O GOZO FEMININO NO ENSINO DE LACAN E SUA INTERFACE COM O LUGAR DO ANALISTA NA CLÍNICA PSICANALÍTICA ATUAL

FEMALE JOUISSANCE IN LACAN'S TEACHING AND ITS INTERFACE WITH THE PLACE OF THE ANALYST IN CURRENT PSYCHOANALYTIC CLINIC

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792019054

RESUMO
Diante das mudanças ocorridas nos últimos tempos, a Psicanálise tanto na sua vertente epistêmica quanto clínica, teria questões a pensar de modo a sustentar sua vivacidade. A partir de textos advindos do ensino de Lacan e de psicanalistas que pautam seu trabalho e formação no legado lacaniano, tentaremos, neste trabalho, pensarmos sobre a interface entre a noção de gozo feminino e a posição do analista na clínica psicanalítica atual. A ideia do não-todo presente na definição do gozo feminino, traz para o lugar do analista na direção do tratamento analítico, um a mais no modo de se situar frente às demandas que lhe chegam. Acreditamos que nesta empreitada, esta articulação possa também trazer contribuições para o processo de formação dos analistas que, na atualidade, orientam-se pelo legado lacaniano na Psicanálise.
Palavras-chave: Gozo feminino; sexuação; lugar do analista; clínica psicanalítica.

ABSTRACT
In light of recent changes, psychoanalysis—in both its epistemic and clinical dimensions—faces questions that must be addressed to sustain its vitality. Drawing on texts from the teachings of Lacan, as well as from psychoanalysts whose work and training are grounded in the Lacanian legacy, this paper explores the interface between the notion of "feminine jouissance" and the position of the analyst in contemporary psychoanalytic practice. The concept of the "not-all" (*pas-tout*), inherent in the definition of feminine jouissance, offers an additional dimension to how an analyst may position themselves in relation to the demands presented during the course of an analytic treatment. We believe that this articulation may also contribute to the training of analysts who, today, find their orientation in the Lacanian legacy within psychoanalysis.
Keywords: Feminine jouissance; sexuation; position of the analyst; psychoanalytic clinic.

INTRODUÇÃO 

Do momento em que a Psicanálise surgiu para os dias atuais, alterações diversas se deram. A psicanálise enquanto campo de saber, assim como o trabalho clínico realizado e a formação dos analistas não passam imunes a estas mudanças.

Freud, ao inventar a psicanálise inova chamando a atenção para o fato de que com a existência de uma ordem nomeada inconsciente, o ser humano não é senhor em sua própria casa. Com a criação da pulsão de morte ele escandaliza aquilo que seria a ética subjacente ao desejo do ser humano. Junto ao princípio de prazer há uma outra força que se move em direção a um retorno ao inanimado. Com estas noções, a Psicanálise foi um golpe dado tanto na onipotência narcísica do sujeito ocidental quanto na confiança dos poderes da razão (Khel, 2017). O prenúncio do que seria mais tarde desenvolvido em Lacan como gozo aí já se encontrava, aparecendo, por exemplo, em seus seminários A Ética (1959-1960/ 1997) e no, Mais, ainda (1972-1973/1985).

Lacan (1901-1981), psiquiatra e psicanalista francês, adentrando em seu ensino no campo da psicanálise avançou, indo além de Freud.

Onde se daria esse avanço? Aqui, circunscrevemos este passo a mais dado por Lacan, no que diz respeito a sexualidade feminina, ao gozo que ele nomeou como não-todo e sua conexão com o registro do real.

Este trabalho visa compreender, a partir de uma revisão narrativa em textos de Lacan - e de psicanalistas que orientam seu trabalho e formação no âmbito de seu legado -, que interfaces podemos encontrar entre a noção do gozo feminino no ensino de Lacan e o lugar do analista na clínica psicanalítica atual.

O nosso interesse parte de efeitos recolhidos em nossa clínica. Enquanto analista, tem se apresentado frente ao nosso trabalho algumas demandas que se acentuam pela quantidade e pelas características. Podemos dizer que se trata de sujeitos às voltas com o arsenal de ofertas vindas de diversos campos de saber sobre o seu desejo, por um lado e, por outro lado, sintomas expressos em seus corpos que vão desde uma hiperatividade até uma depressão.

Fajnwaks ( 2008) relacionando o “ hedonismo contemporâneo” com a noção de gozo afirmou que diante do dever de felicidade a que os sujeitos dos tempos atuais estão sendo empurrados a buscar, encontramos , por exemplo, no quadro das toxicomanias um paradigma desse frenesi em que o impossível de se alcançar anda próximo à pulsão de morte. Baudini ( 2003) retomando Miller e Laurent ressalta que estes nomeiam os tempos atuais como a época do Outro que não existe e que diferente da era vitoriana,longe de reprimir autoriza o sujeito ao direito de satisfação.

Zack (2011) corroborou esse movimento nos tempos do Outro que não e a primazia de uma satisfação a se usufruir, dizendo que na medida em que os sujeitos consentirem com essas coordenadas, eles alcançarão ao zênite do gozo possível e à felicidade máxima.

Verificamos que haveria ai um abalo na estrutura do sujeito de desejo proposta pela Psicanálise. Torezan & Aguiar (2011) ressaltaram esse abalono deslizamento da passagem de sujeito a objeto afirmando que “... identificamos um sujeito a mercê de um Outro pouco interditado, pouco marcado por uma falta simbólica e, portanto, imaginariamente passível de completude, o que o torna suscetível à objetalização” ( Torezan & Aguiar, 2011, p.552)

Situados neste circuito, não conseguem sustentar um tempo para compreender o que se passa e um espaço para poder se deparar com a sua falta frente ao enigma do que se dar na relação com seu corpo, seus semelhantes e o mundo. São crianças, adolescentes, jovens e adultos.

Escutamos uma crescente demanda de avaliação para crianças a fim de que recebam um protocolo de tratamento que as faça dóceis ao que lhe é pedido como performance escolar, social e afetiva.

Recebemos adolescentes e jovens tomados de angústia frente ao encontro com o Outro sexo, assim como com definições e escolhas ligadas à orientação sexual e/ou profissional. Em alguns desses casos, a presença da drogadição como também da ideação e tentativas de suicídio se apresentam.

Acolhemos sujeitos adultos, mulheres em sua maioria, angustiados em como se situar nas relações afetivas após conquistarem um lugar no campo profissional, indagando-se onde e como manejar com a possibilidade de ter e viver um relacionamento a despeito de tantas ofertas de encontros.

Nos tempos atuais e sob o efeito da globalização, estamos sem bússolas apertadas que nos guie no rumo de nossa satisfação. Túlio (2015) assinalou que, se na época de Freud, o mal estar era o sintoma que mostrava sua renúncia pulsional – “deves deixar de gozar!, como mandato paterno da civilização, hoje as coisas mudaram. O imperativo atual da civilização tornou-se o “deves gozar”!” (Túlio, 2015, não paginado)

Assim, atenta a estas falas e atos, nos colocamos as seguintes questões: Em que a noção do gozo feminino pode nos servir como auxílio epistêmico nesta pesquisa? Haveria conexões a serem pensadas entre a noção do gozo feminino tal como concebido por Lacan e os seus efeitos no trabalho do analista na atualidade?

Já há alguns anos, a comunidade dos analistas deste campo se dedica através de seus eventos, a pesquisar e se debruçar sobre as alterações ocorridas nos tempos que correm e os efeitos disso sobre a formação dos analistas e de seu trabalho na clínica.

Como assinalou Lopez (2018) em intervenção realizada como atividade preparatória para o XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano no âmbito da 23ª Jornada da EBP- Bahia acerca dessas mudanças:

Sem dúvida, as mudanças no que diz respeito aos comportamentos são notáveis; falta elucidar se elas se traduzem em verdadeiras mutações no plano do desejo inconsciente e do gozo pulsional. A psicanálise não se ocupa dos fenômenos, sempre variáveis, mas da lógica com que cada sujeito assume sua relação com o gozo, o amor e o desejo. (não paginado).

A autora destacou ainda que tais questões nos convocam a “[...] colocar à prova nossa clínica, mas também a manter a cautela de não sermos contaminados pelos clichês sociais próprios da Psicologia, da Sociologia ou da Educação” (Lopez, 2018, não paginado).

Em Lacan (1972-1973/1985) como seu passo dado além do édipo no que diz respeito à sexualidade feminina, ele introduziu a existência de um gozo a mais. Partindo de sua observação dos místicos, da Lógica e da Matemática ele chegou às fórmulas da sexuação como descritas em seu Seminário 20.

Diagrama

Descrição gerada automaticamente
Figura 1. Fórmulas da sexuação para Lacan (1972-1973/1985)

O que se passa do lado direito da Tábua da sexuação? Neste lado se dá a posição feminina. Vemos uma dupla modalidade na forma do sujeito na posição feminina se situar frente ao gozo. Uma parte se dirige ao regime do gozo fálico para tentar se posicionar na divisão fálico e castrado e aí se encontrar uma definição do que é uma mulher. Mas, tem também um movimento que se volta para o além do falo, para a busca do significante da falta no Outro. O que aqui a mulher ou o homem podem encontrar?

Destacamos, de antemão, que isso não é específico das mulheres. Na dupla divisão no que diz respeito ao gozo, o que nos chama atenção é a abertura que este gozo apresenta e não se define por inteiro na ordem do significante. Ele não se reduz, não se satisfaz, não se diz todo dentro da ordem simbólica estabelecida entre fálico e castrado. Há algo a mais. Que gozo seria esse e qual a sua relação como, por exemplo, o trabalho do analista na clínica psicanalítica atual frente aos novos sintomas que se apresentam como acontecimento de corpo sem desejo de decifração?

Podemos, a princípio, pensar que, se nos dias atuais, impera o mandato superegóico que todos podem gozar, o gozo feminino na vertente de um a mais se coadunaria a este mandato, avalizando o sujeito a prosseguir em sua busca frenética por satisfação. Se você quer, você pode. Avance, busque. Não é essa a ideia presente na noção de gozo exposta por Lacan.

Observamos que será no campo do que se muda de sexualidade para sexuação que se descortina e sobressai o conceito de gozo que interessa ao nosso trabalho. A saber, o gozo feminino.

Sabemos que o conceito de gozo ao longo do ensino de Lacan apresenta mais de um entendimento. Antes do seu Seminário 20, intitulado Mais, ainda (1972-1973/1985) considerado um marco na concepção do gozo que nos interessa neste trabalho, o gozo ao longo da pesquisa de Lacan foi pensado como estar na posse de algo, satisfação da pulsão, e de forma adjetivada recebeu várias nomeações: masturbatório, masoquista, gozo perverso, gozo de Deus, dentre outros. Trata-se de um conceito pertencente ao campo do jurídico e, no período antes dos anos 70 no ensino de Lacan, apontava para o modo como o sujeito gozava de alguma coisa , no sentido de usufruto.

Neste movimento podemos pensar o quanto este aspecto do gozo, gozar de alguma coisa, nos ajuda a percebermos o que os sujeitos modernos demandam quando buscam uma análise. Parece-nos que mais do que um sentido para compreender o que os angustia, os sujeitos estão às voltas com um modo voltado para os objetos, os gadgets. Enredados com seus objetos em um mais de gozar, perturbam-se. O limite ao mais de gozar não se apresenta. Ao contrário; consuma, goze.

Otoni (2019), em seu texto O mestre, não-todo, nos lembra da queda do Nome-do-pai como eixo estruturador das relações e do falo como não estando mais no centro da amarração do falasser contemporâneo.

Quais são as consequências disso para o laço social e a clínica? Sujeitos tomados pelo excesso, pelo frenesi de um consumo sem bordas e de ofertas sedutoras nos conduzirá a uma maravilha de satisfação que, contraditoriamente nos faz presas da compulsão à repetição e de uma aliança mais forte com a pulsão de morte?

Esbarramos em sujeitos em que se dá a eclosão da vontade de puro gozo desgarrado do Nome-do-pai, que ganha o infinito. De onde virá a solução para a clínica? Destacou Brisset (2019, p. 22): “[...] a solução para os impasses da época não virá dos significantes da tradição, mas sim da força do não-todo que subverte o discurso do mestre.”

Para o que se visa neste trabalho, dedicaremos atenção ao gozo feminino trabalhado por Lacan como aquele que não se reduzindo ao significante para ser nomeado, excede, ultrapassa a ordem do simbólico e, no encontro de cada sujeito com o real, convoca a cada um uma tentativa de com este não-todo representado, inventar uma saída, uma solução, uma particular maneira de grampear o que parece disjunto, aberto, sem resposta prévia e pronta.

Trata-se do não-todo que escapando a significação fálica, constrói outras vias para sustentar a escolha, no um a um, que cada falasser mobilizará frente ao enigma que ser sexuado lhe impõe. Neste desafio, estão todos os sujeitos. Mas, na especificidade da posição feminina, retornemos à mulher.

Mais uma vez, a mulher, na Psicanálise contribuiu para a ampliação de um olhar sobre o que se passa com o sujeito e o seu gozo.

Para Siriot (2019) em trabalho originalmente apresentado nas Jornadas da École de la Cause freudienne (ECF), Les femmes em psychanalyse ressalta que Miller, em seu curso, O Ser e o Um afirma que foi o gozo feminino que abriu as portas para o último ensino de Lacan. Lacan o isolou do gozo masculino e o tomou como o regime do gozo como tal (Siriot, 2019).

Assim, se inicialmente vimos em Lacan, um gozo que estava atrelado à Linguagem ao Nome-do-pai como norteador e que passa pelo Outro, seria este o gozo edipiano. Porém, já em seu texto Diretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina, Lacan (1960) frente às diversas pontuações que apresentou, ressaltou que a mediação fálica não conseguiria drenar tudo o que se manifestava no pulsional da mulher.

Ser mãe não diria tudo do que é ser mulher, assinalou Lacan (1960) e introduziu uma questão já tocando no que poderia haver de indizível, não-todo discernido, do lado do feminino no campo do sexual. Disse ele: “Por que não dizer aqui que o fato de que tudo o que é analisável é sexual não implica que tudo o que é sexual seja acessível à análise?” (p. 739).

Perante a esta questão introduzida pelo eminente psicanalista francês, já vemos um olhar deste acerca do que se passa no sexual e do lado mulher como tendo um mais além. Podemos até pensar na correlação com o mais além do princípio do prazer apontado por Freud. Parece-nos como se ambos, cada um em seu tempo e a seu modo, verificassem no para além e no mais ainda algo que, mais tarde chegará ao registro do real.

A compulsão a repetição e a pulsão de morte concebidas por Freud fazem conexão com a noção de gozo em Lacan na vertente que este destaca o gozo feminino como acontecimento de corpo e que está além da mediação fálica. Como salienta Khel (2017, p. 20) ao afirmar que: “sem esse conceito escandaloso (pulsão de morte), a psicanálise lacaniana não teria chegado a formular a ideia de um gozo mais além do gozo fálico”.

Adentrando na construção lacaniana acerca do gozo feminino, verificamos que a mulher não está toda inscrita na função fálica, pois não há no inconsciente uma representação que a designe, a defina e a represente. Isto, para Lacan não a deixa sem acesso ao gozo. A partir de uma percepção acerca do que se passa do lado dos místicos, homens e mulheres, Lacan afirmou haver um gozo êxtimo do lado da posição feminina. Este seria ilimitado e poderia devastar as mulheres (Galesi, 2012).

Lacan no Seminário 20, mais ainda tratando sobre o gozo, fazendo a distinção entre o gozo do corpo e o gozo fálico introduz o que assinala ser algo próprio do lado da mulher. Disse ele: “Que tudo gira ao redor do gozo fálico, é precisamente o de que dá testemunho a experiência analítica, e testemunho de que a mulher se define por uma posição que apontei como o não-todo [...]” (Lacan, 1972-1973/1985, p. 15).

Reconhecemos que a clínica psicanalítica orientada pelo mito freudiano do édipo e a lei da castração não responde mais nos dias de hoje pela direção de tratamento frente aos sintomas contemporâneos.

Para Lopez (2018, p. 1) temos algumas alterações na nova ordem que nos pomos, enquanto analistas, a nos indagarmos como acompanhar os efeitos dessas alterações. Disse ela na intervenção realizada e já citada: “Os efeitos da globalização, o empuxo a realização de um gozo sem limite as adições generalizadas, a comunicação em redes que formam um conjunto aberto sem amo que o comande, as múltiplas declarações de sexo, o poliamor, a queda dos grandes ideais, o desmascaramento do Nome-do-pai como pura ficção, desenham um panorama inédito, como o que precede toda mudança de época.

Ressaltamos nesta descrição de algumas alterações que se deram aquela que se refere ao empuxo a realização de um gozo sem limites. Dentre os vários aspectos que os analistas podem recolher e se pôr a pensar em como conduzir-se frente a direção de uma análise nos dias atuais.

Se, como já posto, a lei da castração e o regime do mito edipiano não respondem mais por aquilo que os sujeitos em busca de uma análise, manifestam e buscam soluções para sua angústia, e há um imperativo de buscar a realização de um gozo sem limites, como se colocaria aí o trabalho do analista?

Miller (2004), em seu texto Uma fantasia coloca, em virtude das alterações verificadas, três posições que os psicanalistas podem adotar frente a este momento atual. A primeira seria tornar-se crente de que o inconsciente é inabalável enquanto invenção da psicanálise e sobreviverá às mudanças existentes. Para o autor essa posição porta algo de ingênuo. Seria preciso ver mais além.

Uma segunda posição é mostrar-se saudosista do édipo, do tempo em que o pai seria a referência para mediar a relação do sujeito com o seu desejo, que ele denomina de passadista. A terceira posição seria aquela nomeada como progressista, que tenta fazer com que haja uma articulação entre a metapsicologia freudiana e os princípios da neurociência.

Estas três posições de um modo ou de outro buscam fazer funcionar o sistema dessa nova ordem estabelecida, onde se põe como bússola para os sujeitos dos dias de hoje, a ideia de que podem ultrapassar suas inibições, abrir mão de sua renúncia e realiza, conforme seu bel prazer, a satisfação de seu gozo.

Indaguemos: a posição animada pelo “isso funciona” é a que mais condiz com a Psicanálise? Ela sustentaria a ideia de que tudo funciona? A relação sexual existiria?

Logo, qual seria a posição a ser sustentada pelo analista frente a estas alterações? Neste momento Miller (2014) destaca o que considera ser a prática analítica pautada na orientação do ensino de Lacan. Esta quarta posição rompe com o “isso funciona” e aposta no “isso falha”.

Lá onde a divisão subjetiva faz aparecer a angústia e a desinibição não recobre no enlace do sujeito com seu gozo, aquilo que do real lhe escapa, faz-se uma brecha em que o impossível apareça, um limite se faça presente e, aí a dimensão que a Psicanálise de orientação lacaniana sustenta faça advir uma outra ordem opondo-se assim a ideia de um gozo sem limites e sujeitos totalmente desinibidos. Ao contrário, esbarramos em sujeitos desbussolados frente a estas alterações da sociedade hipermoderna.

Retomando este não-todo próprio do lado feminino, chegamos ao lugar do analista na clínica psicanalítica atual. Nesta, destacamos a passagem, no último ensino de Lacan, do inconsciente estruturado como uma linguagem onde a interpretação analítica visaria tocar no sentido dos fenômenos inconscientes colocados por associação livre, pelo paciente no decorrer de sua análise. Atravessar a fantasia fundamental que enlaçava o sujeito ao seu gozo e destituir o Outro eram pontos indicativos de um trabalho a se dar no transcorrer de uma experiência analítica.

Não podemos dizer que ainda não o sejam.

Entretanto, ao lembrarmos do que Lacan delineia no gozo feminino enquanto aquele em que a mediação fálica não consegue drenar o que do sexual se pode dizer sobre a mulher, pensamos no salto que ele também dará quando fala do inconsciente real.

Tarrab (2014), em seu texto inconsciente real, nos fala desta nova forma de se considerar o inconsciente em Lacan e, consequentemente, o efeito que ela determina no lugar do analista. Ele vai dizer que já não estamos mais sob a orientação do inconsciente freudiano onde, estávamos sob o comando do Nome-do-pai, o lapso tinha um sentido e era interpretável. Contamos que hoje já não se espera que através do sentido a verdade do sintoma seja desvelada. Diz ele:

[...] a experiência analítica se orienta em direção a capturar outra coisa [...]. Nesse ponto, a posição do analista e o inconsciente já não estarão somente ligados à interpretação e ao sujeito suposto saber, mas a uma equivocação, ao desprezo e a fuga de sentido. (Tarrab, 2014, p. 203).

Assim, se o inconsciente real aponta para o encontro como equívoco, com o furo presente no choque entre lalíngua e o corpo, o que podemos pensar sobre a relação do gozo feminino com a clínica do real e o lugar do analista? Seguindo Tarrab (2014) ele nos diz que é como se entre a história que cada sujeito conta e a busca de satisfação que move o sujeito nesta empreita, há uma brecha que se põe entre a pergunta do ser e a resposta do que há. Neste instante não deixemos de lembrar que O que quer uma mulher foi a questão que Freud esbarrou ao se debruçar sobre a sexualidade feminina.

Logo, relacionando o mais ainda que o gozo feminino demarca aos olhos de Lacan e a sua mudança para nortear o trabalho da clínica em direção ao real, pensamos que ao se iniciar uma experiência analítica, há, em algum tempo dessa análise um convite ao encontro com o real, com aquele gozo fora de sentido e de significação. Sabemos que há, nos tempos atuais, um real sem lei, distinto do que Lacan nomeou. Diante dessa distinção e levando em conta a duplicidade do gozo para quem se situa no lado feminino nas fórmulas da sexuação, distingue-se o lugar do analista.

Se o feminino não se detém em um só modo de lidar com o gozo, aqui também, haveria mais de um modo para o analista se situar. A despeito das ficções criadas em torno das formações humanas, caberia ao analista fazer um convite ao real sustentando com seu ato ou transmissão a dimensão de enigma diante dos saberes constituídos colocando em prova a coerência das ficções e discursos estabelecidos. Neste trabalho seria impossível não tocar no gozo.

Assim, acreditamos que o gozo feminino como aquele que mantém seu caráter de enigma nos conduziria a supormos haver uma relação entre a posição feminina e o analista. Pois, como analista, em tempos do imperativo de gozar advindo da supremacia do discurso da ciência e do capitalismo, o trabalho na condução de seu lugar numa experiência analítica diria que passa pelo movimento de levar a cada um a se haver com o real em jogo no seu gozo e seu desejo.

Acreditamos que, no percurso da sexuação, ao nos debruçarmos sobre o que se passa do lado da posição feminina, algo familiar ao lugar do analista se apresente. Esclarecendo o que pode ocorrer com uma mulher, Camaly (2013, não paginado) afirmou que “Consentir à dualidade do gozo, sem se perder nas aporias do falo nem na desmedida do gozo ilimitado, seria uma via possível pela qual uma mulher pode inventar sua própria posição feminina, singularmente não-toda.”

Apontando que, como não-todo do gozo feminino que não há o encontro harmonioso entre o que deseja e o que se encontra. O gozo fálico parece, em uma primeira vista, fazer o sujeito supor e crer que encontrará aquilo que diz o que se é e o que preenche o seu ser. O gozo feminino, em sua abertura não se confunde com a ilusão de um encontro que o gozo fálico parece, como semblante, sustentar. Os ideais da atualidade não vão na linha do não-todo.

Uma análise, assim como a resposta sobre uma mulher, não se resolve com o falo. Disso, o analista, em seu lugar, deve estar a saber pela sua própria experiência, pela sua formação.

Encerramos, para não concluir, com uma questão: por que será que no campo da Psicanálise, encontramos tantas analistas?

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