O ENSINO DE LITERATURA COMO PRÁTICA DE RECONHECIMENTO CULTURAL: UM ESTUDO SOBRE MORTE E VIDA SEVERINA E A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE DOS ALUNOS

THE TEACHING OF LITERATURE AS A PRACTICE OF CULTURAL RECOGNITION: A STUDY ON MORTE E VIDA SEVERINA

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778520726

RESUMO
O presente artigo investiga o papel do ensino de Literatura como prática de reconhecimento cultural, tendo como objeto central o poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. A pesquisa parte da compreensão de que a literatura, quando trabalhada de forma sensível, crítica e contextualizada, pode ultrapassar a simples análise estética do texto e se transformar em uma experiência formativa capaz de aproximar os estudantes de suas histórias, memórias, vivências e pertencimentos culturais. Nesse sentido, a obra cabralina é tomada como um importante caminho para refletir sobre identidade, desigualdade social, migração, resistência e cultura nordestina no espaço escolar. A partir de uma pesquisa bibliográfica fundamentada em estudos sobre letramento literário, identidade cultural e ensino de literatura, analisa-se como a leitura e a interpretação da obra podem contribuir para a formação da identidade cultural dos estudantes. O estudo considera que o contato com o poema favorece processos significativos de autorreconhecimento, especialmente quando os alunos conseguem relacionar a trajetória de Severino com aspectos sociais, culturais e humanos presentes em suas próprias realidades ou nas realidades de suas comunidades. Dessa forma, o texto literário passa a ser compreendido não apenas como conteúdo escolar, mas como uma possibilidade de escuta, reflexão e construção de sentidos. Os resultados da revisão bibliográfica indicam que o ensino de Morte e Vida Severina pode ampliar a percepção dos estudantes sobre o valor da cultura popular, da linguagem regional, das experiências nordestinas e das marcas sociais que atravessam a vida de sujeitos historicamente marginalizados. Ao ser mediada por práticas pedagógicas humanizadas e reflexivas, a leitura literária contribui para que a sala de aula se torne um espaço de diálogo, pertencimento e valorização das diferentes identidades que compõem o cotidiano escolar. Conclui-se, portanto, que o ensino de Literatura pode constituir-se como uma prática de democracia cultural e afirmação identitária, fortalecendo a formação crítica, humana e social dos alunos.
Palavras-chave: Ensino de Literatura; Identidade cultural; Morte e Vida Severina; Letramento literário; Reconhecimento cultural.

ABSTRACT
This article investigates the role of Literature teaching as a practice of cultural recognition, taking João Cabral de Melo Neto’s poem Morte e Vida Severina as its central object of study. The research is based on the understanding that literature, when approached in a sensitive, critical, and contextualized way, can go beyond the simple aesthetic analysis of the text and become a formative experience capable of bringing students closer to their histories, memories, experiences, and cultural belongings. In this sense, Cabral’s work is understood as an important path for reflecting on identity, social inequality, migration, resistance, and Northeastern Brazilian culture within the school environment. Based on bibliographic research grounded in studies on literary literacy, cultural identity, and literature teaching, this article analyzes how reading and interpreting the work can contribute to the formation of students’ cultural identity. The study considers that contact with the poem favors significant processes of self-recognition, especially when students are able to relate Severino’s journey to social, cultural, and human aspects present in their own realities or in the realities of their communities. In this way, the literary text comes to be understood not only as school content, but also as a possibility for listening, reflection, and the construction of meaning. The results of the bibliographic review indicate that teaching Morte e Vida Severina can broaden students’ perception of the value of popular culture, regional language, Northeastern Brazilian experiences, and the social marks that shape the lives of historically marginalized subjects. When mediated by humanized and reflective pedagogical practices, literary reading helps the classroom become a space for dialogue, belonging, and appreciation of the different identities that make up everyday school life. Therefore, it is concluded that Literature teaching can constitute a practice of cultural democracy and identity affirmation, strengthening students’ critical, human, and social formation.
Keywords: Literature teaching; Cultural identity; Morte e Vida Severina; Literary literacy; Cultural recognition.

