REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778984025
RESUMO
O acolhimento de pacientes com Transtorno do Espectro Autista em unidades de urgência e emergência, destaca a importância da abordagem humanizada, centrada nas necessidades sensoriais, comportamentais e emocionais pela equipe multidisciplinar. A pesquisa teve o objetivo de discutir o acolhimento de pacientes com Transtorno do Espectro Autista em serviços de urgência e emergência pela equipe multidisciplinar. Trata-se de uma revisão integrativa de literatura, de abordagem qualitativa e natureza descritiva, que incluiu 10 artigos publicados entre 2020 e 2024, selecionados nas bases BVS, LILACS, BDENF e MEDLINE, após a triagem de 112 estudos iniciais. Os resultados apontam para a necessidade de capacitação da equipe, protocolos adequados, ambientes adaptados, comunicação clara e participação ativa da família. Conclui-se que aprimorar o acolhimento de pacientes com TEA em urgência e emergência exige mudanças estruturais, treinamento profissional e inclusão das famílias, ao promover o atendimento seguro, eficaz e respeitoso, alinhado aos princípios do Sistema Único de Saúde.
Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista; Acolhimento; Urgência e Emergência; Humanização.
ABSTRACT
The reception of patients with Autism Spectrum Disorder in emergency and urgent care units highlights the importance of a humanized approach, centered on the sensory, behavioral, and emotional needs of the multidisciplinary team. This research aimed to discuss the reception of patients with Autism Spectrum Disorder in emergency and urgent care services by the multidisciplinary team. It is an integrative literature review, with a qualitative and descriptive approach, which included 10 articles published between 2020 and 2024, selected from the BVS, LILACS, BDENF, and MEDLINE databases, after screening 112 initial studies. The results point to the need for team training, appropriate protocols, adapted environments, clear communication, and active family participation. It is concluded that improving the reception of patients with ASD in emergency and urgent care requires structural changes, professional training, and the inclusion of families, promoting safe, effective, and respectful care, aligned with the principles of the Brazilian Unified Health System.
Keywords: Autism Spectrum Disorder; Reception; Urgency and Emergency; Humanization.
1. INTRODUÇÃO
O acolhimento, entendido como prática que garante a escuta qualificada, a responsabilização pelo cuidado e a humanização da assistência, constitui um dos pilares fundamentais do Sistema Único de Saúde (Brasil, 2023).
O tema, portanto, é de extrema relevância social e urgência, uma vez que a atenção aos pacientes com autismo ainda requer aprimoramento para se tornar mais humanizada, inclusiva e eficaz (Carniel; Saldanha; Fensterseifer, 2011).
Essa forma de atendimento considera cada paciente de maneira única, com ética, empatia e inclusão. Para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o acolhimento é ainda mais importante, pois elas têm necessidades especiais de comunicação, interação, sensibilidade e comportamento, que precisam de atenção especial (Camargo; Bosa, 2009).
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento marcada por diferenças na interação social, comunicação e comportamento, além de afetar as funções cognitivas. Os sinais aparecem antes dos dois anos de idade. O diagnóstico considera níveis de suporte necessários, que variam de leve a severo, aos associados a dificuldades na comunicação, interação social e comportamentos repetitivos (Araújo et al., 2022).
O setor de urgência e emergência é tipicamente caracterizado pela natureza imprevisível, grande quantidade de estímulos visuais e sonoros, e a constante necessidade de decisões rápidas. Essas condições podem exacerbar quadros de agitação, ansiedade ou sofrimento em indivíduos com autismo. Essa situação apresenta um problema para os profissionais de saúde, que enfrentam problemas de comunicação, a falta de protocolos adequados e espaços físicos não apropriados (Salgado et al., 2022; Bernardino et al., 2023).
Assim, o acolhimento vai além do atendimento imediato, deve-se incorporar métodos que diminuam os estímulos sensoriais, promovam a antecipação e empreguem formas de comunicação alternativas, sempre em colaboração com familiares e cuidadores (Huber, 2023).
Para garantir um atendimento humanizado a pacientes com TEA, o acolhimento se mostra crucial. Isso abrange tanto o preparo técnico dos profissionais quanto a adoção de ações práticas, como a diminuição de estímulos sensoriais e o emprego de meios de comunicação alternativos (Ortíz et al., 2021). Tais medidas atenuam o desconforto e a ansiedade em momentos de crise, o que garante um cuidado de qualidade, o respeito à individualidade e a preservação da dignidade do paciente.
A escolha do tema Acolhimento de pacientes com autismo em serviços de urgência e emergência surgiu ao notarmos a falta de cuidado adequado e humano para essa população em momentos críticos. A experiência em hospitais mostrou que a ausência de ações direcionadas afeta de forma negativa o tratamento, a integridade do paciente e o bem-estar familiar. Esse cenário nos incentivou a pensar em formas de diminuir dificuldades, amenizar o sofrimento e tornar o atendimento mais acessível (Khoury et al., 2014).
A relevância desta pesquisa mostrar como é preciso melhorar a forma como os serviços de urgência e emergência recebem pessoas com TEA algo muito importante para a saúde pública. Mesmo com leis como o Estatuto da Pessoa com Deficiência e a Política Nacional de Humanização, ainda há diferenças entre o que está escrito e o que acontece na vida real. O estudo quer ajudar a tornar o atendimento mais correto, que inclua e que funcione melhor, ao mostrar a importância do treinar os profissionais para atender a diferentes tipos de pessoas (Camargo; Bosa, 2009).
No contexto do ensino de pós-graduação, o debate do atendimento a pacientes com TEA em emergências é importante para o desenvolvimento de uma postura crítica nos profissionais. Essa discussão aprofunda o conhecimento do inclusão e respeito dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta visa capacitar os estudantes em diversas áreas da saúde, por incentivar as práticas que considerem as diferenças individuais e assegurem os direitos dos pacientes.
Este estudo se justifica pela necessidade urgente de discutir e sugerir formas de aprimorar o atendimento de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em serviços de urgência. A questão é relevante para a prática médica, a formação de profissionais e a igualdade no acesso à saúde, o que colabora para o conhecimento científico e assistência prestada e humanizada (Carniel; Saldanha; Fensterseifer, 2011).
Este estudo tem como objetivo discutir o acolhimento de pacientes com Transtorno do Espectro Autista em serviços de urgência e emergência pela equipe multidisciplinar.
2. METODOLOGIA
Este estudo trata-se de uma revisão integrativa de literatura, de natureza descritiva e abordagem qualitativa, com o objetivo de reunir e analisar publicações científicas o acolhimento de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em unidades de urgência e emergência.
A condução da pesquisa foi orientada pela questão norteadora: Como o acolhimento de pacientes com Transtorno do Espectro Autista em serviços de urgência e emergência pela equipe multidisciplinar? Essa pergunta guiou o processo de seleção e análise dos estudos, que garantiu foco nos aspectos mais relevantes para compreender como a assistência humanizada é aplicada a essa população.
A pesquisa foi realizada em bases de dados nacionais e internacionais disponíveis na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PubMed, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Base de Dados em Enfermagem (BDENF) e Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE).
Para este estudo, selecionamos artigos completos publicados entre 2020 e 2024, em português ou inglês, que tratam do atendimento de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em serviços de urgência e emergência, o que prioriza o acesso gratuito, livros, manuais, cartilhas, revisões e publicações que não focam diretamente nesse tema foram excluídos.
A busca foi realizada por meio da combinação dos seguintes descritores controlados, baseados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “Transtorno do Espectro Autista”, “Acolhimento”, “Serviços de Urgência”, “Serviços de Emergência” e “Humanização da Assistência”.
Foram inicialmente identificados 112 estudos, dos quais 18 duplicados foram removidos, que restou 94 para triagem. Após a análise de títulos e resumos, 57 foram excluídos e incluiu 37 para leitura completa. Durante a leitura integral, 27 artigos foram descartados por apresentarem conteúdo inadequado, não estarem disponíveis na íntegra ou por se tratar de revisões de literatura. Dessa forma, 10 artigos científicos foram considerados elegíveis e incluídos na revisão integrativa, no corpo de análise deste estudo.
Os dados extraídos foram organizados e sintetizados de forma clara e objetiva, ao visar as evidências atualizadas e relevantes que possam subsidiar reflexões e práticas voltadas ao acolhimento humanizado de pessoas com TEA em contextos emergenciais.
3. RESULTADOS
A análise dos 10 artigos que compuseram esta revisão integrativa evidenciou um conjunto de informações relevantes ao acolhimento de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em unidades de urgência e emergência.
Os estudos ressaltaram múltiplos aspectos que influenciam a qualidade da assistência, entre eles a necessidade de humanização do cuidado, a capacitação contínua da equipe, a adoção de estratégias de comunicação efetiva, a adequação do ambiente hospitalar e a participação ativa da família no processo de atendimento.
Na atuação da equipe multidisciplinar, a recepção adequada considerou a necessidade de atender às particularidades comportamentais e sensoriais dos pacientes com TEA. Destacou-se, em especial, o papel da enfermagem, serviço social, cuja atuação é fundamental para garantir um acolhimento sensível às particularidades comportamentais e sensoriais desses pacientes.
Entretanto, os resultados também apontaram desafios recorrentes, como a carência de formação específica, a ausência de protocolos institucionais eficazes e as limitações estruturais do ambiente hospitalar, que comprometem a efetividade do atendimento e a segurança do paciente. A seguir, apresenta-se uma síntese dos principais achados, categorizados de acordo com os temas emergentes da análise.
Quadro 1 – Síntese dos achados do acolhimento de pacientes com TEA em urgência e emergência
Autor(es) | Ano | Título | Objetivo | Principais Achados |
Bennemann e Brum | 2024 | Adaptações no atendimento de emergência para crianças com TEA | Analisar práticas de acolhimento em emergências pediátricas envolvendo TEA | Necessidade de reduzir estímulos sensoriais; presença da família; capacitação dos profissionais |
Eduardo et al. | 2021 | Desafios no atendimento de pessoas com TEA na urgência | Identificar barreiras enfrentadas por profissionais da saúde no atendimento de pessoas com TEA | Falta de preparo técnico; dificuldade em orientar familiares; necessidade de capacitação continuada |
Silva et al. | 2021 | Humanização do cuidado ao paciente com TEA | Avaliar como a humanização impacta o cuidado de pacientes com TEA | Relação de confiança reduz ansiedade e resistência; comunicação empática é essencial |
Estevão | 2023 | Acolhimento baseado na resiliência familiar | Discutir o papel da família no acolhimento em emergências | Participação ativa dos pais melhora a qualidade do cuidado; ambiente hospitalar inadequado aumenta o estresse |
Bernardino et al. | 2023 | Impacto do ambiente hospitalar em pacientes com TEA | Avaliar os efeitos do ambiente físico no comportamento de pacientes autistas | Luzes intensas e barulho agravam sintomas; necessidade de adaptações sensoriais |
Harvey et al. | 2023 | Navegadores de cuidado: facilitadores do atendimento a crianças com TEA | Examinar o papel dos enfermeiros navegadores no acolhimento hospitalar | Redução de ansiedade; melhoria na comunicação e transição do cuidado |
Nicholas et al. | 2020 | Abordagem centrada na família em atendimentos emergenciais | Avaliar os efeitos da abordagem centrada na família no atendimento de TEA | Cuidados compartilhados aumentam adesão; envolvimento da família é crucial |
Alves et al. | 2020 | Práticas humanizadas no cuidado de enfermagem a pacientes com TEA | Refletir sobre a humanização da enfermagem no atendimento ao TEA | Técnicas de conforto devem ser aplicadas com empatia e sensibilidade |
Mapelli et al. | 2020 | Atendimento diferenciado a pessoas com autismo em emergências | Discutir a necessidade de protocolos específicos | Atendimento deve ser adaptado; profissionais precisam reconhecer as particularidades sensoriais e comportamentais |
Huber et al. | 2023 | Comunicação eficaz com crianças autistas em emergências | Investigar estratégias de comunicação com crianças com TEA | Comunicação clara, uso de cuidadores como mediadores, linguagem lúdica e adaptada |
Fonte: Autores (2025)
Com base nos dados apresentados na Quadro 1, foram realizados levantamentos que permitiram identificar tendências comuns entre os estudos selecionados. Nota-se que, apesar da diversidade metodológica e de enfoques, os trabalhos se complementam ao evidenciar a importância de ajustes no ambiente hospitalar, da capacitação das equipes e do envolvimento da família no processo de cuidado.
Para diminuir a ansiedade e ajudar o paciente a seguir o tratamento, notamos que é sempre bom reduzir o barulho, falar de forma clara e simples e atender de um jeito mais humano. Ao mesmo tempo, os estudos mostram que faltam regras claras e os profissionais nem sempre estão prontos para lidar com emergências de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A análise dos resultados indica que o acolhimento não se resume à disponibilidade de recursos; ele depende muito mais da qualidade e da integração das práticas dos profissionais, em conjunto com a família, desempenha um papel chave neste processo.
4. DISCUSSÕES
Para atender adequadamente indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em unidades de urgência e emergências, os profissionais devem ir além do conhecimento técnico e adotar uma abordagem sensível e focada no paciente (Camargo; Bosa, 2009).
De acordo com Bennemann e Brum (2024) mostram que, devido às sensibilidades sensoriais dessas pessoas, pequenas mudanças no ambiente hospitalar como diminuir o excesso de luzes e sons podem ajudar a prevenir sobrecarga emocional e agitação. Isso mostra que a qualidade do atendimento depende não só dos procedimentos realizados, mas também da capacidade da equipe de entender e respeitar as necessidades de cada paciente, que usou métodos que promovam um cuidado mais humano e inclusivo (Khoury et al., 2014).
Os autores enfatizam que o acolhimento de pacientes com TEA em serviços de urgência e emergência não se limita à atuação da equipe de saúde, sendo essencial fortalecer a participação da família no processo de atendimento.
O envolvimento dos familiares contribui para uma compreensão mais precisa das necessidades, preferências e padrões de comportamento do paciente, que facilitou intervenções mais seguras e eficazes. Paralelamente, destacam a importância de aprimorar a capacitação da equipe de saúde, ao garantir que os profissionais estejam preparados para conduzir o acolhimento de forma adequada e humanizada (Orrú, 2012).
Outro aspecto relevante é a observação do uso de dispositivos de suporte, como aparelhos auditivos ou recursos respiratórios, pois estes podem interferir na comunicação e na administração de medicamentos, que exige atenção especial para evitar riscos e promover um cuidado individualizado que respeite as particularidades de cada paciente. Assim, um acolhimento adequado combina os aspectos clínicos com o respeito às singularidades do paciente autista, ao garantir segurança, conforto e dignidade durante o atendimento emergencial (Alves et al., 2020).
Nesse contexto, é fundamental que profissionais da área da saúde reconheçam essas particularidades no cuidado integral. Alves et al. (2020) ressaltam que a humanização envolve ajustar o tratamento às necessidades individuais de cada paciente, por considerar tanto aspectos físicos quanto emocionais. Da mesma forma, Mapelli et al. (2020) defendem protocolos específicos para o atendimento de pessoas com autismo, a fim de prever e manejar adequadamente situações como o uso de dispositivos de apoio.
Analisar esses fatores ajuda a combinar aspectos técnicos com uma atenção mais humana. Como mostram Huber et al. (2023), usar formas de comunicação adaptadas, com a ajuda de familiares ou cuidadores, é essencial para lidar com dificuldades e diminuir o estresse em emergências. Desse modo, ao invés de ver os aparelhos de suporte como problemas, a equipe pode considerá-los como parte da vida do paciente com TEA, o que melhora o atendimento ao juntar segurança médica, bem-estar emocional e respeito ao paciente (Carniel; Saldanha; Fensterseifer, 2011).
Os resultados revelam que o atendimento de pessoas com (TEA) em serviços de urgência e emergência apresenta elevado grau de complexidade, uma vez que envolve não apenas a dimensão clínica, mas também fatores sensoriais, cognitivos e comunicacionais próprios dessa condição (Silva, 2012).
O excesso de estímulos ambientais, como sons intensos, luminosidade exagerada e movimentação constante, pode desencadear reações de ansiedade e agitação, o que dificulta a realização de procedimentos básicos. Paralelamente, as dificuldades de interação e linguagem frequentemente associadas ao TEA impõem barreiras adicionais à equipe, que precisa encontrar meios alternativos para transmitir orientações e estabelecer vínculos de confiança em tempo reduzido (Khoury et al., 2014).
A falta de protocolos claros e o treinamento insuficiente dos profissionais de saúde são problemas importantes. Eles aumentam a insegurança da equipe e o sofrimento emocional dos familiares, que frequentemente precisam ajudar na comunicação. Estudos mostram que usar recursos como materiais visuais, linguagem simples e instruções diretas, junto com a participação ativa dos cuidadores, pode melhorar o atendimento, diminuir riscos e tornar as ações mais previsíveis (Huber et al., 2023; Nicholas et al., 2020).
Cada paciente é um ser único, e o que funciona para um pode não ser ideal para outro. Portanto, um acolhimento eficaz envolve a criação de um plano de cuidados personalizado, que inclua os cuidadores e a família (Nicholas et al., 2020; Estevão, 2023). A comunicação clara, a preparação do ambiente, a diminuição de estímulos sensoriais e a presença de profissionais qualificados são aspectos cruciais nesse processo (Huber et al., 2023; Bernardino et al., 2023).
A literatura aponta que intervenções simples, como o acolhimento prévio pelo cuidador, instruções claras e objetivas dos procedimentos, e a criação de protocolos de manejo da agitação, contribuem significativamente para a segurança e o bem-estar do paciente, além de reduzir a sobrecarga emocional da equipe de saúde (Huber et al., 2023; Camargo; Bosa, 2009).
O acolhimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em serviços de urgência e emergência exige uma atenção diferenciada, que vá além do atendimento técnico convencional. Trata-se de reconhecer que esses indivíduos apresentam necessidades singulares, relacionadas sobretudo à sensibilidade a estímulos, à forma de interação e à maneira como compreendem o ambiente que os cerca. É preciso reconhecer que esses indivíduos possuem necessidades únicas, ligadas à sensibilidade a estímulos, à interação e à compreensão do ambiente. A aplicação de protocolos gerais pode não ser suficiente, sendo essencial a capacitação específica dos profissionais de saúde.
Nesse cenário, o treinamento da equipe deve ir além das técnicas clínicas, que abrange habilidades de comunicação, sensibilidade e relacionamento. É preciso entender como o paciente se expressa de outras maneiras, interpretar os sinais não verbais e criar um ambiente acolhedor que respeite o tempo e o espaço individual (Mapelli et al., 2020).
Estudos mostram que usar comunicação clara e adaptada, diminuir estímulos visuais e auditivos e criar rotinas previsíveis pode diminuir a ansiedade e evitar agitação, o que aumenta a segurança durante os procedimentos (Harvey et al., 2023).
Outro aspecto fundamental é o ambiente hospitalar, frequentemente marcado por movimentação intensa, alarmes sonoros e luminosidade elevada. Esses fatores, comuns em emergências, podem causar sobrecarga sensorial em pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que dificulta a colaboração e aumenta o risco de crises emocionais. Ações simples, como ajustar a luz, diminuir o barulho e oferecer áreas calmas, podem ajudar o paciente a se adaptar e melhorar o atendimento (Orrú, 2012).
O envolvimento da família ou dos cuidadores é fundamental, ao fornecer informações valiosas e auxilia na mediação das interações. Além disso, Harvey et al. (2023) destacam o que facilitam a transição dos cuidados, estabelecem padrões que reduzem a ansiedade e previnem alterações comportamentais, o que promove um acolhimento mais eficaz e seguro.
O acolhimento de pacientes com TEA nas unidades de urgência e emergência deve reconhecer e fortalecer a resiliência familiar, ao destacar o protagonismo dos pais e o valor do conhecimento das especificidades dos filhos (Estevão, 2023).
Quando se trata de atender pessoas com TEA e familiares nos serviços de Urgência e Emergência, é fundamental reafirmar a importância do cuidado universal no Sistema Único de Saúde (SUS). Os profissionais precisam reconhecer a demanda por atenção como algo legítimo, ao se dispor a realizar uma avaliação que seja tanto qualificada quanto acolhedora. Em situações emergenciais, os profissionais devem compreender que indivíduos com autismo possuem necessidades especiais. Assim, o atendimento precisa ser diferenciado aos pacientes sem autismo (Mapelli et al., 2020).
Nesse contexto, fica claro que o sucesso no atendimento de emergência a pacientes com TEA depende de vários fatores que estão interligados. Cada paciente é único, e por isso é importante usar estratégias específicas, como abordagens lúdicas para facilitar a comunicação, adaptar o espaço físico às necessidades e desenvolver um plano de cuidados que seja compartilhado com toda a equipe multiprofissional e com os familiares (Nicholas et al., 2020).
Na assistência a pacientes com autismo, é fundamental lidar com a agitação e as dificuldades de comunicação com cuidado e atenção, ao utilizar estratégias como a redução do tempo de espera, a comunicação clara e direta e a mediação dos cuidadores (Huber et al., 2023). O ambiente hospitalar, especialmente a emergência com barulho, luz intensa e grande circulação, pode aumentar a agitação (Bernardino et al., 2023; Estevão, 2023). Por isso, é importante criar um espaço mais calmo, para minimizar estímulos que causem desconforto.
Outra constatação relevante diz respeito à capacitação profissional. Muitos profissionais demonstram dificuldades em identificar sinais de desconforto, estresse ou dor em pacientes com TEA, o que pode resultar em subnotificação de sintomas e atrasos no diagnóstico de condições agudas. Nesse sentido, investir em treinamento específico para o reconhecimento de comportamentos atípicos, estratégias de desescalada de crises e técnicas de comunicação adaptada mostrou-se essencial para garantir a qualidade do atendimento (Eduardo et al. (2021).
Observou-se, ainda, que o envolvimento ativo dos cuidadores durante o processo é fundamental, pois estes indivíduos possuem conhecimento único nos sinais e necessidades do paciente, sendo mediadores indispensáveis para a eficácia do cuidado (Eduardo et al. (2021).
Nos ambientes onde as práticas de acolhimento são marcadas pela estrutura e pela humanização, o quadro é claro: os pacientes vivenciam menos estresse e os procedimentos essenciais seguem com agilidade e precisão. Tal evidência revela que direcionar recursos à formação contínua da equipe, ao redesenho do espaço físico e à construção de protocolos customizados gera duplos retornos, o que melhora a vivência do paciente e, de outro, na operacionalidade da unidade de emergência (Camargo; Bosa, 2009).
Conforme Silva et al. (2021), a adoção de uma abordagem mais humanizada no atendimento a pacientes com Transtorno do Espectro Autista contribui significativamente para o fortalecimento da relação de confiança entre esses indivíduos e os profissionais. Essa postura favorece a criação de um ambiente mais acolhedor e seguro, o que reduz a resistência dos pacientes à realização de exames e procedimentos, que promove um atendimento mais eficaz e tranquilo (Silva, 2012).
O cuidado humanizado vai além da simples atenção ao paciente, que busca compreender e respeitar as particularidades e o contexto em que se encontra. No caso específico de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa abordagem demanda estratégias adicionais, voltadas para minimizar desconfortos e barreiras durante o atendimento. Mais do que empatia, é necessário que os profissionais de saúde utilizem técnicas adaptadas que favoreçam a comunicação, a previsibilidade das ações e o conforto do paciente, ao promover uma experiência de cuidado segura e acolhedora (Alves et al., 2020).
Dessa forma, o atendimento se torna efetivamente individualizado, alinhado aos princípios da prática humanizada e contribuir para a qualidade e eficácia do cuidado prestado (Orrú, 2012).
Com base nos resultados, torna-se fundamental que as instituições de saúde adotem políticas específicas e ajustem o ambiente para garantir acolhimento adequado a pacientes com TEA em urgência e emergência. A escuta ativa, a redução de estímulos, a capacitação profissional e a participação da família são pilares para um cuidado seguro, eficaz e humanizado (Silva, 2012).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa identificou estudos que abordam o acolhimento de pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nas unidades de urgência e emergência, ao evidenciar que ainda há uma necessidade significativa de aprimoramento, especialmente no que diz respeito à formação e capacitação das equipes. A escassez de estudos específicos do tema reforça a urgência de expandir as pesquisas, com o objetivo de implementar práticas assistenciais mais adequadas, humanizadas e sensíveis às particularidades desses pacientes.
Ficou claro que um acolhimento adequado vai muito além do conhecimento técnico; é preciso também ter sensibilidade para entender as particularidades sensoriais, comportamentais e emocionais de pacientes com TEA. Estratégias como diminuir os estímulos sensoriais, manter uma comunicação direta e clara, envolver ativamente os familiares e criar protocolos adaptados são essenciais para garantir um atendimento que seja seguro, eficaz e respeitoso.
Além disso, a equipe desempenha um papel crucial nesse processo. Eles estão próximos dos pacientes e têm a capacidade de coordenar o cuidado, apoiar as famílias e intermediar a comunicação com os outros membros da equipe multidisciplinar. Para que o atendimento às pessoas com TEA se alinhe verdadeiramente aos princípios de equidade e dignidade promovidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é vital investir na formação contínua e fortalecer as políticas públicas que priorizam a inclusão e a humanização da assistência.
Com o aumento dos diagnósticos de TEA e a demanda crescente por atendimentos emergenciais, este estudo enfatiza a urgência de mudanças estruturais e de atitude nos serviços de saúde. É essencial investir em formação, adaptar os espaços físicos e valorizar as experiências das famílias para assegurar não apenas a eficácia do atendimento, mas também o respeito aos direitos humanos dessas pessoas.
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1 Especialista em Terapia Intensiva do Centro Universitário Celso Lisboa, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Especialista em Terapia Intensiva do Centro Universitário Celso Lisboa, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: aryanepribeiro2gmail.com
3 Especialista em Terapia Intensiva do Centro Universitário Celso Lisboa, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Doutorando em Gestão em Saúde, Integralize Corporation Educação, Florianópolis, SC, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Especialista em em gestão de saúde, Universidade Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Especialização em Educação continuada e permanente em enfermagem, Instituto Facuminas, Coronel Fabriciano, MG, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Doutoranda em Enfermagem, Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
8 Graduando em Nutrição, Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
9 Especialista em Atenção Psicossocial, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
10 Especialização em Enfermagem Psiquiatria e Saúde Mental, Escola de Enfermagem Anna Nery/ UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
11 Mestrado Profissional em Centro Cirúrgico, Centro Universitário Plínio Leite, Niterói, RJ, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
12 Especialista em Terapia Intensiva, Centro Universitário Augusto Motta, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
13 Mestre em Desenvolvimento Local, Centro Universitário Augusto Motta, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
14 Especialista em em MBA Gestão de Saúde e Administração Hospitalar, Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail