REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784915739
RESUMO
O presente trabalho busca evidenciar os benefícios da aplicação da rede de apoio para o desenvolvimento educacional e psicológico às crianças com TDAH no ambiente escolar, identificando quais melhorias no desempenho na aprendizagem e analisando os efeitos no desenvolvimento emocional através do incentivo estabelecido pela rede de apoio. Diante da necessidade de reconhecimento da importância da rede de apoio para alunos com TDAH no Ensino Infantil e Fundamental, elabora-se a seguinte pergunta do problema de pesquisa: “Quais benefícios no processo educacional e psicológico a rede de apoio pode oferecer às crianças com TDAH no ambiente escolar?”. Mesmo com os avanços nas pesquisas sobre a relação dos sintomas do transtorno de aprendizagem com os aspectos emocionais em crianças, pouco se elabora na Psicologia sobre a rede de apoio como estímulo ao processo de aprendizagem aos alunos com TDAH. É evidente que a socialização e a relação com os educadores são essenciais para o aprendizado e desenvolvimento emocional efetivo. A metodologia deste estudo se caracteriza como uma pesquisa de abordagem qualitativa, com objetivo descritivo e exploratório, realizada através de uma revisão sistemática da literatura. Conclui-se, por meio dos resultados, que a rede de apoio beneficia na relação da criança com TDAH com os educadores e também na sua aceitação social, além de melhorar o desempenho escolar e prevenir problemas psicológicos.
Palavras-chave: Rede de Apoio; TDAH; Desenvolvimento Escolar; Ensino Infantil e Fundamental; Psicologia.
ABSTRACT
This study aims to highlight the benefits of implementing a support network for the educational and psychological development of children with ADHD in the school environment, identifying improvements in learning performance and analyzing the effects on emotional development fostered by such a network. Given the need to recognize the importance of support networks for students with ADHD in early childhood and elementary education, the following research question is posed: "What benefits can a support network offer to children with ADHD regarding their educational and psychological processes within the school environment?" Despite advances in research concerning the relationship between learning disorder symptoms and emotional aspects in children, the field of psychology has given limited attention to the role of support networks in stimulating the learning process for students with ADHD. It is evident that socialization and relationships with educators are essential for effective learning and emotional development. This study employs a qualitative approach with descriptive and exploratory objectives, conducted through a systematic literature review. The results indicate that a support network benefits the child with ADHD by improving their relationships with educators and fostering social acceptance, while also enhancing academic performance and preventing psychological issues.
Keywords: Support Network; ADHD; School Development; Early Childhood and Elementary Education; Psychology.
1. INTRODUÇÃO
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns na infância, caracterizando-se por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade que comprometem o desempenho escolar e o desenvolvimento socioemocional da criança (American Psychiatric Association, 2022; Barkley, 2015). Essa condição se torna um problema recorrente para alunos do ensino fundamental nas escolas, pois compromete ambos os aspectos de desempenho escolar e desenvolvimento socioemocional ao longo da vida.
Alternativas de ensino propostas a alunos com TDAH na primeira e segunda infância estão cada vez mais recebendo espaço nas escolas, no entanto pouco se considera os aspectos socioemocionais e psicológicos das crianças com o transtorno no processo de aprendizagem. Os desafios enfrentados na jornada educacional pelo estudante com TDAH podem ocasionar outros sérios problemas os quais afetam principalmente a autoestima e a interação interpessoal.
Uma vez que estes elementos característicos da sociabilidade humana são impactados negativamente, torna-se mais improvável a criança com TDAH obter uma aprendizagem efetiva. Porque, para garantir uma melhora na qualidade e assertividade na educação a esse público, não basta apenas trazer ferramentas adaptativas ou acompanhamento especializado, necessita-se haver também a presença de uma rede de apoio.
A rede de apoio pode ser formada pelos profissionais da educação e afins que estão presentes no ambiente escolar, e ela é estabelecida a partir da interação entre os estudantes, junto com o auxílio dos professores, e até mesmo de familiares. Em outras palavras, a rede de apoio incentiva as crianças com TDAH poderem interagir com colegas e professores mutuamente para haver melhor entendimento aos conteúdos passados na sala de aula. A finalidade dessa rede de apoio não é apenas garantir o aprendizado, mas também fornecer maior abertura de interatividade social através do apoio, melhorando assim a autoconfiança do aluno no processo de ensino e aprendizagem.
Os estudos de Vygotsky (1987) demonstram que a aprendizagem é realizada através da interação social em meio ao ambiente, destacando uma zona de desenvolvimento proximal (ZDP), identificando por onde a criança é capaz de aprender autonomamente e por onde ela necessita de auxílio de pessoas mais experientes. Nesse sentido, estabelecer uma rede de apoio aos alunos com TDAH pode permití-lo desenvolver sua capacidade de aprendizagem, aumentando sua autonomia e reconhecimento de suas limitações.
Para Freire (2014), o processo educacional deve ser horizontal, e a rede de apoio pode ser a melhor representação dessa horizontalidade, já que a interatividade da rede de apoio envolve tanto os alunos, colegas e professores por meio da socialização e abertura comunicativa.
Destarte, em uma revisão sistemática de abordagem qualitativa e viés descritivo e exploratório, este estudo tem como objetivo analisar de forma aprofundada os benefícios da rede de apoio na aprendizagem para as crianças com TDAH no ensino fundamental, através do conhecimento da psicologia da educação.
2. EFEITOS NO DESEMPENHO ESCOLAR EM ALUNOS COM TDAH EM REDE DE APOIO
A rede de apoio no ensino, conforme Benetti, Grisard e Figueiredo (2014), é um suporte de desenvolvimento que envolve tanto a família quanto os mediadores e a socialização no processo de aprendizagem da criança. Na pesquisa de Benetti, Grisard e Figueiredo (2014), comprovou-se que a presença da rede de apoio na vida escolar de alunos com dificuldades de aprendizagem induziu em uma melhoria significativa no desempenho escolar, por resultados de expansão de criatividade, elevação da autoestima e aperfeiçoamento em habilidades comunicativas entre as crianças observadas, além de se mostrar benéfica para as relações parentais com os professores, tornando o ensino mais assertivo para as necessidades da criança.
Na perspectiva de Vargas e Borges (2023), a rede de apoio nas escolas destaca um elevado valor na educação infantil, especialmente em crianças com condições limitantes de aprendizagem, em razão de ser uma prática totalmente inclusiva e, dessa maneira, potencializa métodos educacionais conduzidos pelos educadores com os alunos. Nesse entendimento, práticas inclusivas na Educação Infantil tendem a aprimorar o desempenho de aprendizagem das crianças em atendimento educacional especializado por haver um processo de aproximação com o profissional.
A rede de apoio é uma alternativa importante para garantir o direito de aprendizagem da criança com TDAH nas escolas e na educação especializada, pois facilita o processo de ensino-aprendizagem não apenas ao aluno, mas também aos professores/pedagogos em geral. Para Vargas e Borges (2023), deve-se priorizar o investimento na aplicação de redes de apoio aos estudantes com dificuldades e transtornos de aprendizagem, como o TDAH, em composto com as contribuições das equipes multidisciplinares. Dessa forma, crianças com TDAH, e outras neurodivergências, não permanecem nas escolas regulares para serem “cuidadas”, e, sim, ensinadas.
Uma característica importante a se citar sobre o uso da rede de apoio nas escolas é a de que não se limita no ambiente escolar, visto que a participação e apoio da família é essencial para a formação educacional da criança com TDAH. Nesse sentido, Piva (2025) destaca a família como a principal influência na formação e permanência escolar de crianças com TDAH, sendo complemento indispensável na utilização da rede de apoio.
Em uma revisão bibliográfica, Piva (2025) observa que práticas de inclusão como a rede de apoio estão em falta nas escolas, ocasionando lacunas no diálogo entre a escola e a família que impedem a corroboração de planejamentos estratégicos para aprendizagem do aluno com TDAH. As pesquisas e os estudos que monitoram essa tendência precisam explorar veementemente as redes intersetoriais de apoio, em adição com as famílias das crianças com TDAH (Piva, 2025). Por esse viés, as redes de apoio são práticas inclusivas que aproximam o contato da família com as questões escolares do indivíduo, possibilitando planejamento estratégico efetivo no processo de aprendizagem.
Aprofundando-se no conhecimento teórico da psicologia de aprendizagem, sabe-se que, para Vygotsky (1987, p. 10), “o aprendizado humano é de natureza social” e as crianças formam a aprendizagem através do espaço onde há presenças de outras pessoas as quais já formaram o aprendizado. Uma constante disrupção na zona de desenvolvimento proximal tem uma grande influência e pode comprometer o processo cognitivo da criança. Em outras palavras, para haver eficiência na aprendizagem, as crianças em processo de desenvolvimento necessitam de uma aproximação aberta com pessoas mais experientes e de cunho afetivo.
Em vista disso, no olhar de Vygotsky, professores e educadores são agentes que intervêm diretamente o processo de aprendizagem de maneira que o aluno possa repassar o conhecimento adquirido, estabelecendo e vivenciando a significação de uma determinada cultura (Neves; Damiani, 2006).
Por sua vez, Rabello e Passos (2010), em uma análise sobre pensamento e linguagem através da teoria de aprendizagem de Vygotsky, enfatizam que o pensamento é realizado na palavra deferida através da linguagem, uma vez que esta possibilita a comunicação do nosso pensamento.
Finalmente, cabe destacar que o pensamento não é o último plano analisável da linguagem. Podemos encontrar um último plano interior: a motivação do pensamento, a esfera motivacional de nossa consciência, que abrange nossas inclinações e necessidades, nossos interesses e impulsos, nossos afetos e emoções (Rabello; Passos, 2010, p. 10).
Por esse entendimento, a aprendizagem, a qual começa na infância, é influenciada no quanto foi aproximada a linguagem na interação com a criança no ambiente educativo, e no quanto foi motivado o pensamento da pessoa a ser desenvolvida, ou seja, se a criança recebe o apoio necessário para se permitir entender o mundo. Analisando esses fatores, é compreensível assimilar a teoria de Vygotsky com os benefícios adquiridos no desempenho escolar pela rede de apoio à criança com TDAH.
Em função de estabelecer melhor desempenho escolar para a criança com TDAH, não basta apenas pensar nas técnicas e instrumentos profissionais, é necessário também olhar para a motivação do aluno em relação à interatividade no espaço educacional. Neste seguimento, entende-se a importância da rede de apoio quanto ao contato e movimentação de educadores, colegas e familiares em estabelecer suporte à criança, para, assim, sentir-se motivada em prosseguir nos estudos. Silva (2024), em analogia, propõe um comprometimento coletivo com base nos dispositivos legais cujo objetivo é reforçar a experiência de aprendizagem da criança com TDAH.
Ferreira, Rodrigues e Cunha (2024) ressaltam a importância do papel da família e da escola como um compromisso coletivo para o diagnóstico do TDAH em crianças. A identificação do TDAH, bem como o reconhecimento das barreiras na educação infantil, ainda é um desafio muito presente nas escolas. Assim como a indiferença, famílias e professores entram em conflito de negação no qual, na visão precipitada dos adultos, os problemas de rendimento escolar da criança refletem na conduta dela, e não no transtorno de desenvolvimento.
Negligenciar o diagnóstico de TDAH e seus sintomas pode comprometer não apenas o desempenho escolar e acadêmico da criança, como também pode acarretar sérios prejuízos na vida social (Ferreira; Rodrigues; Cunha, 2024). Uma das alternativas para evitar essa problemática é justamente a implementação de redes de apoio nas escolas voltadas para a criança com TDAH.
Outra iniciativa importante é a criação de grupos de apoio multidisciplinares nas escolas, compostos por psicólogos, pedagogos e professores, que atuem no suporte contínuo aos alunos com o transtorno. Esses grupos desempenham um papel estratégico, tanto na orientação aos docentes quanto na interação com as famílias, promovendo um ambiente de colaboração e acolhimento (Ferreira; Rodrigues; Cunha, 2024, p. 844).
Ademais, a rede de apoio também deve ser formada nas casas das crianças com TDAH, pois a família tem um papel fundamental na motivação na aprendizagem. Nesse aspecto, Rinaldi e Cantero (2024) observaram que crianças com TDAH conseguiam desempenhar as funções executivas de forma integrada quando se havia aceitação e acolhimento por parte da família, proporcionado por boas relações sociais. Desse modo, a inclusão é um fator que deve estar presente no cotidiano.
As interações sociais e adaptação escolar promovidas pela rede de apoio favorecem uma aprendizagem mais eficaz e inclusiva para a criança com TDAH (Torres, 2024). Além disso, a rede de apoio incentiva os educadores a efetuarem estratégias mais objetivas e organizadas para assegurar o entendimento do aluno nas atividades escolares.
Rodrigues e Campos (2023) demonstram que a colaboração entre familiares e a instituição escolar é indispensável e pode fornecer estímulos e confiança na relação com o aluno com TDAH. É seguro destacar que a rede de apoio pode organizar o papel da família e da escola de maneira assertiva e eficiente.
Em análise, a rede de apoio gera muitos efeitos positivos ao desempenho escolar da criança com TDAH, principalmente por unir forças importantes para o desenvolvimento no contexto educacional, como os educadores e os familiares, em função de dar o apoio e incentivo necessário ao aluno que se encontra contornado pelas barreiras do transtorno de neurodesenvolvimento. Assim, tanto a criança com TDAH quanto os adultos responsáveis conseguem visualizar de maneira evidente os pontos a serem notados e, dessa forma, obter progressos no desempenho escolar.
3. ASPECTOS RELEVANTES NO DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL EM MEIO AO AMBIENTE COM REDE DE APOIO
Balbi (2026) enfatiza a ocorrência dos sintomas do TDAH os quais estão associados à prejuízos das funções executivas, que envolvem habilidades de planejamento como organização de tarefas, tomada de decisões e autocontrole do comportamento. Desse modo, crianças com TDAH apresentam impasses que comprometem no futuro o desenvolvimento emocional, principalmente quando os sintomas não são tratados desde a infância e no processo de aprendizagem.
Com as funções executivas comprometidas pelos sintomas do transtorno, como a procrastinação, desatenção e dificuldade de sociabilização, a criança está propensa a frustrações e, consequentemente, a problemas de autoestima, fatores que podem agravar o descontrole emocional e comorbidades como a depressão (Balbi, 2026). A regulação das emoções é um desafio gritante para a criança com TDAH, podendo haver prejuízos no processo acadêmico e social ao decorrer da vida.
Para prevenir isso, deve-se pensar no uso das redes de apoio nas escolas como o principal meio que viabiliza a criança receber um desenvolvimento emocional saudável, pois com o cuidado e atenção da família e profissionais, mais o planejamento e recursos estratégicos, a criança pode estruturar práticas cotidianas de autorregulação no seu processo de aprendizagem (Balbi, 2026). É sempre essencial citar que um ambiente com rede de apoio é um espaço de acolhimento, especialmente para crianças com TDAH.
A afetividade entre o professor e o aluno no ambiente escolar é um dos elementos característicos da rede de apoio, e aprimora tanto a aprendizagem quanto o desenvolvimento emocional da criança (Araújo; Rodrigues, 2023). Nessa conjuntura, alunos com distúrbios de aprendizagem como o TDAH necessitam de maior apego e interatividade social nas aplicações do conhecimento.
Torres (2024, p. 33) reforça que “promover interações sociais e evitar mudanças bruscas na rotina favorece o desenvolvimento emocional e a adaptação, essenciais para a aprendizagem”.
Verificou-se que o apoio constante dos educadores e a criação de um ambiente estruturado não só melhoram o desempenho acadêmico dos alunos com TDAH, mas também fortalecem sua autoestima e habilidades sociais. Portanto, o papel do educador vai além da transmissão de conhecimento, sendo essencial no desenvolvimento pessoal e emocional dos estudantes. Essas práticas ainda trazem implicações importantes para a formação docente, que precisa contemplar o aprimoramento contínuo dos professores na busca de um ensino verdadeiramente inclusivo (Torres, 2024, p. 34).
Pedro et al. (2025), através de uma análise bibliográfica, consideram que a função dos educadores não está somente em repassar o conhecimento ao aluno, como também em mediar o processo de ensino e aprendizagem, na adaptação de estratégias, na identificação de dificuldades e no incentivo à autonomia do estudante. No âmbito institucional, o ambiente escolar deve estar apto para acolher e promover aprendizagens às crianças com TDAH, utilizando e metodologias adaptáveis para as condições neurológicas, tudo isso com o suporte imprescindível de uma rede de apoio (Pedro et al, 2025).
O processo de adaptação de aprendizagem promove o sentimento de acolhimento ao aluno com TDAH e é impulsionado por meio de grupos de apoio. Nesse sentido, o ensino na Educação Infantil e Fundamental precisa ser pensado de acordo com as necessidades da criança com TDAH, além de ser adaptado para desenvolvê-la emocionalmente.
Dias et al. (2023) apontaram que estratégias pedagógicas personalizadas demonstram uma melhoria significativa tanto no desempenho escolar quanto no aspecto emocional nos alunos com TDAH. Neste estudo, sintomas comportamentais do TDAH, como a impulsividade e falta de concentração, foram reduzidos expressivamente ao se adotar o ensino adaptativo nas instituições escolares e incentivar a rede de apoio, o que também resultou no amadurecimento do bem-estar e autoestima dos alunos com TDAH (Dias et al, 2023).
A criação de um ambiente escolar inclusivo e de apoio também foi identificada como um aspecto chave para o desenvolvimento saudável e a autoestima dos alunos com TDAH. A promoção de uma cultura de aceitação e compreensão, juntamente com intervenções que reforçam as habilidades sociais e emocionais, desempenhou um papel significativo na motivação e no bem-estar geral dos alunos (Dias et al, 2023, p. 6).
De acordo com Barkley (2020), muitas vezes se torna normativo a criança com TDAH ser excluída de atividades sociais e escolares por causa dos sintomas emocionais. Essa rejeição social durante a educação infantil afeta negativamente o decorrer da vida, mesmo depois do processo escolar, prejudicando também a vida acadêmica e profissional.
Para contornar isso, torna-se indispensável a implementação de rede de apoio voltada à criança com TDAH, desde a participação dos familiares até a presença efetiva dos educadores. A rede de apoio incentiva o aluno com TDAH a praticar estrategicamente as suas habilidades sociais, o que o permite lidar com seus comportamentos e emoções em situações diversas no cotidiano escolar de uma maneira que se aproxime socialmente das outras pessoas.
Barbarini (2020) sugere que, para além das medicações, haja uma motivação maior para a inserção social da criança com TDAH, no propósito de regular seu corpo e suas emoções. O tratamento psiquiátrico para TDAH é de extrema importância, todavia não se deve limitar a resolução da conduta cognitiva da criança apenas com medicamentos, pois psicoterapias e redes de apoio são complementos chaves para o desenvolvimento socioemocional da pessoa.
Andrade, Vellasco e Ribeiro (2021, p. 60), em uma revisão de literatura, observam que a “modulação das emoções e a adaptação social colaboram para o desempenho da interação social em crianças, assim como o funcionamento executivo, que propicia o sujeito internalizar os aspectos sociais da cultura”. Com isso, entende-se que a interação social no espaço motivada pela rede de apoio auxilia a criança com TDAH a modular suas emoções e se adaptar socialmente.
Drigo et al. (2023) consideram que o relacionamento interpessoal é um fator relevante para o desenvolvimento da inteligência emocional de pessoas com TDAH, e o ambiente sociável e satisfatório com bons relacionamentos entre as pessoas presentes no cotidiano eleva o bem-estar emocional. Em vista disso, a rede de apoio é ideal para proporcionar, nas escolas e nos lares da criança, um ambiente com relacionamentos positivos e adequados para a maturação emocional.
No estudo de Moni et al. (2024), analisaram-se estatísticas de artigos científicos as quais mensuram o nível de instabilidade emocional em crianças e adolescentes com TDAH, e como a qualidade de vida dessas pessoas foi comprometida. Percebe-se que crianças com TDAH apresentam maiores chances de baixa autoestima e problemas emocionais, como ansiedade e depressão, e compreender esses impactos na qualidade de vida é essencial para estruturar a rede de apoio (Moni et al, 2024).
Cunha (2025, p. 12) declara que “os estudos cada vez mais apontam sobre a importância das emoções nas nossas vidas, destacando como elas são essenciais para o nosso bem-estar, tomada de decisões, relacionamentos interpessoais e para nossa saúde mental”, em destaque no desenvolvimento infantil de pessoas com TDAH. O desenvolvimento emocional permite à criança entender o mundo ao seu redor e a rede de apoio oferece essa capacidade de agir e compreender a partir da interação social (Cunha, 2025).
Ao interagirmos com o outro, não nos limitamos a analisar fatos objetivos; estamos imersos em uma rede de significados e interessados, muitas vezes não ditas, que só podem ser apreendidos por meio das emoções. Quando alguém sorri, por exemplo, não estamos apenas registrando um movimento muscular, mas captando, através da nossa própria ocorrência emocional, o significado profundo da satisfação, da alegria. A teia de significados que perpassa dessa interpretação, nos conectam ao mundo de uma forma que vai além da razão (Cunha, 2025, p. 13).
Em síntese, o desenvolvimento emocional da criança com TDAH é resultado da motivação, disponibilidade adaptativa e interatividade social no espaço onde ela aprende. Nesse entendimento, a rede de apoio se constitui justamente nesses fatores e incentiva a criança a tomar decisões e regular suas emoções. Dessa forma, a criança obterá um desenvolvimento emocional saudável e bem-estar garantido.
4. METODOLOGIA
A metodologia do presente estudo se trata de uma pesquisa baseada em uma abordagem qualitativa, com objetivo descritivo e exploratório, através de uma revisão sistemática de literatura.
A metodologia qualitativa é uma abordagem de pesquisa que se emparelha efetivamente com a revisão sistemática, a qual, conforme Okoli (2019), denomina-se pela revisão de literatura e tem como propósito sistematizar as informações de estudos de um determinado campo de conhecimento e integrar os resultados obtidos. Para Okoli (2019), a revisão sistemática favorece uma comunicação entre diferentes abordagens de pesquisas, até mesmo com objetivos distintos.
Neste seguimento, a abordagem qualitativa é totalmente ideal para a realização de pesquisa conduzida por uma literatura de revisão sistemática, principalmente pelo caráter investigativo e exploratório ao se realizar os estudos dos artigos científicos. O tema do TDAH é muito frequente em múltiplas dissertações que abordam sobre psicologia da educação e desenvolvimento, no entanto o aprofundamento dessa temática pouco leva a citar a rede de apoio nas escolas. Por isso, uma revisão sistemática que explore especificamente conteúdos sobre a rede de apoio em estudos sobre crianças com TDAH é relevante para enriquecer o conhecimento na comunidade acadêmica.
Outro fator interessante sobre a metodologia qualitativa em revisão sistemática é a eficácia na exploração no estudo das ações da humanização de saúde (De-La-Torre-Ugarte-Guanilo; Takahashi, 2011). Nogueira-Martins e Bógus (2004) enfatizam que a abordagem qualitativa é refletida em estudos de significados, ressignificações, símbolos, simbolizações e representações sociais, levando em consideração um olhar humanizado necessário para dimensões institucionais como a saúde. A pesquisa qualitativa é consideravelmente útil para dados e temas que foram pouco abordados, como o uso da rede de apoio em crianças com TDAH.
Em pesquisas nas quais o ser humano é o principal objeto de estudo, tal como seus estigmas sociais em meio a civilização, o conhecimento é formado a partir da subjetividade adquirida através da experiência, o que caracteriza a metodologia qualitativa em três aspectos: epistemológico, distinção de dados a serem coletados e método de análise (Nogueira-Martins; Bógus, 2004). Esses aspectos da pesquisa qualitativa são as forças necessárias para a revisão sistemática deferir espontaneamente a compreensão das teses, problematização, resultados, instrumentos de coleta, público-alvo, intervenções, entre outros elementos dissertativos, através de múltiplos estudos, com finalidade de filtrar o tema a ser explorado.
5. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Realizou-se a revisão sistemática por intermédio de três bibliotecas virtuais: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e SciELO. Nestas plataformas, aplicou-se criteriosamente no sistema de busca avançada por inclusão e exclusão, com base nas palavras-chaves, linguagens escolhidas, área de estudo e recorte temporal da publicação, em função de filtrar e selecionar cada estudo concordante a essas etapas para a área de conhecimento.
No sistema de pesquisa, selecionaram-se como palavras-chaves: “Rede de Apoio”; “TDAH”; “Desenvolvimento Escolar e Emocional”; “Ensino Infantil”; “Ensino Fundamental” e “Psicologia”; As linguagens escolhidas para a seleção dos estudos foram o Português e o Inglês; A área de estudo buscada nos artigos científicos foi Psicologia; referente a ciências humanas; O recorte temporal pretendido para a revisão sistemática se delimitou entre os anos de 2021 e 2026.
No processo de busca dos estudos para a revisão sistemática, na etapa da identificação, os resultados demonstraram-se escassos: 5 artigos em BDTD, 1 artigo em BVS e nenhum em SciELO. Totalizaram-se 6 estudos encontrados, sem duplicações, os quais tiveram proximidade com o tema e a área de estudo planejados. Na etapa da seleção, foram excluídos 4 artigos de diferentes linhas de estudo da plataforma BDTD, mantendo 1 artigo da BDTD e 1 artigo da BVS, totalizando 2 artigos para a próxima etapa. Na elegibilidade, realizando a leitura de cada material, 1 artigo foi excluído por apresentar enfoque do objetivo de pesquisa variado. Na última etapa, na inclusão para a análise, restou apenas 1 estudo pertencente à plataforma BVS.
Cada etapa de pesquisa por meio de revisão sistemática pode ser visualizada através do seguinte fluxograma:
Figura 1.
Tabela 1.
Ordem | Tipo | Autor (a) | Objetivo | Instituição / Revista / Periódico |
01 | Artigo | KANG, Melissa | Entendendo a relação entre os sintomas de TDAH em crianças do Ensino Fundamental e as práticas de apoio às necessidades realizadas por professores | Journal of Attention Disorders, 30(7), 887-900 |
Fonte: Elaboração própria
O estudo selecionado é intitulado como “Understanding the Relationship Between Early Elementary Children’s ADHD Symptoms and Teachers’ Needs Supportive Practises” ou, traduzindo ao português, “Entendendo a relação entre os sintomas de TDAH em crianças do Ensino Fundamental e as práticas de apoio às necessidades realizadas por professores” (KANG, 2026). Este estudo tem como objetivo o entendimento da associação entre os sintomas do TDAH no Ensino Fundamental com as práticas de apoio às necessidades através dos professores. Os métodos utilizados foram baseados em avaliações de percepção e desempenho de 154 alunos do primeiro ano e 25 professores de três instituições de ensino.
Nos resultados das avaliações, percebeu-se que os alunos, em maioria do sexo masculino, que demonstraram sintomas mais acentuados de TDAH e problemas de conduta tiveram pior qualidade na relação de professor-aluno, e, consequentemente, receberam menos práticas de apoio e autonomia, afetando negativamente o desempenho escolar e motivação desses alunos. Nesse estudo, evidencia-se que a relação entre professores e alunos pode ser um fator chave para a realização da rede de apoio.
Em analogia, Vygotsky (1987) enfatiza a importância da socialização no processo de ensino e aprendizagem, bem como a relação e autonomia entre a pessoa que ensina e quem aprende, caracterizando a movimentação da rede de apoio. Analisando os resultados de Kang (2026), torna-se perceptível que os sintomas do TDAH em crianças do Ensino Fundamental, como a desmotivação nas atividades, problemas de condutas e falta no desempenho social e escolar influenciam de fato a relação com os professores, principalmente quando se falta apoio aos educadores em lidar com esses sintomas, o que pode se tornar uma barreira para a aplicação da rede de apoio.
Por esse entendimento, o estudo de Kang (2026) conclui que os sintomas do TDAH estão relacionados com pior relação professor-aluno e menos prática de apoio e, para contornar esta problemática, é preciso reverter essa tendência focando em aplicar as práticas de apoio justamente aos casos de TDAH em crianças com intervenções precoces as quais busquem melhorar a relação entre os educadores e alunos e também oferecer desde cedo o apoio sistematizado que engaje na motivação do processo de aprendizagem aos professores e alunos nas escolas.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Partindo da análise do estudo selecionado, destaca-se a relevância do uso da rede de apoio para a relação entre os professores e os alunos com TDAH, de modo que, com a aproximação e o apoio à criança com os sintomas do transtorno de aprendizagem, tanto o desempenho quanto a motivação do aluno são fortalecidos com a prática de apoio.
No olhar da Psicologia, a rede de apoio não está voltada apenas para beneficiar o desenvolvimento emocional da criança com TDAH no processo escolar, pois também auxilia os professores e os familiares a entenderem e lidarem com as necessidades decorrentes dos sintomas do transtorno. Em razão disso, a rede de apoio deve ser uma ação conjunta e institucional, ampliando-se tanto para a dimensão social e familiar quanto para as escolas, visto que é uma prática que requer a participação das pessoas próximas da criança com TDAH através do incentivo ao aprendizado.
Como se observa no trabalho de Kang (2026), ainda há uma acentuada necessidade de implementar ações que desenvolvam a rede de apoio para melhorar a qualidade da relação dos professores com as crianças com TDAH, tornando o processo de aprendizagem mais assertivo e qualificado para a autonomia do estudante. Com isto, a criança desenvolve de maneira saudável sua inteligência emocional e conduta.
Em vista disso, a rede de apoio é benéfica e estimula o desenvolvimento escolar e emocional da criança com TDAH no Ensino Infantil e Fundamental, além de que melhora a relação do aluno com os educadores, sendo um fator essencial para a aprendizagem nas escolas. Com a rede de apoio desde a infância, o aluno com TDAH se sente mais aceito na sociedade e mais liberto para se desenvolver durante a vida escolar, e as práticas de apoio previnem a criança dos problemas emocionais.
Dessa maneira, através desta pesquisa por revisão sistemática, espera-se que haja a conscientização da importância da rede de apoio para o desempenho escolar e emocional da criança com TDAH, incentivando as escolas e as famílias a fornecerem o apoio necessário através da aproximação desses alunos com dificuldades na aprendizagem. A rede de apoio tem o propósito de facilitar a relação e o processo de ensino e aprendizagem das pessoas que fazem parte dela, especialmente para as crianças com TDAH.
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2 Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
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