REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793467778
RESUMO
Introdução: o divórcio parental é uma transição familiar frequente, mas suas repercussões não são uniformes nem se confundem com os efeitos do conflito interparental. Objetivo: sintetizar estudos publicados entre 2021 e 2026 sobre repercussões socioemocionais e fatores de risco e proteção em crianças de 6 a 12 anos que vivenciaram divórcio ou separação parental. Método: realizou-se revisão integrativa com relato orientado pelo PRISMA 2020. Segundo os registros de busca apresentados no manuscrito, foram identificadas 397 referências nas fontes PubMed e SciELO; após remoção de duplicatas e aplicação dos critérios de elegibilidade, seis estudos integraram a síntese. Os artigos foram comparados por desenho, amostra, medidas, resultados e limitações. Resultados: pesquisas do Brasil, Dinamarca, México, Namíbia e Estados Unidos descreveram resultados heterogêneos, incluindo confusão, dificuldades socioemocionais e mudanças nos vínculos, assim como autonomia, resiliência e adaptação satisfatória. Conflitos persistentes, comunicação insuficiente e instabilidade podem agravar dificuldades; vínculos responsivos, informação adequada, rotinas estáveis e apoio social podem favorecer a adaptação. Conclusão: o divórcio, isoladamente, não determina prejuízo psicológico. O contexto anterior e posterior à separação e a qualidade das relações são centrais para compreender as respostas infantis. A heterogeneidade dos estudos não permite inferências causais nem recomendações universais.
Palavras-chave: Divórcio; Criança; Desenvolvimento Infantil; Saúde Mental; Adaptação Psicológica.
ABSTRACT
Introduction: parental divorce is a common family transition, but its repercussions are neither uniform nor equivalent to those of interparental conflict. Objective: to synthesize studies published between 2021 and 2026 on socioemotional repercussions and risk and protective factors in children aged 6–12 exposed to parental divorce or separation. Method: an integrative review was conducted and reported with reference to PRISMA 2020. According to the search records reported in the original manuscript, 397 records were retrieved from PubMed and SciELO; after deduplication and eligibility assessment, six studies were included in the synthesis. Studies were compared in terms of design, sample, measures, findings, and limitations. Results: studies from Brazil, Denmark, Mexico, Namibia, and the United States reported heterogeneous outcomes, including confusion, socioemotional difficulties, and changes in family bonds, as well as autonomy, resilience, and satisfactory adaptation. Persistent conflict, insufficient communication, and instability may aggravate difficulties, whereas responsive relationships, age-appropriate information, stable routines, and social support may foster adjustment. Conclusion: parental divorce alone does not determine psychological impairment. Pre- and post-separation circumstances and relationship quality are central to understanding child responses. Study heterogeneity precludes causal inference and universal recommendations.
Keywords: Divorce; Child; Child Development; Mental Health; Psychological Adaptation.
1. INTRODUÇÃO
O divórcio parental deve ser compreendido como uma transição no ciclo de vida familiar, e não como um evento que, por si só, produza dano psicológico. No Brasil, foram registrados 428.301 divórcios em 2024. Em 52,5% deles havia apenas filhos menores de idade ou filhos menores e maiores, e, pela primeira vez, a guarda compartilhada correspondeu à maior proporção dos divórcios judiciais envolvendo filhos menores (44,6%) (IBGE, 2025). Esses dados dimensionam a relevância social do tema, mas não permitem concluir que todas as crianças expostas à dissolução conjugal apresentarão sofrimento clínico.
Divórcio, conflito interparental, abandono, violência e disputas de guarda são fenômenos relacionados, porém distintos. O divórcio designa a dissolução jurídica ou relacional do casal; o conflito interparental refere-se à hostilidade, à frequência, à intensidade e à forma de resolução das divergências; e situações de violência ou negligência exigem avaliação própria. A literatura indica que os ambientes familiares antes e depois da separação, mais do que o ato jurídico isolado, ajudam a explicar as trajetórias de adaptação infantil (Cao; Fine; Zhou, 2022). Assim, atribuir automaticamente sintomas ao divórcio incorre em simplificação causal e reforça uma narrativa patologizante.
A análise dos vínculos familiares permite compreender a importância da continuidade do cuidado durante transições familiares. A responsividade de pais e cuidadores, a previsibilidade das rotinas e a possibilidade de manter relações significativas são dimensões relevantes da adaptação infantil. No modelo de trajetórias discutido por Cao, Fine e Zhou (2022), o conflito antes e depois do divórcio, a coparentalidade e as relações entre pais e filhos ajudam a explicar respostas distintas, sem pressupor que a separação rompa necessariamente os vínculos afetivos. O estudo de Van Schalkwyk e Gentz (2023) reforça a contribuição das relações com os cuidadores e de outras redes sociais para a resiliência infantil.
A literatura recente destaca que o conflito interparental não é equivalente à separação conjugal: seu impacto depende da intensidade, da frequência, das formas de resolução e do ambiente familiar anterior e posterior ao divórcio. Cao, Fine e Zhou (2022) propõem trajetórias distintas de adaptação, mediadas por processos cognitivos e emocionais da criança, coparentalidade e relações parentais. Portanto, a interpretação das repercussões socioemocionais exige examinar os fatores contextuais, em vez de tomar o divórcio como explicação causal suficiente.
Apesar do volume de publicações sobre separação parental, revisões frequentemente agregam pré-escolares, escolares, adolescentes e adultos, ou combinam divórcio, conflito, alienação parental e ausência de um genitor. Essa heterogeneidade dificulta identificar o que se conhece especificamente sobre crianças de 6 a 12 anos, fase em que aumentam a compreensão das relações familiares, a autonomia, a centralidade da escola e a influência dos pares. Além disso, parte da produção recente concentra-se em arranjos de guarda ou em intervenções, sem sintetizar simultaneamente manifestações socioemocionais e fatores de risco e proteção. Uma atualização delimitada por idade, exposição e período, portanto, contribui para a prática psicológica e educacional e explicita lacunas da evidência.
1.1. Problema de Pesquisa e Pergunta PICo
A pergunta foi estruturada pela estratégia PICo: população (P) — crianças de 6 a 12 anos; fenômeno de interesse (I) — repercussões socioemocionais e fatores de risco e proteção; contexto (Co) — divórcio ou separação parental. Perguntou-se: quais repercussões socioemocionais e quais fatores de risco e proteção são descritos, entre 2021 e 2026, em crianças de 6 a 12 anos que vivenciaram o divórcio ou a separação dos pais?
2. OBJETIVOS
2.1. Objetivo Geral
Sintetizar as evidências publicadas entre 2021 e 2026 sobre repercussões socioemocionais e fatores de risco e proteção em crianças de 6 a 12 anos que vivenciaram o divórcio ou a separação parental.
2.2. Objetivos Específicos
caracterizar os estudos quanto ao país, desenho, amostra, faixa etária, instrumentos e qualidade metodológica;
identificar manifestações emocionais, comportamentais e relacionais descritas após a separação parental;
analisar fatores familiares, individuais, escolares e comunitários associados a maior risco ou proteção;
comparar convergências, divergências e limites da evidência entre subgrupos da faixa de 6 a 12 anos; e
derivar implicações prudentes para prevenção, acolhimento e encaminhamento profissional.
3. MÉTODO
3.1. Delineamento
Trata-se de revisão integrativa da literatura organizada em identificação da questão, definição das fontes de busca e critérios, seleção dos estudos, extração dos dados, avaliação crítica e síntese narrativa. O PRISMA 2020 foi empregado como referência de transparência para a apresentação do processo de seleção, não como instrumento de avaliação da qualidade metodológica (Page et al., 2021).
3.2. Fontes, Período e Estratégia de Busca
Segundo o registro metodológico fornecido pelas autoras, a busca foi realizada em 30 de agosto de 2026 na PubMed (plataforma que inclui registros da MEDLINE) e na SciELO. Foram considerados artigos publicados nos anos-calendário de 2021 a 2026, em português, inglês ou espanhol, até a data da busca. Esse intervalo não corresponde necessariamente a uma janela móvel exata de 60 meses. Não se exigiu o termo “apego”, para não excluir estudos pertinentes sobre saúde mental, adaptação, comportamento e relações familiares. As estratégias e as contagens transcritas no Quadro 1 devem ser auditadas a partir dos históricos de busca e dos arquivos exportados pelas autoras antes da submissão definitiva.
Quadro 1. Estratégias de busca reproduzíveis e registros recuperados
Fonte | Estratégia e filtros | n |
PubMed/MEDLINE | ((((divorce[title] OR divorced[title] OR "parental separation"[title] OR postdivorce[title] OR "post-divorce"[title]) AND (child*[tiab] OR schoolchild*[tiab])) OR ((divorce[tiab] OR divorced[tiab] OR "parental separation"[tiab] OR postdivorce[tiab] OR "post-divorce"[tiab]) AND (child*[title] OR schoolchild*[title]))) AND (adjustment[tiab] OR "mental health"[tiab] OR internalizing[tiab] OR externalizing[tiab] OR psychosocial[tiab] OR socioemotional[tiab] OR emotional[tiab] OR behavioral[tiab] OR behavioural[tiab])) AND ("2021/01/01"[dp] : "2026/08/30"[dp]) AND (english[lang] OR portuguese[lang] OR spanish[lang]) NOT (anesthesia[tiab] OR surgery[tiab] OR preoperative[tiab]) | 340 |
SciELO | (divórcio OR divorcio OR divorce OR "separação parental" OR "separación parental" OR "parental separation") AND (criança OR crianças OR niño OR niña OR niños OR niñas OR child OR children OR infância OR infancia OR childhood). Filtro: 2021–30/08/2026; idiomas português, inglês e espanhol. | 57 |
Fonte: informações metodológicas registradas pelas autoras para a busca datada de 30 ago. 2026. exigem conferência mediante histórico de busca e exportação de registros.
3.3. Critérios de Elegibilidade
Foram incluídos estudos empíricos originais, com texto completo recuperável, que: a) investigaram crianças entre 6 e 12 anos, ou apresentaram resultados separáveis para essa faixa; b) documentaram divórcio ou separação parental; c) avaliaram desfechos emocionais, comportamentais, relacionais, de adaptação, enfrentamento ou resiliência; e d) foram publicados no período e nos idiomas definidos. Estudos com amostras mistas foram aceitos somente quando a faixa de interesse era isolável.
Foram excluídos revisões, metanálises, protocolos, editoriais, ensaios teóricos, estudos exclusivamente jurídicos, pesquisas apenas com adultos sem desfecho infantil, trabalhos sobre conflito sem separação documentada, estudos de alienação parental sem avaliação socioemocional direta e amostras cuja idade ultrapassava os limites sem análise separável. Violência, negligência e abandono não foram tratados como equivalentes ao divórcio.
3.4. Seleção, Extração e Avaliação Crítica
Os registros foram organizados por título, autoria e DOI para identificação de duplicatas. A seleção foi descrita em duas etapas: avaliação de títulos e resumos e leitura dos textos completos potencialmente elegíveis, com reaplicação dos critérios de inclusão e exclusão. Os motivos de exclusão informados na etapa de texto completo foram agrupados por faixa etária, tipo de publicação, exposição investigada e ausência de desfechos pertinentes. Os formulários de triagem e a lista dos estudos excluídos nessa fase devem acompanhar os registros metodológicos das autoras para permitir a reprodutibilidade do procedimento.
A extração foi organizada em matriz com autoria, ano, país, delineamento, amostra, faixa etária, medidas, exposição, resultados e limitações. O Quadro 2 apresenta a síntese crítica dos estudos, e o Apêndice A reúne a matriz de conferência bibliográfica e dos principais dados extraídos, com links para as publicações originais. A apreciação metodológica tomou como referência os domínios do Mixed Methods Appraisal Tool (MMAT), versão 2018 (Hong et al., 2018), sem atribuição de escore global. Para sustentar formalmente uma avaliação item a item pelo MMAT, será necessário anexar as fichas de julgamento preenchidas pelas autoras; na ausência dessas fichas, as observações exibidas no Quadro 2 devem ser lidas como apreciação crítica descritiva, e não como escore validado.
3.5. Síntese e Aspectos Éticos
Em razão da heterogeneidade dos desenhos e desfechos, realizou-se síntese narrativa temática. Os achados foram comparados nas categorias: manifestações socioemocionais; fatores de risco; fatores de proteção; diferenças por idade e contexto; e implicações para a prática. Frequência de temas foi utilizada apenas como descrição da recorrência entre estudos, sem equivaler a tamanho de efeito.
A pesquisa utilizou exclusivamente textos científicos e informações públicas, sem recrutamento de participantes ou acesso a dados individuais identificáveis. Por essa natureza, não foi submetida ao sistema CEP/CONEP, em consonância com a Resolução CNS nº 510/2016, permanecendo aplicáveis eventuais exigências institucionais específicas (Brasil, 2016).
4. RESULTADOS
4.1. Seleção dos Estudos
Conforme o fluxo de seleção informado no manuscrito, foram identificados 397 registros: 340 na PubMed e 57 na SciELO. Após a remoção de duas entradas consideradas duplicadas, restaram 395 registros para triagem por títulos e resumos; 376 foram excluídos nessa etapa. Dos 19 textos completos avaliados, 13 foram excluídos: seis por faixa etária incompatível ou sem dados separáveis, quatro por natureza secundária ou não empírica, dois por exposição não correspondente a divórcio/separação parental e um por ausência de desfecho socioemocional. Assim, seis estudos compuseram a síntese.
Tabela 1. Etapas e quantitativos de seleção dos estudos (estrutura PRISMA 2020)
Etapa | Registros |
Identificação | PubMed/MEDLINE: 340 | SciELO: 57 | Total: 397 |
Deduplicação | Duplicatas/entradas espelhadas removidas: 2 | Registros únicos: 395 |
Triagem | Títulos e resumos avaliados: 395 | Excluídos: 376 |
Elegibilidade | Textos completos avaliados: 19 | Excluídos, com motivo: 13 |
Inclusão | Estudos incluídos na síntese integrativa: 6 |
Fonte: fluxo informado pelas autoras, estruturado com base em Page et al. (2021); contagens sujeitas à conferência dos registros de busca.
4.2. Características e Qualidade Metodológica
Os seis artigos incluídos foram publicados em 2021 (n = 4), 2023 (n = 1) e 2026 (n = 1), com dados do Brasil, Dinamarca, México, Namíbia e Estados Unidos. Identificaram-se dois estudos qualitativos, um estudo de casos múltiplos com metodologia Q e três estudos quantitativos longitudinais. As amostras variaram de uma participante a 39.661 crianças. Dois artigos dinamarqueses utilizaram a mesma coorte em momentos distintos, razão pela qual suas amostras não devem ser contadas como evidências totalmente independentes. A síntese dos dados verificáveis nas publicações originais consta do Apêndice A.
Quadro 2. Matriz de caracterização, achados e apreciação metodológica dos estudos incluídos
Estudo / país | Desenho e amostra | Exposição, medidas e foco | Principais achados | Apreciação crítica e limitações |
Campeol e Pereira (2021) | Qualitativo exploratório; n = 4; 6–11 anos; guarda compartilhada. | Desenho-Estória temático, entrevista semiestruturada e questionário sociodemográfico; vivências e relações familiares pós-divórcio. | As crianças relataram pouca informação sobre o divórcio e a guarda e menor acessibilidade paterna aos cuidados. A manutenção dos vínculos e a explicação clara emergiram como necessidades. | Objetivo, técnicas de escuta e interpretação são coerentes. Amostra pequena (n = 4), em contexto específico, limita a transferência dos achados. |
Hernández-Hernández e Trujano-Ruiz (2021) | Estudo de caso qualitativo; n = 1; menina de 9 anos. | Entrevista semiestruturada e análise categorial; significados e efeitos individuais e familiares da separação. | Foram descritas mudanças nos vínculos e na construção de explicações, mas também maior independência, melhora do autoconceito, rotinas familiares mais consistentes e momentos de bem-estar. | Estudo de caso permite detalhar experiências, mas é retrospectivo e não permite generalizar frequências ou relações causais. |
Hjern et al. (2021a) | Coorte longitudinal; n = 39.661; avaliação aos 7 anos. | Arranjos de residência após separação; SDQ materno; regressão com ajuste por relações familiares precoces, saúde mental parental e condições socioeconômicas. | Não houve diferença estatisticamente clara entre os arranjos pós-separação: guarda física conjunta OR 1,37; guarda exclusiva sem novo parceiro OR 1,33; com novo parceiro OR 1,55, tendo família nuclear como referência. | Amostra ampla, SDQ e controle de fatores anteriores à separação; possíveis perdas de seguimento, relato materno e confundimento residual. |
Hjern et al. (2021b) | Coorte longitudinal; n = 31.519; avaliação aos 11 anos. | Arranjos de residência; SDQ materno aos 7 e 11 anos; regressões ajustadas. | Aos 11 anos, 8,9% das crianças em família nuclear e 11,7% em guarda conjunta apresentaram SDQ elevado. Em relação à família nuclear, OR ajustada foi 1,25 na guarda conjunta, 1,63 na exclusiva com novo parceiro e 1,72 na exclusiva sem novo parceiro. Diferenças entre modalidades foram pequenas após ajuste. | Desenho longitudinal e covariáveis prévias; perdas de seguimento, relato materno e sobreposição com a coorte do estudo anterior. |
Van Schalkwyk e Gentz (2023) | Estudo de casos múltiplos com Q-methodology; triagem n = 24, subamostra n = 12; 9–12 anos. | CYRM-12 e ordenação Q com material visual; perfis de resiliência após divórcio. | Quatro perfis protetivos: relação de qualidade com os pais (33%), resolução efetiva do conflito parental (33%), vínculo escolar (17%) e vínculo comunitário (17%). Ambiente familiar estável e contato frequente com o pai não residente foram valorizados. | Metodologia Q apropriada à identificação de perspectivas. Subamostra intencional de crianças com alta resiliência limita generalização. |
O’Hara et al. (2026) | Longitudinal; n = 240; 9–12 anos na linha de base; cinco tempos de avaliação. | Perfis de estratégias de enfrentamento e problemas de saúde mental; modelagem de equações estruturais. | O padrão relativo de estratégias de enfrentamento predisse os problemas de saúde mental de modo mais forte que a frequência global de enfrentamento. O resultado apoia intervenções ajustadas ao perfil de coping. | Análise longitudinal de padrões de enfrentamento. Amostra de famílias recentemente divorciadas, predominantemente brancas; parte do seguimento ocorreu em idades posteriores à faixa inicial. |
Fonte: elaboração das autoras com base nos seis artigos originais; dados essenciais e DOI sistematizados no Apêndice A. SDQ = Strengths and Difficulties Questionnaire; OR = odds ratio; CYRM-12 = Child and Youth Resilience Measure; coping = estratégias de enfrentamento. A coluna de apreciação crítica não constitui pontuação formal do MMAT.
4.3. Síntese Temática das Repercussões Socioemocionais
A evidência não sustentou uma trajetória única. Nos estudos quantitativos dinamarqueses, crianças com pais separados apresentaram, em média, maior probabilidade de dificuldades no SDQ do que as que permaneciam em família nuclear, mas as diferenças diminuíram após o controle de características anteriores à separação. Aos 7 anos, os arranjos de residência pouco distinguiram a saúde mental; aos 11 anos, a guarda física conjunta mostrou resultado ligeiramente mais favorável que a guarda exclusiva, embora com magnitude pequena (Hjern et al., 2021a; 2021b). Esses resultados sugerem associação, não causalidade, e não autorizam prescrever um regime de guarda de forma universal.
Os estudos qualitativos ampliaram o significado dos desfechos. Falta de informação, confusão, mudanças no contato e percepção de menor disponibilidade de um genitor apareceram como fontes de desconforto (Campeol; Pereira, 2021). Entretanto, uma criança também descreveu maior autonomia, melhora do autoconceito e reorganização familiar percebida como mais consistente (Hernández-Hernández; Trujano-Ruiz, 2021). A divergência é substantiva: a separação pode coexistir com sofrimento, alívio de conflitos ou experiências de crescimento, dependendo do contexto e da perspectiva da criança.
No estudo de O’Hara et al. (2026), a configuração das estratégias de enfrentamento foi mais informativa que sua frequência total. Isso indica que classificar crianças apenas como tendo “muito” ou “pouco” coping pode ocultar combinações funcionais ou disfuncionais. A evidência não permite definir um perfil ideal único, mas favorece avaliação contextualizada de estratégias de resolução de problemas, busca de apoio, regulação emocional e esquiva.
4.4. Fatores de Risco e de Proteção
A matriz temática identificou quatro núcleos recorrentes. Primeiro, conflito interparental persistente e resolução hostil aumentaram a insegurança e dificultaram a adaptação; resolução cooperativa foi explicitamente valorizada por crianças resilientes. Segundo, qualidade e continuidade das relações parentais — mais do que mera quantidade de contato — foram centrais. Terceiro, informação compatível com a idade e previsibilidade de rotinas reduziram confusão e interpretações de abandono. Quarto, escola, pares, família extensa e comunidade ampliaram as fontes de apoio, especialmente quando o núcleo familiar estava em reorganização.
Quadro 3. Síntese dos fatores de risco e proteção identificados
Dimensão | Fatores de risco | Fatores de proteção |
Relações parentais | Hostilidade persistente; triangulação; menor disponibilidade; ruptura abrupta de contato; conflitos de lealdade. | Responsividade; vínculo preservado com ambos os pais quando seguro; fronteiras claras entre conjugalidade e parentalidade. |
Comunicação e rotina | Informação insuficiente ou contraditória; mudanças imprevisíveis de casa, escola e horários. | Explicação adequada à idade; reafirmação de cuidado; rotinas estáveis; participação da criança sem fazê-la decidir entre os pais. |
Características e coping | Estratégias rígidas ou desajustadas; medo de abandono; dificuldade de nomear emoções. | Repertório flexível de enfrentamento; resolução de problemas; busca de apoio; autoconceito e senso de agência. |
Contexto social | Estigma, isolamento, perda de rede e vulnerabilidade socioeconômica. | Apoio de escola, pares, família extensa e comunidade; acesso a orientação e cuidado psicológico quando necessário. |
Fonte: elaboração das autoras com base nos estudos incluídos e na discussão teórica de Cao, Fine e Zhou (2022).
4.5. Idade e Contexto
Não foi possível estabelecer um gradiente confiável entre 6–8, 9–10 e 11–12 anos. Para 6–8 anos, um grande estudo aos 7 anos encontrou influência mínima do arranjo residencial após ajuste, enquanto o estudo brasileiro apontou necessidade de informação clara e cuidado contínuo. Entre 9–10 anos, estudos de caso e de enfrentamento evidenciaram construção ativa de significados, medo, autonomia e diferentes estratégias de coping. Entre 11–12 anos, foram observadas diferenças pequenas de saúde mental entre arranjos de residência e forte relevância das relações parentais, da resolução do conflito, da escola e da comunidade. A escassez de amostras estratificadas impede afirmar que uma idade seja necessariamente mais vulnerável.
Os contextos também variaram: grandes coortes escandinavas com proteção social ampla, amostras urbanas latino-americanas pequenas, crianças resilientes na Namíbia e uma coorte norte-americana majoritariamente branca. A transferência direta de estimativas entre esses cenários deve ser evitada. Recursos econômicos, normas de guarda, acesso a serviços e redes comunitárias podem alterar tanto a exposição quanto as possibilidades de adaptação.
5. DISCUSSÃO
A revisão respondeu à pergunta ao mostrar que as repercussões socioemocionais do divórcio parental em crianças de 6 a 12 anos variam entre dificuldades internalizantes e externalizantes, medo, tristeza, confusão e mudanças relacionais, de um lado, e adaptação satisfatória, alívio, autonomia e crescimento, de outro. O ponto de convergência não é um “efeito do divórcio” universal, mas a importância da qualidade das relações e das condições que cercam a transição.
Os achados são compatíveis com uma abordagem relacional das transições familiares, sem transformar o divórcio em diagnóstico. Quando a criança dispõe de cuidadores previsíveis e responsivos, a continuidade dos vínculos pode ser preservada mesmo em residências diferentes. Quando predominam indisponibilidade parental, comunicação ambígua ou envolvimento da criança em conflitos, o ambiente pode tornar-se menos protetivo. A dissolução conjugal pode diminuir o contato com conflitos intensos em algumas famílias ou manter sua exposição em outras (Cao; Fine; Zhou, 2022).
A aparente vantagem da guarda física conjunta aos 11 anos deve ser interpretada com cautela. Famílias que adotam esse arranjo podem diferir previamente em renda, escolaridade, saúde mental e cooperação. Hjern et al. (2021b) ajustaram vários desses fatores e encontraram diferenças pequenas; aos 7 anos, não houve distinção clara entre modalidades (Hjern et al., 2021a). Portanto, o melhor interesse da criança requer avaliação de segurança, qualidade parental, distância, rotina, capacidade de cooperação e preferência infantil compatível com a maturidade — não uma regra automática baseada apenas no rótulo jurídico.
A síntese dialoga com Cao, Fine e Zhou (2022), que descrevem o papel do conflito antes e depois da separação, das relações entre pais e filhos e da coparentalidade nas trajetórias de adaptação infantil. O estudo namibiano de Van Schalkwyk e Gentz (2023) acrescenta uma dimensão ecológica: escola, pares, família extensa e comunidade podem sustentar a resiliência fora do núcleo parental. Essa contribuição merece atenção em contextos com acesso limitado a serviços especializados.
Quanto às intervenções, uma metanálise de 30 estudos encontrou benefícios específicos para adaptação ao divórcio e autoestima, mas não efeitos gerais consistentes sobre saúde mental (Herrero et al., 2023). Esse resultado recomenda metas delimitadas, instrumentos válidos e acompanhamento, em vez de promessas de prevenção total. A intervenção deve responder ao risco observado: psicoeducação e apoio breve podem ser suficientes para algumas famílias; conflito intenso, violência, sintomas persistentes ou prejuízo funcional exigem avaliação individual e proteção especializada.
6. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA
As recomendações a seguir são inferências das revisoras apoiadas na síntese, e não prescrições testadas de maneira uniforme nos seis estudos:
explicar a separação em linguagem compatível com a idade, reafirmando que a criança não é culpada e que o vínculo parental permanece quando isso for seguro;
evitar utilizar a criança como mensageira, informante do outro genitor, árbitra do conflito ou responsável pela escolha entre os pais;
preservar rotinas, escola, relações significativas e formas previsíveis de contato, reduzindo mudanças simultâneas desnecessárias;
avaliar a qualidade das relações, a intensidade do conflito, a segurança, os recursos econômicos, a rede de apoio e o funcionamento da criança, sem presumir dano pela estrutura familiar;
fortalecer estratégias flexíveis de enfrentamento, nomeação de emoções, resolução de problemas e busca de apoio; e
encaminhar para cuidado psicológico ou serviços de proteção quando houver sintomas persistentes, prejuízo acadêmico/social, violência, negligência, risco de autoagressão ou conflito crônico de alta intensidade.
7. LIMITAÇÕES DA REVISÃO
A revisão consultou apenas PubMed e SciELO; outras bases podem conter pesquisas pertinentes. O corpus foi pequeno e heterogêneo, com dois artigos da mesma coorte dinamarquesa, estudos qualitativos com amostras reduzidas e poucos dados brasileiros. Trabalhos sobre faixas etárias mistas foram excluídos quando os resultados das crianças de 6 a 12 anos não podiam ser separados. Além disso, a documentação disponível não permite auditar independentemente as contagens da busca, a deduplicação, a lista de exclusões em texto completo nem os julgamentos item a item do MMAT. O recorte por anos-calendário de 2021 a 2026 também não equivale estritamente aos 60 meses anteriores à busca. Essas questões devem ser explicitadas e, sempre que possível, sanadas antes da submissão. Por fim, predominaram desenhos observacionais, que não sustentam atribuições de causalidade ao divórcio ou aos regimes de guarda.
8. CONCLUSÃO
As evidências recentes indicam que o divórcio parental não produz, de forma necessária ou homogênea, prejuízo psicológico em crianças de 6 a 12 anos. Podem ocorrer tristeza, medo, confusão, sintomas internalizantes e externalizantes e mudanças nos vínculos, mas também alívio de conflitos, reorganização familiar, autonomia e adaptação positiva. A intensidade e a direção dessas respostas dependem especialmente do conflito antes e depois da separação, da disponibilidade dos cuidadores, da comunicação, da estabilidade cotidiana, das estratégias de enfrentamento e das redes de apoio.
Em síntese, a separação conjugal isoladamente oferece explicação limitada para a diversidade das respostas infantis. A qualidade das relações, a intensidade do conflito, a estabilidade do cuidado e o apoio social são elementos essenciais à interpretação dos resultados. Profissionais devem evitar diagnósticos baseados exclusivamente na estrutura familiar, acolher a perspectiva infantil e concentrar a atuação em segurança, vínculos e fatores potencialmente modificáveis. Estudos futuros devem ampliar a participação de amostras brasileiras, distinguir faixas etárias, combinar diferentes informantes e registrar características anteriores e posteriores à separação. Os achados desta revisão devem ser interpretados à luz das limitações metodológicas e documentais apontadas.
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HJERN, Anders; URHOJ, Stine Kjaer; FRANSSON, Emma; BERGSTRÖM, Malin. Mental health in schoolchildren in joint physical custody: a longitudinal study. Children, v. 8, n. 6, art. 473, 2021b. DOI: https://doi.org/10.3390/children8060473.
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INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estatísticas do Registro Civil 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/031ad256f70356ed66b25e4ff01767cc.pdf. Acesso em: 30 ago. 2026.
O’HARA, Karey L.; WEST, Stephen G.; SANDLER, Irwin N.; RHODES, C. Aubrey; UHLMAN, Rana N.; WOLCHIK, Sharlene A. Children’s coping with family stressors: criterion profile analysis of patterns, levels, and mental health problems. Journal of Family Psychology, publicação antecipada on-line, 20 ago. 2026. DOI: https://doi.org/10.1037/fam0001487.
PAGE, Matthew J. et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ, v. 372, n. 71, 2021. DOI: https://doi.org/10.1136/bmj.n71.
VAN SCHALKWYK, Janine; GENTZ, Shelene. Factors affecting resilience in Namibian children exposed to parental divorce: a Q-methodology study. Frontiers in Psychology, v. 14, art. 1221697, 2023. DOI: https://doi.org/10.3389/fpsyg.2023.1221697.
APÊNDICE A — MATRIZ DE CONFERÊNCIA DOS ESTUDOS INCLUÍDOS
Esta matriz vincula os seis estudos às respectivas publicações originais e explicita as informações passíveis de conferência bibliográfica. Os dados numéricos e os resultados reproduzidos foram confrontados com resumos e/ou textos completos de suas editoras ou repositórios científicos. A matriz não substitui planilhas de triagem, arquivos de exportação da busca nem fichas individuais de aplicação do MMAT.
Campeol e Pereira (2021) — Brasil
Publicação / localização | Pensando Famílias, 25(2), 195–207 (2021). https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-494X2021000200014 |
Delineamento e participantes | Estudo qualitativo exploratório com quatro crianças de 6 a 11 anos em contexto de guarda compartilhada. |
Instrumentos / procedimento | Desenho-Estória com tema e entrevista semiestruturada com as crianças; questionário sociodemográfico com as mães; análise de conteúdo. |
Dados verificados / interpretação | Os participantes relataram insuficiência de informações sobre divórcio e guarda e menor acessibilidade paterna a cuidados cotidianos; as autoras destacam preservação de vínculos e comunicação. |
Limitação crítica | Amostra de quatro crianças, contexto específico e dados qualitativos; não permite estimar prevalências. |
Hernández-Hernández e Trujano-Ruiz (2021) — México
Publicação / DOI | Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Niñez y Juventud, 19(2), 1–23. https://doi.org/10.11600/rlcsnj.19.2.4684 |
Delineamento e participantes | Estudo de caso qualitativo de uma menina de nove anos. |
Instrumentos / procedimento | Entrevista semiestruturada; análise categorial dos relatos da criança. |
Dados verificados / interpretação | Mudanças em vínculos familiares, construção de explicações, maior independência, melhora do autoconceito, rotinas percebidas como consistentes e experiências de bem-estar. |
Limitação crítica | Caso único; a interpretação é contextual, não generalizável e sem estimativa de efeito. |
Hjern et al. (2021a) — Dinamarca
Publicação / DOI | Acta Paediatrica, 110(9), 2586–2593. https://doi.org/10.1111/apa.15916 |
Delineamento e participantes | Coorte nacional dinamarquesa; 39.661 crianças avaliadas aos sete anos. |
Instrumentos / procedimento | SDQ respondido pelas mães; regressão logística com ajuste para variáveis familiares, socioeconômicas e saúde mental parental anterior à separação. |
Dados verificados / interpretação | Razões de chances contra família nuclear: guarda física conjunta OR 1,37 (IC95% 1,10–1,70); exclusiva sem novo parceiro OR 1,33 (1,19–1,47); exclusiva com novo parceiro OR 1,55 (1,30–1,84). Não foram observadas diferenças estatisticamente claras ENTRE as modalidades após ajuste. |
Limitação crítica | A comparação com família nuclear não equivale à comparação entre modalidades. Relato materno, perdas e confundimento residual podem influenciar os achados. |
Hjern et al. (2021b) — Dinamarca
Publicação / DOI | Children, 8(6), artigo 473. https://doi.org/10.3390/children8060473 |
Delineamento e participantes | Coorte longitudinal com 31.519 crianças avaliadas aos 11 anos; parte da coorte do estudo Hjern et al. (2021a). |
Instrumentos / procedimento | SDQ respondido pelas mães; regressões com covariáveis familiares e socioeconômicas anteriores à separação. |
Dados verificados / interpretação | SDQ elevado: 8,9% na família nuclear; 11,7% na guarda física conjunta. OR ajustadas vs. família nuclear: guarda conjunta 1,25 (IC95% 1,09–1,44); exclusiva com novo parceiro 1,63 (1,42–1,86); exclusiva sem novo parceiro 1,72 (1,52–1,95). |
Limitação crítica | Amostra parcialmente sobreposta à de Hjern et al. (2021a); não somar as populações como independentes. Associação não indica causalidade. |
Van Schalkwyk e Gentz (2023) — Namíbia
Publicação / DOI | Frontiers in Psychology, 14, artigo 1221697. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2023.1221697 |
Delineamento e participantes | Estudo de casos múltiplos com metodologia Q; triagem de 24 crianças de 9 a 12 anos; subamostra intencional de 12 crianças com alta resiliência. |
Instrumentos / procedimento | CYRM-12 na triagem; metodologia Q com material visual; análise fatorial por pessoa. |
Dados verificados / interpretação | Quatro perfis: qualidade da relação entre pais e filhos (33%); resolução eficaz do conflito parental (33%); vínculo escolar (17%); vínculo comunitário (17%). |
Limitação crítica | A amostragem focaliza crianças altamente resilientes em Windhoek; os percentuais descrevem cargas fatoriais da subamostra, não prevalência populacional. |
O’Hara et al. (2026) — Estados Unidos
Publicação / DOI | Journal of Family Psychology, publicação eletrônica antecipada em 20 ago. 2026. https://doi.org/10.1037/fam0001487 |
Delineamento e participantes | Estudo longitudinal com 240 crianças de 9 a 12 anos no início, cujos pais haviam se divorciado recentemente; 88% identificadas como brancas; cinco tempos de acompanhamento. |
Instrumentos / procedimento | Avaliação de estratégias de enfrentamento e dificuldades em saúde mental; modelagem de equações estruturais e análise de perfis. |
Dados verificados / interpretação | O padrão relativo das estratégias de enfrentamento apresentou associação preditiva mais forte com dificuldades em saúde mental do que sua frequência geral. |
Limitação crítica | Amostra pouco diversa, contexto específico de divórcio recente e seguimento que inclui períodos posteriores à faixa etária inicial. |
1 Graduanda de Bacharelado em Psicologia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Graduanda de Bacharelado em Psicologia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Mestra em Ciências Humanas. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail