A AMBIVALÊNCIA DA PERSONAGEM FEMININA KRIEMHILD NO POEMA ÉPICO ALEMÃO DAS NIBELUNGENLIED

THE AMBIVALENCE OF THE FEMALE CHARACTER KRIEMHILD IN THE GERMAN EPIC POEM DAS NIBELUNGENLIED

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776910108

RESUMO
Das Nibelungenlied é uma epopeia da literatura germânica do século XII, que traz à tona Kriemhild, personagem feminina que quebra as amarras da mulher na literatura medieval e parte em busca de vingança contra seus algozes. Este artigo objetiva analisar a ambivalência de Kriemhild, investigando como sua representação desafia normas de gênero, refletindo tensões entre tradições heroicas e a condição feminina na literatura medieval. A análise literária, por meio de uma pesquisa qualitativa, foi utilizada como metodologia, permitindo uma investigação das nuances textuais, contextuais e simbólicos que moldam a identidade da personagem e sua trajetória dentro da narrativa literária. Kriemhild se destaca como uma figura ambivalente que transita entre amor, luto e vingança. Sua trajetória reflete as complexidades da experiência feminina e as tensões sociais da época, tornando-a uma personagem icônica da literatura medieval e relevante para questões de gênero e poder. Desse modo, a análise da figura ambivalente de Kriemhild em Das Nibelungenlied revela como sua busca por vingança desafia as normas de gênero da literatura medieval, evidenciando as complexidades da condição feminina. Assim, Kriemhild emerge não apenas como uma heroína trágica, mas também como um ícone que reflete as tensões entre amor, luto e poder na literatura medieval.
Palavras-chave: Canção dos Nibelungos; Kriemhild; ambivalência; literatura.

ABSTRACT
Das Nibelungenlied is an epic of 12th-century Germanic literature that brings to light Kriemhild, a female character who breaks the chains of women in medieval literature and embarks on a quest for revenge against her tormentors. This article aims to analyze Kriemhild's ambivalence, investigating how her representation challenges gender norms, reflecting tensions between heroic traditions and the female condition in medieval literature. Literary analysis, through qualitative research, was used as a methodology, allowing for an investigation of the textual, contextual, and symbolic nuances that shape the character's identity and her trajectory within the literary narrative. Kriemhild stands out as an ambivalent figure who navigates between love, mourning, and revenge. Her journey reflects the complexities of the female experience and the social tensions of the time, making her an iconic character in medieval literature and relevant to issues of gender and power. Thus, the analysis of Kriemhild's ambivalent figure in Das Nibelungenlied reveals how her quest for vengeance challenges the gender norms of medieval literature, highlighting the complexities of the female condition. In this way, Kriemhild emerges not only as a tragic heroine but also as an icon that reflects the tensions between love, mourning, and power in medieval literature.
Keywords: Song of the Nibelungs; Kriemhild; ambivalence; literature.

1. INTRODUÇÃO

A Canção dos Nibelungos (Das Nibelungenlied), indubitavelmente, se destaca como uma das obras mais significativas da literatura, ao unir a confluência do amor cortês a pelo menos dois eventos de natureza heroica: a morte de Siegfried, perpetrada pelos burgúndios, e o extermínio destes últimos, orquestrado pelos hunos. O autor, ao conceber este poema, fundamenta-se em duas narrativas preexistentes, inserindo-se na tradição épica e sendo fortemente influenciado pelo romance cortês. Tal narrativa narra as vicissitudes vivenciadas por Kriemhild, princesa dos burgúndios e, posteriormente, rainha dos hunos.

A Canção dos Nibelungos é amplamente reconhecida, tendo sido disseminada oralmente entre povos na Alta Idade Média, com variações que refletem discrepâncias culturais e religiosas de cada região. A historicidade dos personagens é de relevância secundária para sua análise, uma vez que, ao serem transmitidas oralmente, as narrativas sofreram metamorfoses em consonância com as particularidades regionais, especialmente na Europa do século XII e no paganismo que permeia a Islândia do século XIII, a qual foi cristianizada de forma tardia (Frazão, 2020).

Durante a Alta Idade Média, a Europa ocidental se configurava como um espaço cristão que se opôs vigorosamente aos vestígios pagãos da época. O processo de cristianização, prolongado e repleto de violência, afetou todos os povos europeus (Langer, 2020). A educação e a escrita estavam sob a égide da Igreja, o que explica a presença de traços corteses em personagens como Átila, o huno, conhecido como Etzel em “A Canção dos Nibelungos”. Apesar de imbuído de ideais pagãos, Etzel se distanciava consideravelmente da representação fidedigna de seu povo. Em contrapartida, a Islândia experimentou uma colonização singular, sendo cristianizada de maneira pacífica e tardia, mantendo, mesmo sob a influência do cristianismo, um interesse pela investigação do paganismo, que não queria sucumbir ao esquecimento.

Embora as obras do período medieval frequentemente relegassem as mulheres a uma posição de inferioridade em relação aos homens, neste poema ocorre uma inversão dessa lógica. As mulheres emergem como arquitetas dos feitos que se desenrolam por meio da manipulação do poder. Porém, apesar da importância crucial que as mulheres desempenham em “A Canção dos Nibelungos”, sua presença foi progressivamente marginalizada em função da recepção pública do período medieval. À medida que a obra se consolidava como um épico nacional, um destaque desproporcional foi conferido às personagens masculinas, em conformidade com os padrões impostos pela ideologia da Idade Média.

Kriemhild, considerada uma personagem à frente de seu tempo, orquestra, por meio de sentimentos ambivalentes, estratégias que a assemelham a um guerreiro. Ela manipula pessoas e ordena assassinatos, inclusive o de seu próprio filho com Etzel, também conhecido como Átila, o huno. Nota-se a predominância da ambivalência na personagem, uma vez que este conceito se refere à coexistência de sentimentos ou ideias opostas em relação a uma mesma entidade, situação ou indivíduo (Costa, 2016). No contexto da literatura, e especificamente em relação à personagem Kriemhild em “A Canção dos Nibelungos”, a ambivalência se manifesta de diversas formas, especialmente em sua personalidade e nas suas ações.

Kriemhild é uma figura complexa que transita entre amor, luto e vingança. Inicialmente, ela se apresenta como uma mulher apaixonada e devotada a Siegfried, o herói da narrativa. No entanto, a morte dele, causada pelos burgúndios, a transforma profundamente. Essa tragédia gera um luto que não apenas a consome, mas também a motiva a buscar vingança, evidenciando sua dualidade emocional. Por um lado, ela é a figura da mulher amorosa e fiel; por outro, ela se transforma em uma manipuladora implacável, disposta a sacrificar tudo e todos em nome de sua sede de vingança.

Essa ambivalência é fundamental para a construção de Kriemhild como protagonista, pois reflete as tensões entre os papéis tradicionais de gênero da época e as expectativas sociais. Enquanto a sociedade medieval frequentemente relega as mulheres a posições subordinadas e passivas, Kriemhild desafia essa norma ao assumir um papel ativo e controlador em seu destino. Sua capacidade de manipular eventos e pessoas, incluindo a orquestração de assassinatos, a posiciona como uma figura poderosa, embora sua busca por vingança a conduza a um destino trágico.

Kriemhild se destaca como uma das raras, se não a única, personagens femininas a empunhar uma espada e a matar um homem em uma epopeia heroica medieval, o que a torna uma figura singular na literatura da época. Em um contexto literário tipicamente dominado por heróis masculinos, a ação de Kriemhild ao assassinar seu pior inimigo, utilizando suas próprias mãos, não apenas desafia as normas de gênero vigentes, mas também redefine o papel da mulher na narrativa épica. Sua capacidade de se engajar fisicamente em um ato de violência extrema, que historicamente foi reservado aos homens, exemplifica uma quebra de paradigma e a complexidade de sua ambivalência. Ela é ao mesmo tempo uma mulher motivada pelo amor e pelo luto, e uma guerreira implacável em busca de vingança. Essa dualidade a posiciona como uma figura poderosa e, ao mesmo tempo, trágica, ressaltando as tensões entre o ideal feminino da época e as suas ações audaciosas que desafiam as convenções sociais.

Essa ambivalência não apenas enriquece a narrativa, mas também provoca reflexões sobre a condição feminina e as limitações impostas pela sociedade da época. Kriemhild, ao buscar tanto a realização de seus desejos pessoais quanto à conformidade com as expectativas sociais, exemplifica a luta interna que enfrenta ao tentar equilibrar suas ambições e emoções em um mundo que não lhe oferece espaço para tal. Assim, a figura de Kriemhild se torna um símbolo das complexidades da experiência feminina, revelando a tensão entre amor e poder, vulnerabilidade e força. Essa personagem transcendeu as barreiras impostas às figuras femininas na literatura da época, apenas para, ao final, sucumbir por ser uma mulher.

Desse modo, o presente artigo busca analisar a ambivalência da figura de Kriemhild no poema épico “A Canção dos Nibelungos”, explorando como sua representação desafia as normas de gênero da época, sua evolução emocional e estratégica ao longo da narrativa, e a complexidade de seu papel como protagonista, que transita entre amor, luto e vingança, refletindo as tensões entre as tradições heroicas e a condição feminina na literatura medieval.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Nibelungos, Burgúndios e Hunos: A História das Personagens em “A Canção dos Nibelungos”

A Canção dos Nibelungos começa com a apresentação da corte dos Burgúndios, onde reside a bela princesa Kriemhild, junto a seus três irmãos: Gunther, rei dos burgúndios, Gernot e Giselher. Kriemhild, conhecida na mitologia germânica pelo nome de Gudrun, é uma das personagens centrais da obra e está intimamente associada ao conceito de vingança.

Gunther, irmão de Kriemhild, decide casar-se, pois ainda não possui esposa, e escolhe Brünhild, a rainha da Islândia, uma mulher de beleza ímpar e força sobre-humana. Aconselhado por seus fiéis, Gunther é advertido de que conquistar Brünhild não será tarefa fácil, mas sua determinação não se abala. Brünhild desafia todos os pretendentes a cumprir três provas de força, e aqueles que tentaram vencê-la até então perderam suas vidas. Diante da impossibilidade de derrotá-la, Gunther pede ajuda a Siegfried, que concorda em auxiliá-lo em troca da mão de Kriemhild.

Siegfried, o herói da narrativa, apaixona-se por Kriemhild, mas, para ter seu matrimônio, precisa conquistar Brünhild, permitindo que Gunther se case com ela. Siegfried se disfarçou de Günther para conquistar Brünhild em um plano elaborado que envolvia astúcia e magia. Após prometer ajudar Günther a ganhar o amor da rainha guerreira Brünhild, Siegfried usa um manto de invisibilidade que havia obtido ao derrotar um dragão. Quando Günther se apresenta a Brünhild, Siegfried, invisível, o auxilia em um desafio físico, lutando secretamente em seu lugar. Ele derrota Brünhild, que, impressionada pela força de seu “pretendente”, acaba se apaixonando por Günther, sem saber que Siegfried está por trás de toda a manobra. Para assegurar que Brünhild se entregasse a Günther, Siegfried a engana, fazendo-a acreditar que ele era o verdadeiro conquistador, enquanto na verdade ele é quem estava controlando a situação. Essa estratégia culmina no casamento de Brünhild com Günther, mas a verdade sobre o disfarce e a manipulação de Siegfried se tornará uma fonte de conflito e ciúmes posteriormente na história.

Após Siegfried realizar inúmeras proezas para conquistar Brünhild, ele finalmente consegue se casar com Kriemhild. O casamento de Siegfried e Kriemhild intriga Brünhild, que não entende por que uma princesa se casaria com um vassalo. Gunther, temendo que a verdade sobre a conquista de Brünhild seja revelada, não consegue explicar a situação. Diante das recusas de Gunther, Brünhild se recusa a consumar o matrimônio e, em um ato de desespero, o prende com uma corda e o pendura em um gancho. No dia seguinte, Gunther, desesperado, pede novamente ajuda a Siegfried, que decide ajudá-lo utilizando sua capa mágica. Na segunda noite, Siegfried entra nos aposentos de Brünhild, invisível, e, após uma árdua luta, consegue subjugá-la. Depois de vencer, toma dela seu anel e cinturão, permitindo que Gunther consuma seu casamento. Ao perder a virgindade, Brünhild imediatamente perde sua força sobre-humana.

Siegfried e Kriemhild vivem felizes por dez anos, período em que têm um filho e lhe dão o nome de Gunther, em homenagem ao tio. Enquanto isso, no reino de Worms, Brünhild continua intrigada pelo casamento de sua cunhada e consegue que Gunther convide Siegfried e Kriemhild a visitarem Worms. A tensão entre as duas rainhas aumenta quando Kriemhild e Brünhild decidem entrar na Catedral de Worms. Brünhild acredita que deve entrar primeiro, mas Kriemhild defende que ambas precisam entrar juntas, representando sua igualdade social. Durante a discussão, Kriemhild revela a verdade sobre como Siegfried subjugou Brünhild na noite de núpcias, mostrando-lhe o anel e o cinto que foram tomados, chamando-a de “concubina” do herói.

Embora Kriemhild se arrependa de ter ofendido Brünhild, a rainha está profundamente enfurecida. Hagen, o guerreiro de Gunther, decide vingar Brünhild, orquestrando a morte de Siegfried. Hagen von Tronje, o astuto conselheiro de Gunther, desempenha um papel crucial nessa trama, manipulando a situação em favor de Brünhild e levando Gunther a consentir na morte de Siegfried. Sua presença é constante ao longo do poema, sendo responsável por muitas tragédias que se desenrolam.

A morte de Siegfried é um dos momentos mais trágicos e impactantes da “Canção dos Nibelungos”, marcando o clímax da narrativa e o desfecho de sua história heroica. Traído por Hagen, que busca vingar a humilhação de Brünhild e eliminar Siegfried como uma ameaça, o herói é atacado de forma astuta e traiçoeira. Durante uma caçada, Hagen aproveita-se da vulnerabilidade de Siegfried, que foi marcada por um ponto fraco nas costas, resultado de uma ferida que nunca cicatrizou completamente. A traição de Hagen, que se disfarça de amigo, resulta em um ataque inesperado, levando Siegfried a uma morte brutal e súbita. Este evento não apenas subverte a imagem do herói invencível, mas também desencadeia uma série de consequências trágicas, incluindo a devastação emocional de Kriemhild, que se torna um símbolo de luto e vingança.

Após a morte do herói, Kriemhild jura vingar-se dos assassinos de seu marido, culpando principalmente Hagen. O rei Sigmund e os guerreiros de sua corte desejam retaliar contra os burgúndios, mas Kriemhild os convence de que essa ação seria suicídio. Assim, os guerreiros retornam a Xanten, enquanto Kriemhild decide permanecer.

Durante seu luto, Kriemhild usa o tesouro dos Nibelungos para angariar aliados para sua vingança. Hagen, percebendo suas intenções, rouba o tesouro e o joga no Reno. A partir desse momento, os burgúndios começam a ser referidos como Nibelungos. Kriemhild jura vingar-se pela morte de Siegfried e pelo roubo de seu tesouro, passando treze anos em grande lamentação, mas arquitetando meios para alcançar sua vingança, que se efetiva quando conhece Etzel.

Etzel, o Huno, é o rei que se casa com Kriemhild após a morte de Siegfried. Ao se unir a Kriemhild, Etzel se torna um instrumento involuntário em sua busca de vingança. Passa-se uma década e Kriemhild dá à luz um filho. Usando isso como desculpa, convida seus parentes para visitarem o reino de Etzel. Embora Hagen desconfie e relute em ir, ele acaba sendo convencido por Gunther. Ao chegarem ao país dos hunos, são recebidos calorosamente, mas a tensão cresce quando Kriemhild acusa todos os presentes pelos crimes cometidos. Hagen admite suas ações sem se sentir arrependido, culpando Kriemhild pelos problemas vividos até então.

Logo, os hunos e os Nibelungos (burgúndios) entram em conflito fora do salão. Hagen, ao saber sobre os combates, decapita o filho de Etzel e Kriemhild diante de seus pais. Isso provoca uma luta caótica em que os Nibelungos assumem o controle do salão. Kriemhild oferece poupar a vida de seus parentes em troca de Hagen, mas a proposta é recusada. O salão é então incendiado com os Nibelungos dentro. Morrem todos, exceto Hagen e Gunther, que são mantidos prisioneiros.

Kriemhild exige que Hagen revele o paradeiro do tesouro escondido dos Nibelungos que foi tomado dela. Diante de sua negativa, ela ordena a decapitação de Gunther. Erguendo a cabeça do irmão, Kriemhild pergunta novamente onde está o tesouro, mas, frente à arrogância de Hagen, empunha a espada de Siegfried (Balmung, roubada por ele e trazida à corte de Etzel) e corta-lhe a cabeça. Os sobreviventes, Etzel, Dietrich e Hildebrand, horrorizam-se ao ver que o herói Hagen foi morto por uma mulher e decidem que ela deve pagar por seu crime. Hildebrand, então, mata Kriemhild, decapitando-a. A Canção dos Nibelungos termina com o lamento de Etzel, Dietrich e Hildebrand pela morte de tantos heróis.

2.2. O Amor Cortês Existente nas Personagens de “A Canção dos Nibelungos”

O amor cortês, um conceito medieval europeu que surgiu nas cortes ducais da França no final do século XI, envolve atitudes e mitos que exaltam o amor. Caracterizado por uma experiência contraditória, esse amor é simultaneamente ilícito e moralmente elevado, passional e autocontrolado. A mulher, muitas vezes inatingível, torna-se um símbolo de lealdade e vassalagem, o que confere ao amor cortês uma dimensão pedagógica, estabelecendo limites ao cortejo masculino (Duby, 2011).

No romance cortês, relações paradoxais são evidentes, como a intersecção entre amor e morte, além do confronto entre o casamento socialmente aceitável e o amor verdadeiro, que frequentemente resulta em tragédias. Bakhtin (1986) aponta que o romance cortês é orientado por situações inacabadas e problemáticas, em que as aventuras da personagem são centrais, mas nem sempre a morte do herói é o clímax da história. Ao contrário de mortes gloriosas em batalha, as mortes no amor cortês são motivadas por ações relacionadas à paixão pela donzela, e o papel da mulher é muitas vezes subordinado, servindo como um apoio ao cavaleiro (Greenfield, 2000).

Em A Canção dos Nibelungos, os traços do amor cortês são evidentes na relação entre Siegfried e Kriemhild, em que ela é quase inatingível, exigindo que ele prove seu valor, mesmo humilhando-se. A paixão de Siegfried por Kriemhild culmina em sua morte, que se torna o catalisador da vingança dela, revelando a dinâmica típica das canções de amor.

Por outro lado, a canção também exemplifica a epopeia heroica, conforme descrito por George Lukács, que enfatiza que o herói da epopeia representa uma comunidade, não um indivíduo (2000). A epopeia, ao invés de focar em eventos históricos específicos, centra-se no destino de figuras heroicas e na tragédia coletiva, como a queda dos burgúndios, retratada especialmente como a vingança de uma rainha.

Além disso, a estrutura ética da epopeia é predominantemente masculina, com as mulheres frequentemente relegadas a objetos de desejo, cuja função é impulsionar a ação da narrativa. A sociedade da canção é dominada por figuras masculinas, nas quais o homem luta por honra e poder em vez de buscar o amor feminino (Greenfield, 2000). Assim, em “A Canção dos Nibelungos”, observa-se que a luta entre heróis masculinos se entrelaça com conceitos históricos, como a destruição de Worms, refletindo a dinâmica de poder e as tensões sociais do período.

O amor cortês é um tema central na “Canção dos Nibelungos”, refletindo as complexas relações entre os personagens e as normas sociais da época medieval. Esse amor é frequentemente idealizado, caracterizado por um profundo respeito e devoção, mas também é marcado por conflitos e desilusões. A relação entre Siegfried e Kriemhild exemplifica esse amor ideal, em que a paixão é acompanhada por um forte laço emocional e um desejo de proteção mútua. No entanto, a influência de Brünhild e as manipulações de Hagen introduzem uma dinâmica de rivalidade e traição que desafia a pureza desse amor cortês, revelando as tensões entre o ideal romântico e a realidade brutal das relações humanas.

Brünhild, por sua vez, é uma representação poderosa do amor cortês, que se expressa por meio de sua força e independência. Sua relação com Siegfried, ainda que inicialmente baseada em um engano, é marcada por um profundo afeto, demonstrando que o amor pode transcender as barreiras de poder e orgulho. No entanto, a sua rejeição e ciúmes após o casamento de Siegfried com Kriemhild trazem à tona o lado sombrio do amor cortês, em que a possessividade e a competição pelo afeto masculino se tornam catalisadores de tragédias. Esse contraste entre amor idealizado e as falhas humanas se torna um ponto focal na narrativa, sublinhando a fragilidade das relações construídas sobre promessas e expectativas.

Além disso, o amor cortês na obra também se entrelaça com temas de lealdade e honra, essenciais para a cultura medieval. A devoção de Kriemhild a Siegfried, mesmo após sua morte, exemplifica uma forma de amor que desafia o tempo e a adversidade, levando-a a buscar vingança contra aqueles que causaram sua dor. Essa busca, embora motivada pelo amor, transforma-se em um ciclo de violência que questiona a validade do amor cortês em um mundo repleto de traição e conflito. Assim, a “Canção dos Nibelungos” não apenas explora a beleza do amor cortês, mas também suas consequências dolorosas, revelando a complexidade das relações humanas em um contexto de honra, poder e tragédia.

2.3. A Dualidade de Kriemhild: A Guerreira à Frente de Seu Tempo

Em “Das Nibelungenlied” (A Canção dos Nibelungos, em português), Kriemhild é apresentada como a mulher mais bela do Rio Reno, uma beleza que a transforma em uma figura de poder e influência. Sua aparência não apenas desperta o interesse dos homens ao seu redor, mas também garante favores e fortalece a posição de sua família. Kriemhild exemplifica como a beleza feminina está ligada ao poder; sem ela, os valentes guerreiros não lutariam pelos Burgúndios, pois muitos dos que serviram a Gunther, seu irmão, tinham como principal objetivo conquistar a chance de admirar sua beleza, realizando feitos para agradar a quem a subjugava.

Essas dinâmicas refletem o sistema de servidão da Idade Média, em que o vassalo dependia do suserano para obter posses. Na sociedade feudal, o casamento visava aumentar a glória e a riqueza de uma casa, sendo tratado de forma pragmática pelos mais velhos das linhagens envolvidas (Junqueira, 2017). Kriemhild, com sua alta linhagem e beleza, torna-se a esposa ideal, fiel até a morte. No entanto, sua entrega em matrimônio ocorre sem seu consentimento, caracterizando uma troca de favores entre Gunther e Siegfried, em que ambos buscam benefícios mútuos.

As ações de Kriemhild e Siegfried condensam elementos do amor cortês: o herói devotado, a dama idealizada e o marido ciumento que denuncia a paixão clandestina. A beleza de Kriemhild a mantém reclusa, assegurando sua pureza e elevando sua posição social, até que Siegfried, o mais bravo dos cavaleiros, conquista o direito de vê-la. Seguindo os padrões do amor cortês, sua beleza está ligada à nobreza, e Siegfried, ao ouvir relatos sobre ela, se torna apaixonado antes mesmo de conhecê-la, realizando diversos feitos em favor de Gunther para conquistar sua mão.

O casamento entre Siegfried e Kriemhild, embora intriga Brünhild, é tratado como um negócio estratégico. Gunther, ao convidar Siegfried para ajudá-lo a conquistar Brünhild, ignora os sentimentos de sua irmã. Quando Kriemhild revela a verdade sobre a conquista de Brünhild, isso provoca a ira da rainha e resulta na morte de Siegfried, desencadeando um longo luto que transforma Kriemhild em uma figura em busca de vingança.

Após treze anos de luto pela morte de Siegfried, Kriemhild se casa com Etzel, o rei dos hunos, buscando uma oportunidade para vingar a morte de seu marido. Esse casamento, motivado por objetivos de vingança e poder, não é baseado no amor, mas na necessidade de Kriemhild de se posicionar para alcançar seus objetivos. A maternidade, embora presente, assume pouco destaque na narrativa, com seu filho Ortlieb se tornando uma peça-chave em seus planos de vingança.

Kriemhild vive um luto profundo pela morte de Siegfried, transicionando de uma figura de amor cortês para uma Vâlandinne, ou “Mulher Demoníaca”. Diferente de Brünhild, que comanda em batalha, Kriemhild é a única que empunha uma espada e comete um ato hediondo ao matar Hagen, responsável pela morte de seu amado. Sua transformação em uma figura vingativa culmina em sua própria morte, mas não antes de alcançar sua tão desejada vingança.

É relevante notar que, ao longo da canção, apenas Kriemhild realmente assume uma postura de batalha, empunhando uma espada e cometendo um crime hediondo. Embora Brünhild seja uma guerreira, em nenhum momento ela levanta uma espada com a seriedade com que Kriemhild decapita Hagen. Brünhild pode ter ordenado a morte de vários homens, mas isso é mencionado brevemente na narrativa, enquanto Kriemhild assume o controle e a responsabilidade pela morte de muitos guerreiros.

Kriemhild é apresentada no ápice da canção como uma figura que, em sua sede de vingança, mata um bravo guerreiro com suas próprias mãos. Essa ação, embora brutal, é marcada pela transformação de Kriemhild em um demônio que busca destruir todos os que lhe fizeram mal, com sua própria destruição se tornando a única solução. Essa é a afirmação que Kriemhild faz logo no início da canção, ao afirmar que muitas mulheres já provaram do gosto amargo do amor, que termina em sofrimento. Ao final da história, Kriemhild finalmente consegue a vingança contra aqueles que mataram seu amado, mas isso a leva à morte brutal, refletindo que, ao alcançar seu objetivo, ela também perde seu propósito na vida e, assim, pode finalmente morrer.

Em “A Canção dos Nibelungos”, a responsabilidade recai unicamente sobre Kriemhild, a viúva, que demonstra sua força e dedicação ao amor de Siegfried. Sua busca por vingança foge dos padrões femininos da época, em que as mulheres eram vistas como submissas aos homens. Segundo o medievalista Georges Duby (1979), o papel da mulher na Idade Média era de submissão, e Kriemhild, em sua sede de vingança, se destaca como uma figura incomum.

A personagem Kriemhild não hesita em sacrificar vidas em sua busca por vingança, desafiando os padrões sociais da mulher medieval, que era vista como propriedade dos pais e, posteriormente, do marido. Kriemhild, ao assumir essa postura independente, desencadeia uma série de massacres, resultando na morte de muitos, incluindo seus aliados. A morte de Hagen, que é um assassinato brutal, marca o ápice de sua sede de vingança, pois ele não é morto por um homem, mas por uma mulher, o que representa um ato inaceitável para a época.

3. METODOLOGIA

Esta pesquisa, de cunho bibliográfico, em caráter qualitativo, seguindo os preceitos de Gil (2010), buscou trazer considerações sobre a ambivalência da personagem Kriemhild no poema épico alemão Das Nibelungenlied, interpretando o que foi coletado. O percurso metodológico delineado foi a pesquisa literária, utilizando a coleta de documentos como técnica principal de obtenção de dados e, por sua vez, a Análise de Conteúdo (Bardin, 2016) como estratégia para interpretar todas as informações coletadas.

Cuidadosamente elaborada, a estrutura metodológica buscou investigar rigorosamente o poema épico, sistematizando suas interpretações às conceituações do poema épico e amor cortês, para uma contribuição aos avanços do conhecimento na área da literatura épica, por meio de reflexões sobre a temática estudada, apontando uma análise acerca da realidade literária do poema épico, ou seja, trabalhando com o universo de todos os seus significados, crenças, valores e atitudes, aprofundando-se nas relações, nos processos e nos fenômenos da literatura épica.

A análise de dados foi realizada por meio da Análise de Conteúdo, desenvolvida por Bardin (2016), que envolve três etapas principais: a pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados, além da inferência e da interpretação. A partir desta concepção, descrevem-se os instrumentos de coleta de dados, referentes ao lócus em que a pesquisa será desenvolvida.

Foram utilizados critérios de inclusão e exclusão, fundamentais para o desenvolvimento e discussão da proposta da pesquisa, analisando, especialmente, o desenrolar da ambivalência de Kriemhild, por meio de uma análise literária interposta no amor cortês e poema épico. Buscando a garantia de que todas as informações coletadas fossem criteriosas, a pesquisa focou em artigos encontrados nas bases de dados Google Acadêmico, SciELO (Scientific Electronic Library Online) e Periódico Capes que fossem gratuitos, permitindo, com isso, um acesso sem custo. Por sua vez, procurou-se trabalhos disponíveis em português, alemão e inglês, com abrangência à diversidade e todas as perspectivas linguísticas. Por sua vez, foram excluídos os artigos que necessitem de pagamento para seu acesso ou ainda de uma assinatura para seu alcance, assim como aqueles que não estavam escritos nos idiomas selecionados para a pesquisa.

Foram adotados os aspectos éticos de pesquisas bibliográficas, garantindo a integralidade e credibilidade do estudo, respeitando os direitos autorais e as normas para as citações, assegurando que todas as fontes fossem usadas de forma correta, creditando todos os autores citados e, com isso, garantindo a valorização de trabalhos autorais que serviram de base para a construção dessa pesquisa.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A ambivalência refere-se à presença simultânea do “sim” e do “não”, ou seja, à coexistência de sentimentos positivos e negativos em relação a estados de espírito, ambições, atitudes e conhecimentos (Bauman, 1999). Esse estado de ter sentimentos conflitantes em relação a uma pessoa ou coisa é comum em situações de conflito (Belo, 2005). O termo “ambivalente” descreve frequentemente a falta de sentimentos diante de questões ou circunstâncias, embora a palavra mais adequada em muitos contextos seja “indiferente”. O prefixo “ambi” significa “ambos”, o que implica que a ambivalência envolve sentimentos de lados opostos em relação a uma mesma questão (Bareket, 2023).

A ambivalência da personagem Kriemhild em “A Canção dos Nibelungos” é um aspecto essencial para compreender sua complexidade e a dinâmica de sua trajetória no contexto da literatura medieval. A ambivalência, definida como a coexistência de sentimentos opostos, reflete a luta interna de Kriemhild entre amor e ódio, vida e morte, e suas emoções em relação a Siegfried, seu marido, e aos seus assassinos. Essa dualidade não apenas molda sua identidade, mas também a posiciona como uma figura emblemática que desafia as normas de gênero e os padrões sociais da Idade Média.

Kriemhild, em sua busca por vingança, exemplifica a complexidade emocional do ser humano, em que a dor e a perda podem distorcer até os laços mais sagrados. Sua transformação de uma mulher amorosa e pacífica em uma figura implacável e sedenta de sangue é emblemática da luta interna entre sua natureza gentil e a ferocidade provocada pelo luto. A morte de Siegfried não apenas desencadeia sua necessidade de retribuição, mas também a leva a se alienar dos valores que antes a definiram.

Ao sacrificar Ortlieb, seu filho, Kriemhild não apenas rompe com a maternidade, mas também com sua própria identidade, tornando-se uma sombra da mulher que era. Essa ação, trágica e devastadora, serve como um clímax de sua ambivalência, em que a linha entre amor e ódio se torna indistinta. Sua decisão reflete uma entrega total à vingança, levando a consequências que ecoam não só na sua vida, mas também nos destinos de todos ao seu redor. A dualidade de Kriemhild, portanto, se revela como uma força motriz que não apenas a consome, mas também desencadeia uma série de eventos trágicos que culminam em sua própria destruição.

Kriemhild, como figura central da narrativa, desafia os padrões de submissão feminina que eram predominantes na sociedade medieval, conforme analisado pelo medievalista Georges Duby em 1976. Ele destaca como as mulheres eram frequentemente controladas pelos chefes de família, que impunham seus interesses e objetivos sobre elas. Kriemhild, em sua trajetória, exemplifica essa dinâmica ao ser utilizada como um instrumento político, primeiro ao ser instrumentalizada para manter Siegfried em Worms, e depois ao ter seu tesouro dos Nibelungos usurpado, o que a impediu de buscar sua vingança.

Entretanto, a transformação de Kriemhild em uma mulher que busca vingança a coloca em um papel inovador para sua época. Ela emprega sua astúcia e manipulação para influenciar homens e orquestrar sua própria forma de justiça, desafiando a ordem patriarcal que a restringia. Sua determinação em eliminar aqueles que assassinaram seu marido a torna uma figura poderosa e complexa, que transcende as expectativas de seu tempo e a efetiva perante as nuances da ambivalência. Formiga (2006) considera essas atitudes como uma valorativa para eficácia da manutenção ao desenvolvimento de preconceitos com o feminino, por meio de uma consistência para a correlação entre os valores humanos e o sexismo ambivalente presente na sociedade.

A busca implacável por vingança não só molda sua identidade, como também a aproxima de um destino trágico. Sua ação fulminante, que resulta na morte de Hagen von Tronje, representa um momento de triunfo, mas também um ponto de virada que a leva a um final humilhante. Essa dualidade em seu caráter revela como a busca por poder e justiça pode se transformar em autodestruição. Isso mostra as consequências devastadoras de uma vida marcada pelo ódio e pela vingança, mesmo quando essa busca é motivada por um amor profundo e perdido (Torres, 2018).

A morte de Siegfried serve como catalisador para a ambivalência de Kriemhild, que, ao mesmo tempo em que se vê consumida pelo luto, também se transforma em uma figura em busca de vingança. A dor pela perda de seu amado é profunda, mas, paradoxalmente, essa dor a impulsiona a agir com determinação e ferocidade. A ambivalência é evidente quando Kriemhild manifesta sua devoção a Siegfried, enquanto nutre um desejo intenso de justiça que a leva a responsabilizar Gunther e Hagen pela morte dele. Essa transição de uma mulher em luto para uma vingadora implacável ilustra a complexidade dos sentimentos que a caracterizam.

Os habitantes do reino de Etzel reconhecem que Hagen deveria ser punido por seus crimes, mas sua execução às mãos de Kriemhild é considerada excessivamente humilhante. A morte de Hagen, amarrado e atacado por uma mulher, desafia os padrões da cavalaria medieval.

A morte de Hagen, amarrado e atacado por Kriemhild, desafia os padrões da cavalaria medieval, que valorizava a honra, a bravura e a luta justa entre cavaleiros (Ariés, 1981). Na sociedade medieval, as normas de conduta cavalheiresca impunham um código que exaltava a masculinidade, a força física e a habilidade em combate (Bock, 1992). Os cavaleiros eram esperados a respeitar tradições de combate leal, em que a força e a coragem eram testadas em duelos entre iguais (Duby, 1990).

O fato de Kriemhild, uma mulher, não apenas confrontar Hagen, mas também dominá-lo em um momento de vulnerabilidade, subverte essas normas. Sua ação não se limita a uma simples vingança; ela se torna uma representação da quebra de tabus, mostrando que a busca por justiça pode transcender os limites de gênero e poder. Kriemhild, ao tomar a iniciativa e agir contra um homem que representa tanto a violência quanto a traição, redefine o papel da mulher na narrativa.

Além disso, a forma como ela executa sua vingança, utilizando não apenas a força, mas também a astúcia e a manipulação, reflete uma abordagem não convencional em um mundo em que a força bruta era frequentemente a única forma de resolver conflitos (Barros, 2011). Essa cena, portanto, não apenas destaca a ambivalência de Kriemhild, mas também provoca uma reflexão sobre as normas da cavalaria medieval. Ela questiona o que realmente significa ser honroso e poderoso em um contexto em que os sentimentos, como amor e vingança, têm um papel tão central na motivação das ações dos personagens.

A gravidade dessa punição leva Hildebrand, que lutava ao lado de Kriemhild, a utilizar sua própria espada para vingar a morte de Hagen, resultando na morte da rainha. Para a cavalaria, aceitar que uma mulher matasse um homem é uma humilhação intolerável, e a morte de Kriemhild se torna inevitável.

Kriemhild exemplifica a ambivalência por meio de sua relação conflituosa com o amor e a vingança. Seu amor por Siegfried é inabalável, mas a dor de sua perda se transforma em uma obsessão por vingança que eclipsa o amor. Essa mudança emocional reflete uma cisão interna que a impede de encontrar paz, resultando em um comportamento que desafia as convenções femininas da época. A ambivalência de Kriemhild, portanto, não é apenas uma característica de sua personalidade, mas um reflexo das tensões sociais e emocionais que permeiam sua vida, destacando a luta entre a fragilidade do ser humano e a força do desejo de justiça.

Kriemhild é uma personagem que desafia as normas de seu tempo, especialmente na segunda parte da canção, ao assumir a responsabilidade de vingar-se, um papel que tradicionalmente seria atribuído aos homens. Sua trajetória culmina em sua própria morte, uma consequência de suas ações fora dos padrões femininos, refletindo a luta entre o desejo de vingança e os estigmas de fraqueza associados ao gênero. Ela não é uma mulher comum, mas sua emancipação vem a um custo elevado, pois precisa enfrentar a punição pela humilhação que causou a um homem. Sua determinação em buscar vingança por Siegfried leva-a a adotar uma postura ativa, desafiando as expectativas de gênero. Kriemhild não se comporta como uma típica viúva que se lamenta, mas sim como uma mulher que utiliza sua dor como combustível para suas ações. Essa ambivalência entre a dor e a ação enfatiza a complexidade da condição feminina na Idade Média, em que a submissão e a resistência coexistem.

Ao longo dos 26 anos que se passam na segunda parte da canção, após a morte de Siegfried, Kriemhild se vê consumida pela vingança. Quando finalmente confronta Hagen, é surpreendente notar que ela não se lembra do marido, mas sim do tesouro que lhe foi roubado. Este tesouro, originalmente pertencente a Siegfried, simboliza o amado em segundo plano e sua restituição seria a vitória de Kriemhild sobre Hagen.

No contexto de sua ambivalência, Kriemhild se torna um símbolo da luta feminina por poder e autonomia. O papel de Kriemhild como uma mulher ambivalente é ainda mais acentuado pela sua relação com a masculinidade e o poder. Sua ascensão à posição de vingadora a coloca em conflito com os valores da cavalaria, que tradicionalmente relegavam as mulheres ao papel de donas de casa e mães. Em vez de se conformar com esse papel, Kriemhild desafia as normas sociais ao se colocar à frente de uma guerra, utilizando todos os recursos disponíveis para alcançar seus objetivos. Essa subversão das expectativas de gênero a torna uma figura poderosa, mas também vulnerável, pois a sociedade medieval não aceita facilmente mulheres que desafiem suas convenções.

A ambivalência de Kriemhild culmina em sua ação final, em que a execução de Hagen é um ato que simboliza tanto sua vingança quanto sua queda. Este momento é carregado de significado, pois, ao matar Hagen, ela não apenas vinga Siegfried, mas também se torna um agente de sua própria destruição (Duby, 1997). A morte de Hagen, perpetrada por uma mulher, desafia as normas de masculinidade e honra da época, revelando a tensão entre o que é considerado aceitável e o que é visto como uma transgressão. A ambivalência de Kriemhild, portanto, não só reflete suas emoções conflitantes, mas também questiona as estruturas sociais que definem o comportamento feminino.

A atitude de Kriemhild em “A Canção dos Nibelungos” serve como um microcosmo das complexidades da experiência feminina na Idade Média. Sua luta entre amor e vingança, dor e poder revela uma figura que transcende as limitações impostas pelo patriarcado. Kriemhild é uma personagem que exemplifica a dualidade da condição humana, em que a busca por justiça pode levar à autodestruição. Sua história é uma reflexão sobre o impacto das emoções humanas e as consequências de desafiar as normas sociais, fazendo dela uma das personagens mais intrigantes e complexas da literatura medieval.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Canção dos Nibelungos, hoje considerada um patrimônio da humanidade, é um dos maiores trabalhos produzidos na literatura germânica. Um fato curioso e notável, especialmente para a época em que o poema era transmitido oralmente e, posteriormente, compilado no século XII, é a presença da mulher como personagem principal. Enquanto, em obras de caráter cortês, a mulher é geralmente vista como um ideal a ser alcançado pelo trovador, e na épica sua participação é mínima, em “Das Nibelungenlied”, Kriemhild é representada como uma guerreira que altera o destino de um povo e se torna responsável por um massacre.

Kriemhild é uma figura singular que, ao amar, se torna vítima dos desejos egoístas de outros, mas não se resigna a sofrer em silêncio pela morte de seu marido, como muitas viúvas da época. Ao contrário, ela se levanta e busca uma vingança que, embora trágica, é motivada por um desejo profundo de justiça. Esse levante, inédito para uma mulher até então, a coloca em um patamar de emancipação que desafia a submissão feminina predominante na sociedade medieval. Kriemhild não depende de homens para alcançar seus objetivos; em vez disso, busca ativamente aqueles que a feriram, mostrando uma determinação e força que são notáveis para sua época.

A ambivalência da personagem Kriemhild em “A Canção dos Nibelungos” revela a complexidade de sua figura no contexto da literatura medieval. Kriemhild encarna a luta entre amor e vingança, simbolizando a dualidade das emoções humanas. Sua transformação de uma mulher em luto por Siegfried para uma vingadora implacável demonstra como a dor pode ser convertida em força. Essa ambivalência, que a faz oscilar entre a fragilidade do luto e a determinação da vingança, a torna uma personagem multifacetada que desafia as normas de gênero da época, em vez de se conformar ao papel passivo esperado das mulheres.

Além disso, Kriemhild a posiciona como um símbolo de emancipação feminina em uma sociedade feudal dominada por homens. Ao agir impulsivamente em busca de justiça, ela não apenas redefine seu papel dentro da narrativa, mas também desafia as expectativas sociais que limitavam as mulheres a posições subservientes. Sua capacidade de transitar entre sentimentos opostos, como amor, ódio e a busca por poder, ilustra a luta interna que muitas mulheres enfrentam em sua busca por identidade e autonomia. Essa dualidade não apenas enriquece sua caracterização, mas também serve como um comentário sobre as complexidades da condição feminina medieval.

A ambivalência de Kriemhild é um elemento central que não só define sua personalidade, mas também reflete as tensões sociais e emocionais da época. Sua trajetória, marcada por decisões extremas e consequências trágicas, desafia a visão tradicional da mulher como mera figura de sofrimento e submissão. Em vez disso, Kriemhild emerge como uma protagonista poderosa cuja busca por vingança e autonomia ressoa com questões contemporâneas sobre gênero e poder. Dessa forma, sua história continua a inspirar discussões sobre a emancipação feminina e a luta contra a opressão, consolidando Kriemhild como uma das personagens mais icônicas e relevantes da literatura medieval.

Futuras pesquisas sobre a personagem Kriemhild em “A Canção dos Nibelungos” podem explorar vertentes que ampliam a compreensão de sua ambivalência e impacto na literatura medieval. Além disso, estudos focados na recepção crítica de Kriemhild ao longo dos séculos, desde sua origem até as interpretações modernas, poderiam oferecer insights sobre a relevância contínua de sua figura na discussão de gênero e poder.

Portanto, uma análise interdisciplinar que envolvesse estudos de gênero, história e literatura poderia enriquecer ainda mais a compreensão da complexidade de Kriemhild, revelando as implicações sociais e culturais de sua ambivalência em um mundo em constante transformação.

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1 Licenciado em Letras: habilitação em Língua Alemã da Universidade Federal do Pará (UFPA), pós-graduado em Alfabetização de Jovens e Adultos para a Juventude pela Universidade Federal do Pará (UFPA). E-mail: [email protected].