REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789155241
RESUMO
A Educação a Distância tem ampliado as possibilidades de acesso ao ensino superior e, simultaneamente, provocado a necessidade de novas formas de acompanhamento e mediação dos processos de ensino e aprendizagem. Nesse contexto, a tutoria assume papel fundamental na aproximação entre estudantes, professores e instituição, contribuindo para o acompanhamento acadêmico, a orientação das atividades, o esclarecimento de dúvidas, a motivação e a permanência dos estudantes no curso. Este artigo apresenta um relato de experiência sobre a atuação da tutoria no curso de Licenciatura em Matemática na modalidade de Educação a Distância, buscando refletir sobre as práticas desenvolvidas, os desafios encontrados e as contribuições da ação tutorial para o processo formativo dos licenciandos. A experiência evidencia que a atuação do tutor ultrapassa o acompanhamento das atividades acadêmicas, envolvendo dimensões pedagógicas, comunicacionais e relacionais. As ações de orientação individual e coletiva, acompanhamento da participação no ambiente virtual de aprendizagem, comunicação com os estudantes e identificação de dificuldades constituem estratégias importantes para favorecer a aprendizagem e reduzir situações de afastamento e evasão. Além disso, a experiência mostrou-se formativa para as próprias tutoras, favorecendo a reflexão sobre suas práticas e a ressignificação de seus saberes profissionais. Conclui-se que a tutoria presencial constitui uma dimensão relevante da formação de professores de Matemática na EaD, contribuindo para aproximar estudantes, professores e instituição e para promover uma formação mais colaborativa, humanizada e reflexiva.
Palavras-chave: Educação a Distância; Tutoria; Licenciatura em Matemática; Mediação pedagógica; Formação de professores.
ABSTRACT
Distance education has expanded access to higher education while simultaneously creating a need for new forms of monitoring and mediating teaching and learning processes. In this context, tutoring plays a fundamental role in bridging the gap between students, professors, and the institution, contributing to academic monitoring, activity guidance, the clarification of doubts, student motivation, and student retention. This article presents an account of the tutoring experience within a distance-learning Mathematics Teacher Education program, aiming to reflect on the practices employed, the challenges encountered, and the contributions of tutoring to the students' professional training. The experience demonstrates that the tutor's role extends beyond monitoring academic activities, encompassing pedagogical, communicative, and relational dimensions. Strategies such as individual and group guidance, monitoring participation in the virtual learning environment, communicating with students, and identifying difficulties are crucial for fostering learning and reducing student disengagement and dropout rates. Furthermore, the experience proved formative for the tutors themselves, encouraging reflection on their practices and the re-evaluation of their professional knowledge. The study concludes that in-person tutoring is a significant dimension of Mathematics teacher training in distance education, helping to connect students, professors, and the institution while promoting a more collaborative, humanized, and reflective training process.
Keywords: Distance Education; Tutoring; Mathematics Teacher Education; Pedagogical mediation; Teacher training.
1. INTRODUÇÃO
A Educação a Distância (EaD) caracteriza-se por uma organização pedagógica na qual professores e estudantes podem estar separados espacial e temporalmente, sendo a comunicação e os processos de ensino e aprendizagem mediados por diferentes tecnologias e estratégias pedagógicas. Nesse contexto, a modalidade exige formas específicas de acompanhamento dos estudantes e de organização do trabalho pedagógico, uma vez que a distância física não pode significar ausência de interação, acompanhamento ou mediação. Conforme Belloni (2008), a EaD implica transformações nas relações entre os sujeitos envolvidos no processo educativo, exigindo novas competências e formas de atuação dos profissionais da educação.
Nesse cenário, a tutoria constitui um dos elementos fundamentais da organização pedagógica dos cursos a distância. A atuação do tutor não deve ser compreendida apenas como uma função técnica ou administrativa, mas como uma atividade que envolve acompanhamento, orientação, comunicação e mediação pedagógica. Para Gonzalez (2005), o tutor ocupa uma posição estratégica no sistema de EaD, estabelecendo uma relação de proximidade entre a instituição e o estudante e contribuindo para que o processo educativo não se fragmente em razão da distância física.
Diante desse contexto, este artigo tem como objetivo analisar as contribuições e os desafios da tutoria presencial no curso de Licenciatura em Matemática na modalidade de Educação a Distância, a partir das experiências relatadas pelas tutoras, considerando aspectos relacionados à mediação pedagógica, à aprendizagem, à participação, à permanência e à formação profissional.
A pesquisa caracteriza-se como um relato de experiência, de abordagem qualitativa, construído a partir das vivências de tutoras que atuam no acompanhamento de estudantes do curso de Licenciatura em Matemática, na modalidade de Educação a Distância (EAD), vinculado à Universidade Aberta do Brasil (UAB) no Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSUL).
Assim, o artigo parte da compreensão de que a Educação a Distância não se sustenta apenas por meio de tecnologias, plataformas e materiais didáticos. A dimensão humana permanece central no processo educativo. Nesse sentido, investigar a experiência da tutoria permite compreender como a presença pedagógica, mesmo em um contexto mediado pelas tecnologias, pode contribuir para construir vínculos, favorecer aprendizagens, enfrentar dificuldades e fortalecer a trajetória acadêmica dos futuros professores de Matemática.
2. A TUTORIA NA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
A compreensão sobre a função tutorial sofreu modificações ao longo da consolidação da Educação a Distância. Em uma perspectiva mais tradicional, o tutor era frequentemente associado à função de acompanhar o estudante, esclarecer dúvidas e auxiliar no desenvolvimento das atividades. Com a ampliação das possibilidades de interação proporcionadas pelas tecnologias digitais, essa concepção passou a ser questionada, uma vez que o processo de aprendizagem na EaD exige uma atuação mais ativa e pedagógica desse profissional. O tutor passa, então, a ser compreendido como mediador das relações estabelecidas entre estudantes, professores, conhecimentos e recursos educacionais.
Essa mudança é importante porque desloca a compreensão da tutoria de uma função predominantemente operacional para uma função pedagógica. O tutor não apenas responde às dúvidas apresentadas pelos estudantes, mas acompanha seus percursos de aprendizagem, identifica dificuldades, estimula a participação, oferece orientações e feedbacks e contribui para a construção de estratégias que favoreçam a autonomia. Nesse sentido, a mediação tutorial constitui uma dimensão essencial do processo educativo na EaD.
Santo e Andrade (2018), ao discutirem a mediação pedagógica tutorial na Educação a Distância, destacam a importância da interação entre estudantes e tutores e evidenciam que a atividade tutorial precisa ser compreendida considerando as diferentes demandas pedagógicas presentes nessa modalidade. A pesquisa desenvolvida pelos autores aponta que a tutoria constitui elemento relevante no processo de ensino e aprendizagem e que a formação e a participação dos tutores nas ações pedagógicas são aspectos importantes para o aprimoramento dessa prática.
A mediação pedagógica realizada pelo tutor envolve, portanto, diferentes dimensões. Entre elas estão o acompanhamento das atividades acadêmicas, a orientação dos estudantes, o esclarecimento de dúvidas, a comunicação com professores e coordenação, a identificação de dificuldades e o estímulo à participação. Em documentos orientadores e estudos sobre a tutoria em EaD, essas ações aparecem associadas à construção de um processo de aprendizagem mais interativo e colaborativo. O tutor torna-se, assim, um dos sujeitos responsáveis por aproximar o estudante dos conhecimentos e das experiências formativas proporcionadas pelo curso.
Outro elemento fundamental da atuação tutorial é o feedback. Em ambientes virtuais de aprendizagem, o retorno oferecido ao estudante assume importância significativa, pois permite que ele compreenda seus avanços, reconheça dificuldades e reorganize suas estratégias de aprendizagem. Abreu-e-Lima e Alves (2011) destacam a importância do feedback no processo de tutoria a distância, ressaltando que esse retorno não deve limitar-se à indicação de erros ou acertos, mas precisa contribuir para orientar o estudante em seu percurso formativo. Dessa forma, o feedback tutorial pode assumir caráter formativo, colaborando para que o estudante reflita sobre sua aprendizagem.
A comunicação constitui outra dimensão essencial da tutoria. Na EaD, a comunicação não acontece de maneira espontânea como pode ocorrer em uma sala de aula presencial. É necessário criar condições para que os estudantes se sintam acompanhados e tenham espaços para manifestação de dúvidas, dificuldades, expectativas e experiências. Belloni (2008) destaca que a EaD exige novas formas de interação e comunicação entre os sujeitos envolvidos no processo educativo. Nesse sentido, o tutor desempenha importante papel na criação e manutenção desses canais de comunicação.
No caso específico da formação de professores de Matemática, a tutoria assume características ainda mais relevantes. A Licenciatura em Matemática exige dos estudantes a construção progressiva de conhecimentos específicos, pedagógicos e didáticos, além do desenvolvimento da capacidade de argumentação, resolução de problemas e estabelecimento de relações entre diferentes conceitos matemáticos. As dificuldades enfrentadas pelos licenciandos podem ser potencializadas em contextos de formação a distância, nos quais a autonomia e a organização dos estudos assumem papel central.
Estudos realizados especificamente no âmbito de cursos de Licenciatura em Matemática a distância evidenciam a complexidade da atuação tutorial. Grützmann e Alves (2017), ao investigarem os tutores a distância do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância da Universidade Federal de Pelotas, analisaram como esses profissionais recontextualizam seus saberes docentes na atuação em EaD. O estudo evidencia que a prática tutorial mobiliza conhecimentos e saberes relacionados à docência, à comunicação e à organização do processo educativo.
Essa constatação é significativa para compreender que o tutor de um curso de Licenciatura em Matemática não atua apenas sobre questões administrativas ou de acesso às atividades. Sua atuação envolve conhecimentos relacionados à própria área de formação e à educação matemática, além de competências para estabelecer comunicação pedagógica com estudantes que apresentam diferentes trajetórias, conhecimentos prévios e dificuldades.
Oliveira (2015), ao investigar o papel do tutor presencial em um curso de Licenciatura em Matemática na modalidade EaD, também evidencia a relevância da tutoria para o acompanhamento dos estudantes. A experiência analisada demonstra que o tutor pode constituir uma referência importante para os licenciandos, contribuindo para sua aproximação com o curso e para o enfrentamento das dificuldades encontradas ao longo da formação.
Nesse sentido, a tutoria pode ser entendida como uma prática de mediação, acompanhamento e aproximação. O tutor estabelece pontes entre o estudante e o conhecimento, entre estudante e professor, entre estudante e instituição e, em determinadas situações, entre os próprios estudantes. Essa característica faz com que a atuação tutorial esteja diretamente relacionada à construção de uma experiência formativa mais humanizada.
Entretanto, é necessário destacar que a atuação do tutor não ocorre de maneira isolada. A efetividade da tutoria depende da articulação com professores, coordenação de curso, equipe pedagógica e demais profissionais envolvidos na formação. A comunicação entre esses sujeitos permite compartilhar informações sobre as dificuldades encontradas pelos estudantes, construir estratégias de intervenção e acompanhar os resultados dessas ações.
A tutoria, portanto, deve ser compreendida como parte de uma rede de acompanhamento pedagógico. Conforme Belloni (2008), a EaD modifica a organização do trabalho docente e demanda a atuação articulada de diferentes profissionais. Nesse modelo, a aprendizagem deixa de ser compreendida como resultado exclusivo da relação entre professor e estudante e passa a envolver uma organização mais ampla, na qual diferentes sujeitos desempenham funções complementares.
Outro aspecto relevante refere-se ao desenvolvimento da autonomia dos estudantes. A EaD pressupõe que o estudante desenvolva capacidade de organizar seu tempo, planejar suas atividades, buscar informações e acompanhar seu próprio processo de aprendizagem. Entretanto, autonomia não significa ausência de acompanhamento. Ao contrário, como aponta Belloni (2008), a autonomia do estudante precisa ser compreendida dentro das características próprias da modalidade e das condições pedagógicas oferecidas para que essa autonomia possa ser construída.
No contexto da Licenciatura em Matemática EaD, essa atuação ganha especial importância porque o tutor pode constituir uma das referências mais próximas e frequentes do estudante durante sua trajetória acadêmica. A presença tutorial, mesmo mediada pelas tecnologias digitais, contribui para diminuir a sensação de distanciamento e para estabelecer uma relação de acompanhamento que pode favorecer a aprendizagem e o sentimento de pertencimento.
Dessa forma, compreender a tutoria como mediação pedagógica implica reconhecer a dimensão humana presente na Educação a Distância. As tecnologias possibilitam a comunicação e o acesso aos conteúdos, mas são as relações estabelecidas entre os sujeitos que atribuem sentido ao processo educativo. Nesse cenário, o tutor ocupa uma posição estratégica, contribuindo para transformar o ambiente virtual em um espaço de interação, diálogo, acompanhamento e aprendizagem.
A experiência de tutoria em um curso de Licenciatura em Matemática EaD, portanto, constitui um campo relevante para reflexão e pesquisa, uma vez que permite compreender como as práticas de acompanhamento se concretizam no cotidiano e quais estratégias são mobilizadas para responder às diferentes necessidades dos estudantes. Mais do que descrever as atividades desenvolvidas pelos tutores, analisar essa experiência possibilita refletir sobre os sentidos pedagógicos atribuídos à tutoria e sobre sua contribuição para a formação de futuros professores de Matemática.
3. CONTEXTO DO CURSO DE LICENCIATURA EM MATEMÁTICA EAD
O relato de experiência apresentado neste artigo está situado no contexto do curso de Licenciatura em Matemática na modalidade de Educação a Distância (EaD), ofertado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul), no âmbito do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB). O curso de Licenciatura em Matemática EaD tem como objetivo formar licenciado em Matemática para docência nos Ensino Fundamental e Médio, dotados de valores, habilidades, saberes e conhecimentos necessários para promover o raciocínio lógico e a postura crítica e humanística, e desta forma, vir a contribuir através de sua prática, com um ensino de qualidade na Educação Básica.
A organização curricular do curso contempla componentes voltados tanto à formação específica em Matemática quanto à formação pedagógica necessária ao exercício da docência. Ao longo dos cinco anos do curso, dividido em dez semestres, os estudantes entram em contato com conteúdos matemáticos, fundamentos educacionais, metodologias de ensino, práticas pedagógicas e atividades relacionadas à formação profissional do professor. Essa articulação busca contribuir para a construção de conhecimentos que permitam ao futuro professor compreender não apenas os conceitos matemáticos, mas também os processos de ensino e aprendizagem e as especificidades da atuação docente na Educação Básica.
Na modalidade EaD, o desenvolvimento das atividades acadêmicas ocorre por meio da articulação entre diferentes espaços, sujeitos e recursos pedagógicos. O ambiente virtual de aprendizagem constitui um dos principais espaços de interação e organização das atividades, possibilitando o acesso aos materiais didáticos, orientações, atividades avaliativas, fóruns, comunicações e demais recursos disponibilizados pelas diferentes disciplinas. Dessa forma, o ambiente virtual ultrapassa a função de repositório de conteúdos e configura-se como espaço de interação e acompanhamento da trajetória acadêmica dos estudantes.
A atuação dos professores constitui outro elemento fundamental na organização do curso. Os docentes são responsáveis pelo planejamento e desenvolvimento dos componentes curriculares, pela seleção e organização dos materiais, pela proposição das atividades e pela avaliação da aprendizagem. Na EaD, entretanto, esse trabalho ocorre de forma articulada com outros profissionais, especialmente os tutores, que participam do acompanhamento cotidiano dos estudantes e estabelecem diferentes formas de comunicação e mediação ao longo das disciplinas.
4. CAMINHOS METODOLÓGICOS
O presente trabalho pode ser caracterizado como relato de experiência, de abordagem qualitativa, tendo como objeto a experiência de atuação da tutoria no curso.
Entende-se Relato de Experiência entendido como um tipo de produção de conhecimento, cujo texto trata de uma vivência acadêmica e/ou profissional em um dos pilares da formação, cuja característica principal é a descrição da intervenção. Na construção do estudo é relevante conter embasamento científico e reflexão crítica (MUSSI; FLORES; ALMEIDA, 2021).
Assim, o relato de experiência busca não apenas descrever o vivido, mas também conferir-lhe significado por meio de uma análise acadêmico-científica. Para isso, realiza uma aplicação crítico reflexiva, sustentada por fundamentos teóricos e metodológicos que permitem compreender e valorizar o processo narrado (MUSSI; FLORES; ALMEIDA, 2021).
A partir das respostas de questões orientadoras sobre as atividades realizadas e reflexões sobre o acompanhamento realizado com os estudantes. Tivemos duas tutoras presenciais que participaram e responderam. A análise das respostas foi organizada em categorias intituladas: experiência tutorial, acolhimento e acompanhamento, dificuldades e desafios.
5. A EXPERIÊNCIA TUTORIAL
A atuação tutorial busca aproximar o estudante dos professores, dos conteúdos e das atividades propostas, contribuindo para que as dificuldades encontradas ao longo do percurso sejam identificadas e encaminhadas. O tutor acompanha a participação dos estudantes, orienta quanto à realização das atividades, esclarece dúvidas, oferece feedbacks, estimula a participação e estabelece comunicação com os demais integrantes da equipe pedagógica.
O trabalho tutorial não se limita ao atendimento de dúvidas relacionadas aos conteúdos ou aos procedimentos para realização das atividades. Envolve também o acompanhamento da participação dos estudantes, a identificação de situações que possam interferir na aprendizagem e a construção de estratégias de aproximação com aqueles que apresentam dificuldades de participação ou de organização dos estudos.
A atuação tutorial é organizada e planejada semanalmente, enviando para os alunos o cronograma semanal e instruindo sobre as demandas. Como tutora estou usando para o acompanhamento com os alunos o grupo de whatsapp, na qual atendo-os em todos os momentos que surgem dúvidas, atendimento presencial no polo e atendimentos síncronos via meet (TUTORA 1).
A comunicação com os estudantes ocorre por diferentes canais, considerando as características da modalidade e as necessidades identificadas ao longo do processo formativo. O ambiente virtual de aprendizagem constitui espaço privilegiado para a comunicação acadêmica, mas outros recursos podem ser utilizados para favorecer a aproximação, o esclarecimento de dúvidas, o envio de orientações e o acompanhamento individual ou coletivo. Essa diversidade de canais torna-se importante porque os estudantes apresentam diferentes níveis de familiaridade com as tecnologias, diferentes rotinas de estudo e distintas necessidades de acompanhamento.
A atuação tutorial é organizada a partir de dois movimentos principais: os encontros presenciais no Polo e o acompanhamento online, especialmente pelo WhatsApp. O Polo funciona como espaço físico de estudo, mas também como lugar de pertencimento. É nele que os estudantes resolvem listas de exercícios, acompanham aulas síncronas, revisam conteúdos, compartilham dúvidas e, em alguns momentos, encontram motivação para continuar no curso. Nos atendimentos presenciais, uma das estratégias que mais utilizo é o acompanhamento das listas de exercícios propostas pelos professores titulares das disciplinas. Procuro não oferecer a resposta pronta. Essa é uma escolha pedagógica intencional, embora nem sempre seja simples, porque muitos estudantes chegam esperando uma resolução direta, quase como uma confirmação do que devem copiar (TUTORA 2).
Outro aspecto importante para compreender o contexto do curso refere-se à existência de polos de apoio presencial. Embora a formação seja desenvolvida predominantemente na modalidade a distância, os polos constituem espaços importantes de referência para os estudantes, favorecendo a realização de atividades presenciais quando previstas, o acesso a recursos e o estabelecimento de vínculos com a instituição. A presença dos polos contribui para a constituição de uma estrutura que combina recursos virtuais e presenciais, ampliando as possibilidades de acompanhamento dos licenciandos.
Os relatos analisados evidenciaram que a permanência e a participação dos estudantes estão relacionadas a diferentes fatores, entre eles a disponibilidade para o atendimento, a qualidade da comunicação, o vínculo estabelecido com a tutoria, a organização dos estudos e a possibilidade de contar com espaços de interação e aprendizagem coletiva. O polo presencial mostrou-se, nesse contexto, como um espaço importante para a construção de rotinas, fortalecimento dos vínculos e redução da sensação de isolamento que pode acompanhar a experiência na EaD. Os momentos de estudo coletivo também favoreceram a troca de conhecimentos e a construção colaborativa da aprendizagem, reforçando a importância das interações sociais no processo educativo.
Minha mediação busca outro caminho. Leio o enunciado com eles, pergunto o que compreenderam, peço que identifiquem os dados do problema e tento conduzir o raciocínio por etapas. Quando necessário, retomo conceitos anteriores, reorganizo a explicação e proponho exemplos semelhantes. A intenção é que o estudante entenda o procedimento, justifique suas escolhas e ganhe autonomia para enfrentar outras situações. Em Matemática, esse processo é essencial, pois resolver uma questão não significa apenas chegar ao resultado, mas compreender o caminho percorrido (TUTORA 2).
O público atendido pelo curso apresenta características heterogêneas, reunindo estudantes com diferentes trajetórias escolares, profissionais e pessoais. Há estudantes que ingressam diretamente após a conclusão da Educação Básica e outros que retornam aos estudos depois de períodos afastados da educação formal. Também são encontradas diferentes experiências profissionais e níveis de familiaridade com tecnologias digitais. Essa diversidade constitui uma característica importante da experiência tutorial, uma vez que exige estratégias de acompanhamento que considerem as necessidades e condições específicas dos diferentes estudantes.
A maioria dos momentos em atendimento presencial no polo, outros via meet e até com vídeos explicativos feitos e enviados pelo whatsapp. Os recursos digitais que contribuíram para apoiar a aprendizagem foi o whatsapp, o google meet, vídeos do youtube e atividades extras (TUTORA 1)
O depoimento da Tutora 1 evidencia que a aprendizagem na Educação a Distância é favorecida quando diferentes recursos digitais são articulados de maneira intencional ao processo pedagógico. O WhatsApp, o Google Meet, os vídeos do YouTube e as atividades complementares não devem ser compreendidos apenas como ferramentas tecnológicas, mas como recursos de mediação e interação, capazes de ampliar as possibilidades de comunicação, acompanhamento e construção do conhecimento.
A Tutora 1 também relata que em alguns momentos precisou diversificar para que os alunos participassem mais e, até mesmo, fazer encontros presenciais em horários diversificados e não apenas no polo.
No período de reoferta do 5º semestre, uma forma que encontrei para unir os alunos foi marcando um “salchipão” em um sábado, para que pudéssemos estender até um horário confortável para todos os presentes. Então fizemos na casa de uma aluna e os demais foram chegando aos poucos de acordo com o horário que podiam. Iniciamos às 10h e fomos terminar pelas 18h, mas foram quase todas as pendências resolvidas. Foi pai fazendo chimarrão, esposa ajudando no churrasco, marido organizando a mesa, filho ajudando na entrega da sobremesa. E ainda no turno da tarde tivemos um bolinho com café preto, para dar mais um gás para os estudos. Tornando uma maratona de estudos mais agradável, divertida e não tão cansativa. (TUTORA 1)
Essa perspectiva pode ser relacionada a Vygotsky (2007), para quem a aprendizagem se desenvolve por meio das interações sociais e da mediação. Na EaD, as tecnologias digitais podem assumir justamente essa função mediadora, possibilitando que estudantes e tutores estabeleçam diálogos, compartilhem informações, esclareçam dúvidas e construam conhecimentos de forma colaborativa. O WhatsApp, por exemplo, pode favorecer uma comunicação mais rápida e próxima, enquanto o Google Meet possibilita momentos síncronos de interação, nos quais dúvidas podem ser discutidas coletivamente e conceitos podem ser retomados de forma dialogada.
A utilização de vídeos do YouTube também amplia as possibilidades de acesso aos conteúdos, permitindo que o estudante retome explicações, revise conceitos e organize seus estudos de acordo com seu próprio ritmo. Essa característica dialoga com a perspectiva de Moran (2015) sobre a integração das tecnologias digitais aos processos educativos. Para o autor, as tecnologias podem ampliar as formas de ensinar e aprender, desde que utilizadas de maneira articulada a propostas pedagógicas significativas, e não apenas como recursos tecnológicos isolados.
Entre os recursos digitais utilizados no Polo, destaco o projetor e o GeoGebra. O projetor auxilia na visualização coletiva dos materiais disponíveis na plataforma, como slides, listas de exercícios, videoaulas e orientações das disciplinas. Esse recurso organiza o estudo em grupo e permite que todos acompanhem a explicação de maneira mais integrada (TUTORA 2)
A experiência relatada pela Tutora 2 também permite compreender que o papel da tutoria ultrapassa o simples domínio técnico das ferramentas. Essa compreensão aproxima-se também de Belloni (2008), ao destacar que a Educação a Distância demanda novas formas de interação e comunicação entre os sujeitos do processo educativo. Nesse contexto, os recursos tecnológicos podem contribuir para reduzir a distância entre estudantes, tutores e professores, desde que estejam inseridos em uma proposta pedagógica que valorize a interação, o acompanhamento e a autonomia do estudante.
Dessa forma, o relato da Tutora 2 evidencia que a diversidade de recursos digitais pode favorecer uma tutoria mais dinâmica, acessível e próxima dos estudantes, especialmente quando esses recursos são utilizados de maneira complementar. Mais do que disponibilizar diferentes tecnologias, a experiência demonstra a importância de selecionar e utilizar cada ferramenta de acordo com sua finalidade pedagógica, fortalecendo a mediação tutorial e criando diferentes oportunidades para que o estudante interaja, revise, pratique e construa conhecimentos.
Assim, os recursos digitais também se mostraram importantes para a mediação da aprendizagem. WhatsApp, Google Meet, vídeos do YouTube, ambiente virtual de aprendizagem e atividades complementares ampliaram as possibilidades de comunicação, orientação e retomada dos conteúdos. Entretanto, a experiência evidenciou que a utilização das tecnologias precisa estar vinculada a uma intencionalidade pedagógica. Mais importante do que a quantidade de ferramentas utilizadas é a maneira como elas são incorporadas às estratégias de acompanhamento e aprendizagem. A tecnologia, nesse sentido, constitui meio para favorecer a interação e a aprendizagem, mas não substitui a dimensão humana presente nas relações educativas.
A atuação da tutoria ocorre, portanto, em um contexto no qual diferentes sujeitos participam de maneira articulada da formação dos licenciandos. Professores, tutores, coordenação de curso, equipe pedagógica, profissionais dos polos e demais integrantes da estrutura institucional contribuem, em diferentes dimensões, para a construção das condições necessárias ao desenvolvimento acadêmico dos estudantes. A qualidade desse processo depende, entre outros fatores, da comunicação e da articulação entre esses sujeitos.
Com outros tutores, professores e coordenação, a articulação também acontece através do grupo de whatsapp da disciplina, mediando dúvidas dos alunos, dúvidas sobre a disciplina e organização do espaço virtual moodle. Foi bem proveitosa essa forma de organização desenvolvida pela coordenação (TUTORA 1).
O depoimento da Tutora 1 evidencia que a atuação tutorial se desenvolve de forma articulada e colaborativa com os professores titulares e a coordenação do curso, afastando-se de uma concepção de tutoria como atividade isolada ou meramente operacional. As reuniões realizadas antes, durante e após o desenvolvimento das disciplinas constituem espaços de planejamento, acompanhamento, avaliação e reflexão coletiva sobre o processo formativo. Nesse sentido, a experiência relatada demonstra que a qualidade da Educação a Distância depende da articulação entre os diferentes sujeitos que participam da ação pedagógica.
Nesse cenário, o tutor encontra-se em uma posição particularmente próxima dos estudantes. O contato frequente com as atividades, dúvidas, dificuldades e manifestações dos licenciandos permite acompanhar aspectos da trajetória acadêmica que podem não ser imediatamente identificados em outros espaços. O tutor pode perceber, por exemplo, quando determinado estudante reduz sua participação, deixa de realizar atividades, apresenta dificuldades recorrentes ou manifesta desmotivação. Essas informações podem subsidiar ações de orientação, encaminhamento e acompanhamento junto aos demais profissionais do curso.
A articulação com os professores titulares e com a coordenação é outro elemento essencial. Antes do início das disciplinas, participamos de reuniões online em que os docentes apresentam o planejamento, os objetivos, as atividades avaliativas e as orientações para o acompanhamento dos estudantes. Durante o andamento das disciplinas, mantemos contato para esclarecer dúvidas e alinhar encaminhamentos. Ao final, participamos de reuniões avaliativas, nas quais compartilhamos percepções sobre o desenvolvimento da disciplina, as dificuldades encontradas e as possibilidades de aprimoramento. Essas reuniões são importantes porque a tutoria não acontece de forma isolada. (TUTORA 2).
A fala da Tutora 2 apresenta ainda uma questão particularmente significativa ao afirmar que “aquilo que aparece de forma organizada no planejamento precisa ser ajustado diante das condições concretas dos estudantes”. Essa afirmação revela que o planejamento pedagógico, embora fundamental, não pode ser entendido como algo rígido e imutável. A realidade dos estudantes produz situações que demandam flexibilidade, reorganização e tomada de decisões. Nesse sentido, a tutoria ocupa uma posição privilegiada, pois mantém contato próximo com os estudantes e pode identificar dificuldades que nem sempre são imediatamente perceptíveis no planejamento inicial.
Essa capacidade de interpretar a realidade local aproxima-se da perspectiva de Freire (1996), para quem a prática educativa exige uma leitura crítica da realidade e uma disposição permanente para repensar a ação pedagógica. O conhecimento produzido a partir do contato cotidiano com os estudantes pode retornar à equipe docente e à coordenação, contribuindo para ajustes e aprimoramentos no desenvolvimento das disciplinas.
As reuniões avaliativas realizadas ao final das disciplinas assumem, portanto, uma função formativa. Ao compartilhar percepções sobre o desenvolvimento das atividades, dificuldades encontradas e possibilidades de melhoria, os tutores deixam de ocupar uma posição apenas executora e passam a contribuir com a avaliação e a reflexão sobre o próprio processo pedagógico. Essa participação possibilita que a experiência vivenciada durante a disciplina seja transformada em conhecimento para o planejamento de futuras ofertas.
Por fim, as reuniões de planejamento, acompanhamento e avaliação constituem espaços fundamentais para o alinhamento das ações e para a construção coletiva de estratégias pedagógicas. A experiência mostrou que a tutoria não acontece de maneira isolada, mas integra uma rede de profissionais que compartilham responsabilidades e conhecimentos sobre o processo formativo. A comunicação permanente entre esses sujeitos possibilita compreender melhor a realidade dos estudantes e realizar ajustes necessários entre o planejamento inicial e as situações concretas vivenciadas durante o desenvolvimento das disciplinas.
6. ACOLHIMENTO E ACOMPANHAMENTO
A relação estabelecida entre tutor e estudante também apresenta uma dimensão afetiva e relacional. Embora a tutoria esteja vinculada ao processo pedagógico, o acompanhamento cotidiano permite que o tutor perceba manifestações de insegurança, desmotivação, afastamento e dificuldades de organização dos estudos. Dessa maneira, o vínculo estabelecido pode contribuir para que o estudante desenvolva maior sentimento de pertencimento em relação ao curso e à instituição.
Essa dimensão é particularmente relevante quando se considera a permanência dos estudantes na Educação a Distância. A evasão é um fenômeno complexo e não pode ser explicada por uma única causa. Dificuldades financeiras, profissionais, familiares, tecnológicas, acadêmicas e relacionadas à organização do tempo podem interferir na trajetória dos estudantes. Nesse contexto, o acompanhamento tutorial pode possibilitar a identificação precoce de situações que indiquem afastamento ou desmotivação, permitindo a realização de ações de orientação e encaminhamento.
Assim, o tutor pode atuar como um importante observador da trajetória acadêmica dos estudantes. A ausência nas atividades, a diminuição da participação no ambiente virtual, o não cumprimento recorrente de prazos e a procura frequente por auxílio podem constituir indicadores de dificuldades que precisam ser consideradas pela equipe pedagógica. A atuação tutorial, nesse sentido, pode contribuir para a construção de estratégias de acompanhamento e para a busca de alternativas que favoreçam a permanência e o sucesso acadêmico.
Acredito que a permanência, a participação dos alunos está relacionada à disponibilidade de atendimento e a forma de interação com os estudantes. Foi desenvolvido um espaço entre tutora e alunos de forma que o vínculo trás segurança e mostra a realidade da profissão. Temos no polo uma turma de alunos que saíram do ensino médio a alguns anos atrás, então a partir da mediação tutorial foi percebido que eles relembraram vários conteúdos que não lembravam mais, principalmente o conteúdo de frações e de expressões algébricas. Também, em grupo, desenvolvemos uma forma de estudo e de troca de conhecimentos (TUTORA 1).
O relato da Tutora 1 evidencia que a disponibilidade para o atendimento e a qualidade da interação contribuem para a construção de vínculos, favorecendo a participação e a permanência dos estudantes. A mediação tutorial, ao proporcionar segurança e acolhimento, cria condições para que os licenciandos retomem conhecimentos prévios e avancem em suas aprendizagens. Essa perspectiva dialoga com Vygotsky (2007), ao destacar a importância da interação e da mediação no desenvolvimento e na aprendizagem. Também se aproxima de Freire (1996), para quem o diálogo e a relação de confiança são fundamentais à prática educativa. A experiência relatada demonstra ainda a relevância da aprendizagem colaborativa, evidenciada nos momentos de estudo e troca de conhecimentos entre os estudantes, fortalecendo a construção coletiva da aprendizagem.
Ao analisar a experiência, percebo que a tutoria funciona melhor quando consegue combinar acompanhamento acadêmico, acolhimento e intencionalidade pedagógica. Os estudantes que frequentam o Polo com maior regularidade demonstram mais segurança, organizam melhor seus estudos e participam de forma mais ativa das atividades. A presença física, mesmo em um curso EaD, ainda faz diferença. O Polo cria uma rotina. E, para muitos estudantes, a rotina é o que sustenta a permanência. Também observo que os momentos de estudo coletivo favorecem a aprendizagem. Quando um estudante expõe sua dúvida, muitas vezes ela é também a dúvida de outros. A explicação compartilhada, a resolução em grupo e a troca entre colegas ajudam a reduzir a sensação de isolamento comum na EaD. A aprendizagem deixa de ser apenas individual e passa a ser vivida em uma dimensão mais colaborativa (TUTORA 2).
O relato da Tutora 2 evidencia que a tutoria, quando articulada ao acolhimento e à intencionalidade pedagógica, contribui para fortalecer a participação, a organização dos estudos e a permanência dos estudantes. A experiência também destaca a importância do polo como espaço de convivência, criação de rotina e interação, reduzindo o sentimento de isolamento característico da EaD. Essa perspectiva dialoga com Vygotsky (2007), ao compreender a aprendizagem como processo social e mediado pelas interações com o outro. Também se aproxima de Belloni (2008), que ressalta a importância das interações e da organização do trabalho pedagógico na EaD. Assim, os momentos de estudo coletivo favorecem não apenas a aprendizagem dos conteúdos, mas também a construção de vínculos e do sentimento de pertencimento ao curso.
Em conjunto, os relatos das Tutoras 1 e 2 evidenciam que a tutoria desempenha um papel fundamental na aprendizagem e na permanência dos estudantes no curso de Licenciatura em Matemática EaD. As experiências destacam que o acompanhamento próximo, o acolhimento, a construção de vínculos e a organização de espaços de estudo coletivo favorecem a segurança, a participação e a retomada de conhecimentos, especialmente entre estudantes que apresentam diferentes trajetórias escolares. Nesse sentido, a tutoria ultrapassa a função de apoio acadêmico, constituindo-se como uma importante prática de mediação pedagógica e de fortalecimento do pertencimento, na qual a interação entre tutores e estudantes e entre os próprios estudantes contribui para transformar a experiência da EaD em um processo mais colaborativo, humanizado e significativo.
Orientar o estudante não significa fornecer respostas prontas para todas as questões, mas ajudá-lo a desenvolver estratégias para encontrar respostas, utilizar os materiais disponíveis, organizar os estudos e refletir sobre suas próprias dificuldades. A mediação tutorial pode, assim, favorecer uma autonomia progressiva, na qual o estudante passa a assumir maior responsabilidade por seu processo formativo.
A partir dessa perspectiva, torna-se possível superar a visão reducionista do tutor como aquele que apenas "tira dúvidas". Embora o esclarecimento de dúvidas seja uma das dimensões de seu trabalho, a atuação tutorial envolve acompanhamento pedagógico, comunicação, feedback, orientação, acolhimento, incentivo, mediação e articulação com os demais profissionais do curso. O tutor participa, portanto, da construção das condições necessárias para que o estudante aprenda, participe e permaneça no curso.
7. DIFICULDADES E DESAFIOS
No cotidiano do curso, algumas dificuldades relatadas pelos estudantes estão relacionadas à conciliação entre trabalho, família e estudos, à organização do tempo, à participação nas atividades síncronas e assíncronas, ao acompanhamento das diferentes disciplinas e, em alguns casos, às dificuldades de compreensão dos conteúdos matemáticos. Essas situações evidenciam que a permanência e o sucesso acadêmico não dependem exclusivamente do domínio dos conteúdos, mas também da capacidade de organizar a rotina de estudos e de utilizar os recursos e espaços de apoio disponibilizados pelo curso.
A própria natureza da formação em Matemática acrescenta desafios específicos ao percurso dos licenciandos. O curso exige contato sistemático com conceitos, procedimentos, demonstrações, resolução de problemas e diferentes formas de representação matemática. Para estudantes que conciliam a formação superior com outras atividades, manter uma rotina contínua de estudos pode constituir um desafio significativo. Nesse sentido, o acompanhamento tutorial pode contribuir para orientar a organização dos estudos, identificar dificuldades e estimular a busca de alternativas para a superação dos obstáculos encontrados.
O principal tópico de dificuldade durante a tutoria foi o uso das tecnologias para o estudo, principalmente mexer na plataforma moodle, acessar alguns elementos no celular, transformar em PDF arquivos e até mesmo como postar na plataforma. Mas é uma experiência única, pois ao mesmo tempo que é uma forma de docência, não é nada parecido com a docência (TUTORA 1).
O relato da Tutora 1 evidencia que a apropriação das tecnologias constitui um desafio importante para estudantes e tutores na EaD, especialmente no uso do Moodle, no acesso por dispositivos móveis e no envio de atividades. Essa realidade reforça que a inclusão digital não se limita ao acesso às tecnologias, mas envolve o desenvolvimento de competências para utilizá-las de forma autônoma e pedagógica. Belloni (2008) destaca que a EaD exige novas competências dos sujeitos envolvidos no processo educativo, enquanto Moran (2015) ressalta a necessidade de integrar as tecnologias às práticas pedagógicas de maneira significativa. A fala da tutora também revela a especificidade da função tutorial, que, embora possua uma dimensão docente, apresenta características próprias de mediação e acompanhamento, exigindo novas formas de atuação profissional.
No entanto, nem tudo funciona como planejado. A baixa participação de alguns estudantes é um dos maiores desafios. Há acadêmicos que não comparecem aos encontros presenciais, não interagem pelo WhatsApp e não respondem às tentativas de contato. Essa ausência produz uma sensação de limite no trabalho tutorial. Como tutora, muitas vezes percebo que há possibilidades de ajuda, mas elas dependem também de abertura por parte do estudante. Outro ponto crítico é a fragilidade na Matemática básica. Esse obstáculo aparece de forma recorrente e atravessa diferentes disciplinas. Em algumas situações, o estudante está matriculado em um componente curricular mais avançado, mas ainda apresenta dificuldades em operações, frações, equações simples ou leitura de gráficos. Isso exige do tutor uma postura de humildade e paciência. Não adianta apenas responsabilizar o estudante pela defasagem. É necessário criar caminhos possíveis para que ele avance (TUTORA 2).
O relato da Tutora 2 evidencia dois desafios recorrentes na EaD: a baixa participação dos estudantes e as lacunas em conhecimentos matemáticos básicos. Nesse contexto, a tutoria precisa articular acompanhamento, acolhimento e estratégias de recuperação, evitando uma perspectiva que responsabilize individualmente o estudante por suas dificuldades. Essa compreensão dialoga com Freire (1996), ao defender uma prática educativa pautada no diálogo, na escuta e no respeito aos saberes dos educandos, e com Vygotsky (2007), para quem a mediação e a interação social são fundamentais para a aprendizagem. Assim, o relato reforça que o tutor exerce papel importante na identificação das dificuldades e na criação de caminhos pedagógicos que possibilitem ao estudante avançar em sua formação.
Em conjunto, os relatos das Tutoras 1 e 2 evidenciam que os desafios da tutoria na Licenciatura em Matemática EaD ultrapassam as questões relacionadas ao domínio das tecnologias e dos conteúdos, envolvendo também participação, autonomia, vínculo e acompanhamento dos estudantes. As dificuldades com as ferramentas digitais, a baixa interação e as lacunas na Matemática básica exigem do tutor uma atuação paciente, flexível e acolhedora, pautada na mediação pedagógica. Nesse sentido, a tutoria constitui um importante espaço de apoio à aprendizagem, contribuindo para identificar dificuldades e construir estratégias que possibilitem aos estudantes superar obstáculos e avançar em sua formação. Como destacam Freire (1996) e Vygotsky (2007), o diálogo, a mediação e a interação são elementos fundamentais para a construção do conhecimento e para uma prática educativa comprometida com as possibilidades de aprendizagem de cada estudante.
A experiência revelou desafios significativos. Entre eles, destacam-se as dificuldades relacionadas ao uso das tecnologias, à utilização do ambiente virtual de aprendizagem, à baixa participação de alguns estudantes e às lacunas em conhecimentos matemáticos básicos. Tais situações demonstram que a atuação tutorial exige sensibilidade para compreender as diferentes trajetórias dos estudantes e flexibilidade para construir estratégias que respondam às suas necessidades. Nesse sentido, torna-se fundamental superar perspectivas que responsabilizem exclusivamente o estudante por suas dificuldades, reconhecendo que a aprendizagem é resultado de um processo que envolve condições pedagógicas, institucionais, tecnológicas e relacionais.
Acredito que o contato com adultos e principalmente com alunos que estavam sem estudar a um tempo, foi uma experiência muito importante para a minha formação. E também, a experiência de tutoria, acompanhar o aluno, auxiliar, ajudar na organização de estudo de um curso que é organizado de forma diferente, pois o curso é as disciplinas na sequência e não todas com o mesmo período e prazos. Muito importante, principalmente para um curso EAD, totalmente diferente do que os alunos estão acostumados, com um semestre inteiro para dar conta das demandas de todas as disciplinas (TUTORA 1).
O relato da Tutora 1 evidencia que a experiência tutorial também se constitui como espaço de aprendizagem e formação profissional, especialmente ao lidar com estudantes adultos e com diferentes trajetórias educacionais. O acompanhamento e a orientação para a organização dos estudos possibilitam ao tutor desenvolver conhecimentos relacionados à mediação, ao planejamento e às especificidades da Educação a Distância. Essa perspectiva dialoga com Tardif (2014), ao compreender os saberes profissionais como conhecimentos construídos e mobilizados na experiência cotidiana, e com Belloni (2008), que destaca as particularidades da organização pedagógica da EaD e a necessidade de novas formas de acompanhamento e autonomia. Assim, a experiência relatada demonstra que a tutoria constitui um processo formativo não apenas para o estudante, mas também para o próprio tutor, que aprende continuamente ao acompanhar diferentes sujeitos e situações educativas.
A experiência como tutora presencial do Curso de Matemática na EaD tem impactado diretamente minha identidade profissional. Ao acompanhar os estudantes, também revisito minha própria prática como professora. Cada dúvida, cada dificuldade e cada tentativa de explicação me fazem pensar sobre o modo como ensino, sobre os recursos que utilizo e sobre as concepções de aprendizagem que sustentam minhas escolhas. Aprendo, nesse processo, que ser tutora não é apenas estar disponível para ajudar. É construir presença pedagógica em um curso que, por sua natureza, pode produzir distanciamentos. Essa presença se manifesta no encontro presencial, na mensagem enviada, na escuta atenta, na pergunta que conduz o raciocínio, na retomada paciente de um conteúdo básico e na tentativa de motivar quem pensa em desistir. (TUTORA 2).
O relato da Tutora 2 evidencia que a experiência de tutoria contribui significativamente para a construção e a ressignificação da identidade profissional, ao possibilitar uma reflexão constante sobre a própria prática pedagógica. Essa perspectiva dialoga com Schön (2000), ao compreender o profissional como sujeito que aprende e transforma sua prática por meio da reflexão sobre as situações concretas vivenciadas. Também se aproxima de Tardif (2014), para quem os saberes profissionais são construídos e mobilizados no cotidiano do trabalho. A ideia de “presença pedagógica” expressa no relato reforça, ainda, que a tutoria não se limita à disponibilidade para auxiliar, mas envolve escuta, diálogo, mediação e acolhimento. Nesse sentido, a experiência tutorial constitui um espaço de formação permanente, no qual acompanhar a aprendizagem dos estudantes também significa revisitar, questionar e aprimorar a própria prática docente.
Também compreendo que a tutoria exige equilíbrio. É preciso acolher, mas também incentivar autonomia. É preciso orientar, mas não fazer pelo estudante. É preciso usar tecnologias, mas sem esquecer que a aprendizagem continua sendo uma relação humana. É preciso planejar, mas também aceitar que a prática sempre escapa um pouco do planejamento. Essa experiência reforça em mim a ideia de que a formação de professores de Matemática precisa ser vivida de forma concreta, reflexiva e situada. Os estudantes precisam aprender conteúdos, mas também precisam discutir práticas, conhecer recursos, enfrentar inseguranças e construir uma imagem possível de si mesmos como futuros docentes (TUTORA 2).
O relato da Tutora 2 evidencia a complexidade da atuação tutorial, que exige equilibrar acolhimento, orientação e estímulo à autonomia dos estudantes. Essa perspectiva dialoga com Freire (1996), ao defender uma prática educativa que favoreça a autonomia, o diálogo e a participação ativa do educando, e com Schön (2000), ao compreender a prática profissional como espaço de reflexão e aprendizagem diante de situações concretas. A afirmação de que a tecnologia não pode substituir a dimensão humana da aprendizagem também reforça que os recursos digitais devem estar subordinados às intencionalidades pedagógicas e às relações estabelecidas entre os sujeitos. No contexto da formação de professores de Matemática, o relato destaca ainda a importância de uma formação concreta, reflexiva e situada, na qual os licenciandos possam articular conhecimentos matemáticos, práticas pedagógicas e a construção de sua identidade profissional, perspectiva que se aproxima de Tardif (2014) ao compreender a formação docente como processo marcado pela articulação entre diferentes saberes e experiências.
No campo da formação docente, considero que as ações voltadas à prática pedagógica são uma das contribuições mais relevantes da experiência. Ao compartilhar minha vivência como professora da educação básica, percebo que os estudantes passam a olhar para os conteúdos de Matemática com outra perspectiva. Eles não pensam apenas em aprender para fazer uma prova ou concluir uma disciplina, mas começam a refletir sobre como poderão ensinar aquele conteúdo futuramente (TUTORA 2).
O relato da Tutora 2 evidencia a importância da articulação entre os conhecimentos matemáticos e os saberes relacionados à prática docente. Ao compartilhar experiências da Educação Básica, a tutora possibilita que os licenciandos ultrapassem uma perspectiva centrada apenas na aprendizagem de conteúdos e passem a refletir sobre como ensinar Matemática. Essa compreensão dialoga com Tardif (2014), ao destacar que a formação docente envolve a articulação de diferentes saberes, incluindo os saberes provenientes da experiência profissional, e com Pimenta (2012), que ressalta a importância dos saberes da experiência e dos conhecimentos pedagógicos na constituição da identidade docente. Assim, a experiência da tutora contribui para aproximar teoria e prática e favorece a construção de uma identidade profissional na qual o futuro professor se reconhece não apenas como aprendiz de Matemática, mas como sujeito responsável por ensinar e produzir aprendizagens matemáticas.
Por fim, a aproximação entre conteúdo e prática docente qualifica a formação, especialmente quando os estudantes têm a oportunidade de dialogar com experiências reais de sala de aula. Não se trata de apresentar modelos prontos, mas de abrir possibilidades. A prática do professor não é uma receita, e talvez seja justamente isso que os estudantes precisem perceber desde a formação inicial.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência apresentada neste artigo permitiu refletir sobre a importância da tutoria presencial no processo formativo de estudantes do curso de Licenciatura em Matemática na modalidade de Educação a Distância. Ao longo das experiências relatadas pelas tutoras, evidenciou-se que a tutoria ultrapassa a função de acompanhamento das atividades e esclarecimento de dúvidas, constituindo-se como uma prática de mediação pedagógica, acolhimento, orientação e construção de vínculos. Nesse sentido, o tutor assume uma posição estratégica na aproximação entre estudantes, professores, coordenação e instituição, contribuindo para que a distância física não se transforme em distanciamento pedagógico.
Diante das experiências analisadas, compreende-se que a tutoria presencial constitui uma dimensão significativa da formação na Licenciatura em Matemática EaD. Sua contribuição está relacionada não apenas ao acompanhamento acadêmico, mas também à construção de vínculos, ao acolhimento, à mediação das aprendizagens, à identificação de dificuldades, ao estímulo à permanência e à aproximação entre os conhecimentos estudados e a prática profissional. O tutor atua, assim, como mediador de diferentes relações que sustentam a trajetória acadêmica do estudante.
Por fim, este relato de experiência evidencia que estar presente na EaD não significa apenas ocupar fisicamente o espaço do polo, mas construir uma presença pedagógica capaz de escutar, orientar, estimular, desafiar e acolher. A experiência das tutoras demonstra que pequenas ações cotidianas — uma orientação, uma explicação retomada, uma atividade complementar, um encontro de estudos ou uma mensagem de incentivo — podem adquirir grande significado na trajetória dos estudantes. Assim, a tutoria se revela como uma prática essencialmente humana, que, articulada às tecnologias, ao trabalho docente e à gestão pedagógica, contribui para uma formação de professores de Matemática mais próxima, reflexiva, colaborativa e comprometida com a aprendizagem e a permanência dos estudantes.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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VYGOTSKY, Lev Semionovich. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
1 Especialista.
2 Mestre em Educação Matemática. Tutora Presencial Polo Balneário Pinhal. IFSul.
3 Doutora em Diversidade cultural e inclusão social. Docente. Coordenadora de curso. IFSul.