TECENDO LETRAS, CRIANDO SENTIDOS: A PRÁTICA PEDAGÓGICA NA ALFABETIZAÇÃO CONTEMPORÂNEA

WEAVING LETTERS, CREATING MEANINGS: PEDAGOGICAL PRACTICE IN CONTEMPORARY LITERACY EDUCATION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782617103

RESUMO
A alfabetização constitui um dos pilares fundamentais da educação básica, pois possibilita aos estudantes o desenvolvimento de habilidades de leitura e escrita indispensáveis à participação social, ao acesso ao conhecimento e ao exercício da cidadania. As transformações sociais, culturais e tecnológicas ocorridas nas últimas décadas têm provocado mudanças significativas nas práticas educativas, exigindo novas abordagens para o processo de alfabetização. Nesse contexto, o presente artigo tem como objetivo analisar como as práticas pedagógicas contemporâneas contribuem para o desenvolvimento da alfabetização e do letramento nos anos iniciais da educação básica. A pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, de abordagem qualitativa, realizada por meio da análise de obras e estudos relacionados à alfabetização, ao letramento e às práticas pedagógicas. Os resultados evidenciam que estratégias de ensino contextualizadas, a valorização dos conhecimentos prévios dos estudantes, a formação continuada dos professores e a utilização de recursos tecnológicos favorecem a aprendizagem significativa da leitura e da escrita. Conclui-se que a integração entre alfabetização e letramento, associada a práticas pedagógicas reflexivas e inclusivas, contribui para a formação de sujeitos capazes de utilizar a linguagem escrita de forma crítica e participativa em diferentes contextos sociais.
Palavras-chave: Alfabetização; Letramento; Prática pedagógica; Ensino-aprendizagem; Educação básica.

ABSTRACT
Literacy is one of the fundamental pillars of basic education, as it enables students to develop reading and writing skills essential for social participation, access to knowledge, and citizenship. Social, cultural, and technological transformations over recent decades have significantly impacted educational practices, requiring new approaches to literacy education. In this context, this article aims to analyze how contemporary pedagogical practices contribute to the development of literacy in the early years of basic education. This study is characterized as a qualitative bibliographic research based on the analysis of works and studies related to literacy and pedagogical practices. The results indicate that contextualized teaching strategies, the appreciation of students’ prior knowledge, continuing teacher education, and the use of technological resources contribute to meaningful reading and writing learning. It is concluded that the integration of literacy instruction with social literacy practices, combined with reflective and inclusive pedagogical approaches, contributes to the formation of individuals capable of using written language critically and actively in different social contexts.
Keywords: Literacy; Pedagogical practice; Teaching and learning; Basic education.

1. INTRODUÇÃO

A alfabetização representa uma das etapas mais significativas do percurso escolar, uma vez que possibilita aos estudantes o acesso aos conhecimentos sistematizados e às diferentes formas de participação social mediadas pela leitura e pela escrita. Ao longo das últimas décadas, as discussões acerca da alfabetização passaram por profundas transformações, especialmente em razão das mudanças sociais, culturais e tecnológicas que influenciam diretamente os processos educativos.

Historicamente, a alfabetização esteve associada à aprendizagem do código escrito, centrando-se na aquisição das relações entre fonemas e grafemas. Entretanto, as pesquisas desenvolvidas no campo educacional ampliaram essa compreensão ao demonstrar que aprender a ler e escrever envolve muito mais do que dominar aspectos mecânicos da escrita. Nessa perspectiva, a alfabetização passou a ser compreendida em estreita articulação com o letramento, entendendo-se que a apropriação da língua escrita deve ocorrer em contextos significativos e socialmente contextualizados (SOARES, 2018).

As contribuições de Ferreiro e Teberosky (1999) desempenharam papel fundamental nesse processo ao evidenciarem que a criança constrói hipóteses sobre a escrita desde muito cedo, participando ativamente da elaboração de conhecimentos acerca do sistema de escrita alfabética. Essa compreensão provocou importantes mudanças nas práticas pedagógicas, deslocando o foco do ensino exclusivamente transmissivo para abordagens que valorizam os processos de construção do conhecimento.

Paralelamente, as reflexões de Freire (2011) contribuíram para ampliar a compreensão da leitura e da escrita como práticas sociais e políticas. Para o autor, a leitura do mundo precede a leitura da palavra, indicando que os processos de alfabetização devem considerar as experiências, os conhecimentos prévios e a realidade sociocultural dos educandos.

Na contemporaneidade, os desafios relacionados à alfabetização tornam-se ainda mais complexos em razão da diversidade de contextos escolares, das desigualdades educacionais e da crescente presença das tecnologias digitais. Tais fatores exigem que os professores desenvolvam práticas pedagógicas capazes de promover aprendizagens significativas e de atender às diferentes necessidades dos estudantes (ALMEIDA & AZEVEDO, 2020).

O ato de alfabetizar, na contemporaneidade, transcende a mera transmissão mecânica de um código linguístico abstrato. Diante das profundas transformações socioculturais que caracterizam a sociedade atual, a escola é desafiada a propiciar um ensino que capacite os sujeitos a interpretar, produzir e interagir criticamente com os múltiplos textos que circulam nos ambientes sociais. Essa conjuntura coloca em evidência a necessidade imperiosa de correlacionar os processos de aquisição da escrita com as práticas sociais de leitura, consolidando uma perspectiva que alie o domínio técnico ao uso funcional e emancipatório da linguagem.

Contudo, a efetivação dessa abordagem integrada depara-se com uma problematização central que reverbera diretamente no cotidiano escolar: de que maneira as práticas pedagógicas contemporâneas podem superar o fosso histórico entre a memorização de grafemas e fonemas e a formação de leitores e escritores de fato competentes? Essa indagação ganha contornos ainda mais complexos quando se observa a persistência de metodologias tradicionais fragmentadas, que desconsideram o percurso cognitivo do educando e tratam a escrita como um objeto puramente escolar, destituído de vitalidade e significação social.

A justificativa para a realização deste estudo reside na relevância teórica e prática de investigar os caminhos didáticos que possibilitam uma alfabetização integral. Compreender os mecanismos pedagógicos que sustentam o aprendizado da escrita é fundamental para fornecer subsídios que orientem a formação docente e a reestruturação das rotinas em sala de aula, de modo a reduzir os índices de analfabetismo funcional e garantir a permanência qualificada do estudante na instituição escolar. Mostrar de que forma os resultados obtidos teórica e politicamente na área podem contribuir para reverter o fracasso escolar nos anos iniciais é, portanto, o motivo central que impulsiona esta busca por respostas.

Diante desse cenário, estabelece-se como objetivo geral deste artigo analisar as contribuições e os impactos das práticas pedagógicas contemporâneas no processo de desenvolvimento da alfabetização e do letramento nos anos iniciais da educação básica. Especificamente, busca-se compreender a evolução conceitual da psicogênese da língua escrita, identificar as estratégias docentes que promovem a apropriação do sistema alfabético em consonância com o uso social da linguagem, e contextualizar os principais desafios e avanços políticos e tecnológicos que marcam o panorama educacional atual, fornecendo um quadro esquemático para a reflexão docente

2. ALFABETIZAÇÃO E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NA CONTEMPORANEIDADE

A alfabetização ocupa posição central no processo educacional, constituindo-se como um dos principais instrumentos para a formação intelectual, social e cultural dos indivíduos. Por meio dela, os estudantes desenvolvem habilidades relacionadas à leitura e à escrita que lhes permitem compreender o mundo, interagir com diferentes contextos sociais e construir conhecimentos ao longo de sua trajetória escolar. Entretanto, as transformações ocorridas na sociedade contemporânea têm ampliado as exigências relacionadas à formação dos sujeitos, demandando da escola práticas pedagógicas capazes de promover aprendizagens significativas e alinhadas às necessidades do tempo presente.

Nesse contexto, as discussões acerca da alfabetização passaram por importantes reformulações teóricas, especialmente a partir da compreensão de que o ensino da leitura e da escrita não se limita à aprendizagem do código linguístico. Atualmente, reconhece-se que a alfabetização envolve processos cognitivos, sociais, culturais e pedagógicos que influenciam diretamente a construção do conhecimento. Assim, compreender os fundamentos que orientam a alfabetização contemporânea torna-se indispensável para analisar as práticas pedagógicas desenvolvidas nos anos iniciais da educação básica e suas contribuições para o desenvolvimento integral dos estudantes.

Diante dessa perspectiva, este capítulo apresenta os principais referenciais teóricos relacionados à alfabetização, ao letramento, à aprendizagem da escrita, à atuação do professor alfabetizador e aos desafios enfrentados pela educação contemporânea, possibilitando uma reflexão aprofundada sobre os processos que permeiam a construção da leitura e da escrita no contexto escolar.

2.1. Alfabetização e Letramento na Contemporaneidade

As discussões sobre alfabetização têm ocupado lugar de destaque no cenário educacional brasileiro, especialmente diante das transformações ocorridas nas formas de produção, circulação e acesso às informações. Em uma sociedade marcada pela presença constante da linguagem escrita, compreender os processos relacionados à alfabetização torna-se fundamental para garantir a participação ativa dos indivíduos nos diferentes contextos sociais. Nesse sentido, a alfabetização não pode ser entendida apenas como uma etapa escolar destinada à aprendizagem das letras e palavras, mas como um processo complexo que envolve a construção de conhecimentos indispensáveis para a formação cidadã.

Durante muitos anos, predominou nas instituições de ensino uma concepção de alfabetização centrada prioritariamente na aprendizagem mecânica do sistema de escrita. Nessa perspectiva, o foco do trabalho pedagógico encontrava-se na memorização de letras, sílabas e palavras, sendo o sucesso do processo frequentemente associado à capacidade dos estudantes de decodificar textos escritos. Embora o domínio do sistema alfabético seja uma condição necessária para a aprendizagem da leitura e da escrita, essa compreensão mostrou-se insuficiente para atender às demandas educacionais contemporâneas, que exigem dos sujeitos competências mais amplas relacionadas ao uso social da linguagem escrita (REIS & SOARES, 2016).

A partir do avanço das pesquisas educacionais, especialmente aquelas desenvolvidas no campo da linguagem e da alfabetização, passou-se a reconhecer que aprender a ler e escrever envolve muito mais do que estabelecer correspondências entre sons e letras. A leitura e a escrita são práticas sociais presentes em diferentes espaços da vida cotidiana e assumem funções variadas conforme os contextos em que são utilizadas. Dessa forma, alfabetizar implica possibilitar aos estudantes não apenas o domínio do sistema de escrita alfabética, mas também a compreensão dos usos e significados atribuídos à linguagem escrita na sociedade (SOARES, 2018).

Nesse cenário, o conceito de letramento ganhou destaque nas discussões educacionais brasileiras. Segundo Soares (2018), o letramento refere-se à condição adquirida pelos indivíduos que participam de práticas sociais mediadas pela leitura e pela escrita. Trata-se de um conceito que amplia a compreensão tradicional da alfabetização ao considerar que o domínio técnico da escrita não garante, por si só, a capacidade de utilizar a linguagem escrita de maneira significativa nas diferentes situações da vida social.

A autora destaca que alfabetização e letramento são processos distintos, porém inseparáveis. Enquanto a alfabetização está relacionada à aprendizagem do sistema de escrita alfabética, o letramento envolve a inserção dos indivíduos nas práticas sociais que utilizam a leitura e a escrita como instrumentos de comunicação, informação, participação e construção de conhecimento (SOARES, 2018). Essa compreensão representa um importante avanço para o campo educacional, pois reconhece que o ensino da língua escrita deve contemplar simultaneamente aspectos linguísticos, cognitivos, culturais e sociais.

A articulação entre alfabetização e letramento exige mudanças significativas nas práticas pedagógicas desenvolvidas no ambiente escolar. Em vez de restringir o ensino à realização de exercícios repetitivos e descontextualizados, torna-se necessário promover situações que permitam aos estudantes interagir com diferentes gêneros textuais e compreender as funções sociais da escrita. Nessa perspectiva, a leitura de histórias, a produção de textos, a interpretação de diferentes tipos de documentos e a participação em projetos de leitura constituem experiências fundamentais para o desenvolvimento das competências leitoras e escritoras (DIOGO & GORETTE, 2011).

Além disso, a alfabetização contemporânea pressupõe o reconhecimento dos estudantes como sujeitos ativos no processo de aprendizagem. Essa compreensão aproxima-se das reflexões de Freire (2011), para quem a educação deve possibilitar aos indivíduos interpretar criticamente a realidade e atuar de forma consciente na transformação do mundo em que vivem. Segundo o autor, a leitura da palavra está diretamente relacionada à leitura do mundo, indicando que a aprendizagem da linguagem escrita não pode ocorrer de maneira dissociada das experiências sociais e culturais dos educandos.

Sob essa perspectiva, o trabalho pedagógico desenvolvido nos anos iniciais da educação básica deve considerar os conhecimentos prévios dos estudantes e valorizar suas vivências como elementos constitutivos do processo de aprendizagem. Quando a escola estabelece relações entre os conteúdos ensinados e a realidade dos educandos, favorece a construção de aprendizagens mais significativas e fortalece o interesse pela leitura e pela escrita (FREIRE, 2011).

Outro aspecto relevante refere-se à função social da alfabetização em uma sociedade cada vez mais marcada pela circulação de informações em diferentes suportes e linguagens. A expansão das tecnologias digitais modificou significativamente as formas de comunicação e ampliou as exigências relacionadas às competências de leitura e escrita. Atualmente, os indivíduos precisam interpretar textos multimodais, navegar por ambientes virtuais, selecionar informações e produzir conteúdos em diferentes plataformas. Tais demandas reforçam a necessidade de práticas pedagógicas que preparem os estudantes para atuar de forma crítica e competente em contextos cada vez mais complexos (ALMEIDA & AZEVEDO, 2020).

Nesse sentido, a alfabetização contemporânea não pode limitar-se ao ensino de habilidades básicas de leitura e escrita. É necessário promover o desenvolvimento de capacidades relacionadas à compreensão, interpretação, argumentação e produção de sentidos, possibilitando que os estudantes utilizem a linguagem escrita como instrumento de participação social e exercício da cidadania. Essa perspectiva amplia significativamente o papel da escola e atribui ao processo de alfabetização uma dimensão social e cultural que ultrapassa os limites da sala de aula.

As contribuições de Morais (2018) reforçam essa compreensão ao destacar que a alfabetização deve ser entendida como um direito fundamental dos indivíduos e como uma condição indispensável para a democratização do acesso ao conhecimento. Para o autor, as políticas educacionais e as práticas pedagógicas precisam estar comprometidas com a garantia de oportunidades efetivas de aprendizagem para todos os estudantes, considerando as desigualdades sociais que ainda marcam a realidade brasileira.

No contexto educacional contemporâneo, também se torna necessário reconhecer que os processos de alfabetização são influenciados por fatores diversos, incluindo condições socioeconômicas, acesso a recursos culturais, formação docente e políticas públicas educacionais. A compreensão desses elementos permite uma análise mais ampla dos desafios enfrentados pelas escolas e contribui para a elaboração de estratégias capazes de promover maior equidade no acesso à aprendizagem da leitura e da escrita (MORAIS, 2018).

Diante dessas reflexões, percebe-se que a alfabetização contemporânea constitui um processo complexo e multifacetado, que envolve tanto a aprendizagem do sistema de escrita quanto a participação em práticas sociais mediadas pela linguagem escrita. A integração entre alfabetização e letramento representa, portanto, um dos principais desafios e, ao mesmo tempo, uma das maiores possibilidades para a construção de práticas pedagógicas capazes de promover aprendizagens significativas e contribuir para a formação de sujeitos críticos, autônomos e participativos.

Assim, compreender a relação entre alfabetização e letramento torna-se essencial para a análise das práticas pedagógicas desenvolvidas nos anos iniciais da educação básica, uma vez que tais conceitos constituem fundamentos indispensáveis para a construção de propostas educacionais alinhadas às demandas da sociedade contemporânea e aos princípios de uma educação comprometida com a formação integral dos estudantes.

2.2. A Psicogênese da Língua Escrita e a Construção da Aprendizagem

A compreensão dos processos envolvidos na aprendizagem da leitura e da escrita passou por significativas transformações a partir das contribuições dos estudos sobre a psicogênese da língua escrita. Até meados do século XX, predominavam concepções que atribuíam a aprendizagem da escrita à repetição de exercícios, à memorização de símbolos e à reprodução de modelos previamente estabelecidos. Nessa perspectiva, a criança era frequentemente compreendida como receptora passiva das informações transmitidas pelo professor, cabendo-lhe reproduzir os conteúdos apresentados durante o processo de alfabetização. Contudo, as investigações desenvolvidas por Ferreiro e Teberosky (1999) contribuíram para modificar profundamente essa visão ao demonstrar que a criança participa ativamente da construção do conhecimento sobre a escrita.

Os estudos das autoras evidenciaram que a aprendizagem da língua escrita não ocorre de maneira mecânica ou automática. Ao contrário, as crianças elaboram hipóteses acerca do funcionamento da escrita desde muito cedo, mesmo antes de ingressarem formalmente na escola. Essas hipóteses são construídas por meio das interações que estabelecem com diferentes textos, símbolos e práticas sociais relacionadas à leitura e à escrita presentes em seu cotidiano (FERREIRO & TEBEROSKY, 1999).

Essa perspectiva trouxe importantes contribuições para a compreensão dos processos de alfabetização, pois passou a considerar que os estudantes constroem conhecimentos progressivamente, reorganizando suas ideias à medida que entram em contato com novas situações de aprendizagem. Dessa forma, o desenvolvimento da escrita não é resultado exclusivo da ação do professor, mas da interação constante entre o sujeito, o objeto de conhecimento e o ambiente sociocultural no qual está inserido.

Ferreiro e Teberosky (1999) identificaram que as crianças percorrem diferentes níveis de compreensão acerca da escrita até alcançarem o domínio do sistema alfabético. Em cada uma dessas etapas, elaboram explicações próprias para interpretar o funcionamento da linguagem escrita. Tais descobertas possibilitaram aos educadores compreender que os chamados "erros" produzidos pelos estudantes representam, na realidade, manifestações de conhecimentos em construção, constituindo importantes indicadores para o planejamento das intervenções pedagógicas.

A partir dessa compreensão, o processo de alfabetização passou a valorizar não apenas os resultados obtidos pelos estudantes, mas também os caminhos percorridos durante a aprendizagem. Essa mudança de perspectiva contribuiu para que o ensino da leitura e da escrita deixasse de estar centrado exclusivamente na correção e passasse a considerar os processos cognitivos envolvidos na construção do conhecimento (FERREIRO & TEBEROSKY, 1999).

As contribuições da psicogênese da língua escrita também dialogam diretamente com as reflexões de Morais (2012b) acerca da aprendizagem do sistema de escrita alfabética. Para o autor, compreender a lógica que organiza a escrita exige que os estudantes desenvolvam conhecimentos específicos relacionados às correspondências entre os sons da fala e suas representações gráficas. Entretanto, esse aprendizado não ocorre por simples memorização, mas por meio de processos de reflexão que permitem compreender as regularidades e características do sistema alfabético.

Segundo Morais (2012b), a alfabetização deve proporcionar aos estudantes oportunidades de analisar, comparar, investigar e refletir sobre a escrita. Isso significa que o trabalho pedagógico precisa estimular a observação das palavras, a identificação de semelhanças e diferenças entre elas e a compreensão gradual das relações existentes entre linguagem oral e linguagem escrita. Dessa forma, o ensino deixa de ser exclusivamente transmissivo e passa a favorecer a construção ativa do conhecimento.

Essa compreensão reforça a necessidade de práticas pedagógicas que considerem os diferentes níveis de desenvolvimento dos estudantes. Cada criança possui ritmos, experiências e formas particulares de aprender, o que exige do professor sensibilidade para identificar as necessidades individuais e planejar estratégias adequadas às características da turma. A observação constante dos avanços e das dificuldades dos estudantes constitui, portanto, elemento essencial para a promoção de aprendizagens significativas (MORAIS, 2012a).

Outro aspecto relevante refere-se à valorização da curiosidade infantil como elemento impulsionador da aprendizagem. Quando os estudantes são incentivados a formular hipóteses, explorar diferentes possibilidades e refletir sobre suas próprias produções, desenvolvem maior autonomia intelectual e ampliam sua capacidade de compreender os mecanismos que estruturam a escrita. Nesse contexto, a aprendizagem torna-se mais significativa, pois está relacionada à participação ativa do estudante na construção do conhecimento (FERREIRO & TEBEROSKY, 1999).

Além disso, a psicogênese da língua escrita contribuiu para o fortalecimento de práticas pedagógicas que utilizam textos reais e situações autênticas de leitura e escrita. Em vez de limitar o ensino a exercícios descontextualizados, passou-se a reconhecer a importância de inserir os estudantes em atividades que façam sentido em sua realidade e que evidenciem as funções sociais da linguagem escrita. Essa perspectiva aproxima-se das discussões sobre letramento, uma vez que reconhece a necessidade de articular a aprendizagem do sistema alfabético aos usos sociais da leitura e da escrita (SOARES, 2018).

Ao analisar os processos de alfabetização, Soares (2018) destaca que a aprendizagem da escrita deve ocorrer de forma integrada ao desenvolvimento de práticas sociais de leitura e produção textual. Essa articulação permite que os estudantes compreendam não apenas como a escrita funciona, mas também para que ela serve em diferentes contextos sociais. Assim, alfabetização e letramento tornam-se processos complementares e indissociáveis.

As reflexões de Freire (2011) também contribuem para ampliar a compreensão da aprendizagem como um processo de construção ativa do conhecimento. Para o autor, ensinar não significa transferir saberes prontos, mas criar condições para que os educandos desenvolvam sua capacidade de compreender, questionar e transformar a realidade. Essa perspectiva dialoga diretamente com os pressupostos da psicogênese da língua escrita, ao reconhecer os estudantes como sujeitos ativos na construção de suas aprendizagens.

No contexto da alfabetização contemporânea, tais contribuições assumem relevância ainda maior diante da diversidade presente nas salas de aula. As crianças chegam à escola trazendo diferentes experiências culturais, sociais e linguísticas, que influenciam diretamente suas formas de compreender a escrita. Reconhecer essa diversidade e incorporá-la ao planejamento pedagógico constitui uma condição fundamental para o desenvolvimento de práticas educativas mais inclusivas e eficazes.

Outro aspecto importante refere-se ao papel da avaliação no processo de alfabetização. Sob a perspectiva da psicogênese da língua escrita, a avaliação deve assumir caráter diagnóstico e formativo, permitindo ao professor compreender as hipóteses elaboradas pelos estudantes e acompanhar sua evolução ao longo do processo de aprendizagem. Mais do que verificar resultados finais, a avaliação deve fornecer informações que auxiliem na organização das intervenções pedagógicas e na promoção de avanços significativos (MORAIS, 2012a).

A compreensão da escrita como objeto de conhecimento construído progressivamente também contribui para a superação de práticas pedagógicas que valorizam excessivamente a padronização dos resultados. Ao reconhecer que os estudantes aprendem de formas diferentes e em ritmos distintos, a escola passa a adotar uma postura mais respeitosa em relação aos processos individuais de aprendizagem, favorecendo a construção de ambientes educativos mais acolhedores e democráticos.

Dessa forma, as contribuições da psicogênese da língua escrita permanecem fundamentais para a alfabetização contemporânea, pois oferecem subsídios teóricos que permitem compreender a aprendizagem como um processo dinâmico, ativo e socialmente contextualizado. Ao reconhecer os estudantes como protagonistas da construção do conhecimento, essa perspectiva fortalece práticas pedagógicas comprometidas com o desenvolvimento integral dos educandos e com a promoção de aprendizagens significativas.

Portanto, entender os fundamentos da psicogênese da língua escrita torna-se indispensável para a análise das práticas pedagógicas voltadas à alfabetização, uma vez que tais pressupostos fornecem bases consistentes para a organização de experiências educativas capazes de favorecer o desenvolvimento da leitura, da escrita e da autonomia intelectual dos estudantes.

2.3. Práticas Pedagógicas e o Papel do Professor Alfabetizador

As transformações ocorridas nas concepções de alfabetização ao longo das últimas décadas provocaram mudanças significativas nas práticas pedagógicas desenvolvidas nos anos iniciais da educação básica. Se anteriormente o ensino da leitura e da escrita era predominantemente orientado por atividades mecânicas e repetitivas, atualmente busca-se desenvolver metodologias que favoreçam a participação ativa dos estudantes, a construção significativa do conhecimento e a articulação entre alfabetização e letramento. Nesse contexto, as práticas pedagógicas assumem papel fundamental na promoção de experiências educativas capazes de contribuir para o desenvolvimento integral dos educandos.

A prática pedagógica pode ser compreendida como o conjunto de ações planejadas e executadas pelo professor com o objetivo de promover a aprendizagem. No campo da alfabetização, essas ações envolvem a seleção de conteúdos, a escolha de metodologias, a organização de atividades, a utilização de recursos didáticos e a realização de intervenções que favoreçam a apropriação da leitura e da escrita pelos estudantes. Dessa forma, a qualidade do processo de alfabetização está diretamente relacionada à intencionalidade e à organização do trabalho pedagógico desenvolvido em sala de aula (MORAIS, 2012a).

Segundo Reis e Soares (2016), uma prática pedagógica eficaz deve contemplar simultaneamente o ensino do sistema de escrita alfabética e a inserção dos estudantes em situações reais de leitura e produção textual. A autora destaca que a alfabetização não pode ser reduzida à aprendizagem das relações entre letras e sons, mas deve possibilitar que as crianças compreendam as funções sociais da escrita e desenvolvam competências relacionadas à interpretação, produção e circulação de textos.

Nessa perspectiva, o trabalho pedagógico precisa criar oportunidades para que os estudantes interajam com diferentes gêneros textuais, ampliando suas experiências com a cultura escrita. A leitura de histórias, a produção de bilhetes, convites, listas, relatos e outros textos presentes no cotidiano contribui para que as crianças compreendam os diversos usos da escrita e atribuam significado às atividades desenvolvidas na escola (SOARES, 2018).

As reflexões de Diogo e Gorette (2011) reforçam a importância de práticas pedagógicas que promovam a aproximação dos estudantes com situações concretas de leitura e escrita. As autoras destacam que a utilização de diferentes materiais e suportes textuais favorece o desenvolvimento das competências leitoras e amplia as possibilidades de interação dos estudantes com a linguagem escrita. Dessa forma, o ambiente alfabetizador deve ser organizado de modo a estimular a curiosidade, a investigação e a participação ativa dos educandos.

A valorização dos conhecimentos prévios dos estudantes constitui outro aspecto fundamental das práticas pedagógicas contemporâneas. As crianças chegam à escola trazendo experiências, saberes e formas particulares de interpretar o mundo. Quando esses conhecimentos são considerados durante o planejamento das atividades, o processo de aprendizagem torna-se mais significativo, pois estabelece relações entre os conteúdos escolares e a realidade vivenciada pelos educandos (FREIRE, 2011).

Freire (2011) afirma que ensinar exige respeito aos saberes dos educandos e reconhecimento de suas experiências como ponto de partida para a construção de novos conhecimentos. Essa compreensão possui grande relevância para a alfabetização, uma vez que permite ao professor desenvolver práticas pedagógicas mais contextualizadas e capazes de favorecer a participação dos estudantes no processo educativo.

Além da valorização dos conhecimentos prévios, as práticas pedagógicas contemporâneas também enfatizam a necessidade de promover a interação e a colaboração entre os estudantes. Atividades realizadas em grupos, projetos coletivos, rodas de conversa e momentos de socialização das produções escritas favorecem a troca de experiências e estimulam o desenvolvimento de habilidades relacionadas à comunicação, à argumentação e à construção compartilhada do conhecimento (MELO, 2020).

A leitura ocupa lugar de destaque nesse processo. Segundo Melo (2020), o contato frequente com textos literários e informativos contribui para o desenvolvimento da imaginação, da criatividade e da compreensão leitora. Além disso, a leitura compartilhada possibilita a ampliação do vocabulário, o desenvolvimento da oralidade e a construção de estratégias de interpretação que serão fundamentais ao longo da vida escolar.

A produção textual também desempenha papel essencial na alfabetização contemporânea. Ao produzir textos, as crianças têm a oportunidade de refletir sobre a escrita, testar hipóteses, organizar ideias e compreender as características dos diferentes gêneros textuais. Nesse sentido, a escrita deixa de ser apenas um exercício escolar e passa a constituir uma prática significativa de expressão e comunicação (SOARES, 2018).

Outro elemento indispensável ao processo de alfabetização refere-se à mediação realizada pelo professor. Morais (2012a) destaca que o educador exerce papel fundamental na criação de situações de aprendizagem que desafiem os estudantes e favoreçam a construção de novos conhecimentos. A mediação pedagógica envolve observação constante, planejamento sistemático e intervenções adequadas às necessidades apresentadas pelos educandos.

Essa mediação torna-se especialmente importante diante da diversidade presente nas salas de aula. Cada estudante possui características, experiências e ritmos de aprendizagem próprios, exigindo que o professor desenvolva estratégias flexíveis e capazes de atender às diferentes demandas educacionais. O reconhecimento dessa diversidade contribui para a construção de práticas pedagógicas mais inclusivas e comprometidas com a promoção da equidade no ambiente escolar (MORAIS, 2018).

A formação continuada dos professores constitui outro fator decisivo para a qualidade das práticas pedagógicas desenvolvidas no processo de alfabetização. As constantes transformações sociais, culturais e educacionais exigem atualização permanente dos profissionais da educação, permitindo que ampliem seus conhecimentos e incorporem novas metodologias ao trabalho docente. Segundo Morais (2018), investir na formação dos professores representa uma das estratégias mais importantes para a melhoria da qualidade da alfabetização.

No contexto contemporâneo, a formação docente precisa contemplar não apenas aspectos relacionados ao ensino da leitura e da escrita, mas também questões vinculadas à inclusão, à diversidade cultural, às tecnologias educacionais e às novas demandas sociais. Dessa forma, o professor alfabetizador torna-se um profissional capaz de refletir criticamente sobre sua prática e de promover experiências educativas alinhadas às necessidades dos estudantes e da sociedade.

Outro aspecto relevante refere-se ao planejamento pedagógico. A organização das atividades de alfabetização exige definição clara de objetivos, seleção criteriosa de conteúdos e elaboração de estratégias que favoreçam o desenvolvimento progressivo das habilidades de leitura e escrita. O planejamento permite ao professor acompanhar os avanços dos estudantes, identificar dificuldades e reorganizar as ações pedagógicas sempre que necessário (MORAIS, 2012a).

A avaliação também desempenha papel fundamental nesse processo. Na perspectiva contemporânea, a avaliação deve assumir caráter diagnóstico e formativo, possibilitando a compreensão dos avanços e das necessidades de aprendizagem dos estudantes. Mais do que atribuir notas ou classificar desempenhos, a avaliação deve contribuir para a tomada de decisões pedagógicas e para o aprimoramento contínuo das práticas de ensino (REIS & SOARES, 2016).

Diante dessas reflexões, percebe-se que as práticas pedagógicas contemporâneas exigem um professor comprometido com a construção de aprendizagens significativas, capaz de atuar como mediador do conhecimento e de promover situações que favoreçam o desenvolvimento da leitura e da escrita em sua dimensão técnica, social e cultural. A atuação docente, quando fundamentada em princípios teóricos consistentes e em práticas reflexivas, contribui significativamente para o sucesso do processo de alfabetização.

Assim, a qualidade da alfabetização está diretamente relacionada à capacidade do professor de articular conhecimentos teóricos, metodológicos e pedagógicos em favor da aprendizagem dos estudantes. Nesse sentido, as práticas pedagógicas e a atuação do professor alfabetizador constituem elementos indissociáveis na construção de uma educação capaz de formar sujeitos críticos, autônomos e participativos, preparados para atuar nos diferentes contextos da sociedade contemporânea.

2.4. Tecnologias e Novos Contextos de Aprendizagem

A inserção e a expansão das tecnologias digitais de informação e comunicação na sociedade contemporânea ressignificaram de maneira profunda os modos de produzir, fazer circular e apropriar-se da linguagem escrita. Esse novo panorama sociocultural atinge diretamente o ambiente escolar, exigindo que o processo de inserção da criança no mundo letrado incorpore as mídias e as ferramentas digitais como constituintes legítimas das práticas de leitura e de escrita. Longe de caracterizar-se como uma simples modernização cosmética ou como a mera substituição do suporte de papel impresso pela tela de um dispositivo eletrônico, a integração tecnológica na alfabetização contemporânea pressupõe uma profunda reorganização das estratégias didáticas voltadas a potencializar as interações cognitivas e discursivas na sala de aula.

Nesse horizonte de transformações, a literatura educacional adverte que os recursos tecnológicos atuam como elementos fortemente dinamizadores do desenvolvimento das competências linguísticas e textuais dos estudantes. A utilização intencional de softwares educativos, jogos de base fonológica com caráter interativo e livros digitais multimodais oferece aos sujeitos em processo de alfabetização um conjunto diversificado de estímulos visuais e sonoros que colaboram diretamente para a compreensão das regularidades do sistema de escrita alfabética (ALMEIDA & AZEVEDO, 2020). A interatividade inerente a essas plataformas digitais faculta ao educando a oportunidade de testar, de forma ativa e autônoma, suas próprias hipóteses conceituais sobre a escrita, obtendo respostas e retornos imediatos que funcionam como propulsores de sua autorregulação cognitiva.

Sob essa ótica, os novos contextos de aprendizagem gerados pelas tecnologias digitais rompem com o isolamento das práticas escolares tradicionais, conectando o fazer pedagógico com as demandas comunicativas reais de uma sociedade intensamente conectada. A vivência em ambientes virtuais proporciona o contato precoce e sistemático com o letramento digital, capacitando os estudantes a ler e a interpretar textos de natureza multissemiótica, nos quais se articulam de forma indissociável a palavra escrita, a imagem estática, o movimento, o som e o hipertexto. A apropriação crítica dessas novas linguagens e suportes de escrita concorre para que a criança desenvolva a capacidade de ler o mundo contemporâneo, conferindo substancialidade prática à premissa de que a leitura da palavra deve ser sempre antecedida e acompanhada pela leitura reflexiva da realidade circundante (FREIRE, 2011).

Para que o uso dessas ferramentas tecnológicas de fato se reverta em avanços na aprendizagem, faz-se indispensável que a atuação do professor seja marcada por uma rigorosa intencionalidade pedagógica. A mera presença de computadores, tablets ou lousas digitais na rotina escolar não assegura, por si só, a superação de modelos tradicionais e diretivos de ensino; muitas vezes, tais recursos acabam sendo utilizados para reproduzir práticas ultrapassadas de cópia e memorização mecânica, esvaziando o potencial criativo do instrumental técnico. Torna-se imperativo, portanto, que as atividades estruturadas no ciberespaço se configurem como extensões funcionais do letramento social, estimulando a autoria, a pesquisa, a produção textual coletiva e a resolução de problemas significativos, transformando as ferramentas de informação em legítimos instrumentos de mediação cultural e emancipação cognitiva (ALMEIDA & AZEVEDO, 2020).

2.5. Políticas Públicas e os Desafios Locais da Alfabetização

A materialização de propostas pedagógicas inovadoras no campo da apropriação da escrita depende substancialmente de investimentos públicos estruturados e da continuidade de ações de formação que consigam alterar a rotina das salas de aula. A garantia do direito à aprendizagem da leitura na idade certa constitui uma premissa básica para a democratização do conhecimento e para a inclusão social (MORAIS, 2018). No entanto, as disparidades econômicas regionais repercutem diretamente nas condições físicas das escolas e no acesso a acervos literários diversificados, criando obstáculos para que redes de ensino municipais vulneráveis consigam implementar os avanços teóricos da psicogênese da língua escrita de maneira uniforme.

Um dos entraves históricos no território nacional reside na descontinuidade de programas governamentais voltados à qualificação docente e na ausência de avaliações diagnósticas capazes de orientar o planejamento curricular de forma individualizada. A heterogeneidade dos estudantes nas turmas iniciais exige que o professor abandone métodos puramente transmissivos e adote sondagens periódicas para identificar os níveis conceituais de cada criança (MORAIS, 2012). Quando o poder público falha em fornecer esse suporte técnico, as redes de ensino tendem a reproduzir práticas centralizadas na memorização mecânica de sílabas isoladas, o que desconsidera a capacidade cognitiva do educando e acentua os índices de analfabetismo funcional (REIS & SOARES, 2016).

As assimetrias educacionais provocadas por essas disparidades estruturais tornam se evidentes ao analisar a realidade educacional do estado da Bahia, território em que a extensão geográfica e a diversidade de demandas municipais exigem intervenções focadas. Como exemplo de ação governamental desenhada para reverter esse panorama local, instituiu se no ano de 2025 o Programa Bahia Alfabetizada, uma iniciativa de base territorial que visa fortalecer a aprendizagem da leitura de crianças, jovens e adultos por meio de um regime de colaboração técnica e financeira (BAHIA, 2025). Este programa alcançou a adesão de todos os 417 municípios baianos, estabelecendo metas articuladas para garantir que a apropriação do sistema alfabético ocorra até o final do segundo ano do Ensino Fundamental (BAHIA, 2025). O impacto dessa articulação se traduz na distribuição de materiais didáticos complementares específicos para a realidade regional e no apoio pedagógico a grandes centros urbanos como Salvador e Feira de Santana, além de pequenas localidades rurais, unificando os critérios de avaliação e monitoramento do desempenho estudantil.

A eficácia prática de uma política educacional macro se consolida quando os momentos de estudo geram transformações reais na identidade e na prática diária do professor alfabetizador. Ao resgatar os reflexos de propostas nacionais anteriores no território municipal, como o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), que operou fortemente a partir do ano de 2012, observam se modificações estruturais na organização do trabalho escolar (MACHADO, 2018). Um estudo científico detalhado sobre a execução dessa política pública no município de Cairu evidenciou que os momentos de formação continuada propiciados pelo pacto foram determinantes para que os docentes locais reorganizassem suas rotinas didáticas (MACHADO, 2018). Os professores de Cairu passaram a incorporar de forma sistemática a leitura de deleite diária, o uso pedagógico de jogos fonológicos e o registro minucioso do avanço das crianças em portfólios avaliativos, comprovando que a formação em serviço qualifica diretamente a mediação docente (MACHADO, 2018).

O avanço na aprendizagem da escrita em localidades dotadas de características geográficas diversas, como a zona ribeirinha de Juazeiro ou a região litorânea de Ilhéus, requer que as orientações técnicas do Programa Bahia Alfabetizada superem a mera distribuição de insumos (BAHIA, 2025). O foco das ações formadoras deve subsidiar o professor para que ele compreenda o erro do estudante como um indicativo de suas hipóteses de pensamento e não como uma falha a ser punida (FERREIRO & TEBEROSKY, 1999). A leitura precisa ser trabalhada como uma atividade viva e social em que a criança compreenda a função dos textos que circulam em sua comunidade, permitindo que a palavra escrita se converta em um instrumento legítimo de cidadania e leitura crítica da realidade social (FREIRE, 2011).

3. METODOLOGIA

Para atingir o objetivo proposto de analisar as contribuições das práticas pedagógicas contemporâneas no desenvolvimento da alfabetização e do letramento, optou se pela realização de uma pesquisa de natureza essencialmente bibliográfica. Este procedimento metodológico permite o mapeamento, a análise detalhada e a síntese do conhecimento conceitual já produzido por diferentes teóricos e pesquisadores que se dedicam ao estudo da linguagem, da psicologia cognitiva e da prática docente nos anos iniciais da educação básica. A utilidade desse delineamento reside na possibilidade de cobrir uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia ser pesquisada de maneira direta, propiciando a unificação de termos e a confrontação de teses distintas sobre o mesmo objeto de estudo.

A abordagem adotada no percurso desta investigação é qualitativa, voltada para a compreensão interpretativa de conceitos, teorias e dados documentais, sem que haja a necessidade de quantificação estatística de variáveis. A opção pelo método qualitativo se justifica porque o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes que envolvem o ato de ensinar e aprender a língua escrita corresponde a um espaço mais profundo das relações sociais, o qual não pode ser reduzido à operacionalização de dados numéricos ou equações matemáticas.

O corpus documental que ampara as discussões foi constituído por livros clássicos que fundamentam a psicologia cognitiva aplicada à educação (FERREIRO & TEBEROSKY, 1999). Adicionalmente, incorporaram se obras referenciais voltadas à conceituação e diferenciação prática entre as ações de alfabetizar e letrar no contexto escolar (SOARES, 2018). A base de dados também foi enriquecida mediante a seleção de publicações focadas nos métodos de ensino e na reflexão crítica sobre a organização do trabalho didático do educador (MORAIS, 2012). Complementarmente, coletaram se artigos científicos indexados, anais de congressos nacionais e relatórios oficiais emitidos por órgãos governamentais específicos.

O processo de coleta e triagem do material ocorreu por meio de buscas em bibliotecas virtuais e repositórios acadêmicos eletrônicos confiáveis. Os critérios de inclusão definidos para a escolha dos textos foram a pertinência temática direta com os objetivos estabelecidos, a consistência teórica reconhecida dos autores no campo da educação e a atualidade das publicações pedagógicas. O material selecionado foi submetido a uma leitura flutuante, seguida de fichamento temático e análise comparativa. Esta etapa permitiu confrontar as diferentes perspectivas dos autores consultados, organizando o conhecimento de forma lógica para dar sustentação científica aos resultados apresentados nas seções subsequentes deste trabalho.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A análise detalhada do material bibliográfico selecionado revela que o êxito no processo de alfabetização contemporânea está diretamente condicionado à superação de propostas de ensino puramente mecânicas, focadas na repetição descontextualizada de sílabas e letras. Os dados indicam que a articulação planejada entre a apropriação técnica do sistema de escrita alfabética e as práticas de letramento promove avanços significativos na aprendizagem das crianças nos anos iniciais da escolarização (SOARES, 2018). Quando o ambiente da sala de aula se organiza a partir de gêneros textuais autênticos e de situações reais de comunicação, os estudantes passam a perceber a relevância do objeto de estudo em suas vidas cotidianas, o que eleva a motivação para aprender.

No tocante ao desenvolvimento cognitivo, os referenciais teóricos reiteram que a incorporação dos pressupostos da psicogênese da língua escrita modifica estruturalmente a rotina das salas de aula. O erro deixa de ser encarado sob uma perspectiva punitiva e passa a figurar como um elemento construtivo e diagnóstico indispensável para o planejamento das intervenções do educador (FERREIRO & TEBEROSKY, 1999). Práticas pedagógicas que desafiam os educandos por meio de agrupamentos produtivos, reflexões sobre as regularidades ortográficas e exercícios de escrita espontânea aceleram a transição entre os níveis conceituais da escrita, dotando os discentes de maior autonomia intelectual (MORAIS, 2012).

Ao transferir a análise para as ações governamentais locais e institucionais que buscam reverter o fracasso escolar, os resultados obtidos ganham materialidade concreta por meio de dados geográficos e institucionais específicos. Como exemplo de política pública desenhada para reverter o panorama de exclusão educacional no estado da Bahia, destaca se o Programa Bahia Alfabetizada, instituído no ano de 2025 com o propósito de universalizar o direito à leitura e à escrita (BAHIA, 2025). Esse programa opera sob a égide de um regime de cooperação mútua entre a administração estadual e os governos municipais, alcançando a adesão de todas as 417 municipalidades baianas (BAHIA, 2025). A centralidade desta ação governamental foca na ampliação de recursos pedagógicos e no suporte técnico continuado, demonstrando uma preocupação acentuada em garantir a alfabetização na idade cronológica adequada, reduzindo os índices históricos de distorção idade série na região.

Adicionalmente, os estudos que avaliam os reflexos de programas nacionais anteriores no território municipal demonstram que as ações de formação em serviço geram transformações reais na identidade e na organização do trabalho docente. Investigações científicas de campo conduzidas no município baiano de Cairu revelam que as ações formativas continuadas vinculadas ao PNAIC proporcionaram reflexos substanciais na postura dos professores (MACHADO, 2018). Os dados obtidos na realidade de Cairu evidenciam que o programa federal contribuiu diretamente para a reorganização didática e pedagógica do trabalho escolar, impulsionando a adoção de rotinas sistemáticas de leitura diária, o uso de jogos pedagógicos e a construção de registros em portfólios avaliativos (MACHADO, 2018). Esses achados empíricos locais chancelam a tese de que o fortalecimento da formação de professores constitui o pilar indispensável para converter diretrizes políticas em avanços efetivos na aprendizagem infantil.

Diante do exposto, os resultados desta pesquisa bibliográfica corroboram a necessidade de se conceber a alfabetização como um processo complexo que envolve múltiplos eixos de aprendizagem. A inserção da tecnologia, discutida anteriormente, e o suporte de programas como o Bahia Alfabetizada devem caminhar em consonância com uma mediação docente que valorize o saber prévio do estudante (ALMEIDA & AZEVEDO, 2020). O papel das redes municipais de ensino consiste em garantir que as orientações teóricas não permaneçam restritas aos manuais pedagógicos, mas ganhem vida no cotidiano das salas de aula, transformando o ato de ler em uma prática política e social indispensável para a formação de cidadãos conscientes e emancipados (FREIRE, 2011).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O percurso teórico construído ao longo desta pesquisa bibliográfica permitiu analisar o panorama das práticas pedagógicas na alfabetização contemporânea, evidenciando que a apropriação da língua escrita não pode ser reduzida a um treinamento motor ou à decodificação mecânica de fonemas. Os objetivos estabelecidos inicialmente foram plenamente alcançados, uma vez que se constatou que o sucesso escolar nos anos iniciais da educação básica depende da articulação intencional entre o domínio técnico do sistema alfabético e as vivências reais de letramento. Quando a escola assume a centralidade do texto e respeita o percurso cognitivo do estudante, as salas de aula se convertem em ambientes de efetiva mediação cultural.

As evidências teóricas e documentais mobilizadas demonstram que os avanços na psicologia cognitiva aplicada à educação continuam sendo a base para uma intervenção docente qualificada. Compreender as hipóteses de escrita da criança e acolher o erro como um valioso indicador de seu raciocínio reconstrói a prática de avaliação, dotando o educando de protagonismo em seu processo de aprendizagem. Da mesma forma, a introdução planejada das ferramentas tecnológicas e o uso de múltiplos suportes textuais expandem as capacidades discursivas dos discentes, conectando os saberes escolares com as exigências de uma sociedade letrada e digitalizada.

Adicionalmente, o estudo dos impactos de programas nacionais e territoriais revelou que as transformações metodológicas duradouras só se concretizam mediante investimentos contínuos na formação continuada dos professores. As experiências práticas municipais analisadas ilustram com precisão como as rotinas de planejamento e o suporte didático fornecido por políticas estruturadas são capazes de qualificar o trabalho do educador no chão da sala de aula. Essa constatação se alinha à relevância de iniciativas estaduais abrangentes, cuja articulação com as administrações locais busca garantir a universalização do direito à leitura na idade cronologicamente adequada.

Como limitação deste estudo, aponta se o caráter estritamente bibliográfico da abordagem, o que circunscreve as conclusões ao plano da análise teórica e documental da literatura disponível. Para investigações futuras, sugere se a realização de pesquisas de campo de cunho etnográfico ou estudos de caso comparativos no interior das redes públicas municipais baianas, acompanhando diretamente os reflexos de longo prazo das metas governamentais no desempenho dos estudantes. Conclui se, em suma, que alfabetizar na contemporaneidade exige a consolidação de uma postura pedagógica reflexiva e dialógica, na qual o domínio da escrita se firme como um ato de inserção social, autonomia intelectual e plena cidadania.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BAHIA. Secretaria da Educação. Programa Bahia Alfabetizada tem adesão de todos os 417 municípios baianos. Salvador: SEC, 7 out. 2025. Disponível em: https://www.ba.gov.br/educacao/noticias/2025-10/2548/programa-bahia-alfabetizada-tem-adesao-de-todos-os-417-municipios-baianos. Acesso em: 19 jun. 2026.

DIOGO, Elizangela Maria; GORETTE, Maria do Socorro. Letramento e alfabetização: uma prática pedagógica de qualidade. In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 10., 2011, Curitiba. Anais [...]. Curitiba: PUCPR, 2011. p. 4512-4525. Disponível em: https://www.cursosprofec.com.br/escola/apostilas/alfabetizacao-e-letramento-pfc-3.pdf. Acesso em: 19 jun. 2026.

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MACHADO, Maikson Damasceno Fonseca. Como anda o pacto? Implicações do programa Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC) na formação de professores alfabetizadores. SELL - Revista de Estudos Linguísticos e Literários, v. 7, n. 1, p. 164-187, jul. 2018. DOI: https://doi.org/10.18554/sell.v7i1.2753. Disponível em: https://seer.uftm.edu.br/revistaeletronica/index.php/sell/article/view/2753. Acesso em: 19 jun. 2026.

MELO, Heloisa Maria Dantas de. Práticas docentes de leitura e escrita no processo de alfabetização e letramento. In: Educação contemporânea: práticas e desafios. Ponta Grossa: Atena Editora, 2020. cap. 14, p. 154-165. DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.43920191014. Disponível em: https://www.atenaeditora.com.br/catalogo/post/praticas-docentes-de-leitura-e-escrita-no-processo-de-alfabetizacao-e-letramento. Acesso em: 19 jun. 2026.

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MORAIS, Artur Gomes de. Por um concept político de alfabetização e de letramento no contexto brasileiro atual: contribuições ao debate. In: Alfabetização e áreas de conhecimento: desafios e possibilidades. Porto Alegre: Evangraf, 2018. p. 15-32. Disponível em: https://cursos.unipampa.edu.br/cursos/ppgedu/files/2018/10/miolo-web.pdf. Acesso em: 19 jun. 2026.

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REIS, Narjara Oliveira. SOARES, Magda. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo: Contexto, 2016. 384 pág. Entrepalavras (edições até 2024), [S.l.], v. 9, n. 2, p. 525-533, ago. 2019. ISSN 2237-6321. Disponível em: http://www.entrepalavras.ufc.br/revista/index.php/Revista/article/view/1428/608. Acesso em: 20 jun. 2026. doi: http://dx.doi.org/10.22168/2237-6321-21428.

SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2018. E-book. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/books/97885724498.


1 Especialista em Educação e Tecnologia pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. Especialista em Gestão Escolar pela Universidade Federal da Bahia- UFBA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University. Pós-Graduação em Psicopedagogia Institucional e Gestão e Docência para Educação 4.0. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Especialista em Competências Socioemocionais pela Faculdade Anhanguera. Esp em Ensino da leitura, escrita e produção de texto pela Faculdade Anhanguera. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Especialista em Alfabetização, Leitura e Linguagem pela Universidade do Estado da Bahia - UNEB. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail