SIMBOLOGIA DA MORTE: ANÁLISE DE PRODUTOS COMPORTAMENTAIS NO CEMITÉRIO SÃO JOSÉ EM TERESINA - PI (1950-2026)

SYMBOLOGY OF DEATH: ANALYSIS OF BEHAVIORAL PRODUCTS AT THE SÃO JOSÉ CEMETERY IN TERESINA - PI (1950-2026)

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789157161

RESUMO
Este estudo investiga as práticas fúnebres no Cemitério São José, em Teresina-PI, sob a perspectiva da Análise Comportamental da Cultura (ACC). O objetivo central foi analisar a construção, manutenção e evolução dessas práticas entre os anos de 1950 e 2026, compreendendo o cemitério como um produto de metacontingências selecionadas por consequências culturais. A metodologia consistiu de pesquisa documental e observacional de caráter quanti-qualitativo, utilizando uma amostragem de 200 jazigos distribuídos por blocos decenais. Foram analisadas variáveis como simbologia iconográfica, materiais predominantes e, sobretudo, operantes verbais presentes nos epitáfios. A fundamentação teórica baseia-se no modelo de seleção pelas consequências de B.F. Skinner, abordando o luto como um processo de extinção e reorganização de repertórios comportamentais. Os resultados e a análise funcional sugerem que a arte e a linguagem tumular atuam como ferramentas de controle social e prestígio, servindo como mecanismos de contracontrole simbólico diante da morte.
Palavras-chave: Análise do Comportamento; Comportamento Verbal; Simbologia Funerária; Luto; Tanatologia.

ABSTRACT
This study investigates funerary practices at the São José Cemetery in Teresina-PI, from the perspective of the Behavior Analysis of Culture (BAC). The central objective was to analyze the construction, maintenance, and evolution of these practices between 1950 and 2026, understanding the cemetery as a product of metacontingencies selected by cultural consequences. The methodology consisted of quantitative-qualitative documentary and observational research, using a sample of 200 tombs distributed in decadal blocks. Variables such as iconographic symbology, predominant materials, and, primarily, verbal operants present in epitaphs were analyzed. The theoretical framework is based on B.F. Skinner’s selection by consequences model, addressing mourning as a process of extinction and reorganization of behavioral repertoires. The results and functional analysis suggest that tomb art and language act as tools for social control and prestige, serving as mechanisms for symbolic counter-control in the face of death. 
Keywords: Behavior Analysis; Thanatology; Verbal Behavior; Funerary Symbology; Mourning.

1. INTRODUÇÃO

O estudo do comportamento humano exige a aplicação de métodos experimentais e estatísticos para a descoberta de uniformidades e relações entre eventos ambientais e as ações dos organismos. No âmbito da cultura, essa investigação se expande para o terceiro nível de variação e seleção do comportamento proposto por B.F. Skinner (1981), no qual, as práticas de grupo são selecionadas por sua capacidade de garantir a sobrevivência da comunidade. Nesse sentido, esta pesquisa buscou investigar a construção, manutenção e modificação dessas práticas no Cemitério São José, em Teresina - PI, compreendendo-o como um produto de contingências comportamentais que refletem a transição dos ideais culturais e religiosos com o passar das décadas (Ariès, 2017).

No Brasil, desde a Constituição de 1988, a laicidade do Estado é uma diretriz constitucional fundamental, no entanto, este não foi um processo administrativo rápido e pacífico. Antes, no século XIX, já se pensava em práticas sanitaristas que afastavam os sepultamentos dos terrenos das igrejas para locais próprios. No entanto, a mudança envolveu resistência social, não apenas decretos e leis. Por exemplo, em 1836, a população de Salvador destruiu o recém-inaugurado Cemitério do Campo Santo, armando-se de foices e facas, por entender que o sepultamento fora das igrejas compromete a salvação da alma (Reis, 1991). Este episódio, que ficou conhecido como “Revolta da Cemiterada”, evidencia como a nova prática cultural (o cemitério extramuros) precisou ser imposta por decreto, contra a resistência ativa da população.

Dessa forma, a Análise Comportamental da Cultura (ACC) postula que os fenômenos sociais são sustentados por metacontingências, nas quais o entrelaçamento de comportamentos individuais gera um resultado físico ou social que é selecionado por consequências culturais (Souza, 2025). Ou seja, a cultura evolui de forma parecida com a biologia, mas em um nível coletivo. Imagine que um grupo de pessoas começa a trabalhar junto: as ações de um dependem das ações do outro. Quando essa cooperação gera um resultado útil para o grupo, esse comportamento é selecionado pela cultura e passa a ser repetido pelas próximas gerações (Skinner, 1981).

Dessa forma, a sociedade mantém práticas coletivas que ajudam na sua sobrevivência, independentemente do que cada pessoa sente individualmente, criando o que chamamos de fenômenos sociais (Skinner, 1981). Diante disso, o Cemitério São José, inaugurado em Teresina - PI, em 1859, serve como o cenário empírico para a análise da percepção cultural das práticas relacionadas à morte e ao luto, pois, sua própria fundação decorreu de uma mudança nas regras governamentais e na percepção sanitária da época, substituindo o costume de sepultamentos em solo sagrado da igreja católica por uma necrópole institucionalizada (Ariès, 2017).

Sendo assim, esta pesquisa propôs uma análise funcional que integre a observação da arte tumular, a decodificação dos epitáfios (frases escritas em túmulos) como comportamento verbal e a compreensão dos processos psicológicos do luto sob a perspectiva comportamental. O estudo buscou compreender como as práticas fúnebres operam como fenômenos sociais selecionados pela cultura. Pretendeu-se demonstrar como a manutenção dessas tradições auxilia o grupo a lidar com a perda, funcionando como uma metacontingência que preserva o apoio social.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. O Modelo de Seleção Pelas Consequências e a Formação das Culturas

Para B. F. Skinner, a conduta humana é selecionada pelas consequências de suas classes de respostas, tal qual características biológicas são selecionadas na teoria da evolução das espécies proposta por Charles Darwin (Skinner, 2003). Nesse sentido, o autor estipulou três níveis de seleção pelas consequências: O nível filogenético abrange a história evolutiva da espécie, selecionando comportamentos inatos que favorecem a sobrevivência; o nível ontogenético refere-se ao condicionamento operante, no qual a história individual de reforço e punição define o repertório comportamental do sujeito;

Por fim, o nível cultural descreve como as práticas de um grupo são mantidas e transmitidas ao longo das gerações. A cultura, nesse sentido, não é uma ideia abstrata, mas o conjunto de contingências sociais que moldam o comportamento de seus membros através da mediação de outros organismos. O ambiente social é um tipo de ambiente físico que conta com a presença de outras pessoas, cujas respostas servem como estímulos antecedentes e reforçadores recíprocos.

No contexto fúnebre, a agência religiosa e o governo atuam como controladores que manipulam as consequências do comportamento para manter a ordem e a higiene pública, o que Skinner chamou de agências de controle e comportamento regido por regras (Skinner, 2003). A transição observada em Teresina exemplifica a seleção de uma nova prática cultural baseada no sepultamento extramuros, motivado por ideais médico-higienistas que consideravam o sepultamento em igrejas insalubre e retrógrado (Ariès, 2017). Essa mudança não foi apenas administrativa, mas uma reconfiguração das metacontingências que definiam a interação entre os vivos e o espaço reservado aos mortos.

2.2. Metacontingências e o Papel do Comportamento Verbal

A unidade de análise para o estudo de fenômenos culturais é a metacontingência, que descreve as relações funcionais entre o culturante e as consequências culturais. O culturante é composto pelas contingências comportamentais entrelaçadas (CCEs) e seu produto agregado (PA) (Fonseca, 2023). Na construção do Cemitério São José, as CCEs envolveram o trabalho coordenado de legisladores, médicos, pedreiros e familiares, resultando no produto agregado de uma necrópole higienizada que permitia a “civilização” da capital imperial. A metacontingência é a forma como a psicologia comportamental explica como o trabalho em equipe e os hábitos de um grupo funcionam, dão certo e sobrevivem ao longo do tempo.

O comportamento verbal desempenha uma função central, sendo a "cola" nesses processos, permitindo que os indivíduos cooperem com maior eficiência e coordenem suas ações através de regras e instruções. No modelo skinneriano, o comportamento verbal é definido por ser reforçado por meio da mediação de um ouvinte treinado pela comunidade falante (Skinner, 2015). No cemitério, os epitáfios e símbolos tumulares são formas de comportamento verbal que exercem controle sobre o comportamento dos visitantes, transmitindo valores morais, religiosos e de status social. As regras e instruções funcionam como estímulos discriminativos (contexto), conectando o comportamento a consequências, gerando reforçamento social (como aprovação ou desaprovação) que mantém o grupo engajado até que as consequências de longo prazo surjam (Skinner, 2015).

Quando um comportamento grupal é “bom” e funcional para o grupo, ele é mantido, e o comportamento verbal atua como a "cola" dessa estrutura, permitindo que os indivíduos cooperem com muito mais facilidade por meio de regras e instruções que funcionam como um mapa para o grupo (Skinner, 2015). Por meio da fala ou de símbolos, a comunidade mantém todos engajados em objetivos de longo prazo, mesmo que o esforço seja cansativo no momento presente.

Para entender essa análise do comportamento verbal, encaramos o uso do latim ou de um português muito rebuscado nos túmulos como um autoclítico, que é um tipo de comportamento verbal que não descreve o mundo diretamente, mas serve para dizer ao leitor como ele deve reagir ao restante da mensagem (Skinner, 2015). Já as expressões que descrevem as virtudes do falecido, como “Cristão fiel” ou “Cidadão prestimoso”, são classificadas como tatos, que na análise skinneriana é o ato de descrever ou nomear propriedades do mundo (Skinner, 2015). Aqui, o grupo social observa o histórico de vida da pessoa e “tateia” essas qualidades na pedra, transformando as ações de quem morreu em rótulos verbais que todos podem ver.

Todo esse conjunto é mantido por contingências de prestígio social, que são as regras de “se... então” daquela cultura: se você seguiu as normas do grupo em vida, então recebe a recompensa pública da honra na morte. Assim, o túmulo deixa de ser apenas um registro do passado e passa a ser uma ferramenta de controle, na qual o grupo reforça os padrões de conduta que considera “certos” para garantir que os vivos continuem se comportando da mesma maneira.

2.3. História e Contexto dos Cemitérios Extramuros

De acordo com a Resolução CONAMA n.º 335/2003, cemitério é área destinada à realização de sepultamentos de pessoas falecidas. Em sentido lexical, Ferreira (2010, p. 245) conceitua cemitério como o “terreno reservado onde se enterram e guardam os cadáveres humanos”. Para além dessa definição, a palavra cemitério tem origem no latim coemeterium, de origem grega koimētḗrion, cujo significado é “lugar de dormir” ou “dormitório”. Essa etimologia foi incorporada ao vocabulário cristão, para designar o local de sepultamento como um espaço de repouso dos mortos. Expressando a concepção de que a morte representa um estado de repouso temporário, à espera da ressurreição, razão pela qual os cemitérios passaram a ser entendidos como espaços de descanso dos mortos (Rebillard, 1993).

Para o antropólogo brasileiro José Carlos Rodrigues, cemitério delimita-se como espaço que ultrapassa sua função de sepultamento, constituindo-se como lugar de memória, simbolismo e expressão cultural, porque a “morte é um fato biológico revestido de significados culturais.” (Rodrigues, 2006, p. 26). No mesmo sentido, outros pesquisadores argumentam que os cemitérios representam não apenas locais destinados ao sepultamento, mas também espaços que refletem mudanças sociais na forma de lidar com os mortos (Lima; Brito, 2016)

A fundação do Cemitério São José, em 1859, pode ser compreendida como produto de uma metacontingência cultural associada à reorganização das práticas funerárias, impulsionada por transformações sanitárias, administrativas e religiosas que acompanharam a progressiva substituição da “morte domada” por uma morte institucionalizada, medicalizada e afastada do convívio cotidiano da comunidade (Ariès, 2017). Nesse processo histórico, o sepultamento no interior das igrejas, concebidas como a “casa do Pai”, foi gradativamente substituído pela implantação de necrópoles extramuros, organizadas segundo critérios sanitários, urbanísticos e administrativos (Reis, 1991).

Embora não existam registros de revoltas populares em Teresina semelhantes às ocorridas em outras localidades, a adoção desse modelo institucional insere-se em um contexto nacional marcado por tensões e resistências às reformas funerárias. Nesse sentido, a ausência de conflitos documentados não autoriza interpretar a mudança como um processo necessariamente pacífico, o que indica a necessidade de investigar em que medida o processo envolve formas de resistência, negociação ou adaptação por parte da sociedade piauiense durante a implantação dos cemitérios públicos.

O cemitério secularizado, passou a ser reforçado por consequências culturais associadas à higiene pública e à civilidade urbana (Koury, 2003). Renato Noguera, em “O que é o Luto”, chama a atenção para o fato de que cada cultura constrói dispositivos próprios de elaboração simbólica da finitude, os quais não devem ser lidos como meros resquícios supersticiosos, mas como respostas histórica e socialmente situadas ao problema universal da perda (Noguera, 2022). Sob esse ângulo, a institucionalização do Cemitério São José pode ser lida em dupla chave: de um lado, como efeito de metacontingências sanitárias descritas pela Análise do Comportamento; de outro, como reorganização das formas culturalmente disponíveis de dar sentido à morte, o que justifica a leitura interdisciplinar proposta neste artigo.

2.4. História e Fundação do Cemitério São José em Teresina

Em 1801, havia leis que ordenavam que “se construíssem, fora da cidade e em local seco e varrido pelos ventos, um ou mais cemitérios” (Reis, 1991). No entanto, devido a centralização do governo colonial no Rio de Janeiro, estas leis higienistas não foram obedecidas integralmente, principalmente no interior (Rosa, 2018). Em 1854, já havia leis locais que proibiam o enterro de cadáveres na Igreja Matriz de Teresina. No entanto, não havia, antes de 1859, um Cemitério devidamente institucionalizado (Rosa, 2018).

Uma resolução de 1857, sancionada pelo então presidente da Província do Piauí, João José de Oliveira Junqueira, tinha o objetivo de proibir enterros nas igrejas ou em quaisquer outros lugares da cidade (Piauí, 1857). A Resolução n° 437 dava providências para a construção de novos cemitérios Municipais, afastados do centro da cidade, e que hoje, devido ao crescimento urbano, já se encontram dentro dos limites do perímetro urbano. Nesse contexto, sabe-se que Teresina foi fundada em 1852, primeira capital planejada, cujo projeto urbano, idealizado pelo presidente da província, Conselheiro Saraiva, e pelo engenheiro Mestre Isidoro França (Carvalho, 2026).

No planejamento foi previsto o Cemitério São José, que, apesar de fazer parte da planta da cidade, ficava fora dos limites planejados na época (Carvalho, 2026). O Cemitério foi inaugurado em 1859, dividido em áreas de acordo com as condições sociais e religiosas dos sepultados. Na parte próxima à capela, ficavam as pessoas católicas e integrantes das classes altas. Em 1883, foi construído um segundo cemitério nos fundos, destinado a pessoas não católicas, pobres, vítimas de doenças infectocontagiosas e suicídio. Em 1938, uma reforma alterou sua forma e as duas partes foram integradas (Carvalho, 2026).

2.5. O Luto Sob a Perspectiva da Análise Dreiso Comportamento

O luto é compreendido como um conjunto de alterações no repertório comportamental de um indivíduo, resultantes de mudanças abruptas nas contingências de reforçamento devido à ausência de um ente querido, podendo ser uma pessoa, um objeto ou uma relação (Nascimento, 2015). Esta experiência representa uma ruptura significativa na rede de reforçadores, impactando diretamente o bem-estar e o comportamento do enlutado. Embora o luto seja um fenômeno universal decorrente de perdas, sua vivência é individual e determinada por fatores ontogenéticos, como o vínculo com o falecido, variáveis de personalidade e o contexto social e cultural. Nesse sentido, a Análise do Comportamento converge com a sociologia da emoção proposta por Koury (2003), para quem o luto no Brasil urbano é modulado por códigos afetivos e de sociabilidade regionalmente situados, e não apenas por contingências individuais de reforçamento.

O processo de luto caracteriza-se pela contingência comportamental de extinção, a quebra da relação de um organismo que emite respostas e recebe um reforço como consequência, deixando de receber esse reforço com a morte ou perda de quem ou o que emitia os reforços (Moreira, 2018). No entanto, como características comuns da extinção, primeiro há uma tendência a aumentar a resposta que antes oferecia reforço, daí pode-se analisar a “negação” da perda, tratando como se o ente querido ainda estivesse presente ou se fosse retornar em algum momento.

Após esse processo de aumento de frequência, é comum a modificação na topografia do comportamento, tentando conseguir o acesso ao estímulo reforçador perdido por meio da emissão de outras respostas. Tal aspecto pode explicar rituais de despedida de falecidos, como forma de tentar manter ou ter de alguma forma a relação de reforçamento antes existente. Por fim, a aceitação da perda da relação contingencial é representada pela diminuição das respostas antes reforçadas, visto a ausência do reforço (Skinner, 2003; Moreira, 2018).

2.6. A Simbologia e o Comportamento Verbal Como Forma de Contracontrolar a Morte

O contracontrole é o processo de “lutar” contra quem controla seu comportamento (Skinner, 2003; Moreira, 2018). No entanto, a morte é um inimigo contra o qual não se pode lutar. Os rituais tumulares podem ser uma forma de tentar oferecer conforto diante desse contexto de impotência. A elaboração desse conceito sob a ótica da Análise do Comportamento revela que o luto não é apenas um sentimento, mas uma desorganização profunda no repertório de quem fica, causada pela interrupção abrupta de reforçadores vitais. Quando falamos em contracontrole no caso da morte, o “controle” é exercido por uma contingência da natureza que é irreversível, tornando o contracontrole tradicional impossível (Skinner, 2003; Moreira, 2018; Koury, 2003).

Nesse contexto, símbolos e frases em túmulos funcionam como ferramentas de manejo do luto nesse processo de adaptação. Um túmulo, inicialmente, pode ser um estímulo aversivo, o que, segundo o olhar antropológico-simbólico, Koury (2005) descreve como a ambivalência entre a dor da perda e o amor que a sustenta, constitutiva de todo símbolo fúnebre, evocando respostas de dor e esquiva (Skinner, 2003). No entanto, o uso de símbolos (como fotos, ícones religiosos ou objetos pessoais) e frases pode alterar essa função. Em vez de eliciar apenas sofrimento, o símbolo passa a sinalizar a oportunidade de entrar em contato com a história vivida, produzindo novos significados que integram a perda à trajetória do enlutado.

As frases em túmulos funcionam como uma forma de o enlutado comunicar ao mundo, e a si mesmo, o valor daquela pessoa perdida. Isso atua de forma similar ao terapeuta, que funciona como uma audiência não punitiva para os relatos sobre o ente querido, permitindo o contato funcional com a dor (De-Farias, 2018). Nesse sentido, oferece-se um contexto no qual o indivíduo se sente “autorizado” a expressar sentimentos que poderiam ser julgados ou silenciados em outros ambientes sociais. No entanto, vale salientar que cada indivíduo possui uma história única e nem todos reagiram de forma positiva a simbologia do túmulo.

3. METODOLOGIA

A pesquisa adotou um delineamento quanti-qualitativo e descritivo analítico-funcional, utilizando o Cemitério São José em Teresina - PI como um laboratório social natural. Por se tratar de uma pesquisa de caráter observacional e documental, com análise de túmulos, dispensou-se a avaliação ética pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP).

3.1. Delineamento

A pesquisa é definida como documental, pois utiliza os jazigos e lápides como fontes primárias de dados (documentos históricos e sociais). O caráter quanti-qualitativo permitiu que os pesquisadores contassem a frequência de símbolos e a interpretação dos significados subjetivos das mensagens. Por ser observacional, não há manipulação de variáveis; e por ser transversal, analisa diferentes recortes temporais para comparar evoluções culturais.

3.2. Recorte Temporal e Amostragem

A escolha do período (1950-2026) abrangeu desde o auge do tradicionalismo católico até a era da customização digital e a secularização.

  • Amostragem Sistemática: Para evitar o “viés de conveniência” (por exemplo: escolher apenas os túmulos mais bonitos ou próximos à entrada), foi adotado o seguinte protocolo:

  1. Os pesquisadores percorreram as quadras do cemitério.

  2. Apenas túmulos com data de óbito legível entram na contagem.

  3. A cada 5 túmulos elegíveis, o 5º foi fotografado e catalogado.

  4. Com a concepção de que o túmulo pode sofrer alterações após novos sepultamentos no mesmo túmulo (engavetamento), para fins de contabilidade, utilizou-se a data de falecimento mais recente.

  5. Total: N = 200 unidades amostrais, garantindo uma margem de erro reduzida para a análise de tendências históricas.

3.3. Variáveis de Análise (Categorias Operacionais)

Cada jazigo foi tratado como um “comportamento externalizado” da família e da sociedade da época.

  1. Símbolos Iconográficos: Classificação em categorias como Religiosos (cruzes, terços), Antropomórficos (anjos, bustos), Seculares (profissões, hobbies) e Afetivos (fotos de cerâmica, coração). A recorrência de fotografias mortuárias nesta categoria dialoga diretamente com a discussão de Koury (2001) sobre a fotografia como prática de guarda e ressignificação da memória do falecido.

  2. Material Predominante: Registro da evolução tecnológica e econômica.

  3. Operantes Verbais (Epitáfios): Baseado na teoria de Skinner (2015):

  • Mando: instruções ou súplicas ao leitor ou à divindade (ex: “Rogai por ele”). Tem a função de produzir uma consequência específica.

  • Tato: Descrições de propriedades do falecido ou do evento da morte (ex: “Aqui jaz um herói”). Tem a função de nomear ou descrever o ambiente social.

  • Autoclítico: um operante verbal secundário que modifica, qualifica, ordena ou comenta o comportamento verbal primário do próprio falante. Uma resposta verbal que depende de outra resposta verbal para existir. Enquanto o comportamento verbal primário é emitido sob controle de estímulos do ambiente, o autoclítico é emitido sob controle do próprio repertório verbal do falante, funcionando como um guia para o ouvinte sobre como interpretar ou reagir à mensagem. O autoclítico é como a etiqueta de instrução que você cola na sua própria mensagem para garantir que a outra pessoa entenda o tom, o grau de certeza e o contexto exato.

  1. Dimensões do Jazigo: Medição aproximada (Área = Largura X Comprimento). Jazigos monumentais sugerem um controle por reforçadores de status social, o que Koury (2010) descreve, a propósito da fotografia e dos objetos de memória, como uma tensão constitutiva entre a ostentação pública do vínculo e sua dimensão afetiva mais íntima, e perpetuação do poder post-mortem.

3.4. Procedimento de Coleta

O trabalho de campo foi dividido em três etapas:

  • Fase 1: Mapeamento Geográfico: Identificação das quadras mais antigas e mais recentes do cemitério para otimizar o deslocamento.

  • Fase 2: Registro Digital: Utilização de câmera de smartphone. As fotos incluem o plano geral do túmulo para posterior conferência.

  • Fase 3: Protocolo de Fidedignidade: O “Acordo entre Observadores” é o que dá o rigor científico. Dois pesquisadores analisaram os mesmos túmulos. Se ambos concordarem que um símbolo é uma “Cruz”, por exemplo, o dado é válido. Se houver divergência, os critérios de classificação serão refinados.

3.5. Análise de Dados

A análise estatística mediu as mudanças sociais de Teresina-PI.

  • Frequência Relativa: Calculada pela fórmula: 

f = n N decada × 100

(n é a ocorrência do item e N o total da década).

  • Inferência Funcional: Discussão sobre como a urbanização e as mudanças nas práticas fúnebres alteraram a forma como os sobreviventes lidam com o luto.

3.6. Aspectos Éticos

Embora o cemitério seja um espaço público, os pesquisadores agiram com decoro e respeito. Não foram expostos nomes de famílias, nem se fossem figuras públicas de relevância histórica. O estudo foca na estética e no comportamento verbal, evitando julgamentos morais sobre os sepultamentos.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A distribuição dos símbolos iconográficos ao longo dos blocos decenais evidencia a transição descrita na fundação histórica do cemitério: predominância de símbolos religiosos nas décadas iniciais (1950-1970), gradual diversificação para elementos antropomórficos e afetivos nas décadas intermediárias, e crescimento de marcadores secularizados e de individualização estética nos blocos mais recentes. Tal padrão, confirmado pelos dados, ilustra empiricamente o deslocamento histórico de uma morte publicamente compartilhada para uma morte progressivamente privatizada e estetizada (Ariès, 2017).

Ademais, segundo Reis (1991) essa permanência religiosa não é resíduo passivo, mas rastro de uma disputa histórica pela legitimidade do cemitério secular como espaço de sepultamento, a “vitória” do modelo higienista foi lenta e contestada, o que ajudaria a explicar por que símbolos religiosos resistem tanto tempo mesmo num cemitério oficialmente secular.

A hipótese é a de que os mandos religiosos (“Rogai por ele”) predominem nos blocos mais antigos, enquanto os tatos descritivos de virtudes seculares (“esposo dedicado”, “amigo de todos”) ganhem espaço nos blocos recentes, movimento compatível com a substituição do controle religioso pelo controle social laico como fonte de reforçamento de enlutar-se publicamente. A variação esperada entre décadas também deve ser lida com cautela, visto que, as expressões do luto não seguem uma trajetória universal e linear, mas refletem normas culturais específicas de cada momento e comunidade, o que impede a generalização dos achados de Teresina para outros contextos brasileiros (Parkes; Laungani; Young, 2003).

Maria Júlia Kovács reforça que as formas de ressignificação da perda acompanham transformações mais amplas nas atitudes sociais diante da morte ao longo do ciclo de vida das gerações que compõem a amostra, de modo que as diferenças entre blocos decenais não devem ser atribuídas apenas a mudanças estéticas, mas também à renovação geracional dos enlutados responsáveis pela escolha dos símbolos (Kovács, 1992).

4.1. Resultados Quantitativos

Tabela 1. Material predominante dos túmulos

Material

Quantidade

Porcentagem (%)

Mármore

91

45.5%

Azulejo/Cerâmica

70

35.0%

Cimento/Alvenaria

24

12.0%

Granito

14

7.0%

Metal

1

0.5%

Total

200

100%

Fonte: autores

Sob a ótica da Análise do Comportamento, a escolha dos materiais reflete tanto o acesso a recursos econômicos quanto comportamentos de esquiva da degradação física imposta pelo tempo (Skinner, 2003). O mármore e o granito operam como reforçadores de status e prestígio social, sinalizando a permanência e a solidez da linhagem familiar perante a comunidade (Koury, 2010). Em contrapartida, o azulejo e a cerâmica constituem alternativas de menor custo que cumprem a função higiênica e estética de revestimento, viabilizando a manutenção do padrão visual fúnebre por classes populares.

Tabela 2. Estado de conservação dos túmulos

Estado de Conservação

Quantidade

Porcentagem (%)

REGULAR

105

52.5%

ÓTIMO

64

32.0%

RUIM (DEGRADADO)

31

15.5%

Total

200

100%

Fonte: Autores

A verificação do estado físico geral dos 200 jazigos aponta que a maioria encontra-se em estado regular (52,5%; n = 105), enquanto 32,0% (n = 64) exibem ótimo estado de conservação e 15,5% (n = 31) apresentam condições ruins ou de degradação. Na perspectiva analítico-comportamental, a manutenção da integridade da sepultura depende da emissão contínua de comportamentos de zelo e reparo por parte dos familiares sobreviventes (Nascimento et al., 2015). A prevalência de estados regulares e degradados reflete a passagem geracional e a consequente diminuição da frequência dessas respostas de manutenção, ilustrando a descontinuidade gradual dos reforçadores interpessoais que sustentavam o vínculo com o falecido (Kovács, 1992; Moreira; De Medeiros, 2018).

Tabela 3. Símbolos religiosos presentes nos túmulos

Símbolos Religiosos

Quantidade

Porcentagem (%)

Cruz

138

69.0%

Cruz, Imagem de Santo

19

9.5%

Cruz, Terço, Imagem de Santo

7

3.5%

Imagem de Santo

5

2.5%

Cruz, Terço

3

1.5%

Cruz, Bíblia

2

1.0%

Terço

2

1.0%

Outros (Bíblia, Estrela, etc.)

4

2.0%

Fonte: Autores

Os dados indicam uma expressiva hegemonia dos símbolos cristãos, com a Cruz presente de forma isolada em 69,0% (n = 138) dos jazigos e totalizando 84,5% quando agrupada às composições com imagens de santos (9,5%), terços (3,5%) e bíblias (1,0%). A permanência massiva da iconografia religiosa em uma necrópole pública e institucionalizada corrobora os achados de Reis (1991), demonstrando que a transição para cemitérios extramuros não extinguiu o controle das agências religiosas sobre o imaginário. A cruz e as imagens sacras operam como regras discriminativas culturais que organizam o enfrentamento da perda, prometendo a ressurreição e funcionando como recurso de contracontrole simbólico diante da inevitabilidade biológica da morte (Noguera, 2022; Skinner, 2003).

Tabela 4. Classificação funcional dos operantes verbais

Classificação Funcional

Quantidade

Porcentagem (%)

Mando (Instrução/Súplica - Ex: "Descanse em paz")

46

23.0%

Tato (Descrição/Nomeação - Ex: "Esposo exemplar")

29

14.5%

Autoclítico (Qualificação/Solenidade - Ex: "Requiescat in pace")

17

8.5%

Fonte: Autores

A classificação dos epitáfios com base na teoria do comportamento verbal de Skinner (2015) revela a preponderância de Mandos (23,0%; n = 46), seguidos por Tatos (14,5%; n = 29$) e Autoclíticos (8,5%; n = 17). Os mandos manifestam-se predominantemente como súplicas por descanso eterno e alívio do sofrimento, funcionando como comportamentos mantidos por reforçamento negativo que visam atenuar a dor do desamparo (Moreira; De Medeiros, 2018). Os tatos operam na descrição pública das qualidades morais e afetivas do falecido, atuando como instrumentos de controle social que reforçam modelos ideais de conduta para os vivos (Skinner, 2015; Souza et al., 2025). Já os autoclíticos conferem sofisticação, tom solene e gravidade à mensagem, qualificando a importância da pessoa sepultada e orientando a reação de reverência do leitor (Skinner, 2015).

Tabela 5. Símbolos antropomórficos

Categoria

Quantidade

Porcentagem (%)

Cristo

37

18.5%

Busto/Rosto esculpido

17

8.5%

Busto/Rosto esculpido, Cristo

10

5.0%

Anjo, Busto/Rosto esculpido, Cristo

3

1.5%

Fonte: Autores

Dentre as representações antropomórficas, a figura de Cristo apresenta a maior incidência, ocorrendo de forma isolada em 18,5% (n = 37) dos jazigos e combinada a bustos esculpidos (5,0%) ou anjos (1,5%). Por outro lado, bustos e representações laicas esculpidas do próprio falecido representam 8,5% (n = 17). Esse panorama reforça a centralidade do modelo cristão de transcendência como esteio para a elaboração do luto (Rodrigues, 2006), ao passo que a presença de bustos personificados assinala a transição descrita por Ariès (2017) em direção à individualização da memória fúnebre, na qual a figura terrena e a identidade civil do morto passam a ser imortalizadas no espaço público.

Tabela 6. Símbolos afetivos

Categoria

Quantidade

Porcentagem (%)

Foto do falecido

50

25.0%

Foto do falecido, Flores

45

22.5%

Flores

41

20.5%

Foto do falecido, Coração, Flores

2

1.0%

Coração, Flores

1

0.5%

Coração

1

0.5%

Flores, Vaso

1

0.5%

Foto do falecido, Flores, Vaso

1

0.5%

Vasos

1

0.5%

Fonte: Autores

A categoria de símbolos afetivos destaca-se pela presença marcante da fotografia do falecido (25,0%), além de flores em arranjos e relevos (20,5%) e menções a corações. Ao todo, a imagem fotográfica compõe mais de 51,0% dos túmulos analisados. Conforme aponta Koury (2001, 2005), a fotografia atua como um potente dispositivo de fixação e ressignificação da presença, convertendo-se em estímulo discriminativo que evoca lembranças prazerosas e compensa a ausência física imediata (Nascimento et al., 2015). A utilização contínua de fotos e flores sintéticas materializa a recusa do esquecimento e ameniza o processo de extinção inerente ao luto (Moreira; De Medeiros, 2018).

Tabela 7. Símbolos seculares

Categoria

Quantidade

Porcentagem (%)

Vaso (variações de registro)

14

7.0%

Escudo de Time, Vaso

1

0.5%

Pirâmide

1

0.5%

Estrela

1

0.5%

Símbolo de Profissão, Bola de futebol

1

0.5%

Símbolo de Profissão, Escola

1

0.5%

Borboleta

1

0.5%

Símbolo de Profissão

1

0.5%

Escudo de Time

1

0.5%

Brasão de Família

1

0.5%

Fonte: Autores

A verificação dos símbolos seculares revela uma frequência minoritária na amostra global, com predominância de vasos ornamentais neutros (7,0%; n = 14), seguidos por marcadores de profissão e escolaridade (1,5%; n = 3), escudos de agremiações esportivas (1,0%; n = 2) e elementos laicos ou geométricos como pirâmide, estrela, borboleta e brasão de família (0,5%; n = 1 cada). Sob a perspectiva da Análise Comportamental da Cultura, a presença desses elementos sinaliza a emergência de novos culturantes fúnebres voltados à exaltação das contingências biográficas e das preferências cotidianas do sujeito em vida (Fonseca; Costa; Sampaio, 2023). Essa transição estética dialoga com o processo de secularização e individualização da morte no Ocidente (Ariès, 2017), demonstrando como a necrópole contemporânea passa a acolher repertórios de identificação profana e identitária ao lado dos ritos sagrados tradicionais (Lima; Brito, 2016; Parkes; Laungani; Young, 2003).

Tabela 8. Anos de Morte (Agrupados por Década)

Década do Óbito

Quantidade

Porcentagem (%)

2010 - 2019

47

23.5%

2020 - 2029

41

20.5%

2000 - 2009

29

14.5%

1990 - 1999

20

10.0%

1960 - 1969

18

9.0%

1970 - 1979

15

7.5%

1980 - 1989

14

7.0%

1950 - 1959

13

6.5%

Não Informado / Ilegível

3

1.5%

Fonte: Autores

A distribuição cronológica da amostra concentra 58,5% das ocorrências nos três blocos decenais mais recentes, 2010–2019 (23,5%; n = 47), 2020–2029 (20,5%; n = 41) e 2000–2009 (14,5%; n = 29), enquanto as décadas de 1950 a 1989 mantêm frequências entre 6,5% e 9,0% cada, com 1,5% de jazigos ilegíveis. Esse delineamento decorre tanto do protocolo amostral de legibilidade documental quanto da dinâmica de reformas estruturais e engavetamento no Cemitério São José, em que novos sepultamentos e atualizações arquitetônicas sobrepõem sepulturas mais antigas. Em termos funcionais, a maior densidade de jazigos recentes reflete a vigência de contingências ativas de luto e cuidado entre parentes, ao passo que as lápides antigas enfrentam a descontinuidade dessas respostas pelo avanço das gerações (Kovács, 1992; Nascimento et al., 2015; Souza et al., 2025).

Tabela 9. Área dos Jazigos (Metragem Quadrada)

Faixa de Área

Quantidade

Porcentagem (%)

2,01 a 3 m²

126

63.0%

3,01 a 5 m²

42

21.0%

Até 2 m²

14

7.0%

5,01 a 10 m²

9

4.5%

Mais de 10 m²

7

3.5%

Não Informado

2

1.0%

Fonte: Autores

A categorização dimensional indica que 63,0% (n = 126) dos túmulos enquadram-se na faixa padrão de 2,01 a 3,00 m², seguidos por áreas de 3,01 a 5,00 m² (21,0%; n = 42) e jazigos compactos de até 2,00 m² (7,0%; n = 14). Estruturas monumentais com mais de 5,01 m² representam 8,0% da amostra ($n = 16$), alcançando até mais de 10,00 m² (3,5%). O predomínio da modulação de 2 a 3 m² atesta a eficácia das regras institucionais e higienistas implantadas pelo modelo cemiterial extramuros para padronização do espaço sanitário urbano (Ariès, 2017; Reis, 1991). Em contrapartida, as edificações monumentais operam como estímulos discriminativos que evocam deferência e prestígio social, corporificando no espaço fúnebre a estratificação socioeconômica e a perpetuação do poder e do status familiar post-mortem (Koury, 2010; Skinner, 2003).

Tabela 10. Símbolos Mais Comuns por Faixa de 10 Anos

Década

1º Símbolo Mais Comum

2º Símbolo Mais Comum

3º Símbolo Mais Comum

1950-1959

Cruz (11)

Flores (8)

Cristo (4)

1960-1969

Cruz (13)

Flores (5)

Foto do falecido (5)

1970-1979

Cruz (15)

Foto do falecido (4)

Busto/Rosto esculpido (3)

1980-1989

Cruz (13)

Cristo (5)

Flores (5)

1990-1999

Cruz (14)

Foto do falecido (10)

Flores (8)

2000-2009

Cruz (25)

Foto do falecido (15)

Flores (14)

2010-2019

Cruz (40)

Foto do falecido (28)

Flores (19)

2020-2026

Cruz (38)

Foto do falecido (31)

Flores (28)

Fonte: Autores

A série temporal dos três principais símbolos por década evidencia uma estabilidade hegemônica da Cruz em todos os períodos avaliados, acompanhada por uma significativa transição nos símbolos secundários. Nas décadas de 1950 e 1980, elementos como a figura de Cristo e flores ocupavam as primeiras posições de destaque. Contudo, a partir da década de 1960 e, de maneira consolidada, entre 1990 e 2026, a fotografia do falecido estabeleceu-se de forma contínua, saltando de 10 registros na década de 1990 para 31 no período 2020–2026. Esse movimento ilustra empiricamente o deslocamento da morte coletiva e sacralizada para uma morte privatizada, estetizada e centrada no afeto biográfico (Ariès, 2017; Koury, 2001). A foto cerâmica passa a operar como um estímulo visual discriminativo fundamental para manter o contato com a memória da pessoa perdida e atenuar a ruptura do repertório relacional provocada pelo luto (Koury, 2005; Nascimento et al., 2015).

Tabela 11. Estado de Conservação (Visão Geral)

Estado de Conservação

Quantidade

Porcentagem (%)

REGULAR

105

52.5%

ÓTIMO

64

32.0%

RUIM (DEGRADADO)

31

15.5%

Fonte: Autores

O panorama geral do estado de conservação indica que a maioria dos jazigos encontra-se em condição regular (52,5%; n = 105), enquanto 32,0% (n = 64) exibem ótimo estado e 15,5% (n = 31) apresentam degradação ou abandono material. Na perspectiva analítico-comportamental, a integridade física de uma sepultura depende da emissão regular de operantes de manutenção (limpeza e reparo) emitidos pelos sobreviventes (Skinner, 2003). A predominância de estados regulares e degradados demonstra a ação do tempo sobre os materiais e sinaliza o enfraquecimento gradativo dos reforçadores interpessoais à medida que o tempo desde o óbito aumenta, conduzindo à extinção das respostas de zelo no ambiente cemiterial (Moreira; De Medeiros, 2018; Nascimento et al., 2015).

Tabela 12. Tabela de Conservação Absoluta por Década:

Década

ÓTIMO

REGULAR

RUIM (DEGRADADO)

% de Ótimos na Década

2020 - 2026

26

14

1

63.4%

1980 - 1989

5

5

4

35.7%

1960 - 1969

6

6

6

33.3%

2010 - 2019

15

28

4

31.9%

1950 - 1959

4

8

1

30.8%

2000 - 2009

7

17

5

24.1%

1970 - 1979

1

10

4

6.7%

1990 - 1999

0

14

6

0.0%

Fonte: Autores

O cruzamento entre as décadas do óbito e os níveis de preservação revela que a década de 2020–2026 apresenta a maior proporção de túmulos em ótimo estado de conservação (63,4%; n = 26), em contraste com o declínio acentuado verificado em décadas anteriores, culminando em 6,7% na década de 1970 e 0,0% na de 1990. Esse contraste corrobora a tese de que o comportamento de manter e cuidar da sepultura é mantido pelo vínculo afetivo recente e pelo alívio da dor do luto ativo entre enlutados de primeira geração (Moreira; De Medeiros, 2018; Nascimento et al., 2015). Com a substituição geracional e o falecimento daqueles que mantinham laços diretos com o morto, ocorre a extinção operante desses comportamentos de zelo, resultando na deterioração do jazigo (Kovács, 1992; Skinner, 2003). As elevações pontuais em décadas intermediárias mais antigas (1960 e 1980) associam-se a processos de renovação tumular e engavetamento familiar.

A verificação do símbolo mais frequente ratifica a centralidade inabalável da Cruz em todas as décadas entre 1950 e 2026. A permanência desse culturante por mais de sete décadas comprova a robustez das práticas regidas por regras e contingências religiosas na cultura brasileira (Fonseca; Costa; Sampaio, 2023; Skinner, 2003). Conforme destacam Reis (1991) e Rodrigues (2006), embora a administração higienista tenha fundado cemitérios públicos extramuros, as agências religiosas preservaram o monopólio simbólico sobre os ritos de passagem. A cruz permanece atuando como o principal estímulo visual de promessa escatológica de descanso e transcendência, servindo de esteio e dispositivo coletivo contra a finitude humana (Noguera, 2022; Rebillard, 1993).

4.2. Testes Inferenciais por T de Student

Para a verificação das hipóteses comportamentais levantadas sobre o ambiente cemiterial, foi conduzido o teste t de Student para amostras independentes, comparando as médias entre diferentes categorias qualitativas do banco de dados. Observou-se diferença estatisticamente significativa na comparação da Área Total (m²) em relação ao Material Predominante (p < 0,05), assim como no Ano de Óbito em relação ao Estado de Conservação (p < 0,05). Por outro lado, na análise da Topografia do Comportamento Verbal, a comparação do Ano de Óbito entre os operantes de Tato e Mando não indicou diferenças estatisticamente significativas (p > 0,05), sugerindo que não houve uma mudança cronológica predominante entre o uso estrutural desses operantes nas lápides analisadas.

Tabela 13. Comparação das médias espaciais e temporais por características do jazigo (Teste t)

Variável

Grupo

N

Média

Desvio Padrão

t

p

Área Total (m²)

Material Nobre

105

2,93

1,36

-2,28

0,025

 

Material Simples

93

14,03

46,97

  

Ano de Óbito

Ótimo/Regular

166

2000,65

22,46

3,09

0,003

 

Ruim (Degradado)

31

1988,68

19,26

  

Ano de Óbito

Tato

29

1999,69

24,22

-1,00

0,321

 

Mando

45

2005,04

   

Fonte: autores

A partir da análise da tabela 13, pode-se inferir que: na alocação de Recursos (Área x Material) existe diferença significativa de tamanho (p = 0,025). Contrariando o que se poderia esperar, túmulos construídos com materiais estruturais mais acessíveis/simples apresentaram uma área média muito superior (14,03 m²) aos de materiais nobres (2,93 m²). O alto desvio padrão (46,97) no grupo de materiais simples sugere a forte presença de covas coletivas extensas ou grandes jazigos não pavimentados no cemitério. Alem disso, a degradação histórica (Ano x Conservação) confirma estatisticamente (p = 0,003) que a variável temporal é um fator central na degradação estrutural, visto que, jazigos em estado classificado como Ruim (Degradado) pertencem a óbitos significativamente mais antigos (média do ano de 1988) em comparação com túmulos em estado Ótimo/Regular (média do ano de 2000).

Já a topografia verbal (Ano x Operantes) não demonstrou uma mudança histórica significativa no uso de operantes verbais diante do luto (p = 0,321). Tanto as descrições de características do indivíduo (Tato) quanto as súplicas e instruções religiosas (Mando) coexistem na mesma faixa temporal avaliada (com médias em torno do ano 1999 e 2005, respectivamente), não evidenciando uma transição de época demarcada estatisticamente na amostra recolhida.

A análise dos dados revela que o ambiente cemiterial funciona como um registro físico e comportamental no qual as contingências socioeconômicas e a passagem do tempo interagem de maneira complexa com o luto. Paradoxalmente, a espacialidade no cemitério demonstra que a simplicidade estrutural ocupa uma extensão territorial significativamente maior, sugerindo que a precariedade ou a natureza coletiva dos sepultamentos sobrepõe-se à individualização delimitada dos materiais nobres.

Se, por um lado, a matéria física cede de forma inegável e linear à passagem do tempo, consolidando a idade do jazigo como o vetor central de sua degradação, por outro, o comportamento verbal frente à morte apresenta uma notável estabilidade histórica. A ausência de uma transição cronológica entre o uso de descrições (Tatos) e súplicas ou instruções (Mandos) indica que as diferentes formas de verbalizar a dor ou eternizar a memória não substituem umas às outras com o passar das décadas, mas configuram repertórios perenes, simultâneos e complementares diante da experiência humana da perda.

4.3. Análise dos Comportamentos Verbais

Tabela 14. Símbolo Mais Comum por Década

Operante Verbal

Frequência

Porcentagem

Significado no contexto fúnebre

Mando (Instrução / Súplica)

46

23.0%

Pedidos diretos a Deus (ex: "Rogai por nós"), ao falecido (ex: "Descanse em paz") ou expressão de carência ("Saudades eternas").

Tato (Descrição / Nomeação)

29

14.5%

Descrições das qualidades do falecido, fatos da sua vida ou do seu papel familiar (ex: "Esposo exemplar").

Autoclítico (Qualificação / Solenidade)

17

8.5%

Gramática elaborada, versículos bíblicos ou frases poéticas que ditam o tom solene e filosófico da mensagem.

Fonte: autores

A análise funcional dos epitáfios sob o prisma da teoria do comportamento verbal de Skinner (2015) aponta a prevalência de Mandos (23,0%; n = 46), seguidos por Tatos (14,5%; n = 29) e Autoclíticos (8,5%; n = 17). Os mandos manifestam-se predominantemente como súplicas divinas e pedidos de paz, funcionando como comportamentos verbais mantidos por reforçamento negativo para amenizar a condição aversiva da perda (Moreira; De Medeiros, 2018). Os tatos operam na descrição e nomeação das virtudes do falecido, exercendo a função de controle social ao reforçar publicamente os modelos éticos e familiares aceitos pela comunidade (Skinner, 2015; Souza et al., 2025). Já os autoclíticos qualificam a solenidade e o tom filosófico através de versículos e frases poéticas (Skinner, 2015). Em conjunto, as inscrições tumulares constituem um recurso de contracontrole simbólico diante da inexorabilidade da morte, permitindo a reorganização das contingências de vida dos enlutados e a preservação do apoio social (De-Farias; Fonseca; Soares, 2018; Nascimento et al., 2015).

Até a década de 1990: Os túmulos eram essencialmente "silenciosos". O padrão era conter apenas o nome e a data (sem operantes complexos). Quando havia algum texto, raramente passava de um simples Mando ("Saudades") ou um Tato ("Aqui jaz"). De 2010 a 2019 (O auge dos Mandos): Houve uma explosão de Mandos (20 ocorrências na década). As mensagens passam a suplicar paz e a verbalizar de forma mais direta o luto e o apego (ex: "Amamos vocês", "Nunca te esqueceremos"). Década de 2020 a 2029 (Aumento dos Autoclíticos): Uma tendência bastante interessante aparece nos últimos anos: o uso de Autoclíticos saltou de 3 na década passada para 9 nesta. Isso indica uma mudança para homenagens mais filosóficas, poéticas e elaboradas reflexões sobre o significado da vida e da morte.

A análise qualitativa dos dados coletados transcende os números absolutos, permitindo-nos compreender os padrões comportamentais, arquitetônicos e afetivos expressos nos jazigos. Observando as notas de campo e as transcrições dos epitáfios, o espaço fúnebre revela-se não apenas como um local de depósito do corpo físico, mas como uma verdadeira tecnologia de memória construída pelos vivos.

Existe uma tensão constante entre as tentativas de proteção familiar e a inevitável ação do tempo. Essa dinâmica fica evidente no comportamento de delimitar o espaço, estendendo o conceito de propriedade para o cemitério, algo ilustrado por anotações que descrevem jazigos cercados por grades de ferro ou metal e até mesmo cobertos por tetos de zinco. No entanto, curiosamente, a cruz, que é o símbolo mais frequente, é também o elemento mais citado nas anotações de desgaste, com relatos de peças danificadas, quebradas e túmulos em péssimo estado tomados pelo mato. Isso reflete o apagamento físico e o enfraquecimento dos vínculos de visitação que ocorrem à medida que as gerações passam.

Além da materialidade, o ambiente atua como um museu a céu aberto da estrutura social e das singularidades dos indivíduos. A presença de marcadores de status histórico, como a indicação do túmulo de um governador, aponta para a existência de jazigos monumentais que funcionam como marcos de memória coletiva e política, rompendo com o padrão de tamanho da maioria das sepulturas. Da mesma forma, a intencionalidade estética de quem constrói a sepultura ganha destaque em escolhas singulares, a exemplo de jazigos adornados com cruzes de metal sobrepostas em diferentes tamanhos, demonstrando um contracontrole ao padrão industrial das lápides prontas.

No que diz respeito ao discurso do luto, as transcrições de epitáfios demonstram como a dor e a saudade são verbalizadas de forma bastante direcionada. Há uma forte negação do fim e uma tentativa de eternização, com o uso recorrente de palavras hiperbólicas que remetem ao "sempre" e ao "eterno", evidenciando um esforço contínuo para reafirmar que a morte biológica não encerrou a relação social e afetiva. Soma-se a isso a valorização da trajetória do falecido, em que as inscrições atuam como descrições puramente virtuosas, destacando papéis familiares idealizados e a afirmação de que aquela vida valeu a pena.

A resignação religiosa, manifesta pelo uso de versículos bíblicos e referências a entidades divinas, funciona como um recurso cultural e um apaziguador para lidar com o desamparo imposto pela perda. Em suma, o uso de materiais duradouros como o mármore, as grades de proteção, as flores sintéticas e os discursos solenes configuram-se como claros comportamentos de esquiva contra o esquecimento, evidenciando que toda a simbologia do cemitério reflete as contingências, as necessidades e os comportamentos de quem fica.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo procurou demonstrar que a Simbologia da Morte no Cemitério São José pode ser lida como produto de metacontingências selecionadas por consequências culturais, nas quais a arte tumular e o comportamento verbal cristalizado nos epitáfios operam simultaneamente como instrumentos de controle social, de manutenção de status e de manejo comportamental do luto. A convergência entre a Análise Comportamental da Cultura e a história das sensibilidades descrita por Ariès permite compreender o cemitério não como um cenário estático, mas como um campo dinâmico de seleção cultural, sensível às transformações religiosas, sanitárias e estéticas de cada período histórico (Ariès, 2017).

Importa destacar, que a leitura funcional aqui proposta não esgota a experiência do luto. Como adverte Noguera (2022), interpretações que privilegiam exclusivamente a função social do luto podem silenciar a singularidade da história de vida e da relação estabelecida entre a pessoa enlutada e quem morreu. Nesse sentido, recomenda-se que estudos futuros articulem a análise funcional do comportamento verbal tumular à escuta qualitativa de familiares enlutados, de modo a evitar leituras excessivamente deterministas e transculturais do luto (Parkes, Laungani e Young, 2003).

A investigação dos produtos comportamentais no Cemitério São José em Teresina - PI (1950–2026) confirma a hipótese de que a necrópole atua como uma manifestação simbólica de metacontingências culturais, na qual ritos arquitetônicos, iconografia e comportamento verbal entrelaçam-se para atender a demandas sanitárias, pedagógicas, afetivas e de controle social. A abordagem analítico-comportamental demonstrou robustez explicativa ao traduzir conceitos subjetivos do luto em classes de respostas operantes (extinção, contracontrole simbólico, operantes verbais e esquiva do esquecimento) (Moreira; De Medeiros, 2018; Skinner, 2015). Contudo, como alerta Noguera (2022), uma leitura estritamente funcionalista corre o risco de reduzir a riqueza da dor humana a meras equações, desconsiderando a singularidade da experiência afetiva e os mitos que dão sentido à existência.

Portanto, impõe-se prudência na generalização desses resultados, pois, as práticas documentadas em Teresina refletem os códigos emotivos de um contexto regional específico (Koury, 2003; Lima; Brito, 2016). As transformações estéticas e verbais observadas nas lápides expressam mudanças contínuas e renovação geracional dos enlutados (Kovács, 1992). Em conclusão, a arte fúnebre e a linguagem tumular no Cemitério São José não são testemunhos estáticos do fim, mas instrumentos dinâmicos de afirmação da vida. Ao esculpir o mármore, gravar o epitáfio e afixar o retrato, a comunidade dos vivos responde à dor da perda construindo uma tecnologia perene de memória, desafiando a efemeridade biológica e garantindo que o vínculo afetivo permaneça vivo no tecido da cultura.

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1 Discente do Curso Superior de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí Campus Poeta Torquato Neto, Teresina - PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do Curso Superior de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí Campus Poeta Torquato Neto, Teresina - PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Discente do Curso Superior de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí Campus Poeta Torquato Neto, Teresina - PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Discente do Curso Superior de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí Campus Poeta Torquato Neto,Teresina - PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

5 Discente do Curso Superior de Arquitetura da Universidade Federal do Piauí Campus Petrônio Portela, Teresina - PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

6 Discente do Curso Superior de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí Campus Poeta Torquato Neto, Teresina - PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

7 Mestre em Antropologia (UFPI). Especialista em Luto e Tanatologia. Docente e Supervisora no Curso de Psicologia no Centro Universitário Santo Agostinho (UNIFSA), Teresina - PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail