OS FESTEJOS CULTURAIS E A CONSTRUÇÃO DO BEM VIVER EM COMUNIDADES RIBEIRINHAS DO RIO MADEIRA-RO

CULTURAL CELEBRATIONS AND THE CONSTRUCTION OF "BUEN VIVIR" IN RIVERSIDE COMMUNITIES ALONG THE MADEIRA RIVER, RONDÔNIA

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/786775330

RESUMO
O presente artigo tem como eixo central compreender como o modo de vida ribeirinho se relaciona com a natureza, constituindo elementos fundamentais do Bem Viver. O modo de produção capitalista imprimiu uma visão de mundo pautada na mercantilização da vida, na individualização e na objetificação das relações entre os seres humanos e destes com o ambiente natural. Esse processo tem obscurecido a percepção dos aspectos simbólicos e significativos presentes nas construções sociais e culturais dos povos originários e das comunidades tradicionais.
Vivenciamos atualmente uma crise ambiental de proporções ainda incertas, marcada pelo agravamento da crise climática e pela intensificação de eventos extremos, o que nos convoca à busca urgente por alternativas. Nesse sentido, os estudos da geografia cultural possibilitam repensar essas questões e visibilizar modos de vida que historicamente se baseiam no equilíbrio, na vivência coletiva e no respeito aos saberes e conhecimentos ancestrais.
Assim, compreendemos que as populações ribeirinhas, caboclas e originárias oferecem importantes indícios de relações com a natureza orientadas pela reciprocidade e pelo cuidado, podendo contribuir para o protagonismo de novos debates sobre as crises ambientais contemporâneas. A cultura, os saberes e os conhecimentos tradicionais emergem, portanto, como caminhos possíveis na construção de alternativas diante dos desafios que se avizinham.
Neste estudo, abordaremos especialmente os festejos culturais como expressão festiva e simbólica desse modo de vida, buscando compreender de que maneira tais práticas articulam o Bem Viver nas comunidades ribeirinhas. A pesquisa terá abordagem fenomenológica e utilizará metodologias de campo como entrevistas, rodas de conversa e grupos focais.
Palavras-chave: Bem Viver; Crise ambiental; Festejos culturais; Geografia cultural; Modo de vida ribeirinho.

ABSTRACT
This article focuses on understanding how the riverside way of life relates to nature, constituting fundamental elements of Buen Vivir (Good Living). The capitalist mode of production has imposed a worldview based on the commodification of life, individualization, and the objectification of relationships between human beings and between them and the natural environment. This process has obscured the perception of the symbolic and significant aspects present in the social and cultural constructions of indigenous peoples and traditional communities. We are currently experiencing an environmental crisis of still uncertain proportions, marked by the worsening of the climate crisis and the intensification of extreme events, which calls us to an urgent search for alternatives. In this sense, studies in cultural geography make it possible to rethink these issues and make visible ways of life that historically are based on balance, collective living, and respect for ancestral knowledge and wisdom. Thus, we understand that riverside, caboclo, and indigenous populations offer important evidence of relationships with nature guided by reciprocity and care, and can contribute to the protagonism of new debates on contemporary environmental crises. Culture, knowledge, and traditional wisdom emerge, therefore, as possible paths in the construction of alternatives in the face of the challenges ahead. In this study, we will especially address cultural festivities as a festive and symbolic expression of this way of life, seeking to understand how such practices articulate Good Living in riverside communities. The research will have a phenomenological approach and will use field methodologies such as interviews, discussion circles, and focus groups. 
Keywords: Good Living; Environmental crisis; Cultural festivities; Cultural geography; Riverside way of life.

1. INTRODUÇÃO

Este estudo está vinculado ao percurso de uma pesquisa em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), inserida no campo da Geografia Cultural e voltada à compreensão dos festejos culturais em comunidades ribeirinhas do rio Madeira, em Rondônia. A investigação busca analisar as dimensões simbólicas e sociais dessas manifestações, articulando-as à construção do Bem Viver no contexto ribeirinho.

Historicamente, festas e festejos constituem práticas fundamentais na organização cultural dos grupos sociais, reunindo significados, valores e simbolismos que expressam identidades coletivas e modos específicos de habitar o espaço. Amaral (1998) destaca que as festas religiosas, por exemplo, desempenharam papel estruturante na formação cultural brasileira, configurando-se como elementos centrais na constituição das tradições e das experiências comunitárias. Assim, a produção dos lugares e das territorialidades está profundamente relacionada às festividades que integram o cotidiano e a memória social de diferentes populações.

No caso das comunidades ribeirinhas amazônicas, observa-se uma construção social marcada pelos ciclos da natureza, pelas atividades extrativistas e por crenças associadas aos processos históricos de ocupação do território. Saraiva (2017) evidencia que, em grande parte das comunidades do Baixo Madeira, os festejos estão fortemente vinculados à religiosidade, revelando conexões históricas e culturais que contribuem para a compreensão das dinâmicas de pertencimento e identidade nesses espaços.

Além das festividades religiosas, há também festejos culturais ligados às tradições locais, às narrativas míticas, às produções agrícolas e à temporalidade própria vivenciada por essas populações. Tais práticas expressam saberes ancestrais e reforçam os vínculos comunitários, constituindo importantes elementos do modo de vida ribeirinho.

A ciência geográfica, por sua vez, possibilita compreender a multiplicidade dos fenômenos sociais em suas dimensões objetivas e subjetivas. Amorim Filho (2007) discute as transformações epistemológicas da Geografia Cultural, ressaltando a ampliação de abordagens que contemplam os aspectos simbólicos, vivenciais e culturais da produção do espaço. Compreender o conceito de cultura, nesse sentido, implica reconhecer os modos de vida, as experiências e os sentidos atribuídos pelos sujeitos às suas práticas cotidianas.

A cultura ribeirinha apresenta características singulares em meio às dinâmicas sociais contemporâneas, sobretudo no que se refere à relação íntima entre os sujeitos e o espaço vivido. Conforme destaca Nascimento Silva, nas comunidades ribeirinhas o espaço permanece profundamente integrado ao modo de vida de seus habitantes, de forma que:

O espaço, nas comunidades ribeirinhas, ainda está muito próximo, ou melhor, está intimamente ligado ao ribeirinho, eles mesmos ainda não perderam completamente o controle desse espaço, onde reconhecem os signos e significados que estão presentes em seu ambiente sem se separarem deles inteiramente, sem transformá-lo essencialmente em mercadorias. (NASCIMENTO SILVA, 2000, p. 94-95).

Embora a paisagem ribeirinha se transforme ao longo do tempo em função de ciclos econômicos e sociais, tais mudanças ocorrem de forma contínua, reorganizando e recriando o modo de vida local. As dinâmicas espaciais e as relações sociais se modificam com a intensificação da ocupação humana, com a implementação de políticas públicas e com as transformações culturais e políticas que atravessam essas comunidades. Contudo, apesar dessas mudanças, a cultura ribeirinha permanece vinculada a um modo de viver diferenciado, sustentado por práticas coletivas e por uma relação específica com a natureza.

Esse contexto conduz à reflexão sobre o Bem Viver e sua articulação com os festejos culturais no universo ribeirinho. Compreende-se que a cultura é simultaneamente construída nas relações sociais e estruturante do viver coletivo. O Bem Viver, por sua vez, fundamenta-se em uma concepção filosófica ligada à cosmologia ameríndia, embora se manifeste, sob diferentes expressões, em diversas culturas e modos de existência (ACOSTA, 2016).

Dessa forma, esta pesquisa busca compreender como os festejos culturais ribeirinhos se incorporam à construção do Bem Viver, considerando os elementos simbólicos e sociais envolvidos no ato de festejar, interagir e fortalecer os laços comunitários.

Nesse sentido, emergem como questões norteadoras: o que significa Bem Viver para as populações ribeirinhas? Como essas comunidades percebem e constroem coletivamente essa noção? As mulheres compartilham a mesma compreensão de Bem Viver? Tais indagações orientam o percurso investigativo proposto neste estudo.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

A fundamentação teórica deste estudo apoia-se na articulação entre a geografia cultural, a fenomenologia e as perspectivas decoloniais. Conforme aponta Claval (2007), a geografia cultural dedica-se a compreender a cultura como um sistema de símbolos, práticas e significados que estruturam a produção do espaço. Nesse horizonte, Tuan (2012) e Relph (1978) evidenciam que o espaço vivido se transforma em lugar a partir das experiências, afetos e sentidos atribuídos pelos sujeitos em sua relação cotidiana com o mundo.

No contexto amazônico, a cultura ribeirinha expressa de forma contundente essa dimensão fenomenológica, uma vez que o espaço do rio, da várzea e da floresta é inseparável da vida cotidiana. Trata-se de uma espacialidade que não se restringe às práticas econômicas, mas envolve festejos, crenças, narrativas e modos próprios de organização social. O rio, nesse sentido, não constitui apenas um recurso natural, mas um ente relacional que orienta temporalidades, deslocamentos e saberes. A fenomenologia da percepção, em Merleau-Ponty (2006), oferece subsídios metodológicos para compreender tais vivências corporificadas, nas quais corpo, espaço e mundo formam uma unidade indissociável.

Essa leitura do espaço vivido dialoga diretamente com as reflexões decoloniais, especialmente com as contribuições de Nego Bispo (2015; 2021), ao problematizar a colonialidade como um projeto histórico que impôs formas hegemônicas de existir, produzir e conhecer. Tal projeto fundamenta-se, entre outros aspectos, na separação entre humanidade e natureza, na privatização da terra e na linearidade do progresso. Para o autor, a colonialidade não se limita ao passado colonial, mas persiste na desqualificação dos modos de vida comunitários, como os ribeirinhos, frequentemente classificados como “atrasados” ou “improdutivos”.

Em contraposição, Nego Bispo propõe a noção de contracolonialidade, compreendida não como uma negação abstrata do colonial, mas como a afirmação concreta de outras formas de viver, organizar o território e produzir conhecimento. A contracolonialidade manifesta-se nas práticas cotidianas de povos e comunidades tradicionais que preservam relações de uso comum da terra, temporalidades próprias e uma ética de coexistência com os ciclos da natureza. Assim, o modo de vida ribeirinho pode ser interpretado como prática contracolonial, na medida em que resiste à mercantilização do território e reafirma vínculos de pertencimento e cuidado com o rio e a floresta.

Pensar o Bem Viver, portanto, implica deslocar o olhar da lógica desenvolvimentista e reconhecer essas experiências como portadoras de racionalidades outras. Para Acosta (2012; 2016), o Bem Viver (Sumak Kawsay) não constitui um modelo fixo, mas um horizonte civilizatório que resgata valores de reciprocidade, coletividade e harmonia com a natureza. Tal perspectiva converge com as reflexões de Alcântara e Sampaio (2017), que discutem o Bem Viver como alternativa às crises ambientais e sociais do capitalismo global, e aproxima-se da contracolonialidade de Nego Bispo ao valorizar práticas territoriais enraizadas, comunitárias e plurais.

Além disso, Lugones (2008; 2014) contribui ao evidenciar a colonialidade de gênero e a necessidade de uma abordagem interseccional, capaz de reconhecer o protagonismo das mulheres ribeirinhas nos processos culturais e territoriais. Nascimento Silva (2000), por sua vez, reforça que a cultura é construída nas relações sociais e permanece profundamente vinculada ao modo de vida singular das populações amazônicas.

Por fim, estudos regionais como os de Saraiva (2007), Gomes (2024) e Reis (2024) ampliam a compreensão das relações entre festejos, ancestralidade e modos de vida ribeirinhos e fronteiriços, articulando dimensões de identidade, religiosidade e territorialidade.

Dessa forma, o referencial teórico mobilizado integra dimensões fenomenológicas, culturais e decoloniais para compreender os festejos ribeirinhos como espaços de resistência simbólica e de construção do Bem Viver.

3. METODOLOGIA

A presente pesquisa adota uma abordagem qualitativa, orientada pelo método fenomenológico, por compreender que o Bem Viver se manifesta nas experiências subjetivas, nas práticas culturais e nas formas de habitar o território. A fenomenologia tem sido amplamente utilizada na Geografia Humana e Cultural como aporte metodológico para a compreensão das vivências, percepções e sentidos atribuídos pelos sujeitos ao espaço e ao lugar.

De acordo com Merleau-Ponty (2006), a fenomenologia possibilita um olhar atento e sensível às experiências do viver, permitindo apreender o mundo tal como ele é vivido e significado pelos sujeitos. Nesse sentido, o método fenomenológico mostrou-se pertinente para compreender os festejos ribeirinhos e as relações simbólicas, sociais e territoriais que se entrelaçam a esse fenômeno cultural. Buscou-se, assim, captar as percepções de homens, mulheres e jovens acerca da identidade comunitária, das práticas festivas e das formas de relação com o espaço vivido.

Técnicas e instrumentos de pesquisa

Como procedimentos metodológicos, foram utilizadas rodas de conversa e grupos focais, por se tratarem de instrumentos que favorecem a construção coletiva do conhecimento e permitem captar significados compartilhados no interior da comunidade. Conforme destaca Gatti (2005), os grupos focais possibilitam identificar percepções, representações e processos de construção da realidade social a partir da interação entre os participantes.

Dessa forma, tais técnicas não se limitam à coleta de opiniões individuais, mas promovem espaços de diálogo coletivo, nos quais emergem narrativas, saberes e experiências que, muitas vezes, não seriam expressos em entrevistas formais. As rodas de conversa foram planejadas como momentos de escuta e troca comunitária, respeitando os tempos, modos de expressão e formas próprias de comunicação dos moradores. Nesses encontros, buscou-se criar um ambiente de confiança, estimulando reflexões sobre práticas culturais, modos de vida e percepções acerca do Bem Viver.

Os grupos focais, por sua vez, permitiram aprofundar questões específicas relacionadas aos festejos culturais, à relação com o território e aos papéis de gênero na organização comunitária, contribuindo para uma compreensão mais densa das experiências coletivas.

Trabalho de campo e perspectiva fenomenológica

O trabalho de campo assumiu papel central nesta investigação, especialmente por se tratar de uma pesquisa de caráter social, cultural e fenomenológico. Em contextos historicamente invisibilizados, como as práticas culturais do espaço rural amazônico e os modos de vida ribeirinhos, a presença em campo torna-se indispensável, pois possibilita a observação participante, o acompanhamento das práticas cotidianas e o reconhecimento de formas próprias de organização e resistência.

Marandola Jr. (2013, p. 108) ressalta que o trabalho de campo, sob uma perspectiva fenomenológica, deve ser compreendido como “um exercício de escuta, um deslocar-se para encontrar o outro em seu mundo vivido”. Assim, mais do que observar, o pesquisador busca estar com ouvir e compreender os sentidos que os sujeitos atribuem ao espaço, à cultura e às relações sociais que estruturam seu cotidiano.

Entrevistas individuais

As entrevistas semiestruturadas também desempenharam papel fundamental, permitindo um diálogo aprofundado com moradores e moradoras das comunidades. Esse instrumento possibilitou compreender histórias de vida, percepções pessoais sobre o Bem Viver, a importância dos festejos e os modos como cada sujeito se relaciona com o rio, a terra e a coletividade.

Destaca-se que as vozes das mulheres foram priorizadas de forma intencional, reconhecendo seu protagonismo na organização comunitária e na transmissão de saberes culturais, bem como sua centralidade na sustentação das práticas festivas ribeirinhas.

Procedimentos de coleta de dados e caracterização dos sujeitos

Até o presente momento, foram realizadas sete entrevistas semiestruturadas (com previsão de ampliação em etapas posteriores do trabalho de campo), envolvendo mulheres, homens e jovens ribeirinhos residentes nas comunidades de Nazaré, Catarina e Boa Vitória. Os sujeitos entrevistados possuem idades entre 15 e 68 anos e exercem diferentes papéis sociais, incluindo lideranças locais, organizadores de festejos, moradores antigos e jovens participantes das atividades culturais.

A escolha dos participantes ocorreu de forma aberta, a partir da convivência na comunidade e do acolhimento dos moradores, considerando-se também a participação ativa nos festejos, o conhecimento sobre as tradições locais e a vivência cotidiana no território ribeirinho.

Localização e caracterização das comunidades pesquisadas

A pesquisa foi desenvolvida em comunidades ribeirinhas situadas às margens do rio Madeira, região marcada pela forte dependência dos ciclos naturais, especialmente os períodos de cheia e seca. As comunidades apresentam organização social baseada em relações de parentesco, vizinhança e cooperação, com atividades econômicas voltadas principalmente para a pesca, a agricultura de subsistência e o extrativismo.

O acesso a essas localidades ocorre predominantemente por via fluvial, aspecto que influencia diretamente a mobilidade dos moradores, a organização social e o calendário dos festejos. O rio, além de via de transporte, configura-se como elemento central da identidade cultural e da vida cotidiana.

Descrição dos festejos estudados

Os festejos analisados consistem em celebrações tradicionais de caráter religioso, cultural e comunitário, realizadas periodicamente nas comunidades pesquisadas. Entre eles, destaca-se o festejo de São Sebastião, na comunidade de Santa Catarina, que envolve celebrações religiosas, momentos de confraternização, partilha de alimentos, músicas, danças e rituais simbólicos transmitidos entre gerações.

Essas festividades desempenham múltiplas funções sociais: fortalecem laços comunitários, reafirmam valores culturais, promovem solidariedade e constituem espaços de resistência frente às transformações socioambientais e econômicas contemporâneas.

Nesse contexto, ressalta-se o protagonismo das mulheres, responsáveis pela articulação das atividades, preparação dos alimentos, organização dos rituais e transmissão de saberes culturais, reafirmando sua centralidade na sustentação das práticas culturais ribeirinhas.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os resultados esperados através desta pesquisa propõem contextualizar o modo de vida de povos ribeirinhos amazônicos, buscando compreender as percepções dos moradores sobre como os festejos contribuem para a manutenção e expressão da identidade cultural da comunidade de Nazaré e de que forma influenciam a interação socioeconômica, a formação de laços comunitários, o fortalecimento de redes de apoio e a resolução de conflitos. Analisa-se ainda como o rio interfere diretamente no deslocamento dos povos e no transporte de recursos, como alimentos, utensílios e alguns produtos industrializados, bem como se descreve de que maneira as mudanças climáticas têm afetado as populações que vivem às margens do rio Madeira, sobretudo nos períodos de cheia e seca.

Os resultados da pesquisa evidenciam que os festejos tradicionais desempenham um papel central na construção e manutenção da identidade cultural das comunidades analisadas. As celebrações reforçam símbolos, narrativas e práticas culturais transmitidas entre gerações, contribuindo significativamente para o fortalecimento do sentimento de pertencimento e para a coesão comunitária. Nesse sentido, a cultura atua como base estruturante do modo de vida ribeirinho, uma vez que, como afirma Nascimento Silva, “a cultura é construída nas relações sociais” (NASCIMENTO SILVA, 2000, p. 23), permanecendo profundamente vinculada às práticas coletivas e ao território.

No que se refere aos laços comunitários e às redes de apoio, os festejos configuram-se como espaços privilegiados de sociabilidade, promovendo relações de solidariedade e cooperação entre os moradores. Observou-se que tais eventos favorecem formas coletivas de organização social e de resolução de conflitos, reforçando práticas de ajuda mútua e reciprocidade que sustentam o tecido social da comunidade.

A dimensão socioeconômica dos festejos, embora não esteja pautada por uma lógica mercadológica formal, revela-se relevante no contexto local. As celebrações mobilizam trocas simbólicas e materiais, circulação de alimentos, compartilhamento de recursos e fortalecimento de redes comunitárias. Esse aspecto evidencia modos de organização que resistem à mercantilização da vida, pois, como aponta Nego Bispo, a contracolonialidade se expressa na afirmação de “outras formas de viver e organizar o território” (BISPO, 2015, p. 52), baseadas no uso comum e na convivência.

Outro aspecto identificado diz respeito à influência das mudanças climáticas na realização dos festejos. As variações entre os períodos de cheia e seca do rio Madeira impactam diretamente a organização, o calendário e a logística das celebrações, exigindo adaptações constantes por parte da comunidade. Esses fatores ambientais demonstram a estreita relação entre natureza, cultura e organização social, evidenciando a vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, a capacidade adaptativa das práticas culturais locais.

A análise da dimensão de gênero aponta que as mulheres desempenham um papel central na manutenção, organização e transmissão dos saberes culturais associados aos festejos. Sua atuação é fundamental tanto na preservação das práticas tradicionais quanto na articulação das redes comunitárias. Esses achados corroboram Lugones (2014), ao evidenciar que a colonialidade de gênero opera historicamente invisibilizando sujeitos, enquanto, na prática ribeirinha, as mulheres assumem funções estratégicas na resistência cultural e na reprodução social.

O Bem Viver, nesse contexto, ultrapassa a ideia de alternativa econômica e se apresenta como uma cosmovisão que orienta modos de vida e resistências. Conforme afirma Acosta, “o Bem Viver não é um modelo de desenvolvimento, mas uma alternativa ao desenvolvimento” (ACOSTA, 2016, p. 14). Assim, os festejos culturais emergem como práticas de reexistência que reafirmam vínculos comunitários frente ao avanço das dinâmicas capitalistas e à crise climática.

As visitas realizadas à comunidade ribeirinha possibilitaram um contato direto com o cotidiano das famílias, revelando diferentes dimensões do que se compreende como Bem Viver nesse território. Por meio das entrevistas com mulheres, lideranças locais e jovens, foi possível perceber que o Bem Viver está profundamente enraizado nas práticas culturais, nas relações de vizinhança e na conexão com o rio e a floresta.

As entrevistas revelaram múltiplas dimensões que compõem o Bem Viver local, evidenciando que se trata de uma construção coletiva, dinâmica e profundamente territorializada. Um dos aspectos que mais se destacaram foi o envolvimento da juventude com as práticas culturais e cotidianas. Muitos jovens expressaram o desejo de manter vivos os costumes herdados dos mais velhos, reconhecendo nesses saberes uma forma de fortalecer a identidade e o sentimento de pertencimento. Assim, a juventude não apenas reproduz, mas também ressignifica práticas culturais, adaptando-as aos contextos atuais sem romper com a tradição.

Outro elemento fortemente presente nas falas dos entrevistados é a relação íntima e cotidiana com o rio. Moradores se reúnem às margens para pescar, banhar-se, conversar ou contemplar a paisagem. O rio transcende a ideia de elemento natural para assumir o lugar de ente relacional: fonte de alimento, espaço de sociabilidade, via de transporte e lugar espiritual.

A comunidade também demonstra forte consciência ambiental e uma relação de reciprocidade com a natureza. As práticas de uso dos recursos naturais são pautadas pelo respeito e pela sustentabilidade, compondo uma paisagem em que natureza e cultura se integram organicamente. Mesmo após grandes cheias que atingiram severamente a região, os moradores reconstruíram seus modos de vida, reafirmando elementos culturais e reorganizando o espaço comunitário. Essa capacidade de reconstrução evidencia a resiliência e o enraizamento cultural do povo ribeirinho, que compreende as cheias como parte do ciclo natural com o qual aprenderam a conviver.

De modo geral, os resultados apontam para uma concepção de Bem Viver que integra território, cultura e natureza em uma rede de significados compartilhados. Como propõe Nego Bispo, trata-se da afirmação de existências que resistem à lógica colonial, pois a contra colonialidade é “uma prática cotidiana de vida” (BISPO, 2015, p. 52). Assim, os festejos ribeirinhos não são apenas eventos culturais, mas expressões vivas de uma ética comunitária e territorial que, em consonância com Acosta, anuncia horizontes civilizatórios alternativos ao capitalismo e à destruição ambiental.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa em andamento tem permitido perceber a existência de uma relação intrínseca entre as pessoas e os elementos naturais que estruturam o território ribeirinho, especialmente o rio e a floresta. Conforme observado até o momento, o estudo lança luz sobre as percepções dos moradores, confirmando o papel crucial dos festejos culturais na manutenção e na expressão da identidade coletiva local.

Os resultados vêm revelando que o Bem Viver ribeirinho está diretamente vinculado à profunda relação com o território e, de modo particular, com o rio Madeira, elemento central na organização da vida cotidiana, na espiritualidade e nas formas de sociabilidade comunitária. A comunidade se reúne diariamente às margens do rio para contemplar o nascer e o pôr do sol, pescar, banhar-se e interagir, demonstrando que o rio transcende a condição de recurso natural e se constitui como parte integrante da memória coletiva e do pertencimento. Trata-se, portanto, de uma relação afetiva e simbólica que sustenta práticas de cuidado e respeito com a natureza, evidenciadas no uso sustentável dos recursos e na preservação das fruteiras e áreas verdes presentes nos quintais das famílias.

Nesse sentido, os modos de vida ribeirinhos expressam racionalidades que desafiam a lógica hegemônica da mercantilização da natureza. Como afirma Acosta, o Bem Viver “não é um modelo de desenvolvimento, mas uma alternativa ao desenvolvimento” (ACOSTA, 2016, p. 14), pois propõe um horizonte baseado na reciprocidade, na coletividade e na harmonia com os ciclos naturais. Essa perspectiva converge com a noção de contracolonialidade de Nego Bispo, ao evidenciar que práticas comunitárias ribeirinhas constituem formas concretas de resistência, uma vez que afirmam “outras formas de viver e organizar o território” (BISPO, 2015, p. 52).

Além disso, destaca-se o protagonismo da juventude na continuidade e renovação das práticas culturais. Jovens se engajam ativamente nos festejos e nas atividades tradicionais, reafirmando sua identidade e, ao mesmo tempo, ressignificando costumes herdados dos mais velhos. Essa participação demonstra que a cultura ribeirinha não está cristalizada, mas em constante movimento, alimentada pela criatividade e pelo compromisso coletivo com a preservação das tradições.

Assim, os festejos culturais emergem como espaços privilegiados de fortalecimento comunitário, transmissão de saberes e construção do Bem Viver, reafirmando vínculos entre cultura, território e natureza. Mais do que eventos festivos, tais celebrações configuram-se como práticas de reexistência que sustentam modos de vida profundamente enraizados no lugar e fundamentais para repensar alternativas diante das crises socioambientais contemporâneas.

Dessa forma, compreender os festejos ribeirinhos como expressão do Bem Viver significa reconhecer que tais práticas não se limitam ao campo cultural ou religioso, mas constituem modos de existência e resistência territorial frente às pressões impostas pela colonialidade e pelo avanço das dinâmicas capitalistas na Amazônia. O Bem Viver, enquanto horizonte civilizatório, desloca a centralidade do desenvolvimento e do progresso linear, propondo outras formas de habitar o mundo baseadas na reciprocidade, na coletividade e no cuidado com a vida (ACOSTA, 2016). Ao mesmo tempo, o modo de vida ribeirinho pode ser compreendido como prática contracolonial, pois afirma temporalidades próprias, usos comunitários do território e relações indissociáveis entre natureza e cultura, tal como defende Nego Bispo ao sustentar que a contracolonialidade é a afirmação concreta de caminhos outros, enraizados nas experiências dos povos tradicionais (BISPO, 2015). Assim, esta pesquisa aponta que os festejos culturais, ao fortalecerem identidades, redes de solidariedade e vínculos com o rio e a floresta, configuram-se como espaços vivos de reexistência e como importantes contribuições para repensar alternativas diante das crises socioambientais contemporâneas.

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