REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785041704
RESUMO
O presente estudo teve como objetivo analisar a importância do restabelecimento do equilíbrio emocional como estratégia terapêutica em acupuntura, à luz dos princípios da Medicina Tradicional Chinesa (MTC). Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, desenvolvida por meio da análise de livros clássicos da MTC e de artigos científicos que abordam a relação entre emoções, Shen, Sistema Nervoso Autónomo e os mecanismos neurofisiológicos da acupuntura. Os resultados demonstraram que, na MTC, as emoções desempenham papel relevante na origem e na evolução dos processos de adoecimento, influenciando o funcionamento dos órgãos Zang-Fu e o equilíbrio energético do organismo. A literatura analisada também evidenciou que a acupuntura exerce efeitos reguladores sobre o Sistema Nervoso Autónomo, favorece a neuroplasticidade e modula neurotransmissores e fatores neurotróficos envolvidos na regulação da dor e das respostas emocionais. Esses achados indicam que a avaliação do estado emocional deve integrar o raciocínio clínico e a diferenciação de padrões, especialmente quando os fatores psicoemocionais constituem a base fisiopatológica do quadro clínico. Conclui-se que o restabelecimento do equilíbrio emocional representa um componente relevante da estratégia terapêutica em acupuntura, devendo ser considerado de forma individualizada e integrado ao tratamento das manifestações físicas, em conformidade com os princípios da Medicina Tradicional Chinesa.
Palavras-chave: Emoções; Acupuntura; Psique.
ABSTRACT
The present study aimed to analyze the importance of restoring emotional balance as a therapeutic strategy in acupuncture, in light of the principles of Traditional Chinese Medicine (TCM). This narrative literature review was conducted through the analysis of classical TCM texts and scientific studies addressing the relationship between emotions, Shen, the autonomic nervous system, and the neurophysiological mechanisms of acupuncture. The findings indicate that, according to TCM, emotions play a significant role in the onset and progression of disease by influencing the function of the Zang-Fu organs and the body's energetic balance. The reviewed literature also demonstrates that acupuncture modulates autonomic nervous system activity, promotes neuroplasticity, and regulates neurotransmitters and neurotrophic factors involved in pain modulation and emotional regulation. These findings suggest that emotional assessment should be incorporated into clinical reasoning and pattern differentiation, particularly when psycho-emotional factors constitute the primary pathophysiological basis of the patient's condition. It is concluded that restoring emotional balance represents an important component of the therapeutic strategy in acupuncture and should be considered on an individualized basis, integrated with the treatment of physical manifestations in accordance with the principles of Traditional Chinese Medicine.
Keywords: Emotions; Acupuncture; Psique.
1. INTRODUÇÃO
Compreender o eixo saúde-doença exige reconhecer que o cuidado em saúde envolve dimensões biológicas, psíquicas, sociais, culturais. Nesse contexto, diferentes racionalidades médicas desenvolveram modelos próprios para interpretar o funcionamento do organismo e orientar a prática clínica. Entre elas, a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) distingue-se por compreender o ser humano como uma unidade dinâmica, na qual corpo, mente e ambiente interagem continuamente na manutenção da saúde e no desenvolvimento das doenças. Nesta medicina, o sucesso terapêutico não depende apenas da escolha dos pontos de acupuntura, mas da correta identificação do fator predominante responsável pela organização do padrão de desarmonia.
As emoções exercem influência significativa sobre a saúde humana, repercutindo em processos neuroendócrinos, imunológicos e comportamentais que participam tanto da manutenção da homeostase quanto do desenvolvimento de diferentes condições patológicas. Nas últimas décadas, o avanço das pesquisas em psiconeuroimunologia e medicina integrativa reforçou a compreensão de que os estados emocionais interferem na evolução clínica, na percepção dos sintomas e na resposta aos tratamentos, ampliando o interesse científico pela integração entre fatores emocionais e práticas terapêuticas (MATOS et al., 2021).
Entre os fatores internos descritos pela Medicina Tradicional Chinesa, as emoções ocupam posição central. Os textos clássicos, especialmente o Huangdi Neijing, descrevem alegria, raiva, preocupação, tristeza, melancolia, medo e susto como manifestações naturais da vida que, quando persistentes, intensas ou desproporcionais, podem alterar a circulação do Qi, comprometer o funcionamento dos sistemas Zang-Fu e favorecer a formação de padrões de desarmonia. Embora cada emoção apresente maior afinidade com determinados sistemas orgânicos, sua repercussão clínica decorre da interação dinâmica entre os órgãos, as substâncias fundamentais e a capacidade adaptativa do organismo (BING, 2001).
Na prática clínica da acupuntura, a avaliação do componente emocional integra os quatro métodos diagnósticos da MTC e participa da diferenciação de padrões que orienta a tomada de decisão terapêutica. A identificação da influência das emoções sobre o quadro clínico pode modificar os princípios de tratamento, a seleção dos pontos de acupuntura e a sequência das intervenções, especialmente quando os fatores emocionais desempenham papel relevante na origem ou na manutenção do desequilíbrio energético. Segundo Wang Ju-Yi e Robertson (2022), a individualização do tratamento depende da integração entre os achados clínicos e a compreensão funcional dos canais e sistemas orgânicos, não sendo possível dissociar os aspectos físicos das manifestações emocionais.
Nesse contexto, observa-se uma lacuna na literatura quanto ao papel das emoções na definição da estratégia terapêutica em acupuntura. Embora os clássicos da Medicina Tradicional Chinesa e os autores contemporâneos reconheçam sua relevância para o diagnóstico e para a condução clínica, ainda são escassos os estudos que discutem de forma sistematizada como a avaliação do componente emocional, participa da tomada de decisão terapêutica e da individualização do tratamento, e o que se refere a sua importância no tratamento inicial.
Apesar do crescente número de publicações sobre a eficácia da acupuntura, observa-se que a literatura contemporânea dedica pouca atenção à análise do componente emocional como elemento orientador da estratégia terapêutica. Embora os textos clássicos da Medicina Tradicional Chinesa descrevam as emoções como fatores capazes de influenciar a formação dos padrões de desarmonia e a definição da conduta clínica, ainda são escassas as revisões que sistematizam esse conhecimento e discutem sua aplicação na tomada de decisão terapêutica à luz das evidências científicas contemporâneas.
Diante desse cenário, este estudo parte da seguinte questão norteadora: Qual é o papel do restabelecimento do equilíbrio emocional na definição da estratégia terapêutica em acupuntura, à luz dos fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa e da literatura científica contemporânea? Assim, o objetivo desta revisão é analisar a influência das emoções na definição da terapêutica em acupuntura, integrando os fundamentos apresentados nos clássicos da Medicina Tradicional Chinesa às evidências científicas contemporâneas.
2. DIAGNÓSTICO NA MEDICINA TRADICIONAL CHINESA
Segundo Matos, (2021) o diagnóstico na Medicina Tradicional Chinesa constitui um processo clínico complexo que requer a integração de múltiplas informações obtidas por meio da observação criteriosa e da experiência do profissional. Diferentemente de uma abordagem centrada exclusivamente em sinais e sintomas isolados, a avaliação diagnóstica busca compreender o estado global do indivíduo, considerando a interação entre aspectos físicos, funcionais e energéticos que refletem sua condição fisiológica e os desequilíbrios patológicos subjacentes.
Ressalta este mesmo autor que, tradicionalmente, esse processo fundamenta-se nos quatro métodos diagnósticos da MTC: inspeção, ausculta e olfação, palpação e anamnese. Durante a inspeção, o acupunturista observa características como o brilho dos olhos, a coloração da face, a postura, a estrutura e os movimentos corporais, bem como, o estado da pele, dos cabelos e da língua. Essas informações, associadas aos dados obtidos pelos demais métodos diagnósticos, permitem analisar o indivíduo de forma sistêmica. O que norteia a formulação do diagnóstico e a definição da estratégia terapêutica individualizada.
A Medicina Tradicional Chinesa (MTC) concentra-se na observação dos fenômenos da natureza e nos estudos e compreensão dos princípios que regem a harmonia nela existente. A MTC visa o diagnóstico precoce das alterações do equilíbrio Yang/Ying, e a terapêutica é dirigida no sentido de restabelecer-se esse equilíbrio energético no corpo humano (SUSSMANN, 2007; YAMAMURA, 2013).
Segundo Wang Ju-Yi; Robertson (2022), o processo diagnóstico em acupuntura deve identificar a dinâmica funcional dos canais e sistemas orgânicos antes da seleção dos pontos de tratamento. Nessa perspectiva, a investigação do componente emocional não possui finalidade exclusivamente psicológica, mas clínica, pois fornece informações sobre a circulação do Qi, a participação dos sistemas Zang-Fu e a evolução do padrão de desarmonia. Assim, a estratégia terapêutica depende da integração entre os achados físicos e emocionais obtidos durante a avaliação do paciente.
E os autores continuam sobre o que se refere a diferenciação de padrões, onde estes não representam apenas uma etapa do diagnóstico, mas constitui o fundamento do julgamento clínico em acupuntura. O terapeuta deve interpretar os sinais e sintomas como expressões da dinâmica funcional dos canais e dos sistemas Zang-Fu, identificando quais alterações participam da gênese e da manutenção do desequilíbrio energético. Sob essa perspectiva, a avaliação das emoções integra o processo diagnóstico porque fornece informações relevantes sobre a evolução do padrão energético e sobre os mecanismos fisiopatológicos envolvidos no adoecimento.
A literatura científica contemporânea tem reforçado que a prática da MTC se fundamenta na identificação desses padrões funcionais e não apenas na presença de sintomas isolados. Revisões recentes destacam que a racionalidade diagnóstica desta medicina integra manifestações físicas, emocionais e funcionais para orientar a tomada de decisão terapêutica, representando um dos principais desafios metodológicos para a pesquisa em acupuntura, que frequentemente utiliza protocolos padronizados pouco compatíveis com a individualização do tratamento (MATOS et al., 2021).
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão de literatura, A revisão bibliográfica, como também e identificada, consiste em uma modalidade de pesquisa fundamentada na consulta, seleção e análise de produções científicas já publicadas, como livros, artigos, dissertações e teses, sem envolver a coleta direta de dados empíricos. Por basear-se em conhecimentos previamente produzidos pela comunidade científica, utiliza fontes secundárias para discutir e compreender determinado tema. Essa característica a distingue da pesquisa documental, que se apoia em fontes primárias ainda não submetidas à análise ou ao tratamento científico. (GIL, 2026)
Este trabalho foi conduzido em seis etapas: 1. definição da questão norteadora; 2. estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; 3. busca da literatura; 4. seleção e leitura crítica dos estudos; 5. extração e organização dos dados; e 6. análise, síntese e interpretação dos resultados. A questão norteadora da pesquisa foi: Qual é a importância da avaliação das emoções na definição da estratégia terapêutica em acupuntura, à luz dos fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa e das evidencias cientificas contemporâneas?
A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), da Scientific Electronic Library Online (SciELO) e da United States National Library of Medicine (PubMed) e BVS Salud, por serem amplamente reconhecidas na indexação de estudos da área da saúde. Complementarmente, foram consultadas obras clássicas da Medicina Tradicional Chinesa, especialmente as que se referem aos clássicos: o Huangdi Neijing (Suwen e Lingshu), além de livros de referência, utilizados para a interpretação dos conceitos clássicos.
Foram empregados descritores em português e inglês, combinados pelos operadores booleanos AND e OR, incluindo: "Acupuntura", "Emoções", “Psique”, "Acupuncture", "Emotions” e “Psique”. A estratégia de busca foi adaptada às especificidades de cada base de dados. Foram considerados elegíveis também, os artigos que apresentavam resumo e texto completo disponíveis em português, inglês ou espanhol, que respondessem à questão norteadora do estudo, independentemente do nível de evidência, e que estivessem acessíveis em formato eletrônico.
Como critérios de inclusão, foram considerados livros clássicos e artigos científicos publicados entre 2016 e 2026, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem a relação entre as emoções e acupuntura, diferenciação de padrões, estratégia terapêutica ou individualização do tratamento. Também foram incluídas obras de autores tradicionais e livros de referência, reconhecidos por sua relevância na fundamentação conceitual da Medicina Tradicional Chinesa.
Foram excluídos artigos duplicados, estudos sem relação direta com o objetivo da pesquisa, publicações exclusivamente experimentais sem discussão clínica, resumos de eventos, cartas ao editor, editoriais e trabalhos cujo texto completo não estivesse disponível.
Os estudos selecionados foram submetidos à leitura integral e à análise qualitativa. As informações extraídas compreenderam autor, ano de publicação, objetivo, delineamento metodológico, principais resultados e contribuições para a compreensão do papel das emoções na definição da estratégia terapêutica em acupuntura.
A análise dos estudos foi realizada de forma descritiva e interpretativa, buscando identificar convergências e divergências entre os fundamentos clássicos da Medicina Tradicional Chinesa e a literatura científica contemporânea. A síntese dos resultados foi organizada em categorias temáticas, contemplando a concepção das emoções na MTC, sua relação com os sistemas Zang-Fu, sua influência na diferenciação de padrões e sua contribuição para a definição da estratégia terapêutica em acupuntura.
4. EMOÇÕES NA MEDICINA TRADICIONAL CHINESA
Conforme destaca Paiva; Silva, (2026) as doenças estão relacionadas com o processo emocional individual e devem conviver de forma pacifica com seu meio ambiente, pois em caso de desarmonia, estas energias serão reverberadas nos órgãos internos e externos, gerando o adoecimento.
Bing, (2001) descreve que as emoções são manifestações fisiológicas da vida humana e exercem importante função adaptativa quando vivenciadas de forma equilibrada. Entretanto, quando persistem por longos períodos, apresentam intensidade excessiva ou não conseguem ser adequadamente elaboradas, tornam-se fatores patogênicos internos capazes de alterar a dinâmica energética do organismo, favorecendo o desenvolvimento de diferentes padrões de desarmonia.
Para Araújo e Jurdi, (2026) na MTC, o que mantém as funções dos órgãos, vísceras, mente, corpo e espírito e o movimento entre interior e exterior é o Qi (sopro vital). O Qi é que manterá a qualidade de vida oferecendo um equilíbrio entre Yin e Yang e os cinco elementos pois qualquer alteração termos o surgimento da desarmonia e por conseguinte a doença. Ele se manifesta em todas as atividades fisiológicas, sendo crucial para a evolução dos órgãos internos dos meridianos (canais de energia circulante) e é predominante na circulação do sangue (Xue).
Segundo Campiglia (2018), o Shen constitui o eixo organizador da atividade psíquica, integrando os diferentes aspetos da mente e das emoções. Na Medicina Tradicional Chinesa, Shen relaciona-se funcionalmente com Hun, Po, Yi e Zhi, que representam diferentes dimensões da atividade mental e emocional, contribuindo para o equilíbrio entre corpo e mente.
Conforme Santos, et al, (2021) na MTC, os transtornos mentais são tradicionalmente descritos sob a denominação de Dian Kuang. Essas manifestações são classificadas em Dian, de natureza yin, associado à estagnação do Qi e caracterizado por sintomas como apatia, retraimento e lentificação, e Kuang, de natureza yang, relacionado ao fogo que perturba a mente, manifestando-se por agitação, hiperatividade mental ou motora e comportamento maníaco. Para esta medicina, essas síndromes resultam de desequilíbrios entre yin e yang, da estagnação do Qi e do sangue, bem como do acúmulo de mucosidade e calor, fatores que comprometem o equilíbrio funcional do organismo e geram patologias mentais
As matérias antigas da Medicina Tradicional Chinesa descrevem que as emoções alteram inicialmente a circulação do Qi, comprometendo progressivamente o funcionamento dos sistemas Zang-Fu e das substâncias fundamentais. Essa compreensão indica que, em muitos casos, os sintomas físicos representam manifestações secundárias de um desequilíbrio cuja origem está relacionada às alterações emocionais persistentes. Nessas circunstâncias, o tratamento direcionado apenas às manifestações corporais pode produzir melhora temporária, sem modificar os mecanismos responsáveis pela manutenção do padrão de desarmonia (BING, 2001)
A formação dos padrões de desarmonia resulta da interação entre fatores emocionais, constituição individual, hábitos de vida, fatores ambientais e capacidade adaptativa do organismo. Dessa forma, pacientes submetidos a experiências emocionais semelhantes podem desenvolver padrões energéticos distintos, dependendo do estado funcional dos sistemas Zang-Fu, das substâncias fundamentais e da resposta fisiológica individual. Esse entendimento constitui um dos pilares da diferenciação de padrões, princípio que orienta o diagnóstico e a individualização do tratamento na Medicina Tradicional Chinesa (WANG JU-YI; ROBERTSON, 2022).
De acordo com os clássicos da Medicina Tradicional Chinesa, os transtornos mentais decorrem de desequilíbrios que afetam principalmente o coração (Xin), considerado a morada do Shen (mente ou espírito), e o fígado (Gan), órgão responsável pela livre circulação do Qi e regulação das emoções. Nessa perspectiva, manifestações como insônia, ansiedade, mania, depressão, histeria e psicose são compreendidas como diferentes expressões de alterações envolvendo o Shen, o Xin e o Gan, refletindo a desarmonia funcional desses sistemas. (BRIVIO, 2022)
Salienta-se também que a MTC se caracteriza como um sistema médico completo por reunir os elementos essenciais que estruturam uma racionalidade terapêutica própria. Sua base morfológica é representada pelo sistema de canais e colaterais (Jingluo), enquanto a dinâmica funcional do organismo é explicada pelos sistemas internos (Zangfu). O processo diagnóstico fundamenta-se, entre outros métodos, na avaliação dos pulsos, e sua doutrina é orientada pelos Oito Princípios (Ba Gang) e pela teoria dos Cinco Elementos (Wu Xing). No âmbito terapêutico, destacam-se a acupuntura e a moxabustão, técnicas destinadas à restauração do equilíbrio funcional do organismo. (CORREIA, et al, 2021).
5. O RESTABELECIMENTO DO EQUILÍBRIO EMOCIONAL COMO ESTRATÉGIA TERAPÊUTICA EM ACUPUNTURA
Os textos consagrados descrevem que a observação do estado emocional deve ser realizada em conjunto com os quatro métodos diagnósticos da Medicina Tradicional Chinesa: inspeção, ausculta e olfação, interrogatório e palpação. Essa avaliação permite identificar não apenas a presença de sofrimento emocional, mas principalmente sua participação na origem, na manutenção ou no agravamento do padrão energético apresentado pelo paciente. Dessa forma, as emoções deixam de ser interpretadas como manifestações secundárias e passam a integrar a análise clínica que orienta a escolha dos princípios terapêuticos (BING, 2001).
Matos et al. (2021) observam que protocolos terapêuticos padronizados frequentemente não contemplam a complexidade da diferenciação de padrões, reduzindo a capacidade de representar a prática clínica real. Nesse contexto, a avaliação das emoções assume relevância por integrar um dos elementos que orientam a tomada de decisão terapêutica e a personalização da conduta clínica. E destacam também que a racionalidade diagnóstica da MTC exige que a definição da conduta terapêutica considere simultaneamente fatores físicos, emocionais e funcionais, aspecto que nem sempre é contemplado pelos protocolos padronizados utilizados em pesquisas clínicas. Essa característica reforça a necessidade de que o componente emocional seja cuidadosamente avaliado durante a elaboração da estratégia terapêutica, sobretudo quando sua participação na gênese ou na manutenção do desequilíbrio energético for predominante.
Estudos contemporâneos também demonstram que a acupuntura pode contribuir para a modulação de mecanismos neurofisiológicos relacionados ao processamento das emoções, incluindo alterações na atividade do sistema nervoso autônomo, dos circuitos centrais envolvidos na dor e de mediadores neuroquímicos associados ao estresse e à resposta inflamatória. Embora esses mecanismos sejam descritos segundo a fisiologia biomédica, seus achados são compatíveis com a compreensão da MTC de que o equilíbrio emocional participa da restauração da homeostase do organismo (LI et al. 2021).
A análise da literatura indica que a valorização do componente emocional amplia a compreensão do processo de adoecimento e favorece uma abordagem terapêutica mais individualizada. Entretanto, também evidencia a necessidade de estudos clínicos que investiguem, de forma específica, como a priorização do restabelecimento do equilíbrio emocional influencia os desfechos terapêuticos em diferentes condições clínicas. O desenvolvimento de pesquisas que conciliem a racionalidade diagnóstica da MTC com metodologias científicas contemporâneas poderá contribuir para fortalecer a base de evidências da acupuntura e aprimorar sua aplicação clínica (MATOS et al., 2021).
Evidências também sustentam a participação da acupuntura na modulação dos aspectos emocionais, ao demonstrarem aumento da ligação de receptores μ-opioides em estruturas do sistema límbico, incluindo o córtex cingulado, o núcleo accumbens, os núcleos talâmicos e a amígdala. Essas regiões cerebrais estão diretamente relacionadas ao processamento das emoções e à modulação do componente afetivo da dor, sugerindo que os efeitos terapêuticos da acupuntura envolvem mecanismos neurobiológicos capazes de influenciar simultaneamente a percepção dolorosa e o equilíbrio emocional. (ORSI, et al, 2025)
Na MTC, a energia vital é compreendida como o princípio fundamental que sustenta a vida e desempenha papel essencial na manutenção da saúde e nos processos de recuperação do organismo. Sob essa perspectiva, o estado de saúde depende da circulação equilibrada dessa energia, enquanto sua desarmonia compromete o funcionamento adequado do corpo. Os desequilíbrios energéticos são atribuídos a diversos fatores, entre eles alterações emocionais, estresse, hábitos de vida inadequados, atitudes prejudiciais e alimentação desequilibrada, que podem favorecer o desenvolvimento de diferentes disfunções orgânicas. (DACAL; SILVA, 2018)
Os pontos de acupuntura podem exercer efeitos locais, sistêmicos ou à distância, atuando como vias de comunicação entre o meio interno e externo do organismo. Sua estimulação favorece a circulação de Qi e Xue, influencia o sistema nervoso central e autônomo e promove a liberação de neurotransmissores e hormônios, contribuindo para a modulação da dor e das funções orgânicas. Na prática clínica, diferentes pontos são combinados de acordo com os padrões de desarmonia e as disfunções energéticas dos Zang Fu, com o objetivo de restabelecer o equilíbrio do organismo (SANTOS et al, 2021).
O Sistema Nervoso Autónomo (SNA), constituído pelos sistemas nervosos simpático, parassimpático e entérico, desempenha um papel essencial na manutenção da homeostase do organismo. Evidências recentes sugerem que o SNA representa uma das principais vias de transmissão dos estímulos desencadeados pela acupuntura. Nesse contexto, estudos demonstraram que a acupuntura é capaz de reduzir de forma significativa os sintomas associados à disfunção do SNA, incluindo enxaqueca, depressão e dispepsia funcional. (XIANG, 2026)
Estudos têm demonstrado ainda que as doenças gastrointestinais estão frequentemente associadas a alterações no funcionamento do sistema nervoso autónomo (SNA). Ao avaliar a variabilidade da frequência cardíaca (VFC) durante 24 horas, juntamente com a motilidade gastrointestinal e a secreção de ácido gástrico, observaram que indivíduos com dispepsia funcional apresentavam maior atividade do sistema nervoso simpático e menor resposta vagal. Além disso, verificou-se que os pacientes com disfunção do SNA manifestavam sintomas gastrointestinais mais intensos e maiores pontuações de indigestão. Diversas meta-análises também indicam que a acupuntura constitui uma alternativa terapêutica eficaz para pacientes que não podem ser submetidos à terapêutica procinética, apresentando ainda um perfil de segurança superior, com menos efeitos adversos do que os fármacos utilizados para estimular a motilidade gastrointestinal no tratamento da dispepsia funcional. (LI, Y, 2022)
E este mesmo autor evidencia que os estudos anteriormente apresentados indicam que a acupuntura pode contribuir para a melhoria de diversas condições clínicas por meio da modulação da disfunção do Sistema Nervoso Autónomo (SNA). Além disso, a regulação da atividade do SNA parece estar intimamente associada aos efeitos terapêuticos observados com a acupuntura no tratamento dessas patologias.
Xiang, (2026) destaca que foi descoberto que a acupuntura trata várias doenças, incluindo distúrbios gastrointestinais e cardiovasculares, bem como problemas de saúde mental como ansiedade e depressão, modulando o núcleo paraventricular hipotalâmico (PVN). Este salienta ainda que a acupuntura exerce diversos efeitos terapêuticos relacionados ao SNA e aos circuitos neurais em condições de dor e saúde mental.
A acupuntura atua sobre vias de sinalização molecular envolvidas na dor e na regulação emocional, reduzindo tanto a transmissão dos estímulos nociceptivos como o processamento de emoções negativas. Esses efeitos são mediados pela modulação de canais iónicos específicos, de receptores de neurotransmissores e das respetivas cascatas de sinalização intracelular. (Idem)
Além disso a acupuntura exerce diversos efeitos terapêuticos, incluindo ações, entre outras, neuroprotetoras, moduladoras das funções endócrinas, imunológicas e psíquicas. Esses efeitos resultam da estimulação de acupontos, que ativa terminações do sistema nervoso periférico e desencadeia respostas neuromodulatórias em níveis local e sistêmico. Os impulsos gerados alcançam estruturas do sistema nervoso central, promovendo a liberação de mediadores químicos e a regulação de neurotransmissores envolvidos em processos fisiológicos, como a percepção da dor, o controle da temperatura corporal, a circulação sanguínea e a manutenção da homeostase. (COSTA, ABREU, SILVEIRA, 2024)
A acupuntura promove ainda, alterações na plasticidade estrutural e funcional do sistema nervoso através da regulação positiva de fatores neurotróficos fundamentais, da modulação da expressão de proteínas envolvidas na função sináptica e da indução de alterações epigenéticas. Estes mecanismos constituem uma base celular e molecular que contribui para o alívio sustentado da dor e para a melhoria dos distúrbios emocionais. (XIANG, 2026)
O mesmo autor discorre ainda que a acupuntura inibe seletivamente a ativação excessiva das células imunes e a produção de fatores pró-inflamatórios no sistema nervoso central, interrompendo assim o ciclo vicioso entre a inflamação neural e os distúrbios emocionais e de dor, pois é de conhecimento que esta sensação ocorre conjuntamente com problemas de saúde mental, como por exemplo, a dor neuropática que geralmente, desencadeia ansiedade e depressão.
6. DISCUSSÃO
A presente revisão permitiu identificar convergência entre os fundamentos clássicos da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), as obras de referência da área e a literatura científica contemporânea quanto à importância da avaliação do componente emocional na definição da estratégia terapêutica em acupuntura. Embora a produção científica recente concentre-se predominantemente na eficácia da acupuntura para condições clínicas específicas, observou-se que os princípios diagnósticos que fundamentam a prática clínica da MTC permanecem relativamente pouco explorados, especialmente no que se refere ao papel das emoções na construção do raciocínio terapêutico
Os clássicos da MTC estabelecem que as emoções constituem fatores internos capazes de alterar a circulação do Qi, comprometer o funcionamento dos sistemas Zang-Fu e favorecer a formação de padrões de desarmonia. Entretanto, a análise dos textos clássicos demonstra que as emoções não são consideradas, por si só, patológicas. O adoecimento decorre da perda da capacidade adaptativa do organismo diante de estímulos emocionais persistentes ou excessivos, reforçando a compreensão de que saúde e doença resultam da manutenção ou da ruptura do equilíbrio funcional (BING, 2001)
Outro aspecto evidenciado nesta revisão refere-se à individualização do tratamento. Diferentemente dos protocolos terapêuticos padronizados, frequentemente empregados em pesquisas clínicas, a prática da MTC fundamenta-se na identificação do padrão energético apresentado pelo paciente. Dessa forma, indivíduos com o mesmo diagnóstico médico podem apresentar padrões distintos e necessitar de abordagens terapêuticas diferentes. Essa característica representa um dos maiores desafios para a pesquisa contemporânea em acupuntura, uma vez que a padronização metodológica nem sempre consegue reproduzir a complexidade da diferenciação de padrões utilizada na prática clínica (MATOS et al., 2021).
Entretanto, este trabalho também evidenciou importantes lacunas na literatura científica. Apesar do crescente número de estudos sobre acupuntura, ainda são escassas as pesquisas que investigam especificamente a influência da avaliação e do restabelecimento do equilíbrio emocional na definição da estratégia terapêutica. A maioria dos estudos concentra-se em desfechos clínicos ou mecanismos fisiológicos, sem analisar como a diferenciação de padrões modifica a conduta terapêutica. Essa limitação reforça a necessidade de pesquisas que conciliem os fundamentos diagnósticos da Medicina Tradicional Chinesa com metodologias contemporâneas de investigação, permitindo produzir evidências mais representativas da prática clínica.
Dessa forma, os achados desta revisão sustentam que o restabelecimento do equilíbrio emocional deve ser compreendido como um componente estratégico da prática clínica em acupuntura, quando a diferenciação de padrões identifica sua participação predominante na origem ou na manutenção do desequilíbrio energético. Mais do que uma etapa isolada do tratamento, essa abordagem representa uma consequência do raciocínio clínico próprio da Medicina Tradicional Chinesa, reafirmando a importância da individualização terapêutica e da integração entre os aspectos físicos, emocionais e energéticos na promoção da saúde.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente verificação permitiu analisar o papel do restabelecimento do equilíbrio emocional na definição da estratégia terapêutica em acupuntura, à luz dos fundamentos da MTC e da literatura científica contemporânea. A análise dos estudos demonstrou que a racionalidade diagnóstica da MTC se fundamenta na diferenciação de padrões, princípio que orienta a identificação da origem e da dinâmica do desequilíbrio energético, permitindo a elaboração de estratégias terapêuticas individualizadas.
Os resultados evidenciaram que as emoções ocupam posição central na fisiopatologia da MTC, não apenas como fatores internos capazes de desencadear ou perpetuar padrões de desarmonia, mas também como elementos que participam da construção do raciocínio clínico. Assim, a avaliação do componente emocional integra o processo diagnóstico e contribui para a definição dos princípios terapêuticos, especialmente quando sua participação na geração ou na manutenção do desequilíbrio energético é predominante.
Esta recapitulação também evidenciou a importância do restabelecimento do equilíbrio emocional na abordagem terapêutica dos pacientes submetidos à acupuntura. A sua aplicação baseia-se na diferenciação de padrões e na identificação da raiz do adoecimento, princípios fundamentais da MTC. Quando os fatores emocionais constituem o principal mecanismo fisiopatológico do quadro clínico, a sua abordagem torna-se um componente essencial da estratégia terapêutica. Nesse contexto, o tratamento das manifestações emocionais não exclui o manejo dos sintomas físicos, mas orienta a sequência das intervenções de acordo com os fundamentos da MTC.
Outro aspecto relevante identificado nesta, refere-se à necessidade de aproximar a prática clínica da produção científica contemporânea. Embora o número de pesquisas sobre acupuntura tenha aumentado nas últimas décadas, ainda são escassos os estudos que investigam, de forma específica, como a avaliação e o restabelecimento do equilíbrio emocional influenciam a definição da estratégia terapêutica. A predominância de protocolos padronizados nos ensaios clínicos dificulta a representação da prática cotidiana da Medicina Tradicional Chinesa, cuja essência reside na individualização do tratamento.
Dessa forma, considera-se que o presente estudo contribui para ampliar a compreensão do papel das emoções na prática clínica da acupuntura, destacando que a definição da estratégia terapêutica deve resultar da integração entre manifestações físicas, emocionais e energéticas, conforme os princípios diagnósticos da MTC. Mais do que priorizar sintomas isolados, a acupuntura busca identificar e tratar o fator predominante responsável pela organização do padrão de desarmonia, reafirmando a importância da abordagem integral do paciente.
Por fim, recomenda-se o desenvolvimento de estudos clínicos que investiguem o impacto da priorização do restabelecimento do equilíbrio emocional sobre os desfechos terapêuticos em diferentes condições clínicas, utilizando metodologias compatíveis com a racionalidade diagnóstica da Medicina Tradicional Chinesa. A produção de evidências nessa área poderá fortalecer a integração entre os conhecimentos clássicos da MTC e a pesquisa científica contemporânea, contribuindo para o aperfeiçoamento da prática clínica em acupuntura.
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1 Médica Integrativa, Acupunturista. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Biomédica, Acupunturista, Professora Universitária. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail