REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778939307
RESUMO
O artigo discute o enfraquecimento do jornalismo cultural no Brasil, olhando especialmente para a redução, ao longo dos anos, de suplementos literários e cadernos especializados nos grandes jornais, algo que vem acontecendo desde a década de 1980. A pesquisa, de caráter qualitativo e baseada em revisão bibliográfica, busca entender como a migração para o digital e a pressão por métricas de engajamento acabaram mudando a forma de produzir conteúdo. Nesse novo cenário, a crítica mais aprofundada acabou cedendo espaço para textos mais rápidos, superficiais e, muitas vezes, com um viés mais promocional. Por outro lado, o estudo também aponta que, mesmo com a perda de protagonismo da imprensa tradicional como principal referência na consagração literária, o ambiente digital abriu espaço para novos mediadores. Influenciadores, blogs e clubes de leitura online passaram a desempenhar um papel importante nesse processo. No fim das contas, o que se observa não é exatamente um desaparecimento, mas uma reconfiguração do jornalismo cultural. Isso exige uma reinvenção: encontrar formas de manter a análise crítica consistente, ao mesmo tempo em que se adapta às novas linguagens digitais, e ainda ampliar a diversidade cultural na forma como a literatura é divulgada.
Palavras-chave: jornalismo cultural; difusão literária; era digital; crítica literária; mediação cultural.
ABSTRACT
This article discusses the weakening of cultural journalism in Brazil, focusing particularly on the reduction, over the years, of literary supplements and specialized sections in major newspapers, a trend that has been occurring since the 1980s. The qualitative research, based on a literature review, seeks to understand how the migration to digital media and the pressure for engagement metrics have changed the way content is produced. In this new scenario, more in-depth criticism has given way to shorter, more superficial texts, often with a more promotional slant. On the other hand, the study also points out that, even with the loss of prominence of the traditional press as the main reference in literary recognition, the digital environment has opened space for new mediators. Influencers, blogs, and online book clubs have come to play an important role in this process. Ultimately, what is observed is not exactly a disappearance, but a reconfiguration of cultural journalism. This requires reinvention: finding ways to maintain consistent critical analysis while adapting to new digital languages, and also expanding cultural diversity in how literature is disseminated.
Keywords: cultural journalism; literary dissemination; digital age; literary criticism; cultural mediation.
1. INTRODUÇÃO
O jornalismo cultural sempre teve um papel importante como ponte entre a produção simbólica e o público. É por meio dele que obras literárias, autores e debates críticos chegam a mais pessoas e ganham visibilidade. No Brasil, porém, esse cenário vem mudando desde os anos 1980. Aos poucos, suplementos literários, rodapés e cadernos dedicados aos livros foram encolhendo nos grandes jornais. Com isso, o espaço para resenhas mais aprofundadas e para a crítica especializada diminuiu bastante, o que acaba afetando diretamente a visibilidade da produção literária nacional e enfraquecendo o debate público sobre literatura. Esse movimento se torna ainda mais preocupante em um país onde o número de leitores já é relativamente baixo e o consumo de livros é limitado. Nessa conjuntura, o jornalismo literário muitas vezes parece sustentar mais uma ideia de prestígio simbólico do que, de fato, contribuir para a formação consistente de leitores. Por isso, entender esse declínio e suas consequências é essencial para pensar os desafios atuais da comunicação, da crítica e das políticas de leitura no Brasil (Souza, 2008; Dines, 2005; Alves, 2007; Assis, 2008).
Diversos estudos indicam que o jornalismo cultural brasileiro atravessa uma espécie de crise de identidade. Trata-se de um campo marcado por instabilidade e, muitas vezes, por resultados pouco satisfatórios. Entre os problemas mais frequentes estão a substituição da crítica por resenhas rápidas e com tom promocional, o excesso de espaço dedicado a agendas e roteiros culturais e a falta de reportagens mais aprofundadas. Além disso, a cobertura tende a privilegiar produtos de grande apelo comercial, deixando de lado análises mais densas. Nesse processo, a crítica cultural, que já teve um papel social mais forte, perde autonomia e profundidade, pressionada por interesses de mercado, pela rotina acelerada das redações e pela concorrência com outras formas de entretenimento. Nesse contexto, a literatura acaba disputando espaço com formatos mais imediatos e atraentes para a lógica da audiência, o que muda o papel do jornalismo cultural como mediador e formador de repertório (Alves, 2007; Assis, 2008; Dapieve,2013).
A chegada do ambiente digital só intensifica essas transformações. Com a migração de leitores para plataformas online e redes sociais, jornais e revistas perderam assinantes e receitas, o que levou a cortes nas redações e ao enxugamento de cadernos especializados, incluindo os de cultura. Ao mesmo tempo, a lógica da rapidez, das métricas de clique e do engajamento passou a influenciar fortemente as decisões editoriais. Conteúdos mais curtos e impactantes tendem a ganhar prioridade, enquanto análises mais longas e aprofundadas acabam ficando em segundo plano. Como resultado, a cobertura cultural passa a ser cada vez mais orientada por critérios de mercado e pela visibilidade nos algoritmos, o que afeta diretamente a forma como a literatura é divulgada e discutida (Ballerini, 2016; Lourenço, 2025).
Por outro lado, esse mesmo ambiente digital que fragiliza economicamente o jornalismo tradicional também abre novas possibilidades. A internet permite a circulação mais ampla de obras e ideias, além de oferecer espaço para textos mais longos, dossiês e formatos experimentais que não caberiam no impresso. No campo literário, surgem blogs, perfis em redes sociais, canais de vídeo e outras iniciativas que aproximam autores e leitores, além de reinventar as formas de crítica e recomendação. Essas novas mediações ajudam a democratizar, em certa medida, a produção de discursos sobre literatura e reduzem a centralidade da imprensa tradicional na construção de prestígio (Bittencourt, 2017; Ballerini, 2016).
Com isso, entram em disputa diferentes visões sobre o que deve ser o jornalismo cultural hoje. De um lado, há quem veja um processo de perda de qualidade e uma crescente submissão a interesses promocionais. De outro, há quem interprete esse cenário como uma reconfiguração, destacando as oportunidades trazidas pela diversidade de vozes e pela interação com o público. Nesse embate, questões importantes vêm à tona: o papel do crítico profissional, a ascensão de novos mediadores digitais, os limites entre informação e entretenimento e o equilíbrio entre responsabilidade editorial e participação do público (Assis, 2008; Lourenço, 2025; Cavalcanti, 2019; Souza, 2008; Alves, 2007; Ballerini, 2016; Bittencourt, 2017).
Partindo desse cenário, este artigo considera que o jornalismo cultural continua sendo um espaço fundamental de mediação entre o campo literário, o mercado editorial e os leitores, ainda que profundamente transformado. O objetivo é analisar esse declínio, especialmente no contexto da imprensa brasileira, com foco na redução dos espaços dedicados à literatura e no enfraquecimento da crítica, além de discutir os impactos dessas mudanças na circulação de obras, autores e debates. Mais especificamente, busca-se mapear as principais interpretações acadêmicas sobre a crise do jornalismo cultural, refletir sobre o papel da digitalização e das novas formas de mediação crítica e discutir as tensões entre mercado, critérios editoriais e a função formativa do jornalismo no incentivo à leitura. De forma mais ampla, a intenção é contribuir para o debate sobre os desafios atuais da crítica literária e das políticas de democratização do acesso à literatura.
Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa qualitativa, baseada em revisão bibliográfica. Foram analisados artigos que discutem a crise do jornalismo cultural, as transformações da indústria cultural na era digital e as novas formas de crítica e leitura mediadas pela internet. O material foi selecionado a partir de periódicos científicos, anais de eventos e observatórios de mídia, e examinado por meio de uma leitura analítico-interpretativa, com organização de categorias temáticas que permitiram articular diferentes diagnósticos e perspectivas.
Além desta introdução, o artigo está dividido em três partes. Na primeira, apresenta-se um panorama histórico do jornalismo cultural no Brasil, com destaque para os suplementos literários e as formas tradicionais de crítica. Na segunda, discute-se o impacto da era digital sobre o modelo de negócios dos veículos e sobre a cobertura cultural. Por fim, a terceira seção analisa os efeitos dessas mudanças na difusão literária, explorando as relações entre imprensa, novos mediadores e práticas de leitura, antes de chegar às considerações finais.
2. JORNALISMO CULTURAL: UM PANORAMA HISTÓRICO
Desde o final do século XIX, o jornalismo cultural brasileiro vem se configurando como um espaço importante para a circulação de ideias, obras e autores. No entanto, é principalmente ao longo do século XX que ele ganha forma mais definida, consolidando-se em suplementos literários, rodapés e cadernos especializados. Quando olhamos para esse percurso, fica claro que a trajetória desses espaços acompanha de perto a própria profissionalização da imprensa no país, os movimentos da indústria cultural e as transformações nas formas de legitimar a literatura no espaço público (Assis, 2008; Barreto, 2006; Barbosa e Maia, 2025).
Em outras palavras, a evolução do jornalismo cultural não acontece isoladamente, mas em sintonia com mudanças mais amplas no modo como a cultura é produzida, divulgada e reconhecida socialmente.
2.1. Origens e Consolidação
Barreto (2006) aponta que, embora o jornalismo cultural tenha suas origens no século XIX, é a partir da década de 1960 que ele realmente ganha força. Um exemplo marcante desse momento é o Caderno B, do Jornal do Brasil, que se tornou referência pela inovação tanto no projeto gráfico quanto na forma de abordar a cultura. Esses espaços reuniam críticos, cronistas e escritores, entre eles, nomes como Clarice Lispector, e ajudavam a consolidar a ideia de que a editoria cultural podia ser um território de experimentação, ousadia estética e debate qualificado sobre bens simbólicos, especialmente a literatura.
Assis (2008) ao analisar os principais aspectos e tendências do jornalismo cultural no Brasil, destaca que essa área se organiza em torno de alguns eixos centrais. Entre eles, estão a distinção, nem sempre clara, entre cultura e entretenimento, a presença de conteúdos variados, a influência da publicidade e da concorrência entre veículos, além do papel da crítica e da formação dos próprios jornalistas. Nesse período de consolidação, os suplementos literários e os cadernos de cultura desempenham uma função decisiva: mais do que informar, atuam como instâncias de consagração. São eles que ajudam a orientar leituras, legitimar autores e estabelecer agendas, reforçando o papel da imprensa como mediadora entre o campo literário e o público.
2.2. Suplementos, Cadernos e Crítica Clássica
Do ponto de vista das formas clássicas de crítica, a imprensa brasileira construiu, ao longo do século XX, uma tradição bastante sólida. Essa tradição vai desde o rodapé ensaístico até a resenha analítica, passando por colunas assinadas que conseguiam equilibrar erudição e intervenção no debate público. Barbosa e Maia (2025) reforçam essa ideia ao tratar a crítica como uma forma de mediação pedagógica, alguém que ajuda o leitor a aprender a ler, interpretar e julgar, inserindo a crítica jornalística em um espaço de troca pública de opiniões, e não como uma prática autoritária.
Quando se discute o jornalismo cultural e a função da crítica, fica evidente esse caráter duplo que a define. Por um lado, ela precisa responder às exigências do fazer jornalístico: prazos apertados, limites de espaço, rotina de redação. Por outro, precisa dar conta da complexidade do objeto cultural que analisa. É justamente essa tensão que faz da crítica uma forma particular de produção intelectual dentro do jornalismo. Ao olhar para esse modelo mais clássico, é possível perceber que os suplementos literários e os cadernos de cultura iam muito além da simples divulgação. Eles funcionavam como verdadeiros espaços de reflexão, onde o jornalismo de livros se aproximava do ensaio e, em certa medida, até do texto acadêmico, mas sem perder a clareza necessária para dialogar com um público mais amplo. Nesse contexto, o chamado “tempo longo” da crítica impressa, muitas vezes semanal ou dominical, fazia toda a diferença. Ele permitia um tipo de leitura mais cuidadosa e uma interpretação mais aprofundada, em contraste com a velocidade de outras editorias. Isso contribuía para uma crítica mais densa, capaz de ir além da superfície e realmente dialogar com a obra e com o leitor (Alves, 2007).
2.3. Crise e Declínio a Partir dos Anos 1980
A partir de meados da década de 1980, diferentes autores passam a apontar, de forma convergente, a existência de uma crise persistente no jornalismo cultural. Dapieve (2013), por exemplo, fala em uma “renovada crise” para descrever um cenário em que a área começa a enfrentar uma espécie de insegurança de identidade: afinal, para quem ela fala? Que obras merecem destaque? E, no fim das contas, a serviço de que interesses ela está? Essas dúvidas surgem em um contexto de expansão da indústria cultural e de transformações importantes no mercado de bens simbólicos, impulsionadas, mais adiante, pela internet. Segundo o autor, a relação “umbilical” entre o jornalismo e a indústria cultural, que em outro momento ajudou a dar força e relevância à editoria de cultura, passa também a gerar efeitos problemáticos, como a pressão mercadológica e uma certa homogeneização das pautas.
Assis (2008) observa que, nesse período, as fronteiras entre cultura e entretenimento vão se tornando cada vez mais difusas. Ao mesmo tempo, cresce a presença de conteúdos de variedades, e a influência da publicidade e da concorrência passa a pesar mais na definição do que é ou não notícia cultural. Na prática, isso se traduz em mudanças bem concretas: os suplementos literários encolhem, o espaço para resenhas mais longas diminui e muitos cadernos de cultura acabam se transformando em guias de consumo, voltados principalmente para eventos e lançamentos de apelo imediato.
Do meu ponto de vista, esse movimento marca uma virada importante. O jornalismo cultural deixa de ser, prioritariamente, um espaço de reflexão mais aprofundada e passa a assumir, em muitos casos, um papel mais próximo de serviço, quase uma agenda cultural. Nesse novo cenário, a literatura precisa disputar atenção com produtos que se encaixam mais facilmente na lógica do espetáculo e da audiência, o que acaba impactando diretamente a forma como ela é tratada na imprensa.
2.4. Reconfiguração na Virada do Século
Na virada dos anos 1990 para os 2000, uma série de fatores contribui para acelerar o declínio dos suplementos culturais impressos. A crise econômica enfrentada pelos grandes jornais, a crescente concentração de mídia e o avanço da digitalização acabam pressionando diretamente esse tipo de espaço. Barreto (2006) chama atenção para o fato de que, nas últimas duas décadas, os cadernos culturais foram se afastando daquela vocação mais experimental e crítica que antes os definia. Em vez disso, passam a adotar uma abordagem mais voltada ao consumo imediato, muitas vezes marcada por análises superficiais, em um contexto em que a cultura está cada vez mais inserida na lógica da chamada “sociedade do espetáculo”.
Esse processo não significa apenas uma redução do espaço físico dedicado à cultura, mas também uma mudança importante de função. O suplemento, que antes funcionava como um lugar de descoberta, de aposta em novos autores e de construção de repertório a longo prazo, passa a atuar mais como uma vitrine ágil, voltada para produtos que já chegam ao público com algum tipo de legitimação prévia no mercado.
Rêgo e Moura (2012) mostram que até mesmo veículos especializados, como Cult, Bravo e Brasileiros, lidam com tensões semelhantes. Entre elas, chama atenção a predominância de certos recortes geográficos, especialmente com foco no Sudeste, além de uma hierarquia de pautas que tende a privilegiar manifestações já consagradas, deixando em segundo plano cenas periféricas ou emergentes.
Na minha leitura, essa concentração de visibilidade acaba reforçando o caráter seletivo do jornalismo cultural. Ao mesmo tempo, os espaços dedicados a uma literatura mais arriscada, como autores iniciantes, editoras independentes ou experiências formais, tornam-se ainda mais limitados. E isso acontece justamente em um momento em que o próprio sistema editorial passa por um processo de diversificação, abrindo novas possibilidades que nem sempre encontram eco na cobertura da imprensa.
2.5. Crítica em Disputa e Meu Ponto de Vista
Faro (2012) aponta que a expansão dos espaços virtuais de análise cultural coloca em xeque o sistema de credibilidade que, por muito tempo, sustentou o jornalismo cultural tradicional. Blogs, redes sociais e plataformas colaborativas passam a disputar a autoridade que antes estava concentrada nos suplementos e cadernos dos grandes jornais. Ao mesmo tempo, a crítica profissional enfrenta um cenário de precarização, pressões comerciais e perda de espaço dentro dos próprios veículos.
Esse diagnóstico é reforçado por estudos sobre o jornalismo cultural e a função da crítica, que indicam um consenso quase generalizado sobre a crise. Artistas, pesquisadores e o próprio público demonstram insatisfação com o modelo atual, o que revela um descompasso evidente entre a promessa formativa do jornalismo cultural e aquilo que, de fato, ele vem entregando na prática. Diante desse panorama, parece claro que o “declínio” dos suplementos literários e cadernos de cultura, especialmente a partir das últimas décadas do século XX, não pode ser entendido apenas em termos quantitativos, como uma simples redução de páginas ou de espaços. Trata-se também de uma mudança qualitativa importante. O que se enfraquece é o lugar da crítica como uma prática mediadora, reflexiva e, em certa medida, contra-hegemônica dentro da imprensa generalista (Alves, 2007).
Ainda assim, reduzir esse cenário apenas à ideia de perda soa simplista. O que se observa, na verdade, é uma reconfiguração do ecossistema de mediação cultural. Funções que antes estavam concentradas na imprensa, como a descoberta de novos autores, a difusão de obras e a formação de repertório, passam a ser desempenhadas por outros agentes, como revistas especializadas, projetos digitais, clubes de leitura e influenciadores literários. Nesse sentido, olhar historicamente para o declínio dos suplementos e cadernos também implica reconhecer um desafio: se o jornalismo cultural quiser se manter relevante, precisará reinventar suas formas de atuação, especialmente no que diz respeito à crítica e à relação com a literatura. Mais do que lamentar um passado considerado glorioso, trata-se de entender as transformações em curso e buscar novos caminhos possíveis.
3. CENÁRIO DA ERA DIGITAL: ANÁLISE DO IMPACTO DA CONVERGÊNCIA TECNOLÓGICA E DAS PLATAFORMAS
A era digital vem reconfigurando profundamente o jornalismo cultural brasileiro. Esse processo envolve a convergência tecnológica, o surgimento de novas plataformas e uma mudança clara nas expectativas do público, impactando desde o modelo de negócios dos veículos até o lugar que a literatura ocupa dentro da cobertura cultural (Ballerini, 2016; Cavalcanti, 2019; Lourenço, 2025; ).
Do meu ponto de vista, esse cenário não pode ser entendido apenas como uma “crise” no sentido mais linear do termo. O que está em curso é, na verdade, uma redistribuição de poderes e funções. Enquanto alguns espaços tradicionais perdem força e visibilidade, outras formas de mediação cultural, mais dispersas e nem sempre profissionalizadas, passam a ganhar relevância e a ocupar esse vazio.
3.1. Modelo de Negócios na Era Digital
Ballerini (2016) ajuda a entender como a internet, depois de um primeiro momento de entusiasmo, quase uma “lua de mel” financeira, acabou levando a perdas progressivas de assinantes e receitas para jornais e revistas. Ao mesmo tempo, o público passou a migrar para fontes gratuitas e plataformas sociais, o que intensificou a pressão sobre os modelos tradicionais de negócio. Esse impacto econômico atinge diretamente editorias vistas como “não essenciais”, entre elas a cultura. Na prática, isso se traduz em cortes de páginas, redução de equipes e, muitas vezes, na transformação dos antigos cadernos culturais em seções mais enxutas, frequentemente dependentes de conteúdo patrocinado.
Cavalcanti (2019), ao discutir o jornalismo cultural na era digital, chama atenção para o papel central que computadores e celulares passaram a ocupar nas formas de sociabilidade. Diante disso, os veículos são praticamente obrigados a reposicionar a produção cultural em ambientes multiplataforma, cada vez mais competitivos, onde disputam a atenção do público com o entretenimento e as redes sociais.
Na minha leitura, esse novo cenário empurra o jornalismo cultural para modelos híbridos de sustentação,como paywalls, assinaturas digitais, newsletters segmentadas e branded content. O problema é que nem sempre esses formatos favorecem uma crítica literária mais densa, que exige tempo e atenção e tende a gerar menos cliques. Como consequência, o investimento acaba sendo direcionado para conteúdos com maior apelo comercial, o que influencia diretamente o tipo de cobertura que ganha espaço.
3.2. Rotinas Produtivas e Lógica do Clique
Lourenço (2005), ao analisar os impactos da digitalização no jornalismo, descreve como a lógica da instantaneidade e da viralização passou a funcionar como uma espécie de nova régua dentro das redações. O ritmo de produção se acelera, as atualizações precisam ser constantes e as métricas de engajamento ganham um peso cada vez maior nas decisões editoriais. Essa dinâmica atravessa também o jornalismo cultural: repórteres e editores passam a trabalhar sob pressão de audiência em tempo real, ajustando títulos, recortes e até a escolha das pautas de acordo com o potencial de clique e compartilhamento.
Ao mesmo tempo, como observa Cavalcanti (2019), o ambiente online cria um “novo lugar” para o jornalismo cultural. Nele, surgem possibilidades interessantes, como a publicação de textos mais longos, o uso de recursos multimídia e uma interação mais direta com o público. Ainda assim, essas oportunidades não anulam as contradições impostas pela chamada economia da atenção, que continua privilegiando conteúdos rápidos e de impacto imediato.
A partir da minha experiência como pesquisador e leitor, o que se percebe é uma transformação significativa nas rotinas produtivas. O trabalho jornalístico passa a incluir, além da escrita, a gestão de redes sociais, a produção de vídeos curtos, podcasts e uma série de conteúdos fragmentados. Com isso, o tempo do profissional se divide entre múltiplos formatos e demandas, muitas vezes em detrimento do tempo de leitura, maturação e reflexão que uma crítica literária mais consistente exige.
3.3. Literatura e Crítica em Plataformas Digitais
Bittencourt (2017) mostra como a internet vem transformando a relação entre obras literárias, leitores e crítica. Com o ambiente digital, surgem novas formas de leitura, circulação e legitimação da literatura, o que acaba exigindo também uma revisão do próprio papel da crítica. Como a autora destaca, as tecnologias digitais pedem “novas maneiras de pensar e conviver” com esse universo, especialmente em contextos marcados pelo hipertexto, pela interatividade e pela fragmentação.
Na minha leitura, esse cenário coloca o jornalismo cultural diante de uma função cada vez mais próxima da curadoria, tentando organizar e dar sentido a um volume enorme de informações e produções. O problema é que, na prática, os limites de espaço, tempo e recursos ainda pesam bastante. Com isso, muitos veículos acabam priorizando autores já consagrados ou fenômenos de venda, deixando de acompanhar de forma mais consistente a diversidade da produção literária contemporânea.
3.4. Reconfiguração do Lugar da Literatura na Cobertura
Lourenço (2025) chama atenção para um aspecto central desse novo cenário: a participação ativa do público. Ao comentar, compartilhar e até produzir conteúdo, os próprios leitores passam a influenciar diretamente o que ganha visibilidade. Com isso, a relevância jornalística começa a se misturar com métricas algorítmicas de engajamento, criando uma lógica em que o que circula mais nem sempre é o que tem maior densidade crítica. No campo da literatura, isso se traduz de forma bastante evidente. Resenhas mais aprofundadas, entrevistas e dossiês passam a disputar espaço com listas rápidas, curiosidades e conteúdos voltados à identificação afetiva, formatos que dialogam melhor com a linguagem das redes sociais do que com a tradição da crítica literária.
Outros estudos sobre crítica literária online, começam a surgir nichos bastante ativos e especializados: sites, blogs, canais de vídeo e projetos de literatura digital que funcionam como novas arenas de debate. Esses espaços, em geral, são mais abertos à experimentação formal e à participação direta dos leitores, o que amplia as possibilidades de circulação e discussão das obras (Augusto, 2010; Bittencourt, 2017).
Na minha perspectiva, esse deslocamento não elimina o papel dos veículos tradicionais, mas relativiza sua centralidade. Se antes jornais e revistas concentravam boa parte do poder de legitimação, hoje esse processo se torna mais distribuído. Influenciadores, clubes de leitura e iniciativas independentes passam a atuar como agentes importantes na difusão e na construção de valor das obras literárias, dividindo esse papel com a imprensa.
3.5. Convergência, Tensões e Possibilidades
Cavalcanti (2019) e Augusto (2010) chamam atenção para o “bônus” que a era digital traz ao jornalismo cultural. Pela primeira vez, há a possibilidade de integrar conteúdos interativos, bancos de dados, acervos digitais, vídeos e links que ampliam a experiência de contato com as artes, inclusive com a literatura. Esse ambiente abre espaço para formas mais ricas e diversificadas de mediação cultural, que vão além das limitações do impresso.
Lourenço (2025) alerta para o outro lado dessa transformação. Há o risco de um jornalismo cada vez mais orientado pela lógica do clique, em que a busca por engajamento imediato acaba empurrando a análise mais aprofundada para segundo plano. Nesse cenário, ganham espaço formatos mais superficiais, muitas vezes guiados por apelo emocional e rápida circulação.
A partir desse conjunto de reflexões, me parece que o impacto da convergência tecnológica e das plataformas digitais sobre o jornalismo cultural é, por natureza, ambivalente. Ao mesmo tempo em que abre possibilidades para renovar linguagens críticas e ampliar a circulação de obras literárias, também pode acelerar o enfraquecimento da crítica especializada dentro dos grandes veículos, especialmente quando a sustentabilidade econômica passa a depender quase exclusivamente de métricas de audiência. Em outras palavras, o lugar da literatura na cobertura cultural digital não depende apenas da tecnologia em si, mas das escolhas políticas e editoriais que orientam esse ecossistema. São essas decisões, tomadas por redações, editoras e diferentes mediadores, que vão determinar se será possível preservar espaços de reflexão mais consistente ou se a cultura acabará reduzida a mais um produto dentro da lógica do entretenimento e da visibilidade algorítmica.
4 EFEITOS DAS TRANSFORMAÇÕES NA DIFUSÃO LITERÁRIA E AS RELAÇÕES ENTRE IMPRENSA, NOVOS MEDIADORES DIGITAIS E HÁBITOS DE LEITURA
As transformações no ecossistema midiático, impulsionadas pela era digital, mudam de forma decisiva a maneira como a literatura circula, ganha legitimidade e chega aos leitores. Nesse cenário, a imprensa tradicional precisa se reposicionar, ao mesmo tempo em que surgem novos mediadores digitais ocupando espaços antes mais concentrados (Bittencourt, 2017; Ballerini, 2016).
Na minha leitura, não se trata apenas de uma mudança de suporte, como a passagem do impresso para o digital. O que está em jogo é algo mais profundo: uma reconfiguração do próprio “circuito da difusão literária”. Questões como quem fala sobre livros, em quais plataformas, com que tipo de autoridade e para quais públicos passam a ser centrais para entender o lugar da leitura hoje.
4.1. Imprensa e Reconfiguração da Mediação Literária
Bitencourt (2017) mostra que a chegada das novas tecnologias de comunicação não apenas transforma as relações sociais de forma ampla, mas também altera, de maneira significativa, as dinâmicas entre obras literárias, leitores e crítica. Ao analisar dados sobre hábitos de leitura e o mercado editorial, a autora sugere que a crítica literária veiculada nos meios tradicionais perde parte de sua centralidade como mediadora quase exclusiva entre o sistema literário e o público. Ao mesmo tempo, passa a ter que “conviver” com um ambiente digital marcado pela interatividade e pela multiplicação de vozes.
Ballerini (2016) destaca que nunca houve tantas possibilidades técnicas para promover, discutir e divulgar produtos culturais quanto no século XXI. Recursos como acervos digitais, links, vídeos e bancos de dados ampliam significativamente a experiência de leitura e crítica, abrindo caminhos para formas mais ricas de mediação. Ainda assim, essa abundância de ferramentas contrasta com um movimento paralelo: o encolhimento dos espaços editoriais dedicados à literatura nos grandes jornais. Com isso, parte importante da mediação cultural acaba se deslocando para fora da imprensa tradicional, ganhando força em outros ambientes.
Do meu ponto de vista, a imprensa deixa de funcionar como um “portão de entrada obrigatório” para a legitimação literária e passa a ocupar o lugar de um entre vários nós em uma rede mais ampla de mediações. Nesse novo arranjo, ela disputa atenção com plataformas digitais, projetos acadêmicos e produtores de conteúdo independentes, o que redefine tanto seu alcance quanto sua autoridade.
4.2. Novos Mediadores Digitais e Crítica em Rede
Faro (2012) analisa a proliferação de espaços virtuais de crítica e mostra como esse movimento coloca em xeque o sistema de credibilidade que sustentava o jornalismo cultural clássico. Blogs literários, sites especializados, revistas digitais e perfis em redes sociais passam a assumir funções críticas que antes estavam mais concentradas em jornais e revistas, muitas vezes sem essa mediação institucional. O resultado é um certo “descentramento” da autoridade crítica.
Nesse cenário, como observa Bitencourt (2017), a crítica literária busca novos caminhos para se afirmar tanto como prática quanto como campo de pesquisa, em meio a formas de leitura e interação cada vez mais marcadas pela lógica digital.
Na minha leitura, esse contexto aponta para uma redistribuição significativa da função de difusão literária. Projetos acadêmicos, clubes de leitura online, booktubers, booktokers, newsletters e coletivos de crítica passam a atuar como mediadores ativos entre livros e públicos. E fazem isso, em geral, por meio de linguagens mais híbridas, afetivas e participativas do que a resenha tradicional, o que amplia as formas de engajamento com a literatura.
4.3. Práticas de Leitura e Participação do Público
Bitencourt (2017) destaca que as novas tecnologias impactam diretamente as práticas de leitura, que passam a ser mais fragmentadas, multimodais e atravessadas por diferentes plataformas de sociabilidade. Nesse cenário, o leitor deixa de ocupar apenas o papel de destinatário e assume uma posição mais ativa: comenta resenhas, produz seus próprios textos críticos, organiza clubes de leitura virtuais, cria listas e recomendações. A difusão dos livros, assim, se transforma em um processo mais colaborativo e distribuído.
Ballerini (2016) aponta que, sob esse ponto de vista, leitores e espectadores tendem a “agradecer” a era digital, principalmente pela diversidade de canais e pela oferta de conteúdos gratuitos, ainda que, do lado dos profissionais, o cenário seja marcado por perdas econômicas.
Na minha leitura, essa ambivalência ajuda a explicar por que a difusão literária hoje funciona de maneira menos vertical. A imprensa continua sendo uma referência importante, mas passa a dividir espaço com pares, influenciadores e comunidades online. Na prática, isso significa que os leitores combinam diferentes fontes antes de decidir o que ler. Como consequência, o poder prescritivo dos jornais se relativiza, enquanto resenhas, listas e recomendações que circulam nas redes sociais passam a ter impacto concreto, tanto nas vendas quanto na consolidação de determinados autores no cenário contemporâneo.
4.4. Disputas, Riscos e Oportunidades
Reunindo as contribuições desses autores, me parece que as transformações digitais produzem, ao mesmo tempo, um movimento de democratização relativa e de fragmentação da difusão literária. Por um lado, há uma ampliação das vozes: mais pessoas e grupos passam a falar sobre livros, formar públicos e disputar espaço, inclusive a partir de regiões e identidades que antes tinham pouca visibilidade na imprensa tradicional. Por outro, essa mesma abertura vem acompanhada de uma fragmentação acentuada. O excesso de ofertas e a falta de um horizonte crítico compartilhado podem favorecer a formação de bolhas de leitura, em que diferentes comunidades circulam seus próprios cânones, com pouca troca entre si (Bittencourt, 2017; Faro, 2012).
Nesse contexto, vejo pelo menos dois riscos importantes. O primeiro é o enfraquecimento da crítica especializada nos grandes veículos, muitas vezes substituída por conteúdos promocionais, listas rápidas e formatos de “serviço” guiados por métricas de engajamento. O segundo é a ideia, um tanto simplificada, de que a presença online dos livros já garantiria uma democratização da leitura, desconsiderando desigualdades de acesso, níveis de letramento e diferenças de capital cultural. Ao mesmo tempo, há uma oportunidade clara. Trata-se de tentar articular o que há de mais consistente em diferentes frentes: de um lado, a responsabilidade editorial e a densidade analítica da imprensa e da academia; de outro, a capilaridade, a criatividade e a proximidade com o público que caracterizam os novos mediadores digitais. A combinação desses elementos pode ajudar a construir redes de difusão mais amplas e, de fato, mais eficazes na formação de repertório de leitura. (Faro, 2012; Ballerini, 2016).
Em síntese, os efeitos das transformações digitais sobre a difusão literária não podem ser reduzidos a uma simples narrativa de perda do jornalismo cultural, embora essa perda seja real em termos de espaço e estabilidade profissional. Talvez seja mais produtivo pensar esse cenário como um campo de disputas contínuas entre imprensa, mediadores digitais e instituições acadêmicas. No centro dessa disputa está uma pergunta decisiva: que formas de mediação queremos fortalecer para que a literatura circule de maneira mais diversa, crítica e socialmente relevante em meio à avalanche de informações do presente? (Rocha, 2021; Bernardini,2024; Bittencourt, 2021).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As reflexões desenvolvidas ao longo deste trabalho apontam para um cenário de profunda reconfiguração do jornalismo cultural brasileiro. O declínio dos suplementos literários impressos, somado à pressão das dinâmicas digitais e à multiplicação de novos mediadores, redesenha de maneira significativa o circuito de difusão da literatura. Se, historicamente, suplementos, rodapés e cadernos de cultura ocuparam um papel central como mediadores entre o campo literário, o mercado editorial e os leitores, articulando crítica, consagração e formação de repertório, hoje essa função passa a ser compartilhada com uma variedade de atores, como revistas especializadas, projetos acadêmicos, plataformas digitais e influenciadores. Esse deslocamento enfraquece o monopólio da imprensa, mas não elimina sua responsabilidade. O que se observa, na verdade, é uma tensão constante entre perda e reinvenção: ao mesmo tempo em que se reduzem espaços e equipes nos veículos tradicionais, surgem novas possibilidades de circulação, experimentação e diálogo, ainda que de forma desigual.
A análise da era digital evidencia que a convergência tecnológica afeta não apenas o modelo de negócios do jornalismo, mas também suas rotinas produtivas e o lugar da literatura dentro da cobertura cultural. A crescente dependência de métricas de clique e engajamento tende a favorecer conteúdos mais rápidos e de apelo imediato, pressionando a crítica literária a ceder espaço a formatos mais promocionais e voltados ao consumo. Por outro lado, autores como Bitencourt mostram que esse mesmo ambiente abre caminho para o surgimento de ecossistemas alternativos: blogs, canais, newsletters e projetos digitais, nos quais leitores e pesquisadores assumem um papel ativo na recomendação e interpretação das obras. Nesse sentido, o desafio não parece ser apenas “salvar” o modelo tradicional de jornalismo cultural, mas pensar formas de articulação entre imprensa, mediadores digitais e instituições acadêmicas que consigam equilibrar acessibilidade, diversidade e densidade analítica.
Os efeitos dessas transformações na difusão literária são, portanto, ambíguos. Há, por um lado, uma ampliação das vozes e uma democratização relativa do acesso à crítica, permitindo que grupos periféricos, independentes e historicamente marginalizados participem mais ativamente do debate público. Por outro, persistem desigualdades importantes de visibilidade, com forte concentração em determinados centros geográficos e circuitos de prestígio. Estudos sobre diversidade cultural mostram que, mesmo quando há abertura para novas manifestações, ainda predomina um foco em eventos e agentes do Sudeste. Isso reforça a necessidade de políticas editoriais mais conscientes, voltadas à descentralização e à inclusão. Um jornalismo cultural que queira se manter relevante hoje precisa reconhecer essas desigualdades como estruturais, incorporando dimensões como raça, gênero, território e classe não como temas pontuais, mas como critérios fundamentais de análise.
Diante desse cenário, alguns caminhos se tornam mais evidentes. O primeiro deles é a recuperação da centralidade da crítica, entendida não como um exercício de autoridade, mas como uma prática de mediação capaz de contextualizar, problematizar e ampliar a leitura das obras. Isso passa pela valorização de formatos mais analíticos, como ensaios, resenhas aprofundadas e dossiês, inclusive explorando as possibilidades multimídia do ambiente digital. Em segundo lugar, é fundamental fortalecer o diálogo entre jornalismo e academia, por meio de parcerias com universidades, grupos de pesquisa e projetos dedicados ao mapeamento da produção literária. Essa aproximação pode enriquecer a cobertura, diversificar repertórios e reduzir a dependência de pautas guiadas exclusivamente pelo mercado editorial.
Um terceiro ponto importante é reconhecer os novos mediadores digitais não como concorrentes, mas como possíveis aliados. Clubes de leitura, criadores de conteúdo, coletivos e projetos independentes podem contribuir para ampliar o alcance e a diversidade da cobertura cultural, desde que essa abertura venha acompanhada de critérios éticos claros, como transparência, distinção entre conteúdo editorial e publicitário e explicitação dos processos de curadoria. Um jornalismo cultural forte, nesse contexto, será aquele capaz de combinar credibilidade e rigor com abertura e adaptação às novas práticas digitais.
Por fim, talvez o principal ponto seja entender que o chamado “silêncio das páginas” não diz respeito apenas ao desaparecimento físico de cadernos culturais, mas a uma disputa mais ampla sobre o lugar da literatura em uma sociedade saturada de informação. Se a imprensa quiser continuar sendo uma mediadora relevante, precisará investir em formação, em projetos de longo prazo, em diversidade e em inovação de formatos, sem abrir mão da complexidade. Em um cenário marcado pela abundância de conteúdos e pela disputa por atenção, um jornalismo cultural comprometido com a reflexão crítica e a pluralidade não é um luxo, mas uma condição essencial para que a literatura continue sendo um espaço de imaginação, questionamento e construção de sentidos compartilhados.
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1 Mestre em Tecnologias Emergentes em Educação pela MUST University. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail