade, preço e disponibilidade dos alimentos, tempo disponível para o preparo das refeições e acesso a opções alimentares adequadas. Dessa forma, as escolhas alimentares podem refletir as condições concretas em que a família está inserida. Estudo realizado com crianças brasileiras de 6 meses a 2 anos identificou associação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e características socioeconômicas e demográficas, reforçando a importância de considerar o contexto familiar e social na compreensão da alimentação infantil (Cainelli et al., 2021).

Nesse sentido, a presença e a disponibilidade de alimentos ultraprocessados no ambiente alimentar também merecem atenção, pois os alimentos que permanecem disponíveis no domicílio podem estar associados às oportunidades de contato e consumo pela criança. Evidências de uma revisão sistemática e metanálise indicam que a disponibilidade dos alimentos no ambiente familiar está associada ao consumo infantil, tanto de alimentos considerados saudáveis quanto de alimentos não saudáveis, reforçando a importância do ambiente doméstico na formação dos padrões alimentares (Yee; Lwin; Ho, 2017). O comportamento alimentar infantil resulta da interação entre características individuais, relações familiares e condições sociais e ambientais, sendo inadequado compreendê-lo apenas pela perspectiva da escolha dos alimentos. É necessário considerar como a criança aprende a comer, quais experiências são proporcionadas durante as refeições e quais condições podem favorecer ou dificultar a construção de uma relação positiva com a alimentação.

Diante desse cenário, torna-se relevante reunir e analisar as evidências científicas acerca dos fatores relacionados à formação do comportamento alimentar infantil. A revisão integrativa permite reunir diferentes estudos e ampliar a compreensão sobre a influência do ambiente familiar, das práticas parentais e das condições socioeconômicas nesse processo. Esse conhecimento pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de educação alimentar e nutricional mais adequadas à realidade das famílias, considerando não apenas orientações sobre alimentação saudável, mas também as relações e condições presentes no cotidiano da criança.

Assim, este estudo tem como objetivo analisar a influência do ambiente familiar, das práticas parentais e dos fatores socioeconômicos sobre o comportamento alimentar infantil, reunindo evidências científicas de estudos publicados entre 2016 e 2026. Busca-se compreender de que maneira esses fatores participam da formação dos hábitos e das preferências alimentares durante a infância e identificar práticas familiares relacionadas à construção de uma relação positiva com a alimentação.

2. METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo e abordagem qualitativa, desenvolvida com o objetivo de reunir e analisar evidências científicas sobre a influência do ambiente familiar, das práticas parentais e dos fatores socioeconômicos na formação do comportamento alimentar infantil. A revisão integrativa permite reunir, avaliar e sintetizar resultados de pesquisas desenvolvidas com diferentes delineamentos metodológicos, contribuindo para uma compreensão ampliada do fenômeno investigado (Souza; Silva; Carvalho, 2010).

A pesquisa foi conduzida a partir da seguinte pergunta norteadora: “Como o ambiente familiar, as práticas parentais e os fatores socioeconômicos influenciam a formação do comportamento alimentar infantil?”

A busca bibliográfica foi realizada entre 11 de julho e 21 de agosto de 2026 nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE/PubMed). Foram utilizados descritores controlados dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH): “Comportamento Alimentar” (Eating Behavior), “Alimentação Infantil” (Child Feeding), “Hábitos Alimentares” (Food Habits), “Práticas Parentais” (Parenting Practices), “Relações Familiares” (Family Relations), “Ambiente Familiar” (Family Environment) e “Criança” (Child). Os descritores foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, adaptados à sintaxe de cada base de dados.

As estratégias de busca foram aplicadas nos campos disponíveis em cada base de dados, conforme suas especificidades. Os campos pesquisados, o período de realização das buscas, os registros encontrados e os registros obtidos após a aplicação dos filtros estão apresentados na Tabela 1.

Tabela 1. Estratégia de busca e resultados obtidos nas bases consultadas.

Base de dados

Estratégia de busca

Campos Pesquisados

Data de Busca

Registros encontrados

Registros após filtros

BVS

("comportamento alimentar" OR "hábitos alimentares")

AND ("alimentação infantil" OR criança) AND ("práticas parentais" OR "ambiente familiar" OR "relações familiares")

Assunto principal, descritores e filtros temáticos

11/07/2026 a 21/08/2026

249

62

MEDLINE/PubMed

("comportamento alimentar" OR "hábitos alimentares")

AND ("alimentação infantil" OR criança) AND ("práticas parentais" OR "ambiente familiar" OR "relações familiares")

Título e resumo

11/07/2026 a 21/08/2026

131

26

LILACS

("comportamento alimentar" OR "hábitos alimentares")

AND ("alimentação infantil" OR criança) AND ("práticas parentais" OR "ambiente familiar" OR "relações familiares")

Assunto principal, descritores e filtros temáticos

11/07/2026 a 21/08/2026

89

25

SciELO

("comportamento alimentar" OR "hábitos alimentares")

AND ("alimentação infantil" OR criança) AND ("práticas parentais" OR "ambiente familiar" OR "relações familiares")

Todos os campos

11/07/2026 a 21/08/2026

7

2

Fonte: Elaborada pelos autores (2026).

As buscas foram realizadas nos diferentes campos disponíveis em cada base de dados. Na BVS e na LILACS, além da utilização dos descritores e operadores booleanos, foram aplicados filtros de assunto principal relacionados ao comportamento alimentar, relações familiares, criança, ingestão de alimentos, relações pais-filho, saúde da criança e nutrição infantil, visando aumentar a especificidade dos resultados recuperados. Na base MEDLINE/PubMed, a pesquisa foi realizada nos campos título e resumo (Title/Abstract), enquanto na SciELO foram considerados todos os campos disponíveis para busca.

Foram aplicados os filtros de publicações entre 2016 e 2026, disponibilidade de texto completo e gratuito e idiomas português, inglês e espanhol. Também foram considerados estudos relacionados à nutrição infantil, alimentação infantil e comportamento alimentar, de acordo com os critérios definidos para a seleção dos estudos.

Como critérios de inclusão, foram considerados estudos publicados no período estabelecido, com relação direta aos objetivos da pesquisa e resultados aplicáveis à população infantil. A seleção priorizou dados referentes a crianças de até 6 anos de idade, faixa etária definida como foco desta revisão por corresponder ao período da primeira infância, fase importante para a formação dos hábitos, preferências e comportamentos alimentares.

Foram excluídos estudos duplicados, trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses, capítulos de livros, artigos indisponíveis na íntegra e estudos que não respondessem à pergunta norteadora. Estudos que apresentavam faixas etárias mais amplas também foram considerados quando traziam resultados referentes às crianças de até 6 anos. Nesses casos, foram utilizados os resultados relacionados a essa faixa etária conforme apresentados nos estudos originais, sem realizar novas divisões ou análises por idade.

A seleção dos documentos ocorreu nas etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão, com o processo apresentado em fluxograma elaborado com base nas recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020) (Page et al., 2021). Inicialmente, foram identificados 476 registros nas bases consultadas, sendo 249 na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), 131 na MEDLINE/PubMed, 89 na Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e 7 na Scientific Electronic Library Online (SciELO).

Após a aplicação dos filtros de idioma, período de publicação e disponibilidade do texto completo, permaneceram 115 documentos para análise preliminar. Foram identificados e removidos 18 registros duplicados, restando 97 documentos para a etapa de triagem. Após a leitura dos títulos e resumos, 47 documentos foram selecionados para leitura na íntegra. Na etapa de elegibilidade, 37 registros foram excluídos, sendo 17 por não responderem à pergunta norteadora, 5 por apresentarem população fora da faixa etária de interesse, 7 por indisponibilidade do texto completo e 8 por não atenderem aos critérios de elegibilidade estabelecidos para a revisão. Ao final do processo, foram incluídos 10 documentos na revisão integrativa, sendo 8 estudos científicos e 2 documentos técnico-normativos.

O processo completo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos documentos está apresentado na Figura 1.

Figura 1. Fluxograma do processo de seleção dos estudos (adaptado do PRISMA 2020).

Fonte: Elaborado pelos autores (2026), com base em Page et al. (2021).

Os oito estudos científicos incluídos na revisão foram avaliados por meio dos instrumentos do Critical Appraisal Skills Programme (CASP), utilizando-se os checklists específicos para cada delineamento metodológico. A avaliação considerou a clareza dos objetivos, adequação metodológica, seleção da amostra, qualidade da análise dos dados e relevância dos resultados para a pergunta norteadora. A análise foi realizada por dois avaliadores independentes, sendo as divergências resolvidas por consenso.

Os dois documentos técnico-normativos (Brasil, 2019; World Health Organization, 2023) não foram submetidos à avaliação pelo CASP por não se tratarem de estudos empíricos, sendo utilizados como documentos de apoio à discussão dos achados relacionados à alimentação infantil e à alimentação responsiva.

Os dados extraídos foram organizados em instrumento próprio contendo autoria, ano de publicação, objetivo, delineamento, população e principais resultados. Posteriormente, os achados foram submetidos à análise temática, com leitura integral dos documentos, codificação dos conteúdos e agrupamento por similaridade.

Para a apresentação dos resultados, os documentos foram organizados de acordo com os objetivos específicos da pesquisa, contemplando quatro eixos temáticos: a influência dos pais e o exemplo alimentar; as práticas parentais de controle alimentar; a alimentação responsiva; e os fatores socioeconômicos e o acesso à alimentação adequada.

A caracterização dos estudos incluídos na revisão, contemplando autoria, ano de publicação, objetivo, delineamento, população e principais resultados, encontra-se apresentada na Tabela 2.

Tabela 2. Síntese dos documentos incluídos na revisão integrativa.

ESTUDOS CIENTÍFICOS (N = 8)

Autor(es)/Ano

Objetivo

Delineamento

População

Principais resultados

Santos; Coelho; Romano (2020)

Comportamento dos pais × comportamento alimentar infantil

Revisão sistemática

Crianças (idade conforme estudos revisados)

Hábitos e exemplo dos pais associados às preferências alimentares infantis

Dallacker; Hertwig; Mata (2018)

Frequência de refeições em família × saúde nutricional infantil

Revisão sistemática com metanálise (57 estudos)

Crianças e adolescentes (dados extraídos apenas para a população pediátrica)

Mais refeições em família associadas a melhor qualidade alimentar

Norton et al. (2023)

Comunicação parental sobre alimentos × comportamento alimentar

Revisão sistemática de literatura

Crianças

Comunicação parental associada a diferentes comportamentos alimentares

Santos; Reis; Romano (2021)

Práticas parentais × comportamento alimentar infantil

Estudo transversal

368 crianças de 1 a 5 anos (Divinópolis-MG)

Força física, recompensa e restrição associadas a mais ultraprocessados

Wang et al. (2022)

Bidirecionalidade entre práticas parentais e comportamento alimentar

Revisão sistemática com metanálise longitudinal

Crianças (estudos longitudinais)

Restrição/recompensa associadas ao comportamento, em relação bidirecional

Redsell et al. (2021)

Barreiras e facilitadores da alimentação responsiva

Revisão sistemática

Cuidadores e crianças

Identificou barreiras e facilitadores relacionados à adoção de práticas de alimentação responsiva.

Cainelli et al. (2021)

Consumo de ultraprocessados × fatores socioeconômicos

Estudo transversal analítico

599 crianças de 6 meses a 2 anos

Consumo de ultraprocessados associado a fatores socioeconômicos

Yee; Lwin; Ho (2017)

Práticas parentais × consumo alimentar infantil

Revisão sistemática com metanálise

Crianças (estudos diversos)

Disponibilidade doméstica de alimentos associada ao consumo infantil

DOCUMENTOS TÉCNICO-NORMATIVOS (N = 2)

Documento/Ano

Objetivo

Tipo de documento

Público-alvo

Principais contribuições

Brasil (2019)

Orientar a alimentação de crianças menores de 2 anos

Guia alimentar (documento oficial)

Crianças menores de 2 anos

Refeições como momentos de afeto, aprendizado e respeito aos sinais da criança

World Health Organization (2023)

Diretrizes de alimentação complementar

Diretriz/guideline

Crianças de 6 a 23 meses

Recomenda resposta adequada aos sinais de fome/saciedade

Fonte: Elaborada pelos autores (2026).

Cabe destacar que o estudo de Dallacker, Hertwig e Mata (2018) também avaliou a relação entre a frequência das refeições em família e alguns aspectos da saúde nutricional de crianças e adolescentes. Para esta revisão, foram considerados somente os resultados referentes às crianças, de acordo com os critérios de idade definidos na metodologia. Os autores observaram que a frequência das refeições realizadas em família estava relacionada a aspectos como a qualidade da alimentação e o índice de massa corporal.

Para analisar a qualidade metodológica dos estudos, foram utilizados os instrumentos do Critical Appraisal Skills Programme (CASP), com os checklists correspondentes a cada tipo de estudo. A análise levou em consideração pontos como os objetivos das pesquisas, os métodos utilizados, a análise dos dados e a importância dos resultados para a pergunta da revisão. Essa avaliação ajudou na leitura e interpretação dos estudos, mas não foi utilizada para atribuir uma nota ou classificação numérica à qualidade das pesquisas.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise dos oito estudos científicos e de dois documentos técnico-normativos permitiu identificar quatro aspectos principais relacionados à formação do comportamento alimentar infantil: a influência do exemplo dos pais ou responsáveis, as práticas parentais de controle alimentar, a alimentação responsiva e os fatores socioeconômicos. A distribuição dos documentos de acordo com os principais aspectos abordados é apresentada na Tabela 3, permitindo visualizar a relação entre as evidências encontradas na literatura e os eixos temáticos utilizados para a organização dos resultados. Embora os aspectos sejam apresentados separadamente, eles estão relacionados entre si e podem atuar de forma conjunta na construção dos hábitos, das preferências e da relação da criança com a alimentação.

Tabela 3. Distribuição dos documentos incluídos segundo os principais aspectos relacionados ao comportamento alimentar infantil.

Aspectos identificados

Estudos relacionados

Influência dos pais e exemplo alimentar

Santos, Coelho e Romano (2020), Norton et al. (2023) e Dallacker, Hertwig e Mata (2018).

Práticas parentais de controle alimentar

Santos, Reis e Romano (2021) e Wang et al. (2022).

Alimentação responsiva

Redsell et al. (2021), World Health Organization (2023) e Brasil (2019).

Fatores socioeconômicos e acesso à alimentação adequada

Cainelli et al. (2021); Yee, Lwin e Ho (2017).

Fonte: Elaborada pelos autores (2026).

3.1. Influência dos Pais e o Exemplo Alimentar

Entre os aspectos identificados na literatura, destaca-se a influência dos hábitos alimentares dos pais ou responsáveis sobre o comportamento alimentar infantil. Durante os primeiros anos de vida, a criança aprende também por meio da observação, podendo reproduzir comportamentos presentes no ambiente familiar. Dessa forma, os alimentos consumidos pelos responsáveis, a frequência com que são oferecidos e a maneira como os adultos se relacionam com a alimentação podem contribuir para a formação das preferências alimentares da criança (Santos; Coelho; Romano, 2020).

A formação dessas preferências também está relacionada às experiências alimentares vivenciadas desde os primeiros anos de vida. Anzman-Frasca et al. (2018) destacam que a aceitação e a preferência por determinados alimentos podem ser influenciadas pela exposição repetida e pelas experiências que a criança tem com os alimentos. Nesse sentido, o ambiente familiar possui importância por ser um dos principais espaços em que essas experiências acontecem, desde a oferta dos alimentos até a maneira como eles são apresentados à criança. Cabe esclarecer que, assim como Russell et al. (2023), o estudo de Anzman-Frasca et al. (2018) não compõe a amostra final de documentos incluídos nesta revisão integrativa, tendo sido utilizado como referencial teórico para subsidiar a discussão sobre a formação das preferências alimentares na infância.

Os estudos analisados indicam que o ambiente familiar participa das experiências alimentares da criança. Norton et al. (2023), ao analisarem a comunicação dos pais sobre alimentação, identificaram associações entre a forma como os responsáveis se comunicam durante as refeições e os comportamentos alimentares infantis. Esse resultado reforça a importância das experiências vivenciadas pela criança no ambiente familiar para a construção de sua relação com a alimentação. Além disso, Cainelli et al. (2021) identificaram associação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e características socioeconômicas e demográficas em crianças, mostrando que as escolhas alimentares também estão relacionadas ao contexto em que a criança está inserida.

Outro aspecto do ambiente familiar que merece destaque é a realização das refeições em família. Dallacker, Hertwig e Mata (2018), em uma metanálise, observaram associação entre a frequência das refeições em família e aspectos relacionados à alimentação e à saúde nutricional das crianças. Esses resultados reforçam que o momento da refeição não envolve apenas a oferta dos alimentos, mas também as interações e experiências compartilhadas no ambiente familiar.

Nesse sentido, os resultados reforçam que a influência dos pais não está apenas nas orientações que são dadas à criança, mas também nos comportamentos que ela observa diariamente. O exemplo dos responsáveis constitui uma forma de aprendizagem presente no cotidiano familiar e demonstra a importância de considerar a família nas estratégias de promoção da alimentação adequada e saudável.

3.2. Práticas Parentais de Controle Alimentar

Outro aspecto identificado nos estudos foi a influência das práticas utilizadas pelos pais ou responsáveis durante as refeições. Entre essas práticas estão a pressão para comer, a restrição de determinados alimentos e o uso da comida como recompensa ou punição. Essas estratégias podem ser utilizadas pelos responsáveis como formas de controle da alimentação, mas os estudos analisados não permitem afirmar que produzam os efeitos pretendidos.

Estudo realizado com 368 crianças brasileiras de um a cinco anos identificou associação entre o maior consumo de alimentos ultraprocessados e o uso, pelos pais, de práticas como imposição por força física, recompensa alimentar e restrição (Santos; Reis; Romano, 2021). Esse resultado chama atenção para a possibilidade de que algumas estratégias de controle estejam relacionadas a comportamentos alimentares que não correspondem ao objetivo dos responsáveis.

Essa relação também foi observada por Wang et al. (2022), em uma revisão sistemática com metanálise de estudos longitudinais. Os autores identificaram que práticas parentais não responsivas, como restrição e recompensa alimentar, podem estar relacionadas a diferentes comportamentos alimentares infantis. Entretanto, essa relação não ocorre necessariamente em apenas uma direção, pois o comportamento da criança também pode influenciar a maneira como os pais conduzem sua alimentação. Dessa forma, os resultados indicam uma relação dinâmica entre o comportamento da criança e as práticas adotadas pelos adultos, embora as associações encontradas sejam inconsistentes e não permitam estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

Assim, mais do que analisar apenas quais alimentos são oferecidos, é importante considerar a maneira como os responsáveis conduzem o momento da alimentação. Os achados reforçam a importância de considerar as práticas utilizadas durante as refeições e sua relação com o comportamento alimentar infantil, sem analisar essas relações de forma isolada (Wang et al., 2022).

3.3. Alimentação responsiva

A alimentação responsiva aparece na literatura como uma abordagem que valoriza os sinais apresentados pela própria criança. Essa prática envolve reconhecer os sinais de fome e saciedade, oferecer os alimentos de maneira adequada e evitar pressão ou coerção durante as refeições (Redsell et al., 2021).

A Organização Mundial da Saúde recomenda que os cuidadores respondam de maneira adequada aos sinais de fome e saciedade da criança, contribuindo para o desenvolvimento de uma relação adequada com a alimentação (World Health Organization, 2023). Da mesma forma, o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos orienta que as refeições sejam momentos de interação, aprendizado e afeto, respeitando os sinais de fome e saciedade apresentados pela criança (Brasil, 2019).

Entre os estudos que avaliaram práticas de alimentação responsiva, os achados destacam a importância de considerar os sinais de fome e saciedade da criança e evitar práticas de pressão durante as refeições (Redsell et al., 2021). Diferentemente das práticas controladoras, essa abordagem permite que a criança tenha participação no processo alimentar e que seus sinais sejam considerados pelo cuidador. Entretanto, é importante considerar que a qualidade e a forma de avaliação das evidências sobre alimentação responsiva são variáveis, o que exige cautela na interpretação dos resultados encontrados.

Além disso, a alimentação responsiva não deve ser entendida apenas como uma prática relacionada à quantidade de comida consumida. O modo como o cuidador oferece os alimentos, conversa com a criança e conduz o momento da refeição também faz parte desse processo. Dessa forma, a alimentação pode se tornar um momento de interação e aprendizado, contribuindo para a construção de uma relação mais positiva com a comida (Brasil, 2019).

O comportamento alimentar infantil envolve diferentes dimensões e não se limita apenas à quantidade ou ao tipo de alimento consumido. De acordo com Russell et al. (2023), esse comportamento é influenciado por fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais que interagem ao longo do desenvolvimento da criança. Dessa forma, a compreensão do comportamento alimentar infantil requer uma abordagem ampla, considerando não apenas os alimentos consumidos, mas também o contexto familiar, as experiências alimentares e as relações estabelecidas durante a infância. Embora Russell et al. (2023) não componha a amostra final de documentos incluídos nesta revisão integrativa, o estudo foi utilizado como referencial teórico para subsidiar a compreensão conceitual do fenômeno investigado.

Entretanto, a aplicação dessas práticas também pode estar relacionada às condições de vida da família. A literatura aponta que fatores relacionados ao conhecimento sobre alimentação infantil, ao apoio familiar e às condições da rotina podem atuar como barreiras ou facilitadores para a adoção de práticas responsivas (Redsell et al., 2021). Por isso, é importante considerar a realidade de cada família ao orientar os responsáveis sobre a alimentação infantil.

3.4. Fatores Socioeconômicos e Acesso à Alimentação Adequada

Além das relações familiares, os estudos analisados demonstram que o comportamento alimentar infantil também está relacionado às condições socioeconômicas. Fatores como renda, escolaridade, preço dos alimentos, disponibilidade de tempo para o preparo das refeições e acesso a alimentos adequados podem influenciar as possibilidades de escolha das famílias. Estudo realizado com crianças brasileiras de seis meses a dois anos identificou associação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e características socioeconômicas e demográficas, demonstrando que o contexto familiar também deve ser considerado na análise da alimentação infantil (Cainelli et al., 2021).

Em situações de maior vulnerabilidade socioeconômica, o acesso aos alimentos pode ser condicionado por fatores como renda, preço, disponibilidade e praticidade, aspectos que podem repercutir na composição da alimentação da família. Nesse contexto, a disponibilidade dos alimentos no ambiente doméstico também pode estar relacionada ao consumo infantil, uma vez que a maior presença e acessibilidade dos alimentos estão associadas às oportunidades de contato e consumo pela criança (Yee; Lwin; Ho, 2017). Assim, a presença de determinados alimentos no domicílio deve ser compreendida considerando não apenas as escolhas dos responsáveis, mas também as condições de acesso e disponibilidade que fazem parte da realidade familiar.

Essa realidade demonstra que as escolhas alimentares não dependem exclusivamente do conhecimento ou da vontade dos responsáveis. As condições em que a família vive podem limitar as possibilidades de acesso a determinados alimentos e interferir na organização das refeições. Dessa forma, responsabilizar somente os pais pelas escolhas alimentares da criança pode resultar em uma compreensão limitada dos fatores envolvidos nesse processo. Os fatores socioeconômicos também podem se relacionar às práticas parentais e ao ambiente alimentar da criança. A rotina familiar, a disponibilidade dos alimentos no domicílio e as condições para preparar as refeições fazem parte de um mesmo contexto e podem influenciar a maneira como a criança vivencia a alimentação (Cainelli et al., 2021; Yee; Lwin; Ho, 2017).

É importante considerar, entretanto, que os estudos analisados apresentam diferenças metodológicas e de contexto. Alguns estudos sobre as práticas parentais e os fatores socioeconômicos foram realizados em contextos brasileiros específicos e com amostras de determinadas localidades (Santos; Reis; Romano, 2021; Cainelli et al., 2021), o que pode limitar a aplicação desses resultados a outras realidades. Por outro lado, os achados relacionados à disponibilidade dos alimentos e à frequência das refeições em família são apoiados por revisões sistemáticas com metanálise e maior abrangência (Dallacker; Hertwig; Mata, 2018; Yee; Lwin; Ho, 2017), oferecendo evidências provenientes de estudos com maior abrangência. Ainda assim, algumas dessas revisões podem apresentar sobreposição de estudos primários. Dessa forma, é necessário considerar as diferenças entre os estudos ao interpretar os resultados, quanto aos diferentes delineamentos, populações e contextos analisados.

Diante disso, as estratégias de promoção da alimentação adequada e saudável na infância devem envolver não apenas a criança, mas também seus pais ou responsáveis e o ambiente em que ela está inserida. A compreensão do comportamento alimentar infantil de forma ampla permite considerar a influência das práticas familiares e das condições socioeconômicas, contribuindo para o desenvolvimento de ações de educação alimentar e nutricional mais adequadas à realidade das crianças e de seus cuidadores.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da análise dos estudos selecionados, foi possível compreender que o comportamento alimentar infantil é influenciado por diferentes fatores presentes no cotidiano da criança. Os achados sugerem que a família possui um papel importante nesse processo, principalmente por meio dos hábitos alimentares dos pais ou responsáveis, do exemplo oferecido, da disponibilidade dos alimentos e da forma como os momentos das refeições são conduzidos.

Também foi possível observar que algumas práticas de controle alimentar, como a pressão para comer, a restrição excessiva e o uso da comida como recompensa, podem estar relacionadas a diferentes comportamentos alimentares na infância. Nesse sentido, a alimentação responsiva é apresentada na literatura como uma abordagem que valoriza os sinais de fome e saciedade da criança e considera a participação do cuidador durante as refeições, com atenção à interação e à forma como os alimentos são oferecidos.

Além da influência familiar, os fatores socioeconômicos também precisam ser considerados, pois condições como renda, preço e disponibilidade dos alimentos, rotina e acesso à alimentação adequada podem interferir nas escolhas e nas possibilidades das famílias. Dessa forma, o comportamento alimentar infantil não deve ser compreendido somente como resultado das escolhas dos pais ou responsáveis, uma vez que fatores sociais e ambientais também participam desse processo.

Assim, os achados mostram a importância de compreender a formação do comportamento alimentar infantil de maneira ampla, considerando a interação entre a criança, sua família e o ambiente em que está inserida. Nesse sentido, ações de educação alimentar e nutricional devem envolver os pais ou responsáveis e considerar as condições sociais, econômicas e familiares em que a criança vive, buscando orientar práticas alimentares adequadas e possíveis de serem incorporadas ao cotidiano.

Como limitações, destacam-se o número reduzido de documentos incluídos na síntese final (n = 10) e a heterogeneidade metodológica dos estudos, que podem limitar a generalização dos achados. Também pode ter ocorrido sobreposição de estudos primários entre as revisões incluídas, aspecto que não foi possível verificar nesta revisão. A concentração de estudos brasileiros em alguns eixos também limita a generalização desses achados para outros contextos socioculturais. Além disso, a restrição aos idiomas português, inglês e espanhol e à disponibilidade de texto completo gratuito pode ter excluído estudos relevantes. Por fim, a avaliação pelo CASP foi utilizada para a análise crítica, mas não como critério de exclusão, devendo ser considerada na interpretação dos resultados.

Conclui-se que compreender esses diferentes fatores é importante para que os profissionais de saúde, especialmente os nutricionistas, possam desenvolver orientações mais adequadas à realidade das crianças e de seus cuidadores. Mais do que incentivar apenas o consumo de alimentos saudáveis, é importante considerar a forma como a alimentação é vivenciada no cotidiano e favorecer experiências alimentares positivas e respeitosas, de acordo com as possibilidades de cada família.

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1 Acadêmico de Nutrição — Universidade Nilton Lins, Manaus, Amazonas, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Acadêmica de Nutrição — Universidade Nilton Lins, Manaus, Amazonas, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Acadêmica de Nutrição — Universidade Nilton Lins, Manaus, Amazonas, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Orientadora do curso de Nutrição, Manaus, Amazonas, Brasil. 

5 Docente do curso de Nutrição, Manaus, Amazonas, Brasil.