REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792554676
RESUMO
O presente artigo aborda a construção da figura do “psicopata” em produções audiovisuais, considerando representações presentes em filmes, séries e documentários sobre crimes reais. A relevância do estudo está relacionada à necessidade de compreender criticamente como essas narrativas constroem imagens sociais sobre a psicopatia, frequentemente associando-a à violência, à manipulação, à ausência de remorso e, em alguns casos, ao fascínio. O objetivo geral consiste em analisar como essa figura é construída e representada nas produções audiovisuais, identificando os elementos narrativos utilizados, examinando as características atribuídas a esses personagens e comparando representações ficcionais e baseadas em casos reais com as concepções científicas sobre a psicopatia. Para isso, realizou-se uma pesquisa bibliográfica e descritiva, com consulta a estudos publicados entre 2002 e 2025, localizados nas bases SciELO, Google Acadêmico e PubMed. Foram selecionados artigos científicos, monografias e outros trabalhos acadêmicos que abordassem a psicopatia em relação a séries, filmes ou documentários sobre crimes reais. Os resultados indicam que a figura do “psicopata” não é representada de maneira única: algumas narrativas enfatizam a frieza, a agressividade e a violência, enquanto outras destacam a inteligência, o carisma, a aparência e a sofisticação, podendo despertar curiosidade e fascínio. Também são observadas diferenças entre determinadas representações audiovisuais e as concepções científicas discutidas na literatura. Conclui-se que a construção dessa figura depende de escolhas narrativas que podem reforçar estereótipos ou contribuir para a idealização de criminosos, evidenciando a importância de uma análise crítica dessas representações.
Palavras-chave: Crimes reais; Mídia; Psicopatia; Produções audiovisuais; Representação.
ABSTRACT
This article addresses the construction of the figure of the “psychopath” in audiovisual productions, considering representations found in films, television series, and true-crime documentaries. The relevance of this study lies in the need to critically understand how these narratives construct social images of psychopathy, frequently associating it with violence, manipulation, lack of remorse, and, in some cases, fascination. The general objective is to analyze how this figure is constructed and represented in audiovisual productions by identifying the narrative elements employed, examining the characteristics attributed to these characters, and comparing fictional representations and those based on real cases with scientific conceptions of psychopathy. To this end, a bibliographic and descriptive study was conducted, consulting studies published between 2002 and 2025 and retrieved from the SciELO, Google Scholar, and PubMed databases. Scientific articles, undergraduate monographs, and other academic works addressing psychopathy in relation to television series, films, or true-crime documentaries were selected. The results indicate that the figure of the “psychopath” is not represented in a uniform manner: some narratives emphasize coldness, aggressiveness, and violence, while others highlight intelligence, charisma, appearance, and sophistication, potentially arousing curiosity and fascination. Differences are also observed between certain audiovisual representations and the scientific conceptions discussed in the literature. It is concluded that the construction of this figure depends on narrative choices that may reinforce stereotypes or contribute to the idealization of criminals, highlighting the importance of critically analyzing these representations.
Keywords: Audiovisual productions; Media; Psychopathy; Representation; True crime.
1. INTRODUÇÃO
A figura do “psicopata” está bastante presente no imaginário social, principalmente em narrativas sobre crimes, violência e comportamentos considerados desviantes. Filmes, séries e documentários costumam associá-la a características como frieza, manipulação, ausência de remorso e violência. Entretanto, essas representações nem sempre correspondem à complexidade do conceito discutido pela Psicologia, contribuindo para a construção de uma imagem simplificada da psicopatia.
A psicopatia apresenta diferentes formas de compreensão na literatura especializada e está relacionada a discussões sobre transtornos de personalidade, criminalidade e violência. Morana, Stone e Abdalla-Filho (2006) ressaltam a importância de diferenciar psicopatia, transtorno de personalidade e serial killers, evitando que esses conceitos sejam tratados como sinônimos. Essa diferenciação é relevante diante da frequente associação feita pela mídia entre a figura do “psicopata” e o criminoso violento.