1. INTRODUÇÃO

A literatura, enquanto manifestação artística e cultural, ocupa um papel singular no processo de formação humana dos sujeitos. Mais do que um conjunto de obras a serem analisadas sob uma perspectiva gramatical ou estilística, o texto literário apresenta-se como um espaço privilegiado de reflexão sobre a condição humana, as relações sociais e a construção das identidades individuais e coletivas. No contexto do ensino médio brasileiro, essa dimensão formativa da Literatura tem sido discutida com crescente urgência, especialmente diante dos desafios impostos pela diversidade cultural do país e pelas desigualdades históricas que marcam a realidade educacional.

O poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, constitui um dos mais expressivos exemplos de como a palavra literária pode articular denúncia social, beleza estética e profundo poder de identificação cultural. Publicado originalmente em 1955, o poema dramático narra a jornada do retirante Severino, que parte do sertão nordestino em direção ao litoral pernambucano, enfrentando a seca, a miséria e a morte ao longo de sua trajetória. A obra, ao mesmo tempo que denuncia as condições de vida do povo nordestino, convida o leitor a reconhecer nesses personagens a universalidade da experiência humana marcada pela vulnerabilidade, pela resistência e pela busca por dignidade.

Diante desse contexto, o presente estudo parte da seguinte questão central: de que forma o ensino do poema Morte e Vida Severina pode se configurar como uma prática de reconhecimento cultural capaz de contribuir para a formação da identidade dos alunos? Para responder a essa pergunta, a pesquisa recorre a uma revisão bibliográfica sistemática da produção científica nacional e internacional que aborda as relações entre literatura, identidade cultural e práticas pedagógicas no ensino de Literatura.

O objetivo geral desta investigação é analisar, com base na literatura especializada, como o ensino de Literatura por meio de Morte e Vida Severina pode constituir-se como uma prática pedagógica de reconhecimento cultural. Os objetivos específicos envolvem: identificar, na produção científica disponível, as concepções de cultura e literatura que orientam as práticas docentes; elencar os elementos identitários que os estudantes reconhecem na obra; e descrever os processos de autorreconhecimento que emergem no contato com o poema, conforme relatado nos estudos analisados.

A relevância desta investigação reside na contribuição que oferece tanto para o campo teórico quanto para a prática pedagógica. Em termos teóricos, articula autores como Hall (1996), Bauman (2005), Canclini (2001), Cosson (2014) e Candido (2000), promovendo um diálogo entre a teoria cultural, a pedagogia da leitura e o letramento literário. Em termos práticos, fornece subsídios para que professores possam repensar suas abordagens ao trabalhar com textos literários que possuem forte apelo identitário.

O artigo está organizado em cinco partes: introdução, fundamentação teórica, metodologia, resultados e discussão, e conclusão. O referencial teórico está estruturado em três eixos: as inter-relações entre literatura, cultura e identidade; o poema Morte e Vida Severina como instrumento pedagógico; e o letramento literário como prática formativa.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Literatura, Cultura e Identidade: Inter-relações Conceituais

A relação entre literatura, cultura e identidade tem sido amplamente discutida no campo das ciências humanas e da educação. Para compreender essa tríade conceitual, é necessário partir de uma visão dinâmica e interativa de cada um desses elementos, reconhecendo que nenhum deles existe de forma isolada ou estática no tecido social.

Stuart Hall (1996) é um dos autores mais influentes na discussão sobre identidade cultural na contemporaneidade. Para ele, a identidade não é uma essência fixa, mas um processo em constante construção, que se forma na relação com o outro e com as diferenças que ele representa. Hall afirma que a identidade é um projeto em andamento, que se constrói na relação com o outro e com as diferenças que ele representa (Hall, 1996, p. 4). Essa perspectiva impacta diretamente na forma como compreendemos o papel da literatura no processo de formação identitária dos sujeitos escolares.

De acordo com Bauman (2005), a identidade no mundo contemporâneo deve ser compreendida como um conceito fluido, constantemente reconstruído nas interações sociais e culturais. O autor argumenta que elementos como nacionalidade, cultura e vínculos comunitários compõem formas possíveis de identificação, mas que essas formas são instáveis e transitórias, especialmente na chamada modernidade líquida. Essa instabilidade, longe de ser um problema, abre possibilidades para que o texto literário funcione como âncora simbólica de pertencimento para os sujeitos que se encontram em processos de busca identitária.

Néstor García Canclini (2001) contribui para essa discussão ao definir a cultura como um fenômeno complexo que envolve práticas, símbolos, valores e formas de expressão que constituem o modo de vida de um grupo social. Para ele, a cultura não é uma entidade estática, mas um processo dinâmico de negociação e transformação, no qual diferentes elementos culturais se entrelaçam na construção de identidades coletivas e individuais. Assim, a cultura funciona como um espaço de resistência, de afirmação e de transformação das identidades, moldando e sendo moldada pelas experiências sociais dos sujeitos.

Raymond Williams (1983) reforça essa articulação ao afirmar que cultura e identidade estão intrinsecamente ligadas, uma vez que a cultura fornece os elementos simbólicos e materiais que sustentam as identidades sociais. Para Williams, a cultura não é apenas um reflexo da sociedade, mas um espaço ativo de resistência e de transformação social, onde as identidades podem ser reafirmadas ou contestadas. Sua perspectiva é especialmente relevante para a compreensão do papel que a literatura desempenha na constituição das identidades culturais de grupos historicamente marginalizados.

A literatura, nesse contexto, apresenta-se como um campo privilegiado de produção e circulação de identidades. Como afirma Altun (2023), a literatura reflete a complexidade da identidade humana por meio da representação das experiências dos indivíduos, das origens culturais e do desenvolvimento pessoal. Ao apresentar múltiplas perspectivas, a literatura funciona como espelho para os leitores, ajudando-os a refletir sobre sua trajetória e identidade, tornando o ato de ler uma experiência de autoconhecimento e de reconhecimento do outro.

Essa visão é coerente com o pensamento de Antonio Candido (2000), para quem a literatura não é apenas expressão de sentimentos e ideias, mas também fator de transformação da realidade. O autor afirma que a literatura nasce do cotidiano, mas também o transforma, criando uma espécie de diálogo contínuo entre o que é vivido e o que é imaginado. No contexto escolar, essa capacidade de a literatura dialogar com o cotidiano dos alunos é fundamental para promover processos de identificação e autorreconhecimento culturais que ultrapassam os limites do texto e se inscrevem na vida.

O reconhecimento cultural, portanto, não é um evento espontâneo, mas um processo mediado pelas práticas pedagógicas, pelas escolhas das obras literárias e pelas condições de recepção que o professor cria em sala de aula. Quando o texto literário aproxima o universo representado ao universo vivido pelos alunos, abre-se a possibilidade de que a literatura cumpra sua função mais profunda: a de revelar ao leitor a si mesmo e ao mundo que o cerca, transformando a experiência estética em experiência formativa.

2.2. O Poema Morte e Vida Severina Como Instrumento Pedagógico de Reconhecimento Cultural

Morte e Vida Severina é uma das obras mais significativas da literatura brasileira, especialmente no que se refere à capacidade de articular denúncia social, identidade regional e reflexão sobre a condição humana. Publicado em 1955 por João Cabral de Melo Neto, o poema dramático representa um marco da Geração de 45 do Modernismo Brasileiro, período caracterizado por uma retomada do rigor formal associado a um profundo comprometimento com a realidade social.

O poema narra a jornada do retirante Severino, que percorre o sertão pernambucano em busca de melhores condições de vida, seguindo o curso do Rio Capibaribe até chegar ao Recife. Ao longo de sua trajetória, Severino encontra outros personagens que representam diferentes facetas da vida nordestina, acumulando experiências de morte, sofrimento e resistência. A obra culmina em uma cena de nascimento que, paradoxalmente, reafirma a esperança e a força da vida mesmo diante das circunstâncias mais adversas. Como destaca Correia (2023), a depuração da linguagem de João Cabral, sua preferência por versos curtos e a atenção aos detalhes cotidianos conferem à obra uma potência estética inseparável de seu comprometimento social.

Do ponto de vista pedagógico, o poema apresenta um potencial formativo extraordinário. Segundo Lima (2021), a leitura de Morte e Vida Severina pode desencadear processos de autoconhecimento, pertencimento e transformação cultural no espaço escolar, transformando a obra em catalisador de práticas pedagógicas emancipadoras. A autora propõe que o texto seja trabalhado a partir de uma perspectiva dialógica, na qual o leitor-aluno é convidado a reconhecer-se além da figura do migrante sertanejo, promovendo uma abordagem que valoriza vozes diversas e experiências individuais.

Brandão (2021) analisa como o poema contribui para a construção simbólica da identidade nacional ao apresentar o nordestino como um sujeito resiliente diante da exclusão social. A pesquisadora interpreta a figura do protagonista como símbolo de uma identidade coletiva historicamente silenciada, mas que ganha centralidade por meio da linguagem poética. A obra, ao transformar a experiência de exclusão em reflexão nacional, permite uma revalorização do sujeito popular como parte essencial do imaginário brasileiro.

Santos (2020) demonstra, em estudo realizado com alunos de escolas públicas da região Norte do Brasil, que o engajamento dos estudantes aumentou significativamente quando as atividades propostas estimularam interpretações abertas, debates e produções criativas inspiradas na trajetória do personagem Severino. Ao valorizar a leitura literária como experiência estética e formativa, a autora evidencia que Morte e Vida Severina revelou-se um catalisador para a construção de sentidos pessoais e coletivos, reforçando o papel da escola como espaço de diálogo entre saberes acadêmicos e culturais diversos.

É importante destacar, também, que a obra possui uma estrutura híbrida que combina elementos poéticos, dramáticos e épicos. Lucena (2023) argumenta que o poema, embora estruturado como narrativa lírica, incorpora aspectos dramatúrgicos, como a divisão em cenas, personagens-tipo e falas em sequência, que permitem sua leitura também como peça teatral. Essa característica de performatividade contribui para que a obra seja uma ferramenta eficaz no ensino de literatura crítica, sensível às questões sociais, favorecendo dinâmicas pedagógicas como a leitura dramatizada e as atividades de encenação.

Em suma, Morte e Vida Severina apresenta-se como um instrumento pedagógico de reconhecimento cultural por sua capacidade de articular, numa mesma obra, a beleza estética, a denúncia social e a profunda ressonância identitária que provoca nos leitores, especialmente naqueles que reconhecem no universo do sertão nordestino traços de sua própria realidade ou de sua história familiar e coletiva.

2.3. O Letramento Literário e a Formação do Leitor Crítico

O letramento literário constitui um dos conceitos mais relevantes e complexos no campo dos estudos sobre leitura e educação. Longe de ser apenas uma variante do letramento convencional, ele diz respeito a um tipo específico de prática social relacionada à leitura e à interpretação de textos literários, que envolve dimensões estéticas, culturais, históricas e emocionais de difícil mensuração, mas de inegável importância formativa.

De acordo com Cosson (2014), o letramento literário deve ser compreendido como uma prática que extrapola a leitura técnica ou mecânica do texto, valorizando a construção de sentidos em diálogo com a realidade sociocultural do leitor. Para o autor, o letramento literário pressupõe um sujeito leitor ativo, capaz de estabelecer conexões entre o texto, seus próprios saberes de vida e o contexto histórico em que a obra foi produzida. Essa perspectiva se opõe a uma abordagem escolar que reduz o texto literário a um pretexto para o ensino de gramática ou de conteúdos históricos da literatura.

Para Soares (2002), o letramento literário está relacionado com a capacidade de ler e escrever de forma culturalmente situada, integrando a experiência estética ao processo de formação dos sujeitos. A autora destaca que essa forma de letramento possibilita ao leitor não apenas entender o texto, mas vivenciá-lo emocionalmente e refletir sobre seu significado social e cultural. Essa perspectiva reforça a dimensão cultural e emocional do letramento literário como uma prática formadora de cidadãos críticos e sensíveis ao mundo que os cerca.

No contexto escolar contemporâneo, o letramento literário enfrenta desafios significativos relacionados à desmotivação dos alunos pela leitura literária, ao impacto do ambiente digital sobre as práticas de leitura e à fragmentação com que a Literatura muitas vezes é abordada nas escolas. Favero e Reginatto (2025) apontam que nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio se observa uma diminuição notável no interesse dos alunos pela leitura literária, o que tem gerado preocupações entre educadores e pesquisadores da área. Essa desmotivação é multifatorial e compreender suas causas é fundamental para a construção de estratégias que favoreçam a valorização da literatura na escola.

Para superar esses desafios, autores como Cosson (2015) e Antunes (2002) defendem que o ensino de literatura deve ir além da mera transmissão de conteúdo, oferecendo aos estudantes experiências de leitura significativas que os ajudem a construir sua própria subjetividade e a desenvolver uma compreensão crítica do mundo. Nesse sentido, o letramento literário constitui uma ferramenta indispensável para a formação cidadã e para a mediação entre escola, cultura e identidade.

Garcia e Pereira (2024) reforçam essa perspectiva ao destacar que a Base Nacional Comum Curricular propõe que os currículos escolares incentivem a participação ativa dos alunos no contato com os textos, compreendendo a leitura não apenas como decodificação, mas como uma ferramenta para a reflexão e a criação de novos significados. Nesse contexto, a leitura literária ganha relevância, pois contribui para o desenvolvimento de habilidades como a interpretação, o pensamento crítico e a apreciação estética, essenciais para a formação do leitor crítico e atuante.

Em síntese, o letramento literário apresenta-se como um processo formativo que, ao desenvolver a capacidade de leitura crítica e sensível às dimensões estéticas, culturais e emocionais dos textos, prepara o aluno para exercer uma cidadania ativa, reflexiva e comprometida com a transformação social. No caso específico de Morte e Vida Severina, o letramento literário pode ser o caminho por meio do qual o aluno descobre na literatura um espelho de sua própria condição social e cultural.

3. METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, fundamentada no levantamento, na seleção e na análise crítica da produção científica nacional e internacional sobre os temas letramento literário, identidade cultural, ensino de literatura e as relações pedagógicas com o poema Morte e Vida Severina. Conforme Gil (2008), a pesquisa bibliográfica é elaborada com base em material já publicado, sendo indicada para investigações que visam mapear o estado do conhecimento sobre determinado objeto de estudo e identificar lacunas, tendências e contribuições relevantes na área.

A seleção das fontes foi orientada por critérios de pertinência temática, qualidade científica e atualidade, priorizando produções publicadas nas últimas duas décadas, com ênfase especial para os estudos mais recentes, datados a partir de 2015. Foram consultadas teses de doutorado, dissertações de mestrado, artigos publicados em periódicos científicos da área de Letras e Educação, livros de referência teórica e documentos oficiais, como a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018) e as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio.

O levantamento bibliográfico foi realizado por meio de pesquisa em bases de dados científicas nacionais e internacionais, incluindo a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), a plataforma SciELO, o banco de periódicos da CAPES e o Google Acadêmico. Foram utilizados como descritores de busca os termos letramento literário, ensino de literatura, identidade cultural, Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto e reconhecimento cultural, de forma isolada e em combinação, com operadores booleanos AND e OR.

A análise do material selecionado seguiu os princípios da análise de conteúdo, conforme Bardin (1977), que orienta a organização das informações em categorias temáticas a partir de uma leitura sistemática e criteriosa dos textos. As categorias de análise foram definidas em função dos objetivos da investigação e dos conceitos estruturantes do referencial teórico adotado, a saber: literatura e reconhecimento cultural; Morte e Vida Severina e identidade nordestina; práticas pedagógicas e letramento literário; construção identitária via literatura; e formação do leitor crítico.

A pesquisa bibliográfica, enquanto procedimento metodológico, possibilita uma visão ampla e aprofundada sobre o tema investigado, permitindo ao pesquisador dialogar com as contribuições mais significativas da área sem as limitações de escopo impostas por uma pesquisa de campo. Conforme Marconi e Lakatos (2001), o levantamento bibliográfico permite ao pesquisador o reforço paralelo na análise de suas investigações, ao colocá-lo em contato direto com o que foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto. Essa abordagem é, portanto, adequada para os objetivos da presente investigação.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise bibliográfica realizada permitiu identificar cinco categorias temáticas centrais relacionadas ao ensino de Morte e Vida Severina como prática de reconhecimento cultural: literatura e reconhecimento cultural; a obra e a identidade nordestina; as práticas pedagógicas e o letramento literário; a construção identitária via literatura; e a formação do leitor crítico. Cada uma dessas categorias é discutida a seguir, à luz dos estudos selecionados na revisão.

No que se refere à relação entre literatura e reconhecimento cultural, a produção científica analisada converge para a compreensão de que a obra literária funciona como espelho identitário, promovendo o autorreconhecimento cultural quando o leitor encontra em suas páginas traços de sua própria realidade social e histórica. Autores como Hall (1996) e Candido (2000) fundamentam essa perspectiva ao demonstrar que a literatura é, ao mesmo tempo, reflexo e agente de transformação das identidades culturais dos sujeitos que a ela se expõem.

No que diz respeito à relação entre o poema e a identidade nordestina, os estudos de Brandão (2021), Santos (2020) e Lima (2021) convergem para a compreensão de que Morte e Vida Severina é identificado na literatura especializada como catalisador de processos de pertencimento regional e nacional. Os estudos apontam forte identificação de leitores com a trajetória de Severino, especialmente entre aqueles cujas histórias familiares dialogam com a experiência da migração e da pobreza no semiárido nordestino. Além disso, a dimensão universal do poema permite que leitores de outras regiões também se reconheçam na busca por dignidade e na resistência diante das adversidades.

Em relação às práticas pedagógicas e ao letramento literário, os estudos analisados evidenciam que abordagens dialógicas e contextualizadas favorecem maior engajamento crítico e identitário dos estudantes. Garcia (2019) e Lima (2021) demonstram que a leitura coletiva e performática do poema, associada a atividades de debate e produção textual, cria condições favoráveis para o desenvolvimento do letramento literário e para o fortalecimento da identidade cultural dos alunos. Por outro lado, práticas pedagógicas de caráter mais tecnicista tendem a limitar o potencial formativo da obra, reduzindo-a a um objeto de análise formal.

A seguir, apresenta-se a síntese das categorias temáticas e dos principais achados da revisão bibliográfica realizada:

Tabela 1 – Síntese das categorias temáticas e principais achados da revisão bibliográfica

Categoria Temática

Principais Achados da Literatura

Autores de Referência

Literatura e reconhecimento cultural

A obra literária funciona como espelho identitário; o texto literário promove o autorreconhecimento cultural quando o leitor encontra em suas páginas traços de sua própria realidade social e histórica

Hall (1996); Candido (2000); Altun (2023)

Morte e Vida Severina e identidade nordestina

O poema é identificado na literatura como catalisador de processos de pertencimento regional e nacional; estudos apontam forte identificação de leitores com a trajetória de Severino

Brandão (2021); Santos (2020); Lima (2021)

Práticas pedagógicas e letramento literário

Abordagens dialógicas e contextualizadas favorecem maior engajamento crítico e identitário; práticas tecnicistas limitam o potencial formativo da obra

Cosson (2014); Garcia e Pereira (2024)

Construção identitária via literatura

O contato com obras de apelo identitário contribui para o fortalecimento da autoestima cultural e do sentido de pertencimento, especialmente em grupos historicamente marginalizados

Bauman (2005); Canclini (2001)

Formação do leitor crítico

O letramento literário, quando desenvolvido a partir de textos socialmente comprometidos, contribui para a formação de sujeitos capazes de exercer a cidadania de forma reflexiva e transformadora

Cosson (2015); Soares (2002)

Fonte: Elaborado pelo autor.

A análise da categoria construção identitária via literatura revela que o contato com obras de forte apelo identitário, como Morte e Vida Severina, contribui para o fortalecimento da autoestima cultural e do sentido de pertencimento dos estudantes, especialmente em grupos historicamente marginalizados. Bauman (2005) e Canclini (2001) fundamentam essa perspectiva ao demonstrar que a identidade é um processo dinâmico, constantemente reconfigurado nas interações culturais, e que a literatura pode oferecer pontos de ancoragem simbólica essenciais para a constituição de uma identidade mais consciente e valorizada.

No que se refere à formação do leitor crítico, os estudos revisados apontam que o letramento literário desenvolvido a partir de textos socialmente comprometidos, como o poema de João Cabral de Melo Neto, contribui para a formação de sujeitos capazes de exercer a cidadania de forma reflexiva e transformadora. Cosson (2015) e Soares (2002) reforçam que essa dimensão cidadã do letramento literário é inseparável de sua dimensão estética, constituindo uma das marcas mais distintivas da educação literária comprometida com a formação humana integral.

Os resultados da revisão bibliográfica confirmam que o ensino de Morte e Vida Severina, quando orientado por uma concepção de literatura como prática social e cultural, pode constituir-se como uma experiência pedagógica de reconhecimento cultural de grande potencial formativo. A obra, ao articular estética e compromisso social, oferece ao professor um instrumento privilegiado para o desenvolvimento do letramento literário e para a promoção da identidade cultural dos estudantes, em consonância com os princípios democráticos e inclusivos que devem orientar a educação brasileira.

5. CONCLUSÃO

O presente estudo investigou, por meio de uma revisão bibliográfica sistemática, de que forma o ensino do poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, pode se configurar como uma prática de reconhecimento cultural capaz de contribuir para a formação da identidade dos alunos. Os resultados obtidos confirmam a hipótese central da pesquisa: o contato com a obra, quando mediado por práticas pedagógicas dialógicas e humanizadas, promove processos significativos de autorreconhecimento cultural, especialmente entre alunos cujas histórias de vida dialogam com o universo nordestino retratado no poema.

A revisão bibliográfica demonstrou que as concepções de cultura e literatura adotadas pelos professores influenciam diretamente a forma como os alunos se relacionam com o texto e constroem sentidos a partir dele. Professores que adotam uma abordagem mais aberta e contextualizada ao trabalhar com a obra favorecem processos mais ricos de identificação e reflexão crítica, ao passo que abordagens mais tecnicistas tendem a limitar o potencial formativo do texto, reduzindo-o a um objeto de análise estilística e histórica.

Os resultados evidenciam, ainda, que o letramento literário desenvolvido a partir de Morte e Vida Severina vai além da fruição estética, constituindo-se como uma prática de formação cidadã comprometida com a valorização da diversidade cultural brasileira. A obra, ao articular com precisão lírica as experiências de exclusão, resistência e busca por dignidade do povo nordestino, oferece ao leitor um espelho privilegiado para a reflexão sobre sua própria condição social e cultural.

Conclui-se, portanto, que o ensino de Literatura, quando orientado pelo conceito de letramento literário e pela valorização da identidade cultural dos sujeitos escolares, pode constituir-se como um espaço democrático de formação humana e de afirmação das diversidades que compõem o tecido social brasileiro. Morte e Vida Severina, nesse contexto, não é apenas um poema a ser estudado: é um convite ao reconhecimento de si mesmo e do outro, à escuta das vozes que a história tentou silenciar e à construção de um projeto de vida marcado pela dignidade e pela resistência.

Espera-se que esta investigação contribua para o aprimoramento das práticas pedagógicas no ensino de Literatura, oferecendo subsídios teóricos para que professores possam trabalhar com textos literários de forte apelo identitário de forma mais consciente e transformadora. Novos estudos, especialmente pesquisas de campo, são necessários para aprofundar a compreensão dos processos de autorreconhecimento cultural no ensino de Literatura, ampliando o alcance das conclusões aqui apresentadas.

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1 Doutorando em Ciências da Educação. Universidade Autônoma de Assunção E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail