REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782636250
RESUMO
O envelhecimento populacional constitui um dos principais desafios contemporâneos, com impactos sociais e econômicos relevantes. No Brasil, pessoas com mais de 60 anos representam 15,8% da população, cenário que exige políticas públicas voltadas à autonomia, inclusão produtiva e envelhecimento ativo. Nesse contexto, o empreendedorismo emerge como alternativa para geração de renda, superação do ageísmo e fortalecimento da dignidade na terceira idade. Este estudo analisou os fatores que influenciam a atuação empreendedora de idosas vinculadas à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Luís - APAE. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, exploratória, utilizando o método história de vida com três participantes integrantes dos projetos institucionais de capacitação da APAE. A análise de conteúdo, com triangulação teórica baseada nas características atitudinais empreendedoras, revelou que a motivação para empreender está associada principalmente à necessidade financeira, maternidade solo, busca por autonomia. Identificaram-se traços como persistência, inovação, capacidade de planejamento, sociabilidade e aprendizado contínuo. Conclui-se que o empreendedorismo, para essas idosas, configura-se como estratégia de resiliência, inclusão social e promoção do envelhecimento ativo.
Palavras-chave: Pessoa idosa; Empreendedorismo; Envelhecimento ativo.
ABSTRACT
Population aging constitutes one of the main contemporary challenges, with significant social and economic impacts. In Brazil, people over 60 years old represent 15.8% of the population, a scenario that demands public policies focused on autonomy, productive inclusion, and active aging. In this context, entrepreneurship emerges as an alternative for income generation, overcoming ageism, and strengthening dignity in old age. This study analyzed the factors that influence the entrepreneurial engagement of elderly women linked to the Association of Parents and Friends of Exceptional People of São Luís (APAE). The research adopted a qualitative, exploratory approach, using the life history method with three participants involved in APAE’s institutional training projects. Content analysis, with theoretical triangulation based on entrepreneurial attitudinal characteristics, revealed that the motivation to undertake entrepreneurial activities is mainly associated with financial need, single motherhood, and the pursuit of autonomy. Traits such as persistence, innovation, planning ability, sociability, and continuous learning were identified. It is concluded that, for these elderly women, entrepreneurship is configured as a strategy for resilience, social inclusion, and the promotion of active aging.
Keywords: Elderly person; Entrepreneurship; Active aging.
1. INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional é fenômeno global intensificado pelo aumento da longevidade e pela redução das taxas de natalidade. No Brasil, esse processo ocorre de forma acelerada, trazendo desafios estruturais relacionados à previdência, mercado de trabalho e políticas públicas. Apesar das vulnerabilidades frequentemente associadas à terceira idade, observa-se crescimento do chamado empreendedorismo sênior, especialmente entre indivíduos que iniciam negócios após os 60 anos (SEBRAE, 2022).
Nesse contexto, o empreendedorismo surge como alternativa de inclusão social, independência financeira e enfrentamento do ageísmo — conceito difundido por Robert Butler para designar o preconceito relacionado à idade. O chamado “empreendedorismo sênior” envolve indivíduos com 50 anos ou mais que iniciam novos negócios, muitas vezes motivados por dificuldades de reinserção no mercado de trabalho formal. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas apontam que, em 2021, o Brasil contava com cerca de 1,8 milhão de empreendedores com mais de 60 anos, representando 7,3% do total, atuando principalmente no setor de serviços (INFONETE, 2022).
A pesquisa proposta realiza um recorte específico com idosos vinculados à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Luís, instituição filantrópica voltada à inclusão de pessoas com deficiência intelectual e múltipla. O estudo busca compreender os fatores sociais, econômicos e pessoais que influenciam a atuação empreendedora desses idosos, identificar suas motivações e verificar a existência de ações de apoio ao empreendedorismo na instituição.
Justifica-se o presente estudo, pela relevância acadêmica e social do tema, pela escassez de pesquisas sobre empreendedorismo na terceira idade e pela necessidade de subsidiar políticas públicas que promovam inclusão produtiva, autonomia financeira e envelhecimento ativo. A pesquisa pretende contribuir para o entendimento do empreendedorismo da pessoa idosa, valorizando as narrativas e o protagonismo dos idosos como agentes de desenvolvimento econômico e social.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. Pessoa Idosa
O referencial teórico fundamenta-se em revisão de literatura realizada em bases como SciELO, Portal CAPES, Web of Science, Google Acadêmico, SEBRAE e Portal do Empreendedor, abordando três eixos principais: pessoa idosa, empreendedorismo e empreendedorismo na terceira idade.
Quanto à pessoa idosa, destaca-se a transição demográfica brasileira, marcada pela redução da mortalidade e fecundidade e pelo aumento da longevidade. Desde o início do século XXI, o fenômeno da transição demográfica e epidemiológica tem provocado mudanças significativas na estrutura populacional de vários países, resultando no aumento contínuo da quantidade de pessoas idosas. Isso representa um grande desafio para os sistemas de saúde em todo o mundo, no que diz respeito a oferecer um atendimento apropriado a essa população (TORRES et al., 2020).
O Brasil inaugurou uma transformação na estrutura etária do país, a partir da redução das taxas de mortalidade e fecundidade, propiciando o aumento da longevidade e do envelhecimento da população (NASCIMENTO; DIÓGENES, 2020).
A definição de pessoa idosa abrange aqueles com 60 anos ou mais, conforme estipulado no artigo 2° da Lei 8.842/1994, lei que dispõe sobre a Política Nacional do Idoso. O envelhecimento da população é um fenômeno natural, e sua menção neste estudo é relevante, pois, à medida que as pessoas envelhecem, suas necessidades de cuidados aumentam devido ao inevitável processo de desgaste do corpo. Por sua vez, a implementação de políticas que promovam um cuidado integral é essencial para garantir que os idosos tenham o mínimo que precisam para viver com dignidade (SANTOS et al., 2024).
Paralelamente, a expectativa de vida ao nascer subiu de 54 anos em 1960 para 76 anos atualmente (Banco Mundial 2022). Em decorrência dessas mudanças demográficas, o rápido envelhecimento da população se destaca como uma das principais características da dinâmica demográfica no Brasil (MREJEN; NUNES e GIACOMIN, 2023).
O envelhecimento da população brasileira, conforme as experiências internacionais, tende a acelerar e a redução da mortalidade também deve ocorrer em decorrência dos progressos médicos recentes e do aumento da expectativa de vida (MREJEN; NUNES e GIACOMIN, 2023).
Essa transição demográfica traz desafios para qualquer país, uma vez que é necessário formular políticas públicas que atendam às necessidades da população idosa, já que, na escassez de medidas, esse grupo pode enfrentar dificuldades para acessar direitos fundamentais. Além disso, o envelhecimento populacional propicia discussões sobre os direitos e benefícios que devem ser assegurados a essa população de forma efetiva (NASCIMENTO; DIÓGENES, 2020).
Nesse sentido, com base nessas informações, o empreendedorismo entre pessoas com mais de 60 anos oferece uma série de vantagens, tanto para os idosos quanto para a economia nacional. Para os idosos, isso significa bem-estar, aumento da longevidade, criação de redes de contatos, novas oportunidades de aprendizado e satisfação pessoal e profissional. Já para o país, traz benefícios como a geração de empregos e renda, crescimento da produção e do consumo, além de movimentar a economia (SQUILANTE, 2023).
Segundo Soto-Simeone e Kautonen (2020), os idosos que começam um negócio em situações desafiadoras, os principais motivos para se tornarem empreendedores estão associados a questões não financeiras, como a busca por autonomia. Gimmon, Yitshaki e Hantman (2018) ressaltam que fatores como a realização pessoal, o aumento do bem-estar e o fortalecimento de interesses pessoais são importantes para elevar a taxa de empreendedorismo entre os idosos.
O envelhecimento populacional, portanto, impõe desafios às políticas públicas, exigindo medidas que garantam dignidade, autonomia e acesso a direitos fundamentais. Nesse contexto, o empreendedorismo aparece como alternativa de inclusão produtiva, geração de renda, bem-estar e participação ativa na sociedade.
2.2. Analise Contextual do Estatuto da Pessoa Idosa
Com o aumento da expectativa de vida e o crescimento da população idosa, a formulação de leis se tornaram essenciais para garantir que os direitos da pessoa idosa sejam respeitados e cumpridos (SEBRAE, 2022).
Ao longo da trajetória para a construção do Sistema de Proteção Social no Brasil, houve forte influência por parte dos grupos e pessoas envolvidas, que buscavam garantir medidas de proteção para a população idosa (TEIXEIRA, 2003). Destacam-se algumas conquistas importantes, como a Constituição Federal de 1988 e a Política Nacional do Idoso – PNI (Lei nº 8.842/94 e Decreto nº 1.942/96).
Além disso, ao ampliar as orientações da PNI, foi aprovado, em 1º de outubro de 2003, o Estatuto da Pessoa Idosa, Lei nº 10.741/2003, que traz em seu bojo direitos e garantias desse grupo etário. Destacam-se ainda a criação do Conselho Nacional de Direitos dos Idosos (Decreto nº 5.109/04), a Lei de Acessibilidade (Lei nº 10.098/00 e Decreto nº 5.296/04), a Política Nacional de Saúde para Pessoa Idosa (Portaria nº 2.528/06), marcos importantes que garantem os direitos das pessoas idosas.
O Estatuto do Idoso regula direitos assegurando que pessoas com 60 anos ou mais tenham atendimento preferencial em estabelecimentos públicos e privados, além de prioridade na elaboração e execução de políticas sociais específicas (SQUILANTE, 2023).
Para além do Estatuto do Idoso, a Política Nacional do Idoso tem como finalidade garantir os direitos sociais dessa faixa etária incluindo acesso à saúde trabalho assistência social, educação, cultura, esporte, habitação e transporte. O objetivo é criar condições que promovam a autonomia, a integração e a participação ativa dos idosos na sociedade (SQUILANTE, 2023).
Evidencia-se o Estatuto da Pessoa Idosa, sobretudo, o Capítulo VI, que abrange os artigos 26 a 28, os quais dispõe sobre o direito dos idosos à profissionalização e ao trabalho, sempre respeitando suas condições físicas, intelectuais e psíquicas. Os artigos orientam que o governo deve incentivar a contratação de pessoas mais velhas, criar programas específicos de formação profissional para essa faixa etária e oferecer cursos que ajudem na preparação para a aposentadoria. Além disso, é proibido discriminar os idosos ou estabelecer um limite de idade máximo para contratação, salvo nos casos em que a natureza do cargo exija isso (BRASIL, 2003).
Segundo Neto (2003), o Estatuto da Pessoa Idosa representa uma grande vitória na área do envelhecimento no Brasil, não só garante os direitos e valoriza a pessoa idosa, como também estabelece penalidades para quem desrespeitar o idoso. Destaca o autor que o Estatuto não oferece apenas proteção direta ao idoso, mas também inclui mecanismos de educação e conscientização da sociedade sobre o tema (NETO, 2003).
A análise do Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) evidencia avanços na proteção de direitos, especialmente no que se refere à profissionalização e ao trabalho, proibindo discriminação por idade e incentivando a capacitação e inserção laboral. Outros marcos normativos, como a Constituição de 1988, a Política Nacional do Idoso e legislações de acessibilidade e saúde, consolidam o sistema de proteção social voltado a esse público.
2.3. Empreendedorismo
O empreendedorismo se destaca no cenário global como tema importante, que pode impactar diferentes contextos, organizações e mercados. Isso se deve à sua relevância econômica, cultural e ao seu foco na sustentabilidade (PICANÇO, 2018).
Acredita-se que o ser humano possui uma inclinação natural para o empreendedorismo, uma vez que, em sua busca pela sobrevivência, desenvolveu o comércio e ampliou seus horizontes com as primeiras expedições realizadas por Portugueses e Espanhóis no século XVI (SILVA, 2023).
O tema do empreendedorismo é amplamente discutido e noticiado, seu conceito teve origem no séc. XVII com o termo entrepreneur promovido por Richard Cantillon, referindo-se àquele que assume risco e que inicia algo novo (SMITH e CHIMUCHEKA, 2014).
Conforme Franco e Gouvêa (2016), a palavra empreendedor tem suas raízes no francês entrepreneur e foi utilizada pela primeira vez no ano de 1437. Naquele tempo, sua definição era alguém que se compromete com algo. (CARVALHO; OLIVEIRA, 2021).
Ruiz (2019) realizou um levantamento na literatura sobre a utilização do conceito de empreendedorismo e destacou que, em 1934, Joseph Schumpeter, um economista e cientista político austríaco, fez referência à palavra "empreendedor" (CARVALHO; OLIVEIRA, 2021). Sugeriu que a remuneração deveria vir da apropriação dos lucros gerados, questionando assim as relações de trabalho e afirmando que o empreendedor é o agente que introduz inovações capazes de desafiar a ordem estabelecida (CARVALHO; OLIVEIRA, 2021).
No entendimento de Drucker (2008), a definição de empreendedor foi empregada pelo economista JeanBaptiste Say, no começo do século XIX, para o qual o empreendedor seria o indivíduo que consegue transferir recursos econômicos de um setor com baixa produtividade para outro com produtividade elevada, alcançando maiores rendimentos. Para Drucker (1987), a definição de JeanBaptiste Say, descreve os empreendedores como aqueles que aproveitam as oportunidades para criar as mudanças. (MCCLELLAND, 2005).
Assim, dentro dos fatores individuais, pode-se abordar os fatores da situação de vida, ou seja, condições relativas à situação de vida pessoal, que poderão constituir fatores importantes com influência no comportamento empreendedor. Por exemplo, as características demográficas são muito relevantes, em particular, a faixa etária e relações ao gênero, dado a menor atividade empreendedora entre as mulheres (ROSÁRIO, 2012).
Na perspectiva de Vale, Corrêa e Reis (2014) o empreendedorismo, em linhas gerais, se caracteriza pela busca de autonomia pelo indivíduo que está atento às oportunidades. De acordo com Abrahão (2020), o empreendedorismo refere-se à redistribuição de recursos econômicos com o objetivo de aumentar a produtividade e os ganhos. Assim, se configura como um fenômeno social em que o empreendedor busca constantemente inovar e estabelecer novos negócios.
Nesse contexto, o empreendedor é aquele que atua para gerar valor, desenvolver produtos e explorar novas oportunidades, além de criar boas ideias. Essa dinâmica se faz necessária devido à demanda do mercado por soluções inovadoras e eficazes, levando à introdução de novos serviços e produtos que transformam inovações em itens monetizáveis (SILVA; OLIVEIRA, 2023).
Atualmente destaca-se o espírito empreendedor, cada vez mais, consolidado pela doutrina neoliberal, que incentiva todos a adotarem uma postura empreendedora, independentemente de estarem formalmente inseridos no mercado ou, como é mais comum, atuando na informalidade (SALGADO, 2022). Nesse contexto, muitos trabalhadores buscam empregos por conta própria, especialmente em pequenos negócios, que costumam ser mais instáveis e imprevisíveis (OLIVEIRA, 2022).
A fim de compreender essa tendência que se estabelece no mercado de trabalho, é importante analisar a trajetória profissional das pessoas inseridas neste contexto empreendedor. Muitas delas enfrentaram situações como desemprego, aposentadoria, mudanças e dificuldades no trabalho, o que as conduzem a optar por esse modelo informal (OLIVEIRA, 2022).
Damião et al. (2013) destaca que no Brasil, a Lei Complementar 128/2008, que institui o Empreendedor Individual, foi criada para facilitar a legalização de negócios e incentivar a formalização de pessoas que trabalham na informalidade. No entanto, a criação desses empreendimentos pode estar associada à falta de oportunidades de trabalho formal, onde o empreendedor é apenas um trabalhador comum que se vê obrigado a buscar sua própria sobrevivência por meio de atividades informais. Por outro lado, atualmente, há uma tendência de valorizar a figura do empreendedor como um pilar da ordem econômica e social (OLIVEIRA, 2022).
Assim, passa-se à conceituação das características atitudinais empreendedoras.
2.4. Empreendedorismo de Idosos
Segundo o Relatório Mundial sobre Envelhecimento e Saúde (OMS, 2015), idosos são os indivíduos que possuem idade superior a 60 (sessenta) anos. No sentido jurídico, especificamente, o Estatuto do Idoso, Lei federal nº 10.741/2003 (BRASIL, 2003), prevê em seu art. 1º, o conceito de pessoa idosa a partir do critério cronológico de idade mínima que caracteriza a faixa etária denominada terceira idade.
No entendimento de Teixeira (2014), a concepção de pessoa idosa pode variar entre as épocas da história, pela própria evolução da sociedade. Portanto, não se trata de um conceito estático e imutável. No entanto, é o conceito adotado pela legislação vigente no Brasil é o critério de idade, visto que na prática, o aumento da expectativa de vida dos brasileiros torna esse parâmetro passível de posteriores alterações.
O contexto brasileiro passa por um período de transição demográfica, na qual apontam para o aumento progressivo da população idosa e, portanto, da expectativa de vida. Assim sendo, surgem novos paradigmas e discussões na perspectiva de melhorar a qualidade de vida na velhice, e que propiciem o olhar social para o papel dos idosos da atualidade, o que pressupõe a necessidade de que o indivíduo idoso tenha acesso aos direitos que lhes são assegurados (SHIKIDA et al., 2022).
Ocorre que, a visão predominante da velhice e, por consequência, da pessoa idosa é uma percepção negativa, por vezes, vinculada ao sentido de decadência, incapacidade ou doenças (SOARES, 2016). A sua condição de vulnerabilidade precisa ser compreendida com a flexibilidade de superação por meio de políticas públicas com acesso a oportunidades econômicas que lhes darão suporte para que possam desenvolver suas habilidades empreendedoras.
No ordenamento jurídico brasileiro, vige o Estatuto do Idoso, que dentre outras garantias, assegura a proteção do trabalho dos idosos, os quais tem direito ao exercício de atividade profissional, respeitadas as suas condições físicas, intelectuais e psíquicas. Sendo ainda assegurado a admissão do idoso em qualquer trabalho ou emprego, ressalvados os casos em que a natureza do cargo o demandar (BRASIL, 2003).
Neste cenário de crescente elevação nas taxas de longevidade, concomitante a um sistema previdenciário em colapso e um mercado de trabalho refratário às contratações de mão-de-obra situadas, sobretudo, nesta faixa etária, observa-se a atuação empreendedora da população idosa (GEM, 2019).
Embora haja um aspecto positivo nessa situação, outros fatores podem afetar a economia de forma negativa. Atualmente, sete em cada dez aposentados têm sua renda mensal garantida pela Previdência Social. No entanto, os fundos dessa previdência podem não conseguir atender a uma demanda maior. Além disso, apenas 20% da renda desses aposentados vem do mercado de trabalho (FREIRE; MURITIBA, 2012).
Uma possibilidade seria criar novas oportunidades de emprego para os idosos. Entretanto, por questões culturais, muitos tendem a deixar o trabalho ao se aposentarem, e as empresas oferecem poucas vagas para essa faixa etária. Como resultado, apenas uma pequena parte dos idosos permanece no mercado de trabalho (FREIRE; MURITIBA, 2012).
Outra alternativa seria incentivar o empreendedorismo entre os idosos como uma forma de estimular a economia nacional e minimizar os impactos da crise na Previdência Social (FREIRE; MURITIBA, 2012). A atividade empreendedora tem o potencial de ajudar a reduzir o desemprego entre os idosos e também a promover o desenvolvimento social e econômico. Os idosos costumam ter uma rede de contatos mais ampla, maior conhecimento técnico e uma situação financeira mais estável, o que significa que enfrentam menos riscos e têm mais chances de sucesso (TORRES, AMORÓS, LEPORATI E ROSES, 2024).
De acordo com a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2023, realizada em colaboração com a Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (ANEGEPE), houve um crescimento notável no número de empreendedores com mais de 60 anos. Entre 2012 e 2023, esse aumento foi de 42%, e, neste momento, a maioria deles apresenta um rendimento médio mensal de R$ 3.347,00.
Além disso, a pesquisa ressalta que 90% desses empreendedores têm negócios consolidados há mais de três anos, o que indica uma boa estabilidade e uma gestão eficiente. Dentro desse cenário, iniciativas que promovem a liberdade econômica, como a Lei nº 13.874/19, conhecida como Lei da Liberdade Econômica, além das reformas trabalhista e previdenciária implementadas em 2019, buscam reduzir os obstáculos para que empreendedores na terceira idade possam ingressar no mercado (BRASIL, 2019).
Portanto, a partir da leitura dos dados acima descritos denotam a necessidade de desenvolver ações para compreender em profundidade o fenômeno do empreendedorismo na terceira idade, assim como medidas efetivas que possam fomentar novos negócios.
2.5. Características Atitudinais Empreendedoras
Diversos estudos destacam as principais características que definem um empreendedor. O estudo desenvolvido por Lezana (1999), identifica cinco aspectos essenciais relacionados às qualidades do empreendedor: primeiro, a necessidade, que inclui busca por aprovação, independência, crescimento pessoal, segurança e autorrealização; segundo, o conhecimento, envolvendo os aspectos técnicos do negócio, experiência na área comercial, escolaridade, vivência em empresas, formação adicional e contato com situações novas; terceiro, as habilidades, como a capacidade de identificar novas oportunidades, criatividade, comunicação eficaz e negociação; quarto, a aquisição de informações; e por último, a capacidade de resolver problemas, levando em conta valores pessoais, estética, inteligência, moral e religião (PEDROSO, 2009).
Segundo Gasse e Tremblay (2011), o comportamento empreendedor é moldado pelos valores, atitudes e crenças das pessoas. Ou seja, ele é impulsionado por diversos fatores relacionados ao próprio indivíduo, como suas percepções e atitudes.
Já De Massis et al (2016), com base na teoria do comportamento planejado e na literatura sobre atitudes, desenvolveram e testaram hipóteses sobre os fatores que influenciam a atitude empreendedora de quem lidera empresas familiares. Para isso, analisaram uma amostra de 274 empresas familiares italianas. Os resultados indicaram que a postura dos responsáveis em relação à sucessão dentro da família é, de fato, influenciada tanto por fatores situacionais quanto por características pessoais, além das interações entre esses fatores.
Segundo Bringhenti et al. (1999), as principais qualidades de um empreendedor envolvem, basicamente, iniciativa, grande habilidade de persuasão, disposição para correr riscos calculados, uma postura gerencial flexível, criatividade, independência, capacidade de resolver problemas, foco em metas específicas, imaginação, confiança no poder de influenciar o futuro dos funcionários, liderança e muita disposição para trabalhar (PEDROSO, 2009).
Além dessas características que definem o perfil do empreendedor, os autores ressaltam que também é importante levar em conta outros fatores que influenciam seu comportamento, como as diferenças culturais e de mercado. Essas diferenças podem fazer com que o empreendedor precise se adaptar às particularidades de cada região e sociedade onde atua (NASCIMENTO JUNIOR et al., 2005).
Sob esse olhar, a atitude empreendedora é um conceito que foi apresentado na literatura por Robinson et al. (1991), segundo o qual, envolve fatores como a necessidade de realização, autoestima, autocontrole, inovação e realização.
Ao pesquisar as formas de medir essa atitude, encontrou-se três escalas criadas no Brasil desenvolvidos por Lopez e Souza (2006); Souza, Lopez, Bornia e Alves (2013); e Schmit e Bohnenberger (2009). Apesar de cada uma apresentar suas próprias definições, todas têm a atitude empreendedora como o principal conceito que pretendem mensurar (CORTEZ, 2016.
Schmit e Bohnenberger (2009) tentam avaliar características relacionadas ao perfil empreendedor com base em atitudes, apesar de não ser um estudo novo, se faz pertinente, a fim de ampliar a compreensão sobre as características do empreendedor, analisando as diversas definições encontradas na literatura. A partir das definições propostas, foram detectadas características relacionadas à atitude, conforme exposto no quadro 1 a seguir, a partir dos estudos de Schmidt e Bonhenberger (2009).
Segundo os autores Schmidt e Bonhenberger (2009), as características propostas para identificar o perfil empreendedor incluem autoeficácia, habilidade de assumir riscos calculados, capacidade de planejar, detectar oportunidades, persistência, sociabilidade, inovação e liderança.
3. MÉTODO DE PESQUISA
A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, exploratória e de campo, adequada a temas ainda pouco sistematizados. Adotou-se a estratégia da História de vida, permitindo compreender as trajetórias, motivações e experiências de idosas empreendedoras vinculadas à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Luís. A estratégia História de vida baseia-se na narrativa, ou seja, na construção de relatos pessoais a partir de registros escritos de experiências ao longo de toda uma vida. Essas histórias são geralmente coletadas por meio de entrevistas mediadas por um profissional, como explica Vogt e Bulgacov (2019).
A amostra foi intencional e não probabilística, composta por três idosas com mais de 60 anos, atuantes no ramo da gastronomia, participantes dos projetos “Mulheres que Inspiram” e “Oportunizar”. As entrevistadas receberam nomes fictícios (Návia, Súria e Licia), garantindo anonimato conforme a Lei Geral de Proteção de Dados.
O instrumento de coleta foi um roteiro de entrevista semiestruturada, elaborado com base nas características atitudinais empreendedoras propostas por Schmidt e Bohnenberger (2009). As entrevistas ocorreram em novembro de 2025, foram gravadas, transcritas e analisadas por meio da análise de conteúdo de Bardin, seguindo as etapas de pré-análise, categorização e interpretação.
As categorias temáticas identificadas incluíram: motivação e início do empreendedorismo; aprimoramento de habilidades e inovação; alegrias, desafios e contribuição institucional. Observou-se predominância de fatores como necessidade financeira, maternidade solo, busca por autonomia e apoio institucional da APAE. A análise indicou que o empreendedorismo, para as entrevistadas, emerge tanto por necessidade quanto como estratégia de resiliência, autonomia e envelhecimento ativo.
O tratamento dos dados também utilizou triangulação teórica, articulando a estratégia história de vida, a partir dos relatos das entrevistadas e a teoria das atitudes empreendedoras segundo a perspectiva de Schmidt e Bohnenberger (2009). Essa estratégia permitiu interpretar o empreendedorismo na terceira idade como mecanismo de geração de renda, dignidade, inclusão social e enfrentamento de estereótipos associados à pessoa idosa.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Pretende-se discutir os fatores que influenciam na atuação empreendedora de idosas na construção de sua identidade ao longo do tempo. Na prática, contextualiza-se como a história de vida pode contribuir para compreender esse processo, mediante a triangulação da abordagem História de Vida com a Teoria Atitudinais Empreendedoras, com base em autores como Drucker (1986), Dornelas (2015), Markman e Baron (2003), Carland, Hoy e Carland (1988), Longenecker, Moore e Petty (1997), Schmidt e Bohnenberger (2009) que listam oito características que definem um empreendedor contendo características, quais sejam: Autoeficácia; Assume riscos calculados; Planejador; Detecta Oportunidades; Persistente; Sociável; Inovador e Líder.
Quando se fala sobre a atitude empreendedora, Choe, Loo e Lau (2013) a veem como algo que tem várias dimensões, baseado em um modelo que envolve três aspectos: cognição (pensamentos), emoções (sentimentos) e ações (comportamento). Essa atitude é composta por cinco fatores: realização, autoestima, autocontrole, inovação e a capacidade de reconhecer oportunidades.
Já Lope-Pihie e Bagheri (2011) a atitude empreendedora é a percepção de algo positivo em relação a aspectos pessoais ligados ao empreendedorismo. Envolve valores e os benefícios que a pessoa consegue ao empreender. Segundo esses autores, essa atitude também tem várias dimensões, incluindo realização, autoestima, autocontrole e inovação.
Assim, destaca-se as principais características observadas nos depoimentos das três entrevistadas, inicialmente partindo-se da análise do perfil sociodemográfico.
4.1. Perfil das Empreendedoras Entrevistadas
A pesquisa permitiu compreender o perfil sociodemográfico das três idosas empreendedoras que participaram da entrevista. Dessas, todas são do sexo feminino, com idade entre 60 e 70 anos. Quanto ao estado civil, são todas separadas ou divorciadas, além de se denominarem, “mãe solo”. Sobre ter filhos, duas possuem pelo menos um filho com deficiência intelectual, sendo uma responsável pelo neto com autismo, todos vinculados a APAE de São Luís para realização de terapias, além de acompanhamento escolar e atividades inclusivas.
No que se referiu à formação acadêmica, duas das entrevistadas possuem apenas ensino fundamental, sendo uma graduada em serviço social. Observou-se que além da renda com o ramo de negócio, duas das entrevistadas recebem apenas o benefício de prestação continuada em favor do filho com deficiência e uma das entrevistadas já goza de aposentadoria por idade. No que diz respeito ao negócio, todas as entrevistadas exercem o empreendorismo na informalidade, sem Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica. Além disso, não possuem ponto comercial estabelecido.
Observou-se ainda, que todas as entrevistas, quanto ao endereço residencial, possuem domicílio em bairros periféricos da Capital. Em relação ao vínculo com a APAE, todas as entrevistadas possem vínculo a mais de entre oito e onze anos.
4.2. Busca de Oportunidades
Esta atitude refere-se à capacidade de ver e agir sobre novas oportunidades, mesmo que não sejam óbvias e de tomar a frente sem ser forçado pelas circunstâncias.
Tabela 1. Evidências de narrativas e atitudes empreendedoras
Evidência na Narrativa | Atitude Empreendedora |
Entrevistada 1 Návia: “comecei a cozinhar caruru e lasanha após ser questionada se sabia fazer, estimulando-se a fazer aquilo que sabia para complementar a renda”. | Reconhecimento de Oportunidade: Vê pedidos informais como um nicho de mercado e uma via para complementar a renda. |
Entrevistada 2 Súria: “investi em um carro de cachorro-quente e comprar roupas para ter tempo de cuidar do filho doente, abrindo mão da vida particular (emprego na Mirante)”. | Autoeficácia: Cria uma solução de renda que se adapta à sua nova necessidade de vida (conciliar trabalho e cuidados com o filho). |
Entrevistada 3 Lícia: "comecei a vender... por motivo de gostar e de precisar ao mesmo tempo". | Reconhecimento de Oportunidades: Transforma uma paixão (gostar) em uma solução para a necessidade (aumentar a renda como "mãe solo"). |
Na dimensão analisada, a busca de oportunidades que emergiu a partir das entrevistas, foram as influências e habilidades preexistentes, adquiridas ao longo da vida e ainda com a convivência familiar, sobretudo dos ensinamentos da mãe. No que se refere ao relato das descrições inerentes, parte das entrevistadas salientaram poucas lembranças desse marco da vida. Mas rememoram que o histórico familiar dos pais, contribui para a busca de oportunidades para empreender.
Ao refletirem sobre planejamento para arriscar, asseguram que a influência de pessoas ao lado das necessidades de somar na renda familiar impulsionaram para o empreendedorismo. Quanto a atitude de buscar oportunidades, evidenciou-se nas entrevistadas a habilidade de captar, reconhecer e usar informações de forma abstrata, muitas vezes implícita e em constante mudança. O empreendedor precisa estar atento às oportunidades, aproveitando cada momento para observar possibilidades de negócio. (MARKMAN; BARON, 2003).
4.3. Persistência e Correr Riscos Calculados
Estas atitudes envolvem a disposição para enfrentar obstáculos, insistir apesar das dificuldades e tomar medidas para reduzir riscos ou controlar resultados.
Tabela 2. Evidências de narrativas e atitudes empreendedoras
Evidência na Narrativa | Atitude Empreendedora |
Entrevistada 1 Návia: A motivação inicial para empreender é a dificuldade financeira ("nossas dificuldades, financeiras não é tão muito boa" e a necessidade de complementar a renda como "pai e mãe dos meus filhos"). | Persistência: A adversidade é o motor que exige uma solução, demonstrando que não desistiu diante da limitação financeira. |
Entrevistada 2 Súria: “tenho 19 anos de atividade na APAE. Você tem que saber buscar o cliente, dando segurança pela mercadoria que você vende, com responsabilidade, né? Eu tento fazer variedades”. | Persistência: O longo período de atuação evidencia uma atitude de resistência e dedicação contínua ao negócio. |
Entrevistada 3 Licia: diz "Não vivo passado. Eu gosto do presente.". | Persistência: Demonstra foco no presente e aceitação do passado, característico de quem supera adversidades e se concentra na ação contínua. |
Quando uma pessoa tem uma noção clara das suas próprias habilidades para motivar-se, usar seus recursos cognitivos e escolher os passos certos para controlar os eventos da sua vida, está demonstrando uma atitude empreendedora. Nesse contexto, o empreendedor costuma tomar iniciativa, organizar e reorganizar as ferramentas sociais e econômicas disponíveis, de modo a aproveitar recursos e situações de forma prática e eficiente. (HISRICH; PETERS, 2004)
Evidencia-se que as três entrevistadas revelam diferentes formas de persistência em suas trajetórias empreendedoras. Návia demonstra uma persistência impulsionada pela necessidade, pois suas dificuldades financeiras e a responsabilidade pelos filhos a motivaram a buscar no empreendedorismo uma alternativa de sustento, transformando a adversidade em ação. Súria expressa uma persistência construída pela continuidade, oferecer variedade e manter a confiança dos clientes, características de quem se mantém firme no negócio ao longo do tempo.
Já Lícia apresenta uma persistência de natureza emocional, ao afirmar que não vive do passado e prefere focar no presente, postura que favorece a superação de dificuldades e a ação constante. Assim, embora cada uma tenha motivações distintas, todas demonstram que a persistência se manifesta como elemento essencial em suas experiências empreendedoras
4.4 Busca por Informações e Aprendizado Contínuo
Esta atitude envolve a busca ativa por conhecimento técnico, conselhos de especialistas e dados de mercado para embasar decisões e melhorar o desempenho.
Destaca-se que as três entrevistadas demonstram forte orientação para a busca de informações e aprendizado, embora cada uma o faça de maneira distinta. Návia evidencia uma postura prática e imediata ao reconhecer sua limitação na confeitaria e buscar cursos para desenvolver a habilidade necessária ao crescimento do negócio.
Súria, por sua vez, fundamenta seu aprendizado tanto na experiência familiar quanto no desenvolvimento de competências sociais, como a comunicação, mostrando que aprende por meio de referências e redes de apoio. Já Lícia apresenta uma busca contínua e apaixonada pelo conhecimento, envolvendo-se profundamente nos cursos a ponto de assumir papéis de ensino, revelando dedicação e valorização do aprendizado como base para sua evolução empreendedora. Em conjunto, os relatos ilustram que a aprendizagem — conforme Filion (2004) — sustenta e potencializa a prática empreendedora ao permitir que cada uma identifique oportunidades e desenvolva capacidades para explorá-las melhor.
4.5. Capacidade de Planejar, Sociabilidade e Liderança
Estas atitudes são cruciais para a estrutura e o relacionamento do negócio, mesmo que de forma informal.
As três entrevistadas revelam diferentes expressões de competências empreendedoras em suas trajetórias. Návia demonstra capacidade de planejar ao transformar uma crítica de cliente em oportunidade de crescimento, realizando cursos de salgados para ampliar seu portfólio e oferecer combos completos, evidenciando planejamento baseado em feedback do mercado.
Súria destaca-se pela sociabilidade, reconhecendo a boa comunicação como ferramenta essencial para atrair clientes e manter relações comerciais sólidas, apontando o relacionamento interpessoal como um pilar do sucesso no negócio.
Já Lícia expressa uma forte liderança e visão, ao afirmar sua independência, buscar formação acadêmica com esforço próprio e transformar sua antiga introversão em habilidade de falar em público, demonstrando controle sobre sua trajetória e a capacidade de inspirar e influenciar a partir de suas experiências. Juntas, elas ilustram como planejamento, sociabilidade e liderança compõem diferentes dimensões da atuação empreendedora.
4.6. Mudança e Aprimoramento (Inovação)
A Inovação nas histórias de vida das pessoas idosas não é sempre tecnológica, mas sim a capacidade de fazer diferente ou melhor.
As entrevistadas expressam a inovação como motor de suas práticas empreendedoras, cada uma a partir de uma dimensão distinta. Návia demonstra inovação por melhoria contínua, ao buscar aperfeiçoar tudo o que aprende e personalizar seus produtos com base no próprio padrão de qualidade, diferenciando-se dos concorrentes.
Súria apresenta uma inovação estratégica, ao remodelar totalmente sua forma de trabalho para atender às necessidades do filho doente, criando um negócio flexível que concilia renda e cuidado familiar.
Já Lícia revela uma inovação motivada pelo desenvolvimento pessoal, pautada na fé, na confiança e no desejo de retornar aos estudos e concluir cursos, vendo a formação contínua como força propulsora de sua jornada empreendedora. Essas narrativas mostram que a inovação pode emergir tanto do aperfeiçoamento do produto quanto da reorganização da vida ou da busca incessante por conhecimento.
4.7. Autoeficácia e Assumir Riscos Calculados
A Autoeficácia, consiste em acreditar na própria capacidade de ter sucesso e a disposição para Assumir Riscos são evidentes nas decisões de mudar de carreira ou buscar o aprimoramento.
A análise das histórias de vida sob a lente da Teoria Atitudinais Empreendedoras demonstra que a jornada do empreendedor após os 60 anos, apesar de frequentemente começar por uma motivação de necessidade financeira ou familiar, é sustentada por um perfil empreendedor altamente desenvolvido e ativo.
Diante das narrativas na Entrevistada 3, Licia, demonstra que a terceira idade não é um período de inatividade ou estagnação, mas sim um tempo para redescobrir propósitos e habilidades. O empreendedorismo, neste caso, serviu como uma via para o aumento da renda, o desenvolvimento social, e a manutenção de uma mente ativa.
Mas eu gosto de fazer minhas coisas. Hoje eu fiquei uma pessoa velha, mas não fiquei uma velha parada, não (Licia, 2025).
Observou-se que as entrevistadas transformam desafios, como as dificuldades financeiras e cuidado com filho ou neto deficiente em catalisadores para atitudes empreendedoras, sobretudo, evidenciado quando a Persistência garante a longevidade, isso porque há 10 anos no empreendedorismo, mesmo após os 60 anos. Evidenciou-se que a busca de oportunidades e iniciativa transforma habilidades domésticas em fontes de renda.
Eu morei 20 anos em São Paulo, lá que eu entrei no INSS, daí, lá era só a história de pão de ló, eu não gostava dos bolos, eu ia em festa, mas eu nunca comia bolo porque eu não gostava, que história de pão de ló, bolo bom é bolo de manteiga, e quando eu fui fazer o bolo, eu comecei a fazer bolo de manteiga. (Navia, 2025)
Em suma, percebe-se que a longevidade e o sucesso dos empreendimentos, mesmo em pequena escala, não dependem apenas do “dom” ou da “necessidade”, mas são construídos sobre um conjunto de atitudes comportamentais empreendedoras que se manifestam consistentemente nas narrativas de vida.
Sobre as habilidades sociais, Markman e Baron (2003) afirmam que fatores como auto-eficácia, capacidade de reconhecer oportunidades, perseverança, além do capital humano e social, estão ligados ao sucesso dos empreendedores. Eles sugerem que praticamente todas as características empreendedoras podem estar relacionadas ao sucesso.
Por fim, Vidal e Santos (2003) destacam a autorealização como um fator importante ao analisar a história de vida de um gerente-proprietário e identificar suas características pessoais empreendedoras, percebe-se que uma força que o impulsiona é a necessidade de autorealização.”
Destaca-se que o empreendedorismo na terceira idade surge como alternativa à dificuldade de inserção no mercado de trabalho ou como complemento de renda, motivado por necessidades financeiras e o papel de cuidador. A busca por capacitações contínuas, como cursos de confeitaria, evidencia a importância do aprimoramento de habilidades mesmo após 60 anos. A entrevistada 1 demonstra resistência ao "se acomodar" após os 70 anos, buscando reinvenção, protagonismo e fortalecimento emocional.
Ressalta que desafios financeiros, como a falta de capital de giro, são enfrentados por estratégias como oferecer topos de bolo como cortesia, que além de fidelizar clientes, inovam no serviço. Nessa perspectiva, reforça a importância do apoio social na valorização do empreendedorismo na terceira idade. A experiência de vida, embora reconhecida, precisa ser estruturada com conhecimentos atuais para garantir autonomia, protagonismo e renda adicional, combatendo a passividade típica da aposentadoria.
“Eu acredito que nossa família já tem um dom, porque minha mãe, ela tinha uma banca na Magalhães de Almeida, muito tempo atrás... a minha mãe, ela está sendo a minha referência, entendeu? Em buscar uma soma para a nossa renda...” (Súria, 2025)
A referência da mãe estabelece o empreendedorismo como um dom familiar e um modelo de persistência para aumentar a renda. A entrevistada 2 internaliza a atitude de buscar e criar oportunidades.
“depois que o G. nasceu, porque eu tive que abrir mão da minha vida particular, que eu trabalhava, trabalhava na época na Mirante... fui investir num carro de cachorro quente... Para eu ter tempo com meu filho, para eu começar a ir para os médicos...” (Suria, 2025)
O empreendedorismo surge como uma solução estratégica para conciliar o cuidado com o filho (que tem Síndrome de Golden Hard) e a necessidade de renda. Isso demonstra a atitude de tomar as rédeas da vida e buscar a autonomia.
“A gente se sentir útil. Se sentir útil, é mesmo nessa idade. E nos fortalecendo, viu, que nós somos capazes... E dar dignidade, né? Claro, e você ser apontada ali, aquela mãe ali honrando, buscando, né? Buscando, se desenvolvendo.” (Návia, 2025)
Observa-se que a entrevistada 1, Návia vê o trabalho como uma forma de dignidade, fortalecimento pessoal e utilidade, superando a barreira da idade. Isso reforça a atitude de comprometer-se com um propósito maior do que o lucro. Além disso, prepondera a busca por aprimoramento de suas habilidades.
“Informações, dom e a questão também, você tem que ter uma boa comunicação, né? Você tem que saber buscar o cliente, dando segurança pela mercadoria que você vende, com responsabilidade, né?” (Súria. 2025)
A entrevistada 2 identifica explicitamente a comunicação como habilidades-chave. Isso reflete a atitude empreendedora de exigir qualidade e eficiência na entrega do produto e no relacionamento com o cliente. Além disso, a transição de caldos para variedades, e a inclusão de serviços de cabeleireira/manicure, demonstra a atitude de inovar e adaptar-se ao mercado para maximizar a renda e aproveitar as oportunidades.
“Eu tento fazer variedades. Cada venda minha, eu comecei primeiro com os caldos... Aí desde daí, agora eu estou variando, né? Em termos da mercadoria, também eu sou cabeleireira, sou manicure da Pai de São Luís.”
A entrevistada 2 Súria, destaca as principais atitudes identificadas a partir de sua história de vida, que evidenciam sua orientação para a solução de problemas, adaptação e busca por dignidade. Demonstra iniciativa ao identificar oportunidades e diversificar seus negócios, passando de venda de caldos para oferecer serviços de beleza e aproveitando seu networking, como a divulgação por um político para ampliar seu alcance.
Também valoriza a autonomia ao abrir mão de um emprego formal para investir em seus próprios negócios, buscando flexibilidade para cuidar do filho. Sua persistência e autoconfiança a ajudam a superar obstáculos, como equilibrar trabalho e cuidados familiares, além de não se deixar limitar pela idade, vendo nela uma fase de crescimento e utilidade.
Além disso, investe em rede de contatos e responsabilidade ao manter relações de confiança, priorizar a qualidade na comunicação e buscar apoio comunitário, como doações de amigos e envolvimento em ações voluntárias. Essas atitudes são essenciais para seu sucesso no empreendedorismo após os 60 anos, permitindo-a gerar renda, manter sua dignidade e sentir-se capaz.
A análise da entrevistada 3 Licia revela que a trajetória da empreendedora na terceira idade é marcada pela iniciação às vendas aos 60 anos, motivada pelo desejo de aumentar a renda e manter-se ativa mentalmente. Demonstra um perfil empreendedor ativo, buscando constantemente novas oportunidades de aprendizado, como estudar na universidade e aprimorar suas habilidades em culinária e artesanato.
Sua motivação também está ligada ao desenvolvimento social, superando a introversão, sobretudo, como contribuição da APAE de São Luís, que propiciou o desenvolvimento de projetos destinados a capacitação e por oportunizar de vendas nas feiras de empreendedoras, que foi fundamental para sua comunicação e crescimento pessoal.
Apesar dos desafios, como a falta de confiança e o não pagamento em algumas vendas, ela persiste, adotando uma abordagem baseada na amizade e na conversa para vender, o que reforça seus valores de persistência e comprometimento.
Sua história demonstra que a terceira idade pode ser um período de reinvenção, de redescoberta de propósitos e habilidades, incentivando outras pessoas idosas a manterem-se ativas e engajadas.
5. CONCLUSÕES
5.1. Síntese dos Resultados
As narrativas confirmam que o empreendedorismo entre as idosas não é um ato isolado de necessidade, mas o resultado de um conjunto de Atitudes Empreendedoras que se desenvolveram e se consolidaram ao longo da vida e foram ativadas após os 60 anos. A Autoeficácia impulsiona o aprendizado, com destaque na busca por cursos de aprimoramento, a Persistência garante a longevidade, e a Capacidade de Planejar e Inovar permite a adaptação do negócio às necessidades financeiras e pessoais das idosas empreendedoras.
Historicamente, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Luís – APAE tem como finalidade a missão em promover e articular ações de assistência social, educação, saúde e defesa dos direitos das pessoas com deficiência intelectual e múltipla, promovendo a inclusão social.
Assim, o trabalho realizado pela APAE de São Luís transcende os limites das pessoas com níveis de limitação, ou seja, o trabalho junto com as famílias dos assistidos atinge diferentes situações de vulnerabilidade, para além da atuação na educação e saúde, promove a capacitação e o empreendedorismo.
Nesse sentido, por entender a importância da família no processo de acompanhamento das pessoas com deficiência, a APAE de São Luís, obedecendo à tipificação nacional dos serviços socioassistenciais, implantou como ação de proteção social básica, o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos Familiares e Comunitários, com atividades permanentes e continuadas, voltadas para as famílias de seus assistidos, com atendimento totalmente gratuito, de qualidade e em conformidade com as diretrizes da política de assistência social.
A APAE de São Luís, através de seu Núcleo de Atenção às Famílias – NAF, acolhe, orienta, apoia e acompanha as famílias de seus assistidos, através da implantação e implementação de atividades que contribuíram para a garantia de direitos e a conquista da cidadania, viabilizando o fortalecimento dos vínculos familiares e desenvolve o sentimento de pertencimento, de identidade e incentiva a convivência com a comunidade e o empreendedorismo dela.
Atualmente, como forma de proporcionar a inclusão, o engajamento e o desenvolvimento, além da aprendizagem, estão em andamento, desde 2023, junto a APAE, o projeto intitulado Empreender: qualificação e inserção da pessoa com deficiência e seus familiares no mercado de trabalho. Tem o objetivo de promover a qualificação profissional à pessoa com deficiência e aos seus familiares, possibilitando o desenvolvimento de habilidades e de capacidades criativas e produtivas para o mercado. Esse projeto tem duração de 12 meses e tem o escopo de beneficiar diretamente 300 pessoas e indiretamente mais 600, considerando o público com deficiência e seus familiares.
Assim sendo, observa-se que a APAE de São Luís além de incluir as pessoas com deficiência no mercado de trabalho, desenvolvem-se ações que combatem a exclusão desse grupo social, garantindo a todos oportunidades. Também aos familiares desses grupos vulneráveis, especificamente mães e idosas que acompanham os jovens ou adultos com deficiência são oportunizados com capacitações profissionalizantes, o que pode contribuir para o aumento das suas rendas.
Dessa forma, muitas dessas mães pessoas idosas, que, mesmo com limitações físicas, são incluídas para participarem de um processo inovador que lhes garantem maior oportunidade, além de maior capacitação profissionalizante. Portanto, essa participação das mães, especificamente das idosas, garante a melhoria da renda familiar por meio do empreendorismo.
5.2. Limitações da Pesquisa
Destaca-se como uma das limitações deste estudo o contexto em que foi realizado. Como a pesquisa foi feita em apenas uma organização, não é possível afirmar que os resultados valem para outros ambientes.
Além disso, como se trata de um estudo de análise qualitativa, é importante lembrar que os resultados das análises dos casos não podem ser aplicados a todas as situações ou pessoas de forma generalizada. Além disso, um outro limite, como destaca Machado (2009), está relacionado ao fato de que os participantes podem esconder ou revelar informações de forma parcial. Mesmo com as técnicas usadas na entrevista para tentar diminuir esse viés, a tendência de ocultar informações sempre existe em estudos baseados em narrativas.
5.3. Sugestões de Novos Estudos
Quanto ao empreendedorismo entre os idosos, ainda existem muitas questões que precisam ser aprofundadas. Pesquisas futuras podem explorar de forma mais detalhada os motivos que levam pessoas idosas a iniciarem um negócio, levando em conta fatores como aposentadoria, mudanças na família e o desejo de conquistar maior autonomia financeira.
Outro campo que tem grande potencial é o desenvolvimento de habilidades empreendedoras na fase prateada, especialmente levando em conta a experiência acumulada, a resiliência e as competências socioemocionais. A relação entre inclusão digital e empreendedora também merece atenção, já que aprender a usar as tecnologias pode ser um grande desafio para essa faixa etária.
Além disso, é importante pesquisar como fatores como saúde, redes de apoio e responsabilidades familiares afetam a gestão dos negócios por idosos. Por fim, há uma necessidade de aprofundar estudos sobre políticas públicas, programas de capacitação e linhas de crédito voltadas para a população idosa, contribuindo para criar um ambiente mais inclusivo e que estimule o empreendedorismo na terceira idade.
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1 Mestre em Administração pela Universidade FUMEC
2 Doutora em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).