REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779644999
RESUMO
Esta pesquisa surge a partir de uma inquietação quanto ao estudo sobre verbetes no Ensino Fundamental – Anos Finais. Para isso, apresentamos alguns apontamentos de análise em torno do livro didático “Araribá conecta português: 6º ano” usado em escolas do município de Imperatriz-MA. Além dos pontos relevantes quanto ao processo de ensino-aprendizagem no âmbito da lexicografia, pensamos em novas formas de diálogo entre a ciência que descreve e estuda o léxico, relacionando-a com o Abecedário de Deleuze e com a Semântica de Contextos e Cenários (SCC), assim proporcionando novos rizomas. Além de ampliar o repertório de palavras e os mecanismos criativos dos estudantes no ambiente escolar, nos interessou entender como o estudo sobre verbetes e a filosofia deleuziana são capazes de despertar nos estudantes potências criativas quanto aos conteúdos escolares. A pesquisa realizada tem como natureza metodológica a abordagem qualitativa e análise documental dos dados. Autores como Deleuze e Guattari (2011), Gualandi (2003), Ferrarezi Jr. (2008), Henriques (2018), Santos e Castiglioni (2018), dentre outros, auxiliaram na discussão teórica deste artigo.
Palavras-chave: Livro Didático; Ensino fundamental; Lexicografia; Verbetes; Abecedário deleuziano.
ABSTRACT
This research emerge from concerns regarding the study of dictionary entries in Elementary School – Final Years. To this end, we present analytical points regarding the textbook "Araribá conecta português: 6º ano" used in municipal schools of Imperatriz-MA. In addition to relevant points regarding the teaching-learning process within the scope of lexicography, we consider new methods of dialogue within science that describes and studies the lexicon, relating it to Deleuze's Alphabet and the Semantics of Contexts and Scenarios (SCS), thus providing new rhizomes. Furthermore, other than expanding students' vocabulary and creative mechanisms in the school environment, we were also interested in understanding how the study of dictionary entries and Deleuzian philosophy can awaken creative potential in students regarding school content. The research performed has a qualitative approach and documentary data analysis as its methodological nature. Authors such as Deleuze and Guattari (2011), Gualandi (2003), Ferrarezi Jr. (2008), Henriques (2018), Santos and Castiglioni (2018), among others, contributed to the theoretical discussion in this article.
Keywords: Textbook; Elementary education; Lexicography; Entries; Deleuzian alphabet.
1. INTRODUÇÃO
Este artigo surge a partir de inquietações quanto ao saber cotidiano quando visto diante do processo educativo, intermediado pelo Livro Didático (LD). Diante das possibilidades de ir e vir, e ao (re)pensar em formas de dar significação para nossa linguagem, nos deparamos com os pressupostos deleuzianos, em um constante processo de devir, a fim de propor novas linhas de fuga aos estudantes do Ensino Fundamental – Anos Finais no ambiente escolar.
As atividades desenvolvidas em torno do estudo sobre verbetes são múltiplas dentro da proposta didático-pedagógica desenvolvida na sala de aula. Conforme foram se constituindo, as teorias nos possibilitaram novos devires-educação a partir de rizomas criativos a serem apresentados aos estudantes diante desse gênero em específico, no caso, o verbete.
No LD em uso, os conteúdos nos dão a chance de trabalhar a partir dos verbetes, por exemplo, a percepção sobre os conceitos semânticos da Língua Portuguesa, vistos sob a ótica deleuziana, mais especificamente, a maneira como o Abecedário de Deleuze pode ser ponte para um diálogo que amplie as atividades propostas no material didático. Mas, neste momento, não nos ancoraremos nas significações semânticas ou dos fenômenos, apenas faremos menções, a fim de indicar as possibilidades de diálogo, um dos pontos que farão parte do diálogo é como a teoria semântica, mais especificamente a vertente da Semântica de Contextos e Cenários (SCC), pode facilitar essa aborgadem, em busca do sentido, a qual estamos nos propondo.
Ao pensarmos por meio da diferença deleuziana, podemos ir além do uso tradicional do dicionário quando os verbetes são apresentados em sala, pensando em como os indivíduos, professor e aluno, por meio de agenciamentos (encontros) podem produzir outros conhecimentos.
Dessa maneira, temos como objetivo analisar como o estudo de verbetes pode ser ampliado e ressignificado por meio do diálogo entre lexicografia, semântica e o abecedário de Gilles Deleuze, propondo novas possibilidades pedagógicas para o ensino de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental – Anos Finais.
Para desenvolver este breve estudo, faremos a análise de uma atividade sobre verbetes, conforme indicamos em nosso objetivo, presente no livro didático “Araribá Conecta” (Paiva, 2022), componente curricular de Língua Portuguesa, usado em escolas do município de Imperatriz-MA.
Iremos pensar em possibilidades de ampliar a proposta do liro didático (LD), partindo dos conceitos sobre léxico e lexicografia, em busca de rizomas/linhas de fuga/desterritorialização, como aponta Deleuze e Guattari (2011), visando a perspectiva docente, a fim de perceber novas formas de dar significado à língua, por meio de possibilidades de criação que podem produzir diferenças a partir de acontecimentos no ambiente escolar.
Por esse motivo, diante dessas questões, foi inevitável que andássemos esse território, da semântica e do léxico, e passássemos pelo processo de desterritorialização e reteritorialização. Temos como intenção olhar o que temos (no caso a atividade presente no livro didático em uso) e enxergar novos rizomas em constantes devires (processo de reterritorializar).
Para melhor conhecimento do nosso percurso, que tem como finalidade propor novas alternativas ou linhas de fuga, este trabalho está organizado em seções, que permeiam os eixos:
Introdução – apresentamos breves considerações em torno do que estamos nos propondo com esta pesquisa;
O que é léxico? – nesta seção abordamos a perspectiva teórica em torno do que significa o léxico, bem como perspectivas rizomáticas sobre o estudo;
Lexicografia, Lexicologia e Terminologia – neste item, apresentamos de forma breve os conceitos em torno dos eixos em questão, bem como qual o objeto e finalidade, especificamente da Lexicografia, a fim de dar suporte teórico à análise e discussão dos resultados;
A constituição do sentido sob a ótica da semântica de contextos e cenários (scc) – nesta seção tratamos da perspectiva teórica em torno da SCC, a fim de estabelecer conexões teóricas/conceituais em torno do estudo sobre o léxico e semântica;
Novos rizomas: O uso do dicionário – abordamos neste item a maneira como o dicionário auxilia no processo de ensino-aprendizagem, auxiliando o usuário na identificação de aspectos da descrição lexicográfica;
O abecedário deleuziano – neste tópico, discutimos sobre a maneira como o abecedário pode funcionar como uma proposta de dicionário, a fim e ampliar o processo criativo;
Metodologia – abordamos nesta seção a metodologia utilizada na produção deste artigo, bem como o contexto da pesquisa;
Análise e discussão dos dados: os diálogos possíveis a partir das atividades do livro didático (LD) sobre verbetes – apresentamos neste momento a atividade escolhida para fins de análise, bem como relacionando-a com o abecedário de Gilles Deleuze e formas de dar nova significação ao conteúdo proposto no LD em questão;
Considerações finais – na última seção do trabalho abordamos como se desenvolveu o diálogo entre os eixos da pesquisa, bem como verificando se o objetivo proposto foi alcançado.
Desse modo, a seguir, iniciaremos a discussão em torno da teoria que discute do que trata o léxico.
2. O QUE É LEXICO?
Quando nos questionamos sobre o que é léxico, nos deparamos com a busca pela definição de um conceito que foi e é vivenciado por nós durante as nossas relações sociais cotidianas. Santos e Castiglioni (2018, p.1376) indicam que “o léxico de uma língua é imprescindível para compreender a história e a cultura de uma determinada comunidade através dos usos linguísticos que a mesma faz no processo comunicacional”.
Por ser um conjunto de informações que apresenta certa complexidade, acionamos outras noções sobre o que é o léxico. Conforme Henriques (2018, p. 13), a definição pode seguir esta perspectiva teórica:
LÉXICO conjunto das palavras de uma língua, também chamadas de LEXIAS. As LEXIAS são unidades características complexas cuja organização enunciativa é interdependente, ou seja, a sua textualização no tempo e no espaço obedece a certas combinações.
Ao estabelecermos uma comunicação com nossos pares, fazemos uso da língua e por meio dela somos capazes de compreender o outro e sermos compreendidos. Essa troca é baseada em um repertório que o falante acumula durante os agenciamentos e vivências que experimenta no decorrer da vida. Assim,
Embora possa parecer um conjunto finito, o léxico de cada uma das línguas é tão rico e dinãmico que mesmo o melhor dos lexicólogos não seria capaz de enumerá-lo. Isto ocorre porque dele faz parte a totalidade das palavras, desde as preposições, conjunções ou interjeições, até os neologismos, regionalismos, passando pelas terminologias, pelas gírias, expressões idiomáticas e palavões. (Henriques, 2018, p. 13)
Nessa perspectiva, podemos ampliar nossa discussão, na busca no dicionário do verbete ‘léxico’, visto que o uso deste instrumento é um dos elementos que sustentam este artigo. Dessa forma, conforme o dicionário Houaiss online, é um substantivo ou adjetivo, a depender do uso, masculino no singular. As entradas lexicais estão detalhadas na imagem a seguir:
Figura 1 – significado de léxico
Por estarmos trabalhando com verbetes, que serão detalhados mais à frente, podemos fazer uma breve menção ao que o termo ‘léxico’ significa, segundo os apontamentos feitos no Dictionnaire de linguistique (Dubois et al., 1973).
Figura 2 – significado do verbete léxico no dicionário de Dubois et al. (1973)
Como a imagem foi retirada de uma versão online, algumas palavras ou expressões ao serem escaneadas não mantiveram a nitidez, mas ao ampliarmos o item (imagem), conseguimos identificar do que se trata. Então, segundo Dubois et al. (1973), as entradas lexicais sobre o verbete ‘léxico’ indicam que:
1. Referindo-se à lexicografia, a palavra léxico pode evocar dois tipos de obra: um livro que compreende a lista dos termos utilizados por um autor, por uma ciência ou por uma técnica, ou ainda um dicionário bilíngue reduzido à colocação em paralelo das unidades lexicais das duas línguas confrontadas. Nesse sentido, léxico se opõe a dicionário.
2. Como termo linguístico geral, a palavra léxico designa o conjunto das unidades que formam o vocabulário da língua de uma comunidade, de uma atividade humana, de um locutor etc. Nesse sentido, léxico entra em diversos sistemas de oposição, conforme a maneira pela qual o conceito é considerado (Dubois et al., 1973, tradução nossa).
Assim, conseguimos ampliar nosso campo de significação quanto à identificação/mapeamento sobre esse verbete. Além disso, no âmbito desse estudo observamos novos rizomas, dentre eles a existência de dois tipos de léxico. Essas ramificações existem por compreendermos que as palavras não significam a mesma coisa para todas as pessoas, pois estamos sempre diante de uma perspectiva cultural.
Dessa forma, conforme Henriques (2018, p. 12-13):
Numa explicação bem simples, podemos dizer que há dois tipos de léxico: um deles se refere a um determinado estado da língua, composto pelas palavras que são compartilhadas por todos os usuários, parecendo uma espécie de interseção dos usos individuais cotidianos (é o LÉXICO COMUM); o outro comporta todas as palavras empregadas por usuários de uma determinada língua, independentemente de serem compartilhados entre eles (é o LÉXICO TOTAL).
Por esse motivo, ao levarmos em consideração a cultura de cada indivíduo no momento de atribuir significação as palavras, torna-se parte do processo de atribuição da significação, neste caso no âmbtio lexicográfico, visto que “[...] o léxico é dinâmico e constituinte na formação do cidadão, quanto mais contato com a língua o falante tem, maior será sua apropriação de unidades léxicas”. Assim, entendendo mais “[...] sobre a originalidade das palavras, suas significações, o processo de formação, seu redirecionamento quanto aos usos e infinitas possibilidades” (Santos e Castiglioni, 2018, p. 1377), bem como compreendemos as dimensões múltiplas em torno do que é o léxico.
Assim, a dinamicidade quanto ao verbete ‘léxico’ e suas complexidades, tais como o ‘léxico comum’ e ‘léxico total’, propõe um diálogo diretamente com a concepção linguística de que o léxico auxilia na identificação de possibilidades de estudo, estabelecidas por meio das práticas sociais e discursivas dos indivíduos.
Nessa perspectiva, o léxico integra o funcionamento global da língua, participando ativamente na construção de sentidos e posições do sujeito. A relação entre o sistema linguístico e a experiência concreta dos falantes em diferentes domínios, faz com que ampliemos a discussão, a partir de agora, para novos campos, como o da lexicografia, lexicologia e terminologia, os quais serão apontados na seção que segue.
2.1. Lexicografia, Lexicologia e Terminologia
O corpus de estudo desta pesquisa é o livro didático “Araribá Conecta” (Paiva, 2022), Língua Portuguesa, voltado para os estudantes do 6º ano do Ensino Fundamental. Em uma das atividades, como contextualizamos nas seções iniciais, há a inserção sobre o estudo de verbetes, a fim de propor a introdução e apreensão de vocabulário.
Com a intenção de discutir o léxico, em sala de aula, a autora introduz alguns conceitos, tais como ‘o que é o léxico de uma língua’ (conforme figura 3), definição a qual tratamos na seção anterior. A autora traz, ainda, definições sobre ‘o que é lexicologia e lexicografia’. Faremos a menção sobre lexicologia, mas nosso enfoque se dará no âmbito da lexicografia e, ainda, apresentaremos breves garatujas sobre terminologia.
Figura 3 – boxe informativo
A abordagem teórica em torno da lexicografia, volta-se para o mapeamento, descrição e uso das palavras, reunidas em um dicionário. Dessa forma,
LEXICOGRAFIA é uma disciplina intimamente ligada à LEXICOLOGIA. Ela se ocupa da descrição do LÉXICO de uma ou mais línguas, a fim de produzir obras de referência, principalmente dicionários (em formato impresso ou eletrônico) e base de dados lexicológicas. Dessa LEXICOGRAFIA PRÁTICA distingue-se a LEXICOGRAFIA TEÓRICA, ou META-LEXICOGRAFIA, que estuda todas as questões ligadas aos dicionários (história, problemas de elaboração, análise, uso). (Henriques, 2018, p. 15)
No box informativo (figura 3) presente no livro didático corpus ao indicar a explicação do que significam os verbetes em questão, faz com que os estudantes consigam ampliar o campo de significação em torno dos termos em questão. À luz dos conceitos apresentados, podemos identificar que, para além da concepção teórica do que trata, é interessante descatar qual o objeto e a finalidade da lexicografia.
Dessa forma, o léxico de uma língua é o objeto da lexicografia, entendemos léxico a partir das concepções apresentadas na seção 2 deste artigo “O QUE É LEXICO?”. Portanto, podemos complementar que o léxico não é concebido como um inventário fechado, mas apresenta-se como um sistema dinâmico, tanto que na seção anterior, apresentamos sua definição e apontamos algumas conceituações conforme alguns teóricos e o que significa o verbete em alguns exemplos de dicionários.
Assim, a lexicografia é atravessada por esses territórios e tem como finalidade escrever, organizar e registrar o léxico de modo sistemático, à luz da obra a qual faz referência no momento de análise, podendo ser glossários, bases de dados lexicológicos ou dicionários, etc, que é o caso deste artigo.
Além desses dois itens mencionados, léxico e lexicografia, Henriques (2018) ainda outras linhas de fuga, tais como a indicação da existência da terminologia enquanto ciência, também, que dedica-se ao estudo do léxico. Esses itens (léxico, lexicografia, terminologia) estão terre os primeiros acionados como referências no estudo sobre dicionários ou glossários temáticos, por exemplo.
Por terminologia, conforme Henriques (2018, p. 26), a abordagem teórica se dá a partir do momento em que:
A palavra TERMINOLOGIA pode ter duas acepções distintas. A primeira refere-se ao conjunto vocabular próprio de uma ciência, técnica, arte ou atividade profissional, como por exemplo a terminologia da Informática, da Biotecnologia, do Direito, da Música, etc. A segunda acepção designa não só o conjunto de práticas e métodos utilizados na compilação, descrição, gestão e apresentação dos termos de uma determinada linguagem de especialidade (= terminologia enquanto atividade), como também o conjunto de postulados teóricos necessários para dar suporte à análise de fenômenos linguísticos concernentes à comunicação especializada, incluídos aí os termos, evidentemente (= terminologia enquanto teoria).
A natureza polissêmica de ‘terminologia’ faz com que seja possível propormos um diálogo com os itens já mencionados e, posteriormente, com a semântica de contextos e cenários (SCC), a fim desta ser uma linha de fuga para as possibilidades de compreensão, por meio do uso do dicionário, dos verbetes associados ao abecedário de Deleuze.
Além dessa perspectiva teórica, mencionamos Biderman (2001, p. 160) que ao discorrer sobre terminologia, diz que “[...] a Terminologia se ocupa de subconjuntos do léxico de uma língua, a saber, cada área específica de conhecimento humano. Esses subconjuntos lexicais constituem o objeto dessa ciência reportam-se ao universo referencial”. Marcada pela função cognitiva e comunicativa, a terminologia auxilia na organização e transmissão de um conhecimento especializado.
Ao articularmos a distinção entre terminologia enquanto conjunto vocabular especializado e terminologia enquanto atividade e teoria proposta anteriormente por Henriques (2018), a centralidade no uso e a compreensão da terminologia como fenômeno linguístico e social, podemos mencionar, ainda Cabré et al. (2022). Para esses, a terminologia contemporânea se afasta de uma concepção estritamente prescritiva e passa a ser compreendida como um fenômeno linguístico, comunicativo e sociocultural.
Nesse sentido, os rizomas da terminologia não se limitam, mas envolvem os processos de uso, circulação, variação e negociação de sentidos nos discursos profissionais, especializados, etc. Essa dinamicidade proposta, faz com que seja possível constituir novos sentidos ou linhas de fuga, como Deleuze aponta, dentre eles, a partir da perspectiva da SCC, que será discutida na seção a seguir.
3. A CONSTITUIÇÃO DO SENTIDO SOB A ÓTICA DA SEMÂNTICA DE CONTEXTOS E CENÁRIOS (SCC)
Em busca do sentido, a semântica de contextos e cenários (SCC) faz com que seja possível perceber “[...] que os sentidos que as palavras têm não são propriamente delas, mas que os falantes é que associam esses sentidos às palavras” (Ferrarezi Jr., 2008, p. 38).
Essa possibilidade diante somente é possível quando conseguimos compreender que “uma palavra é um sinal que usamos para representar alguma coisa” (Ferrarezi Jr., 2008, p. 37). Essa representação é o que Ferrarezi Jr. (2008) vai denominar como um sistema socializado culturalmente determinado.
A partir de agenciamentos que ocorrem por meio do ato de reconhecer a dimensão linguística (contexto) e a dimensão interna do interpretante (cenário), o falante da língua passa a perceber durante sua vivência, que tem como suporte os eventos de ordem linguística e não linguística, que “nenhuma palavra tem um sentido fixo, que seja dó dela e sempre dela. Nós é que associamos os sentidos às palavras no momento em que a usamos” (Ferrarezi Jr., 2008, p. 37).
Quando fazemos uso das palavras em eventos enunciativos “[...] associamos um sentido a uma palavra [...]” e “[...] ela passa a ser eficiente para representar alguma coisa do mundo, seja do mundo real, seja de um mundo que nós mesmos criamos” (Ferrarezi Jr., 2008, p. 37-38).
Assim, ao voltarmos nossa atenção ao sentido que as palavras apresentam, vistos sob a perspectiva da SCC, compreendemos com essa teoria que:
[...] a SCC estabelece uma relação obrigatória entre a língua e a cultural, sem a qual não podem ser formados os sentidos e sem a qual os sentidos não podem ser associados às palavras ou outros sinais usados nessa representação (Ferrarezi Jr., 2008, p. 23).
Esse é um dos pontos que podemos dialogar com o estudo sobre o léxico e, consequentemente, lexicografia, a fim de indicar a relevância dos verbetes, sejam em dicionários tradicionais (apontado na atividade analisada neste artigo, que será apresentada na seção ‘ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS: os diálogos possíveis a partir das atividades do livro didático sobre verbetes’, como também no dicionário deleuziano).
Assim, o indivíduo é capaz de atribuir sentido, pois enxerga o mundo que está inserido por meio da cultura a qual está em constante agenciamento. As manifestações linguísticas são formas de representar ou criar novos mundos, por meio de constantes espaços de interação. Por esse motivo, Ferrarezi Jr. (2008, p. 24) diz que:
Muitas vezes, usamos a língua para ‘criar’ mundos, que são igualmente representados por essa mesma língua. Representar é, portanto, ter a possibilidade de usar no lugar de, pôr no lugar de. E essa representação só ocorre satisfatoriamente em ambiente cultural, em que o representado pode ser compreendido porque os sentidos utilizados nessas representações são compartilhados, mesmo que parcialmente pelos falantes.
Esses são alguns dos princípios que nos ajudam a constituir o sentido, associando as palavras a sentidos, a fim de propor (novas) representações, visto que os conceitos ajudam a direcionar as ações tomadas pelos falantes, no ato enunciativo, como por exemplo, ao fazer uso do dicionário de verbetes.
4. NOVOS RIZOMAS: O USO DO DICIONÁRIO
A partir da discussão proposta na seção anterior, sobre a constituição do sentido e como as manifestações linguísticas são instrumentos de representação/criação, entendemos o motivo pelo qual a língua é um sistema socializado e culturalmente determinado. Assim, a discussão em torno dessa perspectiva é parte da maneira como deciframos os signos linguísticos, enxergando as múltiplas possibilidades de sentidos em torno das palavras.
No ambiente escolar, normalmente, quando há o uso dos dicionários, é uma proposta ainda comum, solicitando aos estudantes a leitura e busca por palavras específicas, até então desconhecidas. O ato de ler e buscar o que significa é válido, mas não o suficiente para contemplar o aspecto cultural do estudante e acionar os sentidos.
O ato de ressignificar, de maneira criativa, o uso do dicionário para os estudos de verbetes em atividades escolares faz com que possamos sair do ensino tradicional e adentrar na perspectiva da semântica de contextos e cenários (SCC) e, também, do Abecedário deleuziano (1988-1989).
Um dicionário ao ser usado durante o processo de ensino-aprendizagem, se propõe a uma identificação de determinados aspectos da descrição lexicográfica. Aprender a decifrar os signos é dar chance ao pensamento para criar sentidos, saindo das linhas rígidas, de significados já estabelecidos e indo em busca de linhas flexíveis, novas e criativas.
Para Deleuze e Guattari (2011, p. 25) essas linhas podem ser vistas sobre a seguinte perspectiva:
A linha de fuga marca, ao mesmo tempo: a realidade de um número de dimensões finitas que a multiplicidade preenche efetivamente; a impossibilidade de toda dimensão suplementar, sem que a multiplicidade se transforme segundo esta linha; a possibilidade e a necessidade de achatar todas estas multiplicidades sobre um mesmo plano de consistência ou de exterioridade, sejam quais forem suas dimensões.
As lingas rígidas/duras são aqueles conhecimentos já estabelecidos, como os verbetes de dicionários que já apresentam uma definição sobre as palavras ali disponíveis para pesquisa. Nós, indivíduos, precisamos nos oportunizar de fugir do que está fixo, não abandonando-o, mas permitindo mudanças de pensamento.
Quando o sujeito percebe isso e assume sua singularidade diante do mundo, entende que as linhas flexíveis/de fuga também ajudam a compor nossa existência. Se trata de observar por outro ângulo, não nos contentando com a leitura e busca apenas, mas entendendo que o sentido é devir e que são criados a partir de agenciamentos (relações afetivas), compreendendo que somos afetados e afetamos o outro e o meio o qual estamos inseridos a todo momento.
Por devir, podemos entender que se trata de um “[...] princípio da vontade de potência[...]” (Gualandi, 2003, p. 19). A busca pelo sentido, durante o estudo de verbetes, com o dicionário faz com que possamos estabelecer um diálogo com a proposta de Deleuze, visto que “[...] o mundo de Deleuze é um mundo de devires e de fluxos dissolvendo toda coisa estabelecida, um mundo de ações e de paixões profundas destruindo toda compacidade material e toda identidade conceitual” (Gualandi, 2003, p. 19).
Esse novo olhar sobre o estudo com o dicionário faz com que seja possível extrair novos fluxos de conceitos já estabelecidos. O uso desse recurso didático é introduzido em sala de aula a fim de ampliar as possibildades dos estudantes quanto a compreensão do mundo. As conexões estabelecidas nesse contato, fazem com que a potência, que existe no indivíduo, se realize no devir, nas variações, na busca por sentidos, a fim de compor nossa existência.
5. O ABECEDÁRIO DELEUZIANO
O sentido proposto por Ferrarezi Jr. (2008) relaciona-se com o que Deleuze aborda em seu Abecedário (1988-1989). O filósofo dá à criação de sentido uma interpretação singular dos signos na linguagem.
Deleuze (1925-1995), considerado um dos pensadores de maior relevância da contemporaneidade, estabelece sua teoria no conceito que advém da potência. O filósofo pensava na filosofia por meio dos afetos, considerando-os como potências do indivíduo que afeta e é afetado, assim desviando-se da tradição filosófica rígida/formal.
Os conceitos discutidos em torno do Abecedário foram organizados em ordem alfabética, divulgados em uma série de entrevistas que ocorreu durante os anos de 1988 e 1989. As entradas lexicais tratam de temas, representadas por uma letra cada, como: D de desejo, P de professor ou I de ideia. Essa complexidade favorece uma aproximação entre a filosofia deleuziana e o processo de ensino-aprendizagem em sala de aula.
A didatização do conhecimento filosófico, faz com que sejamos capazes de compreender que “o pensamento não é arborescente e o cérebro não é uma matéria enraizada nem ramificada” (Deleuze e Guattari, 2011, p. 34). Os verbetes nos livros didáticos dialogam com o Abecedário e com a SCC por meio das linhas flexíveis/de fuga, pois a partir dessas relações podemos refletir não só sobre a organização alfabética, mas criar novas possibilidades de entradas lexicais para um mesmo campo do saber.
Quando observamos a proposta de Deleuze, nos damos conta de que:
Ao pensar o processo de pesquisar, vimos ser insuficiente uma letra abarcar os diferentes sentidos disparados como também vivenciamos a insuficiência de uma palavra enunciar todo o sentido que lhe seria possível. (Fonseca, Nascimento e Maraschin, 2012, p. 07)
A proliferação de novos sentidos é a inteção principal de Deleuze; a multiplicidade só é capaz de existir a partir do momento que os indivíduos reconhecem sua potência, a fim de “dar a ver mais do que acreditamos ver” (Fonseca, Nascimento e Maraschin, 2012, p. 08). A busca pelas palavras impulsionou Deleuze à potência de criação.
O Abecedário é uma proposta de dicionário, em que se torna uma porta de entrada aos estudos filosóficos de Deleuze. O pensamento expresso pelo filósofo é associado ao conceito de multiplicidade, e “uma das características essenciais do sonho de multiplicidade é a de que cada elemento não para de variar e modificar sua distância em relação aos outros” (Deleuze e Guattari, 2011, p. 57).
Desses elementos que variam e modificam a todo instante, podemos elencar as palavras, que ao estarem disponíveis em um dicionário, nos ajudam a percorrer os territórios pedagógicos e de saberes cotidianos. Dessa forma, há uma possibilidade de diálogo entre os conteúdos propostos no livro didático (LD), com a filosofia deleuziana e o estudo lexicográfico.
6. METODOLOGIA
A fim de propor esse diálogo entre o Abecedário deleuziano (1988-1989) e o estudo sobre os verbetes, neste artigo observamos a atividade proposta no livro didático, corpus desta pesquisa, a partir de uma abordagem qualitativa. Essa abordagem é relevante, pois “a pesquisa qualitativa é de particular relevância ao estudo das relações sociais devido pluralização das esferas de vida” (Flick, 2009, p. 20).
Fez parte, também, dessa etapa de análise, a verificação de atividade parte do livro didático (LD) “Araribá Conecta” (Paiva, 2022), destinado aos estudantes do 6º ano do Ensino Fundamental – Anos Finais, no município de Imperatriz-MA. A pesquisa documental de dados analisa materiais que ainda não foram observados por uma perspectiva específica, a qual estamos nos debruçando neste artigo.
Gil (2021, p. 61) afirma que “as fontes documentais são muito mais numerosas e diversificadas, já que qualquer elemento portador de dados pode ser considerado documento”. Neste caso, observamos a maneira como o gênero textual verbete é abordado no LD em uso e apontamos novas formas de enxergar os significados, propondo a construção de sentidos sob a ótica filosófica deleuziana. Na figura 4, na sequência, a capa do livro didático analisado.
Figura 4 – Capa do livro didático Araribá Conecta – Português, 6º ano do Ensino Fundamental
A seleção do material documental permite uma ampliação e novas reflexões sobre a atividade em questão, e de outras que seguem a mesma perspectiva (o estudo lexicográfico sobre verbetes). Após essas etapas mencinadas, observamos que poderíamos destacar, ainda, dentro da análise deste artigo, a pesquisa exploratória, a partir da atividade em questão, visto que “pode-se dizer que esta pesquisa tem como objetivo principal o aprimoramento de ideias ou a descoberta de intuições” (Gil, 2021, p. 41).
Esses direcionamentos metodológicos serão necessários para propor uma aproximação teórica quanto ao estudo do léxico, a partir dos eixos: lexicografia, semântica e Deleuze. Dessa maneira, o livro didático foi analisado e durante o mapeamento buscamos identificar atividades em que medida fosse possível relacionar com o Abecedário de Deleuze (1988-1989). O estudo sobre verbetes foi escolhido, pois o trabalho com o léxico de uma língua e suas dimensões é relevante para o processo de ensino-aprendizagem, levando em consideração que a atividade em questão é destinada aos alunos do 6º ano do Ensino Fundamental (EF) – Anos Finais, os quais estão no processo de transição escolar, saindo do Anos Iniciais para a 2ª fase do EF.
O uso do dicionário a fim de estudar e compreender os verbetes faz apontamentos teóricos sobre o léxico, auxiliando na compreensão de demandas práticas da vida cotidiana dos estudantes, que são falantes da língua e fazem uso das palavras registradas em um dicionário.
Então, fazendo um apanhado no sentido de recapitular nosso percursso metodológico, a pesquisa baseou-se nos eixos: abordagem de natureza qualitativa e exploratória, de caráter documental. Com corpus de análie constituído por uma atividade didática sobre verbetes, presente no livro Araribá Conecta – Português (6º ano). Vale ressaltar que o material em questão foi aprovdo pelo PNLD ciclo 2024-2027.
A análise se deu de forma interpretativa, a partir do diálogo entre Lexicografia, Semântica, mais especificamente a teoria da Semântica de Contextos e Cenários (SCC) e os conceitos do Abecedário de Gilles Deleuze, buscando compreender quais os sentidos produzidos criativamente a fim de propor novas possibilidades pedagógicas que emergem do estudo do léxico no contexto escolar.
Após todo apanhado teórico (desenvolvimento conceitual, bem como metodológico), percebemos que ter o conhecimento dos conceitos de léxico, lexicografia e terminologia, faz com que o trabalho em sala de aula seja ampliado ao usarmos o dicionário. Essas noções teóricas dão novas possibilidades ao conteúdo do livro didático em uso, fazendo com que novos rizomas criativos, quanto ao vocabulário, seja trabalhado e mediado pelo professor para com o estudante.
7. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS: OS DIÁLOGOS POSSÍVEIS A PARTIR DAS ATIVIDADES DO LIVRO DIDÁTICO SOBRE VERBETES
Nesta seção, apresentaremos a atividade selecionada e a maneira como ela foi proposta por Paiva (2022) e, ainda, as linhas de fuga para que haja o diálogo proposto neste artigo. Uma das linhas de fuga deste estudo foi pensar de que maneira o Abecedário deleuziano (1988-1989) conecta-se com o estudo sobre verbetes, especificamente as palavras “Dicionário”, “Plebiscito”, “Ploretário”, “Estrangeirismo” e seus respectivos significados, fazendo com que existam novas de refletir sobre essas significações lexicais.
O diálogo entre Filosofia e Educação é tratado com frequência no âmbito educacional, mas as menções quanto a utilização do Abecedário ainda é tímida. Não há comprovações que Deleuze trabalhava em prol do processo educativo. Mas, nesse sentido,
embora o autor tenha percorrido um caminho não diretivo sobre a educação, não adotando a educação como assunto principal, mesmo tendo sido professor de Ensino Médio e Universidade, debruçou-se indiretamente sobre questões referentes à educação e seu contexto. (Soares Ribeiro, 2020, p. 27)
Dessa forma, “o Abecedário de Gilles Deleuze, mesmo não objetivando discorrer sobre a educação de forma específica, desenvolve e percorre de forma fragmentada inferências sobre a educação” (Soares Ribeiro, 2020, p. 28). A escolha dos léxicos “Plebiscito”, “Ploretário”, “Estrangeirismo”, “Dicionário” se deu não por acaso, são palavras que fazem parte do estudo sobre verbetes, proposto no livro didático, corpus desta pesquisa.
Por serem gêneros expositivos, os verbetes podem ser usados de maneiras múltiplas. E, durante a abordagem que faz uso do dicionário como um recurso didático, é possível a identificação, mapeamento e indicação do significado. O uso de dicionários no ambiente escolar aciona novos rizomas para a linguagem, e a relação com a proposta de Deleuze, com seu dicionário, faz com que seja “[...] possível aprender novos conceitos e ideias do filósofo sobre esse tema, além de ser possível incluir novas perspectivas ou multiplicidades no contexto educacional [...]” (Soares Ribeiro, 2020, p. 28).
Figura 5 – Sumário “Araribá Conecta” – 6º Ano
A Unidade 8, “De verbete em verbete” dá início ao último capítulo do livro didático “Araribá conecta: Português” (2022), voltado para estudantes do 6º ano do Ensino Fundamental – Anos Finais. No capítulo a abertura da unidade indica que serão trabalhados os verbetes do dicionário (conforme figura 2), na sequência há o item “Leitura”, com a presença de boxes informativos e vocabulários sobre o que foi lido. Há, também, nesta unidade, a seção sobre o “Estudo do texto”, com questões referentes ao texto inicial, seguindo a proposta de compreensão textual, no sentido de identificar informações pontuais sobre o que foi lido, indicando as respostas no caderno das ideias centrais.
No livro, a autora considera as condições de produção do material e as possibilidades de estudo a partir do exemplo inicial, que no caso é o “Plebiscito”, texto escrito por Artur Azevedo, do ano de 1894, publicado no livro Contos fora de moda. Para exemplificar a dinâmica desta unidade, os alunos observam inicialmente quais os significados diante da pesquisa sobre a palavra “dicionário”, conforme figura 6.
Figura 6 – Entradas lexicais sobre o que significa “dicionário”
No livro o recorte feito é com base em um dicionário digital; entendemos que se trata de uma metalinguagem, pois a apresentação ao gênero verbete é feita a partir da pesquisa, em um dicionário, da palavra “dicionário”. Conforme a autora, esse é um “recorte do verbete dicionário do Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa” (Paiva, 2022, p. 247).
Essa abordagem é relevante para este estudo, pois faz com que os alunos voltem a perspectiva linguística para si, assim como em uma metalinguagem. Logo após a pesquisa no dicionário sobre o que significa ‘dicionário’, já podemos observar uma possível relação a ser estabelecida com o Abecedário de Deleuze (1988-1989), visto que “a aprendizagem é um processo sobre o qual não se pode exercer absoluto controle” (Gallo, 2017, p. 84), e já somos capazes de propor, aos estudantes, linhas de fuga e criando novos conceitos, estabelecendo sentidos.
A letra “D” de ‘dicionário’ pode dialogar com ‘D de desejo’, de Deleuze. Se “cada sujeito exprime o mundo de um certo ponto de vista” (Deleuze, 2022, p. 46), relacionar a pesquisa nos dicionários ao desejo, é observamos que esse desejar o saber, ir em busca da significação é uma potência, é devir, é uma força a partir de agenciamentos, pois o desejo é construído e se constrói em conjunto. Para Deleuze (1988-1989, n.p.) “[...] qual é a natureza das relações entre elementos para que haja desejo, para que eles se tornem desejáveis?”.
O questionamento quanto a essa potência, o desejo, é visto pelo filósofo como algo que não acontece sozinho. Ele afirma que:
Nunca desejo algo sozinho, desejo bem mais, também não desejo um conjunto, desejo em um conjunto [...] não há desejo que não corra para um agenciamento. O desejo sempre foi, para mim, se procuro o termo abstrato que corresponde a desejo, diria: é construtivismo. Desejar é construir um agenciamento, construir um conjunto [...]” (Deleuze, 1988-1989, n.p.)
A partir do momento que aluno relaciona esssa busca, esse desejo deleuziano, no livro didático, por intermédio do professor, é capaz de procurar novas formas criativas de dar sentido o que é estudado em sala de aula. Fazendo um breve parênteses nessa discussão, é interessante pensarmos nesse D de desejo e, também, de ‘devir’, pois esses são, também, potências que fazem com que sejamos capazes (como indivíduos) de buscar as linhas flexíveis. Quando relacionamos os conhecimentos deleuzianos ao ambiente escolar, compreendemos que “o sistema de Deleuze está organizado em torno de dois princípios fundamentais: o de univocidade do Ser e o de Devir”. Cada um dos dois é simples em sua essência [...]” (Gualandi, 2003, p. 18).
Observar as atividades no âmbito linguístico sob a perspectiva deleuziana não é uma verdade absoluta quando tratamos do contexto educacional, mas possibilidades de diálogos entre a proposta de Deleuze, com o Abecedário e demais conceitos filosóficos com o livro didático, a fim de pensar no ambiente escolar como um devir, um acontecimento, ou melhor, um conjunto de acontecimentos, visto que “[...] o Devir é o próprio princípio da realidade, ao passo que a realidade é, em sua essência, potência criadora que se exprime dentro do tempo” (Gualandi, 2003, p. 19).
Por esse motivo, o caráter múltiplo é percebido quando podemos observar para além da pesquisa no dicionário. Logo abaixo, passando quase despercebido, observamos uma meção quanto ao fenômeno semântico da sinonímia, conforme figura que segue:
Figura 7 – Sinônimos da palavra dicionário
As abordagens relacionadas ao léxico ‘dicionário’ residem, também, no âmbito da semântica de contextos e cenários (SCC), ao fazer uso da sinonímia e indicar que pode significar, também “tira-teimas” ou “tesouro”, dentre outros, nos dá a chance de acionar novas pesquisas de maneira criativa, fazendo uso de conhecimentos que são parte não apenas da cultura do estudante que faz uso dessas palavras, mas pensando no contexto que ele está inserido e identificando, ainda, as diferentes causas do fenômeno em questão.
Observamos neste momento rizomas que vão além do estudo sobre o gênero verbete, a partir da inserção da semântica da língua portuguesa, pensando nas formas que o estudo semântico pode auxiliar, também, na compreensão das palavras pesquisadas que surgem a partir de dúvidas emergentes do cotidiano.
Além de pensar nas condições de produção de um texto e a maneira como o mesmo será recebido por aqueles que tem contato com o LD, a discussão iniciada com a pesquisa no e do dicionário é aspecto introdutório para a leitura do texto “Plebiscito”, de Artur Azevedo. Conforme os apontamentos feitos no livro, indicando que:
o enredo se desenvolve quando Manduca pergunta a seu pai o significado da palavra plebiscito. Embora o pai tente disfarçar, possui a mesma dúvida do menino e é desafiado por sua esposa a assumir que desconhece o sentido da palavra. A solução que o pai encontra para escapar do flagra acrescenta humor ao conto. (Paiva, 2022, p. 248)
Uma outra linha de fuga que podemos apontar é o diálogo entre a introdução de “Plebiscito” com a letra P de Professor, conforme o Abecedário deleuziano. A autora do livro didático chama atenção dos leitores para um questionamento antes da leitura do texto: “Quanto ao título do conto, o que você supõe que signifique a palavra plebiscito?” (Paiva, 2022, p. 248).
Pensar no significado da palavra plebiscito é, também, um ato semântico que percore vias lexicográficas. Para Deleuze, em seu Abecedário, o ‘P de professor’ indica que a aula existe em um espaço-tempo singular, por ser especial e fascinante, na mesma medida, pois “uma aula é um cubo, ou seja, [...] muitas coisas acontecem numa aula. [...] é um espaço e uma temporalidade muito especiais” (Deleuze, 1989-1989, n.p.)
O professor precisa pensar que há uma sequência no que é proposto em uma aula, e que as pessoas nunca são as mesmas, por isso estão em constante devir quanto ao procesos de ensino-aprendizagem. O P de professor, deleuziano, pode ser, também, o P de: pensar ou produzir. Propor esse campo de significação é traçar novos rizomas a fim de relacionar o significado da palavra acionada inicialmente (plebiscito) com os demais significados, estabelecendo novos sentidos criatidos (por parte dos estudantes).
Esses diálogos fazem com que seja possível perceber que “o que é compreendido, tanto do lado das palavras quanto das coisas, é a relação do nome próprio como intensidade com a multiplicidade que ele aprende instantaneamente” (Deleuze e Guattari, 2011, p. 53). Repetimos a pesquisa inicial, mas é uma repetição com base na diferença.
Sobre a diferença, conforme Deleuze, podemos pensar da seguinte maneira:
[...] por que é tão difícil dizer como alguém aprende: há uma familiaridade prática, inata ou adquirida, com os signos, que torna toda educação amorosa [...] emitir signos a serem desenvolvidos no heterogêneo [...] Quando o corpo conjuga alguns de seus pontos notáveis com os da onda, ele estabelece o princípio de uma repetição, que não é a do Mesmo, mas que compreende o Outro, que compreende a diferença, de uma onda e de um gesto a outro, e que transporta essa diferença pelo espaço repetitivo assim constituído. (Deleuze, 2022, p. 43)
Por mais que sejamos capazes de repetir, como por exemplo, as palavras “dicionário” e “plebiscito” e suas respectivas definições lexicográficas, elas sempre serão repetidas de maneiras diferentes, e é nesse sentido que Deleuze discorre sobre o conceito de ‘repetição e diferença’. Pensamos a partir do novo, do conhecimento novo, percebendo o mundo pela diferença, acionando a potência criativa, o que é heterogêneo, múltiplo, despertando o que está por acontecer.
Por ser única/inédita, mesmo que tenha sido originada na repetição, a diferença não generaliza, ela é imanente. Assim, essas podem ser experiências de encontro que atravessam o estudante durante o estudo sobre verbetes, sendo portadores de sentidos múltiplos e novos mundos interpretativos, a partir da pesquisa no dicionário, que ativam diferentes formas de percepção e sensibilidade. A repetição é única a cada vez que é repetida, por isso se concebe a cada vez como diferente.
No decorrer do texto, a dúvida de Munduca (no texto ‘Plebiscito’) ao perguntar ao pai, ainda, o significado de “proletário” e, como a palavra inicia com a letra P, podemos estabelecer o diálogo indicado anteriormente, feito a partir do P de professor. E, quando as dúvidas do personagem começam a ser esclarecidas, surge uma nova, ao final do texto, quanto ao que significa “Estrangeirismo”.
Sobre estrangeirismo, conforme o dicionário Houaiss online é um substantivo masculino que significa:
Figura 8 – significado de estrangeirismo
Estrangeirismo pode dialogar com o que Deleuze (1988-1989) vai apontar em seu dicionário como ‘E de Enfance’, no caso, traduzindo do francês para o português: Infância. Então, temos mais possibilidades dentro do campo de significação a partir do acionamento da letra E, como: escrever, escutar, experimentar etc; ou os acionamentos a partir da letra I, de infância (observada como tradução de enfance) ou ‘I de ideia’, conforme consta no Abecedário.
Deleuze (1989-1989, n.p.) disse que “as ideias são uma obsessão, elas vão e voltam, se afastam, tomam formas diversas e, através destas formas variadas, elas são reconhecíveis”. Com isso, novos agenciamentos podem acontecer a partir do diálogo com outros léxicos, como: imaginar ou inventar, uma invenção relacionada a criatividade.
A partir do momento que solicitamos dos estudantes a busca das palavras, acionamos novos agenciamentos que residem em conhecimentos que são estabelecidos dentro e fora do ambiente escolar, voltados ao aspecto cultural de cada um. O uso dos dicionários no ambiente escolar, permite que os alunos conheçam uma das perspectivas do estudo sobre o léxico, no caso a lexicografia, por se tratar da junção em um mateiral específico, que consegue fornecer explicações sobre as palavras registradas. Além disso, “[...] a obra Abecedário de Gilles Deleuze, proporciona a oportunidade de despertar novas perspectivas, lançando conceitos e correntes de ideias [...]” (Soares Ribeiro, 2020, p. 29).
Se novas palavras surgem no nosso breve cotidiano a todo momento, a fim de estabelecer a comunicação entre os falantes, há uma natural necessidade de entendermos que o uso de dicionários em sala de aula é um recurso essencial para estudarmos o léxico e seus rizomas. Além disso, observamos que é possível, ainda, além dos diálogos aqui indicados, que o estudo sobre verbetes se articule com a semântica da língua portuguesa, conforme a breve menção feita na atividade quanto aos sinônimos a partir da pesquisa da palavra ‘dicionário’. O Abecedário de Deleuze pode ser relacionado à semântica da língua portuguesa pela ênfase que o filósofo dá à criação de sentido e à interpretação singular dos signos.
Assim, são muitas as conexões que podem ser estabelecidas, na intenção de ampliar o processo de ensino-aprendizagem. Ao introduzirmos essa nova possibilidade de pensar na atividade, somos capazes de acionar novos rizomas, a partir do estudo proposto no livro didático em uso.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir de rumores discretos de um diálogo entre o Abecedário deleuziano e o estudo sobre verbetes no livro didático de Língua Portuguesa, traçamos alguns rizomas a fim de propor novos olhares para o objeto de estudo no Ensino Fundamental – Anos Finais. Tomamos como corpus uma atividade sobre verbetes, presente na última unidade o livro “Araribá Conecta Português”, destinado aos estudantes do 6º ano e buscamos outras formas de trabalhar com o dicionário, além da consulta pontual feita sobre um léxico, possibilitando a criação de sentidos.
Discutimos, mesmo que de maneira tímida, formas singulares para compreensão do sentido, com base em conceitos da Lexicografia, Semântica de Contextos e Cenários (SCC) e do Abecedário de Deleuze. Dessa forma, estimulando a criatividade dos estudantes durante o processo de ensino-aprendizagem. A pesquisa sobre o que significa “dicionário”, “plebiscito”, “ploretário” e “estrangeirismo” são potências ativadas a partir de agenciamentos que ativam nos estudantes novos “desejos”, “ideias”, afetos e outras linhas flexíveis.
O diálogo existente entre Filosofia e Educação, faz com que sejamos capazes de enxergar os processos de atribuição de sentido, trazendo a voz deleuziana para compor os novos rizomas, principalmente para o docente, que tem mais uma oportunidade de ir além do conteúdo convencional.
A experimentação a partir do estudo sobre o gênero verbete, faz com que as linhas de fuga sejam cada vez mais presentes no ambiente escolar, trazendo os conceitos de Deleuze à tona, pensando em novos modos de propor a prática pedagógica, principalmente àqueles que possibilitam a percepção da multiplicidade, do devir e da diferença.
Essas são breves garatujas, colocadas neste artigo, para que o território continue em constante processo de desterritorialização por nós e por aqueles que estejam em constante devir, tendo a clareza de que nada é fixo, são sempre novas possibilidades de criação de sentidos.
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1 Doutoranda em Linguística e Literatura na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura (PPGLit), Araguaína, TO, Brasil. Mestra em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Graduação em Letras pela Universidade Estadual do Tocantins (1993), mestrado em Lingüística pela Universidade de São Paulo (2000) e doutorado em Lingüística pela Universidade de São Paulo (2006). Atualmente é profa. Titular associada da Universidade Federal do Tocantins. Tem experiência na área de Linguística e Antropologia Linguística, com ênfase em Etnotoponímia, toponímia, léxico, interdisciplinaridade, ensino e educação. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Professor na Universidade Federal do Norte do Tocantins (Curso de Letras e Programa de Pós-Graduação em Ensino de Língua e Literatura). Pós-doutor em Letras (Terminologia Gramatical e Ensino de Língua Portuguesa), pela Universidade da Beira Interior (Portugal – 2015); pós-doutor em Letras Clássicas (Latim), pelo Laboratório de Letras Clássicas da Universidade Federal da Paraíba (2015); graduado em Arquitetura e Urbanismo, pela Universidade Católica de Santos (1982); graduado em Letras Português/Grego, pela Universidade de São Paulo (1988); licenciatura em Português, pela Universidade de São Paulo (1988); mestrado em Letras (Letras Clássicas), pela Universidade de São Paulo (1994); e doutor em Letras (Letras Clássicas), pela Universidade de São Paulo (2000). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail