REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789163128
RESUMO
Introdução: O câncer de mama representa importante problema de saúde pública, em razão de sua elevada incidência entre mulheres e dos impactos físicos, emocionais e sociais decorrentes do diagnóstico e do tratamento. Nesse contexto, o acompanhamento psicológico torna-se essencial para auxiliar no enfrentamento da doença e na promoção do cuidado integral. Objetivo: Analisar os impactos do acompanhamento psicológico no enfrentamento da doença, na adesão ao tratamento e na qualidade de vida de mulheres com câncer de mama. Metodologia: Trata-se de uma revisão sistematizada da literatura, conduzida entre junho e julho de 2026, conforme as recomendações metodológicas de Galvão, Pansani e Harrad, as diretrizes PRISMA e os critérios do Joanna Briggs Institute. Foram consultadas as bases PubMed, Medline, Cochrane Library e SciELO. Resultados e Discussão: Os oito estudos incluídos evidenciaram benefícios do acompanhamento psicológico na redução de ansiedade, depressão, medo e sofrimento emocional, além do fortalecimento de estratégias adaptativas de enfrentamento e da melhora da qualidade de vida. Em relação à adesão terapêutica, os achados sugerem possível contribuição positiva, embora esse desfecho tenha sido menos investigado. Conclusão: As evidências reforçam a relevância da assistência psicológica como componente do cuidado integral às mulheres com câncer de mama, especialmente no enfrentamento da doença, no bem-estar emocional e na qualidade de vida.
Palavras-chave: Câncer de Mama; Psico-oncologia; Qualidade de Vida; Adesão ao Tratamento; Saúde Mental.
ABSTRACT
Introduction: Breast cancer represents a significant public health issue due to its high incidence among women and the physical, emotional, and social impacts resulting from diagnosis and treatment. In this context, psychological support is essential for assisting in coping with the disease and promoting comprehensive care. Objective: To analyze the impact of psychological support on coping with the disease, treatment adherence, and quality of life among women with breast cancer. Methodology: This is a systematic literature review conducted between June and July 2026, following the methodological recommendations of Galvão, Pansani, and Harrad, PRISMA guidelines, and Joanna Briggs Institute criteria. The PubMed, Medline, Cochrane Library, and SciELO databases were consulted. Results and Discussion: The eight included studies demonstrated the benefits of psychological support in reducing anxiety, depression, fear, and emotional distress, as well as in strengthening adaptive coping strategies and improving quality of life. Regarding treatment adherence, findings suggest a potential positive contribution, although this outcome has been less investigated. Conclusion: The evidence reinforces the importance of psychological support as a component of comprehensive care for women with breast cancer, particularly regarding coping, emotional well-being, and quality of life.
Keywords: Breast Cancer; Psycho-oncology; Quality of Life; Treatment Adherence; Mental Health.
1. INTRODUÇÃO
O câncer de mama constitui a neoplasia maligna mais incidente entre as mulheres em âmbito mundial, representando importante problema de saúde pública devido à sua elevada magnitude epidemiológica e aos impactos físicos, emocionais e sociais decorrentes do diagnóstico e tratamento (Flor, 2025). Apesar dos avanços observados nas estratégias de rastreamento, diagnóstico precoce e terapêuticas oncológicas, o câncer de mama permanece associado a importantes repercussões psicológicas e ao comprometimento da qualidade de vida das mulheres (Jassim et al., 2023). Além das repercussões clínicas, o câncer de mama frequentemente desencadeia alterações psicológicas que influenciam a forma como as mulheres percebem, enfrentam e se adaptam ao processo de adoecimento (Campos, 2021).
O momento do diagnóstico costuma ser vivenciado como uma experiência potencialmente traumática, capaz de provocar sentimentos de medo, insegurança, ansiedade, angústia e incerteza quanto ao futuro. Para muitas mulheres, a doença ultrapassa a dimensão biológica e atinge aspectos relacionados à feminilidade, autoimagem, sexualidade, relações familiares e projetos de vida (De Sousa Nascimento et al., 2022). Nesse contexto, o sofrimento emocional pode ser intensificado pelas exigências impostas pelo tratamento, incluindo procedimentos cirúrgicos, quimioterapia, radioterapia e hormonioterapia, que frequentemente produzem efeitos adversos físicos e psicossociais relevantes (Aguiar, 2022).
Diante dessa realidade, a assistência oncológica contemporânea tem avançado para modelos de cuidado centrados na integralidade, reconhecendo que o tratamento efetivo do câncer não deve restringir-se ao controle da doença, mas contemplar também as necessidades emocionais e psicossociais das pacientes (Da Silva et al., 2024). Nesse cenário, a psico-oncologia emerge como uma área especializada voltada à compreensão dos aspectos psicológicos relacionados ao câncer, buscando promover suporte emocional, fortalecimento de estratégias adaptativas de enfrentamento e melhoria da comunicação entre pacientes, familiares e equipe multiprofissional (Pereira, 2025).
Estudos recentes têm demonstrado que o acompanhamento psicológico contribui significativamente para a redução de sintomas de ansiedade e depressão, favorece a elaboração emocional do diagnóstico, fortalece a adesão às condutas terapêuticas e auxilia no desenvolvimento de mecanismos mais eficazes de enfrentamento da doença. Além disso, intervenções psicológicas adequadas têm sido associadas à melhora da qualidade de vida, da percepção de suporte social e da capacidade de adaptação às diferentes etapas do tratamento oncológico (Sousa, 2024).
Embora os benefícios da assistência psicológica sejam amplamente reconhecidos, ainda existem desafios relacionados à sua incorporação sistemática nos serviços de oncologia, especialmente em contextos marcados por limitações estruturais e desigualdades no acesso aos cuidados especializados (De Oliveira, 2023).
Diante desse contexto, questiona-se: quais são os impactos do acompanhamento psicológico no enfrentamento da doença, na adesão ao tratamento e na qualidade de vida de mulheres diagnosticadas com câncer de mama? Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar as evidências científicas disponíveis acerca da influência do acompanhamento psicológico sobre esses desfechos, contribuindo para o fortalecimento de práticas assistenciais voltadas ao cuidado integral em oncologia.
Dessa forma, torna-se necessário ampliar a produção científica acerca das contribuições do acompanhamento psicológico para mulheres com câncer de mama, considerando seus impactos sobre o enfrentamento da doença, a adesão ao tratamento e a qualidade de vida.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão sistematizada da literatura, conduzida entre junho e julho de 2026, seguindo as etapas metodológicas propostas por Galvão, Pansani e Harrad (2015). Nesse âmbito, essa abordagem foi selecionada por possibilitar a análise crítica e a síntese das evidências científicas disponíveis acerca da contribuição do acompanhamento psicológico no contexto do câncer de mama, contemplando aspectos emocionais, comportamentais e assistenciais relacionados ao enfrentamento da doença, adesão ao tratamento e qualidade de vida das pacientes. Desse modo, todas as etapas do estudo foram avaliadas por dois revisores independentes, visando aumentar a confiabilidade do processo de seleção e análise dos estudos.
Seguindo as recomendações metodológicas do Instituto Joanna Briggs (JBI, 2022), em conjunto com as diretrizes propostas por Galvão, Pansani e Harrad (2015), a pesquisa foi desenvolvida em cinco etapas: (1) formulação da questão de pesquisa e definição dos objetivos; (2) identificação dos estudos relevantes por meio de buscas sistematizadas em bases de dados científicas; (3) seleção criteriosa dos estudos mediante critérios de elegibilidade previamente estabelecidos; (4) extração e organização dos dados relevantes; e (5) síntese e análise crítica dos resultados encontrados.
Na primeira etapa, utilizou-se a estratégia PICO (Santos, Pimenta e Nobre, 2007) para delimitação da questão de pesquisa. Considerou-se P (População): mulheres diagnosticadas com câncer de mama; I (Intervenção): acompanhamento ou intervenção psicológica; C (Comparação): cuidado usual, ausência de acompanhamento psicológico ou outras formas de assistência, quando aplicável; e O (Desfechos): enfrentamento da doença, adesão ao tratamento e qualidade de vida. A partir dessa estrutura, formulou-se a seguinte questão norteadora: “Quais são os impactos do acompanhamento psicológico no enfrentamento da doença, na adesão ao tratamento e na qualidade de vida de mulheres com câncer de mama?”
Na segunda etapa, a busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed, Medline, Cochrane Library e SciELO. Para definição dos descritores, foi realizada consulta aos vocabulários controlados DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e MeSH (Medical Subject Headings), por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Após testes e refinamentos da estratégia de busca, foram utilizados os seguintes termos em inglês, combinados pelos operadores booleanos (AND e OR): ("Breast Cancer") AND ("Psychological Support" OR "Psychological Care") AND ("Treatment Adherence") AND ("Quality of Life"). Complementarmente, realizou-se busca no Google Acadêmico, sem identificação de estudos adicionais que atendessem aos critérios de elegibilidade.
Na terceira etapa, adotando e adaptando o fluxograma proposto por Galvão, Pansani e Harrad (2015), procedeu-se à seleção dos estudos em quatro subetapas: identificação, seleção, elegibilidade e inclusão. Inicialmente, os estudos foram identificados nas bases de dados selecionadas. Em seguida, realizou-se a leitura dos títulos e resumos para verificação da adequação ao tema investigado. Posteriormente, os artigos potencialmente elegíveis foram analisados na íntegra, aplicando-se os critérios de inclusão e exclusão definidos para o estudo. Por fim, os artigos que atenderam a todos os critérios metodológicos foram incluídos na amostra final da revisão.
Foram considerados critérios de inclusão artigos científicos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis gratuitamente em texto completo, nos idiomas português, inglês e espanhol, que abordassem a atuação psicológica junto a mulheres com câncer de mama, bem como seus efeitos sobre aspectos emocionais, adesão terapêutica, enfrentamento da doença e qualidade de vida.
Considerando a abrangência da questão investigada, foram incluídos estudos com diferentes delineamentos metodológicos, contemplando pesquisas primárias e estudos de revisão, com o propósito de reunir evidências complementares acerca dos impactos do acompanhamento psicológico em mulheres com câncer de mama. A heterogeneidade dos delineamentos foi considerada na análise e interpretação dos resultados.
Foram excluídos estudos duplicados, trabalhos de conclusão de curso, resumos de eventos científicos, cartas ao editor, relatos de experiência e publicações que não apresentassem relação direta com os objetivos propostos. Também foram excluídos artigos indisponíveis na íntegra ou publicados fora do período estabelecido.
Na quarta etapa, os dados extraídos incluíram informações referentes aos autores, ano de publicação, local do estudo, delineamento metodológico, características da população investigada, tipo de intervenção psicológica realizada e principais resultados encontrados.
Por fim, na quinta etapa, os estudos selecionados foram analisados de forma descritiva e comparativa, buscando identificar padrões recorrentes, divergências e lacunas existentes na literatura científica. Desse modo, a discussão dos resultados foi desenvolvida a partir da integração crítica das evidências encontradas, permitindo compreender a relevância do acompanhamento psicológico para mulheres com câncer de mama e suas repercussões sobre o enfrentamento da doença, adesão ao tratamento e qualidade de vida. Os dados foram apresentados utilizando um fluxograma de seleção e extração de estudos conforme o modelo PRISMA.
As informações extraídas incluíram autoria, objetivos do estudo e principais achados. Os resultados foram apresentados por meio de um fluxograma PRISMA (Figura 1), e os dados descritivos de cada estudo foram sistematizados no Quadro 1.
3. RESULTADOS
O processo de seleção dos estudos está apresentado na Figura 1. Inicialmente, foram identificadas 124 publicações nas bases de dados selecionadas, sendo 58 na PubMed, 32 na Medline, 14 na Cochrane Library e 20 na SciELO. Após a leitura preliminar dos títulos, 102 registros foram excluídos por não apresentarem relação suficiente com a temática investigada, permanecendo 22 estudos potencialmente relevantes para continuidade do processo de seleção.
Na etapa seguinte, 6 registros foram removidos por duplicidade e/ou por não atenderem aos critérios iniciais de elegibilidade, resultando em 16 estudos submetidos à análise dos resumos. Após essa avaliação, 4 artigos foram excluídos por não apresentarem relação direta com o objetivo da revisão ou por não contemplarem os desfechos investigados, permanecendo 12 estudos para leitura na íntegra.
Os 12 artigos potencialmente elegíveis foram analisados integralmente de acordo com os critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos. Nessa etapa, 4 estudos foram excluídos por inadequação temática, limitações metodológicas ou insuficiência de informações para responder à questão norteadora. Ao final do processo, 8 estudos atenderam aos critérios de elegibilidade e compuseram a amostra final da revisão.
O detalhamento das etapas de identificação, seleção, elegibilidade e inclusão encontra-se apresentado na Figura 1, correspondente ao Fluxograma PRISMA do processo de seleção dos estudos.
Figura 1. Fluxograma do processo de identificação, seleção, elegibilidade e inclusão dos estudos
Após a seleção final dos estudos, os 8 artigos incluídos na revisão foram organizados no Quadro 1, com o objetivo de sintetizar as principais características das publicações analisadas. Cada estudo recebeu um código específico, identificado pela letra “A”, referente a artigo, seguida de numeração sequencial de A1 a A8, a fim de facilitar a identificação e a retomada das informações ao longo da discussão.
O Quadro 1 reúne informações referentes à autoria, ano de publicação, tipo de estudo, objetivo do estudo e principais achados. Essa organização permitiu uma visualização mais clara das evidências disponíveis sobre os impactos do acompanhamento psicológico em mulheres com câncer de mama, favorecendo a comparação entre os estudos selecionados e a identificação dos principais pontos de convergência entre eles.
Quadro 1. Caracterização dos estudos incluídos na revisão
Cod | Autor | Tipo de estudo | Objetivo do estudo | Principais achados |
A1 | Guarino et al. (2020) | Revisão sistemática e meta-análise | Avaliar a eficácia de tratamentos psicológicos em mulheres com câncer de mama, considerando ansiedade, depressão, humor e qualidade de vida | As intervenções psicológicas apresentaram efeito moderado na melhora do bem-estar emocional, com destaque para a terapia cognitivo-comportamental e os tratamentos psicoeducacionais, que contribuíram para redução de ansiedade, depressão e melhora da qualidade de vida |
A2 | Morales-Sánchez et al. (2021) | Revisão sistemática | Identificar e analisar intervenções voltadas à melhora da autoestima e da imagem corporal de mulheres com câncer de mama | As intervenções psicossociais favoreceram melhora da autoestima e da percepção da imagem corporal |
A3 | Da Silva et al. (2022) | Revisão integrativa da literatura | Identificar os impactos na qualidade de vida de pacientes submetidos a tratamento oncológico. | O tratamento quimioterápico impactou negativamente a qualidade de vida, com efeitos físicos e emocionais como queda de cabelo, perda de olfato, perda de apetite, dor muscular, náuseas, vômitos, alteração de peso, medo, insegurança e sintomas depressivos |
A4 | Zhang et al. (2023) | Ensaio clínico randomizado | Examinar a eficácia da intervenção psicológica positiva centrada na família sobre a resiliência, a esperança, os benefícios percebidos e a qualidade de vida em pacientes com câncer de mama e seus cuidadores. | A intervenção promoveu melhora significativa da resiliência, esperança, percepção de benefícios e qualidade de vida das pacientes e cuidadores, reforçando a importância do cuidado psicológico familiar no enfrentamento do câncer de mama |
A5 | Borges et al. (2023) | Estudo qualitativo, descritivo e exploratório | Identificar e analisar os enfrentamentos vivenciados por mulheres sobreviventes do câncer de mama, considerando suas percepções sobre diagnóstico, implicações emocionais, tratamento e vida após o tratamento oncológico. | Identificou medo, tristeza, surpresa e aceitação como sentimentos frequentes após o diagnóstico, destacando o apoio familiar, a religiosidade e a equipe multiprofissional como fatores importantes no enfrentamento do câncer de mama. |
A6 | Souza e Santos (2024) | Estudo qualitativo, descritivo e exploratório | Compreender os significados produzidos por mulheres com câncer de mama sobre sua participação em um grupo de apoio. | Evidenciou que o grupo de apoio favoreceu acolhimento, escuta, troca de experiências, criação de vínculos e fortalecimento emocional, contribuindo para o enfrentamento do câncer de mama e para a qualidade de sobrevida. |
A7 | Wang et al. (2024) | Revisão narrativa | Investigar os efeitos da intervenção psicológica sobre emoções negativas e resiliência psicológica em pacientes com câncer de mama após mastectomia radical | A intervenção psicológica mostrou-se relevante para reduzir ansiedade, depressão e sofrimento emocional, além de fortalecer a resiliência, a adaptação ao tratamento, a qualidade de vida e a adesão terapêutica |
A8 | De Sousa (2025) | Revisão bibliográfica | Identificar os impactos psicológicos das mulheres diante do diagnóstico e tratamento do câncer de mama descrevendo os sentimentos vivenciados perante o enfrentamento do diagnóstico do câncer de mama | Evidenciou medo da morte, ansiedade, insegurança, tristeza e sofrimento emocional, além de alterações na autoestima, imagem corporal e feminilidade. O estudo reforça a importância da informação, do apoio emocional e da assistência profissional no enfrentamento da doença |
Fonte: Autores, 2026.
A análise dos estudos sintetizados no Quadro 1 evidenciou que o acompanhamento psicológico constitui um componente fundamental no cuidado integral de mulheres com câncer de mama, especialmente diante das repercussões emocionais provocadas pelo diagnóstico e pelo tratamento. De modo geral, os 8 estudos analisados apontaram que a assistência psicológica contribui para a redução de sintomas de ansiedade, depressão, medo e insegurança, além de favorecer a melhora da autoestima, o fortalecimento das estratégias de enfrentamento e a preservação da qualidade de vida.
Nesse contexto, os achados demonstram que o sofrimento psíquico vivenciado por essas mulheres não se limita ao momento do diagnóstico, mas acompanha diferentes fases do percurso terapêutico, sendo intensificado por alterações corporais, efeitos adversos do tratamento, incertezas quanto ao prognóstico e impactos na vida familiar, social e afetiva. Assim, o acompanhamento psicológico torna-se essencial por oferecer suporte emocional, escuta qualificada e recursos para que a paciente desenvolva maior capacidade de adaptação frente às mudanças impostas pela doença (Oliveira; Pereira; Furtado; Santos, 2025).
Em relação à adesão terapêutica, os achados foram mais limitados. Entre os estudos que abordaram esse desfecho, observou-se possível contribuição do suporte psicológico para a adaptação ao tratamento e para a continuidade das condutas terapêuticas, embora as evidências disponíveis não permitam conclusões definitivas. Conforme evidenciado por Abreu Raposo (2025), a fragilidade ou ausência desse acompanhamento pode comprometer o desenvolvimento de estratégias eficazes de enfrentamento, dificultando a adaptação às transformações físicas e emocionais decorrentes do câncer de mama.
Dessa forma, os resultados reforçam a necessidade de integrar o acompanhamento psicológico à assistência oncológica de maneira contínua e multiprofissional. Mais do que uma intervenção complementar, o cuidado psicológico deve ser reconhecido como parte essencial da atenção à mulher com câncer de mama, uma vez que contribui não apenas para o alívio do sofrimento emocional, mas também para a autonomia, a adesão ao tratamento, a ressignificação da experiência de adoecimento e a melhoria da qualidade de vida (Pimenta, 2024).
4. DISCUSSÃO
A análise dos estudos incluídos nesta revisão evidenciou que o diagnóstico do câncer de mama produz impactos psicológicos significativos na vida das mulheres, ultrapassando a dimensão física da doença. O medo da morte, a insegurança quanto ao tratamento, as alterações na imagem corporal e as incertezas sobre o futuro aparecem como elementos recorrentes, capazes de intensificar sintomas de ansiedade, tristeza, angústia e sofrimento emocional. Nesse sentido, o diagnóstico não representa apenas a identificação de uma condição clínica, mas também um momento de ruptura subjetiva, social e afetiva (Da Silva, 2025).
Diante desse cenário, o acompanhamento psicológico mostrou-se uma estratégia essencial para auxiliar a mulher na elaboração emocional do adoecimento. Os estudos analisados indicam que a escuta qualificada, o acolhimento e as intervenções psicológicas favorecem o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento mais adaptativas, permitindo que a paciente compreenda melhor suas emoções, fortaleça sua resiliência e encontre recursos para lidar com as exigências impostas pelo tratamento oncológico (De Lira, 2020).
No que se refere à adesão ao tratamento, as evidências identificadas nesta revisão foram menos consistentes do que aquelas relacionadas aos desfechos emocionais e à qualidade de vida. Nesse sentido, Wang et al. (2024) observaram que a intervenção psicológica pode contribuir para a adaptação ao tratamento, redução do sofrimento emocional e fortalecimento da adesão terapêutica. Entretanto, considerando a heterogeneidade dos estudos incluídos e o número reduzido de investigações que avaliaram diretamente esse desfecho, os achados relacionados à adesão devem ser interpretados com cautela.
No que se refere à qualidade de vida, os achados demonstram que o acompanhamento psicológico repercute positivamente no bem-estar emocional, na autoestima, na percepção da imagem corporal e nas relações familiares e sociais. Ao oferecer suporte para lidar com as mudanças provocadas pela doença e pelo tratamento, a assistência psicológica contribui para que a mulher preserve sua autonomia, ressignifique sua experiência de adoecimento e mantenha maior equilíbrio emocional durante as diferentes fases do cuidado oncológico (Fraga Miranda, 2023).
Assim, os resultados desta revisão reforçam que o acompanhamento psicológico deve integrar a assistência às mulheres com câncer de mama, considerando seus benefícios sobre o bem-estar emocional, o enfrentamento da doença e a qualidade de vida (Guarino et al., 2020). Sua atuação no cuidado multiprofissional possibilita uma abordagem mais humanizada, melhora o enfrentamento da doença, fortalece a adesão ao tratamento e contribui de maneira significativa para a qualidade de vida das mulheres com câncer de mama.
Entre as limitações desta revisão, destaca-se o número reduzido de estudos incluídos e a heterogeneidade dos delineamentos metodológicos, que envolveram revisões sistemáticas, estudos qualitativos, estudo de intervenção e revisão narrativa. Além disso, nem todos os estudos avaliaram diretamente o acompanhamento psicológico como intervenção, e a adesão ao tratamento foi um desfecho investigado de forma menos frequente. Essas características limitam a comparação entre os achados e recomendam cautela na generalização dos resultados. Ainda assim, a convergência das evidências quanto aos benefícios emocionais, ao enfrentamento da doença e à qualidade de vida reforça a relevância do suporte psicológico no cuidado às mulheres com câncer de mama.
5. CONCLUSÃO
A presente revisão evidenciou que o acompanhamento psicológico exerce papel relevante no cuidado integral às mulheres com câncer de mama, especialmente por seus efeitos positivos sobre o enfrentamento da doença, o bem-estar emocional e a qualidade de vida. Os estudos analisados demonstraram que o suporte psicológico pode contribuir para a redução de sintomas de ansiedade, depressão, medo e sofrimento emocional, além de favorecer estratégias adaptativas diante das mudanças físicas, sociais e afetivas impostas pelo tratamento oncológico.
No campo prático da saúde, os achados reforçam a importância da inserção do psicólogo nas equipes multiprofissionais de oncologia, desde o diagnóstico até o pós-tratamento. Essa atuação pode favorecer a escuta qualificada, o acolhimento das pacientes, a comunicação entre equipe, mulher e família e a adaptação às diferentes etapas do tratamento. Em relação à adesão terapêutica, as evidências encontradas sugerem possível contribuição positiva do acompanhamento psicológico, embora esse desfecho tenha sido investigado de forma menos consistente entre os estudos incluídos.
A relevância deste estudo está em ampliar a compreensão sobre as contribuições da psico-oncologia na assistência às mulheres com câncer de mama, oferecendo subsídios para práticas clínicas mais sensíveis às dimensões emocionais do adoecimento. Além disso, os achados podem contribuir para o planejamento de serviços e para o fortalecimento de estratégias assistenciais que ampliem o acesso ao acompanhamento psicológico especializado.
Dessa forma, as evidências reunidas reforçam a importância do acompanhamento psicológico na qualificação do cuidado oncológico, sobretudo no fortalecimento do enfrentamento da doença e na promoção da qualidade de vida das mulheres com câncer de mama. Recomenda-se a realização de novos estudos com maior rigor metodológico e delineamentos capazes de avaliar, de forma específica, os efeitos das diferentes modalidades de intervenção psicológica sobre a adesão ao tratamento e outros desfechos ao longo das distintas fases do cuidado oncológico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABREU RAPOSO, Juliane; LOPES DOS SANTOS, Jéssica. O impacto na saúde mental da mulher com diagnóstico de câncer de mama. Revista Foco (Interdisciplinary Studies Journal), v. 18, n. 5, 2025. Disponível em: https://openurl.ebsco.com/contentitem/gcd:186077041?sid=ebsco:plink:scholar&id=ebsco:gcd:186077041&crl=c. Acesso em: 21 jun. 2026.
AGUIAR, Rita de Cássia Siqueira; FREITAS, Elaine Cristina Batista Ferreira; DE SOUZA FREITAS, Moises Thiago. Impacto das principais formas de tratamentos na qualidade de vida de pacientes com câncer de mama. Research, Society and Development, v. 11, n. 8, p. e8011830450-e8011830450, 2022. Disponível em: https://rsdjournal.org/rsd/article/view/30450. Acesso em: 21 jun. 2026.
BORGES, Beatriz Santos et al. Estudo qualitativo sobre implicações emocionais, percepção de tratamentos e sobrevivência ao câncer de mama feminino. Research, Society and Development, v. 12, n. 6, p. e19212641694-e19212641694, 2023. Disponível em: https://rsdjournal.org/rsd/article/view/41694. Acesso em: 15 jun. 2026.
CAMPOS, Elisa Maria Parahyba; RODRIGUES, Avelino Luiz; CASTANHO, Pablo. Intervenções psicológicas na psico-oncologia. Mudanças: Psicologia da saúde, v. 29, n. 1, p. 41-47, 2021. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-32692021000100005. Acesso em: 21 jun. 2026.
DA SILVA, Cíntia Carlos; DE CARVALHO AMARO, Terezinha A. Câncer de mama e questões emocionais: o papel da Psicologia no início, durante e após o tratamento. Atas de Ciências da Saúde (ISSN 2448-3753), v. 13, n. 7, 2025. Disponível em: https://revistaseletronicas.fmu.br/index.php/ACIS/article/view/3317. Acesso em: 21 jun. 2026.
DA SILVA, Karla Cristina et al. A qualidade de vida dos pacientes oncológicos durante a quimioterapia. Research, Society and Development, v. 11, n. 15, p. e343111537282-e343111537282, 2022. Disponível em: https://rsdjournal.org/rsd/article/view/37282. Acesso em: 21 jun. 2026.
DA SILVA, Mariana Vieira et al. Tratamento Cirúrgico do Câncer de Mama. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, [S. l.], v. 6, n. 10, p. 2253–2260, 2024. Disponível em: https://bjihs.emnuvens.com.br/bjihs/article/view/3962. Acesso em: 21 jun. 2026.
DE LIRA, Elissandra Samara; DO NASCIMENTO, Mariana Kalyne Moura; XAVIER, Anna Karina Gonçalves. A importância do acompanhamento psicológico na qualidade de vida em mulheres mastectomizadas. Revista Eletrônica da Estácio Recife, 2020. Disponível em: https://reer.emnuvens.com.br/reer/article/view/512. Acesso em: 8 jul. 2026.
DE OLIVEIRA, Vanusa Borges; DE ANDRADE, Vinicius Novais Gonçalves. Suporte psicológico à mulher com diagnóstico e em tratamento do câncer de mama. Psicologias em Movimento, v. 3, n. 2, p. 61-84, 2023. Disponível em: https://revistas.unifan.edu.br/index.php/RevistaISEPsicologias/article/view/1155. Acesso em: 21 jun. 2026.
DE SOUSA NASCIMENTO, Patrícia et al. Dificuldades enfrentadas por mulheres com câncer de mama: do diagnóstico ao tratamento. Revista Interfaces: Saúde, Humanas e Tecnologia, v. 10, n. 2, p. 1336-1345, 2022. Disponível em: https://www.interfaces.unileao.edu.br/index.php/revista-interfaces/article/view/1006. Acesso em: 21 jun. 2026.
DE SOUSA, Taís Machado; SOUSA, Jéssica Rayanne Vieira Araújo. Câncer de mama em mulheres e os impactos psicológicos do diagnóstico e tratamento. LUMEN ET VIRTUS, [S. l.], v. 16, n. 49, p. 6537–6552, 2025. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/LEV/article/view/5802. Acesso em: 21 jun. 2026.
FLOR, E.; CARMEM, I. P.; LAPA, J. P. M.; SILVA, S. M. da. Implicações psicológicas do câncer de mama na saúde mental de mulheres mastectomizadas. Revista Foco, [S. l.], v. 18, n. 7, p. e9274, 2025. DOI: 10.54751/revistafoco.v18n7-110. Disponível em: https://ojs.focopublicacoes.com.br/foco/article/view/9274. Acesso em: 21 jun. 2026.
FRAGA MIRANDA, Maíra Aparecida; PIVA, Maristela. Adesão ao tratamento oncológico: perscrutando sujeitos que vivenciam este processo. Psicologia e Saúde em debate, [S. l.], v. 9, n. 1, p. 292–308, 2023. Disponível em: https://psicodebate.dpgpsifpm.com.br/index.php/periodico/article/view/932. Acesso em: 8 jul. 2026.
GALVÃO, Taís Freire; PANSANI, Thais de Souza Andrade; HARRAD, David. Principais itens para relatar revisões sistemáticas e meta-análises: a recomendação PRISMA. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, v. 24, n. 2, p. 335-342, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.5123/S1679-49742015000200017. Acesso em: 9 jul. 2026.
GUARINO, Angela; POLINI, Claudia; FORTE, Giuseppe; FAVIERI, Francesca; BONCOMPAGNI, Ilaria; CASAGRANDE, Maria. The effectiveness of psychological treatments in women with breast cancer: a systematic review and meta-analysis. Journal of Clinical Medicine, Basel, v. 9, n. 1, artigo 209, 2020. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7019270/. Acesso em: 21 jun. 2026.
JASSIM, G. A. et al. Psychological interventions for women with non-metastatic breast cancer. Cochrane Database of Systematic Reviews, [S. l.], n. 1, art. CD008729, 2023. DOI: 10.1002/14651858.CD008729.pub3. Disponível em: https://doi.org/10.1002/14651858.CD008729.pub3. Acesso em: 6 set. 2026.
JOANNA BRIGGS INSTITUTE. JBI Manual for Evidence Synthesis. Adelaide: Joanna Briggs Institute, 2022. Disponível em: https://jbi-global-wiki.refined.site/space/MANUAL. Acesso em: 9 jul. 2026.
MORALES-SÁNCHEZ, L.; LUQUE-RIBELLES, V.; GIL-OLARTE, P.; RUIZ-GONZÁLEZ, P.; GUIL, R. Enhancing self-esteem and body image of breast cancer women through interventions: a systematic review. International Journal of Environmental Research and Public Health, [s. l.], v. 18, n. 4, p. 1640, 2021. Disponível em: https://www.mdpi.com/1660-4601/18/4/1640. Acesso em: 21 jun. 2026.
OLIVEIRA, C. M. de; PEREIRA, K. E. da S.; FURTADO, P. E.; SANTOS, F. B. dos. Explorando o lado emocional do câncer de mama: estratégias de enfrentamento e apoio psicológico. Epitaya E-books, [S. l.], v. 1, n. 94, p. 60-74, 2025. Disponível em: https://portal.epitaya.com.br/index.php/ebooks/article/view/1368. Acesso em: 21 jun. 2026.
PEREIRA, Sula Ferrari; SILVA, Julia Caciano da. Câncer de mama e corpo feminino: um olhar sensível da Psicologia. Revista da SBPH, v. 28, 2025. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1516-08582025000100303&script=sci_arttext. Acesso em: 21 jun. 2026.
PIMENTA, L. J. T. Impacto psicológico e desafios enfrentados por pacientes no diagnóstico do câncer de mama. Revista Foco, [S. l.], v. 17, n. 10, p. e6434, 2024. DOI: 10.54751/revistafoco.v17n10-045. Disponível em: https://ojs.focopublicacoes.com.br/foco/article/view/6434. Acesso em: 8 jul. 2026.
SANTOS, C. M. C.; PIMENTA, C. A. M.; NOBRE, M. R. C. A estratégia PICO para a construção da pergunta de pesquisa e busca de evidências. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 15, p. 508-511, 2007.
SOUSA, Camila Trajano de; COSTA, Nicoly da Silva; SANTOS, Diana Góis dos. O impacto do diagnóstico de câncer de mama no estado emocional e psicológico das mulheres. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, [S. l.], v. 10, n. 6, p. 1015–1035, 2024. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/13382. Acesso em: 21 jun. 2026.
SOUZA, Carolina de; SANTOS, Manoel Antônio dos. Significados atribuídos por mulheres com câncer de mama ao grupo de apoio. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 44, p. 1-20, e259618, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/a/vZDsPy85KqYwpxnmzxzNMMw/?format=html&lang=pt. Acesso em: 21 jun. 2026.
WANG, J.; KANG, D. X.; ZHANG, A. J.; LI, B. R. Effects of psychological intervention on negative emotions and psychological resilience in breast cancer patients after radical mastectomy. World Journal of Psychiatry, [s. l.], v. 14, n. 1, p. 8-14, 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10845232/. Acesso em: 21 jun. 2026.
ZHANG, Y.; TANG, R.; BI, L.; WANG, D.; LI, X.; GU, F.; HAN, J.; SHI, M. Effects of family-centered positive psychological intervention on psychological health and quality of life in patients with breast cancer and their caregivers. Supportive Care in Cancer, Berlin, v. 31, n. 10, artigo 592, 2023. DOI: 10.1007/s00520-023-08053-2. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37750931/. Acesso em: 21 jun. 2026.
1 Especialista em Radioterapia e Cuidados Paliativos. Instituto Federal do Piauí - IFPI, Teresina, PI, Brasil
2 Especialista em Enfermagem Oncológica – UNYLEYA, Brasília/DF, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Graduanda em Terapia Ocupacional. Uninassau, Teresina, PI, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Graduanda em Terapia Ocupacional. Uninassau, Teresina, PI, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Especialista em Auditoria em Saúde. Centro Universitário Santo Agostinho, Teresina, PI, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Graduando em Terapia Ocupacional. Uninassau, Teresina, PI, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Graduando em Terapia Ocupacional. Uninassau, Teresina, PI, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
8 Graduanda em Terapia Ocupacional. Uninassau, Teresina, PI, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail