SOFRIMENTO PSÍQUICO E USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS EM PESSOAS LGBTQIAPN+: UMA ANÁLISE PSICOLÓGICA A PARTIR DAS RELAÇÕES DE PODER E DO ESTRESSE MINORITÁRIO

PSYCHOLOGICAL DISTRESS AND PSYCHOACTIVE SUBSTANCE USE AMONG LGBTQIAPN+ PEOPLE: A PSYCHOLOGICAL ANALYSIS BASED ON POWER RELATIONS AND MINORITY STRESS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792554595

RESUMO
A população LGBTQIAPN+ vivencia discriminação, rejeição, violência e exclusão, experiências que podem repercutir na saúde mental e favorecer o uso de substâncias psicoativas como forma de enfrentamento. Considerando a necessidade de compreender esse fenômeno para além de perspectivas individualizantes e patologizantes, este estudo analisou como as relações de poder e o estresse minoritário se relacionam com o sofrimento psíquico e o uso de substâncias psicoativas nessa população. Realizou-se uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, de caráter bibliográfico, mediante análise de produções científicas e documentos relacionados ao tema, selecionados a partir das bases SciELO, PePSIC e Google Acadêmico, além de documentos do Conselho Federal de Psicologia e da Organização Mundial da Saúde. Os resultados indicaram que normas cisheteronormativas e relações de poder contribuem para situações de discriminação e exclusão, produzindo condições de vulnerabilidade. Verificou-se também que o estresse minoritário constitui elemento relevante para compreender o sofrimento psíquico e pode favorecer o consumo de substâncias como estratégia de enfrentamento, alívio emocional ou pertencimento. Concluiu-se pela necessidade de um cuidado psicológico ético, acolhedor e não patologizante, atento aos determinantes psicossociais, à redução de danos e à autonomia.
Palavras-chave: Estresse Minoritário; População LGBTQIAPN+; Relações de Poder; Sofrimento Psíquico; Substâncias Psicoativas.

ABSTRACT
The LGBTQIAPN+ population experiences discrimination, rejection, violence, and social exclusion, which may affect mental health and contribute to psychoactive substance use as a coping strategy. Considering the need to understand this phenomenon beyond individualizing and pathologizing perspectives, this study analyzed how power relations and minority stress influence psychological distress and psychoactive substance use within this population. A qualitative, exploratory, and descriptive bibliographic study was conducted through the analysis of scientific publications and documents related to the topic, selected from the SciELO, PePSIC, and Google Scholar databases, as well as documents published by the Federal Council of Psychology and the World Health Organization. The findings indicated that cisheteronormative norms and power relations contribute to experiences of discrimination and exclusion, creating conditions of vulnerability. Minority stress was also identified as an important factor in understanding psychological distress and may contribute to substance use as a coping strategy, a means of emotional relief, or a way of seeking belonging. The study concludes that psychological care should be ethical, supportive, and non-pathologizing, while considering psychosocial determinants, harm reduction, and individual autonomy.
Keywords: LGBTQIAPN+ Population; Minority Stress; Power Relations; Psychoactive Substances; Psychological Distress.

1. INTRODUÇÃO

A busca por substâncias psicoativas entre pessoas LGBTQIAPN+ pode ocorrer de forma precoce, ainda na adolescência, período marcado pela construção da identidade e pelo reconhecimento da orientação sexual e/ou identidade de gênero. A não conformidade com as normas cisheteronormativas socialmente estabelecidas expõe essa população a diferentes experiências de vulnerabilidade, onde o uso de drogas frequentemente está associado ao sofrimento psíquico e à necessidade de pertencimento e aceitação social.

Embora a orientação sexual e a identidade de gênero, por si mesmas, não sejam fatores constituintes do sofrimento psíquico, as vivências de pessoas LGBTQIAPN+ são atravessadas por situações de vulnerabilidade que podem repercutir na saúde mental (Meyer, 2003). Por isso, é necessário considerar não apenas os aspectos individuais, mas também os contextos sociais, culturais e as relações de poder que estabelecem quais identidades e formas de existência são reconhecidas, legitimadas ou marginalizadas.

Nesse contexto, a cisheteronormatividade atua na manutenção dos padrões que geram o apagamento e a marginalização de determinadas identidades, enquanto privilegiam outras. A não conformidade com tais normas pode expor pessoas LGBTQIAPN+ a diferentes situações de rejeição, discriminação e violência, que podem acarretar a necessidade de ocultação de aspectos de suas identidades.

Analisar o sofrimento dessa população a partir das relações de poder possibilita compreender como as estruturas sociais participam da produção e manutenção das experiências de sofrimento. As consequências dessas vivências também podem ser compreendidas pela teoria do estresse minoritário, desenvolvida por Ilan Meyer (2003), que permite analisar os efeitos da exposição de grupos minoritários a situações adversas.

Lidar diariamente com as tentativas de cerceamento da própria identidade, com o preconceito que atravessa os diferentes níveis e grupos, gerando discriminação, rejeição, violências diversas e a expectativa de novas experiências negativas, pode se somar às dificuldades presentes na vida cotidiana. Quando o estresse cotidiano se soma ao estresse de minoria, são produzidos fatores estressores adicionais.

Assim, o sofrimento psíquico presente nessa população não deve ser compreendido como consequência de quem se é, de suas identidades, mas como um fenômeno que está relacionado também às condições sociais e às experiências de estigmatização às quais as pessoas pertencentes a essa comunidade podem estar submetidas.

Nesse aspecto, a relação entre o sofrimento psíquico e o uso de substâncias é complexa e não pode ser explicada por uma relação causal simples. Em determinadas situações, o uso pode aparecer atrelado à tentativa de lidar com as experiências que causam sofrimento. Por isso, é necessário considerar as circunstâncias nas quais esse uso ocorre e as funções que ele pode assumir diante das vivências de cada indivíduo.

Diferentes espaços podem apresentar diferentes significados para pessoas LGBTQIAPN+. É comum que ambientes que oferecem possibilidade de reconhecimento, identificação e pertencimento, funcionem como fator de suporte social e de proteção diante da discriminação. Ao mesmo tempo, determinados contextos de sociabilidade podem apresentar maior exposição ao consumo de substâncias e favorecer sua normalização ou influência dos pares sobre o consumo.

As relações entre normas sociais, poder, identidade, sofrimento psíquico e uso de substâncias tornam-se relevantes para a Psicologia, especialmente pela necessidade de superar interpretações que individualizem ou patologizem experiências relacionadas à diversidade sexual e de gênero. O sofrimento psíquico, portanto, precisa ser compreendido a partir das condições sociais em que é produzido e vivenciado, contribuindo para uma atuação psicológica contextualizada e não patologizante junto à população LGBTQIAPN+.

A contribuição de Michel Foucault (1988) e Judith Butler (2015) permite problematizar as relações entre poder, normas e identidades, enquanto a teoria do estresse minoritário de Ilan Meyer (2003) contribui para compreender os efeitos da estigmatização sobre a saúde mental. Nesse contexto, o estudo parte da seguinte questão: como as relações de poder e o estresse minoritário se relacionam com o sofrimento psíquico e o uso de substâncias psicoativas em pessoas LGBTQIAPN+?

Assim, o objetivo geral foi analisar como as relações de poder e o estresse minoritário se relacionam com o sofrimento psíquico e o uso de substâncias psicoativas em pessoas LGBTQIAPN+. Para isso, buscou-se examinar como as normas sociais e as relações de poder se relacionam com a construção das identidades e as experiências de sofrimento psíquico na população LGBTQIAPN+; investigar a relação entre sofrimento psíquico e uso de substâncias psicoativas à luz da teoria do estresse minoritário; e discutir as implicações dessas relações para a compreensão psicológica do sofrimento psíquico e para o cuidado em saúde mental voltado à população LGBTQIAPN+.

A pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter exploratório e descritivo. O levantamento foi realizado nas bases SciELO, PePSIC e Google Acadêmico, além de buscas por publicações científicas, livros e documentos do Conselho Federal de Psicologia e da Organização Mundial da Saúde. Foram utilizados termos de busca relacionados à população LGBTQIAPN+, às relações de poder, ao estresse minoritário, ao sofrimento psíquico e ao uso de substâncias psicoativas.

Priorizou-se a consulta a publicações recentes, especialmente entre 2019 e 2026, sem desconsiderar obras anteriores relevantes para a fundamentação teórica. A seleção dos materiais ocorreu a partir de sua relação com o tema e os objetivos da pesquisa, sendo desconsideradas publicações que abordavam assuntos alheios à problemática investigada.

2. SOFRIMENTO PSÍQUICO, RELAÇÕES DE PODER E ESTRESSE MINORITÁRIO

2.1. Sofrimento Psíquico na População LGBTQIAPN+: Dimensões Sociais e Psicológicas

O corpo, o gênero e a sexualidade ocupam papel central na constituição das relações humanas e das estruturas de poder. As dinâmicas sociais do contexto em que o indivíduo está inserido participam da construção de suas percepções sobre o corpo e o gênero (Junior, 2019). Nesse sentido, o corpo constitui-se como território de disciplinamento e normatização social, o que, no caso da população LGBTQIAPN+, pode reforçar processos de exclusão e marginalização que impactam a saúde mental e intensificam o sofrimento psíquico.

Como afirma Foucault (1988, p. 30), “não existe um só, mas muitos silêncios e são parte integrante das estratégias que apoiam e atravessam os discursos”. A sexualidade, portanto, não deve ser entendida apenas como algo reprimido, mas como um campo de discursos que organiza a vida social ao estabelecer o que pode ou não ser dito e vivido. Essa perspectiva permite compreender que os silêncios e as invisibilidades impostos às identidades dissidentes constituem formas de poder que repercutem na experiência subjetiva e na saúde mental da população LGBTQIAPN+.

O sofrimento psíquico é um fenômeno multifacetado, atravessado pelas relações do indivíduo com a cultura, as relações interpessoais e o meio em que vive, podendo manifestar-se diante de situações de crise, perdas, discriminação e violência (Gomes; Carvalho; Silva, 2021). Nesse sentido, os estudos contemporâneos têm ampliado a compreensão desse fenômeno para além de fatores exclusivamente individuais, considerando os contextos de vida, as interações sociais e as estruturas que atravessam a experiência dos sujeitos (Souza et al., 2022).

A inserção em uma sociedade estruturada por normas rígidas de gênero e sexualidade implica, para pessoas LGBTQIAPN+, a constante negociação de suas identidades, podendo gerar sentimentos de inadequação, insegurança e invisibilidade (Conselho Federal de Psicologia, 2023). Assim, a construção das identidades ocorre em um campo marcado por tensões, no qual o sujeito precisa negociar sua existência diante de expectativas sociais que, muitas vezes, negam sua legitimidade.

Evidências apontam que experiências de discriminação e rejeição estão associadas ao aumento de sintomas depressivos, ansiosos e outras formas de sofrimento emocional (Souza et al., 2022). As macro e microagressões cotidianas, a limitação do afeto e as dificuldades de exercer plenamente a cidadania configuram barreiras que ampliam a vulnerabilidade. Esse sofrimento, entretanto, não decorre da orientação sexual ou da identidade de gênero em si, mas das experiências de violência, discriminação e estigmatização produzidas em ambientes hostis.

A vivência contínua de rejeição e invisibilidade social pode comprometer a construção de uma autoimagem positiva e dificultar o desenvolvimento de estratégias saudáveis de enfrentamento (Souza et al., 2022). Esse impacto pode ser particularmente significativo durante a adolescência, quando a rejeição familiar e a ausência de amparo podem afetar o desenvolvimento emocional de jovens LGBTQIAPN+ (Brown; Abdelmassih; Hanna, 2024).

Dessa forma, as normas sociais não atuam apenas no âmbito coletivo, mas também alcançam a subjetividade, influenciando a maneira como o sujeito constrói sua autoimagem e estabelece sua relação consigo mesmo (Lacerda; Pinho, 2022). Diante desse contexto, pessoas LGBTQIAPN+ podem buscar espaços de reconhecimento, pertencimento e expressão de suas identidades.

Entretanto, determinados ambientes de sociabilidade também podem favorecer maior exposição a situações de risco, incluindo o uso de substâncias psicoativas (Diehl, 2009). Assim, os processos de vulnerabilização vivenciados pela população LGBTQIAPN+ influenciam não apenas o sofrimento psíquico, mas também as formas de enfrentamento adotadas pelos sujeitos, evidenciando a necessidade de compreender essas experiências para além de análises exclusivamente individuais (Souza et al., 2022).

2.2. Sofrimento Psíquico e Uso de Substâncias à Luz da Teoria do Estresse Minoritário

Como discutido anteriormente, o sofrimento psíquico na população LGBTQIAPN+ é atravessado por aspectos sociais, históricos e culturais, não devendo ser compreendido de forma isolada ou reduzido à orientação sexual e à identidade de gênero (Pinheiro, 2024). Nesse sentido, a Teoria do Estresse Minoritário, desenvolvida por Meyer (2003), constitui importante referencial para compreender de que maneira a discriminação, o preconceito e as agressões repercutem na saúde mental dessa população.

Segundo Meyer (2003), pessoas LGBTQIAPN+ vivenciam estressores específicos relacionados à sua condição minoritária, que se somam aos fatores de estresse presentes na população em geral. O autor distingue estressores distais, como violência, rejeição e discriminação, e proximais, relacionados à expectativa de rejeição e à internalização do estigma.

A interação desses fatores pode produzir estresse crônico, contribuindo para o sofrimento psíquico e para prejuízos à saúde mental. Essa perspectiva pode ser articulada às contribuições de Foucault (1988) e Butler (2015), ao considerar que as normas sociais estabelecem padrões de gênero e sexualidade que regulam os modos de existência.

Quando essas normas são transgredidas, podem produzir processos de estigmatização e violência simbólica. Frost e Meyer (2023) reforçam essa compreensão ao apontarem a cisheteronormatividade como fator estrutural associado ao estresse minoritário, manifestado também em práticas cotidianas, como o misgendering, o bullying e a imposição de papéis de gênero.

De acordo com Hatzenbuehler (2009), estudos epidemiológicos indicam maior prevalência de transtornos mentais entre pessoas pertencentes a minorias sexuais. Essas experiências podem ocorrer desde etapas precoces do desenvolvimento e se intensificar diante da rejeição familiar, do bullying e da ausência de redes de apoio, comprometendo a expressão da identidade e a construção de uma percepção positiva de si (Aliança Nacional LGBTI+, 2025).

Nesse contexto, o uso de substâncias psicoativas pode assumir a função de estratégia de enfrentamento diante do sofrimento decorrente da discriminação e do isolamento social. O consumo de álcool, tabaco e outras drogas aparece associado à tentativa de lidar com experiências adversas e regular estados emocionais negativos (Martins et al., 2025). Dados do The Trevor Project (2022) também apontam prevalência significativa do uso de substâncias entre jovens LGBTQIAPN+, especialmente álcool, maconha e medicamentos sem prescrição.

A relação entre uso de substâncias e pertencimento também precisa ser considerada. Em determinados espaços de sociabilidade LGBTQIAPN+, o consumo pode funcionar como elemento de integração e compartilhamento cultural, incluindo contextos festivos e práticas como o chemsex, nas quais diferentes substâncias são utilizadas associadas à busca por prazer e experiências sexuais (Brown; Abdelmassih; Hanna, 2024).

Dessa forma, o consumo não pode ser interpretado exclusivamente como comportamento individual, uma vez que também se relaciona às condições sociais e aos espaços de pertencimento disponíveis aos sujeitos. Além disso, o uso de substâncias não ocorre de maneira homogênea entre a população LGBTQIAPN+ (Da Mota et al., 2024). Diferenças relacionadas a gênero, identidade e condições socioeconômicas podem produzir diferentes padrões de consumo e níveis de vulnerabilidade.

Estudos apontam maior exposição de pessoas trans e travestis, especialmente em contextos marcados pela exclusão social e pela discriminação (Da Mota et al., 2024). Esses dados reforçam a necessidade de considerar a heterogeneidade da população LGBTQIAPN+ e os diferentes contextos de vulnerabilidade. Nesse cenário, embora o consumo possa proporcionar alívio emocional ou favorecer vínculos em determinados contextos, também pode intensificar processos de vulnerabilização.

A associação entre uso de substâncias, agravamento do sofrimento psicológico, dependência e exposição a situações de risco evidencia o caráter ambivalente dessa estratégia de enfrentamento (Krueger; Fish; Upchurch, 2020). Assim, o consumo pode ser compreendido simultaneamente como tentativa de lidar com experiências de estresse e como fator capaz de ampliar as condições de vulnerabilidade.

Diante disso, compreender o uso de substâncias psicoativas entre pessoas LGBTQIAPN+ exige considerar a articulação entre contexto social, produção de subjetividade e condições estruturais de vida, evitando interpretações que responsabilizem exclusivamente o indivíduo (Martins et al., 2025). Essa compreensão permite avançar para uma perspectiva de cuidado que considere as especificidades da população LGBTQIAPN+ e os fatores sociais relacionados ao sofrimento psíquico e ao consumo de substâncias.

2.3. Implicações para o Cuidado Psicológico e a Saúde Mental da População LGBTQIAPN+

A análise do sofrimento psíquico e do uso de substâncias psicoativas evidencia que essas experiências não podem ser compreendidas apenas de forma individual, pois estão inseridas em relações de poder e contextos de exclusão que atravessam a população LGBT (Da Mota et al., 2024). Nesse sentido, torna-se fundamental refletir sobre práticas de cuidado em saúde mental mais sensíveis às demandas dessa população.

Apesar dos avanços conquistados nas últimas décadas, como a retirada da homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças pela Organização Mundial da Saúde em 1990 (Drescher, 2015), ainda persistem práticas e concepções que reproduzem preconceitos. O sofrimento psíquico continua sendo produzido na interface entre sujeito e contexto social, atravessado por normas cisheteronormativas e relações de poder que marginalizam identidades dissidentes.

Nesse cenário, cabe à Psicologia desenvolver práticas qualificadas e comprometidas com a dignidade e o bem-estar dessa população. Lacunas na formação e na atuação profissional podem favorecer a reprodução de preconceitos e normas excludentes nos serviços de saúde (Damaceno Netto; Rasera, 2024).

Tal postura contraria as diretrizes éticas da profissão, uma vez que o Conselho Federal de Psicologia, por meio da Resolução CFP nº 001/1999, estabeleceu normas de atuação profissional em relação à orientação sexual e vedou práticas de conversão, reconhecendo-as como incompatíveis com os princípios éticos da profissão e com a garantia dos direitos humanos (CFP, 1999). Além disso, experiências de preconceito durante o atendimento podem levar pessoas LGBTQIAPN+ a se afastarem dos serviços, contribuindo para o agravamento do sofrimento psíquico e para a adoção de estratégias de enfrentamento nocivas (Damaceno Netto; Rasera, 2024).

A violência simbólica também pode atravessar os próprios espaços de cuidado (CFP, 2019). Relatos reunidos pelo Conselho Federal de Psicologia evidenciam situações em que profissionais reproduzem concepções moralizantes e patologizantes sobre identidades LGBTQIAPN+, demonstrando que o preconceito estrutural também pode estar presente nos serviços destinados à promoção da saúde mental. Essas situações podem ser compreendidas à luz das relações de poder discutidas por Foucault (1988), uma vez que práticas e discursos institucionais também participam da produção e manutenção de normas sobre sexualidade e gênero.

Dessa forma, a atuação psicológica deve reconhecer os efeitos das relações de poder e das normas cisheteronormativas na constituição subjetiva dos indivíduos, construindo espaços terapêuticos seguros e acolhedores (Damaceno Netto; Rasera, 2024). Essa compreensão também dialoga com Meyer (2003), que defende que experiências de estigma e discriminação podem constituir estressores específicos para minorias sexuais. No contexto clínico, compreender o uso de substâncias psicoativas apenas como comportamento desviante ou problema individual pode reforçar processos de culpabilização.

Em determinados casos, o consumo está relacionado à tentativa de amenizar dores emocionais decorrentes de experiências de rejeição, discriminação e exclusão, funcionando como estratégia de enfrentamento diante do sofrimento psíquico (Monteiro, 2024). Por isso, o cuidado deve contemplar estratégias de redução de danos, acolhimento e fortalecimento da autonomia, considerando a complexidade das experiências vividas pela população LGBTQIAPN+ (CFP, 2023).

No âmbito das políticas públicas, a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais representa um avanço na garantia do acesso universal e igualitário aos serviços de saúde, ao propor ações de combate à discriminação institucional e promoção do cuidado integral (Brasil, 2013). Entretanto, sua efetivação ainda encontra dificuldades relacionadas ao despreparo profissional e à permanência de práticas excludentes nos serviços de saúde.

Nesse sentido, o fortalecimento de redes de apoio e espaços coletivos de acolhimento pode contribuir para reduzir o isolamento social e ampliar o sentimento de pertencimento, favorecendo a saúde mental (Souza et al., 2022). Esses espaços podem atuar como fator de proteção diante das situações discriminatórias, porém, essas vivências são atravessadas por diferentes condições sociais e não acontecem de maneira igual entre todas as pessoas que fazem parte da comunidade.

É necessário considerar a interseccionalidade, uma vez que diferentes marcadores sociais, como raça, classe social, gênero, orientação sexual e identidade de gênero, podem se articular e ampliar a vulnerabilidade ao sofrimento psíquico e ao uso de substâncias (Carvalho, 2018). Assim, a Psicologia possui papel fundamental na construção de práticas de cuidado humanizadas e inclusivas, comprometidas com a dignidade, o bem-estar e os direitos humanos da população LGBT (CFP, 2023).

3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS

A análise realizada permitiu compreender que o sofrimento psíquico de pessoas LGBTQIAPN+ não está relacionado à orientação sexual ou à identidade de gênero em si, mas às condições sociais em que suas experiências são vivenciadas. As relações de poder e as normas cisheteronormativas contribuem para a manutenção de padrões que legitimam determinadas formas de existência e marginalizam outras, favorecendo situações de preconceito, discriminação, rejeição e violência.

Essas experiências podem afetar a saúde mental e produzir condições persistentes de vulnerabilidade, demonstrando a importância de compreender o sofrimento para além de explicações centradas exclusivamente no indivíduo. Nesse contexto, o estresse minoritário mostrou-se um referencial importante para compreender como a exposição a situações de discriminação e a expectativa de vivenciar novas experiências de rejeição podem repercutir no bem-estar psicológico.

O sofrimento não se limita aos episódios explícitos de violência, pois também pode estar relacionado à necessidade constante de lidar com ambientes hostis, ocultar aspectos da própria identidade ou buscar aceitação social. Dessa forma, a análise evidencia a importância de considerar os efeitos dessas experiências ao investigar as condições de saúde mental da população LGBTQIAPN+, reconhecendo que elas podem variar conforme as vivências e os contextos de cada pessoa.

Em relação ao uso de substâncias psicoativas, os estudos analisados permitem compreender que seu consumo pode estar relacionado a diferentes formas de lidar com o sofrimento emocional. Em determinadas circunstâncias, as substâncias podem ser utilizadas na tentativa de aliviar sentimentos desagradáveis ou enfrentar experiências adversas. Além disso, determinados contextos de consumo podem estar associados à busca por pertencimento e integração social.

Entretanto, essa relação não deve ser interpretada como direta ou universal, uma vez que nem todas as pessoas LGBTQIAPN+ vivenciam as mesmas condições de vulnerabilidade ou desenvolvem padrões semelhantes de consumo. Assim, compreender esse fenômeno exige considerar tanto os fatores sociais quanto as experiências individuais, sem estabelecer uma relação automática entre diversidade sexual e de gênero e uso de substâncias psicoativas como enfrentamento do sofrimento psíquico.

A partir dessa análise, compreende-se que as relações de poder e o estresse minoritário oferecem elementos relevantes para investigar as conexões entre as condições sociais, o sofrimento psíquico e o uso de substâncias psicoativas. Essa perspectiva contribui para questionar interpretações que responsabilizam exclusivamente os indivíduos por seu sofrimento ou tratam suas identidades como causas de adoecimento.

Ao situar essas experiências em seus contextos sociais, torna-se possível reconhecer os efeitos da discriminação e das desigualdades sem desconsiderar a singularidade de cada trajetória. Desse modo, o estudo contribui para uma compreensão psicológica que articula os processos subjetivos às condições sociais em que se constituem.

A pesquisa também evidencia a importância de uma atuação psicológica comprometida com a ética e com a subjetividade de cada pessoa, considerando os determinantes psicossociais do sofrimento e evitando interpretações individualizantes ou patologizantes. O cuidado em saúde mental deve contemplar acolhimento, redução de danos, fortalecimento da autonomia e construção de espaços seguros, considerando as diferentes condições de vulnerabilidade presentes na população LGBTQIAPN+.

A pesquisa apresenta como limitação a ausência de investigação empírica, uma vez que a análise foi desenvolvida a partir de revisão bibliográfica. Nesse sentido, estudos futuros podem ampliar a compreensão do fenômeno por meio de pesquisas com pessoas LGBTQIAPN+, considerando diferentes contextos sociais e condições de vulnerabilidade, bem como suas experiências de sofrimento psíquico, uso de substâncias e acesso aos serviços de saúde mental.

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1 Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail