REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781717689
RESUMO
Este estudo propõe analisar a desigualdade social brasileira e a formação da pobreza a partir de uma perspectiva crítica que articula sociologia clássica, marxismo latino-americano e literatura brasileira. Parte-se da discussão sobre estratificação social, considerando os sistemas históricos de escravidão, castas, estamentos e classes, e das contribuições de Karl Marx e Max Weber. Paralelamente, dialoga-se com a produção literária de autores como José de Alencar, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Conceição Evaristo e outros, de modo a compreender como a literatura brasileira tem representado o que significa “ser e estar no Brasil” em contextos de desigualdade. A partir da análise crítica dessas obras, observa-se que a pobreza, a exclusão social e a construção da identidade nacional são fenômenos interligados. Conclui-se que compreender a condição brasileira exige articular dimensões históricas, econômicas, políticas e culturais, considerando a literatura como instrumento de crítica social e reflexão sobre a experiência nacional.
Palavras-chave: Estratificação social; Literatura brasileira; Pobreza; Crítica sociológica; Identidade nacional.
ABSTRACT
This study aims to analyze Brazilian social inequality and the origins of poverty from a critical perspective that integrates classical sociology, Latin American Marxism, and Brazilian literature. It begins with a discussion of social stratification, taking into account historical systems of slavery, castes, estates, and classes, as well as the contributions of Karl Marx and Max Weber. At the same time, it engages with the literary works of authors such as José de Alencar, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Conceição Evaristo, and others, in order to understand how Brazilian literature has represented what it means to “be and exist in Brazil” in contexts of inequality. Based on a critical analysis of these works, it is observed that poverty, social exclusion, and the construction of national identity are interconnected phenomena. It is concluded that understanding the Brazilian condition requires articulating historical, economic, political, and cultural dimensions, considering literature as an instrument of social critique and reflection on the national experience.
Keywords: Social stratification; Brazilian literature; Poverty; Sociological critique; National identity.
1. INTRODUÇÃO
A sociedade brasileira apresenta desigualdades profundas, fruto de um processo histórico marcado pela colonização, escravidão, concentração fundiária e integração subordinada à economia mundial. A formação da sociedade brasileira é um processo cujas cicatrizes, a desigualdade, a exclusão social e a hierarquização, não constituem anomalias do sistema, mas elementos estruturantes da sua própria constituição. A pobreza, longe de ser apenas carência material, manifesta-se como exclusão social, cultural e simbólica, refletida em múltiplas representações literárias. A literatura, nesse contexto, não apenas registra a realidade, mas atua como crítica social e instrumento de compreensão histórica.
A Carta de Pero Vaz de Caminha (1500) já sugeria as bases do imaginário brasileiro e das primeiras observações sobre relações sociais: “Não há gente melhor… parecem todos contentes, mas não têm bens nem riquezas.” (Caminha, 1500). Esse relato evidencia a diferença de percepção entre colonizadores e povos originários, iniciando o processo de estratificação simbólica e material que marcaria a história do Brasil. Compreender o "ser e estar no Brasil" exige, portanto, um exercício analítico que ultrapasse a observação estatística, alcançando a dimensão simbólica onde a subjetividade nacional é moldada.
Como observado por Darcy Ribeiro: “O povo brasileiro nasceu sob estruturas de desigualdade que continuam a moldar a sociedade contemporânea.” (Ribeiro, 1995, p. 33). Essa estratificação manifesta-se como uma exclusão multidimensional, atingindo esferas culturais e políticas que encontram na literatura o seu eco mais agudo. O presente estudo propõe dialogar com autores da sociologia e economia política, Marini, Santos, Dowbor, Ribeiro, Moura, Pericás, Bandeira, e com a literatura brasileira, para compreender como as desigualdades sociais e regionais, bem como a estratificação e a exclusão racial, são representadas, criticadas e problematizadas artisticamente.
2. ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL: UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA
A estratificação social no Brasil pode ser analisada a partir de quatro sistemas clássicos: escravidão, castas, estamentos e classes. A análise pressupõe o enfrentamento de sistemas que historicamente segmentaram a população, recorrendo à base conceitual de Max Weber sobre o poder. Segundo Weber: “A distribuição do poder na comunidade é determinada não apenas pela posição econômica, mas também pela honra social e pela influência política.” (Weber, 1999, p. 182).
A escravidão no Brasil não apenas estruturou a economia colonial, mas moldou hierarquias raciais e simbólicas que persistem como uma "pedagogia social". Clóvis Moura argumenta que: “O negro, ao deixar de ser escravo, não foi incorporado como cidadão pleno, mas como força de trabalho desqualificada e descartável.” (Moura, 2021, p. 112).
A literatura aborda essas marcas de maneiras distintas. Carolina Maria de Jesus, em Quarto de Despejo, registra o cotidiano da pobreza urbana: “As crianças comiam o que encontravam, ou não comiam. Isso me doía mais que a fome.” (Jesus, 1960, p. 17). Ao mesmo tempo, Euclides da Cunha, em Os Sertões, descreve a violência social e estrutural no sertão nordestino: “O sertanejo não é apenas vítima, é também produto de um meio que o oprime.” (Cunha, 1902, p. 154).
No Brasil colonial, houve hierarquias rígidas de cor e nascimento. A literatura de José de Alencar, em O Guarani, insere indígenas e mestiços em narrativas que, embora idealizadas, refletem um processo de classificação cultural. Já Machado de Assis, em suas obras, problematiza relações de prestígio e mobilidade social. No Brasil literário, a tríplice dimensão weberiana de prestígio, poder político e acesso econômico aparece nos conflitos de classe, nos privilégios herdados e na exclusão racial.
3. LITERATURA E CRÍTICA SOCIAL: REPRESENTAÇÕES DO SER E ESTAR NO BRASIL
A literatura brasileira cumpre um papel fundamental de crítica social ao registrar, questionar e, por vezes, subverter as estruturas de desigualdade. Ela não é um espelho passivo da realidade, mas um campo de batalha simbólico onde a identidade nacional é disputada.
Nesse sentido, diversos autores abordam a pobreza, a marginalidade e a identidade nacional sob prismas distintos, mas convergentes na denúncia da exclusão, a saber:
Monteiro Lobato: Em suas narrativas, ainda que muitas vezes sob o disfarce da literatura infantojuvenil, Lobato lança um olhar incisivo sobre o Jeca Tatu, problematizando não a "preguiça" do sertanejo, mas o seu estado de subnutrição e abandono pelas estruturas estatais educacionais e sanitárias.
Mário de Andrade: Em Macunaíma (1928), o "herói sem nenhum caráter" serve como uma alegoria da miscigenação e da inconstância cultural brasileira. A obra problematiza a desigualdade e a herança cultural, apresentando o anti-herói como síntese das contradições de um país que se tenta formar em meio à dependência cultural: “O herói que não tem nenhum caráter é, paradoxalmente, a síntese de todos os povos que compõem o Brasil.” (Andrade, 1928, p. 45).
Clarice Lispector: Em A Hora da Estrela (1977), Lispector registra a precariedade urbana através da personagem Macabéa. A autora articula introspecção psicológica com uma crítica social devastadora sobre a invisibilidade dos pobres na metrópole: “A pobreza não se mede apenas pelo que falta, mas pelo que ninguém vê.” (Lispector, 1977, p. 22).
Conceição Evaristo: Em Ponciá Vicêncio (2003), Evaristo evidencia as interseções de raça, gênero e classe. Ela demonstra como os efeitos da escravidão não foram dissipados, mas transmutados na marginalização das famílias negras contemporâneas: “As mulheres negras carregam os fios da história, costurando o que o sistema insiste em rasgar: dignidade e memória.” (Evaristo, 2003, p. 87).
