O PAPEL DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NA VIDA DAS FAMÍLIAS NEGRAS

THE ROLE OF THE BOLSA FAMÍLIA PROGRAM IN THE LIVES OF BLACK FAMILIES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785288676

RESUMO
Nosso estudo teve como objetivo geral: Analisar o Papel do Programa Bolsa Família- PBF na Vida das Famílias Negras, tendo verificado que o principal objetivo do PBF é evitar a evasão escolar e, nesse sentido, depois de três faltas da criança, sem importante justificativa, a família é cortada do programa. Buscamos também, identificar, no relato das famílias negras, quais as mudanças específicas que ocorreram no período em que o PBF entrou em suas vidas tendo abstraído das falas que o montante de dinheiro recebido serve, prioritariamente, para 1. Compra de alimentos, 2. Compra de remédios. 3. Compra de gás de cozinha e 4. Pagamento do aluguel. Foi possível, ainda, descrever os benefícios específicos ocorridos na vida das crianças beneficiárias no que diz respeito ao seu desenvolvimento no campo da saúde: ficam doentes com menos frequência, tem melhoria na alimentação, deixam de ser humilhadas, pelos colegas, porque passam a levar lanche, de qualidade, para a escola e, no que diz respeito à educação escolar, houve caso em que, com o benefício, foi possível pagar reforço escolar. Nossa pesquisa aproximou – se da autobiografia (JOSSO) como abordagem metodológica, uma vez que possibilita o resgate do lugar de fala e das categorias teóricas do ser menos, Ser mais (FREIRE), tendo ficado evidente que as profundas desigualdades existentes, no Brasil, entre ricos e pobres, pretos e brancos visa fixar a população majoritária na categoria ser menos, contudo, essa população, cotidianamente luta e busca, de várias formas, o seu SER MAIS, apostando na educação das crianças sobre sua responsabilidade, encaminhando essas crianças, todos os dias, para a escola, conforme a Mãe 4: “não é por causa do PBF que meus filhos estão na escola, quero que eles cresçam com outro futuro e sejam felizes.
Palavras-chave: Programa Bolsa Família; Famílias Negras; Desigualdades Sociais.

ABSTRACT
The general objective of this study was to analyze the role of the *Bolsa Família* Program (PBF) in the lives of Black families. It was noted that the PBF’s primary goal is to prevent school dropout; consequently, if a child accumulates three unexcused absences, the family is removed from the program. We also sought to identify, through the accounts of Black families, the specific changes that occurred after the PBF entered their lives. Their statements revealed that the funds received are primarily used for: 1. purchasing food; 2. purchasing medication; 3. purchasing cooking gas; and 4. paying rent. Furthermore, it was possible to describe specific benefits regarding the health and development of the beneficiary children: they fall ill less frequently, their nutrition improves, and they are no longer humiliated by peers because they can now bring quality snacks to school. Regarding education, there was even a case where the benefit enabled payment for remedial tutoring. Our research adopted an autobiographical approach (Josso), as it allows for the reclamation of one's "voice" and the theoretical concepts of "Being Less" and "Being More" (Freire). It became evident that the deep inequalities in Brazil—between rich and poor, and Black and white populations—aim to keep the majority population in the category of "Being Less." However, this population fights daily and seeks, in various ways, to "Be More" by prioritizing their children's education and ensuring they attend school every day. As "Mother 4" stated: "It isn't because of the PBF that my children are in school; I want them to grow up with a different future and be happy."
Keywords: *Bolsa Família* Program; Black Families; Social Inequalities.

1. INTRODUÇÃO

Ao cursar, no quarto período, a disciplina de: Pesquisa e Prática Pedagógica Curricular III – Práticas Curriculares e Sala de Aula – PPP3 cuja ementa dispõe: Estudo de práticas curriculares com ênfase no planejamento, na execução e na avaliação do currículo, nos diferentes espaços da escola em intersecção com o campo das decisões político-pedagógicas ampliadas, de ordem dos sistemas de ensino, das diretrizes curriculares nacionais para educação básica e modalidades de ensino. Investigação dos processos de negociação entre escola e comunidade sob a influência particular da cultura escolar, do projeto político pedagógico e requerimentos socioculturais externos, (Grifo nosso), inscrita no perfil curricular 1322 do curso de Pedagogia do Centro de Educação – CE / UFPE, fizemos observação das práticas curriculares desenvolvidas no chão da escola para identificar em que medida o que está prescrito nas propostas curriculares emanadas do governo federal, estadual e municipal se evidencia no cotidiano dos/as professores/as e estudantes, bem como, de todo o corpo de profissionais que ali estão lotados.

A escola na qual realizamos estágio de PPP3 possui grande porte, está instalada num bairro periférico da cidade do Recife. Continuei, até hoje, na escola, cinco semestres depois, realizando as outras PPPs que existem no curso. Planejei e dei aulas nas diversas turmas do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental (EI) e, entre tantas temáticas que envolvem o ensino-aprendizagem das crianças, chama minha atenção a realização de um estudo, mais aprofundado, acerca do Programa Bolsa Família (PBF), desde a PPP3 acima referenciada. Meu interesse pelo PBF deve-se ao fato de que, na sociedade e na escola, muitas pessoas depõem no sentido de que o PBF, nas mãos dessas pessoas carentes, não se constitui num benefício para as crianças, mas, serviria para alimentar a “preguiça” dessas pessoas, comprar drogas, fazê-las, eternamente, dependentes das benesses do governo. Considero, contudo, que programas sociais que visam reduzir as desigualdades existentes no seio da sociedade brasileira são urgentes, necessários e devem ser analisados no sentido da verificação da sua eficácia e eficiência, com vistas a reajustá-los caso não estejam cumprindo os objetivos e as metas esperadas e se constituem, também, resultado das demandas históricas da sociedade para que os direitos humanos se cumpram e para todos/as.

Muitas são as vertentes possíveis que podemos eleger para estudar o PBF. Em nosso caso, tivemos como objetivo analisar O Papel do Programa Bolsa Família na Vida das Famílias Negras, uma vez que, de acordo com o (IBGE, 2010), o Brasil possui o maior número de negros fora da África, perdendo apenas para a Nigéria. O interesse pela realização dessa pesquisa veio por meio de questionamentos, observados em nosso meio social, bem como, na escola: Como o Programa Bolsa Família reduziria a evasão e o insucesso escolar das crianças pretas e pobres? Como se dá o desenvolvimento pedagógico dos/as alunos/as beneficiados/as? Como estão constituídas as famílias negras beneficiárias do programa? Houve melhoria do desempenho escolar das crianças? Houve melhoria na saúde das crianças? Houve redução do trabalho infantil?

Foram essas então, algumas das questões que nos motivaram ao estudo e, para respondê-las, fizemos diálogos com a direção, coordenação e secretaria da escola referenciada, no sentido de que me apontassem famílias que se autodeclararam como negras considerando quesito raça/cor/etnia do (IBGE, 2010) que junta pretos e pardos na categoria negros, bem como, famílias negras que estejam com seus filhos, na escola, do 1º ao 5º ano, intervalo de tempo que nos possibilitaria verificar as mudanças efetivamente ocorridas na vida das famílias beneficiárias do PBF.

Consideramos de grande importância o Programa Bolsa Família, como um programa social que, na minha hipótese, trouxe a inclusão para as crianças e adolescentes das escolas públicas de periferia que, na sua maioria, são negros/as e vivem em situação de pobreza, às vezes, extrema. Considerando que muitas dessas famílias levavam seus filhos para trabalhar nas ruas, nas roças, na produção de carvão e, até, como domésticas, como mão de obra para aumentar a renda familiar, como forma de trazer o alimento para a sobrevivência da família.

Tudo isso, provocando um alto índice na evasão escolar e contribuindo para um aumento do analfabetismo nessas famílias e perpetuando a miséria em seu meio social. O Programa Bolsa Família contribui como renda, retirando famílias da pobreza extrema e, com isso, a educação avança proporcionado desenvolvimento humano. Para as famílias pretas e pobres pode colaborar para garantir um futuro diferente, onde muitas crianças e jovens poderão almejar a conclusão dos estudos e o ingresso em uma Universidade, diferentemente dos pais, aonde muitos não chegaram a concluir o 5º ano do Ensino Fundamental e o Programa Bolsa Família traz impactos na qualidade de vida, na educação dos seus filhos/as, onde também muitos pais voltam aos estudos trazendo uma nova perspectiva socioeconômica na realidade dessas famílias negras e de periferia. Nosso estudo buscou se aproximar das formulações teóricas de (PAULO FREIRE, 1999 e 2006), especialmente nas categorias analíticas do Ser Mais e ser menos e da abordagem metodológica da (auto) biografia (JOSSO, 1999 e 2010) na categoria analítica dos Projetos de vida e formação.

Nosso estudo teve como OBJETIVO GERAL: Analisar o Papel do Programa Bolsa Família na Vida das Famílias Negras e como OBJETIVOS ESPECÍFICOS: 1. Discutir como se dá o monitoramento, pela escola e pelas famílias negras do cumprimento dos objetivos do Programa Bolsa Família. 2. Identificar, no relato de famílias negras, quais as mudanças específicas que ocorreram no período em que o Programa Bolsa Família entrou em suas vidas. 3. Descrever os benefícios específicos ocorridos na vida das crianças beneficiárias no que diz respeito ao seu desenvolvimento no campo da saúde e da educação escolar.

2. MARCO TEÓRICO

2.1. Visões Acerca da Criança no Mundo Eurocêntrico

A criança, no mundo ocidental, não gozava de interesses de pesquisa e, desse modo, da Antiguidade à idade Moderna, não conseguimos encontrar pesquisas que tratem dessa temática ligada à criança e seu mundo, nesse sentido, podemos afirmar que:

Não é que não existissem seres humanos pequenos, gestados, paridos, nascidos, amamentados, crescidos - a maioria deles mortos, antes de crescerem -, mas é que a eles não era atribuída a mesma significação social e subjetiva; nem com eles eram realizadas as práticas discursivas e não-discursivas que somente fizeram o século XVIII, na plenitude, o XIX e até mesmo os meados do século XX: nem a infância, nem a criança, nem o infantil foram considerados, em qualquer medida, sequer problemas (CORAZZA, 2002, p. 81).

No Brasil, as crianças indígenas foram, com suas famílias, os primeiros habitantes do Brasil, tiveram suas terras invadidas pelos portugueses e, esse crime, tem produzido ainda, nos dias de hoje, graves consequências na demarcação das suas terras na sua emancipação e na qualidade de vida desses indivíduos. As crianças negras e suas famílias chegaram ao Brasil como escravas por volta do ano de 1532, trazendo mão de obra qualificada, história e memória ancestral, conforme Gouvea (2006, p. 13-14):

a criança escrava exercia seu aprendizado para a vida adulta através do trabalho, iniciado aos seis, sete anos de idade. O menino branco de elite tinha sua formação nos colégios, onde adquiria sua instrução intelectual, ao mesmo tempo em que se preparava para o exercício do mando. Já as meninas brancas de elite tinham um aprendizado mais restritivo, voltado para a aquisição de saberes tidos como “femininos”. As vivências da infância eram radicalmente diferenciadas, definidas pela sua inserção social, por pertencimentos raciais e de gênero. Isso determinava diferentes processos e conteúdos de aprendizagem em instâncias distintas, o colégio, no caso da criança de elite, ou o trabalho, no caso da criança pobre ou escrava.

Desde a criação do Programa Bolsa Família percebemos o questionamento na sociedade. Qual o seu real propósito e benefícios no desenvolvimento pedagógico das crianças, Como a sociedade, as famílias, a escola conseguem monitorar a frequência escolar? E, ainda, como um benefício financeiro poderia mudar a realidade escolar de crianças e adolescentes? Essa benesse não alimentaria a preguiça das famílias? Consideramos que falar em preguiça das famílias é generalizar e, mais que isso, demonstra discriminação, preconceito e racismo devido ao grupo populacional ao qual o programa atende, os pretos e pobres, em sua maioria. Esse racismo que estrutura a sociedade brasileira é fruto de formulações teóricas seculares que defenderam que negros e brancos eram diferentes e, inclusive, que os brancos eram superiores aos negros/as intelectual e moralmente, a saber:

Para vários ideólogos, somente o embranquecimento da população poderia fazer com que o país se desenvolvesse, visto a visão da inferioridade dos negros. Os negros eram os responsáveis pelo atraso da sociedade brasileira. Aliado a estas ideias, o estado brasileiro investiu pesadamente em programas de imigração de europeus. Só no estado de São Paulo, para exemplificar, chegaram, entre 1890 e 1914, mais de 1,5 milhões de europeus, sendo que 64% destes, com a passagem paga pelo governo estadual (Rocha 2006, p. 22).

O Programa Bolsa Família, no entanto, criado pelo Decreto nº 5.209, que regulamenta a Lei nº 10.836, de 9 de janeiro de 2004, se instituindo a partir da unificação de programas sociais pré-existentes, como Bolsa Escola e Bolsa Alimentação, ao nosso ver, se constitui numa revolução ao pensar a criança como sujeito de direitos, visar combater desigualdades seculares, conforme seus objetivos: Promover a inserção da criança na escola, é o fator principal do estado retirá-la da vulnerabilidade social. Nesse sentido, consideramos que o Programa Bolsa Família trouxe, de volta, jovens e crianças para o ambiente escolar reduzindo a evasão escolar e regulando a frequência no ambiente educacional. Criar o Programa Bolsa Família altera a Lei nº 10.689, de 13 de junho de 2003.

No seu Art. 1º Fica criado, no âmbito da Presidência da República, o Programa Bolsa Família, destinado às ações de transferência de renda com condicionalidades. Parágrafo único: O Programa de que trata o caput tem por finalidade a unificação dos procedimentos de gestão e execução das ações de transferência de renda do Governo Federal, especialmente as do Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à Educação - Bolsa Escola, instituído pela Lei nº 10.219, de 11 de abril de 2001, do Programa Nacional de Acesso à Alimentação - PNAA, criado pela Lei nº 10.689, de 13 de junho de 2003, do Programa Nacional de Renda Mínima vinculada à Saúde - Bolsa Alimentação, instituído pela Medida Provisória nº 2.206-1, de 6 de setembro de 2001, do Programa Auxílio-Gás, instituído pelo Decreto nº 4.102, de 24 de janeiro de 2002, e do Cadastramento Único do Governo Federal, instituído pelo Decreto nº 3.877, de 24 de julho de 2001.

2.2. A Conexão Entre o Programa Bolsa Família e a Educação das Crianças

Seus objetivos abrangem: a) combater a fome e promover a segurança alimentar e nutricional; b) combater a pobreza e outras formas de privação das famílias; c) promover o acesso à rede de serviços públicos, em especial, saúde, educação, segurança alimentar e assistência social; e d) criar possibilidades de emancipação sustentada dos grupos familiares e desenvolvimento local dos territórios (Caixa Econômica Federal, 2011). A educação tem como ponto principal o desenvolvimento humano e social, e a família é parte desse empoderamento com seu apoio. A criança no ambiente educacional desenvolve conhecimento e habilidades que são muito importantes para seu equilíbrio emocional e cognitivo.

Art. 1º. A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais. §1º Esta Lei disciplina a educação escolar, que se desenvolve, predominantemente, por meio do ensino, em instituições culturais. §2º A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social. (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: nº 9394/96. Brasília: 1996.).

O MEC no Programa Interministerial Bolsa Família, vem acompanhando a frequência escolar e diagnosticando as razões da baixa ou não frequência, objetivando enfrentar a evasão e estimular a permanência e a progressão educacional de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. Essas primeiras percepções vem desmistificar as críticas existentes em nosso meio social, de comentários da sociedade, de que as famílias não teriam resultados significativos em sua mudança socioeconômica e seu desenvolvimento como: educação, saúde, qualidade de vida. A transformação de vida de pessoas consideradas sem nenhuma produtividade econômica e qualificação como meta do Governo Federal é salutar e justa.

Verifica – se que em uma sociedade onde o valor humano é dado pela sua posição social e status, importante é quem tem algo a oferecer, o bolsa família muda essas máximas, uma vez que é o Governo Federal que encampa o programa e proporciona novos meios de reparar essas populações que, por muito tempo, foi negligenciada e que estavam longe dos cuidados ligados à educação, qualidade de vida e saúde, na verdade, eram esquecidas. Pessoas negras, pobres e moradoras de comunidades onde o alcance do estado, por muito tempo e por muitos anos tardou em chegar. Nesse estudo, analisamos O papel do Programa Bolsa Família na Vida das Famílias Negras, pudemos adentrar a escola, as comunidades onde crianças e famílias vivem e refletir acerca da análise dos dados coletados no que diz respeito a compreender como se dá o desenvolvimento pedagógico, de saúde e qualidade de vida desses estudantes pretos e pobres beneficiados. E sua frequência escolar? Passou a ser mais constante e o índice de reprovação baixo? Quais as consequências relevantes no acesso, permanência e sucesso, ao longo do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental?

2.3. Educação das Crianças no Brasil e o Tratamento Dado aos Saberes Africanos e Afrodescendentes

O ano de 2003 se constituiu num ano revolucionário para a Educação Brasileira considerando que em 09 de janeiro foi promulgada a Lei 10.639/03 que obriga escolas públicas e particulares de todos os níveis e modalidades de ensino a: Ensinar a História e a Cultura Afro-brasileira e Africana, revertendo sua base secular de ser eurocêntrica, brancocêntrica, machocêntrica e cristã e, de ainda, defender essa base de ensino como sendo universal. Ler, compreender e buscar a implementação prática das leis é importante, pois, de acordo com de acordo com Thompson:

Pois “a lei” enquanto uma lógica de igualdade, sempre deve tentar transcender as desigualdades do poder de classe, ao qual é instrumentalmente atrelada para servi-lo. E “a lei” enquanto ideologia, a qual pretende reconciliar os interesses de todos os graus de homens, sempre deve entrar em conflito com o sectarismo ideológico de classe (THOMPSON, 1987, p. 360 – 361).

A Lei 10.639/03 debutou em 2018, ou seja, completou 15 anos e enfrenta grandes dificuldades de implementação, inclusive na UFPE / CE e no curso de Pedagogia que, 54 disciplinas obrigatórias, não possui uma disciplina obrigatória atendendo esse dispositivo legal. Essa lei federal, aliada às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnicorraciais e para o Ensino da História e da Cultura Afrobrasileira e Africana – DCNERER(MEC, 2004), responde às demandas históricas do movimento social negro por reconhecimento e reparação das iniquidades cometidas pelos quase 400 anos de práticas escravistas no território nacional.

SILVA e SILVA, 2018, no texto: O PROCESSOS EDUCATIVOS DO TERREIRO DE XAMBÁ PARA A FORMAÇÃO MUSICAL DO GRUPO DE COCO BONGAR produziram o quadro a seguir:

Quadro 1. Temáticas de pesquisa preferidas pelos concluintes de Pedagogia do CE / UFPE 2005 / 2015

Ano

Quantidade de tccs

Temáticas recorrentes pesquisadas

2005.2

14

Gestão democrática, políticas educacionais, práticas docentes

2006.1

05

Prática docente, inclusão, escola pública

2006.2

22

Formação docente, prática pedagógica, ensino da língua portuguesa

2007.1

04

Escola pública, ensino, escola privada

2007.2

33

Concepções, avaliação, educação

2008.1

20

Lei 10.639/03, violência, escrita alfabética

2008.2

29

Educação escolar, infantil, hospitalar

2009.1

30

Gêneros textuais, práticas escolares dos docentes, dos discentes

2009.2

10

Formação continuada, necessidades especiais, ensino de leitura

2010.1

29

Ambiente virtual, letramento, sexualidade

2012.1

33

Jovens e adultos, educação não-formal, literatura infantil

2012.2

22

Juventude, crianças com necessidades especiais, literatura infantil

2013.1

17

O pedagogo, práticas educativas, ensino da língua portuguesa

2013.2

09

Crianças surdas, raciocínio combinatório, famílias

2014.1

41

Educação sexual, arte – educação, formação

2014.2

12

Inclusão, jogos, resolução de problemas

2015.1

26

Produção de textos, movimentos sociais, letramentos

2015.2

13

Transtorno do espectro autista, espiritualidade, educação feminista

Site: https://www3.ufpe.br/ce/index.php?option=com_content&view=article&id=890%3Atcc-20152&catid=33&Itemid=301: dia 21/09/2017. Quadro produzido pelas autoras (SILVA e SILVA, 2018).

Essas autoras supracitadas defendem: “a Educação nos terreiros tem sido um tema preterido, esquecido, negligenciado, silenciado, ocultado no curso de Pedagogia do CE / UFPE”. Acrescento, ao analisar o quadro em questão, que discutir O Programa Bolsa Família é, também, um tema – tabu, inexiste a discussão nos TCCs produzidos no mesmo período no curso de Pedagogia do CE / UFPE:

...num período de dez anos, 2005 – 2015 foram produzidos 329 TCCs, abordando inúmeras temáticas, cuja área preferida, sem dúvida, são os estudos ligados à Língua Portuguesa em primeiro lugar e à Inclusão de crianças com necessidades especiais de aprendizagem, em seus vários aspectos e transtornos, em segundo lugar, (SILVA e SILVA, p. 4, 2018).

Consideramos tema – tabu3, o nosso tema, também e, para além disso, um tema, que tem sido negligenciado, no CE / UFPE devido ao racismo institucional que significa tratar as pessoas de forma diferenciada em função da sua cor/raça/etnia, o que precisa ser, urgentemente, mudado, pois, segundo (FREIRE,1996, P.46):

Se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode. Se a educação não é a chave das transformações sociais, não é também simplesmente reprodutora da ideologia dominante. O que quero dizer é que a educação nem é uma força imbatível a serviço da transformação da sociedade, porque assim eu queira, nem tampouco é a perpetuação do 'status quo" porque o dominante o decrete.

Dessa forma, percebemos que o Brasil, enquanto sociedade e essa sociedade, ao ofertar educação, traz resquícios do processo de tráfico transatlântico, da escravização criminosa e do racismo anti negro que aqui se desenvolve e estrutura as relações sociais, econômicas, políticas e educacionais, objetivando conformar os/as negro/as no ser menos. Os/as negros/as insistem, resistem, lutam e, cotidianamente buscam praticar a liberdade e SER MAIS: “... que todos os homens e mulheres se façam Seres Mais no processo permanente de libertação.” (FREIRE, 2006), o que já está efetivamente acontecendo, em nossa hipótese, com as famílias negras, antes negligenciadas e, hoje, assistidas pelo Programa Bolsa Escola.

3. METODOLOGIA

A pesquisa foi realizada numa escola de grande porte, onde estive estagiando por vários semestres, num bairro da periferia do Recife. A escola tem matriculados/as 296 alunos/as – 148 no turno da manhã e 148 no turno da tarde, desses aluno, 125 são beneficiados com o Bolsa família e 07 com o Bolsa Escola donde depuramos que essa atende um número significativo de crianças da comunidade com uma vulnerabilidade social. Para desenvolvimento da pesquisa nos aproximamos da Metodologia de pesquisa qualitativa de base autobiográfica, tendo como instrumentos de coleta de dados a observação, a análise de documentos e a entrevista biográfica. Os sujeitos principais da pesquisa são as pessoas pertencentes às 05 famílias negras indicadas nos diálogos realizados junto à gestão, coordenação e secretaria da escola.

3.1. Como Concebemos o Percurso Metodológico Trilhado Nesse Estudo

No quarto período do curso de Pedagogia quando cursamos a disciplina PPP3 já referenciada, entramos em contato com um importante autor do campo do currículo que defende “é através do vínculo sobre conhecimento, identidade e poder que os temas da raça e da etnia ganham seu lugar no repertório curricular” (Silva, 1999, p.101), Tomaz Tadeu da Silva, no seu livro Currículo e Identidade defende ainda, que, ao nos depararmos com uma proposta curricular podemos identificar se esta se inscreve numa teoria curricular tradicional, crítica ou pós- crítica, apenas compreendendo o significado dos conceitos utilizados pela proposta curricular analisada, assim sendo:

TEORIAS TRADICIONAIS; ensino, aprendizagem, avaliação, metodologia, didática, organização, planejamento, eficiência, objetivos.
TEORIAS CRÍTICAS; ideologia, reprodução cultural e social, poder, classe social, capitalismo, relações sociais de produção, conscientização, emancipação e libertação, currículo oculto, resistência.
TEORIAS PÓS-CRÍTICAS; identidade, alteridade, diferença, subjetividade, significação e discurso, saber-poder, representação, cultura, gênero, raça, etnia, sexualidade, multiculturalismo. (Silva, 1999, p.17).

Faço esses esclarecimentos por acreditar ser importante explicitar que ao pesquisar objetivando analisar O Papel do Programa Bolsa Família na Vida das Famílias Negras, me inscrevo como uma pesquisadora que está se dispôs a lidar com questões de pertencimentos identitários de um grupo populacional, bem como, com questões ligadas às subjetividades dos/as sujeitos de pesquisa, portanto, os resultados analisados, refletidos, interpretados, divulgados são passíveis de inscrição nas teorias pós - críticas da educação e do currículo, uma vez que irão tratar de alteridade, diferença e diversidade no seio da sociedade e da escola brasileira, em Recife, especificamente.

Empregamos na nossa pesquisa a abordagem metodológica qualitativa Para (MINAYO, 1992 p.22) “A abordagem qualitativa aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas”. Complementando essa autora temos Richardson (1999) afirmando que a pesquisa qualitativa é adequada quando tem necessidade de “descrever a complexidade de determinado problema, analisar a interação de certas variáveis, compreender e classificar processos dinâmicos vividos por grupos sociais” (RICHARDSON, 1999, p.80). Temos, ainda, (LUDKE E ANDRÉ, 1990, p. 59), que igualmente discorrem sobre pesquisa qualitativa, definindo “como a descrição e a explicação dos fatos observados, no qual o pesquisador observa e interpreta os dados com base em sua percepção de mundo”. Dessa forma, combinaremos a metodologia qualitativa com o método de análise e os procedimentos utilizados por (BARDIN, 1979, p.47) seguindo as três fases por ele propostas e que envolvem “a pré-análise; a exploração do material; o tratamento das informações obtidas com as entrevistas e a interpretação”.

No que diz respeito ao uso do método de entrevista biográfica nos aproximaremos do que, nas questões relacionadas à autobiografia como estratégia metodológica Silva ajuíza:

O trabalho com autobiografia surge para nós como chave para compreender os tempos, os lugares, os pertencimentos, os saberes experiências, os sentimentos, as intencionalidades das pessoas e instituições implicadas nas mudanças ocorridas em sociedade (...)” (Silva, 2001, p. 27)

Josso, por outro lado, nos seus vários livros sobre autobiografia, também nos informa: com o trabalho autobiográfico passa-se de “análises fundamentadas nos grandes números para análises baseadas na singularidade de uma vida ou da vida de um grupo”. (JOSSO, 2010, p. 131). De acordo com a autora, “a subjetividade constitui-se numa conquista que exige precisamente um despojamento dessas camadas de verniz social e cultural que nos fazem crer que pensamos por nós mesmos” (JOSSO, 2008, p. 37). Assim pensando, fizemos às famílias negras estudadas, duas questões basilares: Conte sua história de vida na perspectiva de como era antes e depois de ser beneficiário/a do Programa Bolsa Família. Você percebe, na criança atendida, melhorias no desenvolvimento da aprendizagem e da saúde geral? Quais? Deixamos os/as sujeitos de pesquisa, bem como, pesquisadora abertas às outras questões de fundo que surjam e possam dar o maior número de dados e subsídios necessários à realização do estudo.

Josso (2008) considera que “a identidade deve ser concebida como processo permanente de identificação/diferenciação e de definição de si, através de nossas identidades evolutivas como emergências socioculturais visíveis da existencialidade (p. 26). Junto aos sujeitos de pesquisa tivemos acesso aos seus posicionamentos diante do mundo, seus pertencimentos identitários, houve uma abertura que não pudemos controlar. ‘. Josso (2008) afirma que as situações educativas são, igualmente, um lugar e um tempo nos quais o sentido das situações e dos acontecimentos pessoais, sociais e profissionais pode ser abordado, facilitando uma visão de conjunto (p. 27). Pesquisar, entrevistar, transcrever fitas, analisar resultados e fazer considerações sobre tudo aquilo que foi achado se constitui num processo de formação, considerando Josso (2008, p. 44) quando alude à formação como “quando integramos na nossa consciência, e nas nossas atividades, aprendizagens, descobertas e significados efetuados de maneira fortuita ou organizada, em qualquer espaço social, na intimidade conosco próprios ou com a natureza”.

Após ouvirmos os/as entrevistados/as, gravarmos e realizarmos a transcrição dos relatos de vida das famílias negras beneficiárias do (PBF), procuramos relacionar suas narrativas de vida com o objetivo geral e os objetivos específicos da pesquisa, realizando as análises, interpretações, reflexões que se fizeram necessárias para legitimar ou descartar nossa hipótese de que o (PBF) traz benefícios para as famílias negras, como: desenvolvimento das crianças beneficiárias do ponto de vista da educação, saúde e qualidade de vida, funcionando como uma política pública reparadora das iniquidades causadas pelas desigualdades existentes entre brancos e negros na população brasileira.

Um compromisso último que aqui assumimos é o de voltar, com os resultados da pesquisa, depois de examinada em banca, aprovada e concluída, às famílias negras entrevistadas, bem como, voltar à escola e, num processo de intervenção, combinado com a gestão, apresentar os resultados da pesquisa. Atitude que deve ser incentivada, no curso de Pedagogia do CE / UFPE, uma vez que, muitos concluintes, ao apresentar seu TCC à banca examinadora, somem da universidade e da escola – campo e deixam que seu trabalho, tão suado, fique levando poeira nos arquivos quando estes podem ser melhorados, publicados, levados aos eventos científicos e debatidos no sentido do avanço da qualidade da educação oferecida no nosso país tão massacrado por políticos corruptos e uma elite que quer toda a riqueza que existe para si e seus familiares, agindo contra toda e qualquer pequena atitude de redistribuí-la com os brasileiros menos favorecidos.

3.2. Sobrevoando o Campo de Pesquisa e a Aceitação do Nosso Pouso Pelos/as Sujeitos/as Pesquisados/as

Conforme indicado na seção do estudo em que tratamos da abordagem metodológica para escolha das famílias a serem entrevistadas numa abordagem autobiográfica, realizamos contato e conversas junto à gestora e à coordenadora da escola que nos ofereceram importantes subsídios acerca das famílias, endereços, contatos telefônicos e formas de abordar a temática.

Nesse sentido, o nosso acesso ao campo pesquisa se constituiu numa grande satisfação como estudante concluinte do curso de Pedagogia, uma vez que considero a escrita do TCC – Trabalho de Conclusão de Curso como o coroamento dos cinco anos de enfrentamento de desafios no processo de tornar-me Pedagoga. Dessa forma, no ambiente escolar, a gestão nos recebeu com grande entusiasmo permitindo a realização da pesquisa, e um entusiasmo maior, ainda, foi demonstrado pela escolha da temática abordada que ajudou a escola a compreender a forma de ser e viver das famílias negras referenciadas e os impactos, em suas vidas de beneficiárias do PBF – Programa Bolsa Família. O que percebemos com o relato da gestora é que sua acerca do PBF é a de que

Esse programa social vem contemplar famílias pobres que estão em vulnerabilidade social e suas crianças, são as maiores penalizadas, na carência de alimento contribuindo para uma saúde precária que pode comprometer sua frequência na sala de aula. Tenho, portanto, como obrigação, regular a frequência dos alunos/as com o ‘Projeto Voltei que acompanha as faltas e justificativas com atestados médicos, ou comunicação pelos pais dos motivos das ausências dos seus filhos/as. Gestora.

Em contato com a coordenadora pudemos observar importante contribuição para nossa reflexão acerca da eficácia e da eficiência do PBF ao comentar:

O PBF poderia trazer, em conjunto, a cobrança do desenvolvimento pedagógico, não só, a frequência escolar, com isso todos ganham a criança e a família. Ainda há um índice de reprovação entre os alunos/as beneficiados/as com o PBF. As crianças frequentam a escola para a família não perder o benefício. A gestão faz o relatório mensal e encaminha para a prefeitura e quando a criança tem mais de 03 faltas, o benefício é bloqueado e a família é chamada pela gestão e direcionada ao Conselho Tutelar. É avaliado cada caso e poderá ou não voltar a receber novamente o benefício. Coordenadora.

Na escola a maioria dos alunos/as, vem das comunidades que existem ao redor da escola e de famílias onde a mãe sempre é a responsável por trazer o alimento para casa. São mulheres pobres e negras, solteiras e que tem de 03 a 10 filhos, que ma maioria depende exclusivamente do PBF como fonte única de rendimento para o sustento da família. Quando visitamos a residência das famílias pudemos perceber que sua estrutura de moradia não contempla saneamento básico nem piso. As paredes estão sem reboco, os banheiros sem estrutura, apenas, com vaso sanitário. A mobília da casa, as camas foram doações, a TV sem som (apenas a imagem), apenas uma cadeira. Mas, em todos os casos, o comprometimento da mãe de garantir que seu filho esteja frequentado a escola é visível.

As famílias ainda se sentem discriminadas, são alvo de preconceito pela escola que usa a autoridade para punir as crianças por algo muito bobo, mandando de volta para casa e, colocando de volta para casa, ocorre a colocação da falta e, com isso, a possibilidade do benefício ser suspenso ou bloqueado. E isso causa muita tensão entre a família e a escola, conforme desabafo: “não é por causa do PBF que meus filhos estão na escola, quero que eles cresçam com outro futuro e seja feliz com sua escolha”. Mãe 4. o que corrobora com nossas escolhas teóricas: (PAULO FREIRE, 1999 e 2006), ao expulsar crianças da sala de aula a escola constrói o seu ser menos, enquanto as mães lutam, cotidianamente pelo seu Ser Mais e corrobora também com a abordagem metodológica da (auto)biografia(JOSSO, 1999 e 2010) na categoria analítica dos Projetos de vida e formação: Mães querem filhos/as que tenham outro futuro e sejam felizes.

As famílias acreditam que o PBF veio pra mudar suas vidas e de seus filhos/as mesmo por um período curto, mas querem aproveitar o máximo que podem como comprar um lanche, o que para muitos, seria algo natural. Comprar uma roupa porque, muitas vezes, o que veste é de doação e isso lhes causa muitos constrangimentos. Apesar de tanta miséria observada, vimos alegria nos olhos dessas famílias e foi muito contagiante perceber que há um sonho e um desejo de mudança de um futuro melhor para seus filhos/as e que tudo venha ser diferente, num futuro bem próximo. Cada relato demonstrou como a desigualdade está presente em nossa sociedade e cada vez mais o estado demora em atuar mudando essa realidade trazendo novas políticas públicas que beneficiem essas famílias pretas e pobres e que se constituem na maioria da população brasileira. O grito de socorro demonstrado por cada uma das cinco mães entrevistadas nos faz refletir como podemos contribuir numa sociedade individualista e capitalista. Como a educação poderia ter mudado as vidas dessas mães se, na infância, na adolescência e na juventude elas tivessem tido as oportunidades de educação necessárias.

4. A DIFÍCIL TAREFA DE, COM MINHA AERONAVE, POUSAR NO CAMPO: RECOLHENDO, LENDO E ANALISANDO OS DUROS DADOS DAS PROFUNDAS DESIGUALDADES EXISTENTES NA SOCIEDADE BRASILEIRA E NO CAMPO DE PESQUISA

Em meados de julho do corrente ano, 2018, a OXFAM4 divulgou um relatório com dados estarrecedores acerca das desigualdades existentes no Brasil, entre eles:

6 pessoas possuem riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões dos brasileiros mais pobres. Os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de renda que os demais 95%. Uma trabalhadora que ganha um salário mínimo por mês levará 19 anos para receber o equivalente aos rendimentos de um super rico em um único mês.(OXFAM, 2018, p.23).

Esse mesmo relatório da OXFAM, ao mesmo tempo em que analisa as desigualdades existentes na sociedade brasileira também elenca os motivos da desigualdade permanecer:

1.Sistema tributário onera os mais pobres e a classe média por meio de uma alta carga de impostos indiretos e pela perda de progressividade no imposto sobre a renda dos mais ricos. 2. As discriminações de raça e de gênero têm se mostrado um perverso mecanismo de bloqueio à inclusão de negros e de mulheres, são violências cotidianas praticadas pelo próprio estado. 3. Sistema político carente de espírito democrático concentrador de poder e altamente propenso à corrupção e garantidor da impunidade. (OXFAM, 2018, p.32).

Além de afirmar a existência das desigualdades na sociedade brasileira, elencar os motivos da desigualdade permanecer, o relatório da OXFAM, aponta caminhos para o combate às desigualdades, ou seja, caminhos a serem trilhados, nesse sentido, ações que desenvolvidas poderiam dar certo e resolver o abismo existente entre super-ricos e pobres, a saber:

A expansão do alcance das políticas públicas, especialmente as sociais que geram redução da pobreza com aumento indireto do orçamento familiar: Ações afirmativas, ganhos educacionais, bolsa escola, água, saneamento básico, moradia, valorização do salário mínimo formalização do mercado de trabalho, queda do desemprego. Não encerrar debate, mas não é possível seguir com estamos. Nosso fundamento deve ser o do artigo primeiro da constituição garantir a cidadania e a dignidade da pessoa humana e, para que isso aconteça faz – se necessário enfrentar e combater as desigualdades, pré-requisito para um Estado democrático de direito. (OXFAM, 2018, p.39).

Governos populares e de esquerda como o do ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atendendo demandas dos movimentos sociais negros, feministas, dos sem teto e dos sem terra, vinham tentando implementar políticas públicas inclusivas e de combate às desigualdades denunciadas no relatório da OXFAM, sendo o PBF, um exemplo dessas políticas públicas que estamos estudando.

4.1. O Que Observamos com Nossa Aeronave no Solo: Mulheres Negras e de Periferia e a Compreensão da Importância do Programa Bolsa Família – PBF na Mudança da Qualidade de Vida

Quadro 2. Perfil das entrevistadas

MÃE

Idade

Estado Civil

Nº de filhos/as

Escolaridade

Profissão

Renda familiar

Renda familiar

Mãe 01

38 anos

Casada

10

Analfabeta

Do lar

352,00

352,00

Mãe 02

27 anos

Solteira

03

5º ano do Ensino Fundamental I

Trabalho eventual (faxina)

170,00

170,00

Mãe 03

24 anos

Solteira

03

Ensino Fundamental I completo

Do lar

212,00

212,00

Mãe 04

48 anos

Separada

02

4º série primária

Do lar

170,00

170,00

Mãe 05

34 anos

União estável

03

Concluinte do Ensino Médio

Balconista Telefonista (desempregada)

219,00

219,00

Foram entrevistadas cinco mulheres negras - mãe de crianças indicadas pelo núcleo gestor da escola atendendo critérios de assiduidade, pontualidade, participação, compromisso com a educação dos/as filhos/as com idade entre 24 - 48 anos, 1 casada, 1 em união estável, 2 solteiras e 1 separada, com escolaridade entre 1 analfabeta e 1 concluinte do Ensino médio, com profissões de do lar, faxineira, balconista e telefonista mas, desempregadas, todas e com renda familiar que varia de 170 reais a 352 reais para sustentar de 2 a 10 filhos, ou seja, uma situação de miséria. Perguntadas acerca da história de vida antes e depois do PBF, tornou-se evidente que, embora a ajuda seja considerada ínfima, mas o PBF, efetivamente, ajuda no sentimento de deixar de ser humilhado, a saber:

Eu não era independente, hoje tenho mais liberdade me sinto melhor pegando dinheiro, indo ao mercado comprar as coisas pra eles. Um biscoito recheado, um refrigerante, um pedaço de bolo, uma vez por mês eu dou esse privilégio a eles. Não ser humilhado na escola tem muitas crianças que humilha por que leva um bolo com esse dinheiro. Mãe 1.

A minha história é que nós era uma situação muito precária, era muito ruim depender da família que ajudava daqui, dali e hoje ainda continua dando uma forcinha. E depois do Bolsa Família melhorou um pouco. Mãe 2.

Depois que eu engravidei desse menino mais velho, me inscrevi no Programa Bolsa Família... engravidei do meu outro menino, Nicolas, ai comecei a receber graças a Deus minha vida mudou muito. Pra mi mudou né e agora tenho o dinheiro que é pra mim mesmo, não é preciso depender de ninguém. Mãe 4.

Podemos perceber, nos relatos dessas mulheres - mães que a maioria, compreende o PBF como uma política pública que trouxe dignidade e autoestima, atenuando a miséria e pobreza em que estavam imersas. Antes do PBF essas mulheres - mães entrevistadas, todas, relataram que tinham dificuldades de se manter financeiramente com seus dependentes, não tinham dinheiro para comprar alimentação, vestuário, remédio, gás de cozinha e para pagar o aluguel precisando depender dos familiares. Após passar a receber o beneficio do PBF, das 5 mulheres entrevistadas, 4 relataram que o PBF trouxe mudanças em suas vidas como: liberdade, independência, autonomia de poder ter seu próprio dinheiro e não depender da presença masculina para se manter, apenas a Mãe 5 relata que o PBF não trouxe mudanças significativas pois o valor foi considerado muito pouco para as despesas básicas das suas necessidades cotidianas.

O uso da autobiografia como abordagem metodológica, nesse estudo, foi preponderante, à medida que nos possibilita a escuta e o acolhimento das vozes dessas mulheres – mães que também são pobres, que também são pretas, condições que se interconectam, e as fazem vítimas de racismo, de pobreza extrema e de enfrentamento do desemprego ou emprego em condições precárias, conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), de 2016, 39,6% das mulheres negras estão inseridas em relações precárias de trabalho, seguidas de homens negros, 31, 6%, mulheres brancas, 26,9% e homens brancos 20, 6% e, ainda, Segundo o mapa da violência de 2015 o assassinato de mulheres negras aumentou em 54, 8% e o de mulheres brancas diminuiu em 9,6%. O que comprova o grau de vulnerabilidade do que significa ser mulher-mãe-pobre-negra na sociedade brasileira. Uma luta eterna por sobreviver com honra e dignidade e a autobiografia nos proporciona, junta às cinco mulheres entrevistadas, mediar esse lugar de fala, que, de acordo com (RIBEIRO, Djamila, 2017), consiste em “romper com o silêncio instituído para quem foi subalternizado, um movimento no sentido de romper com a hierarquia".

4.2. Aeronave Ainda na Pista, Gerenciando os Recursos Disponíveis, para Evitar Possíveis Vibrações: Mulheres-Mães-Pretas-Pobres, Lidando com a Luta Pela Saúde Dos/as Filhos/as.

A saúde das crianças foi um dos pontos onde mais as mulheres - mães expressaram sua preocupação, como consideravam importante poder dar uma assistência aos seus filhos/as e, não ter recursos, suficientes para comprar o remédio e fazer suas crianças se recuperarem dos problemas de saúde apresentados se constituía numa angústia e stress latentes, nesse sentido, quando perguntamos se seu filho/a teria algum problema de saúde, 4 mães responderam que não tinham problemas de saúde porque os que havia, foram superados e, apenas a Mãe 3 respondeu que sim, que seu filho tem Asma e que era atendido no Hospital das Clínicas. Vejamos:

O meu menorzinho, Cristian, ele tem Asma, ele faz tratamento lá nas Clinicas é difícil também tem que separar o dinheiro do Bolsa Família pra manter as despesas dentro de casa que nem é tanto né?, pra comprar o medicamento dele que é caro, a bombinha que ele usa. Mãe 3

As demais 4, restantes, responderam que, numa urgência, levam seus filhos/as para assistência da rede pública UPA – Unidades de Pronto Atendimento. Uma das mães relata que sua criança teve problema de refluxo, mas melhorou com o tempo e a outra filha tem problema psiquiátrico, mas é um problema de humor que trata no CAPS e no Hospital da Mulher, Mãe 5. Contudo, essa mulher - mãe não considera um problema sério de saúde que comprometa as atividades do dia-dia da sua filha.

A alimentação foi considerada o fator mais importante para as crianças não ficarem doentes. As 5 mães afirmam que a alimentação contribui para nutrição das crianças e impede de contraírem gripe, tosse ou resfriado, evitando gastos com remédios que compromete a renda da familia. A dificuldades em realizar ou compreender as atividades aplicadas em sala de aulas foi relatada por todas as 5 mulheres – chefes das famílias entrevistadas. Das 5 crianças com dificuldades na aprendizagem, a Mãe1 e Mãe 5 relatam que a escola encaminhou para Neuro-pediatra e Fonoaudióloga, mas, até o momento, não conseguiram atendimento no SUS – Sistema Unico de Saúde. A Mãe 3 tem assistência da família com reforço da Mãe - avó, e, mesmo com pouco estudo, assumem o compromisso em dar esse suporte escolar para que suas crianças se tornem bem sucedidas no processo educativo. A Mãe 4 e a mãe - avó pagou reforço por três meses, mas suas condições financeira não permitiram continuar pagando o reforço. A Mãe 2 relata que sua criança estuda sozinha, faz buscas na internet e considera o estudo necessário e muito importante, embora essa mãe relate que só estudou até 4º série primária( modalidade não mais vigente na organização atual da educação pelo MEC – Ministério da Educação ). Essas mães consideram a alimentação como principal fator para manutenção da saúde, bem como, para o sucesso do ensino – aprendizagem.

Nesse sentido, em suas narrativas autobiográficas, tornou – se evidente, a preocupação geral em usar os recursos do PBF, no progresso/sucesso das crianças beneficiárias, quando perguntadas como gastam os recursos, a saber:

Alimento, não dá pra comprar roupa, se quebrar uma sandália dá pra comprar, mas se quebrar, em série, não, eu tenho que comprar de um em um. Mãe 1.

Alimento, roupa só. Mãe 2.

Aluguel, alimentação e medicação. Mãe 3.

Só com alimento, remédio, gás só pra isso. Mãe 4.

O que faltar, no momento, se for comida gasto com comida, se for remédio gasto com remédio o que tiver necessitando no momento eu uso. Mãe 5.

Percebemos, então, que dos valores recebidos e da destinação dos recursos, a criança e seu bem – estar tem sido tomado como inegociável pelas mulheres – mães que, mesmo considerando os valores recebidos muito baixos para suprir as necessidades da família, esses valores não são desviados nem utilizados com gastos desnecessários, mas, são utilizados com gastos com alimentação, remédio, gás e aluguel, principalmente. Dos valores relatados são: Mãe 1, R$352,00 , Mãe 2, R$170,00, Mãe 3, R$212,00, Mãe 4, R$170,00 e Mãe 5, que recebia R$219,00 e passou a receber, recentemente, R$130,00. Das 5 mães, 4 usam os valores recebidos pelo PBF com: 1º alimento, 2º medicação, 3º gás, 4º aluguel, 5º roupas e, uma delas, usa o valor recebido com o que está com mais necessidade no momento.

Retomamos aqui, as assertivas de Josso (2008) quando afirma que as situações educativas são, igualmente, um lugar e um tempo nos quais o sentido das situações e dos acontecimentos pessoais, sociais e profissionais pode ser abordado, facilitando uma visão de conjunto (p. 27). Realizar esse nosso estudo, portanto, me fez tecer uma visão de conjunto, uma vez que ele aponta para a derrubada de preconceitos enraizados, na sociedade brasileira, propagados, por certo, por uma elite que, gozando de inúmeros privilégios como os apontados pelo relatório da OXFAM, impede a redistribuição das riquezas produzidas em nosso tecido social, faz – se, então, muita propaganda contra o PBF, inúmeras famílias tem sido cortadas e ou tem tido seus recursos diminuídos como no caso da mãe 5. Ficou evidenciado que esses recursos não são usados com supérfluos, eles colaboram na qualidade de vida e na manutenção da saúde das crianças beneficiárias, conforme narrativas, a saber:

Sempre a comida, aqui, em casa, ganho roupas de doações, mas o principal é a comida. Se não tivesse o Bolsa Família estaria pior. Eu mesma estaria numa situação precária. Mãe 1.

Mudou um pouco, muito significativa a ajuda. Mãe 2.

A minha preocupação maior, sempre, é com a alimentação, com certeza. Alimentação. Mãe 3.

Quando recebi o bolsa família demorou pra eu entrar, foi bronca mas, entrei, mas mudou muita coisa, com alimento, gás, foi assim. Melhorou muita coisa porque eu não trabalho é uma ajuda e tanto, se não fosse o dinheiro do Bolsa Família como eu sustentaria meus filhos? No momento, agora, não estou podendo trabalhar, tô com uma menina pequena em casa, 1 ano e é com essa coisa que eu tô sustentando meus filhos. Mãe 4.

Eu não achei muita melhoria não, porque você que tem uma família, você não conseguir com salário mínimo, se sustentar já é difícil e com R$130,00 o que você faz uma família com 6 pessoas dentro de casa. Mãe 5.

Das mulheres - mães entrevistadas, 4 afirmam que o PBF trouxe mudanças em suas vidas e de seus filhos, livrando - os da situação de miséria e vergonha, possibilitando trazer, para casa, alimento e dignidade. A mãe 5, contudo se constitui numa voz dissonante, uma vez que afirma que gostaria de ter um emprego, para se sustentar e não depender de R$130,00 pra manter a família de 6 pessoas, pois, isso é impossível, passa – se fome e grandes dificuldades no que diz respeito à uma vida passível de ser vivida com dignidade.

5. AS PERDAS DE RUMO, AS FORTES VIBRAÇÕES E O NECESSÁRIO AJUSTE NO MANCHE DA AERONAVE NO SENTIDO DE REALIZAR O VOO DE VOLTA PARA CASA

Essa se constitui na última seção do nosso estudo onde, convencionalmente, alguns autores/as chamam de conclusão, algo difícil, para mim, considerando que conclusão é “ato ou efeito de concluir, processo ou efeito de levar a termo; finalização, término”5, digo, então, que não concluo, dou uma pausa, uma vez que estive diante da miséria6, ou seja, “estado de enorme sofrimento; infelicidade, desgraça, estado de carência absoluta de meios de subsistência; indigência, penúria”. O campo em que pousei me fez compreender o que apenas, lia, refletia, não entendia: Algo em torno de 50 milhões de homens e mulheres vivendo no Brasil, o que autoriza a dizer que 25,4% da população, amarga a linha da pobreza e apresentam renda familiar de R$ 387,07 – ou US$ 5,5 por dia, cifra abraçada pelo Banco Mundial para determinar se alguém é pobre.

Outrossim, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2017)7 e Indica, ainda, que o maior índice de pobreza se dá na Região Nordeste do país, onde 43,5% da população se enquadram nessa situação de pobreza, bem como, 42% das crianças se enquadram nestas condições e sobrevivem com apenas US$ 5,5 por dia, no campo de pesquisa constatamos as profundas desigualdades que existem, em nosso país. No campo, vimos e vivenciamos a miséria. Ela precisa ser mostrada e chocar a todos/as porque não é possível, vê – la sem se impactar e querer lutar por mudar uma situação em que seres humanos vivem em situações degradantes e que não condizem com o reconhecimento e a dignidade que todos/as merecem. ,

Foto 1. Quarto de dormir com duas camas e 1 ventilador que só possui hélice.

Foto 2. Construção inacabada, podendo antever criança beneficiária do programa.

Foto 3. Sala de estar com piso e paredes precárias, bolsas escolares no canto, caixa servindo de guarda – roupa e trecos.

Foto 4. Sapatos e sandálias infantis, bolsas escolares, paredes com buracos, piso com buracos.

Foto 5. Sanitário sem portas, paredes molhadas e mofadas, ambientes poluídos e totalmente insalubre. Todas tirada pela autora.

Adentrar essas casas, acima fotografadas, travar relações com essas famílias beneficiárias do PBF poderia nos levar às perdas de rumo, às fortes vibrações e aos questionamentos acerca do país em que nascemos, vivemos e nele, pereceremos. Como o nosso Estado – nação pode permitir crianças vivendo em condições tão degradantes? Como a escola e seus professores/as podem mandar de volta, para casa, crianças dessas famílias, de modo, inclusive, a colaborar para a perda do benefício, por conta das faltas reincidentes?

Nosso estudo teve como objetivo geral: Analisar o Papel do Programa Bolsa Família na Vida das Famílias Negras e, para tal, discutimos como se dá o monitoramento, pela escola e pelas famílias negras do cumprimento dos objetivos do Programa Bolsa Família, tendo verificado que o principal objetivo é evitar a evasão escolar e, nesse sentido, depois de três faltas da criança, sem importante justificativa, a família é cortada do programa, buscamos também, identificar, no relato de famílias negras, quais as mudanças específicas que ocorreram no período em que o Programa Bolsa Família entrou em suas vidas tendo abstraído das falas que o montante de dinheiro recebido serve, prioritariamente para 1. Compra de alimentos, 2. Compra de remédios. 3. Compra de gás de cozinha e 4. Pagamento de aluguel. Foi possível, ainda, descrever os benefícios específicos ocorridos na vida das crianças beneficiárias no que diz respeito ao seu desenvolvimento no campo da saúde: ficam doentes com menos frequência, tem melhoria na alimentação, deixam de ser humilhadas, pelos colegas, porque passam a levar lanche, de qualidade, para a escola e, no que diz respeito à educação escolar, houve caso em que, com o benefício, foi possível pagar reforço escolar.

Nossa pesquisa aproximou – se das categorias de ser menos, Ser mais (FREIRE, 1996), tendo ficado evidente que as profundas desigualdades existentes, no Brasil, entre ricos e pobres, pretos e brancos visa fixar a população majoritária na categoria ser menos, contudo, essa população, cotidianamente luta e busca, de várias formas, o seu SER MAIS, apostando na educação das crianças sobre sua reponsabilidade, encaminhando essa crianças, todos os dias para a escola, conforme a Mãe 4: “não é por causa do PBF que meus filhos estão na escola, quero que eles cresçam com outro futuro e sejam felizes com sua escolha”.

Junto às mulheres-mães-pobres-negras dessa pesquisa, tivemos acesso aos seus posicionamentos diante da sua vida e dos/as seus filhos/as como usuários/as do PBF, seus pertencimentos identitários, houve uma abertura e descobertas que não pudemos controlar e aprendemos que pesquisar, entrevistar, transcrever fitas, analisar resultados e fazer considerações sobre tudo aquilo que foi achado se constitui, efetivamente, num processo de formação, como apontado em nossa escolha metodológica pela autobiografia e por Josso (2008, p. 44) quando alude à formação como “quando integramos na nossa consciência, e nas nossas atividades, aprendizagens, descobertas e significados efetuados de maneira fortuita ou organizada, em qualquer espaço social, na intimidade conosco próprios ou com a natureza”.

Ficar de frente com a miséria foi chocante e muito perturbador, no entanto, fortaleceu nosso compromisso com a luta pela transformação da realidade das desigualdades que grassam, em nosso país, bem como, com a busca incessante da formação continuada que nos leve à construção da competência técnica e do compromisso político com os/as mais pobres, os/as pretos/as e contra toda forma de opressão, nas nossas práticas educativas, uma vez que o destino da pessoa humana, a nosso ver, é a liberdade e a felicidade. Assim pensando, faz – se necessário, agora, o ajuste no manche da aeronave no sentido de realizar o voo de volta para casa, inicialmente e, num segundo momento, para a escola e para as famílias pesquisadas, no sentido da ajuda ajustada e da intervenção apontada em possível reunião.

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1 Aluna concluinte do curso Licenciatura Plena em Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Professora Doutora da UFPE - Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 São situações ou fatos rejeitados ou discriminados por parte da sociedade. https://www.dicionarioinformal.com.br/tabu.

4 A Oxfam International é uma confederação de 20 organizações e mais de 3000 parceiros, que atua em mais de 90 países na busca de soluções para o problema da pobreza, desigualdade e da injustiça, por meio de campanhas, programas de desenvolvimento e ações emergenciais. https://pt.wikipedia.org/wiki/Oxfam

5 https://www.google.com/search?client=firefox-ab&ei=pUPmW_bgFImTwgT_xJSgDw&q=o+que+é+conclusão&oq=o+que+é+conclusão&gs_l=psy-ab. Visitado em 09/11/2018

6 https://www.google.com/search?q=o+que+%C3%A9+mis%C3%A9ria&ie=utf-8&oe=utf-8&client=firefox-b-ab. Visitado em 09/11/2018

7 http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-12/ibge-brasil-tem-14-de-sua-populacao-vivendo-na-linha-de-pobreza. Visitado em 09/11/2018