REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791161510
RESUMO
As práticas Environmental, Social and Governance (ESG) têm ampliado a relevância dos recursos intangíveis na criação de valor organizacional, tornando importante compreender como esses recursos são desenvolvidos e divulgados pelas organizações. Entretanto, a literatura ainda apresenta limitações quanto à integração entre práticas ESG e intangíveis, especialmente no que se refere à identificação das categorias associadas a essas práticas e à forma como são divulgadas pelas empresas. Diante desse contexto, o estudo teve como objetivo mapear e categorizar os principais recursos intangíveis associados às práticas ESG, por meio da análise dos relatórios corporativos das empresas integrantes do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3 em 2024. Trata-se de uma pesquisa de abordagem descritiva, do tipo qualitativa, com técnica de análise documental e fundamentada na análise de conteúdo proposta por Bardin (2016). O corpus documental foi constituído pelos relatórios de sustentabilidade, analisados a partir de categorias definidas a priori com base na literatura. As informações identificadas foram classificadas segundo as categorias de recursos intangíveis e quanto ao nível de evidenciação das informações divulgadas. Os resultados apontam recursos relacionados ao capital humano, capital estrutural, capital relacional, capacidade de inovação, propriedade intelectual e reputação corporativa, indicando associações entre as dimensões ambiental, social e de governança e diferentes categorias de recursos intangíveis. Observou-se, ainda, que capital humano, capital estrutural e capacidade de inovação apresentam, predominantemente, evidenciação robusta, enquanto reputação corporativa e propriedade intelectual são divulgadas de forma mais seletiva.
Palavras-chave: Sustentabilidade; Capital intelectual; Criação de valor; Recursos intangíveis.
ABSTRACT
Environmental, Social, and Governance (ESG) practices have heightened the relevance of intangible resources in organizational value creation, making it important to understand how these resources are developed and disclosed by organizations. However, the literature still presents limitations regarding the integration of ESG practices and intangible resources, particularly concerning the identification of categories associated with these practices and the manner of their corporate disclosure. Against this backdrop, this study aimed to map and categorize the key intangible resources associated with ESG practices by analyzing the corporate reports of companies included in B3’s Corporate Sustainability Index (ISE) in 2024. This is a descriptive, qualitative study employing document analysis techniques and grounded in the content analysis method proposed by Bardin (2016). The document corpus consisted of sustainability reports, analyzed using categories defined *a priori* based on the literature. The identified information was classified according to intangible resource categories and the level of disclosure. The results highlight resources related to human capital, structural capital, relational capital, innovation capacity, intellectual property, and corporate reputation, indicating associations between environmental, social, and governance dimensions and various categories of intangible resources. Furthermore, it was observed that human capital, structural capital, and innovation capacity predominantly feature robust disclosure, whereas corporate reputation and intellectual property are disclosed more selectively.
Keywords: Sustainability; Intellectual capital; Value creation; Intangible resources.
1. INTRODUÇÃO
Ao longo das últimas décadas, a economia baseada no conhecimento transformou a lógica de criação de valor das organizações, deslocando o foco dos recursos tangíveis para ativos associados ao conhecimento, à inovação e ao capital intelectual (Fejes, 2018). Como consequência, os recursos intangíveis passaram a representar parcela significativa do valor das empresas, especialmente em economias desenvolvidas, assumindo papel estratégico na geração de vantagem competitiva e no desempenho organizacional (Masulis; Reza; Guo, 2023; Tulvinschi, 2025).
Paralelamente, observa-se a consolidação das práticas Environmental, Social and Governance (ESG) como importante referência para a gestão e avaliação da sustentabilidade corporativa. A incorporação das dimensões ambiental, social e de governança ampliou a relevância de indicadores não financeiros na tomada de decisão e na comunicação com investidores e demais stakeholders (Irigaray; Stocker, 2022; Wielechowski; Krasuski, 2024; Silva; Aragão, 2026). Nesse contexto, inovação, reputação, capital humano e responsabilidade socioambiental passaram a ser reconhecidos como componentes centrais da competitividade organizacional (Stan; Tîtu; Paraschiv, 2024; Judijanto et al., 2025).
Embora a literatura reconheça a relevância das práticas ESG e dos recursos intangíveis para a criação de valor, ainda é limitada a compreensão de como as práticas ESG se relacionam com o desenvolvimento desses recursos. Grande parte das pesquisas analisa esses temas de forma isolada, restringindo a compreensão de como as práticas ESG se relacionam com o desenvolvimento de recursos intangíveis (Reboredo; Sowaity, 2022; Sampaio; Winkler; Ferreira, 2025). Além disso, investigações envolvendo desempenho ESG, capital humano e outras categorias de recursos estratégicos ainda são incipientes, evidenciando oportunidades para ampliar o conhecimento nessa área (Mustafa et al., 2025).
Essa lacuna torna-se ainda mais relevante diante da necessidade de compreender como diferentes categorias de recursos intangíveis são desenvolvidas e evidenciadas no contexto das práticas ESG. Entre elas, destacam-se o capital humano, o capital estrutural, o capital relacional, a capacidade de inovação, a propriedade intelectual e a reputação corporativa, cuja presença e forma de divulgação nos relatórios corporativos ainda demandam maior compreensão. Embora estudos recentes tenham avançado na análise de categorias específicas, permanece limitada a compreensão sobre a diversidade de recursos intangíveis associados às estratégias de sustentabilidade, especialmente em mercados emergentes (Karyani; Perdiansyah, 2022; Chen et al., 2024; Butnaru; Grosu; Andrioaia, 2026).
Neste estudo, adota-se uma perspectiva ampliada de recursos intangíveis, contemplando não apenas ativos passíveis de reconhecimento contábil, mas também categorias do capital intelectual e capacidades organizacionais estratégicas identificáveis nos relatórios corporativos. A partir dessa perspectiva, o presente estudo tem como objetivo mapear e categorizar os principais recursos intangíveis associados às práticas ESG, por meio da análise de relatórios corporativos das empresas integrantes do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3.
Sob a perspectiva teórica, a pesquisa contribui para aproximar os campos dos recursos intangíveis e das práticas ESG, propondo uma análise integrada das categorias de recursos evidenciadas pelas organizações e de seus padrões de divulgação. Sob a perspectiva prática, os resultados oferecem subsídios para gestores, investidores e formuladores de políticas ao identificar quais recursos intangíveis são mais frequentemente associados às estratégias ESG e como essas informações vêm sendo comunicadas ao mercado, ampliando a compreensão sobre os mecanismos de criação de valor sustentável (Lubis, 2022; Bai et al., 2025; Naburgi; Musa; Godwin, 2026; Butnaru; Grosu; Andrioaia, 2026).
2. REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Recursos Intangíveis e Criação de Valor Organizacional
A crescente valorização dos recursos intangíveis reflete as transformações ocorridas na economia baseada no conhecimento, na qual recursos relacionados à inovação, ao capital intelectual e às capacidades organizacionais passaram a representar parcela significativa do valor das empresas (Masulis; Reza; Guo, 2023; Tulvinschi, 2025).
Tradicionalmente, a literatura distingue os ativos intangíveis, reconhecidos contabilmente por serem identificáveis, não monetários e desprovidos de substância física (Fotă et al., 2024), dos recursos intangíveis, que abrangem um conjunto mais amplo de conhecimentos, competências, relacionamentos, capacidades organizacionais e demais recursos estratégicos que frequentemente não são capturados pelas demonstrações financeiras. Essa distinção tornou-se particularmente relevante diante do crescente distanciamento entre o valor contábil e o valor de mercado das organizações, indicando que parcela expressiva da criação de valor decorre de recursos não reconhecidos pelos modelos tradicionais de mensuração (Cardenas; García; Moreno, 2024).
Nesse contexto, a literatura passou a compreender os recursos intangíveis como instrumentos centrais da competitividade contemporânea, incluindo não apenas ativos passíveis de reconhecimento contábil, mas também componentes do capital intelectual, da inovação, da propriedade intelectual, da reputação corporativa e do relacionamento com stakeholders (Fejes, 2018).
Sob a perspectiva da Resource Based View (RBV), a criação de valor organizacional depende da capacidade das empresas de desenvolver, combinar e explorar recursos valiosos, raros, difíceis de imitar e insubstituíveis (Liu, 2024). Nessa abordagem, o capital intelectual, especialmente em suas dimensões humana, estrutural e relacional, constitui um dos principais mecanismos de sustentação da vantagem competitiva, ao reunir conhecimentos, competências e relacionamentos que dificilmente podem ser replicados pelos concorrentes (Judijanto et al., 2025).
Conforme argumenta Fejes (2018), retomando os ensinamentos de Penrose (1959), a vantagem competitiva não decorre apenas da posse dos recursos, mas principalmente da capacidade organizacional de utilizá-los de forma eficiente. Essa perspectiva é reforçada pela literatura, a qual demonstra que organizações mais competitivas são aquelas capazes de integrar, adaptar e reconfigurar continuamente seus recursos em resposta às mudanças do ambiente de negócios (de Moura; Saroli, 2021).
Nos últimos anos, essa discussão passou a incorporar as práticas ambientais, sociais e de governança, reconhecidas como importantes indutoras do desenvolvimento de recursos intangíveis. Estudos recentes, como o de Silva e Aragão (2026), salientam que iniciativas relacionadas à sustentabilidade podem favorecer o fortalecimento do capital humano, do capital relacional, do capital estrutural e da reputação corporativa, ampliando a capacidade competitiva das organizações.
Na dimensão ambiental, investimentos em pesquisa e desenvolvimento, inovação sustentável e tecnologias limpas podem impulsionar a geração de conhecimento e o desenvolvimento da propriedade intelectual (Marín-Vinuesa et al., 2018; Portillo-Tarragona; Scarpellini; Marín-Vinuesa, 2022). Sob a dimensão social, práticas voltadas à capacitação, diversidade e relacionamento com stakeholders fortalecem o capital humano e o capital relacional, favorecendo a aprendizagem organizacional e a criação de valor compartilhado (Reboredo; Sowaity, 2022). Por sua vez, a governança contribui para consolidar estruturas organizacionais, fortalecer a reputação corporativa e ampliar a legitimidade institucional, criando condições para que os recursos desenvolvidos nas demais dimensões sejam protegidos e potencializados (Miotto; Del-Castillo; Blanco-Gonzáles, 2020; Safitri, 2024).
Essa integração evidencia que as práticas ESG deixaram de representar apenas mecanismos de responsabilidade socioambiental para assumirem papel estratégico na criação de valor organizacional. Ao se relacionarem com diferentes categorias de recursos intangíveis, essas práticas estão associadas à capacidade das empresas de inovar, desenvolver competências, consolidar relacionamentos e construir vantagens competitivas sustentáveis (Reboredo; Sowaity, 2022; Silva; Aragão, 2026). Sob essa perspectiva, os recursos intangíveis podem constituir um elo entre sustentabilidade corporativa e desempenho organizacional, fornecendo a base teórica para compreender como as práticas ESG se materializam em capacidades estratégicas e são posteriormente evidenciadas nos relatórios corporativos das empresas integrantes do ISE da B3.
2.2. Evidenciação de Recursos Intangíveis em Relatórios Corporativos Sob a Perspectiva ESG
As demonstrações financeiras tradicionais apresentam limitações para evidenciar fatores que influenciam a criação de valor no longo prazo, especialmente recursos intangíveis como conhecimento, capital intelectual, reputação e inovação. Embora sejam essenciais para a avaliação econômico-financeira das organizações, esses instrumentos não capturam de forma abrangente os impactos das práticas ESG nem a contribuição dos recursos intangíveis para o desempenho organizacional (Naburgi; Musa; Godwin, 2026). Nesse contexto, os relatórios corporativos assumem papel complementar ao ampliarem a transparência sobre aspectos ambientais, sociais e de governança, permitindo uma compreensão mais abrangente da capacidade das organizações de gerar valor sustentável (Linda; Paramitha, 2025).
Mais do que divulgar iniciativas de sustentabilidade, esses documentos funcionam como instrumentos de comunicação dos recursos intangíveis desenvolvidos pelas organizações. Ao evidenciarem investimentos em inovação, desenvolvimento de pessoas, relacionamento com stakeholders, estruturas de governança e proteção da propriedade intelectual, os relatórios reduzem a assimetria informacional, fortalecem a transparência e ampliam a compreensão dos investidores e demais partes interessadas sobre os mecanismos de criação de valor organizacional (Lippai-Makra; Kovács; Kiss, 2022). Organizações com maior consistência na divulgação de informações ESG tendem a fortalecer sua credibilidade e percepção de valor no mercado (Hadiati; Wahyudyatmika, 2023).
Com base na literatura revisada, foram definidas a priori seis categorias analíticas de recursos intangíveis para orientar a análise dos relatórios corporativos: capital estrutural, capital relacional, capital humano, propriedade intelectual, capacidade de inovação e reputação corporativa, conforme são apresentadas no Quadro 1.
Quadro 1. Categorias analíticas de recursos intangíveis e respectivas bases teóricas
CATEGORIA ANALÍTICA | SÍNTESE CONCEITUAL | PRINCIPAIS REFERÊNCIAS |
Capital Estrutural | Estruturas, processos, sistemas, rotinas, cultura e mecanismos organizacionais que sustentam o conhecimento. | Reboredo e Sowaity (2022); |
Capital Relacional | Relações da organização com clientes, fornecedores, parceiros e demais stakeholders. | Reboredo e Sowaity (2022); |
Capital Humano | Conhecimentos, habilidades, competências, capacitação, diversidade, experiências e capacidades dos colaboradores. | Reboredo e Sowaity (2022); |
Propriedade Intelectual | Direitos e ativos identificáveis relacionados à proteção de criações, tecnologias e marcas. | Masulis, Reza e Guo (2023); |
Capacidade de Inovação | Capacidade organizacional de desenvolver e aplicar conhecimentos e soluções inovadoras. | Portillo-Tarragona, Scarpellini e Marín-Vinuesa (2022); |
Reputação corporativa | Percepção dos stakeholders sobre a organização, associada à credibilidade, legitimidade e reconhecimento. | Chen et al. (2024); |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026)
Na literatura sobre capital intelectual, destaca-se que o capital humano, capital estrutural e capital relacional são frequentemente tratados como suas principais dimensões (Reboredo; Sowaity, 2022; Judijanto et al., 2025). A capacidade de inovação, a propriedade intelectual e a reputação corporativa também apresentam relações com o capital intelectual e com outros recursos intangíveis, mas foram tratadas separadamente neste estudo como categorias específicas, considerando sua recorrência na literatura examinada e sua possibilidade de identificação nos relatórios corporativos. Ressalta-se que as seis categorias não constituem uma taxonomia única na literatura, mas uma síntese analítica construída a partir das diferentes abordagens teóricas identificadas na revisão.
A literatura revisada associa diferentes dimensões das práticas ESG a categorias específicas de recursos intangíveis. A transparência dos processos organizacionais está associada ao fortalecimento do capital estrutural e do capital relacional, ampliando a confiança dos stakeholders e favorecendo a criação de valor compartilhado (Reboredo; Sowaity, 2022). Iniciativas voltadas à capacitação, diversidade e competências estão associadas ao desenvolvimento do capital humano (Jorgji et al., 2024).
Investimentos em tecnologias sustentáveis impulsionam a propriedade intelectual e a capacidade de inovação, contribuindo para a geração de conhecimento e soluções inovadoras (Momot et al., 2021; Chen et al., 2024). A reputação corporativa, por sua vez, decorre da coerência entre identidade organizacional e percepção dos stakeholders, constituindo um importante ativo estratégico para a legitimidade e diferenciação competitiva das organizações (Domínguez-Quiñones; Aliende; Escot, 2025). Estudos recentes também demonstram que práticas ESG, capital intelectual verde e contabilidade ambiental contribuem para o desempenho organizacional e para a valorização das empresas (Alofaysan et al., 2024; Astuti; Ahmar, 2025).
Dessa forma, salienta-se que os relatórios corporativos constituem importante fonte de evidências para a identificação e análise dos recursos intangíveis associados às práticas ESG. Ao comunicar não apenas os resultados das iniciativas de sustentabilidade, mas também as capacidades organizacionais desenvolvidas pelas empresas, esses documentos permitem compreender como os recursos intangíveis são evidenciados e utilizados como mecanismos de criação de valor.
3. METODOLOGIA
Este estudo classifica-se como sendo de abordagem descritiva, do tipo qualitativo, com procedimento técnico de análise documental (Saunders; Lewis; Thornhill, 2019), uma vez que se propõe a mapear e categorizar os recursos intangíveis associados às práticas Environmental, Social and Governance (ESG) a partir da análise de relatórios corporativos. A abordagem descritiva mostra-se adequada ao objetivo da pesquisa por possibilitar a compreensão de como as organizações evidenciam recursos intangíveis relacionados à sustentabilidade em seus documentos oficiais.
O universo da pesquisa foi composto pelas empresas brasileiras de capital aberto integrantes do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, reconhecido por reunir organizações com elevado grau de maturidade em práticas ESG. A partir desse universo, a amostra foi selecionada por conveniência (Hair Jr.; Page; Brunsveld, 2019), considerando a disponibilidade das informações necessárias à análise. Como critério de delimitação da amostra, foram selecionadas as 10 (dez) empresas com maior índice no ano de 2024. O corpus documental foi composto pelos relatórios de sustentabilidade obtidos diretamente nos sites das empresas, por constituírem os principais instrumentos de divulgação de informações não financeiras e de criação de valor.
As evidências identificadas foram classificadas segundo duas dimensões analíticas: as categorias de recursos intangíveis, definidas a priori a partir da literatura, e o nível de evidenciação. A figura 1 apresenta o percurso metodológico da pesquisa.
Figura 1. Percurso Metodológico da Pesquisa
A adoção das seis categorias decorreu da síntese da literatura revisada, que permitiu reunir, em uma estrutura analítica única, dimensões do capital intelectual (capital estrutural, relacional e humano) e outros recursos intangíveis recorrentes nos estudos examinados, como capacidade de inovação, propriedade intelectual e reputação corporativa. Essa estrutura foi adotada por possibilitar a identificação sistemática desses recursos nos relatórios analisados.
Quanto ao nível de evidenciação, foi elaborada uma classificação analítica inspirada na literatura sobre qualidade da divulgação corporativa (Michelon; Pilonato; Ricceri, 2015), composta por três níveis: (i) menção, caracterizada pela simples referência ao recurso intangível; (ii) descrição, quando o relatório apresenta informações qualitativas sobre iniciativas, programas ou políticas relacionadas ao recurso; e (iii) evidenciação robusta, marcada pela divulgação de indicadores quantitativos, metas, investimentos, certificações ou outras informações objetivas. Essa classificação subsidiou a análise dos padrões de divulgação apresentados na seção de resultados.
A análise das informações obtidas nos relatórios seguiu as três etapas da análise de conteúdo propostas por Bardin (2016): pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados e interpretação. Na etapa de pré-análise, realizou-se a leitura flutuante dos relatórios corporativos com o objetivo de familiarização com o conteúdo e aplicação das categorias analíticas.
Na fase de exploração do material, procedeu-se à leitura mais aprofundada dos relatórios e ao mapeamento dos trechos relacionados às categorias previamente definidas. As evidências identificadas foram extraídas dos documentos e organizadas em planilhas eletrônicas específicas para cada categoria analítica, permitindo reunir, sistematizar e comparar as informações encontradas entre as empresas analisadas. Esse procedimento possibilitou a identificação dos principais recursos intangíveis evidenciados, bem como sua associação às dimensões ambiental, social e de governança.
Na etapa de tratamento dos resultados, o material sistematizado foi submetido à análise interpretativa, buscando identificar padrões de evidenciação, convergências e diferenças entre as organizações quanto à comunicação dos recursos intangíveis associados às práticas ESG. As evidências foram então agrupadas de acordo com as categorias analíticas previamente estabelecidas, possibilitando o mapeamento dos recursos intangíveis, a análise de sua interligação com as dimensões ESG e a classificação do nível de evidenciação das informações divulgadas nos relatórios corporativos.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
As 10 (dez) empresas selecionadas pertencem a diferentes setores econômicos da B3, contemplando organizações dos segmentos de bens industriais, financeiro, comunicações, consumo cíclico, consumo não cíclico e utilidade pública. Essa diversidade setorial amplia a abrangência da análise ao permitir a identificação de padrões de evidenciação de recursos intangíveis em contextos organizacionais distintos. A distribuição das empresas por setor econômico e segmento de atuação é apresentada no Quadro 2.
Quadro 2. Segmentos das Empresas Analisadas
CÓDIGO EMPRESA | SETOR ECONÔMICO | SEGMENTO |
E1 | Bens Industriais | Serviços Diversos |
E2 | Financeiro | Bancos |
E3 | Comunicações | Telefonia Fixa e Móvel |
E4 | Comunicações | Telefonia Fixa e Móvel |
E5 | Consumo Não Cíclico | Produtos de Uso Pessoal |
E6 | Utilidade Pública | Energia Elétrica |
E7 | Consumo Cíclico | Tecidos, Vestuário e Calçados |
E8 | Utilidade Pública | Energia Elétrica |
E9 | Financeiro | Bancos |
E10 | Utilidade Pública | Energia Elétrica |
Fonte: Elaborado pelos autores, com base na B3 (2026)
Essa composição evidencia a heterogeneidade da amostra, reunindo empresas intensivas em conhecimento, serviços, infraestrutura, consumo e intermediação financeira. A presença de diferentes contextos organizacionais contribui para uma análise mais abrangente da forma como diferentes organizações incorporam e evidenciam os recursos intangíveis relacionados às práticas ESG em seus relatórios de sustentabilidade.
4.1. Visão Geral dos Intangíveis Identificados
De modo geral, os resultados evidenciaram que as organizações utilizam os relatórios corporativos não apenas para divulgar iniciativas de sustentabilidade, mas também para comunicar capacidades estratégicas relacionadas à criação de valor. Esse padrão reforça o entendimento de que os relatórios corporativos constituem importantes instrumentos de evidenciação dos recursos intangíveis desenvolvidos pelas organizações, conforme explanam Reboredo e Sowaity (2022).
Com base nas categorias analíticas previamente definidas e na codificação dos conteúdos identificados nos relatórios de sustentabilidade, foram estabelecidas as associações entre as dimensões ESG e as categorias de recursos intangíveis. As evidências apresentadas correspondem aos conteúdos efetivamente identificados nos relatórios das empresas analisadas, conforme sintetizado no Quadro 3.
Na dimensão Environmental, os recursos relacionados à propriedade intelectual e à capacidade de inovação apresentaram evidências associadas ao desenvolvimento de soluções sustentáveis. Foram identificadas citações referentes a investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), laboratórios de inovação, inovação aberta, softwares próprios, patentes e ativos tecnológicos, incluindo a divulgação da existência de 25 patentes relacionadas à economia circular desenvolvidas pelo laboratório de P&D (E1), iniciativas de inovação aberta (E5) e a divulgação do valor da propriedade intelectual da companhia (E9).
Quadro 3. Dimensões ESG, categorias de recursos intangíveis e evidências identificadas
DIMENSÃO ESG | CATEGORIA DE RECURSO INTANGÍVEL | PRINCIPAIS EVIDÊNCIAS IDENTIFICADAS |
Environmental | Propriedade Intelectual | Patentes, marcas registradas, softwares (E1, E5, E9) |
Capacidade de Inovação | Investimentos em P&D, inovação aberta, laboratórios de inovação (E1, E5) | |
Social | Capital Humano | Programas de treinamento, capacitação, desenvolvimento, retenção de talentos, inclusão e diversidade, saúde e bem-estar, fortalecimento de lideranças (E1, E2, E5) |
Capital Relacional | Parcerias estratégicas, relacionamento com stakeholders, indicadores de satisfação dos clientes, programas de engajamento (E3, E6, E8) | |
Governance | Capital Estrutural | Certificações ISO, sistemas de gestão, estruturas de governança, compliance, cultura organizacional, inovação em processos (E1, E2, E5) |
Propriedade Intelectual | Patentes, marcas registradas, softwares (E1, E5, E9) | |
Reputação Corporativa | Rankings, premiações, reconhecimento de mercado, índices de sustentabilidade, transparência e ética institucional (E3, E6, E8, E10) |
Fonte: Elaborado pelos autores, com base nos relatórios de sustentabilidade das empresas analisadas (2026).
Além disso, observou-se a divulgação de marcas registradas, reconhecimento mercadológico e estratégias de fortalecimento da marca, evidenciando que esses recursos são apresentados nos relatórios em associação com estratégias de diferenciação competitiva. Esses resultados corroboram com os achados de Marín-Vinuesa et al. (2018) e Portillo-Tarragona, Scarpellini e Marín-Vinuesa (2022), os quais destacam a inovação e a propriedade intelectual como importantes fontes de vantagem competitiva sustentável.
Na dimensão Social, destacaram-se evidências relacionadas ao capital humano e ao capital relacional. Quanto ao capital humano foram identificadas evidências recorrentes nos relatórios, especialmente relacionadas ao desenvolvimento e à valorização dos colaboradores. Entre os exemplos, destacaram-se as 150 mil horas de treinamento em segurança ocupacional (E1), os investimentos de R$ 141 milhões em desenvolvimento de colaboradores (E2) e iniciativas voltadas à atração e retenção de talentos diversos (E5). Esses achados reforçam que o desenvolvimento de competências constitui elemento estratégico das práticas ESG, reconhecendo o capital humano como importante fonte de vantagem competitiva e de criação de valor (Liu, 2024; Judijanto et al., 2025).
Referente ao capital relacional, foram observadas evidências relacionadas a iniciativas voltadas ao relacionamento com clientes, comunidades, fornecedores e demais stakeholders. Destacaram-se mecanismos de monitoramento da satisfação dos clientes (E3), pesquisas de satisfação (E6) e canais permanentes de diálogo com stakeholders (E8), indicando a presença de iniciativas voltadas à manutenção e ao desenvolvimento de vínculos institucionais com diferentes públicos. Esses achados convergem com Reboredo e Sowaity (2022), ao demonstrarem o capital relacional como recurso estratégico para a criação de valor compartilhado.
Na dimensão de Governance, foram identificadas informações relacionadas ao capital estrutural, à propriedade intelectual e à reputação corporativa. No primeiro, as evidências encontradas apontam para a presença de estruturas e práticas organizacionais voltadas à gestão e ao funcionamento interno das empresas, como exemplificado pela utilização de softwares próprios para gestão ESG (E1), pela certificação ISO 45001 (E2) e pelas avaliações periódicas do sistema de governança corporativa (E5). Essas evidências indicam investimentos voltados ao fortalecimento dos processos internos e da capacidade organizacional, corroborando com Cardenas, García e Moreno (2024), que reconhecem o capital estrutural como componente essencial do capital intelectual e da criação de valor sustentável. Quanto à propriedade intelectual, foram observadas referências a patentes, marcas registradas e softwares (E1, E5, E9).
Já a reputação corporativa foi associada à divulgação de rankings, certificações, premiações e reconhecimentos externos associados à credibilidade institucional e à legitimidade de suas práticas ESG. Destacam-se referências ao melhor desempenho no ISE B3 (E10), à classificação entre as empresas mais sustentáveis do mundo (E8), ao Selo Empresa Pró-Ética, relacionado ao reconhecimento de práticas de integridade e ética empresarial, concedido pela Controladoria Geral da União (CGU) (E6) e ao reconhecimento entre as empresas de melhor reputação do país (E3). Esses reconhecimentos constituem evidências utilizadas pelas empresas para comunicar aspectos relacionados à credibilidade e à reputação corporativa no contexto das práticas ESG, conforme destacado por Safitri (2024).
De forma integrada, observa-se que as dimensões ESG apresentam associações com as categorias de recursos intangíveis. As evidências ambientais relacionam-se principalmente à inovação e à propriedade intelectual, as sociais se integram ao capital humano e relacional, e as de governança direcionam-se ao capital estrutural, à propriedade intelectual e à reputação corporativa. Essa articulação indica que os recursos intangíveis identificados não estão associados exclusivamente a uma dimensão ESG, mas podem apresentar diferentes formas de relação com as práticas ambientais, sociais e de governança. Essa complementaridade é consistente com a compreensão de que diferentes recursos podem ser combinados e explorados estrategicamente para sustentar a criação de valor (Liu, 2024; Chen et al., 2024).
4.2. Nível de Evidenciação dos Recursos Intangíveis
Para analisar os padrões de evidenciação dos recursos intangíveis, as informações extraídas dos relatórios corporativos foram classificadas em três níveis crescentes de detalhamento informacional, conforme definido na metodologia, sendo eles: menção, descrição e evidenciação robusta.
A análise ressalta que os recursos intangíveis são divulgados em todas as empresas analisadas, porém com diferentes níveis de detalhamento. A Figura 2 sintetiza esses padrões de evidenciação.
Figura 2. Nível de evidenciação dos recursos intangíveis nas empresas do ISE B3
Notou-se maior detalhamento na divulgação do capital humano, capital estrutural e capacidade de inovação, categorias que apresentaram predominantemente evidenciação robusta, caracterizada pela divulgação de horas de treinamento, investimentos em capacitação, programas de liderança, certificações, sistemas de gestão, iniciativas de compliance e investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D). A presença desses diferentes tipos de informação indica que essas categorias são divulgadas por meio de conteúdos que permitem maior detalhamento das iniciativas e recursos associados às práticas ESG.
Esse resultado é coerente com a perspectiva de Michelon, Pilonato e Ricceri (2015), segundo a qual a qualidade da divulgação pode ser analisada considerando o nível de detalhamento das informações apresentadas pelas organizações. Além disso, a utilização dos relatórios corporativos para comunicar informações relacionadas ao capital intelectual e às práticas de sustentabilidade é destacada por Lippai-Makra, Kovács e Kiss (2022).
O capital relacional ocupa posição intermediária, combinando descrições qualitativas com indicadores relacionados ao relacionamento com stakeholders, satisfação de clientes e programas de engajamento. Esse resultado demonstra que a divulgação dessa categoria ocorre tanto pela descrição das iniciativas quanto pelo uso de indicadores relacionados aos vínculos estabelecidos pelas organizações com seus diferentes públicos. Esse padrão também se relaciona aos achados de Reboredo e Sowaity (2022), que associam a divulgação de informações ESG à eficiência do capital intelectual, reforçando a importância dos relatórios corporativos na comunicação de recursos intangíveis relacionados às práticas de sustentabilidade.
Em contraste, a reputação corporativa e a propriedade intelectual apresentaram níveis mais seletivos de divulgação. Em relação à reputação corporativa, a evidenciação foi classificada como descrição, com referências a rankings, premiações, índices de sustentabilidade e reconhecimentos institucionais. Nesse caso, os relatórios apresentam principalmente elementos utilizados pelas empresas para comunicar credibilidade, reconhecimento e legitimidade institucional.
A propriedade intelectual, por sua vez, apresentou os níveis de menção e descrição, com referências a patentes, registros de invenção, marcas, softwares, royalties e licenciamento. Embora esses conteúdos permitam identificar a presença desse recurso nos relatórios, observa-se menor detalhamento quando comparado às categorias classificadas como de evidenciação robusta. Esse comportamento sugere que, embora esses recursos possuam relevância estratégica, sua divulgação tende a ser mais restrita, possivelmente em razão da necessidade de preservar conhecimentos estratégicos e vantagens competitivas.
Salienta-se que a intensidade da evidenciação não está necessariamente relacionada à importância estratégica do recurso intangível, mas às características das informações divulgadas e às escolhas das organizações quanto ao equilíbrio entre transparência e divulgação de informações estratégicas.
Assim, a evidenciação dos recursos intangíveis constitui um mecanismo de comunicação corporativa que envolve demandas de prestação de contas e legitimidade institucional, ao mesmo tempo em que pode resultar em divulgação seletiva de conteúdos de caráter estratégico.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como objetivo mapear e categorizar os principais recursos intangíveis associados às práticas ESG, por meio da análise dos relatórios corporativos das empresas integrantes do ISE da B3. Os resultados demonstraram associações entre as práticas ESG e categorias de recursos intangíveis como capital humano, capital estrutural, capital relacional, reputação corporativa, capacidade de inovação e propriedade intelectual, indicando a relevância dessas categorias no contexto da criação de valor sustentável.
Os achados também demonstraram que a evidenciação dos recursos intangíveis varia conforme sua natureza, sendo mais detalhada para categorias como capital humano, capital estrutural e capacidade de inovação, enquanto fatores relacionados à reputação corporativa e propriedade intelectual tendem a receber divulgação mais seletiva. Nesse contexto, a evidenciação constitui um mecanismo de comunicação corporativa que envolve transparência e legitimidade institucional, podendo apresentar diferentes níveis de detalhamento conforme a natureza dos recursos divulgados.
Como contribuição, o estudo sistematiza os principais recursos intangíveis associados às práticas ESG, oferecendo uma estrutura analítica que amplia a compreensão sobre a relação entre sustentabilidade e criação de valor organizacional. Do ponto de vista prático, os resultados podem subsidiar gestores na definição de estratégias de evidenciação e apoiar investidores na interpretação das informações relacionadas aos recursos intangíveis.
Como limitação, destaca-se a análise restrita aos relatórios corporativos de 10 empresas pertencentes ao ISE B3. Para pesquisas futuras, recomenda-se ampliar a amostra, realizar estudos longitudinais e investigar, por meio de abordagens quantitativas, a influência dos recursos intangíveis sobre o desempenho organizacional e a criação de valor sustentável.
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1 Doutorando em Ciência da Propriedade Intelectual da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Campus São Cristóvão, Sergipe, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Doutora em Administração de Empresas, Docente do Curso Superior em Administração da Universidade Federal de Sergipe, Campus São Cristóvão, Sergipe, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail