REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780950727
RESUMO
A transformação digital no setor da saúde tem impulsionado o surgimento de startups e healthtechs, criando novas oportunidades para profissionais de enfermagem. O objetivo deste estudo foi analisar a participação do enfermeiro no desenvolvimento de soluções inovadoras nesse contexto, destacando suas contribuições para a melhoria da assistência, segurança do paciente e eficiência dos serviços. Trata‑se de uma revisão bibliográfica qualitativa, com levantamento de artigos indexados em bases científicas. Os resultados indicam que o enfermeiro ocupa posição estratégica para inovar, graças à sua visão holística do cuidado, capacidade de identificar gargalos assistenciais e contato direto com as necessidades dos pacientes. Foram identificadas áreas promissoras de atuação, como coordenação do cuidado em healthtechs, telemedicina, consultoria especializada, enfermagem estética e produção de conteúdos educativos. Concluiu‑se que o enfermeiro tem potencial para protagonizar inovações na área, sendo necessária a inclusão de competências empreendedoras nos currículos de formação acadêmica e o fortalecimento de políticas de apoio ao empreendedorismo na enfermagem.
Palavras-chave: Enfermagem; Empreendedorismo; Inovação em sáude; Startups.
ABSTRACT
The digital transformation in the healthcare sector has driven the emergence of startups and healthtechs, creating new opportunities for nursing professionals. This study aimed to analyze the participation of nurses in the development of innovative solutions in this context, highlighting their contributions to improving care, patient safety, and service efficiency. This is a qualitative bibliographic review based on articles indexed in scientific databases. The results indicate that nurses occupy a strategic position to innovate due to their holistic view of care, ability to identify care gaps, and direct contact with patients' needs. Promising areas of practice were identified, such as care coordination in healthtechs, telemedicine, specialized consulting, aesthetic nursing, and the production of educational content. It is concluded that nurses have the potential to lead innovations in the sector, requiring the inclusion of entrepreneurial skills in undergraduate curricula and the strengthening of policies to support entrepreneurship in nursing.
Keywords: Nursing; Entrepreneurship; Health innovation; Startups.
1. INTRODUÇÃO
O setor de saúde tem passado por transformações profundas nas últimas décadas, impulsionadas pela rápida evolução tecnológica e pelo aumento das demandas por serviços mais eficientes, acessíveis e personalizados. Nesse cenário, a inovação e o empreendedorismo emergem como forças motrizes capazes de redefinir a organização e a prestação do cuidado, promovendo um ambiente de saúde mais dinâmico, competitivo e centrado no paciente (Lima et al., 2024).
A globalização do conhecimento e a digitalização de processos têm viabilizado o surgimento de novas soluções e modelos de negócio, tais como healthtechs, plataformas de telemedicina e sistemas inteligentes de gestão hospitalar. Essas inovações promovem não apenas a modernização das práticas clínicas, mas também a otimização de recursos e a melhoria dos desfechos em saúde pública e privada (Lima et al., 2024).
Entre os profissionais de saúde, o enfermeiro ocupa posição estratégica para a concepção e implementação de inovações. Sua formação e rotina clínica proporcionam visão holística do percurso do paciente, identificação de gargalos assistenciais e domínio das rotinas multidisciplinares, o que favorece a proposição de produtos e serviços que respondam a demandas concretas. Apesar disso, a participação efetiva do enfermeiro em processos de empreendedorismo e em ecossistemas de startups ainda enfrenta barreiras ligadas à cultura profissional, lacunas em competências em gestão e tecnologia, e estruturas institucionais que nem sempre incentivam a transposição entre prática clínica e inovação. (Borges da Silva et al., 2024).
A equipe de enfermagem desempenha um papel primordial na oferta de cuidados em saúde, articulando ações clínicas, educativas e administrativas para garantir eficiência, qualidade e continuidade do cuidado. Por meio da coordenação do cuidado, os profissionais de enfermagem promovem a integração entre níveis e serviços, contribuem para a segurança do paciente e atuam na prevenção de eventos adversos. Essa atuação impacta a sustentabilidade financeira dos serviços ao reduzir desperdícios, otimizar recursos e viabilizar modelos de remuneração baseados em valor. A incorporação de tecnologias de informação e comunicação e de ferramentas digitais diminui demandas burocráticas, agiliza fluxos assistenciais e fortalece o cuidado integral centrado no indivíduo (Gandini et al., 2023).
Nesse sentido, este estudo tem como objetivo analisar a participação do enfermeiro no desenvolvimento de soluções inovadoras em startups da área da saúde, destacando suas contribuições para a melhoria da assistência, da segurança do paciente e da eficiência dos serviços de saúde.
2. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de natureza qualitativa, a pesquisa foi realizada a partir da busca de registros disponíveis na íntegra sendo norteada pela seguinte questão: qual é o papel do enfermeiro no desenvolvimento de soluções inovadoras em startups da área da saúde e quais contribuições esse profissional oferece para a criação e implementação dessas tecnologias?
Para compor o artigo, buscou-se estudos científicos nas seguintes bases eletrônicas de dados: Google Acadêmico, SCielo Brasil e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizando-se os descritores: “Empreendedorismo na enfermagem”, “Startups de saúde”, “Inovação na saúde”, permitindo uma análise segura dos dados obtidos. Como critérios de inclusão, considerou-se estudos científicos datados nos últimos 5 anos (2021 à 2026), registros de fácil acesso nas bases de dados, escritos na língua portuguesa, completos e condizentes com o tema do presente estudo. Já os critérios de exclusão, envolveram os estudos antigos, escritos em outros idiomas, incompletos, de difícil acesso na íntegra e artigos não alinhados ao objetivo deste trabalho.
Os dados obtidos passaram por um procedimento de análise, o qual filtrou os estudos encontrados que não estavam alinhados ao objetivo do presente estudo. Inicialmente, encontrou-se 1.503, 39 e 27 artigos no Google Acadêmico, BVS e SCielo Brasil, respectivamente. Após isso, filtrou-se os estudos baseado nos critérios de inclusão e exclusão, considerando período de publicação, idioma e completude do estudo. A partir disso, com os filtros adicionados, totalizaram 45 estudos das três bases de dados em conjunto, sendo esses analisados na etapa final, a qual observou-se o título, objetivo e relação com o tema. Assim, após a análise final dos dados encontrados, foram selecionados 11 artigos para compor o presente estudo.
Quadro 1 – Fluxograma das etapas de análise dos dados encontrados.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A pesquisa inicial nas bases eletrônicas de dados totalizou 1.569 registros científicos, sendo 1.503 estudos encontrados no Google Acadêmico, 39 na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e 27 no SciELO Brasil. Após as etapas de filtragem envolvendo data de publicação, idioma e acesso na íntegra, 45 estudos foram submetidos a uma leitura crítica de títulos, resumos e objetivos. Nesta etapa, 30 artigos foram excluídos por não apresentarem a profundidade qualitativa necessária ou por não responderem diretamente à pergunta norteadora, garantindo que apenas registros com alinhamento temático permanecessem. A partir de uma análise total, considerando aspectos elegibilidade e triagem, foram selecionados e analisados 11 artigos científicos que atenderam aos critérios de inclusão previamente estabelecidos. Para apresentar as informações de maneira objetiva e facilitar a análise dos dados obtidos, foi elaborada uma tabela contendo o panorama geral dos estudos revisados.
Tabela 1 – Apresentação dos artigos inclusos no estudo.
Autores/Título/Ano | Objetivo | Metodologia | Resultados |
ARAUJO et al. Inovação e empreendedorismo na prestação de serviços de enfermagem, 2024. | Descrever as áreas de atuação do enfermeiro empreendedor. | Estudo de revisão bibliográfica, de abordagem qualitativa, do tipo descritivo e exploratório. | Identificou-se que enfermeiros podem atuar em áreas inovadoras na saúde como consultoria em aleitamento materno, enfermagem estética, estomaterapia, etc. O estudo evidencia o empreendedorismo como método para o aumento da autonomia profissional e desenvolvimento de soluções inovadoras em saúde na enfermagem. |
SILVA, M. M.; FRANCO, S. M. A.; ERDMANN, A. L. Empreendedorismo social na enfermagem à luz da Teoria do Alcance de Metas de Imogene King, 2026. | Refletir sobre o empreendedorismo social como prática transformadora do cuidado em enfermagem à luz da Teoria do Alcance de Metas de Imogene King. | Estudo teórico-reflexivo fundamentado na Teoria do Alcance de Metas de Imogene King. | O estudo enfatiza o enfermeiro como um agente de inovação social, condutor de interações e um articulador de práticas que transformam o cuidado. Ademais, o estudo reafirma que o empreendedorismo favorece a criação de soluções inovadoras em saúde e expande a atuação do enfermeiro na transformação social e na inovação do cuidado. |
DA SILVA, K. B.; RODRIGUES, R. DO N.; DA SILVA, A. G. I. O enfermeiro e a inovação tecnológica em saúde: uma revisão integrativa, 2025. | Este estudo teve como objetivo: Descrever como os enfermeiros brasileiros têm contribuído na produção de tecnologias em saúde nos diversos níveis de atenção, a partir da literatura cientifica do período de 2016 a 2021. | Trata-se de um estudo bibliográfico do tipo revisão integrativa, de caráter exploratório. | Evidenciou-se que os enfermeiros têm construído tecnologias digitais; cartilhas; instrumentos gerenciais. Que essas tecnologias estão centradas, sobretudo, na educação de estudantes e profissionais, assim como, de usuários do serviço de saúde. |
REGIS; SILVA. Contribuições da enfermagem para o cenário das inovações tecnológicas em saúde,2022 | A pesquisa buscou descrever o cenário criativo tecnológico na saúde, focando nas contribuições da enfermagem moderna para o desenvolvimento da produtividade tecnológica e na identificação das dificuldades para empreender nessa área. | Estudo de abordagem qualitativa, com finalidade descritiva e exploratória. | Os achados demonstram que a inovação tecnológica na enfermagem é resultado da união entre recursos tecnológicos e conhecimento profissional aplicado ao cuidado. Mostrou-se que os programas de pós-graduação profissional tem desempenho um papel central na produção de inovações, unindo pesquisa acadêmica às demandas do mercado de trabalho. Além disso, foi identificado uma lacuna de conhecimento sobre propriedade intelectual e processos de patenteamento. |
GANDINI, A. C.; GOMES, A. M. N.; SANTOS, F.R.; SILVA, L.F.I.; SANTOS, N.B.; ROCHA, T.V.; KAWAGOE, C.K.; MORAES, V.Y. Time de enfermagem como protagonista da coordenação do cuidado em uma healthtech: relato de experiência, 2023 | Relatar as experiências do desenvolvimento de uma equipe de coordenação do cuidado composta por enfermeiras no contexto da Atenção Primária à Saúde em uma healthtech. | Estudo qualitativo, descritivo, do tipo relato de experiência. Os dados foram obtidos a partir das atividades desenvolvidas por seis enfermeiras de coordenação do cuidado em uma healthtech brasileira, no município de São Paulo, entre maio de 2021 e maio de 2022, utilizando registros de prontuário eletrônico e bases de dados operacionais. | A enfermagem demonstrou papel central na coordenação do cuidado em todos os níveis assistenciais. Na atenção secundária, 52% das demandas foram analisadas e resolvidas pela equipe de enfermagem, aumentando a efetividade dos processos. Na atenção terciária, foram gerenciadas 232 cirurgias e 387 internações. O uso de tecnologias favoreceu a integração das informações, a continuidade do cuidado e a otimização dos recursos de saúde. |
IBIAPINA, G. da S. C.; VERAS, L. K. B.; OLIVINDO, D. D. F. de. Empreendedorismo na enfermagem como negócio e reconhecimento profissional no brasil: uma revisão integrativa, 2025. | O estudo objetiva analisar, por meio da literatura científica, a atuação do enfermeiro no contexto do empreendedorismo, destacando possibilidades de inserção no mercado de trabalho e novas perspectivas para uma prática profissional autônoma e independente. | Revisão integrativa da literatura, realizada por meio da definição do problema e da pergunta de pesquisa, coleta de dados com critérios de inclusão e exclusão, caracterização dos estudos, análise e interpretação dos resultados, organização dos dados em categorias e apresentação dos achados. | Foi identificada escassez de publicações sobre o tema. Dos nove artigos selecionados, a maioria foi publicada em 2024, evidenciando um aumento recente do interesse pelo empreendedorismo na enfermagem e a necessidade de ampliar as discussões sobre a temática. |
FONSECA M. P. et al. Empreendedorismo e inovação em saúde, 2024. | Objetiva-se analisar o empreendedorismo e a inovação em saúde, visando compreender seu impacto e contribuições para o setor. | Revisão integrativa de literatura. A pesquisa utilizou palavras-chave específicas e critérios de inclusão para selecionar artigos científicos relevantes publicados entre 2020 e 2023 nos bancos de dados Google Acadêmico, SciELO e PubMed. | Os resultados destacaram como a pandemia acelerou a adoção de tecnologias digitais, como plataformas de telemedicina e monitoramento remoto, para enfrentar desafios emergentes e melhorar a continuidade dos cuidados de saúde. Além disso, revelaram-se oportunidades para inovações em saúde, promovendo diferenciação no mercado através de abordagens como medicina baseada em estilo de vida e gestão de riscos. |
PONTES, E. S. et al. Enfermeiros empreendedores de negócios brasileiros: perfil socioprofissional e motivações para empreender, 2025. | O artigo visa analisar as características socioprofissionais de enfermeiros empreendedores de negócios no Brasil e suas motivações para empreender. | Estudo transversal, exploratório e descritivo, realizado com 185 enfermeiros empreendedores de negócios. A técnica de amostragem foi não probabilística, por conveniência. Os dados foram coletados através de questionário. A pesquisa ocorreu entre os meses de junho a dezembro de 2021, e o cenário foi o Brasil. | O perfil predominante dos participantes é de mulheres brancas, na faixa etária entre 31 a 40 anos, com média de 11 anos de formação, e período de atuação empreendedora de até 12 meses, sem dedicação exclusiva aos seus negócios, que em sua maioria concentram-se na Região Sudeste. Cursos de marketing digital e de gestão de negócios obtiveram realce como complementares a formação dessas enfermeiras. Entre as motivações para empreender, identificou-se: satisfação pessoal, aumento de renda e oportunidade para alcançar melhores condições de trabalho e bem-estar pessoal. |
BRASIL, K. R. C. 2025. Inovação e Empreendedorismo em Saúde: Tendências, Tecnologias e Impactos na Qualidade dos Serviços, 2025. | Este estudo visa a analisar as principais tendências, tecnologias e impactos da inovação e do empreendedorismo no setor da saúde, destacando como essas transformações têm influenciado a qualidade dos serviços prestados. | A pesquisa, de caráter descritivo e abordagem qualitativa, contou com a participação de 13 profissionais da saúde. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas e análise de conteúdo das respostas. | A incorporação de tecnologias digitais, a telemedicina, o uso de dados e inteligência artificial, bem como o fortalecimento de modelos de negócio sustentáveis e centrados no paciente, têm promovido avanços na eficiência, acessibilidade e humanização. |
DA SILVA, I. S.; ABUD, A. K. de S.; FERNANDES, M. G. Startup e inovação: uma análise do cenário das startups de saúde e bem-estar no Brasil, 2024. | O estudo busca apresentar o perfil das startups brasileiras no ecossistema de inovação digital em saúde e bem-estar cadastradas na Abstartups em 2022, a partir de uma abordagem quali-quantitativa sobre as variáveis levantadas. | Para a análise estatística dos dados, aplicou-se o teste qui-quadrado (p < 0,05) e o software RStudio foi utilizado para a elaboração de tabelas, gráficos e modelos. | Devido aos investimentos de grandes empresas de tecnologia, em 2014 o número de fundações de startups em saúde e bem-estar aumentou consideravelmente, atingindo maior número no triênio 2015-2017. A maioria das startups possui entre 6 e 10 colaboradores (48,67%), enquanto 40,15% envolve entre 1 e 5 colaboradores. Quanto às fases em que se encontram as startups na área da saúde, ainda não existem estudos específicos, indicando a necessidade de pesquisas que observem a atuação dos principias atores dos ecossistemas de inovação e empreendedorismo. |
OLIVEIRA, J. de; Q.; CAPELLARI, A. C.; FERNANDES, M. T. C. Características empreendedoras de enfermeiros na região sul do Brasil: desafios e reflexões, 2023. | O estudo objetiva conhecer o perfil de enfermeiros empreendedores em diversas áreas do cuidado. | Pesquisa de cunho descritivo, exploratório, de abordagem qualitativa realizada por meio de um questionário sociodemográfico/econômicoo e uma entrevista semiestruturada aplicada com enfermeiros empreendedores na região sul do Brasil. | As análises evidenciaram cinco categorias temáticas: definição de empreendedorismo e motivações; áreas de atuação do enfermeiro empreendedor; competências e habilidades do enfermeiro para empreender; desafios para a formação do enfermeiro empreendedor; dificuldades e potencialidades para ser enfermeiro empreendedor. Compreende-se que o empreendedorismo é uma forma de maior liberdade, autonomia e valorização do enfermeiro. |
Fonte: Elaborada pelos autores (2026).
3.1. O Enfermeiro Como Protagonista da Inovação em Saúde
A atuação do enfermeiro nos processos de inovação em saúde tem se provado cada vez mais indispensável, especialmente diante da ampliação de áreas de atuação que favorecem a criação de serviços inovadores focados em solucionar e atender as principais demandas da população. Nesse contexto, Araújo et al. (2024) identificaram que os enfermeiros podem inovar empreendendo em diversos segmentos, como consultoria em aleitamento materno, enfermagem estética, estomaterapia, práticas integrativas, produção de conteúdos educativos e gestão em saúde. Destaca-se que o empreendedorismo contribui para o aumento da autonomia profissional e para a criação de serviços inovadores, evidenciando a liberdade do enfermeiro de atuar para além dos espaços assistenciais tradicionais.
Corroborando esses achados, Silva, Franco e Erdmann (2026) afirmam que o enfermeiro desempenha papel fundamental como agente de inovação social, desempenhando um papel de mediador de relações e fomentador de práticas de cuidados transformadoras. Segundo os autores, o empreendedorismo social fortalece a autonomia profissional e expande a capacidade de criação de soluções inovadoras por meio da enfermagem. Dessa forma, observa-se que o protagonismo do enfermeiro na inovação em saúde não se restringe ao desenvolvimento de novos serviços, mas também envolve a construção de estratégias capazes de promover melhorias no cuidado já existente, trazendo impactos positivos nos serviços de saúde.
3.2. Startups em Saúde e Novas Oportunidades de Atuação Profissional
O crescimento das startups em saúde tem ampliado significativamente as possibilidades de atuação do enfermeiro, facilitando sua integração em ambientes que unem assistência, tecnologia, gestão e inovação. Nesse cenário, as healthtechs têm atuado como espaços de referência para a concepção e o aprimoramento de estratégias que elevem o padrão da assistência ao paciente, à otimização dos serviços e à ampliação do acesso à saúde.
Nesse contexto, Gandini et al. (2023) evidenciaram a importância da enfermagem dentro de uma healthtech brasileira, evidenciando a atuação das enfermeiras na coordenação do cuidado em diferentes níveis de assistência. Os autores observaram que a equipe de enfermagem foi responsável pela resolução de grande parte das demandas dos usuários, além do gerenciamento de procedimentos e internações, destacando que a implementação de tecnologias digitais potencializa a eficiência dos processos e fortalece a continuidade do cuidado.
Paralelamente, a ampliação do ecossistema de startups tem incentivado o surgimento de novos modelos de trabalho para os profissionais da saúde. Silva, Abud e Fernandes (2024) identificaram um crescimento exponencial das startups brasileiras de saúde e bem-estar, principalmente após o aumento dos investimentos em inovação tecnológica. Segundo os autores, esse movimento contribuiu para o aumento da demanda por profissionais capazes de unir conhecimentos técnicos e visão estratégica para o desenvolvimento de soluções voltadas às necessidades do setor.
Fonseca et al. (2024) enfatizam que a pandemia da COVID-19 acelerou a adoção de tecnologias como telemedicina, monitoramento remoto e plataformas digitais de acompanhamento, contribuindo para o surgimento de novos negócios em saúde. De maneira semelhante, Brasil (2025) reafirma que a utilização de inteligência artificial, análise de dados e serviços digitais centrados no paciente tem provocado avanços na eficiência, acessibilidade e humanização da assistência, abrindo novos campos de atuação para os profissionais de enfermagem.
Além da inclusão de empresas inovadoras, observa-se um aumento do interesse pelo empreendedorismo na enfermagem como campo de atuação. Ibiapina, Veras e Oliviano (2025) identificam uma carência em publicações sobre o tema, embora tenham observado um aumento recente do interesse acadêmico pela temática, expressando assim a necessidade de ampliar as discussões sobre as possibilidades de atuação empreendedora do enfermeiro.
Complementando essa perspectiva, Pontes et al. (2025) identificaram que determinantes como satisfação pessoal, aumento da renda e busca por melhores condições de trabalho constam entre as principais motivações para que enfermeiros invistam em negócios próprios. Portanto, observa-se que as startups vão além de simples polos de inovação, mas também representam um campo promissor para a enfermagem. Ao unir a prática assistencial à gestão e à tecnologia, esses ambientes permitem que o enfermeiro ocupe cargos estratégicos, contribuindo para a resolução de desafios atuais da saúde.
3.3. Desafios para Soluções Inovadoras na Enfermagem
O desenvolvimento de soluções inovadoras na enfermagem ainda enfrenta importantes desafios estruturais, educacionais e culturais. Os estudos analisados demonstram que, embora o enfermeiro ocupe posição estratégica na assistência à saúde e possua conhecimento técnico-científico amplo, sua inserção no ecossistema de inovação e empreendedorismo permanece limitada por diversos fatores (Brasil et al., 2025)
Oliveira et al. (2023) evidenciam que muitos enfermeiros encontram dificuldades relacionadas à formação acadêmica, especialmente pela ausência de disciplinas voltadas ao empreendedorismo, gestão, marketing e inovação tecnológica durante a graduação. Essa lacuna compromete o preparo profissional para atuar em startups, negócios próprios e desenvolvimento de tecnologias em saúde. O estudo ainda destaca obstáculos como insegurança financeira, burocracias legais, desvalorização profissional e dificuldades de captação de clientes, fatores que desestimulam iniciativas inovadoras.
Pontes et al. (2025) identificaram que muitos enfermeiros empreendedores buscam maior autonomia profissional, melhores condições de trabalho e satisfação pessoal. Além disso, cursos complementares de marketing digital e gestão de negócios foram destacados como fundamentais para fortalecer competências empreendedoras. Esse cenário sugere uma tendência de crescimento da enfermagem empreendedora associada à qualificação profissional e ao domínio de competências tecnológicas e gerenciais.
Araújo et al. (2024) também destacam a ampliação das áreas de atuação do enfermeiro empreendedor, incluindo consultorias, enfermagem estética, estomaterapia, tecnologias educativas e gestão em saúde. Tais possibilidades demonstram que o ecossistema de startups representa uma oportunidade para diversificação da atuação profissional, fortalecimento da autonomia e valorização da enfermagem enquanto ciência aplicada à inovação.
4. CONCLUSÃO
A presente revisão bibliográfica permitiu compreender de forma aprofundada a relevância da participação do enfermeiro no desenvolvimento de soluções inovadoras em startups da área da saúde, evidenciando sua contribuição não apenas para a criação de tecnologias, mas também para a otimização de processos assistenciais, aprimoramento da gestão dos serviços e fortalecimento da qualidade do cuidado prestado à população. Os estudos analisados demonstraram que o enfermeiro possui competências estratégicas e conhecimentos específicos que o capacitam a identificar necessidades reais dos serviços de saúde, compreender as demandas dos pacientes e profissionais e transformá-las em soluções inovadoras capazes de promover maior eficiência operacional, segurança do paciente e sustentabilidade dos sistemas de saúde. Dessa forma, sua atuação torna-se fundamental para garantir que as inovações desenvolvidas estejam alinhadas às necessidades práticas do cotidiano assistencial.
Observou-se que o crescimento das healthtechs e a expansão do ecossistema de inovação em saúde têm ampliado significativamente as oportunidades de atuação profissional, possibilitando ao enfermeiro assumir funções relacionadas à gestão, empreendedorismo, desenvolvimento tecnológico, pesquisa aplicada e coordenação do cuidado. Esse cenário tem favorecido a valorização de profissionais capazes de integrar conhecimentos clínicos e habilidades gerenciais, contribuindo para a construção de soluções mais eficientes e adaptadas às demandas contemporâneas do setor. Além disso, a integração entre conhecimento clínico, tecnologias digitais e visão empreendedora tem favorecido a construção de modelos assistenciais mais resolutivos, humanizados e centrados nas necessidades dos usuários, promovendo melhorias na experiência do paciente, na comunicação entre equipes multiprofissionais e na qualidade dos serviços oferecidos.
Entretanto, persistem desafios que limitam a inserção mais ampla da enfermagem nesse cenário de inovação e empreendedorismo, destacando-se as lacunas na formação acadêmica relacionadas ao empreendedorismo, inovação, gestão e tecnologia, bem como barreiras culturais e institucionais que dificultam o desenvolvimento de iniciativas empreendedoras por parte desses profissionais. Em muitos casos, os currículos dos cursos de enfermagem ainda priorizam predominantemente aspectos assistenciais tradicionais, oferecendo poucas oportunidades para o desenvolvimento de competências voltadas à criação de negócios, liderança de projetos inovadores e utilização estratégica de tecnologias emergentes. Dessa forma, torna-se fundamental o fortalecimento de estratégias educacionais, programas de capacitação continuada e políticas de incentivo que promovam a qualificação dos enfermeiros para atuação em ambientes inovadores, estimulando sua participação ativa na transformação digital e organizacional dos serviços de saúde.
Conclui-se que o enfermeiro desempenha papel essencial no avanço das startups em saúde, atuando como agente transformador capaz de integrar assistência, tecnologia e inovação em benefício dos sistemas de saúde e da população. Sua participação contribui para o desenvolvimento de soluções mais alinhadas às necessidades dos usuários, favorecendo a melhoria da qualidade assistencial, a eficiência dos processos e a ampliação do acesso aos cuidados. Além disso, sua experiência prática e visão abrangente do cuidado representam importantes diferenciais para a criação de produtos e serviços inovadores que gerem impacto positivo no setor. Recomenda-se o desenvolvimento de novas pesquisas sobre a temática, especialmente estudos que investiguem experiências práticas de enfermeiros em startups, os desafios enfrentados em sua trajetória empreendedora e os impactos de suas contribuições na qualidade da assistência, na satisfação dos usuários e nos resultados em saúde alcançados pelas organizações.
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1 Graduanda em Enfermagem (Faculdade Supremo Redentor - Pinheiro). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Graduanda em Enfermagem (Faculdade Supremo Redentor - Pinheiro). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Graduanda em Enfermagem (Faculdade Supremo Redentor - Pinheiro). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
4 Graduanda em Enfermagem (Faculdade Supremo Redentor - Pinheiro). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
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6 Graduanda em Enfermagem (Faculdade Supremo Redentor - Pinheiro). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
7 Graduado em Bacharelado em Enfermagem pela Faculdade Pitágoras. Profissional especializado em Estratégia Saúde da Família pela Faculdade Gianna Bereta. Professor vinculado à Faculdade Supremo Redentor de Pinheiro no Maranhão. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3427-2349.