REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779343935
RESUMO
A variação linguística constitui um fenômeno natural das línguas e está relacionada às diferenças culturais, sociais, regionais e históricas presentes nas formas de comunicação utilizadas pelos falantes. No contexto educacional, o ensino de Língua Portuguesa ainda enfrenta desafios relacionados à valorização da norma-padrão em detrimento das múltiplas variedades linguísticas existentes na sociedade, o que pode contribuir para práticas excludentes e preconceito linguístico no ambiente escolar. O presente estudo teve como objetivo analisar os desafios da variação linguística no ensino de Língua Portuguesa e discutir a importância de uma prática pedagógica inclusiva e respeitosa à diversidade linguística. Trata-se de uma revisão bibliográfica de abordagem qualitativa, realizada por meio de pesquisas em bases de dados científicas como SciELO, Google Acadêmico, Portal CAPES e periódicos indexados, considerando publicações dos últimos dez anos relacionadas ao tema. Os resultados evidenciaram que muitos estudantes sofrem discriminação linguística devido às variedades regionais e sociais presentes em sua fala, fator que interfere na aprendizagem, na participação escolar e na construção da identidade cultural. Observou-se ainda que práticas pedagógicas inclusivas, fundamentadas no reconhecimento da diversidade linguística e no combate ao preconceito linguístico, favorecem maior participação dos estudantes, fortalecimento da autoestima e desenvolvimento das competências comunicativas. Conclui-se que o ensino de Língua Portuguesa deve valorizar a pluralidade linguística como elemento cultural e social, promovendo educação mais democrática, inclusiva e comprometida com a formação crítica dos estudantes.
Palavras-chave: Variação Linguística; Ensino de Língua Portuguesa; Preconceito Linguístico; Educação Inclusiva.
ABSTRACT
Linguistic variation is a natural phenomenon of languages and is related to the cultural, social, regional, and historical differences present in the forms of communication used by speakers. In the educational context, the teaching of Portuguese still faces challenges related to the valorization of the standard norm to the detriment of the multiple linguistic varieties existing in society, which can contribute to exclusionary practices and linguistic prejudice in the school environment. This study aimed to analyze the challenges of linguistic variation in the teaching of Portuguese and to discuss the importance of an inclusive and respectful pedagogical practice towards linguistic diversity. This is a qualitative literature review, carried out through research in scientific databases such as SciELO, Google Scholar, CAPES Portal, and indexed journals, considering publications from the last ten years related to the topic. The results showed that many students suffer linguistic discrimination due to the regional and social varieties present in their speech, a factor that interferes with learning, school participation, and the construction of cultural identity. It was also observed that inclusive pedagogical practices, based on the recognition of linguistic diversity and the fight against linguistic prejudice, favor greater student participation, strengthen self-esteem, and develop communicative skills. It is concluded that the teaching of Portuguese should value linguistic plurality as a cultural and social element, promoting a more democratic and inclusive education committed to the critical formation of students.
Keywords: Linguistic Variation; Portuguese Language Teaching; Linguistic Prejudice; Inclusive Education.
1. INTRODUÇÃO
A língua portuguesa constitui-se como um fenômeno social, histórico e cultural em constante transformação, refletindo diretamente as experiências, identidades e contextos socioculturais dos indivíduos que a utilizam. Nesse sentido, a variação linguística apresenta-se como um elemento natural das línguas vivas, manifestando-se por meio das diferenças regionais, sociais, históricas e situacionais existentes na comunicação humana. No contexto educacional brasileiro, entretanto, o ensino de Língua Portuguesa ainda é frequentemente marcado por práticas tradicionais que privilegiam exclusivamente a norma-padrão, desconsiderando as múltiplas variedades linguísticas presentes no cotidiano dos estudantes (ATAÍDE; LIMA; ARAÚJO, 2023; GOMES, 2019).
A Sociolinguística, especialmente a partir das contribuições de William Labov e dos estudos contemporâneos sobre linguagem e sociedade, passou a demonstrar que não existem formas linguísticas superiores ou inferiores, mas variedades adequadas a diferentes contextos de interação social. Com base nessa perspectiva, o ensino de Língua Portuguesa deve reconhecer a diversidade linguística como um recurso pedagógico capaz de ampliar a participação discente e valorizar as identidades culturais dos estudantes.
Contudo, apesar dos avanços teóricos e das orientações presentes nos documentos oficiais, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ainda existem desafios significativos relacionados à formação docente, à abordagem dos livros didáticos e às práticas pedagógicas adotadas em sala de aula. Muitos professores encontram dificuldades em trabalhar a variação linguística de maneira reflexiva e crítica, mantendo metodologias centradas na correção gramatical normativa e no combate às variedades consideradas “não padrão”. Essa realidade evidencia a necessidade de repensar o ensino da língua materna sob uma perspectiva sociolinguística, capaz de promover o respeito à diversidade e combater práticas discriminatórias relacionadas ao uso da linguagem. (NONATO, 2024; CARDOSO; SEMECHECHEM, 2020; FRANÇA, 2019).
Além disso, as discussões acerca da variação linguística tornam-se ainda mais relevantes diante das transformações comunicacionais ocorridas na sociedade contemporânea, especialmente em decorrência das tecnologias digitais e das redes sociais, que ampliaram as possibilidades de interação e diversificaram ainda mais os usos da língua portuguesa.
Nesse cenário, os estudantes chegam à escola trazendo diferentes formas de expressão linguística influenciadas por fatores regionais, culturais e tecnológicos, o que exige da instituição escolar uma postura pedagógica mais flexível e contextualizada. A valorização das múltiplas formas de expressão linguística pode contribuir para a redução do preconceito linguístico, para o fortalecimento da identidade dos alunos e para a construção de práticas educativas mais inclusivas e significativas. Dessa forma, a escola assume um papel fundamental na formação de cidadãos conscientes da diversidade cultural e linguística presente na sociedade brasileira. (NASCIMENTO, 2021; MELO, 2019; SILVA, 2024).
Apesar dos avanços nos estudos sociolinguísticos e das orientações educacionais que defendem uma abordagem plural da língua portuguesa, ainda é possível observar práticas pedagógicas que reforçam a valorização exclusiva da norma-padrão e desconsideram a diversidade linguística presente no ambiente escolar. Diante desse contexto, surge a seguinte problemática: de que maneira a variação linguística pode ser trabalhada no ensino de Língua Portuguesa de forma a promover uma aprendizagem significativa, combater o preconceito linguístico e valorizar a diversidade sociocultural dos estudantes?
Este trabalho tem como objetivo geral analisar a importância da variação linguística no ensino de Língua Portuguesa, considerando suas contribuições para a construção de práticas pedagógicas inclusivas e contextualizadas. Como objetivos específicos, busca-se: compreender os principais conceitos relacionados à variação linguística e à Sociolinguística educacional; identificar os desafios enfrentados pelos professores no trabalho com a diversidade linguística em sala de aula; e discutir estratégias pedagógicas que favoreçam a valorização das diferentes variedades linguísticas no processo de ensino-aprendizagem da língua portuguesa.
A realização desta pesquisa justifica-se pela necessidade de ampliar as discussões acerca da diversidade linguística no contexto escolar, especialmente diante da persistência de práticas educativas marcadas pelo normativismo e pela desvalorização das variedades populares da língua portuguesa. Embora os estudos sociolinguísticos tenham avançado significativamente nas últimas décadas, ainda há resistência quanto à inserção efetiva da variação linguística nas práticas pedagógicas, nos materiais didáticos e na formação docente.
Nesse sentido, refletir sobre o ensino de Língua Portuguesa a partir da perspectiva da diversidade linguística torna-se fundamental para promover uma educação mais democrática, crítica e inclusiva, capaz de reconhecer as múltiplas identidades culturais presentes na escola brasileira. Além disso, o debate sobre variação linguística contribui diretamente para o enfrentamento do preconceito linguístico, fenômeno que afeta negativamente a autoestima, o desempenho escolar e a participação social de muitos estudantes. (BARROSO; BANDEIRA, 2017; SOUZA, 2021).
Outro aspecto que justifica esta investigação refere-se à necessidade de fortalecer práticas pedagógicas que aproximem o ensino de Língua Portuguesa da realidade comunicativa dos alunos, favorecendo uma aprendizagem mais significativa e contextualizada. Ao reconhecer a língua como um fenômeno heterogêneo e dinâmico, o professor pode desenvolver metodologias que valorizem os conhecimentos linguísticos prévios dos estudantes e estimulem a reflexão crítica sobre os diferentes usos da linguagem nos diversos contextos sociais (OLIVEIRA; BARIN, 2017; GOMES; SILVA, 2019; SILVA, 2024).
2. METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de abordagem qualitativa, desenvolvida com o objetivo de analisar as contribuições da variação linguística para o ensino de Língua Portuguesa, considerando os principais desafios e possibilidades presentes no contexto educacional brasileiro. A pesquisa qualitativa busca compreender fenômenos sociais a partir da interpretação dos significados, valores e experiências relacionados ao objeto investigado, permitindo uma análise aprofundada das produções científicas selecionadas.
Segundo Gil (2015), a pesquisa bibliográfica é elaborada com base em materiais já publicados, como livros, artigos científicos, dissertações e teses, permitindo ao pesquisador ampliar o conhecimento sobre determinado fenômeno e identificar diferentes abordagens teóricas e metodológicas relacionadas ao tema investigado. Assim, esta pesquisa fundamenta-se na análise crítica de produções acadêmicas que discutem a variação linguística no ensino de Língua Portuguesa, considerando especialmente as contribuições da Sociolinguística educacional para a construção de práticas pedagógicas inclusivas e reflexivas. (GIL, 2015).
O levantamento bibliográfico foi realizado por meio de buscas em bases de dados científicas nacionais e internacionais reconhecidas pela relevância acadêmica e pela disponibilidade de publicações na área da Linguística e Educação. Entre as bases consultadas destacam-se Google Acadêmico, SciELO, Periódicos CAPES, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), ResearchGate e repositórios institucionais de universidades públicas brasileiras. Para a realização das buscas, foram utilizados os seguintes descritores: “variação linguística”, “ensino de língua portuguesa”, “sociolinguística educacional”, “preconceito linguístico”, “ensino de português”, “diversidade linguística” e “práticas pedagógicas”.
Os descritores foram empregados de forma isolada e combinada, utilizando operadores booleanos como AND e OR, a fim de ampliar os resultados encontrados e garantir maior abrangência na seleção dos materiais. Como critérios de inclusão, foram considerados artigos científicos, dissertações, teses e trabalhos acadêmicos publicados nos últimos dez anos, entre 2016 e 2025, disponíveis em língua portuguesa e que abordassem diretamente a temática da variação linguística relacionada ao ensino de Língua Portuguesa. Além disso, foram priorizados estudos indexados em periódicos científicos e produções com relevância teórica para a área da Sociolinguística e Educação. (GIL, 2015).
Em relação aos critérios de exclusão, foram desconsiderados publicações duplicadas, trabalhos incompletos, estudos que não apresentavam relação direta com o objeto de investigação e materiais sem respaldo científico ou sem identificação clara de autoria e data de publicação. Também foram excluídos textos opinativos, resumos simples de eventos e produções que abordavam exclusivamente aspectos gramaticais desvinculados da discussão sobre diversidade linguística e ensino.
Após a seleção inicial dos materiais, realizou-se uma leitura exploratória dos títulos, resumos e palavras-chave, seguida de leitura analítica e interpretativa das produções consideradas relevantes para a pesquisa. Essa etapa permitiu identificar os principais conceitos, perspectivas teóricas, desafios pedagógicos e contribuições dos estudos relacionados à abordagem da variação linguística no contexto escolar (GIL, 2015).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A discussão acerca da variação linguística no ensino de Língua Portuguesa tem ocupado espaço significativo nas pesquisas educacionais e sociolinguísticas contemporâneas, principalmente devido à necessidade de construção de práticas pedagógicas mais inclusivas e alinhadas à realidade social dos estudantes. Os estudos desenvolvidos nas últimas décadas demonstram que a língua portuguesa não pode ser compreendida como um sistema homogêneo e imutável, mas como um fenômeno dinâmico, marcado pela diversidade cultural, regional, histórica e social presente nos diferentes contextos de uso da linguagem.
Compreender a relação entre língua, sociedade e educação torna-se fundamental para repensar metodologias de ensino que valorizem as múltiplas variedades linguísticas existentes no Brasil e em outros países lusófonos. Assim, este capítulo apresenta uma discussão teórica acerca da variação linguística no ensino de Língua Portuguesa, abordando os fundamentos sociolinguísticos da diversidade linguística, os desafios pedagógicos relacionados ao preconceito linguístico e à formação docente, bem como as possibilidades metodológicas para o desenvolvimento de práticas educativas mais reflexivas e inclusivas.
3.1. Variação Linguística e Ensino de Língua Portuguesa
A língua portuguesa apresenta múltiplas formas de realização que variam de acordo com fatores sociais, culturais, regionais e históricos, caracterizando-se como um sistema heterogêneo e dinâmico. A Sociolinguística, ao investigar as relações entre língua e sociedade, contribuiu significativamente para desconstruir a ideia de uma língua única e homogênea, demonstrando que todas as variedades linguísticas possuem organização e funcionalidade próprias.
Nesse contexto, o ensino de Língua Portuguesa necessita considerar a diversidade linguística presente na realidade dos estudantes, reconhecendo que diferentes formas de fala não representam erros, mas manifestações legítimas da língua em uso. Segundo Ataíde, Lima e Araújo (2023), compreender a variação linguística como parte constitutiva do processo comunicativo é essencial para o desenvolvimento de práticas pedagógicas mais democráticas e inclusivas.
Historicamente, o ensino de Língua Portuguesa no Brasil foi estruturado a partir de uma perspectiva normativa centrada na valorização da gramática tradicional e da norma-padrão como modelo exclusivo de correção linguística. Essa concepção contribuiu para a marginalização das variedades populares e regionais da língua, reforçando desigualdades sociais e culturais no ambiente escolar.
De acordo com Gomes (2019), a escola passou a desempenhar o papel de instituição reguladora da linguagem, estabelecendo padrões linguísticos associados às classes socialmente privilegiadas e desvalorizando formas de expressão utilizadas pelas camadas populares. Dessa forma, muitos estudantes passaram a associar suas práticas linguísticas à ideia de inadequação ou inferioridade.
Os estudos sociolinguísticos evidenciam que a língua sofre variações constantes em função do contexto comunicativo, da faixa etária, da escolaridade, da região geográfica e da situação de interação. Assim, não existe uma única maneira correta de falar português, mas diferentes possibilidades linguísticas adequadas a diferentes contextos sociais. Bernardo (2017) destaca que o reconhecimento da diversidade linguística no ambiente escolar favorece a construção de uma educação mais inclusiva, capaz de respeitar as identidades culturais dos estudantes e ampliar suas competências comunicativas sem desvalorizar suas formas de expressão.
A discussão sobre variação linguística no ensino de Língua Portuguesa também está diretamente relacionada ao combate ao preconceito linguístico, prática que discrimina indivíduos em razão de suas variedades linguísticas. Segundo Nascimento (2021), o preconceito linguístico constitui uma forma de exclusão social frequentemente naturalizada no cotidiano escolar, principalmente quando determinadas formas de fala são tratadas como “erradas” ou “inferiores”. Nesse sentido, trabalhar a diversidade linguística em sala de aula representa uma importante estratégia para promover o respeito às diferenças culturais e sociais presentes na comunidade escolar.
Os documentos educacionais brasileiros passaram a reconhecer gradativamente a importância da variação linguística no ensino de Língua Portuguesa. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por exemplo, propõe o desenvolvimento de competências relacionadas à compreensão crítica dos usos da linguagem e à valorização da diversidade linguística brasileira. Cardoso e Semechechem (2020) afirmam que a BNCC representa um avanço importante ao defender uma pedagogia da variação linguística voltada para a reflexão sobre os diferentes usos sociais da língua e para a superação de práticas pedagógicas excessivamente normativas.
Apesar dos avanços teóricos e legais, ainda existem dificuldades significativas para a efetiva inserção da variação linguística nas práticas escolares. Muitos professores continuam priorizando exclusivamente a norma-padrão em suas aulas, reproduzindo metodologias tradicionais centradas na correção gramatical. França (2019) ressalta que a formação docente ainda apresenta lacunas importantes no que se refere aos conhecimentos sociolinguísticos, dificultando o desenvolvimento de abordagens pedagógicas mais críticas e contextualizadas acerca da diversidade linguística.
Outro aspecto relevante refere-se ao papel dos livros didáticos no ensino da variação linguística. Embora muitos materiais contemplem discussões sobre diversidade linguística, frequentemente essas abordagens aparecem de forma superficial e limitada. Barroso e Bandeira (2017) observam que diversos livros didáticos apresentam atividades descontextualizadas, sem promover reflexões efetivas sobre os usos sociais da língua e sobre as relações entre linguagem, identidade e poder. Assim, a abordagem da variação linguística acaba sendo tratada apenas como conteúdo teórico, distante das experiências reais dos estudantes.
Além dos livros didáticos, as práticas pedagógicas precisam incorporar metodologias mais participativas e contextualizadas, capazes de aproximar os conteúdos linguísticos da realidade sociocultural dos alunos. Teles (2017) demonstra que o trabalho com gêneros textuais populares, como o cordel, pode favorecer a valorização das variedades linguísticas regionais e ampliar o interesse dos estudantes pelas aulas de Língua Portuguesa. Dessa forma, a utilização de gêneros próximos ao cotidiano dos discentes contribui para tornar o ensino mais significativo e reflexivo.
As transformações tecnológicas e digitais também influenciam diretamente os usos da língua portuguesa na contemporaneidade. Melo (2019) destaca que as redes sociais e os ambientes digitais ampliaram as possibilidades de comunicação, promovendo novas formas de expressão linguística que desafiam os modelos tradicionais de ensino. Nesse contexto, a escola precisa reconhecer as mudanças linguísticas decorrentes das tecnologias digitais e utilizá-las como ferramentas pedagógicas para discutir adequação linguística e diversidade comunicativa.
A inserção da variação linguística no ensino de Língua Portuguesa representa uma necessidade pedagógica e social, uma vez que contribui para o desenvolvimento de uma educação mais democrática, inclusiva e crítica. Reconhecer a diversidade linguística não significa abandonar o ensino da norma-padrão, mas compreender que ela constitui apenas uma das variedades existentes na língua portuguesa. Assim, o ensino deve promover a reflexão sobre os diferentes usos da linguagem, respeitando as identidades linguísticas dos estudantes e favorecendo sua participação social de forma consciente e crítica. (NONATO, 2024; SILVA, 2024).
3.2. Preconceito Linguístico, Livro Didático e Formação Docente
O preconceito linguístico constitui um dos principais desafios enfrentados no ensino de Língua Portuguesa, uma vez que está diretamente relacionado à valorização exclusiva da norma-padrão e à desqualificação das variedades populares da língua. Essa forma de discriminação manifesta-se quando determinadas maneiras de falar são associadas à falta de escolaridade, incapacidade intelectual ou inferioridade social. Segundo Barbosa e Cuba (2020), o preconceito linguístico encontra-se profundamente enraizado na sociedade brasileira e frequentemente é reproduzido no ambiente escolar por meio de práticas pedagógicas normativas e excludentes.
No contexto educacional, muitos estudantes acabam sendo constrangidos em razão de suas formas de fala, especialmente aqueles provenientes de comunidades rurais, periferias urbanas ou regiões marcadas por fortes características dialetais. Nascimento (2021) afirma que a escola, ao privilegiar exclusivamente a norma culta, contribui para a exclusão simbólica de alunos que não dominam as variedades linguísticas socialmente prestigiadas. Essa situação pode comprometer o desempenho escolar, a autoestima e a participação dos estudantes nas atividades pedagógicas.
O livro didático exerce influência significativa na construção das concepções de língua presentes no ambiente escolar. Embora os materiais didáticos mais recentes apresentem conteúdos relacionados à variação linguística, muitos ainda reproduzem abordagens superficiais e pouco reflexivas sobre o tema. Bortolozzo e Karim (2019) observam que diversos livros didáticos tratam a diversidade linguística apenas como curiosidade linguística, sem promover debates aprofundados acerca das relações entre linguagem, identidade e desigualdade social.
Alguns materiais didáticos acabam reforçando estereótipos relacionados às variedades populares da língua portuguesa, apresentando-as como desvios em relação à norma-padrão. Souza (2021) destaca que determinadas atividades presentes nos livros didáticos se limitam à identificação de regionalismos ou expressões coloquiais, sem discutir criticamente os fatores históricos e sociais envolvidos na construção das diferenças linguísticas. Dessa forma, o ensino permanece centrado na lógica da correção normativa.
Os estudos de Gomes e Silva (2019) demonstram que muitos livros didáticos ainda apresentam inconsistências entre o discurso sociolinguístico presente nos textos teóricos e as atividades propostas aos estudantes. Embora os materiais reconheçam a existência da diversidade linguística, frequentemente as atividades práticas continuam priorizando a substituição das variedades populares pela norma-padrão, reforçando a ideia de hierarquia entre as formas de fala.
A formação docente representa outro aspecto fundamental para a compreensão das dificuldades relacionadas ao ensino da variação linguística. Segundo Nonato (2024), muitos professores de Língua Portuguesa não recebem durante sua formação inicial uma preparação adequada para trabalhar questões relacionadas à Sociolinguística educacional. Como consequência, acabam reproduzindo práticas tradicionais baseadas exclusivamente na gramática normativa.
França (2019) ressalta que a ausência de conhecimentos sociolinguísticos na formação docente dificulta a implementação de metodologias mais inclusivas e reflexivas no ensino de Língua Portuguesa. Muitos professores reconhecem a importância da diversidade linguística, mas encontram dificuldades para transformar esse conhecimento em práticas pedagógicas concretas capazes de valorizar as diferentes formas de expressão linguística presentes na escola.
Outro desafio refere-se às pressões institucionais e sociais relacionadas ao ensino da norma-padrão. Em muitos contextos escolares, o professor é cobrado para preparar os estudantes para exames e avaliações externas que privilegiam a linguagem formal. Silva (2024) observa que essa realidade contribui para a manutenção de práticas pedagógicas normativas, mesmo entre docentes que reconhecem a importância da abordagem sociolinguística no ensino.
Apesar dessas dificuldades, diversos estudos apontam possibilidades de transformação pedagógica a partir da valorização da diversidade linguística. Bernardo (2017) defende que o ensino de Língua Portuguesa deve promover uma educação linguística crítica, capaz de ensinar a norma-padrão sem desvalorizar as demais variedades da língua. Essa perspectiva contribui para a formação de estudantes mais conscientes das relações entre linguagem, cultura e sociedade.
Dessa forma, combater o preconceito linguístico no ambiente escolar exige não apenas mudanças nos materiais didáticos, mas também investimentos na formação docente e na construção de práticas pedagógicas comprometidas com a valorização da diversidade linguística. A escola precisa assumir o papel de espaço de respeito às diferenças culturais e linguísticas, promovendo uma educação que reconheça a pluralidade da língua portuguesa e contribua para a formação cidadã dos estudantes. (CARDOSO; SEMECHECHEM, 2020).
3.3. Práticas Pedagógicas e Possibilidades Metodológicas
As práticas pedagógicas relacionadas ao ensino da variação linguística precisam considerar a realidade sociocultural dos estudantes e promover reflexões críticas sobre os usos da língua nos diferentes contextos sociais. Nesse sentido, a abordagem sociolinguística no ensino de Língua Portuguesa deve ultrapassar a simples identificação de variedades linguísticas, buscando desenvolver nos alunos a capacidade de compreender a adequação da linguagem às diversas situações comunicativas. Segundo Ataíde, Lima e Araújo (2023), trabalhar a diversidade linguística em sala de aula significa reconhecer a língua como instrumento de interação social e construção identitária.
Uma das principais estratégias metodológicas para o ensino da variação linguística consiste na utilização de gêneros textuais próximos da realidade dos estudantes. Teles (2017) demonstra que o trabalho com o gênero cordel favorece a valorização das variedades regionais e estimula a participação dos alunos nas atividades de leitura, produção textual e análise linguística. Além disso, o cordel possibilita discussões sobre cultura popular, identidade regional e diversidade linguística.
As tecnologias digitais também oferecem importantes possibilidades metodológicas para o ensino de Língua Portuguesa. Melo (2019) destaca que as redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas digitais podem ser utilizados como ferramentas pedagógicas para discutir os diferentes usos da linguagem na contemporaneidade. Essas ferramentas permitem analisar fenômenos linguísticos presentes no cotidiano dos estudantes e promover reflexões sobre adequação comunicativa.
Silva (2024) propõe a utilização das redes sociais como recurso pedagógico para o desenvolvimento de práticas educativas mais dinâmicas e contextualizadas. Segundo a autora, o trabalho com memes, postagens digitais, vídeos e comentários em redes sociais possibilita aos alunos compreender as diferentes variedades linguísticas utilizadas nos ambientes virtuais e refletir sobre os efeitos sociais e comunicativos dessas escolhas linguísticas.
Outra possibilidade metodológica refere-se ao trabalho com gêneros do cotidiano escolar e social dos estudantes. Oliveira e Barin (2017) destacam que o uso do gênero bilhete em atividades pedagógicas favorece discussões sobre oralidade, informalidade e adequação linguística. Ao analisar textos presentes em situações reais de comunicação, os estudantes passam a compreender que as escolhas linguísticas variam conforme os objetivos comunicativos e os contextos de interação.
As práticas pedagógicas voltadas para a variação linguística também precisam incentivar o desenvolvimento da consciência crítica dos alunos acerca do preconceito linguístico. Nascimento (2021) ressalta a importância de promover debates sobre discriminação linguística, mostrando que nenhuma variedade é linguisticamente inferior a outra. Essas discussões contribuem para fortalecer a autoestima dos estudantes e promover relações mais respeitosas no ambiente escolar.
O professor desempenha papel fundamental na mediação dessas práticas pedagógicas. Nonato (2024) afirma que o docente precisa atuar como mediador crítico, estimulando os alunos a refletirem sobre os diferentes usos da língua e sobre as relações entre linguagem, identidade e poder. Para isso, torna-se necessário investir na formação continuada dos profissionais da educação, ampliando seus conhecimentos sobre Sociolinguística educacional.
A interdisciplinaridade também pode contribuir significativamente para o trabalho com a variação linguística. Segundo Cardoso e Semechechem (2020), a discussão sobre diversidade linguística pode ser articulada com conteúdos de História, Geografia, Sociologia e Cultura Brasileira, permitindo aos estudantes compreenderem as relações entre língua, sociedade e processos históricos de formação cultural.
A valorização das experiências linguísticas dos próprios estudantes constitui elemento central para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas. França (2019) observa que muitos alunos se sentem mais motivados quando percebem que suas formas de fala são respeitadas e reconhecidas no ambiente escolar. Essa valorização contribui para fortalecer o vínculo entre os estudantes e o processo de aprendizagem da língua portuguesa.
Assim, o desenvolvimento de práticas pedagógicas voltadas para a variação linguística exige uma postura crítica, reflexiva e inclusiva por parte da escola e dos professores. Ao reconhecer a diversidade linguística como elemento constitutivo da língua portuguesa, o ensino passa a contribuir para a formação de sujeitos mais conscientes, críticos e respeitosos em relação às diferenças culturais e sociais presentes na sociedade contemporânea. (BARBOSA; CUBA, 2020; GOMES, 2019).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa possibilitou compreender que a variação linguística constitui um elemento fundamental para o ensino de Língua Portuguesa, uma vez que a língua é um fenômeno social, histórico e cultural marcado pela diversidade de usos e formas de expressão. Ao longo do estudo, observou-se que a abordagem tradicional centrada exclusivamente na norma-padrão ainda permanece presente em muitas práticas escolares, contribuindo para a reprodução do preconceito linguístico e para a desvalorização das variedades linguísticas utilizadas por diferentes grupos sociais. Nesse contexto, tornou-se evidente a necessidade de repensar o ensino de Língua Portuguesa a partir de uma perspectiva sociolinguística, capaz de reconhecer a pluralidade linguística como parte legítima da realidade dos estudantes e como instrumento de construção da cidadania.
A análise dos estudos selecionados demonstrou que a Sociolinguística oferece importantes contribuições para o desenvolvimento de práticas pedagógicas mais inclusivas, críticas e contextualizadas. A valorização das diferentes variedades linguísticas não implica abandonar o ensino da norma-padrão, mas compreender que ela representa apenas uma das possibilidades de uso da língua portuguesa. Assim, a escola deve promover o ensino da adequação linguística, permitindo que os estudantes desenvolvam competências comunicativas capazes de atender às diferentes situações de interação social sem que suas identidades culturais e linguísticas sejam desrespeitadas.
Portanto, conclui-se que a inserção da variação linguística no ensino de Língua Portuguesa representa uma necessidade pedagógica e social, especialmente em uma sociedade marcada pela diversidade cultural e pelas desigualdades sociais. A escola deve assumir o compromisso de promover uma educação linguística democrática, que respeite as diferentes formas de expressão dos estudantes e contribua para a formação de cidadãos críticos, conscientes e preparados para atuar de maneira ética e participativa nos diversos contextos sociais. Assim, a valorização da diversidade linguística configura-se como elemento essencial para a construção de uma educação mais inclusiva, humanizada e transformadora.
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1 Doutora em Letras, Universidade de Passo Fundo (UFP), Passo Fundo – RS. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Doutorando em Letras: Estudos da Linguagem, Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Doutorando em Letras: Estudos Literários, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail