REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777912752
RESUMO
Este artigo apresenta os resultados de três expedições arqueológicas realizadas em Itapira (SP), entre 1975 e 1976. A pesquisa identificou um palimpsesto de ocupações rurais, abrangendo desde estruturas em taipa de mão (século XVIII) até remanescentes da arqueologia industrial cafeeira e extrativista (séculos XIX e XX). Destaca-se a investigação de um contexto funerário no Morro Pelado, no qual evidências materiais — especialmente numismáticas e vestígios lito-botânicos — sugerem processos de reocupação e violação de sítios. A metodologia integrou prospecção de superfície, análise de cultura material e arqueologia da arquitetura, contribuindo para a compreensão da dinâmica de ocupação e transformação da paisagem no interior paulista.
Palavras-chave: Arqueologia Histórica; Itapira-SP; Cultura Material; Arqueologia Industrial; Morro Pelado.
ABSTRACT
This article presents the results of three archaeological expeditions conducted in Itapira, São Paulo, between 1975 and 1976. The research identified a palimpsest of rural occupations, ranging from wattle-and-daub structures (18th century) to remnants of coffee-related and extractive industrial archaeology (19th and 20th centuries). The study highlights the investigation of a funerary context at Morro Pelado, where material evidence suggests processes of site reuse and disturbance. The methodology combined surface survey, material culture analysis, and architectural archaeology.
Keywords: Historical Archaeology; Itapira-SP; Material Culture; Industrial Archaeology; Morro Pelado.
1. INTRODUÇÃO E HIPÓTESE
O estudo da ocupação histórica no interior paulista evidencia processos de interiorização frequentemente sub-representados na historiografia tradicional. O município de Itapira, situado em zona de transição geomorfológica, preserva vestígios que remontam ao período colonial e à consolidação do Império brasileiro.
A hipótese deste trabalho sustenta que os vestígios identificados nas expedições de 1975–1976 refletem uma transição tecnológica e socioeconômica, marcada pela passagem de um sistema de subsistência e relativo isolamento — associado à taipa de mão — para uma economia integrada de base agroexportadora e extrativista, evidenciada pela cantaria e pela mineração.
Propõe-se, ainda, que áreas de difícil acesso, como o Morro Pelado, tenham funcionado como espaços de memória e práticas rituais sincréticas, preservados pela topografia acidentada.
A dinâmica de ocupação do interior paulista, especialmente a partir do século XVIII, tem sido amplamente discutida na historiografia como parte do processo de expansão territorial e consolidação de economias regionais, intensificado no século XIX com a cultura cafeeira. Estudos como os de Carlos Alberto Cerqueira Lemos destacam a persistência de técnicas construtivas tradicionais, como a taipa de mão, mesmo em contextos de crescente complexificação econômica. Por sua vez, pesquisas no campo da arqueologia histórica do café, como as desenvolvidas por Paulo Eduardo Zanettini, evidenciam a materialidade dos sistemas produtivos e suas implicações sociais. No âmbito das práticas simbólicas e funerárias, João José Reis demonstra como elementos materiais associados à morte refletem sistemas de crença híbridos e dinâmicos. Nesse sentido, o presente estudo dialoga com essa tradição interpretativa ao integrar evidências arquitetônicas, produtivas e rituais.
2. METODOLOGIA
A pesquisa adotou uma abordagem interdisciplinar, articulando procedimentos da arqueologia histórica, da arqueologia da paisagem e da arquitetura vernacular, com base em dados obtidos durante expedições de campo realizadas entre 1975 e 1976.
Do ponto de vista metodológico, trata-se de um estudo de natureza qualitativa, fundamentado na análise de evidências materiais, espaciais e contextuais, com ênfase na interpretação integrada dos vestígios arqueológicos.
As etapas da pesquisa compreenderam:
a) Prospecção de superfície:
Foi realizada varredura sistemática em áreas de vale, encostas e elevações, orientada tanto por critérios geomorfológicos quanto por informações fornecidas por moradores locais. Essa etapa permitiu a identificação preliminar de estruturas, artefatos e áreas de interesse arqueológico.
b) Registro arqueológico e documentação de campo:
Os vestígios identificados foram registrados por meio de documentação fotográfica, descrições técnicas e croquis, priorizando a localização espacial, o estado de conservação e a associação entre elementos estruturais e materiais móveis.
c) Arqueologia da arquitetura:
As estruturas remanescentes foram analisadas com base em suas técnicas construtivas (taipa de mão, cantaria e empilhamento a seco), permitindo a definição de cronologias relativas e a identificação de padrões construtivos associados a diferentes períodos históricos.
d) Arqueologia Industrial e Estruturas Líticas da Pedreira Fortaleza:
A Pedreira Fortaleza revelou-se um dos sítios mais complexos para a compreensão da engenharia lítica e industrial do período imperial. Foi identificado um monumental paredão de pedra, construído com técnica de empilhamento a seco, que servia tanto para a contenção de encostas quanto para a estruturação das áreas de extração. Esta estrutura demonstra um domínio avançado da cantaria e da logística de transporte de grandes blocos de pedra vulcânica/calcária, funcionando como um marco na paisagem industrial de Itapira.
e) Análise de cultura material:
Os artefatos móveis, com destaque para elementos metálicos e numismáticos, foram analisados como marcadores cronológicos e indicadores de circulação econômica, possibilitando inferências sobre a ocupação e o uso dos espaços.
f) Análise contextual integrada:
Os dados obtidos foram interpretados de forma relacional, considerando a articulação entre arquitetura, cultura material, uso do espaço e práticas simbólicas. Essa abordagem permitiu compreender os sítios como parte de uma paisagem cultural dinâmica, marcada por processos de ocupação, reocupação e transformação.
A cronologia dos vestígios foi estabelecida com base em análise tipológica, correlação histórica e associação contextual dos materiais, especialmente artefatos numismáticos e técnicas construtivas.
3. SÍNTESE DOS DADOS
Quadro 1. Síntese das Ocupações e Cultura Material
Localidade | Técnica / Estrutura | Cultura Material | Cronologia | Contexto Socioeconômico |
Vale / Desfiladeiro | Taipa de mão | — | Séc. XVIII | Subsistência e Isolamento |
Morro Pelado | Laje e Cruz | Moeda 1901 / Ferradura | Séc. XIX / XX | Ritualística e Violação |
Pedreira Fortaleza | Paredão Lítico / Lavador Café | Expurgo de café / Grafite | Séc. XIX | Arqueologia Industrial |
Vale do Império | Escadaria e Alicerce | Moeda | Séc. XIX / XX | Doméstico |
4. RESULTADOS E EVIDÊNCIAS
O isolamento do local sugere estratégias de ocupação vinculadas à proteção e ao controle territorial em zonas de fronteira colonial.
Figura 1. Ruínas de taipa em vale de desfiladeiro (séc. XVIII).
Fonte: BUENO, O. C. Arquivo Fotográfico SIFETE (1975).
A investigação concentrou-se na verificação de relatos sobre um sepultamento isolado.
Figura 2. Vista do Morro Pelado.
Fonte: BUENO, O. C. Arquivo Fotográfico SIFETE (1975).
Foi identificada uma laje de pedra trabalhada, associada a fragmentos de madeira com sinais de queima, possivelmente remanescentes de uma cruz funerária. A desordem estratigráfica e a presença de lascas de madeira no interior da fossa confirmam que o sepulcro foi violado antes da chegada da equipe.
Figura 3. Laje sepulcral fragmentada.
Figura 4. Madeira carbonizada.
Figura 5. Moeda de 200 réis (1901).
Fonte: BUENO, O. C. Acervo SIFETE, 1975.
Figura 6. Fragmento de ferradura.
Fonte: BUENO, O. C. Acervo SIFETE, 1975.
O Complexo Cafeeiro: Além do tanque de separação (lavador), a prospecção identificou uma área de expurgo de café. A associação entre lavador e expurgo configura sistema integrado de beneficiamento do café, sendo o expurgo indicador direto da escala produtiva.
Figura 7. Tanque de separação de café na Pedreira Fortaleza.
Fonte: BUENO, O. C. Arquivo Fotográfico SIFETE, 1975.
Figura 8. Expurgo de café na Pedreira Fortaleza
Mineração: A extração mineral adjacente ao paredão reforça a multifuncionalidade do sítio.
Figura 9. Vestígios de uma mina de grafite imperial.
O Paredão de Pedra: Foi identificado um monumental paredão de pedra, construído com técnica de empilhamento a seco, que servia tanto para a contenção de encostas quanto para a estruturação das áreas de extração. Esta estrutura demonstra um domínio avançado da cantaria e da logística de transporte de grandes blocos de pedra vulcânica/calcária.
Figura 10. Pedreira Fortaleza, construção do final do século XVIII.
Figura 11. Estrutura de alicerce e escada de construção doméstica.
Figura 12. Limpeza superficial.
Figura 13. Investigação minuciosa.
Figura 14. Moeda de 200 Réis - 1901.
Detalhe do artefato encontrado entre os tijolos que moldavam os alicerces da casa: uma moeda de 200 réis de 1901 – ARQ-009/76.
5. DISCUSSÃO DOS DADOS COMPARADOS
A inclusão do paredão de pedra e da área de expurgo mais o tanque de separação na análise altera a compreensão da escala econômica de Itapira. O paredão não é apenas funcional; é um símbolo de poder e estabilidade das fazendas imperiais. O expurgo de café, por sua vez, permite inferir a intensidade da atividade agrícola que moldou a ecologia da região. A transição da "fragilidade" da taipa para a "monumentalidade" do paredão de pedra e das casas de tijolos (padrão imperial) marca a consolidação definitiva do Império na região paulista. A recorrência de moedas de 200 réis em contextos distintos (fundação de casa e topo de morro) demonstra como o numerário republicano inicial permeou tanto a economia quanto a cosmologia popular (depósitos votivos e "enterros").
6. CONCLUSÃO FINAL
As expedições de 1975-1976 confirmam Itapira-SP como um importante sítio para a arqueologia histórica paulista. A violação da sepultura no Morro Pelado, embora oculte o dado biológico, revela a persistência de mitos sobre tesouros no imaginário rural. A combinação de práticas domésticas (taipa), rituais (Morro Pelado) e industriais (Paredão da Pedreira e Tanques) forma um conjunto único. O expurgo de café e o paredão lítico são evidências críticas da transformação da paisagem natural em paisagem produtiva.
Referências Bibliográficas:
BUENO, O. C. Relatórios de Campo SIFETE: Expedições I, II e V. Itapira, 1975–1976.
LEMOS, C. A. C. Alvenaria de Taipa. São Paulo: FAU-USP.
REIS, J. J. A Morte é uma Festa: Ritos fúnebres e populações no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras.
ZANETTINI, P. E. Malhas da Escravidão: Arqueologia e História do Café. São Paulo: MAE-USP.
SYMANSKI, Luís Cláudio Pereira. Arqueologia Histórica no Brasil: balanços e perspectivas. Revista de Arqueologia, v. 27, n. 2, 2014.
1 SIFETE – Sociedade de Investigações de Fenômenos Terrestres e Extraterrestres. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-4938-5851. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5254689735843980