REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792023717
RESUMO
A pesquisa aborda o registro de sinais utilizados por indígenas surdos do povo Paiter Suruí, com foco na Língua de Sinais Paiter Suruí (LSPS) e em sua relação com a cultura, a identidade e a educação escolar indígena. O objetivo é compreender como os sinais próprios são constituídos e utilizados no cotidiano familiar, comunitário e escolar, destacando suas marcas culturais e sua importância para a inclusão de estudantes indígenas surdos. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, descritiva e bibliográfica, fundamentada em estudos sobre línguas de sinais indígenas, cultura surda, educação escolar indígena e documentação linguística. A análise considerou registros de sinais relacionados à fauna, à flora, aos objetos, às práticas culturais e às atividades cotidianas do povo Paiter Suruí, observando também os parâmetros linguísticos que constituem os sinais. Os resultados evidenciam que a LSPS apresenta sinais motivados pelas experiências e práticas culturais da comunidade, incorporando elementos da natureza, dos costumes, dos artefatos e das formas de organização social Paiter Suruí. Observou-se ainda a presença de configurações de mão, pontos de articulação, movimentos, orientações e expressões não manuais na constituição dos sinais. Conclui-se que o mapeamento e a documentação da LSPS contribuem para a valorização da identidade indígena surda, para a preservação do patrimônio linguístico e cultural e para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas, interculturais e contextualizadas.
Palavras-chave: Registro de sinais; Parâmetros das Línguas de Sinais; Educação intercultural; Língua de Sinais Indígena; Inclusão de indígenas surdos.
ABSTRACT
This study examines the sign language used by Deaf indigenous people of the Paiter Suruí community, focusing on the Paiter Suruí Sign Language (LSPS) and its relationship to culture, identity, and indigenous school education. The objective is to understand how these unique signs are constructed and used in daily family, community, and school life, highlighting their cultural characteristics and their importance for the inclusion of Deaf Indigenous students. The study is qualitative, descriptive, and bibliographic in nature, grounded in research on Indigenous sign languages, Deaf culture, Indigenous school education, and linguistic documentation. The analysis considered records of signs related to the fauna, flora, objects, cultural practices, and daily activities of the Paiter Suruí people, while also examining the linguistic parameters that constitute the signs. The results show that LSPS features signs motivated by the community’s cultural experiences and practices, incorporating elements of nature, customs, artifacts, and forms of social organization specific to the Paiter Suruí. The study also noted the presence of hand configurations, articulation points, movements, orientations, and non-manual expressions in the formation of signs. It is concluded that the mapping and documentation of LSPS contribute to the promotion of Deaf Indigenous identity, the preservation of linguistic and cultural heritage, and the development of inclusive, intercultural, and context-specific teaching practices.
Keywords: Sign repertoire; Sign language parameters; Intercultural education; Indigenous sign language; Inclusion of deaf indigenous people.
1. INTRODUÇÃO
Nas últimas duas décadas, os Estudos Surdos e a Linguística no Brasil têm avançado em sua compreensão da diversidade sociolinguística das línguas de sinais no país, apoiados pela Lei nº 10.436/2002 e pelo Decreto nº 5.626/2005. No entanto, investigações no campo da Etnolinguística indicam que as políticas públicas e as pesquisas acadêmicas ainda se concentram, predominantemente, nas comunidades surdas urbanas que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Os autores como Leite e Quadros, assim como Vilhalva, destacam que grupos sociais distantes dos grandes centros — especialmente os povos originários — possuem línguas de sinais locais que enfrentam um sério risco de extinção e supressão devido à falta de projetos sistemáticos de documentação e revitalização. A principal preocupação associada a essa questão é o avanço da Libras como um código único ou hegemônico nas aldeias, o que pode resultar em colonização linguística e no consequente apagamento dos repertórios nativos desenvolvidos dentro do ambiente familiar e comunitário indígena.
Focando no contexto da Amazônia rondoniense, encontramos o povo indígena Paiter Suruí, residente na Terra Indígena Sete de Setembro, situada na divisa entre os estados de Rondônia e Mato Grosso. Sua língua oral materna é o Paiter, pertencente à família linguística Tupi-Mondé. Nas aldeias, como Gapgir e Betel, e nas escolas indígenas regionais, vivem crianças e jovens surdos que interagem predominantemente através do canal visual. Diante da necessidade urgente de comunicação e da falta inicial de domínio da Libras, esses indivíduos desenvolveram, em colaboração com suas famílias e pares, um conjunto próprio de sinais gesto-visuais. Investigações pioneiras no território Paiter — como os trabalhos de Eler, Costa, Gregianini, Carvalho, Pegoraro e Surui — comprovaram que essas manifestações constituem uma língua autônoma e legítima, conhecida como Língua de Sinais Paiter Suruí (LSPS/SPS). A LSPS possui uma estrutura fonológica própria e incorpora ícones da fauna, flora, artesanato e cosmologia Paiter. Contudo, nas escolas da aldeia, persiste uma significativa incerteza pedagógica sobre como articular a LSPS, a língua Tupi-Mondé, a língua portuguesa e a Libras.
A problematização que fundamenta este estudo surge diretamente da vivência do pesquisador como educador e estudante na área da Pedagogia e da Educação Escolar Indígena. Ao vivenciar o cotidiano das salas de aula e as rotinas de ensino nas aldeias, observa-se a angústia de docentes ouvintes e indígenas face à falta de preparo metodológico e à carência de materiais didáticos adequados para alfabetizar e incluir o estudante indígena surdo de forma equitativa no contexto escolar. Assim, formula-se a seguinte questão-problema: De que maneira o mapeamento e registro da Língua de Sinais Paiter Suruí (LSPS) podem atuar como instrumentos de inovação pedagógica e descolonização do ensino, superando a imposição de códigos externos e orientando a prática docente para uma Educação Escolar Indígena verdadeiramente inclusiva, intercultural e trilíngue?
A delimitação deste problema centra-se na análise das funções pedagógicas e sociolinguísticas da LSPS no contexto escolar e familiar do povo Paiter Suruí. Sua relevância social é evidenciada pela necessidade urgente de fornecer subsídios para a formação inicial e continuada de pedagogos e educadores indígenas, oferecendo orientações práticas que evitem o isolamento comunicativo do aluno surdo na aldeia e promovam a salvaguarda do patrimônio linguístico da Amazônia. Portanto, este artigo tem como objetivo discutir a importância do mapeamento e registro da Língua de Sinais Paiter Suruí, destacando suas contribuições para a formação docente, a valorização da identidade indígena surda e o fortalecimento de metodologias visuais de ensino nas escolas da aldeia.
2. SURDEZ, CULTURA VISUAL E OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO TRILÍNGUE PAITER SURUÍ
2.1. Surdez Como Diferença Cultural
A compreensão da surdez evoluiu nas últimas décadas, passando de um modelo clínico focado na cura da audição para uma perspectiva socioantropológica dos Estudos Surdos. Nesse novo entendimento, a pessoa surda é vista como um sujeito político e cultural, em vez de um "corpo danificado", Eler (2017) afirma:
[...] a partir de 2002, a Lei Federal nº 10.436 contribuiu para a afirmação da identidade cultural do povo surdo sobre quem eles são. “Por meio dos Estudos Surdos, tem-se uma nova visão do conceito de surdez, não mais como deficiência, mas como grupo organizado cultural e linguísticamente. (Eler, 2017, p. 36).
A surdez é afirmada não como um déficit, mas como uma diferença cultural e de identidade surda que molda modos singulares de estar no mundo. Segundo os autores Eler (2017) e Suruí (2023), no contexto familiar, o diagnóstico inicial de surdez muitas vezes desencadeia um período de "luto" em relação à figura idealizada do filho, resultado do desconhecimento sobre as potencialidades da pessoa surda. No entanto, à medida que a família se conecta com a comunidade surda e as línguas de sinais, percebe-se que a ausência de audição não obstrui o desenvolvimento cognitivo, social e profissional do indivíduo. O sujeito surdo revela-se completo e plenamente capaz de exercer sua cidadania.
A educação bilíngue e inclusiva é essencial para valorizar as diferenças linguísticas e culturais dos surdos. Práticas que promovem a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua e o português como segunda permitem que alunos surdos desenvolvam seu potencial acadêmico e social. Ambientes inclusivos favorecem a aprendizagem e fortalecem a aceitação das identidades surdas. (Leão, 2026).
A evolução da compreensão da surdez, de uma abordagem clínica para uma perspectiva socioantropológica, é um avanço importante no reconhecimento das identidades surdas. Essa mudança promove o respeito às diferenças culturais e linguísticas, aproximando a sociedade de uma inclusão verdadeira, onde todos podem participar e contribuir de maneira única.
2.2. Cultura Visual Surda
A cultura visual representa a essência da identidade surda, uma vez que a percepção e a interpretação do mundo pelo indivíduo surdo ocorrem de maneira estritamente visual, não auditiva. Enquanto as línguas orais se organizam na modalidade oral-auditiva, a experiência surda se fundamenta na modalidade espaço-visual, onde mãos, movimentos corporais, espaço e expressões faciais formam todo o sistema de comunicação e pensamento. Segundo Eler (2017) ao abordar a criação dos sinais Paiter Suruí, diz:
[...] os traços culturais e a cultura visual que norteia o “jeito surdo de ser”. Não importando o lugar onde estão, se numa aldeia ou na zona rural ou nas cidades em que se tem uma organização em comunidades, os traços inerentes da visualidade estão presentes naturalmente em qualquer desses ambientes.(Eler, 2017, p. 31-32).
A percepção visual é o canal fundamental de acesso do estudante surdo à realidade e ao conhecimento conforme o autor surdo Pegoraro (2023, p. 29), ao abordar sua etnobiografia afirma que “[...] compreender o mundo e a diversidade cultural que nele reside, por meio da língua gesto visual, que me coloca no mundo com outra forma de ser e compreender as relações entre mim, o outro e o mundo.” (p. 29). O “jeito surdo de ser” se manifesta no cotidiano escolar e comunitário através da observação e captação de estímulos visuais, expressões não manuais e sensibilidade a vibrações, especialmente entre os surdos indígenas Paiter Suruí, cuja cultura visual é influenciada pela natureza e costumes da aldeia.
Desse modo, no ambiente escolar, é necessário desenvolver uma pedagogia visual, utilizando recursos claros como fotografias e vídeos. Isso ajuda os alunos surdos a aprenderem de forma autônoma, evitando um ensino apenas oral ou abstrato.
2.3. Língua de Sinais Paiter Suruí (LSPS) X Libras
A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida como a língua das comunidades surdas urbanas no Brasil, mas em comunidades indígenas e distantes, surgem particularidades. Estudantes indígenas surdos, ao interagirem com seus pares e a comunidade, desenvolvem sistemas de comunicação visual próprios, como a Língua de Sinais Paiter Suruí (LSPS). Carvalho (2023) diz:
[...] os grupos de falantes ou sinalizantes, conforme suas necessidades criam padrões de gestos próprios para objetos, sentimentos e ações do seu cotidiano. O seu aperfeiçoamento vai alcançar a complexidade existente em qualquer língua falada, contemplando todos os níveis linguísticos. (Carvalho, 2023, p. 24).
Há uma diferença essencial entre Libras e LSPS em suas matrizes socioculturais e léxicos. A Libras é baseada no contexto urbano, enquanto a LSPS está enraizada na cosmologia, observação da natureza e costumes do povo Paiter Suruí.A sinalização de termos locais como arara (kasar), porco (mêbe), peixe elétrico, cocar e a pesca do timbó traz descrições icônicas e comportamentais diretamente extraídas da vivência na floresta e nas rotinas da comunidade. (Pegoraro, 2023).
Um ponto crucial na Educação Escolar Indígena é o risco da colonização linguística. A introdução da Libras sem reconhecer a sinalização já utilizada por estudantes surdos indígenas pode levar ao apagamento da língua local em prol de uma língua majoritária. Leite e Quadros (2014) discutem essa questão.
Alternativamente, surdos e ouvintes usuários de língua de sinais nativas correm um risco real de ver a língua desaparecer, quando confrontados com a existência de uma língua de sinais nacional. Esse risco provém de uma visão de que aquilo que provém dos grandes centros é melhor do que aquilo que provém das pequenas comunidades [...] todas as variedades de línguas de sinais utilizadas no Brasil necessitam de um projeto de documentação e vitalização. (Leite; Quadros, 2014, p. 19).
Por essa razão, segundo (Pegoraro, 2023), os estudos no campo do Etnoconhecimento das Línguas de Sinais Indígenas (ETNOLIS) defendem a descolonização das práticas docentes, sugerindo que o educador não imponha a Libras como o único código, mas que reconheça e valorize o repertório nativo já existente na aldeia.
Pesquisas linguísticas demonstram que a LSPS não se limita a "sinais caseiros" ou mímicas simplificadas; trata-se de um sistema linguístico autônomo em pleno desenvolvimento. A LSPS apresenta a estrutura básica das línguas de sinais, incorporando os cinco parâmetros fonológicos universais: configuração de mãos, ponto de articulação, movimento, orientação e expressões não manuais. Carvalho (2023, p. 52), afirma: “Nesta análise identificamos que os sinais da LSPS apresentam os cinco parâmetros das línguas de sinais na sua composição.”
Nesse contexto, a literatura orienta a construção de um modelo de educação trilíngue e intercultural nas escolas indígenas, articulando a língua indígena oral materna (Tupi-Mondé), a língua de sinais indígena (LSPS) e a língua portuguesa escrita / Libras como línguas adicionais para o acesso ao conhecimento.
2.4. Educação Trilíngue
A garantia de uma educação escolar indígena inclusiva enfrenta desafios linguísticos nas aldeias. O Decreto nº 5.626/2005 estabelece um modelo bilíngue para a educação de surdos, priorizando a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua e a Língua Portuguesa como segunda. Contudo, essa diretriz não se alinha à realidade das escolas indígenas na Amazônia. (Carvalho, 2023).
Na Terra Indígena Sete de Setembro, o ambiente educacional e comunitário do povo Paiter Suruí é vibrante e enriquecido pela língua indígena materna do tronco Tupi-Mondé, conforme o autor indígena Suruí (2023, p. 10), afirma que “[...] a discussão sobre a língua indígena Paiter, reconhecendo-a como parte integrante do nosso patrimônio cultural.” Estudiosos indígenas defendem que a educação deve ir além do bilinguismo convencional, promovendo um modelo trilíngue e intercultural.
A autora Vilhalva (2012) observou que, nas aldeias indígenas, especialmente entre os surdos, pode haver três ou mais línguas em uso. A liderança se preocupa em definir qual será a língua materna devido à diversidade de línguas visuais.
Esse modelo trilíngue deve integrar três dimensões linguísticas essenciais para a formação do estudante indígena surdo.
Língua de Sinais Indígena (LSPS): Atua como a língua natural de modalidade espaço-visual criada e utilizada pelos estudantes surdos no cotidiano da aldeia e nas interações familiares. Os autores Gomes e Vilhalva (2022, p. 814) ao abordar as marcas culturais presentes nos sinais indígenas afirmam que “[...] os sinais naturais utilizados por surdos indígenas apresentam valores simbólicos fundamentais para o desenvolvimento cognitivo na aquisição das línguas de sinais indígenas.” Reconhecer a LSPS como língua de instrução é crucial para descolonizar práticas pedagógicas e evitar que a Libras urbana apague os sinais nativos da comunidade.
A língua Tupi-Mondé/Paiter é fundamental para a cultura e ancestralidade do povo Paiter Suruí. Seu registro escrito e sinalização garantem que alunos surdos permaneçam conectados às tradições, relatos dos anciãos e à vida comunitária.
A Língua Portuguesa escrita serve como uma ferramenta essencial para estudantes indígenas surdos, permitindo acesso a conhecimentos universais, diálogo com a sociedade não indígena e defesa de seus direitos fundamentais.
Reconhecer a LSPS como língua de instrução é essencial para descolonizar práticas pedagógicas e preservar sinais nativos.
A Língua Indígena Materna/Escrita (Tupi-Mondé / Paiter) é vital para a identidade cultural e social do povo Paiter Suruí, integrando alunos surdos às tradições e relatos comunitários.
A Língua Portuguesa escrita cumpre a função de uma língua instrumental e adicional, garantindo acesso a conhecimentos universais e diálogo com a sociedade não indígena, além de defender direitos fundamentais.
O desafio da escola indígena é integrar três códigos sem hierarquias. Para a educação trilíngue, é fundamental formar professores indígenas com foco em recursos visuais e metodologias interculturais, tornando a escola um espaço de reafirmação identitária, autonomia e cidadania para o indígena surdo.
3. METODOLOGIA
Quanto à sua natureza, este trabalho é classificado como uma pesquisa qualitativa, de caráter descritivo e bibliográfico. A abordagem descritiva visa detalhar e analisar as características da Língua de Sinais Paiter Suruí (LSPS) e sua importância para a educação inclusiva indígena, fundamentando-se na literatura acadêmica já existente sobre o tema.
O levantamento bibliográfico foi realizado com base em dissertações, teses, Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) e artigos científicos elaborados por pesquisadores indígenas e não indígenas nas áreas de Linguística e Educação. Entre as investigações destacam-se os estudos pioneiros de Eler (2017), Carvalho (2023) e Pegoraro (2023), além de registros bibliográficos e autobiográficos originados na própria comunidade Paiter Suruí, como o estudo de Ibobinha Surui (2023).
A fundamentação teórica baseou-se em Biembengut (2008), que define o mapeamento como a captação e interpretação da realidade investigada. Para discutir a importância da documentação e preservação das línguas de sinais ameaçadas de extinção, foram utilizados Leite e Quadros (2014) e contribuições de autores dos Estudos Surdos, como Strobel (2016) e Vilhalva (2012).
A análise dos dados foi reflexiva e categorizada, examinando registros de sinais da LSPS relacionados ao ambiente escolar, fauna e vida comunitária, identificando marcas culturais locais e parâmetros linguísticos da sinalização. As evidências bibliográficas foram ligadas aos desafios da prática pedagógica e formação de professores na Educação Escolar Indígena.
Em conformidade com a Instrução Normativa nº 001/2026-PROPESQ/UNIR, declara-se a utilização das ferramentas de Inteligência Artificial Generativa Manus e NotebookLM como suporte na elaboração da categorização temática e correções da língua portuguesa sem transferir a autoria do conteúdo científico, conforme Art. 3º da referida norma, permanecendo sob a responsabilidade exclusiva dos autores pela produção intelectual e pela integridade das informações (UNIR, 2026).
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES: O QUE OS SINAIS REVELAM
Registro dos sinais utilizados pelos indígenas surdos Paiter Suruí possibilita compreender que essas formas de comunicação estão relacionadas não somente à necessidade de estabelecer interação, mas também às experiências cotidianas, à cultura e à identidade da comunidade. Nesse sentido, os sinais podem apresentar elementos visuais relacionados a práticas, objetos, animais e costumes presentes no contexto sociocultural Paiter Suruí. Pesquisas anteriores realizadas com indígenas surdos Paiter Suruí também identificaram a existência de sinais próprios utilizados no ambiente familiar, comunitário e escolar, evidenciando a relação entre os sinais e o contexto cultural em que são produzidos.
Os resultados indicam que a formação dos sinais está ligada à experiência dos sujeitos. Certas formas sinalizadas refletem elementos conhecidos pelos participantes, semelhante ao que ocorre em línguas de sinais indígenas no Brasil, onde os sinais representam a cultura e identidade indígena, referenciando a natureza, objetos, adornos, práticas culturais e aspectos do cotidiano.
O mapeamento de línguas de sinais nativas em comunidades indígenas possibilita registrar a realidade vivida e atribuir sentido às práticas locais, resgatando aspectos socioculturais transmitidos entre gerações (Costa, 2017; Gregianini, 2017). Nos Sinais Paiter Suruí, a motivação lexical e a iconicidade não decorrem de convenções arbitrárias urbanas, mas sim da observação direta da natureza, da fauna, da flora, dos artesanatos e dos rituais cotidianos do povo Suruí (Eler, 2017; Carvalho, 2023).
Sinal de Papagaio (Kasar) e Arara: Na Língua Brasileira de Sinais (Libras), a representação de aves costuma ter como referência o formato do bico ou o movimento das asas (Carvalho, 2023). No contexto Paiter Suruí, enquanto o sinal de arara evoca a imagem de penas e cores, a criação do sinal para papagaio foi motivada diretamente pelo costume tradicional da aldeia de carregar o animal pousado no braço ou antebraço (Eler, 2017; Suruí et al., 2025). O sinalizador posiciona a mão sobre o braço oposto, refletindo um comportamento cultural vivido no território (Eler, 2017).
Sinal de Colorau / Urucum (Noah yo ah): Quando apresentados à imagem do fruto do urucum, os sujeitos surdos não limitaram sua sinalização ao conceito ocidental de tempero ou condimento culinário (Carvalho, 2023). A marca cultural predominantemente representada no sinal foi a preparação do fruto e o ato de aplicar a pintura corporal sobre a pele, prática indispensável esteticamente e ritualisticamente na tradição Paiter (Gregianini, 2017).
Sinal de Homem Paiter: A representação do homem Paiter é grafada no corpo e no espaço visual pela reprodução dos traços e grafismos da pintura corporal tradicional masculina (Eler, 2017).
Trabalho, Artesanato e Variação de Gênero: A divisão social do trabalho e a confecção de utensílios artesanais moldam ativamente o léxico visual (Gregianini, 2017). No sinal para coco, observa-se uma variação linguística associada ao gênero: as meninas sinalizam tomando como referência a confecção artesanal do anel de tucumã (movimento de lixar e polir a semente), ao passo que os meninos mimetizam o gesto corporal de subir no coqueiro para retirar o fruto da árvore (Gregianini, 2017).
Práticas Tradicionais e Utensílios: Sinais como os de milho assado, pesca do timbó, peneira (wãwa), cesto/balaio (mõre), colar e cocar mimetizam o manuseio das matérias-primas e as técnicas tradicionais de preparo de alimentos e artefatos praticadas pelas famílias na aldeia (Costa, 2017; Ibobinha, 2023).
Essa riqueza semântica confirma que a cultura visual surda se entrelaça organicamente com os signos da cultura indígena, permitindo que o indígena surdo reinvente formas de se comunicar a partir da sua leitura de mundo e de sua identidade (Eler, 2023).
4.1. Estrutura do Sinal: Os Parâmetros Básicos da Língua
A Língua Indígena Paiter Suruí de Sinais surgiu da interação familiar e comunitária espontânea, atendendo aos universais linguísticos e princípios fonológicos das línguas de sinais fundamentados nos autores Leite e Quadros (2014), Carvalho e Eler (2023). Estudos mostram que os sinais são formados por parâmetros, combinando três elementos primários de forma sistemática:
Configuração de Mão (CM): O formato ou posição que as mãos assumem durante a realização do sinal (Carvalho,2023).
Ponto de Articulação (PA) ou Locação: O local no corpo ou no espaço neutro em frente ao sinalizador onde a mão atua (Carvalho,2023).
Movimento (M): A trajetória, deslocamento, tipo de ação ou estaticidade das mãos (Carvalho, 2023).
Somam-se a essa estrutura a Orientação da Palma da Mão (O) e as Expressões Não Manuais (ENM) (movimentos faciais, corporais ou de boca) (Carvalho, 2023).
Ao analisar sinais da LSPS, observou-se que eles combinam de três a cinco parâmetros da modalidade espaço-visual (Carvalho, 2023): Sinais com 3 Parâmetros, exemplos como papagaio e boi utilizam Configuração de Mão, Ponto de Articulação e Orientação, com movimento e expressões não manuais estáticas; Sinais com 4 Parâmetros como no sinal de urucum, colar e batata-doce articulam Configuração de Mão, Ponto de Articulação, Movimento e Orientação simultaneamente (Carvalho, 2023) e Sinais com 5 Parâmetros como o sinal de cobra e peixe-elétrico utilizam todos os cinco parâmetros, onde expressões não manuais e componentes sonoros são essenciais para o significado (Eler, 2017; Carvalho, 2023).
A análise dos sinais da LSPS revela sua complexidade lexical. O uso de combinações de três a cinco parâmetros demonstra a flexibilidade e expressividade da língua, permitindo representações detalhadas. A inclusão de expressões não manuais e componentes sonoros enriquece a comunicação, tornando-a sensorial. Compreender esses elementos é essencial para valorizar e preservar a diversidade linguística e cultural nos sinais.
A pesquisa confirma que os Sinais Paiter Suruí têm estrutura fonológica e atendem aos parâmetros das línguas de sinais, garantindo à LSPS o status de língua natural. Todas as línguas são igualmente eficazes na comunicação (Carvalho, 2023; Eler, 2023; Leite; Quadros, 2014).
A documentação digital, como glossários em vídeo e tabelas de mão, é uma forma de promover a LSPS seu status linguístico e garantir que indígenas surdos se comuniquem em sua língua nativa, preservando a cultura amazônica (Leite; Quadros, 2014; Eler, 2023; Suruí et al., 2025; Pegoraro, 2023).
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa realizada sobre a Língua de Sinais Paiter Suruí (LSPS) demonstram de maneira inequívoca que os estudantes indígenas surdos não estão imersos em um cenário de isolamento comunicativo ou passividade linguística. Pelo contrário, eles se estabelecem como sujeitos políticos e sociais ativos que, no âmago da vida comunitária e familiar, criaram e desenvolveram um sistema de comunicação espaço-visual autônomo, legítimo e profundamente enraizado na identidade cultural do povo Paiter.
O estudo da Língua de Sinais Paiter Suruí (LSPS) demonstra que os estudantes indígenas surdos são comunicadores ativos, com um sistema autônomo enraizado na cultura Paiter. A LSPS reflete a observação da natureza e dos costumes da aldeia. Mapear e documentar essa sinalização é crucial para preservar o patrimônio cultural e linguístico, evitando o apagamento pelos sinais urbanos ou pela língua oral.
A LSPS não se limita a um conjunto de gestos simples; ela incorpora os parâmetros fonológicos fundamentais das línguas de sinais e expressa, através de seus ícones e estruturas corporais, uma observação rigorosa e sensível da natureza, fauna, flora e das práticas sociais cotidianas da aldeia. Nesse contexto, o mapeamento e a documentação dessa sinalização nativa configuram-se como uma medida urgente e indispensável para a preservação do patrimônio cultural e linguístico, assegurando a memória local e evitando que a imposição acrítica da Libras urbana ou do português oral resulte na invisibilização e no apagamento dos sinais emergentes criados pela própria comunidade.
A concretização efetiva dos direitos educacionais do estudante indígena surdo requer, essencialmente, a superação do paradigma clínico-terapêutico da surdez, substituindo a visão da deficiência biológica pelo reconhecimento do aluno como sujeito de direitos, que tem uma identidade cultural alicerçada na experiência visual. Para atender às especificidades sociolinguísticas da Terra Indígena Sete de Setembro, defende-se a consolidação de uma Educação Escolar Indígena Inclusiva, Intercultural e Trilíngue, que busca articular, de maneira harmoniosa e complementar, sem sobreposições hierárquicas, três dimensões linguísticas cruciais: a Língua de Sinais Paiter Suruí (LSPS), assumida como língua de instrução e veículo primário de comunicação do estudante surdo na aldeia; a Língua Indígena Materna (Tupi-Mondé), essencial para assegurar o pertencimento do aluno à vida comunitária, tradições orais, redes de parentesco e saberes ancestrais; e a Língua Portuguesa escrita e a Libras, compreendidas como línguas adicionais e de caráter instrumental, que ampliam as possibilidades de acesso aos conhecimentos universais, ao diálogo com a sociedade não indígena e ao exercício pleno da cidadania.
Assim, para que os educadores e futuros pedagogos atuem com sensibilidade intercultural e competência técnica em salas de aula inclusivas, este estudo aponta quatro diretrizes principais para a prática e formação docente: a inclusão nos currículos de formação, reestruturando os projetos pedagógicos dos cursos de Licenciatura em Pedagogia e das formações continuadas de educadores indígenas, incorporando o estudo das línguas de sinais nativas e os pressupostos do Etnoconhecimento das Línguas de Sinais Indígenas; a adoção de uma pedagogia visual, estimulando a diversificação metodológica por meio do canal espaço-visual, incorporando o uso de fotografias concretas, ilustrações anatômicas com sinalizações indicativas, jogos didáticos e mídias audiovisuais adaptadas ao contexto da floresta; a produção de materiais didáticos bilíngues e trilíngues, incentivando a elaboração colaborativa de glossários ilustrados, minidicionários e registros armazenados em plataformas digitais, oferecendo suporte contínuo ao processo de ensino-aprendizagem na escola e no ambiente familiar; e a atuação em coletivo educador, consolidando a prática pedagógica a partir da mediação comunitária, promovendo uma parceria constante entre os professores, os sabedores tradicionais, os pais, as lideranças e os sinalizadores surdos, de modo que a escola se afirme como um espaço vivo de valorização da diversidade.
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LEITE, Tarcísio de Arantes; QUADROS, Ronice Müller de. Língua de sinais do Brasil: reflexões sobre o seu estatuto de risco e a importância da documentação. In: STUMPF, Marianne Rossi; QUADROS, Ronice Müller de; LEITE, Tarcísio de Arantes (org.). Estudos da Língua Brasileira de Sinais II. Florianópolis: Insular, 2014. v. 2, p. 15-28.
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PEGORARO, Odirlei. Etnografia de si no contexto do ensino da língua de sinais para alunos surdos indígenas Paiter Suruí de Rondônia. Dissertação do Mestrado em Letras da Universidade Federal de Rondônia - Porto Velho/RO: 2013.
SURUÍ, Ibobinha; ELER, Rosiane Ribas de Souza; SOUZA, Queila Ribas de; CARVALHO, Juliana Isabel Ribas Fagundes de. Registro dos sinais do indígena surdo Arthur Pamãyãd Suruí. Observatório de la Economía Latinoamericana, v. 23, n. 12, p. 1-19, 2025.
SURUÍ, Ibobinha. Registrando a história da educação escolar indígena na Adeia Betel e os sinais de comunicação em Paiter Suruí: uma abordagem didática intercultural com Arthur Pamâyâd Suruí. Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura em Educação Básica Intercultural. Universidade Federal de Rondônia. Ji-Paraná/RO: 2023.
VILHALVA, Shirley. Índios surdos: mapeamento das línguas de sinais do Mato Grosso do Sul. Petrópolis - RJ: Arara Azul, 2012.
1 Doutora em Linguística e docente do Ensino Superior da Universidade Federal de Rondônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Mestre em Linguística da Universidade Estadual do Mato Grosso - Campus de Cáceres E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Mestranda do Programa Mestrado Profissional em Educação Inclusiva – Unir_- Campus de Ji-Paraná. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Professor Indígena da Seduc – Rondônia, Espigão do Oeste. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Licenciada em Letras Libras - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail