POÉTICA CROMÁTICA E IDENTIDADE NORDESTINA NA OBRA DE NONATO OLIVEIRA: 60 ANOS DE EXPRESSIVIDADE PLÁSTICA

CHROMATIC POETICS AND NORTHEASTERN IDENTITY IN THE NONATO OLIVEIRA’ART: 60 YEARS OF PLASTIC EXPRESSIVENESS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791102378

RESUMO
Analisa-se a trajetória artística de Raimundo Nonato de Oliveira, proeminente artista plástico do Piauí. Com seis décadas de atuação, sua obra transcende o regionalismo estático para alcançar uma linguagem universal, fundamentada no hibridismo entre primitivo e expressionista. Trata-se, portanto, de artigo de cunho teórico, resultante de revisão bibliográfica e documental de fontes contemporâneas, impondo-se como pesquisa qualitativa e se configurando como estudo de caso – a arte de Nonato Oliveira. Discute-se, ainda, a construção de sua identidade visual e sua inserção no cenário nacional e mundial das artes plásticas. Aborda-se, desde a formação autodidata de Nonato no interior piauiense até suas exposições internacionais e a onipresença de seus murais no cotidiano urbano da capital Teresina – Piauí. A partir do objetivo geral – analisar a trajetória artística do piauiense Nonato Oliveira – são objetivos específicos ou operacionais: (1) discutir a construção da identidade visual de Nonato; (2) rever a arte como bem público: murais e monumentos; (3) estudar a inserção de Nonato Oliveira no cenário das artes plásticas mundo afora. Por fim, em consonância com os objetivos, é evidente que, dentre modalidades artísticas, Nonato prioriza o muralismo. Este favorece sua intenção de impor a arte como bem da população, graças à ocupação do espaço urbano, mediante exposição de obras em galerias abertas, a exemplo de pontos turísticos, shoppings e edifícios públicos. Quanto à sua identidade visual é ela marcada pelo uso de cores vibrantes e traços fortes, remetendo à luminosidade nordestina, um dos fatores que favoreceu sua entrada no cenário nacional e internacional.
Palavras-chave: Nonato Oliveira; Arte Nordestina; Identidade Cultural; Artes Plásticas; Piauí.

ABSTRACT
This paper analyzes the Raimundo Nonato de Oliveira’ artistic trajectory, a prominent visual artist from Piauí. With six decades of activity, his work transcends static regionalism to achieve a universal language, grounded in a hybridity between primitive and expressionist art. Therefore, this is a theoretical article, resulting from a bibliographic and documentary review of contemporary sources, establishing itself as qualitative research and configuring itself as a case study – the art of Nonato Oliveira. It also discusses the construction of his visual identity and his insertion into the national and international visual arts scene. It addresses everything from Nonato's self-taught training in the interior of Piauí to his international exhibitions and the omnipresence of his murals in the urban daily life of the capital Teresina – Piauí. Based on the general objective – to analyze the artistic trajectory of Nonato Oliveira from Piauí – the specific or operational objectives are: (1) to discuss the construction of Nonato's visual identity; (2) to review art as a public good: murals and monuments; (3) to study the Nonato Oliveira’ insertion into the world of visual arts. Finally, in line with the objectives, it is evident that, among artistic modalities, Nonato prioritizes muralism. This favors his intention to impose art as a public good, thanks to the occupation of urban space, through the exhibition of works in open galleries, such as tourist spots, shopping and public buildings. As for his visual identity, it is marked by the use of vibrant colors and strong lines, reminiscent of the Northeastern luminosity, one of the factors that favored his entry into the national and international scene.
Keywords: Nonato Oliveira; Northeastern Art; Cultural Identity; Visual Arts; Piauí.

1. INTRODUÇÃO

A compreensão das artes plásticas no Nordeste brasileiro exige olhar que ultrapasse a mera catalogação do real sensível, situando-se no campo da invenção de sistemas de representação cultural. Para Moacir dos Anjos Júnior (1998) e Albuquerque Júnior (2009), a identidade cultural nordestina é um constructo que vem se consolidando ao longo dos séculos 20 e 21, embora, com frequência, fundamentado em discursos regionalistas, que oscilam entre a celebração da tradição e a denúncia da miséria, com ênfase no último elemento. Este é um fato. São muitos os “teóricos” que fazem alusão às manifestações artísticas, no âmbito do Nordeste brasileiro, sempre, como espaço de dor, sofrimento e desgraça, o que nada acrescenta, mas, em oposição, fortalece estereótipos seculares odiosos, como Silva e Melo (2015) advertem.

Em meio ao cenário complexo que caracteriza o Brasil e a vida dos brasileiros, oriundos de qualquer região, emerge, no Piauí, a figura quase lendária de Raimundo Nonato de Oliveira, o “Mestre Nonato”, cuja produção artística, há 60 anos, desafia padrões e confere dignidade à representação do homem sertanejo. Nascido no dia 11 de dezembro de 1949, no município São Miguel do Tapuio, Nonato Oliveira desenvolveu uma gramática visual inconfundível. Sintetiza a vivacidade das festas populares com a sobriedade das adversidades climáticas e, no decorrer de sua profícua e múltipla obra, abrange uma diversidade de expressões artísticas, dentre monumentais murais, suntuosas telas e esculturas, além de entalhes de incrível beleza.

Então, Nonato contribui para a construção simbólica da paisagem urbana do Piauí, por meio dos murais inseridos em edifícios e espaços públicos, temática até então pouco discutida, com ênfase para a capital Teresina e algumas cidades do interior do Estado, como seu rincão natal, São Miguel do Tapuio. O artista plástico é também popular em Valença do Piauí. Isto porque, visando aprimorar seu estilo primoroso, desde sempre, direcionado à identidade nordestina e à sua identificação genuína via expressividade plástica, enquanto jovem, esteve por certo período ao lado do valenciano “Mestre Dezinho” [José Alves de Oliveira], precursor e patrono da arte santeira no Piauí, mas, principalmente, tio de Nonato (Figura 1).

Figura 1. Artista plástico Nonato Oliveira comemora 60 anos de carreira, 2009

Fonte: Acervo pessoal, Regis Falcão, 2026.

Diante do exposto, justifica-se a urgência de retomar a poética cromática e a identidade nordestina na obra de Nonato Oliveira, no decorrer de seus 60 anos de expressividade plástica, haja vista a precariedade de estudos acadêmicos sobre sua trajetória artística e sua influência na região, conduzindo a uma incursão científica na técnica, temática e trajetória do artista.

Para tanto, utiliza-se como aporte autores e documentos que discutem a “invenção” do Nordeste e a resistência das artes plásticas periféricas frente aos eixos hegemônicos do Sudeste. Isto pressupõe, a partir do objetivo geral – analisar a trajetória artística do piauiense Nonato Oliveira: gênese e formação – o enunciado dos objetivos específicos ou operacionais:

  1. Discutir a construção da identidade visual de Nonato: traço, cor e forma.

  2. Rever a arte como bem público: murais e monumentos.

  3. Estudar a inserção de Nonato no cenário das artes plásticas do Piauí, Nordeste, Brasil e, quiçá, do mundo.

2. TRAJETÓRIA DE NONATO OLIVEIRA

A trajetória artística de Nonato Oliveira é, inegavelmente, marcada por um autodidatismo resiliente. Filho de Sabino Policarpo de Oliveira e Emília da Rocha Soares Oliveira, cresceu em meio à simplicidade rural. O contato precoce com a labuta do pai, pedreiro e vaqueiro, lhe forneceu os primeiros insumos para a veia artística. Antes de ter acesso às tintas industriais, Nonato revelou-se um pesquisador nato da flora local. Por necessidade material, o menino-adolescente improvisou suas próprias cores por meio de uma quase frenética investigação dos pigmentos naturais, utilizando, naquele momento, urucum, tabatinga, nogueira e casca de angico. A descoberta das estonteantes cores industriais só ocorreria após sua mudança para Teresina, em 1961, aos 12 anos de idade.

Essa fase inicial foi fundamental para o grande muralista compreender a saturação e a escolha tonal de sua paleta futura. Como qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade e inteligência, muito cedo, descobriu o valor do compartilhamento, da humildade intelectual e da curiosidade intelectual, elementos intrínsecos à atuação de Paulo Freire (1987). Em todos seus trabalhos, como em “Educação como prática da liberdade”, edição original de 1967, o intelectual argumenta que a educação, em qualquer instância e circunstância, deve ser vista como estratégia de conscientização e de emancipação dos seres humanos, transformando o educando no sujeito de sua própria história, o que demanda ouvir, compartilhar, descobrir. E, talvez, vivenciar a arte.

E foi assim que Nonato descobriu o “caminho das pedras”, na acepção preciosa de encontrar sua singular identidade e expressividade plástica, mediante domínio técnico do universo da cromaticidade, atalhos e métodos acertados e originais. Nesse momento, registra-se sua vivência junto ao “Mestre Dezinho”, patrono da arte santeira no Estado e até hoje, anos depois de sua morte, reverenciado pela população.

A genealogia artística de Nonato Oliveira está intrinsecamente ligada à de seu tio. A observação da forma como Dezinho esculpia rostos em madeira e a multiplicidade de personagens (Figura 2) em suas obras religiosas foram determinantes para que o jovem muralista avançasse rumo à multiplicidade de rostos e aos traços volumétricos de suas figuras, traços marcantes do conjunto da obra de Nonato, na acepção de totalidade, de resultado amplo e/ou do acúmulo de todas as realizações, etapas e fases de um artista.

Figura 2. Artista plástico Nonato Oliveira e sua multiplicidade de personagens, 2026

Fonte: Acervo pessoal, José Ailson Nascimento, 2026.

Em suma, o legado familiar posiciona Nonato numa tradição de multiculturalidade do Nordeste, cujo saber artesanal dialoga, sempre, com a inventividade plástica (Albuquerque Júnior, 2009).

3. TRAÇO, COR E FORMA: “A GRAMÁTICA” DE NONATO OLIVEIRA

No quesito referente à discussão da construção da identidade visual de Nonato Oliveira, em termos de traço, cor e forma, frequentemente, seu estilo é categorizado por críticos como uma mistura entre primitivo e expressionista no contexto do Nordeste (Carvalho, 2020). No entanto, sua obra possui particularidades que a tornam um sistema semiótico fechado e reconhecível em qualquer latitude.

Um dos aspectos mais intrigantes de sua pintura é a representação das figuras humanas com tons amarelados e olhos semiabertos. Sua simbologia cromática e fisionômica, longe de ser uma escolha meramente estética, remete às memórias de infância do artista e à observação de enfermos acometidos pela tuberculose, conferindo às telas, estranhamente ou docemente, uma camada de seriedade e de sofrimento, subjacente à explosão de cores. A adoção de cores intensas e quentes são vibrantes a tal ponto que transmitem a quase todos energia, calor e impacto visual. São o vermelho, o laranja e o amarelo suas bases principais. Sempre, as cores intensas remetem à luminosidade, marca do Nordeste brasileiro, favorecendo a composição de cenas dinâmicas e plenas de movimento e vigor. Afinal, as cores ditas de “alta intensidade” detêm máxima saturação e certa pureza, sem mesclar excessivamente o cinza ou o branco, cores que contribuem para a opacidade em oposição à transparência.

Em contrapartida, a recorrência de olhos azuis em seus personagens é uma referência à própria herança familiar, subvertendo a imagem arquetípica do sertanejo com traços fenótipos escuros, relembrando que fenótipo é um termo que indica características observáveis ou mensuráveis de um indivíduo, como aparência física, tipo sanguíneo, comportamento prevalecente e funções biológicas.

Conforme depoimento recente, a Diretora do “Museu do Piauí. Casa de Odilon Nunes”, Dora Medeiros [Maria Dora de Oliveira Medeiros Lima] afirma que Nonato retrata seca e fome de modo intenso, mas, paradoxalmente, o faz conferindo “dignidade ao povo”, transformando a tragédia em algo magistral e nobre, reiterando Cronemberger e Medeiros (2026, não paginado), para quem o Nordeste do artista plástico piauiense é, em seu âmago, “[...] um Nordeste criativo, acolhedor e culturalmente sofisticado. Portanto, sua produção pode ser interpretada como projeto artístico de valorização identitária, contribuindo para a construção de novas imagens sobre a região”, Figura 3.

Figura 3. Artista plástico Nonato Oliveira e sua multiplicidade de figuras humanas em explosão de cores, 2025

Fonte: Projeto Artista do Ano, 2025.

Indo além, a Figura 3 e seus desdobramentos, simultaneamente, enaltecem “A Gramática” de Nonato Oliveira e comprovam o quão decisiva é a temática folclórica e social de sua arte. Telas, esculturas, talhas e murais são repositórios da cultura imaterial do Piauí. Bumba-meu-boi, reisados, bandeiradas, pipas, violas e zabumbas ganham vida através de traços fortes que delineiam cactos e mandacarus. Por exemplo, sua série sobre a Guerra de Canudos, lançada ainda na juventude, desde então, demonstra o compromisso com a narrativa histórica e social, fugindo do pitoresco vazio para abraçar a densidade do conflito humano.

Um divisor de águas na carreira de Nonato Oliveira foi sua estada no continente europeu nos anos 70. Após o sucesso de suas obras no Rio de Janeiro, recebeu uma bolsa de estudos patrocinada pela Maison de France, estabelecendo-se em Paris – França, por cerca de quatro a 10 anos. No período, Nonato vivenciou o que Moacir dos Anjos Júnior (1998) define como “fascínio pela diferença”, provocado pela globalização cultural. Estudou técnicas de mosaico e vitral. Conviveu de perto com ícones da arte mundial, tornando-se amigo de Pablo Picasso, a quem visitava com certa assiduidade. Porém, a bem da verdade, o intercâmbio não aniquilou a identidade nordestina. Ao contrário, estimulou o resgate de símbolos locais sob ótica técnica inovadora, permitindo que sua produção dialogasse com o modernismo europeu sem perder sua autonomia pessoal.

4. ARTE COMO BEM PÚBLICO: MURAIS E MONUMENTOS

Diferente de muitos artistas que se encerram em galerias, Nonato Oliveira é coerente com suas palavras. Defende que sua obra é “feita para o povo” e fez deste lema, por toda a vida, um estímulo para ocupar espaço urbano e/ou público. Como consequência, sua filosofia de vida reflete-se na onipresença de murais gigantescos no cenário artístico de diversas cidades, sobretudo, Teresina.

Ao pensar no cenário urbano como galerias de arte para a população, seus murais, que chegam a atingir 200 metros de largura, compõem a arquitetura de escolas, hotéis, igrejas e órgãos públicos. Exemplos notáveis incluem painéis na Agência Central da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) em Teresina: um em pintura sobre madeira; outro, em soldagem no ferro. Também merece menção a imensa tela de seis metros na sede da Ordem dos Advogados do Brasil. Seção Piauí (OAB-PI).

E como não arrolar a beleza do Monumento “Cabeça de Cuia e as Sete Marias Virgens”? A Figura 4 retrata conhecida lenda do folclore do Piauí. Vários escritores têm escrito sobre tal lenda, a exemplo de Sales (2019). Eis a história de Crispim, um jovem barqueiro ou pescador, vivendo às margens dos rios Poti e Parnaíba. Irritado com a mãe por receber, dizem, sopa de osso, terminou por assassiná-la com um osso ou com a própria cuia de sopa. Antes de morrer, a mulher o amaldiçoou a vagar como um monstro pelas águas dos rios até sua partida.

Figura 4. Artista plástico Nonato Oliveira e “Cabeça de Cuia e as Sete Marias Virgens”, 2026

Fonte: Peça publicitária, 2026.

O Monumento se situa no conhecido “Encontro dos Rios”, expressão que nomeia a junção dos rios Poti e Parnaíba, em Teresina, Piauí, bem na entrada do “Parque Ambiental Encontro dos Rios”. Nonato é, em conjunto com Carlos Martins, seu criador.

Ainda em relação a murais, é imperdoável não mencionar “Turismo no Piauí”, uma obra gigantesca de Nonato Oliveira, instalada na fachada do Centro de Convenções de Teresina (Figura 5). Com cerca de 162 m2, tornou-se um dos símbolos mais reconhecidos na capital do Piauí.

Em “Depoimento sobre o Mural do Centro de Convenções de Teresina”, publicado na revista Revestrés, em 2022, Nonato declara ipsis litteris que sua intenção primeira foi dar de presente à população local e aos turistas uma visão abrangente acerca do povo piauiense. Em destaque, estão muitos elementos: calor humano; altas temperaturas; manifestações culturais; religiosidade; natureza; e elementos do folclore regional. Desta forma, cada vez mais, o Mural vem extrapolando valores estéticos para se tornar uma espécie de portal de entrada para o Piauí (Cronemberger; Medeiros, 2026; Oliveira, 2022).

Figura 5. Artista plástico Nonato Oliveira e o Painel “Turismo no Piauí”, 1994

Fonte: Grax Medina e Javé Montuchô, 2026.

A suntuosidade e a importância de “Turismo no Piauí” são tamanhas que, em 2021, quando da grande reforma do Centro de Convenções de Teresina, surgiu uma onda de protesto e/ou de preocupação com o Mural para que não sofresse quaisquer danos. Diante do clamor da população, a mídia local manifestou-se, com afinco, para que o artista e seus auxiliares tivessem acesso à obra em andamento e participassem ativamente da revitalização do painel. Destaque para profissionais da mídia local, tais como Carpaso (2021) e Carvalho (2021), cujos textos decorrem de entrevistas, perfazendo não só a relevância de dados qualitativos, mas, também, a importância da entrevista como técnica de pesquisa.

5. TRAJETÓRIA DE NONATO OLIVEIRA: DO PIAUÍ PARA O MUNDO

Ao longo de seus 60 anos de dedicação integral à arte, Nonato Oliveira participou de mais de 80 exposições, entre individuais e coletivas, abrangendo quase todos os Estados brasileiros e diversos países do mundo. A título de exemplificação, na década de 70: Museu da Cidade (Rio de Janeiro), Aliança Francesa (Rio de Janeiro) e Museu do Ipiranga (São Paulo). Quanto ao panorama internacional, Nonato esteve presente em exposições, também, individuais e coletivas, na França (inexiste registro das galerias onde expôs durante os anos em que morou por lá); em Portugal (Galeria Trindade, Lisboa); Itália (Anual de Mochiano ou Mostra Anual de Mochiano, ano 1991); Noruega (não há especificação nominal de onde Nonato expôs); e Estados Unidos da América (EUA), no caso, em Miami Beach e Coral Gables.

Por conta de sua produção expressiva e marcante, é possível afirmar que Nonato Oliveira empreendeu, sim, uma longa trajetória, que o levou do Piauí para o mundo. E mais, possui reconhecimento institucional, em termos do Estado natal, integrando acervos importantes, como o do “Museu do Piauí. Casa de Odilon Nunes”, onde peças, como “Cena de Festa” (anos 70) e “Anjo Torto” (anos 90) estão em exibição permanente (Medeiros, 2026).

6. CAMINHOS METODOLÓGICOS

No que se refere aos caminhos metodológicos, não obstante a categorização diversificada adotada por estudiosos de metodologia científica, na literatura nacional e internacional, “Poética cromática e identidade nordestina na obra de Nonato Oliveira: 60 anos de expressividade plástica” enquadra-se na categoria pesquisa qualitativa, visto que não privilegia dados quantitativos. Isto transforma o pesquisador em ativo descobridor do significado de ações e relações subjacentes às estruturas sociais:

[...] o sujeito-observador é parte integrante do processo de conhecimento e interpreta os fenômenos, atribuindo-lhes um significado. O objeto não é um dado inerte e neutro; está possuído de significados e relações que sujeitos concretos criam em suas ações (Chizzotti, 2003, p. 79).

Para a execução desta pesquisa, aspectos definidos como característicos na produção de Nonato foram observados nos moldes de pesquisa qualitativa. Além da delimitação e da formulação do objeto de estudo, os autores do paper buscaram a compreensão que marca o passado e as circunstâncias presentes que condicionam a arte do grande muralista, tomando como referencial, tanto teóricos, acadêmicos, jornalistas e pessoas à frente das instituições piauienses, a exemplo de Carpaso (2021); Carvalho (2021, 2022); Gomes e Costa (2026); e Medeiros (2026).

Ademais, o artigo delineia-se como estudo de caso. Afinal, dentre os objetivos arrolados, seu enfoque é, especificamente, a produção de Raimundo Nonato de Oliveira, reiterando Laville e Dionne (2009); Marconi e Lakatos (2021), para quem o estudo de caso é, no sentido estrito, análise descritiva de determinada pessoa, grupos sociais, eventos, instituições e organizações empresariais, para identificação dos pontos contemplados nos objetivos de cada investigação acadêmica e/ou científica.

Diante da singularidade do objeto de pesquisa – artista plástico piauiense – optou-se pela amostragem não probabilística intencional, segundo o qual as unidades amostrais são escolhidas segundo critérios de conveniência do pesquisador, respeitado o rigor científico. Assim, na acepção de pesquisa bibliográfica e documental, a seleção incluiu fontes acessíveis em quaisquer suportes, como livros, artigos, e, sobretudo, textos disponibilizados no meio digital e eletrônico, sem restrição de idioma; ano de edição; e traço espacial.

Com o fim de complementar as informações obtidas nas fontes, recorreu-se à técnica de entrevista, vista por Chizzotti (2003); Laville e Dionne (2009); e Marconi e Lakatos (2021), como instrumento para ir adiante em depoimentos, como ocorreu com a Diretora do “Museu do Piauí. Casa de Odilon Nunes”, Dora Medeiros.

7. RESULTADOS

A discussão ao longo do artigo realça a importância de Raimundo Nonato nas artes plásticas do Piauí, com ênfase para o muralismo, exemplificado no maravilhoso “Turismo no Piauí”, que ressignifica a diversidade do povo e do próprio Piauí, mediante sua colocação na fachada do Centro de Convenções de Teresina (Figura 5). É inegável que, no decorrer de seis décadas de produção contínua e incansável, a obra de Nonato transcende o regionalismo estático para alcançar uma linguagem universal, fundamentada no citado hibridismo entre primitivo e expressionismo.

Dentre os resultados mais úteis para a apreensão da magnitude do trabalho de Nonato, em consonância com os objetivos, devidamente sumarizados ao início do paper, infere-se que a construção de sua identidade visual é caracterizada por cores vibrantes e traços fortes, haja vista que o uso de cores intensas remete à luminosidade nordestina.

Adiante, Nonato também expõe sua preocupação constante em ocupar o espaço urbano e/ou público, mediante a inserção de suas obras em galerias abertas, tais como edifícios públicos, shoppings e pontos turísticos. Neste caso, retoma-se o Monumento “Cabeça de Cuia e as Sete Marias Virgens” (Figura 4) alusivo à lenda do Cabeça de Cuia, registrada por Sales (2019) e outros escritores regionais. Está ele no “Encontro dos Rios”, exatamente, onde os rios Poti e Parnaíba se juntam, à entrada do “Parque Ambiental Encontro dos Rios”.

Como fruto de uma vida dedicada ao muralismo, à pintura, à escultura, ao entalhe e a outras intervenções artísticas, parece esperado o comprovado na pesquisa bibliográfica / documental / qualitativa empreendida ao longo desta pesquisa, dentro da configuração de estudo de caso – a explosão de Nonato mundo afora, extrapolando os muros do Estado, da região Nordeste e do Brasil.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nonato Oliveira representa, ele mesmo, resistência estética ao que Ana Mae Barbosa (1997) denomina de “ditadura do minimalismo” ou de “artes clean” prevalecente no eixo Sul-Sudeste. Enquanto, muitas vezes, o circuito dominante ignorou a figuração nordestina, Nonato construiu uma diversidade visual autônoma, apontando para um pós-colonialismo, definido pela afirmação de cores vívidas e de figuras humanas (ou não) originais e de beleza ímpar.

Nonato Oliveira não apenas pinta o Nordeste. Ele o reinventa como espaço de dignidade, vigor fisionômico e luta. Do alto de seus 77 anos e do exercício precoce de sua arte sob a influência do tio Dezinho, sua vontade declarada de “pintar até os 100 anos” (Gomes, 2025) é o testemunho de quem visualiza a arte como fluxo contínuo de energia e identidade. Sua obra permanece como uma antena parabólica – para usar a metáfora do movimento mangue – que capta as luzes do mundo sem tirar os pés do chão rachado do sertão piauiense!

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1 Jornalista. Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Santo Agostinho, Teresina, Piauí, Brasil. Doutor em Comunicación Audiovisual, Revolución Tecnológica y Cambios Culturales, Universidad de Salamanca, Salamanca, Espanha. E-mails: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail / [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Arquiteta e Urbanista. Professora e Coordenadora do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Santo Agostinho, Teresina, Piauí, Brasil. Doutora em Ciências: Ambiente e Desenvolvimento, Universidade do Vale do Taquari, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mails: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail / [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.