A mídia participa dessa construção ao selecionar acontecimentos, comportamentos e discursos apresentados ao público. Essas representações podem contribuir para uma visão distorcida da psicopatia, especialmente pela associação do conceito com assassinatos em série e ausência de sentimentos. Nas produções baseadas em crimes reais analisadas, essa construção ocorre pela transformação de acontecimentos e indivíduos em narrativas, enquanto, na ficção, características como inteligência, sedução e violência podem ser utilizadas para compor personagens. Souza, Oliveira e Souza (2022), ao analisarem Hannibal Lecter, discutem justamente a glamourização dessa figura.
Estudos sobre representações cinematográficas também apontam diferenças entre a imagem do “psicopata” construída pelo audiovisual e as concepções científicas. Leistedt e Linkowski (2014) identificaram distanciamentos entre personagens cinematográficos e a realidade clínica, enquanto Davis, Frederick e Corcoran (2020) observaram que apenas parte dos personagens analisados correspondia aos critérios de psicopatia utilizados no estudo. Esses dados reforçam a importância de compreender o “psicopata” audiovisual como uma construção narrativa.
Diante disso, esta pesquisa justifica-se pela necessidade de compreender como essas representações são construídas e quais sentidos são atribuídos à figura do “psicopata”. A investigação das produções audiovisuais, articulada à literatura científica, permite refletir sobre a maneira como características relacionadas à psicopatia são apresentadas ao público e como podem contribuir para a formação de determinadas percepções sobre o fenômeno.
Assim, o presente artigo tem como objetivo analisar como a figura do “psicopata” é construída e representada em produções audiovisuais, considerando os elementos utilizados nessas narrativas. Busca-se também identificar características associadas a essa figura, como violência, manipulação, culpa, remorso, relações familiares, história de vida e transgressão, além de problematizar possíveis diferenças entre a representação midiática e as concepções científicas sobre psicopatia.
Para isso, foi realizada uma pesquisa bibliográfica e descritiva, com consulta a artigos científicos, monografias e outros trabalhos acadêmicos publicados entre 2002 e 2025, localizados nas bases SciELO, Google Acadêmico e PubMed. Foram selecionados estudos que abordassem a psicopatia em filmes, séries e documentários sobre crimes reais, considerando sua relação com a construção da figura do “psicopata”. O estudo não pretende abranger todas as representações existentes nem realizar diagnósticos ou julgamentos clínicos sobre pessoas reais ou personagens, mas compreender como essa figura é construída pelas narrativas audiovisuais.
A escolha por observar diferentes produções audiovisuais permite considerar que a figura do “psicopata” não é apresentada de maneira única. Dependendo da narrativa, o personagem ou indivíduo retratado pode ser associado principalmente à violência e ao perigo, mas também pode receber características que despertam curiosidade, medo ou fascínio. Dessa forma, analisar essas diferentes construções possibilita perceber como determinados elementos são selecionados e organizados para produzir sentidos específicos sobre a psicopatia.
Parte-se da proposição de que as produções audiovisuais podem contribuir para a construção de diferentes imagens sobre a psicopatia, associando-a a elementos como violência, criminalidade, manipulação, fascínio e transgressão. Entretanto, considerando que o estudo se limita às produções selecionadas e à literatura científica consultada, não se pretende abranger todas as representações existentes nem estabelecer conclusões definitivas sobre a relação entre a psicopatia e sua representação audiovisual. Busca-se, portanto, compreender como essa figura assume diferentes significados de acordo com as narrativas em que é apresentada, observando possíveis aproximações e diferenças em relação aos conhecimentos científicos sobre o tema.
2. PSICOPATIA, MÍDIA E REPRESENTAÇÃO SOCIAL
2.1. Psicopatia: Origem, Delimitação Conceitual e Construção da Figura do “Psicopata”
O conceito de psicopatia passou por diferentes modificações ao longo da história, não apresentando desde sua origem o mesmo significado atribuído atualmente. Silva (2015) destaca que o termo foi utilizado em diferentes contextos da literatura médica e psicológica, sendo inicialmente empregado de maneira ampla para designar pessoas consideradas portadoras de doenças mentais. Segundo o autor, “o termo psicopatia [...] foi tomado de empréstimo do campo da psiquiatria por vários psicanalistas” (Shine, 2000 apud Freitas da Silva, 2015, p.74), demonstrando que sua compreensão foi sendo transformada conforme diferentes campos passaram a estudá-lo.
No século XIX, a palavra “psicopatia” ainda possuía um significado bastante abrangente. Silva (2015) aponta que o termo, derivado do grego psyché e páthos, era utilizado para designar genericamente pessoas consideradas doentes mentais, não estando inicialmente relacionado de forma direta à personalidade antissocial. Posteriormente, a psiquiatria alemã contribuiu para uma utilização mais específica do conceito, especialmente com Koch, que teve papel importante na introdução do termo em sua acepção moderna (Silva, 2015).
Ao longo do século XX, diferentes autores contribuíram para a construção das concepções contemporâneas de psicopatia. Entre eles, destaca-se Hervey Cleckley, cuja obra The Mask of Sanity (A máscara da sanidade), publicada originalmente em 1941, tornou-se uma referência teórica para o estudo do conceito. Haru e Neumann (2008) apontam que as concepções atuais foram influenciadas tanto pelos estudos clínicos de Cleckley quanto pelo desenvolvimento da Psychopathy Checklist-Revised (Lista de verificação de psicopatia revisada) (PCL-R). Os autores ressaltam, entretanto, que o conceito continuou sendo discutido e reformulado posteriormente (Haru e Neumann, 2008).
A relação entre psicopatia e transtorno da personalidade antissocial requer uma diferenciação conceitual, uma vez que, embora apresentem características sobrepostas, não são considerados sinônimos. O DSM-5-TR apresenta critérios diagnósticos para o transtorno da personalidade antissocial, enquanto a psicopatia constitui um construto distinto, relacionado a características interpessoais, afetivas e comportamentais que podem se sobrepor às desse transtorno (American Psychiatric Association, 2022). Essa distinção é importante para evitar que comportamentos criminosos, violentos ou transgressores sejam automaticamente interpretados como manifestações de psicopatia.
Essa associação entre psicopatia, criminalidade e violência aparece também na representação social do termo. Silva (2015, p.75) observa que a mídia frequentemente apresenta o psicopata como “assassino em série” ou como alguém frio e sem compaixão, embora o próprio autor ressalte que “nem todo psicopata é assassino” (Filho, 2006). Assim, a aproximação automática entre psicopatia e homicídio contribui para uma compreensão reduzida do conceito e favorece a formação de estereótipos (Filho, 2006).
A mídia, nesse contexto, não apenas informa sobre a psicopatia, mas também participa da construção das imagens associadas a ela. Os meios de comunicação funcionam também como formas de informação e formação de opinião, podendo contribuir para uma visão distorcida do conceito (Silva, 2015). O autor utiliza produções como Dexter para demonstrar como características relacionadas à violência, à camuflagem social, à inteligência e à capacidade de manipulação podem ser reunidas na composição de uma determinada figura do psicopata (Silva, 2015).
Essa transformação da figura criminosa em personagem midiático também pode ser observada em narrativas sobre crimes reais. Linhares (2025), ao analisar o caso do Assassino do Zodíaco, mostra como a cobertura jornalística contribuiu para transformar o criminoso em uma figura que ultrapassou os acontecimentos originais. Segundo a autora, os crimes passaram a integrar um “espetáculo cultural”, no qual o criminoso foi transformado em uma espécie de celebridade e sua imagem adquiriu características lendárias (Linhares, 2025).
No caso analisado por Linhares (2025), a própria relação estabelecida entre criminoso e imprensa contribuiu para a construção dessa imagem. As cartas enviadas aos jornais produziam medo, mistério e curiosidade, enquanto a cobertura jornalística ampliava sua visibilidade. A autora observa que o assassino conseguiu, em certa medida, interferir na narrativa construída sobre seus próprios crimes, transformando-se em um produto da cultura popular. Esse processo demonstra que, em narrativas de crimes reais, a figura do criminoso também pode ser reorganizada pela mídia e posteriormente incorporada ao entretenimento (Linhares, 2025).
Dessa maneira, compreender a psicopatia exige considerar tanto sua construção histórica e científica quanto os significados atribuídos ao termo no senso comum e nas produções midiáticas. A diferença entre o conceito científico e a figura construída pelo audiovisual torna-se, portanto, fundamental para a análise proposta neste artigo. É a partir dessa distinção que se torna possível compreender como violência, criminalidade, manipulação, inteligência, carisma e fascínio são selecionados e reorganizados pelas narrativas para construir diferentes versões da figura do “psicopata”.
2.2. Como a Mídia Produz Representações e por Que Determinados Conteúdos Despertam Interesse
A mídia ocupa um espaço importante na circulação de informações e na construção de percepções sobre diferentes acontecimentos e fenômenos sociais. Por meio de jornais, televisão, filmes, séries e plataformas digitais, determinados acontecimentos podem receber maior visibilidade e ser apresentados a partir de diferentes formas narrativas. Dessa maneira, os meios de comunicação não apenas divulgam acontecimentos, mas também participam da forma como eles são apresentados e compreendidos socialmente (Cama, 2009).
Essa construção torna-se ainda mais evidente quando se trata de acontecimentos relacionados à criminalidade. A cobertura midiática pode selecionar determinados elementos de um caso, destacar personagens, trajetórias pessoais e aspectos considerados relevantes para o público, transformando o acontecimento em uma narrativa. Cama (2009) observa que a representação da criminalidade no audiovisual pode ultrapassar a transmissão do fato e aproximar-se de formas próprias do entretenimento, contribuindo para a transformação do crime em espetáculo.
A aproximação entre informação, entretenimento e ficção também interfere na maneira como acontecimentos reais são apresentados. Cama (2009) afima que recursos utilizados pelas produções audiovisuais podem produzir determinados efeitos de realidade, tornando menos definidos os limites entre aquilo que é construído narrativamente. Assim, mesmo quando uma produção parte de acontecimentos reais, sua apresentação envolve escolhas sobre quais elementos serão destacados e de que maneira serão organizados (Cama, 2009).
Esse processo pode contribuir para que determinados crimes e criminosos permaneçam presentes no imaginário coletivo. A pesquisa de Linhares (2025) sobre o Assassino do Zodíaco demonstra como a atuação da imprensa e a circulação de narrativas sobre crimes podem ultrapassar a dimensão do acontecimento e contribuir para a construção de uma figura simbólica. No caso analisado pela autora, as cartas enviadas aos jornais e a ampla repercussão do caso contribuíram para transformar o criminoso em uma figura associada ao mistério e à cultura popular (Linhares, 2025).
Quando essa lógica de representação é aplicada à psicopatia, a mídia pode contribuir para a construção de imagens específicas sobre o fenômeno. Saggiomo et al. (2025) apontam que filmes, séries, reportagens e outros meios de comunicação participam da formação de estereótipos relacionados à psicopatia, especialmente quando o conceito é associado de maneira recorrente à violência, à criminalidade e à ausência de sentimentos. Essas representações podem reduzir a complexidade do fenômeno ao enfatizar determinadas características (Saggiomo et al, 2025).
Por outro lado, a figura do “psicopata” também pode ser apresentada de maneira mais atraente ou sofisticada. As produções ficcionais podem representar esses personagens como pessoas charmosas, elegantes, frias e inteligentes, enquanto determinadas narrativas jornalísticas enfatizam principalmente a violência e o perigo (Saggiomo et al., 2025). Dessa forma, diferentes produções podem construir imagens distintas, que variam entre a ameaça, o medo, a curiosidade e o fascínio.
A preocupação com essas representações também aparece em Silva (2016), ao discutir a forma como a mídia apresenta a psicopatia. A autora destaca que o termo é frequentemente associado a assassinos em série, pessoas de sangue frio ou indivíduos sem compaixão, contribuindo para uma visão distorcida do fenômeno. Essa associação é relevante porque aproxima conceitos diferentes e pode fazer com que a figura do “psicopata” seja compreendida principalmente a partir da criminalidade (Silva, 2016).
Além da associação com a violência, algumas produções podem contribuir para a romantização ou glamourização dessa figura. O estudo de Souza, Oliveira e Souza (2022), ao analisar Hannibal Lecter, evidencia como uma representação cinematográfica pode destacar características que tornam o personagem simultaneamente ameaçador e atraente. Nesse sentido, a construção audiovisual não se limita à apresentação da violência, podendo também utilizar inteligência, sofisticação, carisma e capacidade de manipulação como elementos de composição do personagem (Souza, Oliveira e Souza, 2022).
A relação entre essas representações e a compreensão social da psicopatia também é discutida por Parry e Phan (2025), que analisaram narrativas midiáticas presentes em filmes, séries, podcasts e conteúdos de true crime. Os autores destacam a existência de diferenças entre determinadas representações midiáticas e as características descritas na literatura sobre psicopatia. Embora o estudo possua uma amostra reduzida, seus resultados contribuem para a discussão sobre a necessidade de observar criticamente a distância entre a representação midiática e o conhecimento científico (Parry e Phan, 2025).
Assim, a mídia pode ser compreendida como um espaço no qual diferentes sentidos sobre a psicopatia são produzidos e difundidos. A figura do “psicopata” não é construída somente pelas características atribuídas ao personagem ou indivíduo retratado, mas também pela maneira como a narrativa organiza elementos como crime, violência, história de vida, relações familiares, personalidade e comportamento. Essa compreensão permite avançar para a análise das produções audiovisuais selecionadas, observando de que maneira esses elementos são utilizados na construção dessa figura.
2.3. A Construção da Figura do “Psicopata” nas Produções Audiovisuais
As produções audiovisuais utilizam diferentes elementos narrativos para construir personagens associados à psicopatia. Características relacionadas à personalidade, ao comportamento e às relações interpessoais podem ser selecionadas e enfatizadas de acordo com os objetivos de cada narrativa. Dessa forma, a figura do “psicopata” apresentada em filmes, séries e produções de true crime não corresponde necessariamente ao conceito científico, mas resulta de uma construção narrativa realizada a partir de determinados elementos (Hesse, 2009).
No cinema, uma das representações mais recorrentes relaciona a psicopatia à frieza, ao cálculo, à agressividade e à violência. Hesse (2009) observa que os personagens associados à psicopatia são frequentemente apresentados a partir dessas características, o que contribui para uma imagem simplificada do fenômeno. Essa construção pode favorecer a associação entre psicopatia e perigo, fazendo com que o personagem seja apresentado principalmente a partir de sua capacidade de ameaçar outras pessoas (Hesse, 2009).
Essa distância entre a representação cinematográfica e o conceito de psicopatia também foi identificada por Leistedt e Linkowski (2014) que analisaram 400 filmes produzidos entre 1915 e 2010 e identificaram 126 personagens considerados psicopáticos em sua pesquisa. Os autores observaram que as representações consideradas realistas eram minoritárias, indicando que o cinema frequentemente adapta ou exagera características relacionadas à psicopatia para atender às necessidades dramáticas da narrativa (Leistedt e Linkowski, 2014),
Davis, Frederick e Corcoran (2020) também encontraram diferenças entre a representação cinematográfica e os critérios descritos como psicopáticos. Os autores observaram que apenas 21% atendiam aos critérios utilizados no estudo. Esse resultado reforça que a utilização do termo “psicopata” nas produções audiovisuais não significa necessariamente que o personagem apresente, de forma consistente, as características utilizadas para definir o construto cientificamente (Davis, Frederick e Corcoran, 2020).
Além das características atribuídas ao personagem, a forma como a narrativa apresenta sua aparência, trajetória pessoal e relações com outras pessoas também participa dessa construção. Reis (2024), ao analisar a representação midiática de Ted Bundy, identificou enquadramentos relacionados ao carisma e à aparência, à dramatização dos crimes e à humanização do criminoso. Esses elementos demonstram como diferentes aspectos de uma mesma figura podem ser selecionados e organizados para produzir determinadas formas de percepção sobre ela (Reis, 2024).
A humanização do criminoso pode ocorrer, por exemplo, quando a narrativa dedica espaço à sua história pessoal, às suas relações ou às suas características socialmente valorizadas. Reis (2024) observa que, no caso analisado, a representação de Bundy envolveu aspectos como carisma, aparência e vida pessoal, enquanto as vítimas receberam menor destaque. Assim, a narrativa pode deslocar parte da atenção dos atos cometidos para a personalidade e a trajetória do criminoso (Reis, 2024).
Esse processo também pode ser observado nas narrativas de true crime, nas quais a história do criminoso é organizada a partir de sua trajetória, comportamento e características pessoais. Essas produções podem aproximar ou distanciar o público da figura apresentada, estabelecendo diferentes formas de relação com o acontecimento e com o indivíduo retratado (Pereira, 2024). Dessa maneira, o criminoso pode deixar de aparecer apenar como o autor do crime e passar a ocupar uma posição central na narrativa.
A construção da figura do “psicopata”, entretanto, não ocorre somente pela associação com violência e ameaça. Reis (2024) aponta que algumas produções apresentam personagens associados à psicopatia a partir de características consideradas socialmente atraentes, como inteligência, elegância, carisma e capacidade de manipulação. Saggiomo et al. (2025) discutem esse processo ao analisar a glamourização da psicopatia na ficção audiovisual, destacando que determinadas narrativas podem apresentar personagens violentos de maneira capaz de despertar curiosidade, empatia ou fascínio.
Essa representação pode produzir uma relação ambígua entre o público e o personagem. Ao mesmo tempo em que a violência e a transgressão podem provocar medo ou rejeição, características como inteligência, sofisticação e carisma podem despertar interesse. Reis (2024) identifica essa dinâmica na representação de Ted Bundy, destacando como o carisma e a aparência foram utilizados na construção midiática de sua imagem, contribuindo para sua transformação em uma figura de fascínio no imaginário social.
Um exemplo dessa construção pode ser observado em Hannibal Lecter. Souza, Oliveira e Souza (2022), ao analisarem o personagem, discutem justamente o processo de glamourização produzido pelas representações cinematográficas. A violência atribuída a Hannibal é apresentada conjuntamente a elementos como inteligência, sofisticação e comportamento refinado, produzindo uma figura que ultrapassa a representação convencional do criminoso ameaçador e pode despertar diferentes formas de interesse no espectador (Souza, Oliveira e Souza, 2022).
No caso das produções baseadas em crimes reais, essa construção pode ocorrer por meio da transformação do acontecimento em narrativa de entretenimento. Reis (2024) destaca que filmes, séries, documentários, podcasts e notícias podem utilizar diferentes enquadramentos para apresentar criminosos, contribuindo para sua transformação em figuras conhecidas e recorrentes na cultura popular. Nesse processo, a dramatização dos crimes e a seleção de determinados aspectos da trajetória do criminoso podem influenciar a imagem construída sobre ele (Reis, 2024).
Assim, a construção audiovisual da figura do “psicopata” envolve mais do que a simples apresentação de comportamentos violentos. Elementos como história de vida, relações familiares, personalidade, inteligência, manipulação, aparência, criminalidade e relação com as vítimas podem ser selecionados e organizados de diferentes maneiras. Leistedt e Linkowski (2014) e Davis, Frederick e Corcoran (2020) demonstram que essa seleção pode produzir representações que se afastam do conceito científico de psicopatia.
Portanto, observar essas produções exige considerar não apenas aquilo que é mostrado, mas também a maneira como os elementos são organizados para construir determinada imagem. A figura do “psicopata” pode aparecer como ameaça, criminoso, vilão, personagem sofisticado ou figura capaz de despertar fascínio, dependendo da narrativa. A partir dessas características, torna-se possível analisar as obras selecionadas neste estudo, identificando como cada produção constrói essa figura e quais sentidos são atribuídos a ela.
3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS
A análise da literatura permitiu compreender como a figura do “psicopata” é construída e representada em diferentes produções audiovisuais, evidenciando a diversidade de características utilizadas para compor essa imagem. A partir do problema de pesquisa, buscou-se analisar os elementos narrativos presentes em filmes, séries e produções de true crime, considerando as características atribuídas a essa figura e as diferenças entre representações ficcionais e aquelas baseadas em acontecimentos reais.
Os resultados indicaram que a representação audiovisual da psicopatia não ocorre de maneira uniforme. Enquanto algumas narrativas enfatizam a frieza, a agressividade, a violência e o perigo, outras destacam a inteligência, o carisma, a aparência, a sofisticação e a capacidade de manipulação. Esses elementos são selecionados e organizados de acordo com as características de cada narrativa, podendo despertar sentimentos como medo, curiosidade, fascínio ou rejeição.
Também foram identificadas diferenças entre produções ficcionais e aquelas baseadas em casos reais. Na ficção, características associadas ao “psicopata” podem ser utilizadas para desenvolver personagens e construir situações de suspense e conflito. Já nas produções de true crime, acontecimentos e trajetórias de pessoas reais são organizados em narrativas que também podem enfatizar determinados comportamentos e características. Em ambos os formatos, essas escolhas influenciam a maneira como a figura retratada é apresentada ao público.
Diante disso, a resposta ao problema de pesquisa é que a figura do “psicopata” é construída por meio de diferentes recursos narrativos e representacionais, que podem se aproximar ou se distanciar das concepções científicas discutidas na literatura. As representações analisadas demonstram que características como violência, criminalidade, manipulação e ausência de remorso são utilizadas de diferentes maneiras, conforme a proposta narrativa de cada produção. Dessa forma, não existe uma única forma de representar essa figura, sendo necessário considerar o contexto e os elementos utilizados em cada narrativa.
Para alcançar os objetivos propostos, foi realizada uma pesquisa bibliográfica e descritiva, com consulta a artigos científicos, monografias e outros trabalhos acadêmicos publicados entre 2002 e 2025, localizados nas bases SciELO, Google Acadêmico e PubMed. Foram selecionados estudos que abordassem a psicopatia em relação a filmes, séries e documentários sobre crimes reais. A partir da literatura consultada, buscou-se compreender como essas produções constroem a figura do “psicopata” e quais aproximações e diferenças podem ser identificadas entre as representações audiovisuais e as concepções científicas sobre o tema, sem realizar diagnósticos ou classificações clínicas dos personagens ou indivíduos retratados.
Como limitações, destaca-se que o estudo se restringiu à literatura consultada e às representações contempladas nas produções selecionadas, não abrangendo todas as formas de representação audiovisual. Pesquisas futuras poderão ampliar a diversidade de obras analisadas e investigar como o público interpreta essas narrativas, contribuindo para uma compreensão mais abrangente das relações entre representações audiovisuais, psicopatia e percepções sociais sobre violência e criminalidade.
Conclui-se que a figura do “psicopata” no audiovisual assume diferentes significados conforme as características e os recursos narrativos utilizados em cada produção. Mais do que apresentar uma imagem única, essas obras selecionam e organizam comportamentos, histórias de vida e relações interpessoais, podendo reforçar estereótipos ou contribuir para a idealização de determinados personagens e indivíduos. Dessa forma, o estudo destaca a importância de uma compreensão crítica dessas representações, considerando as diferenças entre a construção narrativa do “psicopata” e as concepções científicas sobre psicopatia.
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1 Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, ImperatrizMA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail