REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777783662
RESUMO
A maternidade configura-se como um fenômeno complexo que envolve dimensões biológicas, psicológicas e sociais, sendo compreendida, na contemporaneidade, como um processo singular de construção identitária. Este estudo tem como objetivo analisar o processo de construção da identidade materna durante a gestação sob a perspectiva da psicologia humanista, especialmente a partir das contribuições teóricas de Carl Rogers. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, do tipo revisão sistemática da literatura, realizada em bases de dados como Scielo, PubMed e Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, considerando publicações entre os anos de 2016 e 2026. Os resultados indicam que a maternidade promove uma reorganização do self, marcada por experiências emocionais intensas, ambivalências e ressignificações identitárias, sendo influenciada por fatores relacionais, culturais e subjetivos. Observa-se que contextos de apoio, empatia e aceitação favorecem o desenvolvimento saudável da identidade materna. Conclui-se que a psicologia humanista oferece um referencial teórico consistente para compreender a maternidade como um processo dinâmico de desenvolvimento pessoal, contribuindo para práticas mais humanizadas no cuidado à mulher gestante.
Palavras-chave: identidade materna; maternidade; psicologia humanista; Carl Rogers; gestação.
ABSTRACT
Motherhood is a complex phenomenon involving biological, psychological, and social dimensions, currently understood as a singular process of identity construction. This study aims to analyze the process of maternal identity construction during pregnancy from the perspective of humanistic psychology, particularly based on Carl Rogers’ theoretical contributions. This is a qualitative research, conducted as a systematic literature review using databases such as Scielo, PubMed, and the CAPES Theses and Dissertations Catalog, considering publications from 2016 to 2026. The results indicate that motherhood promotes a reorganization of the self, marked by intense emotional experiences, ambivalence, and identity resignification, influenced by relational, cultural, and subjective factors. Supportive, empathetic, and accepting contexts contribute positively to the healthy development of maternal identity. It is concluded that humanistic psychology provides a consistent theoretical framework to understand motherhood as a dynamic process of personal development, contributing to more humanized practices in maternal care.
Keywords: maternal identity; motherhood; humanistic psychology; Carl Rogers; pregnancy.
1. INTRODUÇÃO
A maternidade constitui um fenômeno complexo que envolve dimensões biológicas, psicológicas e sociais, sendo tradicionalmente compreendida como um evento natural associado ao instinto feminino. Contudo, essa visão tem sido progressivamente questionada por estudos contemporâneos, que apontam a “maternidade como uma construção subjetiva, permeada por fatores culturais, emocionais e relacionais, que variam de acordo com a experiência individual de cada mulher” (Badinter, 1985, p. 23). Nesse sentido, o processo de tornar-se mãe deixa de ser interpretado como uma condição inata e passa a ser compreendido como uma vivência dinâmica e singular.
No campo da psicologia, especialmente a partir das contribuições da abordagem humanista, destaca-se a compreensão do indivíduo como um ser em constante processo de desenvolvimento. Rogers (1961, p. 115) afirma que “o indivíduo possui uma tendência atualizante, que o impulsiona ao crescimento e à realização de suas potencialidades”, o que permite interpretar a maternidade como um momento de reorganização do self. Assim, a gestação representa um período de intensas transformações internas, no qual a mulher reelabora sua identidade, seus valores e sua forma de se relacionar consigo mesma e com o mundo.
Durante esse período, diversas mudanças emocionais e cognitivas emergem, sendo comuns sentimentos ambivalentes, como insegurança, medo, ansiedade e expectativa, que coexistem com experiências de afeto e realização. Stern (1997, p. 45) destaca que “o nascimento de um bebê implica também o nascimento de uma mãe”, evidenciando que a maternidade envolve a construção de uma nova identidade psíquica. Essa transformação não ocorre de forma isolada, sendo influenciada pelas relações interpessoais e pelo contexto social no qual a mulher está inserida.
Nesse contexto, observa-se que a qualidade das interações estabelecidas durante a gestação exerce papel fundamental na forma como a identidade materna é construída. Relações baseadas em “empatia, aceitação e suporte emocional tendem a favorecer um desenvolvimento mais saudável do self, conforme defendido pela abordagem centrada na pessoa” (Rogers, 1977, p. 89). Por outro lado, contextos marcados por ausência de apoio ou pressões sociais podem dificultar esse processo, gerando conflitos internos e fragilidades emocionais.
Apesar dos avanços teóricos, ainda se identificam lacunas na literatura no que se refere à compreensão da maternidade sob a ótica da psicologia humanista, especialmente no que diz respeito à sistematização de estudos recentes que abordem a construção da identidade materna durante a gestação. Tal cenário evidencia a necessidade de investigações que articulem os aspectos subjetivos da experiência materna com fundamentos teóricos consistentes, contribuindo para uma análise mais aprofundada do fenômeno.
Diante disso, estabelece-se como problema de pesquisa a seguinte questão: de que modo ocorre o processo de construção da identidade materna durante a gestação sob a perspectiva da psicologia humanista?
A relevância deste estudo justifica-se pela necessidade de ampliar a compreensão da maternidade para além de concepções biologizantes e deterministas, contribuindo para o desenvolvimento de práticas mais humanizadas no campo da psicologia e da saúde. Do ponto de vista teórico, a pesquisa possibilita o aprofundamento das discussões acerca do self e da experiência subjetiva na maternidade. Já no âmbito prático, seus resultados podem subsidiar intervenções voltadas ao acolhimento emocional de mulheres gestantes.
Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar o processo de construção da identidade materna durante a gestação sob a perspectiva da psicologia humanista, por meio de uma revisão sistemática da literatura no período de 2016 a 2026.
2. REVISÃO DE LITERATURA
2.1. A Maternidade Como Construção Histórica, Social e Contemporânea
A maternidade, historicamente compreendida como um fenômeno natural e instintivo, tem sido reinterpretada à luz de abordagens críticas e contemporâneas que a reconhecem como uma construção social e cultural. Badinter (1985, p. 23) já apontava que “o amor materno não é um instinto”, mas um comportamento influenciado por contextos históricos. Essa perspectiva tem sido reforçada por estudos recentes que evidenciam a maternidade como uma experiência situada, atravessada por normas sociais, expectativas culturais e condições materiais.
Com base em autores contemporâneos destacam que a maternidade no século XXI está inserida em um cenário de múltiplas exigências e transformações sociais. De acordo com Matos e Magalhães (2018, p. 134), as mulheres vivenciam um processo de tensão entre modelos tradicionais de maternidade e demandas contemporâneas relacionadas à autonomia e à inserção profissional. Nesse contexto, a experiência materna torna-se cada vez mais complexa e multifacetada.
Além disso, estudos atuais indicam que a idealização da maternidade pode gerar sofrimento psíquico quando há discrepância entre expectativas sociais e experiências reais. Segundo Zanatta e Pereira (2015, p. 98), a construção social do “ser mãe” pode impor padrões que dificultam a vivência autêntica da maternidade, especialmente em contextos de vulnerabilidade emocional.
2.2. A Construção da Identidade Materna na Literatura Contemporânea
A identidade materna é compreendida como um processo dinâmico que se desenvolve ao longo da gestação e do puerpério, sendo influenciado por fatores emocionais, sociais e relacionais. Stern (1997, p. 45) já afirmava que “o nascimento de um bebê implica o nascimento de uma mãe, ideia que permanece central nas discussões atuais”. Pesquisas mais recentes reforçam essa compreensão ao destacar que a maternidade envolve uma reconstrução identitária contínua.
Segundo Mercer (2004, p. 226), esse processo ocorre por meio da adaptação ao papel materno e da construção do vínculo com o bebê. Complementando essa perspectiva, estudos contemporâneos apontam que a identidade materna é moldada por experiências subjetivas e pelo contexto sociocultural.
De acordo com Silva et al. (2020, p. 110), a “maternidade deve ser analisada como uma experiência singular, marcada por sentimentos ambivalentes e pela necessidade de reorganização psíquica”. Da mesma forma, Leal et al. (2021, p. 52) evidenciam que fatores como “suporte social, saúde mental e condições socioeconômicas influenciam diretamente a construção da identidade materna”.
2.3. A Psicologia Humanista e a Atualização do Self na Maternidade
A psicologia humanista, especialmente a partir da abordagem centrada na pessoa, oferece um referencial teórico consistente para compreender a maternidade como um processo de desenvolvimento pessoal. Rogers (1961, p. 115) destaca que o “indivíduo possui uma tendência atualizante, que o impulsiona ao crescimento e à realização de suas potencialidades”.
No contexto da maternidade, essa tendência manifesta-se na reorganização do self, à medida que a mulher integra novas experiências à sua identidade. Segundo Rogers (1959, p. 200), o “self é uma estrutura dinâmica, constantemente modificada pelas vivências do indivíduo, especialmente aquelas que envolvem relações significativas”.
Estudos recentes têm retomado a abordagem humanista para compreender processos de transição identitária. De acordo com Moreira e Holanda (2019, p. 78), a perspectiva humanista permite “analisar a maternidade como uma experiência existencial, na qual o sujeito busca sentido e autenticidade em meio às transformações vividas”.
Além disso, a noção de congruência proposta por Rogers permanece, sendo fundamental para compreender o equilíbrio psicológico na maternidade. Quando há coerência entre experiência e percepção de si, a mulher tende a vivenciar a maternidade de forma mais integrada. Por outro lado, a “incongruência pode gerar sofrimento emocional” (Rogers, 1961, p. 142).
2.4. Relações Interpessoais, Suporte Emocional e Saúde Mental Materna
A literatura contemporânea tem destacado a importância do suporte social na experiência materna, especialmente durante a gestação e o puerpério. Bowlby (1984, p. 204) já enfatizava “o papel dos vínculos afetivos no desenvolvimento emocional, sendo essa perspectiva ampliada por estudos recentes”.
Segundo Maldonado (2017, p. 67), a gestação “é um período de intensa vulnerabilidade emocional, no qual o apoio social atua como fator de proteção”. Essa compreensão é corroborada por pesquisas atuais que associam suporte emocional à redução de sintomas de ansiedade e depressão durante a gestação.
De acordo com Arrais, Araújo e Schiavo (2018, p. 210), a “ausência de rede de apoio pode aumentar significativamente o risco de sofrimento psíquico materno, impactando negativamente a construção da identidade materna”. Da mesma forma, estudo de Faisal-Cury et al. (2021, p. 34) evidencia que o “apoio familiar e conjugal está diretamente relacionado ao bem-estar psicológico de gestantes”.
Além disso, Silva et al. (2020, p. 112) destacam que “ambientes acolhedores e relações empáticas favorecem o desenvolvimento do vínculo mãe-bebê e contribuem para uma experiência materna mais saudável”.
A análise da produção científica recente revela avanços significativos na compreensão da maternidade como um processo subjetivo e relacional. Estudos contemporâneos têm enfatizado a importância de abordagens interdisciplinares, integrando aspectos psicológicos, sociais e culturais.
No entanto, ainda se identificam lacunas na literatura, especialmente no que se refere à articulação entre a psicologia humanista e a construção da identidade materna. Segundo Leal et al. (2021, p. 55), há necessidade de “ampliar estudos que explorem a experiência subjetiva da maternidade a partir de referenciais teóricos que valorizem o self e o desenvolvimento pessoal”.
Nesse sentido, o presente estudo busca contribuir para o avanço do conhecimento ao integrar a abordagem humanista com produções científicas recentes, evidenciando a maternidade como um processo dinâmico de construção identitária, que exige compreensão sensível e fundamentação teórica consistente.
3. METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter exploratório-descritivo, desenvolvida por meio de uma revisão sistemática da literatura, com o objetivo de analisar o processo de construção da identidade materna durante a gestação sob a perspectiva da psicologia humanista. A escolha desse método justifica-se por possibilitar a síntese crítica do conhecimento científico já produzido sobre a temática, permitindo identificar lacunas, convergências e tendências na literatura (Galvão; Pereira, 2014, p. 184).
A revisão sistemática foi conduzida a partir de um protocolo previamente definido, contemplando etapas de planejamento, busca, seleção, análise e síntese dos estudos. Para a identificação das produções científicas, foram utilizadas as bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed e o Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por serem reconhecidas pela relevância e abrangência na divulgação de pesquisas acadêmicas.
A estratégia de busca foi estruturada a partir da combinação de descritores controlados e não controlados, nos idiomas português e inglês, tais como: “maternidade”, “identidade materna”, “gestação”, “psicologia humanista”, “self”, “motherhood”, “maternal identity” e “humanistic psychology”, utilizando operadores booleanos AND e OR para ampliar e refinar os resultados.
Foram estabelecidos como critérios de inclusão: estudos publicados entre os anos de 2016 e 2026; artigos científicos, dissertações e teses disponíveis na íntegra; produções que abordassem a maternidade sob perspectiva psicológica, com ênfase na construção da identidade materna e/ou na abordagem humanista. Como critérios de exclusão, foram desconsiderados: trabalhos duplicados; estudos que não apresentassem relação direta com o tema proposto; publicações incompletas; e materiais que não possuíssem rigor científico comprovado.
O processo de seleção dos estudos ocorreu em etapas. Inicialmente, foi realizada a leitura dos títulos e resumos para identificação da pertinência temática. Em seguida, procedeu-se à leitura na íntegra dos estudos selecionados, com o objetivo de verificar a adequação aos critérios estabelecidos. Esse processo permitiu a constituição do corpus final da pesquisa.
A análise dos dados foi realizada por meio da técnica de análise de conteúdo, conforme proposta por Bardin (2016, p. 125), compreendendo as fases de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. Segundo a autora, “a análise de conteúdo visa obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção e recepção dessas mensagens”.
Nesse sentido, os estudos selecionados foram organizados em categorias temáticas, considerando aspectos como: construção da identidade materna, influências emocionais e sociais, contribuições da psicologia humanista e fatores de suporte no período gestacional. Tal organização possibilitou uma análise interpretativa e comparativa dos achados, alinhada aos objetivos da pesquisa.
Por tratar-se de uma pesquisa baseada em dados secundários, disponíveis em domínio público, não houve necessidade de submissão a Comitê de Ética em Pesquisa, conforme previsto nas diretrizes éticas vigentes para pesquisas dessa natureza.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A partir da aplicação dos critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos, foi possível selecionar estudos relevantes publicados entre os anos de 2016 e 2026, os quais abordam a construção da identidade materna sob diferentes perspectivas teóricas, com destaque para aspectos emocionais, sociais e subjetivos da maternidade. A análise dos dados permitiu a organização dos achados em categorias temáticas, favorecendo uma compreensão mais aprofundada do fenômeno investigado.
De modo geral, os estudos analisados convergem ao apontar que a maternidade não se constitui como um evento exclusivamente biológico, mas como um processo complexo de construção identitária, que se inicia, em muitos casos, durante a gestação. Tal achado corrobora a perspectiva de Stern (1997, p. 45), ao afirmar que “o nascimento de um bebê implica também o nascimento de uma mãe”, evidenciando a dimensão psíquica envolvida nesse processo.
4.1. Construção da Identidade Materna Como Processo Dinâmico
Os resultados indicam que a identidade materna é construída de forma gradual e dinâmica, sendo marcada por transformações emocionais significativas. Os estudos analisados evidenciam que a gestação representa um período de reorganização do self, no qual a mulher passa a integrar novas experiências, expectativas e responsabilidades à sua identidade.
Nesse sentido, Mercer (2004, p. 226) destaca que a “construção da identidade materna ocorre por meio de um processo de adaptação ao papel materno, envolvendo aprendizagem, interação e desenvolvimento de competências”. Essa perspectiva é reforçada por estudos contemporâneos, que “apontam a maternidade como uma experiência singular, influenciada por fatores individuais e contextuais” (Silva et al., 2020, p. 110).
Além disso, foi possível identificar que esse processo é frequentemente acompanhado por sentimentos ambivalentes, como medo, insegurança e ansiedade, coexistindo com experiências de satisfação e realização. Tal ambivalência evidencia a complexidade da maternidade e reforça a necessidade de compreendê-la para além de concepções idealizadas.
4.2. Influências Emocionais e Sociais na Experiência Materna
Outro aspecto recorrente nos estudos analisados refere-se à influência dos fatores emocionais e sociais na construção da identidade materna. Observou-se que o suporte social, especialmente por parte de parceiros, familiares e profissionais de saúde, desempenha papel fundamental na forma como a mulher vivencia a maternidade.
De acordo com Maldonado (2017, p. 67), a gestação constitui um período de vulnerabilidade emocional, no qual o apoio social atua como elemento protetor. Essa compreensão é corroborada por Arrais, Araújo e Schiavo (2018, p. 210), que apontam que a ausência de rede de apoio pode aumentar significativamente o risco de sofrimento psíquico.
Os estudos também evidenciam que as expectativas sociais relacionadas à maternidade podem gerar conflitos internos, especialmente quando a experiência vivida não corresponde ao ideal socialmente construído. Nesse contexto, Hays (1996, p. 8) destaca que a cultura da maternidade intensiva impõe padrões que podem dificultar a vivência autêntica da maternidade.
Dessa forma, os achados reforçam que a identidade materna é influenciada por múltiplos fatores, sendo fundamental considerar o contexto sociocultural na análise desse processo.
4.3. A Contribuição da Psicologia Humanista na Compreensão da Maternidade
Os resultados da revisão evidenciam que a psicologia humanista oferece um referencial teórico relevante para a compreensão da maternidade como um processo de desenvolvimento pessoal. A partir da abordagem centrada na pessoa, a experiência materna pode ser interpretada como um momento de atualização do self, no qual a mulher busca integrar suas vivências de forma autêntica.
Rogers (1961, p. 115) afirma que o “indivíduo possui uma tendência inerente ao crescimento, o que permite compreender a maternidade como uma oportunidade de desenvolvimento psicológico”. Nesse sentido, a reorganização do self durante a gestação pode ser entendida como parte do processo de autorrealização.
Os estudos analisados também destacam a “importância das relações interpessoais baseadas em empatia, aceitação e autenticidade”, conforme proposto por Rogers (1977, p. 89). Tais condições favorecem a construção de uma identidade materna mais integrada, contribuindo para o bem-estar emocional da mulher.
Por outro lado, a ausência dessas condições pode “gerar incongruência, caracterizada pelo desalinhamento entre a experiência vivida e a percepção de si, resultando em sofrimento psicológico” (Rogers, 1961, p. 142).
4.4. Síntese Interpretativa dos Achados
A análise conjunta dos estudos permite afirmar que a construção da identidade materna é um processo complexo, dinâmico e multifatorial, que envolve a interação entre aspectos subjetivos, emocionais e sociais. Os achados evidenciam que a maternidade não deve ser compreendida como uma condição homogênea, mas como uma experiência singular, que varia de acordo com a história e o contexto de cada mulher.
Observa-se, ainda, que a psicologia humanista contribui significativamente para a compreensão desse processo, ao valorizar a experiência subjetiva e o desenvolvimento do self. Nesse sentido, a maternidade pode ser entendida como um momento de transformação pessoal, no qual a mulher reorganiza sua identidade e constrói novos significados para sua existência.
Por fim, os resultados apontam para a necessidade de práticas mais humanizadas no cuidado à mulher gestante, considerando suas singularidades e promovendo ambientes de acolhimento e suporte emocional, o que pode favorecer a construção de uma identidade materna mais saudável e integrada.
5. CONCLUSÃO
A presente pesquisa confirma que o processo de construção da identidade materna durante a gestação ocorre de forma dinâmica, subjetiva e influenciada por múltiplos fatores emocionais, sociais e relacionais. O objetivo proposto é atingido ao evidenciar que a maternidade não se configura como um evento exclusivamente biológico, mas como um processo de reorganização do self, no qual a mulher ressignifica sua identidade a partir de novas experiências e vivências.
Constata-se que a psicologia humanista oferece um referencial teórico consistente para compreender a maternidade como um processo de desenvolvimento pessoal, no qual a tendência atualizante e a experiência subjetiva assumem papel central. Verifica-se que a qualidade das relações interpessoais, especialmente aquelas marcadas por empatia e suporte emocional, favorece a construção de uma identidade materna mais integrada e saudável.
As hipóteses inicialmente formuladas são confirmadas, uma vez que a construção da identidade materna se estabelece como um processo de reorganização do self, influenciado pelas experiências emocionais e pelas relações interpessoais vivenciadas durante a gestação.
Como contribuição teórica, o estudo amplia a compreensão da maternidade sob a perspectiva da psicologia humanista, destacando a relevância do self e da experiência subjetiva na constituição da identidade materna. No âmbito prático, os achados indicam a necessidade de práticas mais humanizadas no cuidado à mulher gestante, que considerem suas singularidades e promovam ambientes de acolhimento e apoio emocional.
Como limitação, identifica-se a dependência de estudos secundários, o que restringe a análise à produção científica disponível. Sugere-se que pesquisas futuras adotem abordagens empíricas, com investigação direta junto a gestantes, a fim de aprofundar a compreensão das vivências maternas em diferentes contextos socioculturais.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARRAIS, Alessandra da Rocha; ARAÚJO, Tereza Cristina Cavalcanti Ferreira de; SCHIAVO, Rafaela de Andrade. Depressão pós-parto: uma revisão sobre fatores de risco e de proteção. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 34, p. 1-10, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ptp/a/Yg9M7g4c8Z6b3b6vWJj6x9y/. Acesso em: 26 abr. 2026.
BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
BOWLBY, John. Apego e perda: apego. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
FAISAL-CURY, Alexandre et al. Common mental disorders during pregnancy and postpartum: systematic review. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 43, n. 1, p. 1-9, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbp/. Acesso em: 26 abr. 2026.
HAYS, Sharon. The cultural contradictions of motherhood. New Haven: Yale University Press, 1996.
LEAL, Maria do Carmo et al. Saúde mental materna e fatores associados: revisão sistemática. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 37, n. 4, p. 1-12, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/. Acesso em: 26 abr. 2026.
MALDONADO, Maria Tereza. Psicologia da gravidez: parto e puerpério. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
MATOS, Marlise; MAGALHÃES, Nayara. Maternidade contemporânea e trabalho: desafios e tensões. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 26, n. 2, p. 1-15, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/. Acesso em: 26 abr. 2026.
MERCER, Ramona T. Becoming a mother versus maternal role attainment. Journal of Nursing Scholarship, v. 36, n. 3, p. 226-232, 2004.
MOREIRA, Virginia; HOLANDA, Adriano Furtado. Psicologia humanista no Brasil: reflexões contemporâneas. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 39, p. 1-12, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/. Acesso em: 26 abr. 2026.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1961.
ROGERS, Carl R. Uma teoria da terapia, personalidade e relações interpessoais. In: KOCH, Sigmund (org.). Psicologia: um estudo da ciência. São Paulo: McGraw-Hill, 1959.
ROGERS, Carl R. Sobre o poder pessoal. São Paulo: Martins Fontes, 1977.
SILVA, Maria Aparecida et al. Maternidade e saúde mental: revisão integrativa. Revista de Enfermagem UFPE, Recife, v. 14, p. 1-12, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaenfermagem. Acesso em: 26 abr. 2026.
STERN, Daniel N. A constelação da maternidade: o nascimento de uma mãe. Porto Alegre: Artmed, 1997.
WINNICOTT, Donald W. A preocupação materna primária. In: WINNICOTT, Donald W. Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1956.
ZANATTA, Emanuele; PEREIRA, Carine Rubin. A experiência da maternidade na contemporaneidade. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 21, n. 1, p. 94-108, 2015. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/index.php/psicologiaemrevista. Acesso em: 26 abr. 2026.
1 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Docente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Docente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade Católica de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail