REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779716193
RESUMO
Este trabalho tem como tema “Os Saberes do camponês e a Educação Matemática no Campo”. A questão que o norteia coloca-se na medida em que a matemática escolar é trabalhada nas escolas do campo de maneira que não referência os saberes usados e mantidos nas práticas produtivas/culturais do aluno camponês. Nesse sentido, objetivou-se analisar os saberes presentes nas práticas produtivas da Vila de Tamatateua a fim de refletir acerca da Educação Matemática nas escolas do campo. Os sujeitos da pesquisa são os alunos do Ensino Médio da Escola Patalino, residentes na comunidade. Para isso, foram analisados os saberes existentes nas práticas produtivas da comunidade e as metodologias de ensino utilizadas nas aulas de matemática na escola. Tendo em vista a concepção do saber como algo socialmente construído pode-se promover no ambiente escolar a interface entre a cultura do camponês e a escolarização na disciplina de matemática. Dessa forma, o saber na matemática (saber matemático) deve ser reconhecido pelos alunos do campo como diálogo entre a sua cultura e a escola. Como mecanismo para análise dos saberes matemáticos do camponês da Vila de Tamatateua tem-se a Etnomatemática. Segundo D’Ambrósio (2011) ela define-se como um programa de pesquisa, podendo ser denominado de Programa Etnomatemática. Isso porque tem como grande motivadora a busca por o entendimento do saber/fazer matemático ao longo da história humana, em diversos grupos distintos. Tendo em vista o reconhecimento das práticas produtivas/culturais do campo como ponto de interface para a educação matemática. Sendo o saber matemático parte do saber camponês buscou-se desenvolver essa pesquisa de forma a produzir um ensino de matemática nas escolas do campo para o intermédio entre o “popular” e o “erudito” no ambiente escolar. Diante de situações rotineiras, o camponês desenvolve conhecimento construído a partir dos ensinamentos geracionais e obtidos pela experiência. A pesquisa demonstrou que a partir dos saberes matemáticos dos alunos pode-se abrir um enorme campo de abordagem metodológica para os conteúdos do Ensino Médio, tais como, álgebra em problemas relacionados a produção agrícola da mandioca, e na geometria por meio do cálculo de volume de sólidos geométricos nos utensílios utilizados na produção de farinha de mandioca. No entanto, percebeu-se um ensino pouco articulado com esses saberes nas aulas de matemática. O retorno da pesquisa se fez na possibilidade de proporcionar uma Educação Matemática voltada aos sujeitos do campo, valorizando o saber camponês e demonstrando a importância de articulação entre conhecimentos.
Palavras-chave: Primeira Palavra; Segunda Palavra; Terceira Palavra; Quarta Palavra.
ABSTRACT
This work focuses on "The Knowledge of the Peasant and Mathematics Education in Rural Areas." The guiding question arises from the fact that school mathematics is taught in rural schools in a way that does not reference the knowledge used and maintained in the productive/cultural practices of rural students. In this sense, the objective was to analyze the knowledge present in the productive practices of the village of Tamatateua in order to reflect on Mathematics Education in rural schools. The research subjects are high school students from the Patalino School, residents of the community. To this end, the knowledge existing in the community's productive practices and the teaching methodologies used in mathematics classes at the school were analyzed. Considering the conception of knowledge as something socially constructed, it is possible to promote, in the school environment, the interface between peasant culture and schooling in the subject of mathematics. In this way, mathematical knowledge should be recognized by rural students as a dialogue between their culture and the school. Ethnomathematics is a mechanism for analyzing the mathematical knowledge of the peasants in the village of Tamatateua. According to D’Ambrósio (2011), it is defined as a research program, which can be called the Ethnomathematics Program. This is because its main motivation is the search for an understanding of mathematical knowledge/practice throughout human history, in various distinct groups. This considers the recognition of productive/cultural practices in the countryside as an interface point for mathematics education. Since mathematical knowledge is part of peasant knowledge, this research aimed to develop a mathematics education program in rural schools that mediates between the "popular" and the "erudite" in the school environment. In routine situations, the peasant develops knowledge built from generational teachings and gained through experience. The research demonstrated that, starting from students' mathematical knowledge, a vast field of methodological approaches can be opened for high school content, such as algebra in problems related to cassava agricultural production, and geometry through the calculation of the volume of geometric solids in the utensils used in cassava flour production. However, it was observed that teaching was poorly articulated with this knowledge in mathematics classes. The research yielded the possibility of providing a mathematics education geared towards rural subjects, valuing peasant knowledge and demonstrating the importance of articulating different areas of knowledge.
Keywords: First Word; Second Word; Third Word; Fourth Word.
1. INTRODUÇÃO
A educação voltada à inserção dos saberes dos educandos na construção do trabalho pedagógico, bem como da concepção de educação onde esse educando torna-se predecessor dos interesses para sua própria escolarização são fatores que colocam o papel da escola e o do professor como mediadores para a liberdade da construção do conhecimento. Um conhecimento que deve ser voltado, acima de tudo, para a valorização individual e coletiva da identidade dos sujeitos nela envolvidos.
Este trabalho tem como tema “Os Saberes Matemáticos e a Educação Matemática no Campo”. A questão que norteia o tema se coloca na medida em que a matemática escolar, muitas vezes, é trabalhada nas escolas do campo de maneira que não referência os saberes usados e mantidos nas práticas produtivas/culturais do povo camponês.
A discussão em torno dos saberes se coloca dentro de uma concepção de educação voltada para a valorização dos educandos do campo. Tendo em vista o reconhecimento das práticas produtivas/culturais do campo como ponto de interface para a educação matemática na escola do campo. “Compartilhar os saberes da tradição no âmbito escolar é mais que um regaste histórico cultural. É reconhecer e valorizar conhecimentos que retratam uma história do passado e do presente e que faz refletir criticamente o futuro [...]” (LUCENA, 2005, p. 22).
Nesse contexto de valorização, há a possibilidade de que, no ambiente escolar, quando o aluno reconhece que seu saber é também reconhecido/valorizado pela escola. Este projeto pretende analisar a relevância dos saberes matemáticos nas práticas produtivas/culturais da Vila de Tamatateua como suporte para a Educação Matemática na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Patalino.
Os sujeitos da pesquisa são os alunos do Ensino Médio da Escola Patalino, residentes na Vila de Tamatateua. A pesquisa tem como objetivo analisar os saberes presentes nas práticas produtivas da Vila de Tamatateua para fazer uma reflexão acerca da Educação Matemática nas escolas do campo. Para tanto foi preciso avaliar dois pontos: Primeiramente deve-se reconhecer os saberes existentes nas práticas produtivas da comunidade; O segundo ponto se resume na análise de como está sendo dado o ensino da matemática na Escola Patalino. Esses dois pontos servirão de base para refletir sobre o processo de ensino e aprendizagem da disciplina matemática nas escolas do campo.
A pesquisa se justifica pela necessidade do reconhecimento/valoriração do saber do homem do campo. Sendo o saber matemático parte do saber camponês busca-se desenvolver essa pesquisa de forma a desenvolver um ensino de matemática nas escolas do campo para fazer o intermédio entre o “popular” e o “erudito” no ambiente escolar. O retorno da pesquisa se faz na possibilidade proporcionar uma Educação Matemática Voltada aos sujeitos do campo, valorizando o saber camponês e demonstrando a importância de articulação entre conhecimentos
2. METODOLOGIA
A abordagem utilizada nesta pesquisa foi a qualitativa, e mostra sua relevância dentro da área da Educação Matemática quando busca analisar fenômenos de ordem social. “A abordagem qualitativa, também chamada pesquisa naturalística, tem como foco entender e interpretar dados e discursos, mesmo quando envolve grupos de participantes” (D’AMBRÓSIO, 2010, p. 10). Segundo Chizzotti (2003, p. 221)
O termo qualitativo implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que consistem em objetos de pesquisa, para extrair desse convívio os significados visíveis e latentes que somente são perceptíveis a uma atenção sensível e, após este tirocínio, o autor interpreta e traduz em um texto, zelosamente escrito, com perspicácia e competência científicas, os significados patentes ou ocultos do seu objeto de pesquisa.
Nessa perspectiva essa proposta se coloca dentro uma análise do processo de Educação Matemática do camponês. Sendo assim, a pesquisa irá abranger desde os fatores externos ao ambiente escolar, as práticas produtivas da comunidade de Tamatateua, até o processo de escolarização dos alunos na disciplina de matemática. Analisando os sentimentos dos alunos dentro dessa escolarização e visando propostas de atividades para serem aplicadas dentro da sala de aula, tendo em vista a valorização do saber do camponês dentro do processo de abordagem dos conteúdos na escola.
Sendo uma comunidade com práticas na agricultura familiar, a Vila de Tamatateua faz parte do Município de Bragança, Nordeste Paraense. Pertence a Microrregião Bragantina e conta com uma população de aproximadamente 1700 habitantes (dados obtidos junto a secretaria de planejamento do município), “pertence à região dos Campos de Baixo do Município Bragantino, estando ao norte da Cidade de Bragança, localizada num ramal à esquerda da PA-458 (Bragança/Ajuruteua), a 17 km da sede” (OLIVEIRA apud HIRATA, 1999).
Suas famílias têm seu sustento baseado na subsistência, mediante a coleta de caranguejo-uçá, na agricultura familiar (predominância na agricultura do feijão (Vignaunguiculata) e da mandioca (Manihotesculenta), mas há também a presença, em menor quantidade, do cultivo de tabaco e milho) e na produção da farinha de mandioca. Mesmo que em pequena escala existem de outras atividades produtivas, como é o caso da criação de algumas espécies de ruminantes (búfalos e gado) nas áreas de pasto e campos naturais.
Para o desenrolar da pesquisa foram feitos levantamentos e consultas bibliográficas a respeito da Educação do Campo, Etnomatemática, Problemas no ensino e aprendizagem na Educação Básica, algumas discussões sobre o Saber do aluno para auxiliar no processo de ensino e aprendizagem da matemática na escola. Nessa fase da pesquiso a, foi indispensável catalogação de fichamentos para a redação do trabalho final. Essa etapa serviu de suporte para a obtenção de material teórico e metodológico para a realização da pesquisa, no entanto ela esteve presente em todas as etapas da pesquisa, sempre que houve necessidade.
Na busca do reconhecimento dos saberes foram realizadas pesquisas de campo junto a Vila de Tamatateua para observar as práticas produtivas da comunidade. Isso, com o intuito de reconhecer dentro dessas práticas os saberes nelas implícitos. Os saberes serão o ponto de partida para o desenvolvimento da análise acerca da presença da matemática no cotidiano do camponês, para poder relacioná-los a dinâmica dos conteúdos da disciplina de matemática na Escola Patalino.
Durante a pesquisa de campo foram usados como instrumentos coletas de dados questionários e modelos entrevistas semiestruturado. Os questionários foram aplicados com perguntas abertas aos alunos do Ensino Médio para que seja possível verificar os sentidos dos mesmos sobre a disciplina de matemática na escola. Para entender a perspectiva dos docentes foram feitas entrevistas com os professores de matemática objetivando conhecer os problemas encontrados por eles no processo de ensino e aprendizagem. Mediante o exposto, buscou-se formas de amenizar os problemas com a aprendizagem da matemática pelos alunos do campo, bem como as dificuldades encontradas pelos professores ao lecionarem no campo.
Após a pesquisa de campo, a aplicação dos questionários com os alunos e as entrevistas com os professores fez-se necessário definir conteúdos que serão trabalhados com os alunos camponeses da Escola Patalino. Para isso será levado em consideração tanto o saber do camponês quanto o conteúdo curricular da disciplina de matemática. Assim podendo relacionar o saber com a Matemática na sala de aula, priorizando a representação desse saber e a possibilidade de interação na sala de aula.
Após definir os conteúdos houve a instrumentalização de metodologias de abordagem dos conteúdos. Para tanto, buscou-se metodologias que abordem situações cotidianas a vida do camponês de Tamatateua para que os conteúdos sejam mais próximos possíveis da realidade. Assim, tornando exequível a aplicação de atividades e o desenvolvimento do aprendizado. Sendo o conteúdo exposto de uma maneira claramente relacionada ao convívio do aluno, possibilitará o interesse do aluno para aprendizagem da matemática através da aplicação de atividades com a utilização das práticas produtivas presentes na Vila de Tamatateua.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos questionários e das entrevistas demonstrou que os alunos não compreendem bem os conteúdos de matemática. Mesmo que essa dificuldade não seja exclusiva na Escola do Campo, uma vez que a matemática se tornou uma disciplina considerada, por muitos alunos da Educação da Básica, difícil de entender e sem aplicabilidade na vida cotidiana.
Na sala de aula, a matemática como disciplina pode apresentar-se para o aluno como algo que transpassa um saber socialmente construído. Se esse aluno entende a matemática dessa forma, de certo modo, pode-se dizer que a escola construiu essa concepção nesse aluno. Assim, percebeu-se a necessidade de refletir sobre como a matemática é significada para o aluno. Para além disso, percebeu-se a emergência da busca por uma ressignificação da matemática na escola do campo.
Consequentemente, foi possível perceber que ressignificar o ensino da matemática no campo assume o papel da valorização do saber camponês, da matemática desenvolvida pelos povos do campo. Ao passo que a matemática como educação assume esse papel na escola do campo ela possui a necessidade de integrar os saberes, os saberes desenvolvidos fora da escola com os saberes que devem ser desenvolvidos a partir da escola. Estabelecendo uma relação de interação entre o que se conhece com o que é possível conhecer.
Essa busca da análise do saber precede a necessidade do reconhecimento de que todos, independentemente da cultura ou grau de instrução, desenvolvem conhecimento. Isso é relevante, pois a Vila de Tamamtateua, assim como diversas outras comunidades do campo, passam a ter seus conhecimentos desvinculados da referência científica. Ao falar nos saberes, essas populações podem distanciar-se da técnica universal - do que se tornou legítimo socialmente -, mas isso não quer dizer que não estejam usando matemática. E assim, de acordo com D’Ambrósio (2011, p. 80)
Chegamos a uma estrutura de sociedade, a conceitos perversos de cultura, de nação e de soberania, que impõe a conveniência e mesmo a necessidade de ensinar a língua, a matemática, a medicina, as leis do dominador aos dominados, sejam esses índios ou brancos, pobres ou ricos, crianças ou adultos.
Até aqui, podemos concluir que essa legitimação, nada mais é do que uma busca pela universalização da técnica, da globalização do método. Decorrente disso o conhecimento matemático parece não se dissociar do erudito, como se não fosse possível fazer e pensar a matemática sem decorar os seus teoremas e as suas leis de existência. “O que se questiona a agressão dignidade e à identidade cultural subordinados a essa estrutura” (D’AMBRÓSIO, 2011, p. 80).
Mediante a entrevista com os professores, foi observado que eles alegaram não ter formação específica para lecionar na perspectiva da Educação do Campo. Quando perguntados sobre a necessidade de inter-relacionar os saberes matemáticos dos alunos ao conteúdo programático, demonstraram também ter dificuldades. Mesmo que apresentaram qualificação específica para a matemática, o desenvolvimento metodológico para aliar saberes matemáticos e saberes escolares dentro da disciplina de matemática era um problema.
Assim, a questão da Educação Matemática no Campo não se refere apenas à aprendizagem, mas também se reflete no ensino. Sendo que na escola, o ensino aprendizagem da matemática é cercado por dificuldades, tanto para os professores, quanto para os alunos.
Os alunos acreditam que a matemática perde a função ao sair da escola. O professor classifica os alunos como desinteressados, e que não sentem vontade de aprender. Mas qual é a principal motivação para o desenvolvimento de um aprendizado significativo?
A cada dia, novas tendências para melhorar o ensino aprendizado da matemática vêm sendo discutidas. Como anseio, sentem a necessidade de priorizar o conhecimento que o aluno traz do lado de fora dos portões da escola. No entanto, a grande problemática vista pelos educadores e educadoras da área se baseiam na tentativa de inter-relacionar o abstrato e o concreto para que os alunos entendam os conteúdos. Para muitos matemáticos, àqueles que vivem inteiramente a matemática pura e sistematizada, não parece ser possível estabelecer uma relação sucinta entre o concreto-abstrato.
Por mais que as ideias matemáticas tenham partido da explicação e/ou organização do real, elas se fixam e se desenvolvem no pensamento de modo abstrato, ou seja, para entender essas ideias não é preciso interpretar o real, mas reconstituir sistematizações matemáticas já estabelecidas e assumidas. As leis e teorias que estruturam a matemática respondem as suas próprias necessidades, como se não pudesse existir matemática fora da técnica universal e legitimada, sem uma estrutura definida, sem sistematizações. De acordo com D’Amore (2007) essa problemática se estabelece na modernidade e é seguida por uma frase de Euclides segundo a qual não existem caminhos reais para a matemática. Sendo essa frase, ao longo do tempo, relacionada a vários significados. Em um deles, atribui como única maneira de aprender a Matemática, a repetição e o exercício. Ou seja, o professor não precisa fazer outra coisa se além de repetir seus teoremas e os estudantes apreendê-los.
Os grupos que se encontram excluídos dessas sistematizações, como é o caso dos agricultores de Tamatateua, tem seu saber/fazer matemático desprezado mediante a sociedade, e mesmo que atualmente esse saber tenha espaço nas discussões sobre Educação Matemática, como exemplo, o Programa Etnomatemática, muitos ainda não encontram espaço no ambiente escolar, na Matemática Escolar.
Mediante tudo o que foi exposto e para esclarecer o posicionamento que o texto assume quanto ao erudito, em nenhum momento julgamos que os professores tenham que esquecer o erudito dentro da sala de aula, pelo contrário, mas consideramos que o saber matemático pode proporcionar ao educando sua iniciação para a matemática escolar. Um olhar pessoal que pode abrir portas para novos conhecimentos.
Nessa perspectiva, após conhecer melhor a cultura agrícola da comunidade, foram apresentadas atividades de matemática no conteúdo de Geometria, especificamente no volume de sólidos geométricos. A seguir, será apresentada uma das atividades realizadas com os alunos.
Uma das atividades surge da seguinte pergunta: quantos litros de mandioca ralada podem ser armazenados na gamela? Os conteúdos abordados nela são de geometria, no assunto de volume do tronco de pirâmide. A atividade iniciou com a apresentação da gamela (utensílio usado para armazenar a mandioca ralada) (figura 01).
Figura 01: Gamela
Em seguida, os alunos tiveram que medir a gamela (figura 01), por meio de uma aula de campo na casa de um dos alunos que era agricultor. Após medir a gamela, foram encontras as suas dimensões descritas na figura 02:
Figura 02: As dimensões da gamela
Visualizando a figura 02, percebeu-se a semelhança da gamela com o tronco de uma pirâmide de base retangular. Dessa forma, planificação da gamela a partir de um tronco de cone conforme mostra a figura 03:
Figura 03: Planificação do tronco de pirâmide
Assim, partindo da fórmula do tronco de pirâmide e dos dados obtidos através das dimensões da gamela foi possível conseguir os valores de A’ (área da base maior) e A” (área da base menor), conforme descrito na figura 04:
Figura 04: Dados para cálculo do volume do tronco de pirâmide
Durante a atividade, foi percebido pelos alunos que a profundidade da gamela não havia sido medida durante a aula de campo. O problema foi discutido com a turma e percebeu-se que, com os dados obtidos, era possível encontrar a profundidade da gamela sem que fosse necessário retorna a casa de farinha. Para isso fizeram a seguinte referência (figura 05):
Figura 05: Planificação do tronco de pirâmide
As figuras acima demonstra a planificação de um paralelepípedo, dessa forma podemos usar o cálculo da diagonal de um paralelepípedo para encontra a altura (h) Sendo D² = a² + b² + c² , onde a, b e c são as arestas do paralelepípedo, temos (figura 06):
Figura 06: Cálculo da altura h
Após encontrar valor de h, foi possível encontrar o volume da gamela por meio da fórmula do tronco de pirâmide (ver figura 07).
Figura 07: Cálculo do volume da gamela
Sabendo que 1m³ equivale a 1000 L, podemos afirmar que a gamela apresentada tem a capacidade de 140L de mandioca ralada (0,14×1000 =140 L). Dessa foi possível que os alunos calculassem o volume de um tronco de pirâmide, partindo de uma situação problema que envolvesse a sua cotidianidade e seu saber matemático.
Nesse sentido, se a escola priorizar a matemática como uma ciência sem relação ao saber camponês, ela pode não demonstrar o saber como uma forma de matemática. Por esse motivo, muitos alunos não reconhecem que o saber matemático pode fazer parte da Matemática Escolar.
Durante aula atividade, alguns alunos confessaram sentir dificuldades em realizar alguns cálculos. No entanto, demonstraram entusiasmo no decorrer da atividade. Mesmo sendo notória a dificuldade dos alunos na disciplina de matemática. A atividade possibilitou a apresentação de um modelo pedagógico para as aulas de matemática tendo como ponto de partida a resolução das atividades pelos alunos, demonstrando que o saber matemático é um saber também constituído dentro do ambiente escolar.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nossas considerações nos levam ao questionar como está sendo efetuada a Educação Matemática no Campo. Para isso, foi importante ter como referência a amplitude da concepção de Educação do Campo, dessa forma nossa análise permeou tanto o espaço escolar quanto o espaço extraescolar.
O aluno do campo trabalha na agricultura e estuda na escola, e nas mais diversas situações usa matemática. Pensando nisso, ele deveria compreender o saber matemático como um saber escolar. A dualidade existente entre os saberes (Matemática × agricultura) estabelece-se através de relações de poder dentro do ambiente escolar. Marco de encontros culturais, essas relações são construídas nas inter-relações entre as “trocas” de conhecimentos, no caso dos alunos da Escola Patalino, através da relação escola × agricultura.
A diferença entre os saberes se apresenta devido ao fato do saber escolar ser contundente aos moldes dedutivos e do saber matemático ser construído aos moldes indutivos. As problematizações empíricas no saber matemático, se confrontam com a matemática escolar, na medida em que a matemática como ciência não permite correspondências.
As atividades demonstram que no momento da utilização das técnicas de resolução dos alunos, os conteúdos matemáticos não conseguiram ser inter-relacionados no processo. Isso vem se mostrando, cada vez mais nas escolas, devido a maioria das pessoas demonstrarem aversão pela Matemática, pelo simples fato de não entendê-la por não achá-la interessante, consequência da abstração das leis e teorias da matemática, do modelo de conhecimento legitimo que a cerca.
Por esse motivo, esperamos que as atividades possam possibilitar alternativas pedagógicas para outros professores na busca da interação entre saberes. Para que os alunos do campo possam reconhecer que é possível que esses dois saberes caminhem juntos, mostrando o valor do saber matemático para o aluno e também como o saber escolar pode ser um fator contribuinte para a vida do mesmo.
As análises nos mostraram também que os alunos agricultores sentiam dificuldades em alguns conteúdos escolares, como por exemplo, a multiplicação e divisão, porém durante a resolução das atividades eles conseguiram construir respostas com resultados satisfatórios. Durante a aula teórica alguns alunos disseram que seria bem mais rápido resolver as atividades com o uso dos conteúdos escolares, mas segundo eles, durante a resolução das atividades eles não conseguiam associar os problemas aos conteúdos.
As atividades possibilitaram a apresentação de um modelo pedagógico para as aulas de matemática tendo como ponto de partida a resolução das atividades pelos alunos, demonstrando que o saber matemático é um saber também constituído dentro do ambiente escolar.
A disciplina matemática pode tornar-se desnecessária para o aluno, que acaba não conseguindo compreender sua aplicação na vida. Tal afirmação nos remete a reconfiguração da maneira de ensinar e aprender a Matemática nas escolas do campo. A aplicabilidade da Matemática pode nunca ser entendida pelo aluno, sem que fatores étnicos, sociais e culturais façam a significação da disciplina para ele. Assim o aluno poderá reconhecer na Matemática suas práticas cotidianas, o que contribuirá para o entendimento da necessidade da Matemática para o seu dia-a-dia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHIZZOTTI, Antônio. A pesquisa qualitativa em ciências humanas e sociais: evolução e desafios. Revista Portuguesa de Educação, Universidade do Minho, Braga, Portugal,v. 16,n. 002, p.221-236, 2003.
D’AMBRÓSIO, Ubiratan. Prefácio. In: BORBA, M. C.; ARAÚJO, J. L. Pesquisa Qualitativa em Educação Matemática. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.
D’AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática: elos entre as tradições e a modernidade. 4ª ed. 1 reimp. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011.
D’AMORE, Bruno. Elementos de Didática da Matemática. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2007.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido, 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
HIRATA, M. F. TDI de estabelecimento agrícola: Mobilização do funcionamento agrícola familiar da comunidade de Tamatateua/ Bragança. 1999. Dissertação (Especialização em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável).
LUCENA, Isabel Cristina Rodrigues de. Educação Matemática, Ciência e Tradição: tudo no mesmo barco. Natal: UFRGN, 2005. (Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Programa de Pós-Graduação em Educação).
MOLINA, Mônica Castagna. Educação do Campo e pesquisa: questões para reflexão. In: _____(Org.). Educação do Campo e pesquisa: questões para reflexão. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário, 2006.