Carlos Drummond de Andrade: A poesia de Drummond, especificamente em Alguma Poesia (1928), expõe os obstáculos que travam a existência plena no Brasil. O famoso verso: “No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / tinha uma pedra...” (Drummond, 1928, p. 15), transforma-se na metáfora definitiva para as barreiras físicas, políticas e sociais que impedem o fluxo da cidadania no país.
4. LITERATURA BRASILEIRA COMO CRÍTICA DA ESTRATIFICAÇÃO E DA DESIGUALDADE
A literatura brasileira desempenha um papel central na representação e crítica da desigualdade social. Ao narrar as experiências da margem, os autores antecipam debates sociológicos fundamentais.
A abolição da escravidão, sob a ótica de Clóvis Moura, foi um processo que manteve a lógica da subordinação. O autor pontua: “O processo de libertação formal não rompeu com a lógica da desigualdade. O negro continuou socialmente subordinado e economicamente marginalizado.” (Moura, 2021, p. 128).
Essa marginalidade é vivida intensamente na obra de Carolina Maria de Jesus. Em Quarto de Despejo (1960), a autora, ao descrever sua rotina na favela, documenta o desamparo de quem foi esquecido pelo "quarto de visita" (a sociedade elitizada). Sua escrita é direta, crua e incontestável: “Sentia fome o dia inteiro, mas tinha que trabalhar para sobreviver. O mundo me olhava, mas ninguém via minha dor.” (Jesus, 1960, p. 54).
Em Os Sertões (1902), Euclides da Cunha rompe com a dicotomia entre civilização e barbárie para demonstrar como o Estado brasileiro, através de sua negligência e violência repressiva, cria seus próprios inimigos internos. Ele afirma: “O sertanejo não é um ser isolado; é obra do chão, do clima, da exploração e da guerra que o rodeiam.” (Cunha, 1902, p. 191). Essa visão é essencial para entender que o "estar no Brasil" das populações sertanejas é uma forma de resistência constante à opressão geográfica e estatal.
A transição para a modernidade brasileira, marcada pela urbanização acelerada e pelas novas formas de estratificação, encontrou em Machado de Assis e Clarice Lispector os seus cronistas mais perspicazes. Machado, em sua vasta obra, com destaque para O Bruxo do Cosme Velho (1909) e Dom Casmurro, não apenas narra o cotidiano da elite carioca e das classes médias ascendentes, mas desarticula as convenções sociais que ocultam os mecanismos de exclusão. A obra machadiana antecipa, com notável lucidez, as análises weberianas sobre a estrutura do prestígio.
Machado compreendia que a estratificação no Brasil não dependia unicamente da posse de capital, mas da manipulação de aparências e da manutenção de uma aura de distinção. Como observou o autor em reflexão sobre a estrutura das relações humanas no Brasil: “A honra, embora mais frágil que a riqueza, sustenta-se em imagens e percepções sociais que definem o poder.” (Assis, 1909, p. 103). Essa "honra" machadiana é o equivalente ao status em Weber, funcionando como um filtro que autoriza ou nega o acesso ao poder político e econômico, perpetuando o ciclo de privilégios.
Por outro lado, Clarice Lispector, escrevendo décadas mais tarde, mergulha na face sombria desse processo de modernização: a invisibilidade absoluta da classe trabalhadora empobrecida. Em A Hora da Estrela (1977), a autora retira a máscara da nação desenvolvimentista para revelar a precariedade da existência de Macabéa, uma datilógrafa alagoana perdida nos meandros da metrópole. Clarice articula, com maestria, a introspecção psicológica com a denúncia política, transformando a invisibilidade em um objeto central de análise: “A pobreza não se mede apenas pelo que falta, mas pelo que ninguém vê.” (Lispector, 1977, p. 22).
5. A POBREZA NO BRASIL E A LITERATURA COMO TESTEMUNHO SOCIAL
A pobreza, no cenário brasileiro, não pode ser compreendida como um fenômeno isolado, mas como uma herança histórica e um produto estrutural da inserção subordinada do país no mercado global. A sociologia, ao buscar explicações para a persistência da desigualdade, encontra um aliado na literatura, que confere um rosto e uma história aos dados macroeconômicos.
Nesse sentido, a convergência entre o pensamento da Teoria da Dependência e a representação literária é fundamental. Rui Mauro Marini, um dos expoentes dessa corrente, argumenta que o subdesenvolvimento não é uma etapa anterior ao desenvolvimento, mas uma condição imposta pelo modo como o capital se organiza mundialmente. Marini afirma: “A pobreza não é contingente, mas estruturante; o subdesenvolvimento é produto da inserção subordinada no capitalismo mundial.” (Marini, 2017, p. 32). Essa estrutura é reforçada pelo mecanismo da financeirização, sobre o qual Ladislau Dowbor lança luz, demonstrando como o capital gera riqueza para uma ínfima parcela da população ao custo do endividamento e da exclusão da maioria: “O capital financeiro opera como pedágio sobre toda a economia, reforçando desigualdades sociais.” (Dowbor, 2017, p. 47).
A fome, elemento recorrente em Carolina Maria de Jesus e Clarice Lispector, transcende a carência nutricional para tornar-se o marcador final da desigualdade. A literatura documenta a falência da cidadania brasileira diante do básico. Como relata Carolina em sua crônica da exclusão: “Às vezes não havia nada para comer, e a fome doía mais do que o cansaço.” (Jesus, 1960, p. 102). O eco de Clarice complementa essa imagem de desamparo: “Macabéa andava entre a multidão e ninguém a via, ninguém sabia de sua fome.” (Lispector, 1977, p. 33). Essas passagens confirmam que a estratificação brasileira, além de econômica e regional, é profundamente sensível e simbólica, relegando uma vasta porção da população a um estado de "não-ser" social.
A geografia do Brasil é, em si, um mapa de suas desigualdades. A história da formação do território nacional revela que o desenvolvimento não foi homogêneo, mas concentrado e excludente, relegando certas regiões a um papel de fornecedoras de mão de obra e matérias-primas, enquanto o Sudeste consolidava o centro decisório do capital. Darcy Ribeiro, ao investigar as raízes profundas dessa configuração, oferece uma síntese precisa sobre a permanência dos arcaísmos em meio à modernização: “O Nordeste é a região onde a estrutura arcaica da sociedade brasileira se revela com maior nitidez.” (Ribeiro, 1995, p. 210).
Essa clareza analítica de Ribeiro encontra eco na literatura de Euclides da Cunha, cujo olhar sobre os sertões inaugura a possibilidade de enxergar o interior não como um vazio demográfico ou um atraso a ser superado, mas como o local onde as tensões do "ser brasileiro" se manifestam com maior urgência. As representações literárias que se seguem a Euclides, das periferias de Carolina Maria de Jesus às cidades violentas narradas por Rubem Fonseca, compõem um painel de um país onde a pobreza, a exclusão e a marginalidade não são fatos acidentais, mas constitutivos da organização social brasileira. O "estar no Brasil" das populações periféricas e sertanejas é, portanto, uma vivência marcada pela subordinação aos ciclos de concentração de poder que ignoram a periferia, exceto quando necessitam de sua exploração.
Para superar a espiral de desigualdades que a literatura tão bem documenta, é necessário um projeto de desenvolvimento que encare o Brasil como uma nação soberana, e não apenas como um apêndice do mercado financeiro global. Ladislau Dowbor, ao criticar o sistema financeiro contemporâneo, demonstra como a acumulação se desconectou da produção de valor real, resultando em um sistema que drena recursos das esferas produtivas para alimentar a especulação: “O sistema financeiro tornou-se um pedágio generalizado sobre a economia, apropriando-se de parcela crescente da riqueza social.” (Dowbor, 2017, p. 21).
Essa leitura é complementada pelo pensamento de Luiz Alberto Moniz Bandeira, que argumenta que o Brasil só alcançará a superação de sua condição estrutural de desigualdade se houver uma reorientação radical da sua estratégia de desenvolvimento. Para Bandeira, a soberania é o pré-requisito da justiça social; sem uma política econômica que priorize o mercado interno e a redistribuição, a dependência se perpetua, e a desigualdade se cristaliza: "O Brasil precisa de uma reorientação estratégica do desenvolvimento nacional, combinando política econômica, justiça social e redistribuição para superar as desigualdades estruturais" (Bandeira, 2021).
A literatura contemporânea, ao refletir essas transformações, abandona a perspectiva da denúncia isolada para abraçar a análise sistêmica. Autores como Conceição Evaristo e Paulo Leminski, cada qual em sua linguagem, captam as tensões de um sujeito brasileiro que tenta se situar em meio à financeirização, à violência urbana e à precariedade dos vínculos sociais. O "ser e estar no Brasil" torna-se, assim, um ato de resistência e um exercício de memória, onde a palavra literária resgata a dignidade dos excluídos diante de um sistema que os reduz a números ou a mão de obra descartável.
6. INTEGRAÇÃO CRÍTICO-LITERÁRIA: O "SER E ESTAR" NO BRASIL COMO SÍNTESE DE PODER E RESISTÊNCIA
A análise integrada da literatura e da sociologia revela que a condição brasileira de “ser e estar” é atravessada por uma complexa trama de relações de poder, exclusão, resistência e identidade. Os sistemas de estratificação, escravidão, castas, estamentos e classes, não apenas definiram posições materiais, mas moldaram profundamente o imaginário social e literário do país.
Assim, a integração das perspectivas teóricas e literárias permite afirmar que a desigualdade social brasileira é um fenômeno multifacetado é resultante da herança de escravidão, castas e estamentos, cujos efeitos perduram na estrutura social; a marginalização estrutural da população negra e das mulheres, que se entrelaça com a história da escravidão; a existência de uma pobreza material e simbólica, manifestada não apenas pela falta de renda e insegurança alimentar, mas pela invisibilidade social; desigualdade regional marcada pela concentração econômica no Sudeste e pela exclusão histórica de regiões como o Nordeste. A dependência econômica e financeirização fatores que limitam a autonomia política e a soberania nacional, como apontado por teóricos da dependência; e, a representação Literária, visto que a literatura atua como um espelho crítico e um instrumento de denúncia e reflexão sobre a experiência nacional.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise crítica conduzida ao longo deste estudo, articulando a sociologia clássica, a economia política e a produção literária brasileira, permite concluir que a pobreza e a desigualdade no Brasil não são acidentes de percurso ou resquícios de um passado que se apaga. Ao contrário, elas constituem a própria lógica estrutural que sustenta a estratificação social nacional, perpetuando-se através de sistemas de poder, heranças coloniais e a moderna financeirização que, como aponta Dowbor, drena a riqueza produtiva para a especulação.
A literatura, enquanto cronista e intérprete dessa realidade, desempenha um papel que transcende a estética: ela é o testemunho da falência das promessas de modernidade do Estado brasileiro. Ao dar voz a personagens como Macabéa, Ponciá Vicêncio ou ao próprio sertanejo de Euclides da Cunha, os autores não apenas documentam a marginalidade, mas questionam a validade de um projeto de país que sustenta sua existência sobre a invisibilidade e a fome de sua maioria. Como bem sublinhou Darcy Ribeiro, o povo brasileiro nasceu sob estruturas de desigualdade que continuam, ininterruptamente, a moldar a nossa sociedade.
Neste sentido, as considerações finais deste trabalho apontam para três eixos fundamentais de reflexão e ação, a saber: a literatura de autores como Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus funciona como um ato de resistência contra o apagamento histórico. Recuperar a memória da escravidão e da exclusão é o primeiro passo para o reconhecimento da dignidade do sujeito brasileiro que, por séculos, foi reduzido à condição de força de trabalho desqualificada ou descartável; a superação da pobreza requer, além de políticas públicas distributivas, uma reorientação estratégica do desenvolvimento nacional. Como demonstrado pelos teóricos da dependência e pelo pensamento de Bandeira, não haverá justiça social enquanto a economia brasileira permanecer subordinada aos imperativos de um capitalismo mundial que demanda o subdesenvolvimento periférico como base de sua sustentação; e, por fim, reafirma-se que a literatura brasileira não é um espelho passivo. Ela é um convite à reflexão e uma exigência de transformação. Ao articular a dimensão subjetiva, a dor, o medo e a esperança de quem vive na periferia, com a dimensão estrutural da sociologia, os autores citados nos oferecem as bases para a construção de uma nova identidade nacional, baseada não mais na exclusão, mas na cidadania plena e no acesso equitativo à riqueza, à cultura e aos direitos.
Conclui-se que o "ser e estar no Brasil" permanece, no presente momento, como um desafio inacabado. A tarefa que se impõe à academia, aos gestores públicos e aos cidadãos é converter essa crítica literária e sociológica em um projeto político de nação que reconheça a totalidade do povo brasileiro. A literatura, nesse horizonte, não é o fim, mas o ponto de partida para a invenção de um Brasil que, finalmente, consiga romper com as "pedras no meio do caminho" e alcançar a sua plena dignidade histórica.
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1 Pós-doutor em Ensino de Ciências e Humanidades pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Humanidades da Universidade Federal do Amazonas-PPGECH/UFAM; Doutor em Estudos Literários-PPGEL/UNEMAT. Diretor do Centro Cultural, Educacional e Tecnológico Para a Paz-FAPAZ, Professor Permanente do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Regional do Cariri-PPGL/URCA, Professor Associado (PRO BONO) da Logos University International-UniLogos e Professor EBTT Visitante do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado do Rio Grande do Norte-IFRN Campus São Paulo do Potengi. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas Práxis Transformadora em Educação-FAMEN/DGP-CNPq. Membro do Grupo de Pesquisa Brasil, Cabo Verde: Literatura, Educação e História-UERJ/DGP-CNPq. LATTES: https://lattes.cnpq.br/5717227670514288. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Mestra pelo Programa de Pós-graduação em Educação Escolar, Mestrado e Doutorado Profissional da Universidade Federal de Rondônia-PPGEEProf/UNIR. É integrante do Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Educação Ambiental do contexto amazônico UNIR. Professora da Secretaria de Educação do Estado de Rondônia-SEDUC e da Secretária Municipal de Educação de Porto Velho RO-SEMED. LATTES: http://lattes.cnpq.br/5294444894190508. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-3299-0561. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Pós-graduado em Gestão e Políticas Públicas - Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo-FESPSP; Direito Previdenciário - Universidade Gama Filho-UGF. Graduação em Direito - Universidade Federal de Rondônia-UNIR. Graduação em Economia - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro-UFRRJ. É Economista da Gerência Executiva do INSS de Porto Velho (RO). LATTES: https://lattes.cnpq.br/4017707818909959. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
4 Pós-Doutor em Educação pela Universidade Federal de Rondônia-UNIR; Doutor em Estudos Literários pela Universidade do Estado de Mato Grosso-UNEMAT; Professor do Magistério Superior atuando no Instituto Tecnológico Metropolitano, ITM, Colômbia. Membro do do Grupo de Estudos e Pesquisas Práxis Transformadora em Educação-FAMEN/DGP-CNPq. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0116-5918. LATTES: http://lattes.cnpq.br/9094524647914374. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
5 Doutorando em Gestão e Desenvolvimento da Educação Tecnológica pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza. Mestre em Letras (Letras Clássicas) pela Universidade de São Paulo, USP; Graduado em Letras/Libras e em Educação Especial, ambas formações pela Faculdade Campos Elíseos, FCE, Brasil e em Letras/Português pela Universidade de São Paulo, USP, Brasil. Atualmente é professor da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. LATTES: http://lattes.cnpq.br/1898304222205156. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-0544-5175. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.